A família Addams

Familia Addams

 

§ 121

A família Addams

 

Não mencionei ontem os estudos sobre o simbolismo astrológico, porque eles seguem mesmo uma outra linha de aprendizado que não está ligada na investigação dos Doze Temas, etc. Vale a pena, no entanto, destacar o quanto esse campo é valioso para os estudos gerais de filosofia.

Depois de séculos de avanços abstracionistas, de entrincheiramento nas várias especializações científicas, de perda do senso histórico das origens da cultura, etc., ficou relativamente fácil para as nossas gerações contemporâneas perderem a noção do valor real do simbolismo, e especialmente do simbolismo tradicional.

É mesmo, no fundo, um problema de educação. Se você quer se referir às coisas mutáveis usando imagens de outras coisas que participam do mesmo princípio de mutabilidade, inevitavelmente os símbolos parecerão arbitrários. Isto é inevitável, e está aí todo o desconstrucionismo e todas as teorias modernas de linguagem que não me deixam mentir. Ora, os símbolos só não são mesmo frutos da mais absoluta arbitrariedade porque eles podem ser usados para se referir ao imutável, ao permanente no Ser, e é aí que eles se tornam mais plenos e mais verdadeiros, porque eles devem revelar de si o que também é imutável e independente da temporalidade. Isto quer dizer que a confusão que se faz a respeito de linguagem e de simbolismo, nos nossos tempos, advém de um erro mais primário na educação básica, pois a cosmovisão ensinada já retirou a noção de permanência, de imutabilidade, de transcendência e, sem esta referência central, toda a linguagem e toda a simbólica perde a sua verdade mais profunda, inevitavelmente.

Não sei se está claro isto. Espero que os nossos convidados especiais de hoje, os membros da ilustre família Addams, entendam o que eu quero dizer.

Nesta nossa época, nós somos educados numa atmosfera cientificista que dá tudo por provisório e duvidoso, mais ou menos como é natural que ocorra nos campos da ciência. Acontece que alguém (ou várias pessoas, como o senhor René Descartes) teve a brilhante idéia de espalhar essa criteriologia para todos os domínios da vida humana, porque isso supostamente nos tornaria mais esclarecidos diante do obscurantismo antigo. Esse iluminismo, como todo e cada episódio da nossa história, serviu para coisas boas e ruins. É como aquela frase do Machado, “cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes“. Vocês conheciam essa frase? Imagino que devem ter adorado, dado o seu gosto, digamos, mais fúnebre e mórbido.

O fato é que a história seguiu e se o Iluminismo trouxe coisas boas aqui e ali, na área da cultura causou também a sua devastação. Um dos efeitos de você tornar tudo duvidoso e incompleto, é a falsificação da experiência humana real. Veja só, você convive com o conhecimento certo de várias coisas na sua vida, e tem que dar por verdadeiras muitas outras coisas, para conseguir tomar suas decisões e agir no mundo real. E isso sempre foi assim. Antes, se, no interesse da verdade superior, você aceitava a suspensão de opiniões no curso de uma investigação filosófica ou científica, isso não lhe causava o transtorno de contaminar o resto da sua experiência. E, principalmente, você não saía por aí invalidando a experiência dos outros, contestando as verdades menos científicas dos outros. Porque você entendia que o que estava fazendo era algo especial, separado. Mas hoje nós vivemos essa confusão. Não é só Descartes. Kant coloca um tampão na nossa cabeça, e decide simplesmente que a metafísica está proibida, apenas porque ele não conseguiu alcançar uma visão correta o suficiente do assunto. E depois vem a decadência generalizada. Nietzsche faz bullying filosófico: você é um trouxa de acreditar em qualquer um que não seja o próprio Nietzsche. Se você pensar, é como um barbarismo filosófico, é a defesa da mais absoluta arbitrariedade e tirania. Como foi possível os filósofos chegaram a esse ponto em tão poucos séculos? Quantos séculos se passaram desde que começou este negócio? Três, quatro? E tudo isso se processou numa velocidade espantosa.

A questão aqui não é ser saudosista ou nostálgico de nada. Nós só temos que entender que a função mais nobre e perfeita dos símbolos, que é o apontamento das realidades imutáveis, permanentes, eternas, etc., fica perdida quando o ser humano é proibido de olhar para cima e para fora da sua fortaleza iluminista.

Quando você estuda um negócio como o simbolismo astrológico tradicional, você recupera um pouco esse senso de realidade. É como uma brisa de ar fresco. Porque novamente as coisas parecem significar alguma coisa de verdade, com consistência real. E você aprende a olhar a realidade com um olhar de aprendizado, pois cada coisa e fenômeno ocupa o seu papel não acidentalmente, mas de forma essencial, sistêmica, convergente, e teleológica.

É uma diferença muito grande. Ver o mundo como um caos que você ordena arbitrariamente de acordo com uma racionalidade que externa ao próprio mundo real, que é apenas humana, é um modo artificioso que culmina na decadência da cultura, pois implica na separação entre o homem e o mundo real. Por outro lado, ver o mundo como um livro a ser lido, como o depósito natural da sabedoria, na qual o ser humano aprende alguma coisa, é fazer o contrário, é integrar a racionalidade humana ao seu ambiente, é harmonizar a razão humana de acordo com a razão suprema que ordena todas as coisas. Eis a saída do cartesianismo, do kantismo, e de tudo isso: enxergar o mundo como cosmos, ou seja, como uma ordem da qual nós fazemos parte.

GomezÉ como se o modo moderno de abordar a realidade seja o de estranhamento e não de familiaridade. Porque nos sentimos separados e achamos que nós é que ordenamos as coisas com a nossa mentalidade. Isto quer dizer que o mundo é caos e o homem é que ordena as coisas. Mas no simbolismo não há também essa função humana de nomear as coisas, que é uma forma de ordenamento? O mundo estava aí sem o homem, desconhecido, e com o homem o mundo passou a ser notado. Essa coisa moderna não sai disso? Não é uma herança que vem disso?

Pode até vir disso, mas se tornou outra coisa. O homem tem a consciência da realidade e isso pode ser, e deve ser, uma novidade decisiva na história do universo. Mas como é que ele se relaciona com o mundo? Ele pode aprender sobre essa ordem externa que é prévia a sua própria existência e, logicamente, prévia também à sua consciência, ou pode decidir que antes dele próprio esse mundo não fazia sentido nenhum, e que ele é que gerou com a sua consciência um ordenamento real. Só que isso não faz sentido nenhum, porque, antes de mais nada, de onde veio a própria possibilidade da consciência humana? Não veio deste universo que está aí? Então essa possibilidade já estava aí neste mundo, e foi deste mundo que surgiu o homem, e não o contrário. E quando digo “este mundo”, quero dizer o mundo como ele é, com toda a sua inteligibilidade natural. O ser humano aprendeu a nomear as coisas, sim, mas ele aprendeu isso com a própria realidade. Todas as estruturas de todas as linguagens são imitações da estrutura do mundo real. Quando você sofistica muito essa linguagem, pode achar que virou algo tão diferente do modelo original, que parece que o mundo real é uma zona caótica, e que nós é que ordenamos as coisas. Este é um engano tolo, no fundo. Porque a linguagem humana só parece tão evoluída e bem ordenada porque fomos nós mesmos que a fizemos. Se a nossa linguagem não nos parecesse familiar, ela pareceria familiar para quem?

Não tem problema essa evolução da linguagem, desde que ela não te faça se distanciar do modelo original, ou seja, da realidade que contém a linguagem natural do cosmos, que é o próprio simbolismo. Daí dá para entender quando religiosos reclamam da filosofia, por exemplo. De fato, para fazer esta porcaria, que é um feitiço de linguagem, seria melhor não fazer filosofia nenhuma. E se essa filosofia moderna saiu de algum modo de dentro da filosofia medieval, das sutilezas e escrupulosidades lógicas do escolasticismo, então nós temos que reconhecer isso e conceder neste ponto que os religiosos críticos da filosofia tiveram razão. Realmente esse negócio foi longe demais, e o pior é que a recuperação histórica desse estrago custará –e aliás já custou até aqui– um grande sofrimento.

Talvez tenha faltado no passado, na transição da cultura medieval para a cultura moderna, mais transmissão da sabedoria do simbolismo tradicional, por exemplo. Porque esse simbolismo tem esse efeito curativo quase imediato: ele te obriga a reconhecer que a realidade nos diz alguma coisa, porque a cadeia de elos de significados, de convergências e de ressonâncias, é tão grande e completo, que você é obrigado a aceitar que não é uma coincidência. É genial demais para ser coincidência!

Mas o que quero dizer aqui é deste benefício para a filosofia. Ora, a técnica filosófica é dialética, e a dialética exige não a mera contraposição de discursos quaisquer, mas o confronto de visões diferentes da realidade, e isto requer que as palavras signifiquem algo de verdade. Quem faz filosofia quer, acima de tudo, falar sério, e isso exige mais consistência e firmeza da linguagem empregada. Tanto é verdade isso que quando alguém se mete a filosofar sem cumprir esse requisito, o ridículo da cena fica evidente muito rapidamente. Com a filosofia é necessário carregar as palavras de realidades, é preciso mostrar ao outro –ou a si mesmo– que existe uma experiência real que quer nos mostrar a sua evidência. A destreza mental necessária para praticar dialética não é aquela necessária para a retórica, ou seja, o mero cálculo de validação lógica e a estimativa dos efeitos psicológicos de convencimento. Não. A dialética exige, de certo modo, que a realidade invada o discurso humano, porque você não quer colocar uma versão contra outra versão, mas uma evidência contra outra evidência. Se você não possuir alguma familiaridade com a forma antiga de falar do mundo, a forma simbólica, a sua capacidade de praticar a dialética e, consequentemente, a filosofia, fica muito comprometida.

E aí o aprendizado do simbolismo ajuda a recuperar esse senso de linguagem natural, que remete à lógica do mundo e não dos raciocínios, e à persuasão das evidências dos fatos e não do mero convencimento. Não sei se está ficando claro isto.

Por exemplo, no simbolismo você aprende que o fogo é mais diferente da água do que do ar ou da terra. Por quê? Porque ele é quente como o ar e é seco como a terra, mas a água por outro lado é fria e úmida. Você pode ver isso e dizer, “ok, isso é mera lógica, é uma tabelinha”. Mas não! Não é uma tabelinha! É a realidade! Eis a questão. Se você não estuda o simbolismo como uma versão qualquer dos fatos, como uma ficção, como se fosse o Harry Potter, mas estuda isso como uma sabedoria que emana da realidade, daí você vai poder ver no mundo real (e não na sua imaginação) como tudo o que tem algo de fogo geralmente não tem nada, ou tem muito pouco, de água, e por aí vai. O mundo real está aí escancarado, mostrando como essas realidades se articulam. E então você usa uma palavra simples como “fogo” ou “água”, e você percebe que tem um monte de coisas nisso, que em cada canto do universo há uma correspondência ou uma relação proporcional entre esses elementos, e que o fato de você perceber isso lhe torna mais próximo dessas realidades, pois as tornam mais familiares a você. Depois que você compreende isso, a diferença entre isto e o uso corrente, comum, das palavras “fogo” e “água”, é absolutamente monstruosa. É como se você fosse um ser humano, e os outros ao seu redor fossem bichinhos. Eles brincam no seu mundinho, e você está no mundo real.

GomezIsso me lembra magia. Foi engraçado você falar de Harry Potter, porque o que parece é que os feiticeiros lidam justamente com esse mundo real que os modernos esqueceram. Quer dizer, o ser humano tem um poder especial que desconhece, que é esse modo mágico, sobrenatural, de falar das coisas e de compreender as coisas nessa profundidade. Mas daí tudo fica sob suspeição também, porque ninguém usa magia na vida real. Quero dizer, parece que o modo mais ordinário, moderno, ou mais científico, de estudar as coisas mudou a nossa relação com o mundo. E hoje tudo virou tecnologia, todo mundo diz que a ciência tem razão por causa da tecnologia, e então esse modo simbólico de tratar as coisas fica de lado. Parece que o modo moderno ganhou a briga, e quem se recusa a entrar nisso é que está num mundinho. O mundo real ficou menos mágico, digamos assim. Faz sentido isso?

Faz sentido, e existe essa briga dentro da própria filosofia.

Se você pega a linha cientificista, positivista, os caras são bem duros com isso. São áridos, são, na cabeça deles mesmos, os exterminadores do simbolismo. Quer dizer, esse negócio de significados profundos é uma coisa do ramo poético, artístico, etc. E se nós quisermos fazer ciência verdadeira, nós precisamos daquele modo meio desalmado das matemáticas, sem gosto, sem sabor, sem vida nenhuma. E só aí é que parece haver sabedoria filosófica.

Eu pergunto: esta linha está frutificando? Acho que não. Aliás, pelo contrário, parece que está dando errado. Mas, independente disto, esta linha faz sentido, no fim das contas? Não faz, porque isso são recortes. Você está esquartejando, está retalhando a experiência humana em pedaços, porque assim acha que vai entender as coisas melhor. É um modo bem cartesiano, aliás. Mas o modo orgânico, aristotélico, parece ser bem mais avançado. Se este ser humano tem tudo isso dentro dele, quer dizer, além do aspecto abstrativo, matemático, lógico, etc., ele tem também o seu sentido simbólico, espiritual, sobrenatural, então não faz sentido estudar tudo isto em funcionamento ao mesmo tempo como funções organicamente sobrepostas no mesmo ser? É lógico que faz. E mais ainda: faz sentido hierarquizar essas funções. Aristóteles sabia disso, e muitos, muitos outros sábios. É a coisa mais prudente a se fazer, se não for aliás a mais óbvia. Nós não somos a soma de todas as nossas partes, nós somos um algo a mais, somos uma unidade.

Mas daí a religião entra em decadência, e isso causa problemas. É sempre assim. Basta descuidar da religião, ou seja, basta você ter algumas gerações sem bons transmissores da tradição, sem santos, etc., que todo mundo fica louco e começa a inventar sandices. Alguém vai lá e pega a lógica de um filósofo qualquer, veja bem, de um filósofo de verdade, que tem todas as dimensões simbólicas, espirituais, etc., e daí pegam essa lógica e separam de todo o resto, e resolvem cuidar de todos os problemas usando apenas aquele instrumento. Quem mandou eles fazerem isso? Ninguém mandou. Mas eles foram lá e fizeram, e não tinha alguém para fazer os caras pararem. Com a decadência da religião, essas coisas entram na moda. Tanto quanto, inversamente, entram na moda também as sabedorias esotéricas desligadas de todo rigor lógico e científico que há nas tradições, e daí sai o negócio New Age, etc.

Que culpa eu tenho se um cara como Descartes, por exemplo, resolveu herdar uma lógica escolástica –ou pelo menos um pedaço dela–, e usar aquilo para inventar uma filosofia da própria cabeça, sem todo o resto que tinha junto na tradição filosófica? Não tenho culpa nenhuma. E nenhum de vocês tem culpa nenhuma. Mas agora “já era”, entendem? Já foi. O cara fez isso, e outros fizeram, e o mundo modernos e tornou muito confuso e descompensado. Então nós não temos culpa, mas nós nascemos num mundo que tem essa característica, que fique muito claro: há essa esquizofrenia dos espíritos modernos, que abandonaram uma parte da tradição e resolveram evoluir uma outra parte isoladamente.

Todos os discursos anti-poéticos, ou de um suposto “realismo científico”, são apenas justificações de uma opção deliberada tomada séculos atrás e reforçada nos séculos seguintes até os dias de hoje. A questão da tecnologia, por exemplo, não faz sentido nenhum como paradoxo, do ponto de vista filosófico. O que você chama de tecnologia alguém poderia chamar de magia, tanto quanto o que você chamaria de magia um outro, que conhece as coisas por outros aspectos, poderia chamar de tecnologia.

Então o mundo não ficou “mais tecnológico”, ou “menos mágico”. Nós é que decidimos prestar atenção mais em algumas coisas e menos em outras, só isso.

Você sempre tem que estar alerta para reconhecer o que é um discurso de auto-justificação de um agente. O sujeito faz parte de um negócio lá, e tudo o que ele diz é para reforçar essa decisão. E você está querendo fazer filosofia, ou seja, você está querendo saber como as coisas são. Isso nunca vai casar, porque os interesses são diversos. E daí, como diria Aristóteles, é melhor você não querer avançar nessa conversa. A dialética exige que as pessoas estejam prontas a questionar qualquer coisa. Se a premissa de discussão de alguém é justamente a defesa da narrativa que justifica a sua ação e a sua posição no mundo, então esqueça.

Enfim, o que eu queria dizer é que o simbolismo nos deixa mais inteligentes, nos força a isso, porque você é obrigado a consultar o verdadeiro pai dos burros, ou seja, o mundo real. O dicionário do filósofo é o mundo real, entendem? E o simbolismo tradicional, para fazer algum sentido, te obriga a conferir a realidade e a meditar sobre a correspondência que existe entre essas coisas.

Peguem o simbolismo de Saturno, por exemplo. Um mesmo símbolo significa: tempo, limitação, velhice, prudência, sabedoria, medo, preparação, cobrança, rigor, lei, norma, etc. Não é que o símbolo de Saturno tenha sido inventado para significar isso tudo ao mesmo tempo, porque alguém resolveu um dia colar essas coisas, porque, sei lá, achou bacana. Não! Existe algo de comum entre todas essas realidades, e o que há de comum entre tudo isso é uma realidade que Saturno simboliza! É uma realidade espiritual, imaterial, e que não obstante a sua invisibilidade e sutileza, está tão presente e é tão evidente, que você pega essas experiências e realidades tão diferentes e consegue identificar nelas algo em comum, que é exatamente essa realidade imaterial simbolizada por Saturno.

Então eu acho muito gozado isso, os caras falam de eletromagnetismo, de átomos, de matéria escura, etc., e tudo isso faz muito sentido dentro dos rigores científicos que nós, de fora do clube, não conseguimos conhecer, mas que temos que aceitar. Ok, é assim que funciona. Agora, se eu digo que existe, por exemplo, esse aspecto saturnino da experiência, que relaciona diversas realidades que conhecemos e por trás das quais evidenciamos claramente aquele traço, eu sou obscurantista? Vocês entendem como a nossa cultura é esquizofrênica? Eu quero falar de átomos, e quero falar também de Saturno, mas não posso, porque tem dois clubinhos miseráveis, de cientistas e de esotéricos, que resolveram monopolizar suas atividades e proibir todas as comunicações com o mundo exterior. Só que, raios!, eu vivo no mundo exterior. Eu não vivo no mundo da ciência, ou no mundo esotérico, eu vivo no mundo real, onde tudo isso e muito mais coisas existem. Calculem, por aí, qual é a dificuldade de se buscar a prática filosófica nos dias de hoje.

Essa é a dificuldade: a nossa sociedade é uma das mais esquizofrênicas que já existiu, é um ambiente onde tudo está separado, distante e incomunicável, e a filosofia é a atividade mais anti-esquizofrênica que existe, é a que mais apela ao senso de unidade e de integração que existe. Somos jardineiros no Saara, entendem?

[INTERVALO]

Eu quero dizer a quem deseja aprender sobre o simbolismo, que faça o mesmo curso que eu fiz, entre outros muito bons, no ICLS — Instituto Cultural Lux et Sapientia, tem o link no meu site. Claramente eu vejo esse benefício do estudo do simbolismo, mesmo que você queria estudar mais a fundo outras coisas. Meu negócio é a filosofia, as pesquisas que expliquei aqui ontem, mas o benefício do estudo do simbolismo é inegável e deve ser sempre lembrado.

Pois bem, vou fazer esse trabalho que mencionei ontem, de cotejar os verbetes dos Dicionários de Filosofia com os Doze Temas, só para ver o que sai. Eu quis fazer isso dois, três anos atrás. Por várias razões parei, e agora será um bom momento de recuperar isso, até para aquecer o assunto. Vou pegar esse resto de dezembro para esse trabalho, de forma que em 2016 teremos logo Platão em janeiro, seguindo a lista dos dezessete filósofos.

Os Dicionários são os de José Ferrater Mora e de Nicola Abbagnano, ambos publicados pela Martins Fontes. Vamos ver se amanhã eu consigo entrar no verbete “Tempo”, que corresponde ao Tema I.

Ainda sobre o escopo geral dos trabalhos anteriores, havia um Curso de Introdução à Filosofia, que era separado em duas partes, uma do entendimento da história do Sócrates e da etimologia de origem pitagórica, e outra na direção da questão da formação intelectual, nos moldes de alguns textos que publiquei este ano no meu site. Este projeto não foi adiante. Como quero ganhar mais consistência com a nossa lista de filósofos, e retomar os Doze Temas, vou deixar essa parte introdutória para o que talvez seja um Curso novo no futuro.

Porém, é necessário fazer um lembrete sobre o assunto, e este lembrete vai servir como registro para marcar bem a característica essencial da filosofia.

Essa característica é a sua moralidade, ou ainda, a sua essência especialmente moral. Outro dia eu conversava com um amigo meu sobre a honestidade intelectual, e ele disse, “tenho que me atentar para isso”, e então eu disse que não! Não é uma coisa para se lembrar, para se atentar, é uma coisa para ser. Você não tem que se lembrar de ser honesto, você é honesto. Ou não é.

Esse salto de uma realidade para outra, ou de um estado de entorpecimento para um estado mais desperto, era isto o que animava os alunos de Sócrates. Cada qual ao seu modo se sentia especialmente eletrizado por aquela companhia, porque é isto, não uma atitude ou uma disciplina, mas um modo virtuoso de ser que você decide escolher e deixa se guiar, como um norte moral permanente.

Este ponto é mais importante do que parece, porque é realmente prioritário. A filosofia nasceu assim e não foi por um acaso. Se depois o platonismo e o aristotelismo expandiram formidavelmente o projeto filosófico para além da sua origem socrática, eles não fizeram isso contra o espírito de sinceridade originário, mas sob a sua mais forte e constante influência.

Digo isto porque hoje em dia fica muito claro que as pessoas encaram a sabedoria como um conteúdo, enquanto os antigos mais prudentemente enxergavam na sabedoria uma entidade superior, a qual reverenciavam e amavam. Me diga, como é possível “amar um conteúdo”? A própria noção mais elementar de filosofia obriga o reconhecimento de uma relação especial entre o filósofo e a sabedoria, que por ser uma relação de amor exige uma conduta de acordo. E essa conduta começa e termina com a honestidade intelectual, com a sinceridade.

MorticiaPodemos dizer que essa sinceridade significa “viver na verdade”? Além do cunho religioso, deixando isso de lado um pouco, essa maneira de encarar o assunto não obriga a enxergar os outros, que não buscam “viver na verdade” como iludidos?

Sim, mas isso tem um impacto mais tênue do que parece. Colocando as coisas dessa forma, parece que a filosofia seria uma espécie de Revelação que tiraria as pessoas das trevas, etc. Isso até poderia ser assim, mas apenas se considerarmos a realização completa do ideal da filosofia, coisa que jamais ocorreu e jamais ocorrerá, ou seja, a transformação do filósofo em um sábio no sentido pleno. Qualquer um percebe, pensando no assunto, que o sábio pleno só poderia o ser através de uma Onisciência que só é compatível, por sua vez, com a identidade suprema de Deus. O filósofo não vai se tornar Deus, ninguém vai se tornar Deus. Deus só tem um. O que nós fazemos, mesmo através da filosofia, é amar Deus. Isso equivale ao “viver na verdade”. Agora, os outros estão iludidos? Podem até estar, mas eles vivem no mundo real no fim das contas, então sempre se reportam de alguma maneira à verdade, por menos que queiram. E daí entram diversos processos pedagógicos, que envolvem muita paciência e perseverança, para lidar com a ignorância alheia. Mas, se você quer segurar uma concepção mais firme do assunto, sim, intelectualmente falando só existe um mal, e este é a ignorância. Por isto que se você ama a sabedoria, mesmo que não possa e não deva obrigar os outros a fazer a mesma coisa, é sempre mais nobre a intenção de trazer as pessoas para essa mesma disposição, ao invés de ficar quieto. Dizendo em outros termos, não é que você seja melhor por ser menos iludido, mas você está um pouco mais avançado, e os outros estão mais atrasados.

Morticia — Mas não tem esse aspecto moral, que você acabou de falar? Então se eu “vivo na verdade”, eu tenho que trazer as pessoas para isso de qualquer forma. E eles vivem no erro, se viverem fora disso. Pergunto isto porque me parece que essas premissas filosóficas tem algo a ver com os absolutismos ideológicos dos nossos tempos, um querendo arrancar a cabeça do outro em nome do bem. Independente da religião, que eu acho que também acaba fazendo isso, as ideologias cometem esse erro, que eu acho um erro, e que vem dessa concepção da filosofia.

Mas quem disse que o fato de você viver na verdade justifica o ato de arrancar cabeças por aí fora? De onde se tira essa conclusão?

O que existe aí é um exagero do ceticismo. Isto é comum. Todo cético acredita que uma verdade, qualquer verdade que seja, é um radicalismo, e que leva as pessoas para a fogueira, para a guilhotina, etc. E isto é muito injusto com a história das coisas.

Em primeiro lugar, analisando a idéia de verdade, você vê que é uma coisa radical mesmo, se é que se poderia exigir a uma verdade ser verdadeira e não ser tão verdadeira assim ao mesmo tempo. É lógico pedir isso? Não é. Então sobra esse “radicalismo”. Mas isto não vem das nossas intenções. Porque fica parecendo que alguém inventou isso um dia, “a verdade”, para infernizar a vida alheia. E não é isso. Olha só, quantos resultados certos existem para a conta de 2+2? Só um, certo? E quantos resultados errados existem para a mesma conta? Infinitos. Isto é um radicalismo? Ou faz parte da estrutura da realidade? O fato de que a direção direita está oposta à direção esquerda, ou o fato de que a direção acima está oposta à direção abaixo, são radicalismos? O fato de que o que acontece depois não pode anteceder o que vem antes, e de que o que acontece antes não pode suceder o que ocorreu depois, é um fato “radical”?

Veja só, as estruturas mais elementares que aprendemos ainda bebês, de espaço e de tempo, e mais tarde as verdades na matemática, na geometria, etc., tudo isto aponta para verdades inegáveis que nunca, jamais, assustaram quem quer que fosse. Ao contrário! Você quer saber? É mais fácil viver num mundo estável, onde as verdades de um dia continuam sendo verdades no outro. É isto o que permite a nossa vida.

A sinceridade filosófica não é nada mais e nada menos que o apelo à evidência do tipo mais elementar e simples que temos da experiência, para que nos lembremos de como as coisas realmente são. E isto não é um radicalismo, pelo contrário, se chama honestidade, e mais ainda, se chama sanidade mental.

Se você estudar o Tema III, Inteligência, você vai captar esse sentido. A nossa capacidade mental não possui uma disciplina moral natural. Ela é meio anárquica, e nós a direcionamos para o que quisermos. Se você tiver apelos mais baixos –e nós definitivamente os temos–, você será capaz de racionalizar as suas decisões interminavelmente, para justificar as suas arbitrariedades. E é isso o que as pessoas fazem. Faziam na época de Sócrates! E o que ele fazia? Puxava as pessoas para a memória da realidade das coisas, esvaziava os discursos artificiais que camuflavam a consciência da realidade, e resgatava a verdade que residia por trás. Você vai me dizer que fazer isso é ser radical? Desculpe, eu acho que é o contrário.

É o contrário. Arbitrar a verdade das coisas ignorando a experiência da realidade é o verdadeiro radicalismo. Agora, essa arbitrariedade é muito confortável, é claro! Sempre vai ser. E daí alguém aparece para encher o saco, para tirar as pessoas das suas ilusões, e é claro que esse alguém vai ser chamado de radical, de corruptor, etc.

A questão é simples: se você é chamado para a conhecer e amar a verdade, isto jamais, em nenhuma hipótese, se converte num mandato para perturbar a vida alheia. E acontece o contrário: as outras pessoas é que também estão atrás desse negócio, e por isso é que há sempre alguma espécie de tumulto social. Se é um louco, um desequilibrado, que está lá falando asneiras, é tudo muito fácil. O problema é que os filósofos estão atrás da verdade e costumam trazer à tona as realidades que ninguém quer ouvir. Daí fica fácil chamar o cara de radical, claro. Difícil é contestar o que ele diz.

LurchTalvez a questão seja de empatia. Se alguém desconhecido traz verdades prontas, por mais que essas façam sentido, isso não tem a ver com a vida que nós levamos no dia-a-dia. Daí não sentimos conexão, e sentimos que estamos sendo oprimidos de alguma forma.

Não é só isso.

É isso também claro, e mais do que empatia, eu diria confiança. É preciso ter confiança. Olha aí, estou aprendendo com o Olavo faz dez anos. Você acha que eu sou um fanático cego? Eu pareço ser isso? Ou simplesmente ele tem muito carisma e eu sou carente, coitado de mim, e então as coisas simplesmente se complementaram? Não, é uma relação de confiança.

Tudo o que fui lendo, estudando, eu tive que pensar como poderia não ser como parecia que era, e confirmava, de novo, de novo. Fui conhecer o mestre oito anos atrás, e o visitei algumas vezes nos últimos anos, lá nos Estados Unidos. Para que fiz isso, para babar de admiração, como um cão? Não. Para fortalecer esse elo de confiança, porque a atitude da pessoa completa o que ela diz. Então a confiança vai crescendo, e você segue aprendendo as coisas. Aprendendo, inclusive, a não esperar a perfeição de quem não é perfeito, nem a infalibilidade de quem não é infalível.

Mas além da questão da confiança, ou da empatia, tem a questão do momento histórico, e da atmosfera social. A nossa sociedade tem uma memória muito fraca da civilização da qual saiu. Existe civilidade em ritos, instituições, costumes, etc., mas isso vai fraquejando rapidamente, conforme as novas gerações estão mais ligadas em outras coisas. E quando há decadência, os efeitos são rápidos, e são devastadores. Os próprios portadores de uma verdade, religiosa ou filosófica, se tornam aí sim radicalizados, porque se frustram de não conseguir espalhar a sua mensagem. Mas essa é uma escolha que já mostra um erro embutido, que é o erro de avaliação da circunstância histórica. Você deve, necessariamente, aceitar a realidade dos fatos diante de si, por uma razão simples: a circunstância social e histórica é tão verdadeira quanto a sua bela mensagem. Você pode até agir para reformar a sociedade inteira, você pode fazer isso, mas vai ter que partir do reconhecimento dos fatos que estão na sua frente agora. Se sair dando porrada em nome da sua verdade, bom, se você for um profeta pode até dar certo, mas se não tiver esse tipo de autoridade, estará dando um tiro no pé, e estará traindo a sua suposta adesão à verdade, porque partiu da premissa errada de que já tinha entendido tudo o que tinha que entender.

E a primeira verdade que você é obrigado a assumir é a sua ilimitada ignorância a respeito das coisas. Daí se vê que qualquer radicalismo é intrinsecamente incompatível com a natureza do empreendimento filosófico.

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