Autores no jornalismo brasileiro

jornal

 

§ 122

Autores no jornalismo brasileiro

 

Vocês estão condenados pelo seu desprezo à sabedoria.

Os que acham que o cultivo do conhecimento é um adereço, um hobby, ou meramente uma ocupação profissional como qualquer outra, são os causadores, em última análise, dessa catástrofe nacional.

Minha dó é igual a ZERO, e pelo contrário, só resta diante disso devolver o mesmo desprezo. O Brasil não merece existir e os brasileiros não merecem ser poupados das consequências do seu modo de vida. O que se faz aqui em matéria de discussão pública, educação, política, está abaixo da dignidade humana. Mas, além da Lei, sabemos, existe a Graça. E parece que só ela mesma poderá salvar o Brasil. Então, já que vocês não sabem e não querem entender as coisas, rezem ao menos, porque é o que lhes resta, e é praticamente a única coisa que ainda pode funcionar.

Eu não participei dessa confusão. Pelo contrário, fugi sempre do fingimento de uma vida sem sentido, mesmo que isso me custasse o isolamento social, a incompreensão geral, e o abandono das mais brilhantes perspectivas de vida. Eu sei bem o que isso pareceu. Pareceu que eu fugia da vida, não é? E parece ainda. Mas que vida é essa que tanto falam? Querem dizer da participação ativa nesta zona, nesse caos? Não, obrigado. A prostituição da inteligência a serviço dos interesses mesquinhos, cobiças, vaidades, essas coisas todas que os vermes devoram no fim da vida? Eu passo.

Não me arrependo nem um pouco de ter parecido tolo ou tímido. Como se eu estivesse preocupado em viver para os outros, aliás. Todo mundo vai morrer, e é diante disso, desse fato inescapável, que nós vivemos com dignidade. Aliás, se me arrependo de alguma coisa, foi só de não ter sido mais firme no passado nas minhas convicções. Agora pago o preço por ter vacilado no passado, paciência.

Mas o pior de tudo é que as pessoas continuam participando ativamente desse pacto geral para não se entender absolutamente nada do que acontece.

Ontem, por exemplo, mal o STF havia dado a sua patada institucional, agindo contra a torcida do impeachment, e começou de imediato a choradeira dos fiéis da lei e da ordem. Mas esperavam realmente alguma coisa muito diferente? Onde pensam que estão?

Os socialistas –e isso inclui o PSDB junto com o PT– monopolizaram a ocupação de espaços na cultura, na mídia, nas universidades, escolas, etc. fazem pelo menos uns trinta anos, e vocês me vem com essa brincadeira de confiar nas instituições?

Quem, não sendo socialista, não se dignar no mínimo a compreender como esse esquema de poder se levantou, e a agir para produzir um efeito contrário que leve pelo menos mais uns quinze anos para ter resultados robustos, não está em condições de reclamar de nada. Os adversários trabalham trinta anos para construir o país que queriam, e você não quer nem gastar metade disso para revidar em peso?

E não querem, não querem mesmo. Todo mundo quer resultados imediatos, e daí fica essa torcida insuportável, “agora vai!”, “agora sim!”. E se você diz que as coisas não são tão simples, você é o derrotista, o pessimista, etc. Como lidar com essas crianças?

Quem quer saber das idéias de Antonio Gramsci? Quem quer saber o que é hegemonia cultural? Quem quer saber o que é a dialética histórica como estratégia política, e dentro disso, como atual complementarmente PT e PSDB, por exemplo? Ninguém quer saber, fora os que já foram atrás e aprenderam.

O Brasil é a terra dos que não sabem, não querem saber, e têm raiva dos que sabem.

Faço a minha parte, que se resume hoje em grande parte a escrever no meu site. As conversas, quando não são impossíveis, não levam a lugar nenhum. O que para você é uma coisa séria, para o outro é papo-furado. Dar aula, eu até poderia dar, mas para quem? Onde estão os estudantes? Não tem nada.

A minha trincheira é o meu site, e isso enquanto o governo petista não conseguir controlar a internet. É o que me resta, e faço com muito gosto e sem reclamar.

Agora que o pessoal levou esse balde de água fria na cabeça com Lewandowski et caterva, resta aos desesperados o salvador da pátria, o juiz Sergio Moro, e a operação Lava-Jato. É praticamente um Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. Como se, institucionalmente, a Justiça Federal do Paraná pudesse realmente resistir à dominação completa do esquema criminoso de poder que se instalou no país.

Ter esperanças depositadas em entidades como o PMDB, ou mesmo o PSDB, já é um negócio muito sério. Não quero dizer que não faça sentido desejar a vitória parcial, tática, desses partidos contra o petismo, mas diante dos problemas reais que enfrentamos, na sua dimensão real, isso é pouco e quase nada, na verdade.

RodriguesE quais seriam esses problemas reais? Não faz sentido resolver as coisas parte a parte? O impeachment é uma bandeira, está aí, e pode ainda funcionar em 2016, assim como a questão da ação no TSE contra a chapa Dilma-Temer. Ter esperanças nesses tipos de mudança não faz sentido, levando em conta o caos e o abandono do país?

Claro que faz sentido. Onde eu estava no domingo passado? Estava tomando um sol de rachar na testa, com muito gosto, apoiando o impeachment nas ruas. Mas onde estava o restante das pessoas? Onde estavam as pessoas que haviam comparecido na manifestação de agosto deste ano? Estavam atrás do presente de amigo-secreto? Estavam “no clima de Natal”? O que é isso? Que brincadeira é essa?

Então você me pergunta de problemas reais, e eis já aí alguns deles: cinismo, ceticismo, ignorância, descompromisso, “corpo fora”. Tanto é que as coisas são assim, que se o PT conseguir recuperar minimamente as condições de governo e por quaisquer acordos e entendimentos a economia voltar a andar, as pessoas vão parar de reclamar. E fariam o mesmo se o PMDB, junto com o PSDB, recuperasse a credibilidade do país para as finanças internacionais. Veja só: o Brasil é como uma entidade em transe contínuo, em perpétuo estado de torpor e inconsciência, e a única coisa que aconteceu em 2015 –e já tinha começado a acontecer um pouco no ano passado– foi que acabou a bebida. Acabou a bebida, acabou a música, e acabou a festa. Estão todos indignadíssimos com a situação, mas se alguém der um jeito –e, repito, tanto faz ser o PMDB, o PSDB, ou o próprio PT– de colocar a música de volta e a bebida em circulação, todo mundo agirá como se nada tivesse acontecido.

A questão da corrupção é, diante da visão de destino nacional que a camarilha política tem a respeito do país, um problema menor. É uma consequência, apenas, de um modo muito ruim de condução da vida pública, escorado e retroativamente escorando de volta uma cultura podre nas suas mais profundas bases.

E ainda me falam de instituições, etc. É muito gozado.

O próprio Reinaldo Azevedo já disse, certamente numa época menos agitada ou animada que a de hoje, que “não há sistema bom que resista intacto a homens maus“. Se você quer saber quais são os nossos problemas reais, procure saber o que é que torna maus os “homens maus”. É tudo o que interessa, no fim das contas.

Em resumo, esses problemas são: 1) o desprezo pela sabedoria; 2) a síndrome da coitadisse, o sentimento generalizado de vitimização e de “luta por direitos”; 3) a polarização dentro da chamada “direita brasileira”.

Já escrevi sobre tudo isso no meu site. Quem quiser pode ler e abrir um debate aqui, do qual participarei com muito gosto e entusiasmo. Mas ficar simplesmente na torcida, como se assistisse a uma partida de futebol, para que a Dilma seja impedida, ou para que o Lula seja preso, como essas coisas –por mais justas e simbólicas que sejam– resolvessem os problemas profundos que o país tem, isso eu não vou fazer. Lewandowski nenhum vai me decepcionar, porque eu já não espero nada mesmo desses tipos, e acho que ninguém deveria esperar nada. Deveriam cobrar, protestar, denunciar, e aplaudo os que o fazem. Mas se não tentarem também entender as coisas mais a fundo, e se não destamparem essa caixa-preta do problema moral do país, não ver ter muito o que fazer no longo prazo.

FrancisMas o país tem jeito? No sentido dessa questão moral, dessa corrupção moral? A crise moral não é só da corrupção do PT. Isso é um transbordamento. Mas também, tem quem fala de estacionar em lugar proibido, e quer dizer que o problema é o mesmo, que é por isso que tem problema na Petrobras, etc. Se for transformar todo mundo em santinho, não vai acontecer nunca. E os países da Europa, ou mesmo os Estados Unidos, não tão também nenhuma ordem das carmelitas descalças, e eles são fortes culturalmente, institucionalmente. Tem jeito de levar o Brasil nessa direção?

Eu vou saber como? E em qual direção exatamente, de que estamos falando? Os Estados Unidos de Obama são uma coisa já meio diferente do que talvez se pense em geral a respeito dos americanos. E os europeus, nós queremos seguir a linha deles? Mas de quais europeus? Quais linhas, se eles próprios não são decididos?

É difícil tratar as coisas nesses moldes, mas se há um bom caminho, é o do estudo da história. Sempre. E o que tornou historicamente a cultura e as instituições européias e americanas fortes foi o legado civilizacional do Ocidente, em resumo, a moral judaico-cristã, o direito romano, e a filosofia grega.

Eu te pergunto, o que você vê na sociedade brasileira que tem a ver com isso?

A espiritualidade brasileira, com honrosas e sempre presentes exceções, é meio macumbeira, meio marginalizada. O país não foi tão bem cristianizado assim. O direito, bom, como se vê, se tornou o famoso direito do mais forte, que é outro nome que se dá à barbárie. Quando os ministros do assim chamado “supremo” tribunal resolvem ignorar a própria constituição, eu acho que nós fomos parar bem longe da noção clássica de Estado de Direito. E na parte de filosofia e de intelectualidade, bom, aí nem preciso falar, nós vivemos uma tragédia, nada menos que isso.

Se existe uma trilha boa para seguir para fora dessa confusão, ela passa necessariamente pela decisão política dos melhores brasileiros. Sim, esses existem, certamente, mesmo que seja em pequeno número. Mas esses têm que decidir, por livre vontade, colocar os interesses públicos acima dos seus interesses individuais. Quando os melhores resolvem cuidar da própria vida e largar o país na mão de delinquentes e marginais, é isso o que você colhe, um país destruído, como se tem hoje. Se estes mesmos torcem para que as coisas “voltem ao normal”, ou seja, para a festa inconsequente que você tinha antes, então está tudo perdido.

Chega de falar de Brasil. Viver no Brasil é como estar numa penitenciária. Brasileiro não vive, cumpre pena.

Vamos, seguindo os planos já expostos antes, ao Dicionário de Filosofia do José Ferrater Mora, do qual a leitura do Prólogo já me trouxe uma notícia não tão agradável, de que trata-se na verdade de um Dicionário abreviado de filosofia. Não é o que está na capa, querida Martins Fontes. Se eu não tivesse mais o que fazer, poderia enfiar um processo de propaganda enganosa em vocês, não poderia?

Para a sorte dos malandros, eu tenho mais o que fazer. Essa pequena infelicidade foi compensada rapidamente por uma grande satisfação. Grande mesmo, porque o que eu havia escrito sobre o tema Tempo, isso há três anos atrás, no meu Tema I, concordou com o que é ensinado a respeito do assunto pelos antigos, antigos esses que são, em filosofia, quase sempre os melhores que existem.

Não vou transcrever os verbetes completos, mas apenas os trechos mais interessantes para fazer os comentários mais pertinentes.

Primeiro, um trecho sobre Aristóteles:

“Platão disse relativamente muito pouco acerca do tempo. Em contrapartida, Aristóteles esforça-se por analisar o conceito de tempo sem fazer dele uma cópia, imagem ou sombra de uma ‘realidade verdadeira’. Para tanto, vale-se do movimento, ou, melhor, do conceito de movimento. Aristóteles observa que o tempo e o movimento são percebidos juntos. É certo que podemos estar na escuridão e não perceber nenhum movimento por não enxergar nenhum corpo que se mova. Mas basta um movimento na mente para nos darmos conta de que passa o tempo. Por conseguinte, o tempo tem de ser movimento ou algo relacionado com o movimento. Como não é movimento, tem de ser a outra alternativa, isto é, o relacionado com o movimento (Física, IV, 2, 219 a)” — pg. 672

Primeiramente, quando o autor diz que Platão falou “relativamente muito pouco” acerca do tempo, temos que enfatizar bastante esse “relativamente”. Por acaso afirmar sobre o tempo que ele é “a imagem móvel da eternidade” é pouca coisa? Não é pouca coisa. Na verdade, poderíamos colocar –e se não coloco ainda é apenas porque estou no meio da pesquisa sobre o assunto– que todas as investigações posteriores a Platão sobre o tempo tentem no fim das contas demonstrar de que maneira o tempo é esta “imagem móvel da eternidade”. Esta afirmação partiu evidentemente, e só poderia ter mesmo partido, de um grande metafísico, se não o maior de todos. Se a eternidade reúne em si, e perfeitamente, todas as idéias e também todas as possibilidades de relações entre as idéias (inclusive as suas variadas formas de ser), é evidente que esse conjunto eterno é “imóvel”, pois todo e qualquer movimento não passa apenas de um tipo de possibilidade abarcado pelo mesmo conjunto perfeito da eternidade. O tempo seria assim, de algum modo, como uma sequência de fotografias tiradas desse quadro de idéias, seres e relações. Se a eternidade “se movesse”, ela poderia mover-se apenas de partes em partes (as “fotografias”), e isso significaria necessariamente presentificar algumas possibilidades em detrimento de outras, pois a plenitude absoluta é aquela imobilidade primordial da perfeição eterna. Isto me lembra um pouco o neoplatonismo, o fato de como necessariamente uma realidade superior que gera hipostaticamente uma outra realidade inferior não pode colocar nessa todas as suas qualidades e perfeições. Assim é com o tempo, em relação à eternidade, e de certo modo essa imagem do eterno deve mover-se até porque é o único modo de enriquecer essa experiência inferior não-eterna ao máximo seria mesmo mostrando diferentes partes e possibilidades de cada vez, de forma que uma idéia geral da riqueza do conjunto fosse preservada por este movimento. A dimensão temporal seria, dando aqui uma de Leibniz, o “melhor dos tipos de tempos possíveis”, porque permite a riqueza oriunda da unidade manifestar-se na multiplicidade.

FrancisIsto parece quase que uma justificativa do tempo. Mas é algo que requer uma explicação? Poderia não haver o tempo?

Poderia não haver, certamente, porque ele é a condição mesma de todas as possibilidades. Se tudo o que é possível só é possível temporalmente, e nada disso que é possível é necessário ao mesmo tempo, então o próprio tempo não é necessário metafisicamente. Você teria que ter ao menos um único mísero fato temporal que fosse metafisicamente necessário para dizer que, daí sim, o tempo era necessário também, para que fosse possível aquele acontecimento. Só que isso não existe, porque a característica de todos os fenômenos é a sua contingência. O grande espanto da metafísica, ou a grande dúvida, é essa, que existe o Ser e não o Nada, e não há nenhuma necessidade para que as coisas sejam assim.

Eu nem abri o Tema I pensando nesses aspectos, para te falar a verdade. Sempre pensei mais nas questões práticas e nas implicações psicológicas da estrutura temporal. Sempre vi a Filosofia como uma atividade justa e digna para esta vida, para esta nossa existência temporal. Se a filosofia é uma “preparação para a morte”, então ela é uma preparação para esta vida que morre, ou seja, para a vida temporal antes da morte. Então nós estamos aí sob esse limite do tempo, sob esse céu saturnino, se quiser colocar assim, pois somos filhos do tempo e ele nos devorará, e a vida que escolhemos ter é esta. Mesmo que tomemos decisões para a outra vida, mesmo que nos dirijamos a outra vida o tempo todo, essa atitude é tomada neste mundo, neste tempo, mesmo que te leve a outro mundo e a outro tempo! Ora, quando eu vi isso, pensei comigo, “este é o ponto de partida, não posso ter uma filosofia que não fale da estrutura mais básica, inescapável e constante que existe”, que é a estrutura do tempo.

Mas esse modo platônico tem o seu valor por esse outro lado, de trazer a inevitabilidade do tempo para que haja a consciência do que quer que seja que não seja a própria eternidade. Ou seja, se Deus quis criar alguma coisa, ele quis criar junto o tempo para essas coisas. Porque a única coisa que pode existir sem tempo algum é o próprio Deus na sua perfeição eterna. Digo isto puxando desta colocação platônica, mas sinto-me contaminado do pouquinho que vi do neoplatonismo, como já disse.

Em Aristóteles nós vemos a confissão mais básica a respeito da experiência temporal, ou seja, a da relação que há entre a percepção do tempo e a percepção do movimento. Já escrevi sobre isto. Na verdade, percebi isto quando pela primeira vez um professor de física deu a fórmula da velocidade numa aula, ou seja, a quantidade de espaço dividida pela quantidade de tempo. Se, falando em termos técnicos da física, esse é um “jogo de cartas marcadas”, há por outro lado sempre o mundo real que originou essas concepções físicas do mundo, e aí você tem evidentemente esse caráter relacional entre tempo e movimento. Na verdade, o tempo é das variáveis a mais invisível, talvez mais até que a do o espaço, porque se você pode conceber e medir um espaço abstrato usando pedaços concretos de espaço, ou seja, coisas reais extensivamente limitadas retiradas da própria experiência espacial geral, para conceber e medir o tempo você usa o movimento dentro do conjunto de experiências espaciais previamente medidas. Não sei se ficou claro isso.

É assim: você primeiro percebe o movimento, e mede o movimento espacialmente, e só depois usa estas realidades estabilizadas na sua mente para captar a passagem temporal, intelectualmente falando. E daí você diz que o tempo passou. Pegue o modelo mais básico: a duração de um dia. Para que o primeiro ser humano pensasse que um dia havia se passado, ou melhor, o período de um dia, ele primeiro teve as percepções e as respectivas noções de céu e de terra, de horizonte, de sol, e de movimento. Depois de percorridos estes conceitos é que foi possível estabilizar a idéia de passagem de tempo, de duração, e não de mera altercação fenomênica. Isto quer dizer, voltando ao caso da fórmula de física, e relembrando uma importante verdade filosófica –a de que o primeiro na ordem do ser é o último na ordem do conhecer–, que na verdade o cálculo da velocidade percorre o caminho inverso ao da estrutura de percepção humana, ou seja, primeiro nós percebemos “a velocidade”, o movimento, e a partir de todas as noções espaciais nós podemos conceber a noção de tempo. O movimento veio antes de tudo.

O que também é muito importante para mim, e na verdade é crucial, desde a visão aristotélica, é a relação entre temporalidade e possibilidade. Meu interesse no aspecto mais puramente físico do tempo é bem pequeno. E talvez por isso até o que eu expliquei agora pouco não faça tanto sentido, pois nem mesmo a terminologia técnica da física é de meu interesse.

Me chamou atenção o aspecto de relação entre potência e ato, entre possibilidade e realidade, e a correspondência disto com o fluxo temporal, tanto quanto a consequência psicológica da vida humana dentro desta estrutura. Em resumo, aliás, esse é o Tema I: é o tempo considerado como a estrutura permanente e inescapável de atualização de possíveis e compossíveis, e como estrutura subjetivamente julgada, o que veremos logo adiante.

Destaquei outro trecho, a respeito de Santo Agostinho:

“A alma, e não os corpos, é a verdadeira ‘medida’ do tempo. O futuro é o que se espera; o passado é o que se recorda; o presente é aquilo que a que se está atento; futuro, passado e presente apresentam-se como espera, memória e atenção.” — pg. 674

Esta passagem agostiniana, ou, na verdade, a respeito da filosofia agostiniana do tempo, remete diretamente ao que concebi como origem fundamental de estímulo, e à concepção subjetiva do tempo que distingue os juízos possíveis conforme a sua modalidade temporal.

Da parte dita “estimulante”, e Deus me livre querer fazer disso um tipo qualquer de auto-ajuda, está em resumo aquilo que eu coloquei para um amigo anos atrás: “vida é movimento”. O que quis dizer, e que acho que é valioso, é que inevitavelmente a passagem do tempo transforma a sua vida e te leva a alguma coisa diferente, quer você queira ou não. Mover-se deliberadamente, significa, assim, tomar posse do processo temporal, ou seja, tomar posse da sua vida. Não é uma questão motivacional. Tanto que o imprevisto guarda sempre as suas possibilidades de repercussões negativas, mas nem por isso a imobilidade nos guarda do mal. Ao contrário, o sentido é que mesmo que seja para receber pancadas, o movimento é melhor do que a paralisia, pois esta é a estrutura inescapável da própria vida. Isto não tem nada a ver com ter uma vida mais agitada ou conturbada. O movimento pode, aliás, ser da consciência e não do corpo, e em muitos casos isso é preferível. Mas é um estado oriundo de uma deliberação, e por isto é um “movimento”, desde que uma possibilidade qualquer, mesmo que seja o da mera atenção consciente, foi atualizada mediante um ato de vontade.

Da parte dos juízos, referi-me ao chamado “efetivo”, que corresponde ao momento presente, ao “confitente”, que remete ao passado, ao “imaginativo e probabilístico”, que remete ao futuro, e a um modo especial, o “profético”, que seria um juízo-ponte único e diferenciado entre o presente e o futuro, como uma memória atual de um momento futuro.

As implicações psicológicas desses diferentes tipos de juízos já fazem parte da própria constituição do Tema I, e por isso não falarei detalhadamente deles aqui. Mas a pista para as disposições corretas da alma, conforme cada caso, já está sugerida nos próprios títulos: “confitente” remete à confissão, ao aprendizado passivo e contemplativo da realidade revelada, pois que todo fato passado possui a força de verdade revelada; “efetivo” remete à fusão da consciência passiva com a vontade ativa que arbitra a passagem da possibilidade para a atualidade; e “imaginativo e probabilístico” remete à dispersão imagética da realidade concreta a partir da nossa capacidade abstrativa.

Daí tem mais Santo Agostinho:

“O tipo de duração chamado ‘eternidade’ e o tipo de duração chamado ‘tempo’ são heterogêneos. É certo que há algumas analogias entre a eternidade e o tempo: ambos são fundamentalmente ‘presentes’. Mas a eternidade é uma presença ‘simultânea’, enquanto o tempo não. A eternidade é heterogênea, inclusive no tempo infinito, pois o tempo infinito não constitui a eternidade, a qual se encontra acima de todo tempo” — pg. 675

Duas coisas importantes aqui.

Primeiro, a presença que é comum à atualidade temporal e à eternidade é, para mim, justamente a ponte entre o tempo e a eternidade para a alma humana. Durante alguns anos eu me confundi neste aspecto, porque as coisas me pareciam assim, mas eu julgava erroneamente que a nossa vida eterna, individualmente considerada, era mais próxima do eterno retorno nietzschiano do que num sentido mais tradicional que depois fui aprender para me desvincilhar dessa armadilha intelectual. Deixei de lado a visão da eternidade como a coleção fixada de todas as possibilidades realizadas, eternamente repetida algo que está mais para o Inferno do que para o Céu, cá entre nós mas continuo enxergando o momento presente como necessariamente o único efetivamente ligado à eternidade, justamente por ser o único realmente existente. Então o que existe é o eterno, e o momento atual do tempo onde algumas das possibilidades se realizam, desde o conjunto universal das possibilidades na própria eternidade. Todo momento passado só tem valor enquanto atual, ou seja, porque já foi atual. E todo momento futuro só tem valor enquanto atual também, ou seja, porque pode ser atual futuramente. Só há vida, movimento, ação, arbítrio e vontade no presente temporal e, obviamente, no conjunto da eternidade.

Mas não só o conjunto de todos os tempos não forma a eternidade, como nem mesmo –como lembra a filosofia agostiniana– um tempo infinito a formaria, pois tudo o que é tempo é linear e limitado, enquanto a eternidade abriga a simultaneidade e não tem fim ou limites de qualquer espécie. Um tempo infinito, por exemplo, assim como um tempo finito, não abrigaria na sua estrutura as possibilidades não realizadas, que seriam apenas possibilidades para sempre frustradas, enquanto a eternidade certamente abriga todas as possibilidades plenamente desdobradas independentemente da sua atualização em qualquer tempo concreto. Isto é evidente e evidencia, por sua vez, que Nietzsche é meio burro mesmo, ou então eu fiz uma leitura burra de Nietzsche, vai saber.

DiogoO eterno retorno de Nietzsche seria então a perspectiva infernal, é isso?

Sim. Até o sentimento diante da consideração sobre o eterno retorno é de aflição e de agonia, se você for honesto. E bate com a concepção teológica, pois a vida eterna só pode ser uma vida paradisíaca com Deus, ou seja, uma vida que não terá fim porque ocorre na presença da causa e origem de todas as possibilidades, de todos os bens, etc. A vida infernal, por outro lado, é uma “morte eterna”, porque se fecha em si mesma, nas possibilidades realizadas, que retornam interminavelmente para sempre, como uma prisão feita das experiências passadas, e certamente sob o seu pior aspecto, porque o melhor aspecto “ficou de fora” e foi desprezado, que era justamente Deus.

Mas se eu fiquei confuso no passado com Nietzsche, isso só prova o quanto nós somos sedentos de ordem e de verdade, e como nós aceitamos o que quer que nos dêem para preencher esse vazio. É assim que funciona. Você começa a tomar drogas porque quer a felicidade e não a tem, começa a fazer maldades porque não se sente amado, e começa a acreditar na filosofia moderna porque não tem Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, etc.

Continuando, nós temos a filosofia moderna chegando, com Newton e Leibniz:

“A concepção absolutista [do tempo] está expressa do seguinte modo, num dos esclarecimentos dos Principia [de Isaac Newton]: ‘O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nada externo, e também se lhe dá o nome de duração’. Além desse ‘tempo absoluto’ há o ‘tempo relativo’, o qual é descrito do seguinte modo no mesmo esclarecimento a após a descrição do ‘tempo absoluto’: ‘o tempo relativo, aparente e comum, é uma medida sensível externa… da duração por meio do movimento, a qual é comumente usada em vez do tempo verdadeiro’.” … “Contra isso, Leibniz defendeu a mencionada concepção relacional ou relacionista do tempo. Em seu escrito sobre ‘Os fundamentos metafísicos da matemática’, uma de suas últimas obras, Leibniz indicou que o tempo é ‘a ordem da existência das coisas que não são simultâneas. Assim, o tempo é a ordem universal das mudanças, quando não levamos em conta as classes particulares de mudança’. Aquilo a que chamamos ‘magnitude do tempo’ é a duração. Em sua terceira comunicação a Clarke [filósofo newtoniano], Leibniz insistiu em que, assim como o espaço é uma ordem de coexistências, o tempo é ‘uma ordem de sucessões’.” … “Do ponto de vista teológico, Leibniz afirma que a sua doutrina relacional é a única aceitável, porquanto possibilita à imensidade de Deus ser independente do espaço e a eternidade de Deus ser independente do tempo, o que não acontece com a doutrina do espaço e do tempo absolutos.” — pgs. 676, 677 e 678

Aqui já não há mais adendos para o meu Tema I, e já se trata mesmo da disputa entre a insanidade a sanidade filosófica, representadas respectivamente por Newton e Leibniz.

Chamar Newton de um “filósofo das luzes” é uma barbaridade e, sobretudo, simplesmente uma mentira. Alguém que afirma que “o tempo relativo, comum e aparente, é uma medida externa da duração por meio do movimento, a qual é comumente usada em vez do tempo verdadeiro“, está fazendo exatamente o que Descartes havia feito, isto é, obscurecendo, semeando a desconfiança, a dúvida, e pretendendo inaugurar verdades totalmente inventadas sabe-se lá de onde. A verdade se torna mistério, e o mistério se torna a verdade. Aquilo que é evidente passa a ser falso, e o que é falso se torna, pela sua coerência puramente lógica e a despeito de sua falsidade experimental, verdade.

Não é um problema de ser ou de não ser racionalista. É um problema de ser safado, isso sim. Ou irresponsável, no mínimo.

Leibniz está aí, racionalista, falando a verdade, ou seja, que não existe tempo sem a nossa experiência relacional (como diria Aristóteles), e, ademais, que um tempo absoluto seria incompatível com a realidade de Deus. Vejam só isso, Newton não só inaugurou uma insanidade filosófica, rompendo bruscamente com uma investigação que vinha da Grécia antiga passando elo Cristianismo, como fez uma espécie de paganismo idólatra científico.

Para deixar as coisas bem claras: o conceito de absoluto converte-se lógica e necessariamente no conceito de Unidade perfeita, pois que se ser absoluto quer dizer ser independente de qualquer outro sob qualquer aspecto, ser absoluto quer dizer Ser Um. Dois absolutos teriam que se relacionar necessariamente no mínimo sob o aspecto da dualidade, e isto já seria uma relação entre eles que violaria a natureza de absolutez, ou seja, de ser absolutamente por si sem qualquer relação de qualquer natureza. Dizer que existe um tempo absoluto, um espaço absoluto, etc., é inventar deuses que não existem e jamais poderiam existir. A questão não é sequer religiosa, é de natureza puramente metafísica: só pode haver Um Absoluto. “Tempo absoluto” ou “espaço absoluto” são figuras de linguagem que poderiam ser traduzidas, por exemplo, platonicamente, como as idéias que Deus tem do tempo ou do espaço.

ReinaldoO que aconteceu? Os caras pararam de estudar a filosofia anterior? Ou não entendiam? Ou há uma terceira agenda secreta, um tipo de conspiração, para usar a filosofia para outras finalidades?

A hipótese de uma agenda não é desprezível, mas nós teríamos que estudar isso aí. Já li e ouvi coisas a respeito do ocultismo de Newton e dos chamados iluministas, mas não posso dizer que sim ou que não, isso está aberto para estudos.

Retorno ao ponto que já disse antes, que quando a religião entra em decadência, as pessoas enlouquecem. Qual é a dificuldade de um sujeito qualquer, desorientado, presumir que Deus é apenas uma boa idéia que a Igreja teve, e que ele também pode ter suas idéias a respeito do que quer que seja? Nada impede que isso aconteça, e nós sabemos que essas coisas acontecem. Se o ensino religioso fosse bom, ou melhor, se a sociedade simplesmente fosse realmente mais cristã do que era, talvez as coisas fossem diferentes. Sociologicamente falando, acho que o maior problema aí é essa decadência religiosa.

Intelectualmente falando, o problema é o abandono da tradição. Veja, se um cara como Leibniz não estivesse ali, para defender o que já tinha sido conquista de Aristóteles, aquele período da filosofia poderia ser dado como perdido por completo. Pior ainda, se você pensar, é a tragédia de perder talento, capacidade e tempo com loucuras e irracionalidades, enquanto que se poderia ter retomado as investigações que já haviam avançado, como por exemplo as de um Santo Agostinho. Este já havia dado seus passos para além da filosofia antiga. Mas foi abandonado, e pior ainda, os caras foram lá atrás, para antes mesmo de Platão e Aristóteles! É como uma filosofia de paus e pedras, das cavernas, só que vestida com roupas modernas. Parece novidade e coisa boa, avançada, evoluída, mas na verdade é um enorme atraso e retrocesso. Só que quem é que sabia disso na época?

ReinaldoLeibniz sabia.

Sim, Leibniz sabia, mas e fora ele?

Ninguém sabia de nada, porque o entusiasmo era com as “luzes”. Voltaire, entre outros, louvava a sabedoria newtoniana, enquanto ridicularizava Leibniz, como se esse fosse tosco na sua filosofia. E o que ocorria era exatamente o contrário: Leibniz era o herdeiro legítimo da tradição filosófica, era o porta-voz do amor à sabedoria, enquanto Newton inventava suas modas, se por engano ou ma-fé, não podemos dizer.

Por enquanto a satisfação que eu tenho é de ver que sem ter acompanhado essa trajetória do tema Tempo, o que eu pensei a respeito está de acordo com a tradição filosófica. Ou seja, mesmo que eu não seja também um herdeiro da tradição e um porta-voz do amor à sabedoria, pelo menos já sei que não sou um traidor.

Muito bem, por hoje é isso. O verbete do Dicionário continua, pelo que vi com Kant, mas hoje não tenho condições de continuar essa leitura. Aliás, na segunda-feira, dia 21, também não vou conseguir fazer isso. Talvez faça outro tipo de exposição, mas não garanto nada por enquanto. Dia 22 é mais certo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s