Da profissão de fé do filósofo

Gottfried Leibniz

 

Leibniz:

“Quão insensatos somos quando desdenhamos os privilégios da natureza e de Deus e postulamos quimeras desconhecidas e não nos contentamos com o uso da razão, verdadeira raiz da liberdade; sem o poder da irracionalidade não nos consideramos suficientemente livres. Como se não fosse a suprema liberdade empregar o próprio intelecto e a vontade do modo mais perfeito e, portanto, obrigar o intelecto a reconhecer a realidade, a vontade ser compelida pelo intelecto a abraçar as genuínas verdades, ser irresistível à verdade, aceitar os puros raios dos objetos não refratados nem empalidecidos pelo véu das desfigurações. Na ausência destes, nos é impossível errar com pleno conhecimento e pecar voluntariamente, tal como a um espírito atento e com os olhos abertos, livre de todo defeito, é impossível não ver a justa distância e tamanho, em um meio transparente iluminado, um objeto colorido. Certamente a liberdade de Deus é suprema ainda que não possa errar na eleição do melhor e a liberdade dos anjos bem-aventurados intensifica-se quando deixam de ser falíveis. A liberdade, pois, depende do emprego da razão: na medida em que esta seja pura ou corrompida avançaremos, ou retamente pelo caminho real dos deveres, ou cambalearemos por veredas desérticas.

Quem vê frustrado seu desejo não pode senão lamentá-lo no momento. Porém, se está satisfeito com o governo do mundo não deve perseverar na sua aflição, pois considerará que o que existe é o melhor, não só para si mesmo mas sim para todo aquele que o reconheça e, portanto, tudo resulta bem para aquele que ama a Deus. Portanto, deve-se ter por certo que aqueles que estão desgostosos com o governo de Deus do nosso mundo (a quem lhes parece que Deus poderia ter feito melhor algumas coisas) e também aqueles que empregam, a partir da confusão das coisas (que eles mesmos forjam), argumentos que favorecem ao ateísmo, são contra Deus. De fato, o que quer que possam acreditar ou afirmar, apenas a natureza e a condição das coisas lhes desagradam; odeiam a Deus embora aquilo a que odeiem não possam denominar ‘Deus’.

Se aquele que ama a Deus delibera a respeito de algum defeito ou de algum mal, alheio ou próprio, privado ou público, para suprimi-lo ou corrigi-lo, sustentará como certo, que não deveria ter sido corrigido ontem, mas presumirá que deve ser corrigido amanhã. Digo que presumirá até que a prosperidade o abandone novamente e o contrário possa ser provado. Porém, esta frustração não haverá de fatigar ou abater em nada seus esforços com respeito ao futuro, pois não nos cabe prescrever prazos a Deus e somente terão prêmios os perseverantes. Portanto, aquele que ama a Deus considerará o passado como bom e se esforçará por melhorar o futuro. Somente aquele que assim sente chega à tranquilidade da alma que buscam os filósofos sérios, e à resignação de tudo em Deus, que buscam os teólogos místicos. Aquele que pensa de outro modo, ainda que também tenha nos lábios as palavras ‘fé’, ‘caridade’, ‘Deus’, ‘próximo’, não conhece a Deus, pois ignora que Ele é a suprema razão de tudo, nem O ama. Nenhum homem que ignora a Deus pode amá-Lo adequadamente; porém, pode odiá-Lo. Pois, odeia a Deus aquele que odeia a natureza, as coisas, o mundo; assim, pois, aquele que pretende que tudo seja diferente do que é, opta por um Deus diferente daquele que É.

Tenho plena confiança e, repleto de esperança, submeto-me à verdade universal, à Igreja, à república Cristã, ao consenso da Antiguidade e de nosso século e, finalmente, a qualquer homem que raciocine corretamente. Não posso impedir que me repreendam; rogo que não me prejulguem. De fato, espero que possam me ouvir, ou melhor, que me possam ler com atenção, e que todos reconheçam que tudo foi exposto com a maior simplicidade possível uma vez suprimida a impostura das palavras (que habitualmente perturbam o gênero humano mais que as próprias coisas) e que nada enunciei que todos em conjunto não tenham como reconhecer necessariamente. De qualquer modo, nada disse acerca de Cristo, dos auxílios do Espírito Santo e do concurso extraordinário da Graça divina, questões que dependem da revelação divina, pois havíamos concordado que eu, enquanto catecúmeno, a ti iria expor a Teologia do Filósofo antes que tu, alternativamente, pudesse me iniciar nos mistérios revelados da sabedoria Cristã. Deste modo, Teófilo, que seja aliviado teu esforço de provar aquilo que confessei e que reconheço, tanto que a harmonia da razão e a fé possa ser evidente, e a loucura possa ser visível a todos os que são, ou arrastados pela ciência e rechaçam a fé, ou que envaidecidos pela revelação odeiam a filosofia porque põe a nu sua orgulhosa ignorância.”

 

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