“Tempo” (Tema I) no Dicionário de Nicola Abbagnano, parte I (Locke, Kant, Einstein, Reichenbach)

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§ 1

O texto menciona mais extensamente a concordância dos filósofos sobre o tempo, desde os pitagóricos (citados por Aristóteles), passando por Platão, Aristóteles, os estóicos, Epicuro, chegando até Alberto Magno, Tomás de Aquino e Ockham. Em geral, concordam que a relação entre tempo e movimento é necessária ou ao menos central. Em Hobbes começa um pouco do problema moderno, que fica mais claro com Locke:

“Locke criticava a vinculação do Tempo ao movimento, estabelecida pela definição de Aristóteles, só para afirmar que o Tempo está ligado a qualquer espécie de ordem constante e repetível: ‘Qualquer aparição periódica e constante, ou mudança de idéias, que ocorresse em espaços de duração aparentemente equidistantes, e fosse constante e universalmente observável, poderia servir para distinguir intervalos do Tempo entre si tão bem quanto as que foram usadas na realidade’ (Ensaio, II, 14, 19).” — pg. 1112

O que determinaria então a distinção do tempo seria a percepção de qualquer altercação, sendo que o movimento seria apenas uma espécie dentro do gênero maior da mudança, ou da mutabilidade. Não seria o movimento em si que definiria a passagem do tempo, mas a alteridade que o abrange apenas como uma de suas espécies. A questão é que o movimento das esferas celestes era justamente o fenômeno mais estável, era a maior “ordem constante e repetível” que existia. Praticamente todos os antigos e medievais reconheciam isto. Locke pode afirmar, é claro, que qualquer ordem tão estável quanto a do movimento das esferas celestiais, mesmo que fosse inventada, serviria para a distinção do tempo tão bem quanto o do movimento real, mas isso não retira ou sequer diminui –se esta foi a sua intenção– a veracidade da relação entre tempo e movimento, até porque é sempre esta que é utilizada empiricamente para determiná-lo, e ainda está por existir uma percepção do tempo definida por qualquer alteridade que não seja a do movimento físico.

Mas porque Locke haveria, então, de contestar a relação tempo-movimento, aludindo apenas a uma ordem fictícia de sucessões que, se fosse tão regular e contínua, poderia substituir o movimento como modo de percepção do tempo? Parece surgir a dúvida, e talvez o desejo de contestação e de novidade, que levará à abstração extrema newtoniana do “tempo absoluto”. Há nos modernos sempre esta desconfiança com relação ao que é real, e a busca de um fundamento superior e independente que parece ser mais seguro. Se a cosmovisão antiga organizava a realidade distinguindo a mutabilidade e a imutabilidade, observando justamente entre esses dois reinos as esferas planetárias como os símbolos das realidades intermediárias –afinal, a regularidade cíclica do movimento das esferas celestes é uma espécie de perfeição imutável dentro do tempo–, para um moderno isto não é nada mais que uma coincidência de idéias com fatos, sendo sempre possível ter idéias novas sobre as coisas, talvez mais puras. Nós temos idéia de onde isso acaba.

Depois, e ao meu ver erroneamente, o texto afirma, a respeito de Newton com as suas idéias de “tempo absoluto” e “tempo relativo”, que Leibniz esclarecia o mesmo conceito de outro modo. Eis um equívoco lamentável numa obra deste tipo. Leibniz diz:

“Conhecendo-se as regras dos movimentos não uniformes, é sempre possível reportá-los aos movimentos uniformes inteligíveis, e prever com este meio o que acontecerá a diferentes movimentos juntos. Nesse sentido, o Tempo é a medida do movimento, ou seja, o movimento uniforme é a medida do movimento não uniforme.” — pg. 1112

Ora, o “movimento uniforme” não tem nada a ver com “tempo absoluto” nem com nada parecido com isso; é o movimento mais perfeito observado na realidade, justamente o das esferas celestes. Leibniz está integralmente alinhado com Aristóteles, para quem o tempo era “o número [a quantidade] do movimento segundo o antes e o depois”. Os movimentos não uniformes são contemporizados de acordo com a observação da sua regra diante da regularidade dos movimentos uniformes. Não é o mesmo conceito de Newton!

Novamente, o “tempo absoluto” de Newton, que jamais serviu e nem servirá para se medir nada em parte alguma, é apenas um requerimento lógico para a independência da Razão em relação à experiência. É uma premissa necessária para aceitar uma duração sem sujeito, uma realidade sem consciência. A física newtoniana é –aqui estou sendo mais ousado do que me sinto autorizado, mas arrisco mesmo assim– um imenso edifício de construção de uma ciência que não tem a presença do cientista, do observador consciente, e isto quer dizer que é uma imensa ficção, na melhor das hipóteses. Newton como que nos diz: “se existisse um mundo sem quem o conhecesse, ele seria assim…” Mas que nos importa isso, se nós estamos aqui e se conhecemos o mundo?

É mais fácil ficar com Aristóteles e Leibniz, e tantos outros.

Talvez mais impressionante ainda no texto seja a colocação de Kant como um continuador de Leibniz, como se existisse essa sucessão filosófica Newton-Leibniz-Kant, que não enxergo e não reconheço em parte alguma.

Frases e definições soltas podem ser pescadas aqui e ali para dar essa impressão, mas não se pode compreender um autor de uma filosofia robusta desta forma, especialmente um Leibniz, que não é um autor de tratados sistematizados, mas principalmente de cartas e de “obras rápidas”, onde o contexto é essencial para a compreensão das idéias.

Mas vamos a Kant.

“A principal contribuição de Kant na interpretação do conceito de Tempo não está na Estética transcendental, e sim na Analítica dos princípios, mais precisamente no estudo da segunda analogia, ou ‘princípio da série temporal segundo a lei da causalidade’. Aí Kant afirma que uma coisa só ‘pode conquistar seu lugar no Tempo com a condição de que no estado precedente se pressuponha outra coisa à qual esta sempre deva seguir-se, ou seja, segundo uma regra’.” — pg. 1112

Como já afirmei no estudo anterior sobre a questão do tempo em Kant, o tempo é no racionalismo kantiano –como em Newton– uma necessidade lógica, como uma premissa, para validar a estrutura da Razão. Se a razão humana é como é, o tempo é necessário por dedução.

O estabelecimento da causalidade como princípio da série temporal já mostra isso de forma evidente: tudo o que há de elusivo, vago e impreciso no conceito de movimento, se torna firme, exato e preciso com a idéia de causalidade. O que é a causalidade, afinal? É justamente a regra de que fala Kant, observada desde dentro do movimento. Qualquer movimento é uma cena irracional até que se lhe prenda a regra causal, justamente porque esta é a estrutura lógica da atualidade no real. A insegurança psíquica kantiana –e moderna em geral– não pode aceitar nenhuma concretude no testemunho humano mais banal, do movimento, sem que lhe cinja antes a causalidade como ponto firme a lançar a sua âncora mental. Imagine-se facilmente como a observação da perfeição dos movimentos das esferas celestes causaria vertigem a tamanha timidez do espírito, não fosse a ciência da mecânica celeste lançar ao espaço as suas redes de pesca de causas.

O que quero dizer com isso é que o espírito de dúvida aumentou com o passar dos séculos, e isso trouxe muitas dificuldades para os filósofos aceitarem a realidade mais simples que testemunham todos os dias. Ao invés de filosofar a partir da realidade, os modernos querem prescindir dela, agarrando-se às certezas da Razão. É nisso que dá o cartesianismo e todo o racionalismo de Newton e Kant. Só peço que não incluam aí, indevidamente, o senhor Leibniz, que definitivamente não tinha esses vícios.

Embora minha intenção não seja a de repassar também as idéias dos cientistas modernos, vi-me obrigado a citar e comentar um trecho na sequência da parte de Kant, que remete à ciência moderna:

“Essa redução do Tempo à ordem causal, defendida por Kant em relação ao conceito de Tempo dominante em sua época (derivada da física newtoniana), foi reapresentada em nossos dias com relação à física einsteiniana. Ao afirmar a relatividade da medida temporal, Einstein na realidade não inovou o conceito tradicional de Tempo como ordem de sucessão: só negou que a ordem de sucessão fosse única e absoluta. Em confronto com a física de Einstein, H. Reichenbach voltou a propor a tese kantiana da identidade do Tempo com a causalidade: ‘O Tempo é a ordem das cadeias causais: este é o principal resultado das descobertas de Einstein’. ‘A ordem do Tempo, a ordem do antes e do depois, é redutível à ordem causal. […] A inversão da ordem temporal para certos eventos, resultado que deriva da relatividade da simultaneidade, é apenas uma consequência desse fato fundamental’.” — pg. 1112

Reichenbach afirma, a partir da relatividade de Einstein, que o tempo é a ordem das cadeias causais. A causa de qualquer coisa vem antes do seu efeito, e esse antes puramente lógico que ordena a sequência mecânica dos acontecimentos é o que insere a mesma no tempo.

Como de costume, enquanto a filosofia antiga parece um agradável passeio num bosque ou numa praia, a sensação que se tem a partir dessa concepção moderna é tão agradável como se alguém pudesse colocar a própria mente dentro de um espremedor de batatas. É aflitivo como uma cadeia, e viola a nossa serenidade psicológica.

Einstein, coerentemente, reafirmou a tradição da concepção do tempo como relativo ao movimento, retirando o erro newtoniano da absolutez temporal. Se, além disso, tornou todos e quaisquer movimentos mais relativos ainda –pois não se poderia então contar mais com o movimento das esferas celestes como modelo perfeito, pois este depende da centralidade da nossa posição no cosmos–, não reduziu-o, porém, de cronologia em pura lógica, isto é, em mecânica causal. Observar que algo veio depois como um efeito a partir de uma causa, embora demonstre a ordem da sucessão, não contém per se a concretude da duração, que é a causalidade puramente lógica transformada em cronologia real.

Isto quer dizer que os antigos tinham mais razão do que se imaginava, ou pelo menos viam as coisas com mais clareza e distinção. Porque se, por um lado, a ordem das cadeias causais pode existir logicamente e enquanto tais sem que os efeitos concretamente se sucedam das causas, ou seja, a sucessão de causas e efeitos logicamente considerada não constitui necessariamente a sucessão temporal, por outro lado a observação dos antigos, da duração dos movimentos cíclicos das esferas celestes, ainda que não apreendesse, ou não precisasse apreender, estes movimentos como efeitos gerados por quaisquer causas determinadas, era suficiente para a apreensão da própria realidade da sucessão temporal sem margem de dúvidas. O movimento terrestre, irregular, era medido pelo movimento celeste, regular, e essa observação sozinha era suficiente para que se constatasse a duração do tempo, a ordem da sucessão temporal, antes mesmo que a primeira causa fosse apreendida.

Aliás, ocorre o contrário! A apreensão da relação entre causa e efeito depende primeiramente da percepção da sucessão temporal, do movimento, que posiciona cronologicamente (concretamente) a causa antes do efeito, colaborando para a percepção psicologicamente posterior da relação causal entre as duas coisas logicamente (abstratamente).

Eis toda a querela em poucas palavras: os antigos faziam abstrações sobre a realidade concreta, enquanto os modernos parecem querer concretizar a realidade a partir de suas abstrações.

Continuo a leitura do Dicionário em um próximo texto.

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3 respostas para ““Tempo” (Tema I) no Dicionário de Nicola Abbagnano, parte I (Locke, Kant, Einstein, Reichenbach)”

  1. Vim aqui à procura da teoria do tempo (ERS) segundo Reichenbach, somente para apresentar um pequeno trabalho de estudo comparativo do passado verbal do português e do francês. Mto complicado esse tema. Obrigado por ter postado algo sobre Reichenbach😉

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