Esclarecimentos sobre o que (me) importa na divisão da direita brasileira (em resposta ao comentário de meu amigo sobre o texto “Dia triste uma ova”)

Brasília 2013

 

Decidi responder o comentário mais extenso ao meu texto Dia triste uma ova, para poder tratar mais adequadamente o assunto e aproveitar a oportunidade de ampliar alguns entendimentos.

Primeiramente, vejamos a diferença entre substância e acidente, numa definição minha completamente livre e não-acadêmica: a substância é o ser da coisa, é o que ela é por si mesma, e acidente é o que se relaciona com a substância não constituindo o seu ser.

Posto isto, fico satisfeito que a substância do que eu disse (e, by the way, do que Olavo disse) não foi criticada, mas apenas os acidentes circunstanciais do episódio.

Isto mostra a distinção hierárquica que há entre os vários níveis de abordagem do assunto político. Porque o apego à circunstancialidade denota justamente o posicionamento limitado na discussão do assunto, afastando-se do centro do assunto que é o mais importante.

Na discussão política existem pelo menos os níveis:

1. da propaganda (o discurso que os agentes fazem para fora);

2. da doutrina (o discurso que os agentes fazem para dentro);

3. do jornalismo de opinião (debates e análises);

4. da ciência política, sociológica e histórica (compreensão dos fenômenos de acordo com suas causas);

5. da filosofia política (o estudo da natureza e dos limites finais da ação política).

Estes cinco níveis representam uma enorme evolução desde o discurso mortadelístico até as mais elevadas especulações filosóficas.

Olavo, embora seja plenamente capacitado de agir dentro do quinto nível da filosofia política, fez na sua colocação para Reinaldo uma intervenção desde dentro do quarto nível, da ciência política. Vejamos o que escreveu originalmente:

“Dividir a direita em ‘democratas’ e ‘golpistas’ é um simplismo indigno da sua inteligência, caro Reinaldo. Ademais, é um princípio elementar de ciência política não julgar movimentos políticos somente pelos ‘valores’ que eles dizem representar, – isto é, pela imagem que buscam ostentar –, mas pela substância das suas ações e pela qualidade da sua estratégia. Escreverei algo mais detalhado sobre isso, e espero que possamos trocar umas ideias a respeito.”

O que Olavo fez, e não sem reconhecer antes a inteligência de Reinaldo, foi uma referência à diferença que existe entre os primeiros dois níveis da política e o quarto. E deixou nisso explícito um convite com a clara e amigável promessa de escrever mais coisas a respeito e debater as idéias, reconhecendo portanto Reinaldo como um interlocutor competente de discutir no nível da ciência política, ou seja, acima não só do nível do discurso político mas também do jornalístico.

A este convite amigável para uma subida de nível, Reinaldo responde retoricamente recusando a discussão das questões levantadas.

Dados estes elementos, vou responder de parte a parte o comentário, considerando a sua extensão.

“SOBRE A INTRODUÇÃO:

‘provocados pelos primeiros, diga-se de passagem’
Não. Não mesmo. O vídeo do Kim falando sobre o Bolsonaro é uma entrevista que foi dada EM NOVEMBRO para o Minha Brasília, no qual ele diz coisas que correspondiam ao que se sabia do Bolsonaro até a época – Bolsonaro falando em privatizações é coisa recente, DEPOIS da entrevista. Quem provocou o ‘choque’ não foi o MBL e sim um tal de Carteiro Reaça que, mal intencionado, pegou apenas esse trecho da entrevista e editou de um modo para ridicularizar o Kim. Dessa forma, o choque não foi ‘provocado’ pelo MBL e sim pelo Carteiro Reaça, cujo qual Luciano Ayan fez um rapa no site e conseguiu desmoralizar em 5 minutos com verdades a respeito do “trabalho” tão confiável quanto o de um petista.”

Posso conceder neste ponto sem muitos problemas, pois é acidental ao centro do assunto.

Como eu disse no texto, não achei esses fatos ruins, pelo contrário, foi tudo muito esclarecedor, e ainda está sendo. Não existia unidade real nesta direita. Se não existia unidade, então não ocorreu divisão, não há mal algum (exceto para Reinaldo que, como disse, se expôs nesta questão de uma maneira surpreendente). A única coisa que os dois lados fizeram foi descobrir o que já era a realidade, e provavelmente era o que o próprio Kim quis dizer ao seu modo no vídeo em questão, reconhecendo alguns méritos de Bolsonaro, mas deixando clara a distinção ideológica no âmbito da relação entre Estado e economia. Se neste ponto não há discordância real, em outros pontos, a respeito do papel do PSDB, do funcionamento das instituições, da história do período da ditadura, etc., sobram discordâncias.

Sendo assim, mesmo que se conceda que todos os democráticos líderes, seguidores e apoiadores do MBL tenham sido inocentes como virgens puras em toda essa questão, e os defensores de Bolsonaro tenham sido os fascistas intransigentes, perversos provocadores, mal intencionados, o resultado de tudo isto foi apenas a definição clara dos limites e da distância entre os dois movimentos, o que, como eu disse, não só não é um resultado lamentável como é louvável, porque deixa estas distinções mais claras. E com isto não quero dizer que eu aceito esta versão da narrativa. Digo apenas que não é o que mais importa.

“SOBRE A COLOCAÇÃO N. 1:

‘Não sendo indiferentes, os críticos de Bolsonaro poderiam, é claro, discordar de idéias ou posturas dele, mas não é isso o que fazem. Inventam, distorcem e mentem, porque o que lhes ofende não é que Bolsonaro pense isso ou faça aquilo, mas que não esteja submetido a eles’
Não. A briga não se tornou MBL X Bolsonaro (nenhum dos dois sequer se pronunciou a respeito), e sim, adeptos do MBL X adoradores do Bolsonaro. Esse último grupo foi bastante agressivo. Dê uma olhada na página do Luciano Ayan e verá. Da forma como fala, parece que ataques fortes vieram apenas de um lado, afinal só alivias para os bolsonetes.

No texto você aponta como ‘acusadores’ os anti-Bolsonaro, mas quem resolveu disparar conjuntamente agressividades, ofensas e histeria foram os bolsonetes em reação à entrevista do Kim. Quem foi intolerante com a resposta do Kim foram eles. Estás invertendo a ordem dos tratores.

Novamente, pode ser concedido.

Não há problema nenhum em conceder, pois o assunto que eu acho mais interessante não é a briga em si, mas as suas causas mais remotas, ideológicas, relevantes não sob o aspecto do combate político, mas da ciência política. Estou explicando novamente.

Isto não impede que existam os assim chamados (por você) “adoradores” de Bolsonaro, tanto quanto não impede que da outra parte atuem também os intransigentes e provocadores. Mas isto sempre houve e sempre haverá. Não me espanta em nada. Me espanta um Reinaldo descer para esse nível, quando foi chamado justamente a subir. Meu interesse particular foi mais nesta direção do que na picuinha política.

“SOBRE A COLOCAÇÃO N. 2:

‘O MBL transforma-se muito rapidamente numa entidade sacrossanta, incriticável, inviolável.’
Quem foi intolerante a uma crítica foram os bolsonetes, em relação à crítica ao MBL. Foram os bolsonetes que, a partir daí (na verdade, nem a partir da entrevista, e sim de uma edição tendenciosa dela) dispararam conjuntamente ofensas, acusações e agressividade. Para os seguidores de Bolsonaro, vosso ídolo que é, usando tuas palavras, ‘uma entidade sacrossanta, incriticável, inviolável’. Eles que não suportaram a resposta honesta do Kim – resposta essa que, por sinal, representa todos os direitistas como eu que sabem a figura risória que é Bolsonaro, parecendo ter saído de uma comédia pastelão onde era o vilão.

Se o MBL ‘pode’ receber críticas? TUDO pode receber críticas. Mas quem está precisando entender isso são os seguidores do Bolsonaro. Os apoiadores do MBL o que fizeram foi defender: MBL fez em pouquíssimo tempo o que Bolsonaro não faz desde os anos 90. Jogar isso na cara dos bolsonetes é achar o MBL uma entidade ‘incriticável’?

Novamente, passível de concessão sem tocar nem de perto nas questões politicamente relevantes.

Com isso vou caminhando para admitir duas coisas:

a) que eu posso concordar com praticamente todo o seu comentário (não chegamos ao fim ainda), porque ele não responde a substância do meu, ou seja, ao que mais me importa, e não faz tanta diferença;

b) que, consequentemente, o meu texto não foi tão direto ao ponto quanto poderia ter ido, visto que sobraram essas rebarbas que você agora está roendo para mim, e com isto na verdade me faz um favor me incentivando a escrever melhor no futuro.

” ‘É irônico, até, que os mais sensíveis democratas e republicanos anti-Bolsonaro repudiem –e justamente– uma ditadura militar.’
Quem apóia ditadura militar é bolsonete, inclusive o próprio Bolsonaro, que esteve presente na tal Marcha da Família em 2014 pedindo a volta dos militares e gravou um vídeo (um humor involuntário poucas vezes visto) no qual abre um champagne comemorando os 50 anos do golpe militar. São os seguidores do Bolsonaro que não suportaram ver uma resposta do Kim em uma entrevista na qual lhe questionaram sobre o Bolsonaro, e aí declararam guerra. Ditadura da opinião é com eles.”

Aqui a coisa começou a ficar boa.

Primeiramente, eu não disse que o MBL apóia ditadura militar, eu disse que eles a repudiavam e justamente. Você não leu?

Eu não sei dizer se Bolsonaro, ou qualquer um de seus apoiadores, apóia ou não a instalação de uma ditadura hoje no país, mas eu sei dizer que ele (Bolsonaro) não se envergonha, e pelo contrário, dá valor, pela instauração dela especialmente nas circunstâncias políticas de 1964.

A esquerda demonizou a ditadura passada com sucesso, escondendo sempre o fato de que o maior risco que o Brasil corria, em plena Guerra Fria, era de se cubanizar, tornando não só a vida do povo brasileiro muito mais infernal do que foi de fato na ditadura, mas tornando também o país um instrumento perigoso na mão do movimento comunista em escala global.

Longe da doutrinação esquerdista na cultura, nas escolas, na mídia, etc., eu sempre me preocupei de consultar indivíduos que viveram no período da ditadura, para saber como foi a vida para eles (uma amostra do povo). Tanto a geração de meus avós quanto a de meus pais não teve muito a reclamar sobre o período e, eventualmente, ao contrário, no quesito de segurança pública em particular e na área da moral em geral, dizem que a situação piorou com o advento da democracia.

Isto quer dizer que meus avós, meus pais, eu, ou mesmo o Bolsonaro queremos instaurar uma ditadura militar? Não. Quer dizer apenas que não aceitamos a narrativa da propaganda esquerdista a respeito do período. Não se pode dizer o mesmo dos aliados direitistas da esquerda soft.

Estes não só aceitam a demonização completa da ditadura como a usam efetivamente para desclassificar as alternativas da direita que não sejam alinhadas consigo.

Se isso eventualmente der algum proveito político como postura democrática acima de qualquer suspeita (embora já seja uma fraqueza por submissão à narrativa esquerdista da história), certamente tem o efeito de endossar PSDB et caterva como oposição legítima ao presente estado de coisas, pois estes são a “esquerda democrática” que também condena todos os aspectos da ditadura passada.

Há uma diferença entre votar no PSDB ou aliar-se a ele taticamente, e aceitar ou até fortalecer o PSDB como boa alternativa futura para a política do país. Se esta diferença está clara para um lado da direita, parece não estar tão clara para o outro lado.

O que, repito, demonstra como o presente conflito ajuda no esclarecimento geral, pois o próprio MBL se verá livre de justificar-se diante daqueles que não se consideram mais seus aliados.

Se Bolsonaro e as demais forças políticas com ele alinhadas não forem capazes de julgar com razão a situação e disputar o cenário político com sucesso, pior para estes, que enfraquecerão e deixarão mais livre ainda o palco para que MBL e aliados façam o que acharem melhor.

Na verdade, não fosse a calamidade real do país a pedir urgentes medidas, este atrito até que seria engraçado, porque é como marido e mulher que não se bicam mais e decidiram se separar, mas que parecem ter esquecido a sua própria decisão e continuam brigando um com o outro, como se fossem ainda casados.

Meu ponto é: não existe esta aliança, e não existe sequer a separação, porque não ocorreu nunca este casamento.

E o que interessa, ao menos para mim, é falar das realidades relevantes, e neste ponto que acabamos de passar já há uma fundamental: a narrativa da história do país. Uma direita aceita a narrativa esquerdista, embora eu não saiba dizer até que ponto. A outra direita simplesmente não aceita e condena essa versão como farsa: os militares salvaram sim o Brasil do comunismo na década de 60 do século passado, e isso longe de ser uma vergonha, lhes é motivo de honra. É evidente que esta honra, sob os olhos da esquerda em geral e deste outro setor da direita que aceita a narrativa, é um escândalo.

“ ‘Ou o MBL faz parte da política e aceita o debate público e as críticas (especialmente quando estas respondem às suas próprias iniciativas de dissensão!)’
Repetindo: o Kim apenas respondeu uma pergunta em uma entrevista em novembro de 2015. O Carteiro Reaça editou o vídeo de um modo para prejudicar o Kim, lançou-o aos bolsonetes e deu no que deu. Estou sendo repetitivo, mas como diversas vezes em seu texto você repete que ‘é o MBL quem iniciou’, eu repetirei que não foi.

Tudo que você diz nessa colocação n. 2 serve para os bolsonetes que não suportaram ver seu ídolo sendo criticado. Do modo como você fala, parece que apenas os apoiadores do MBL ‘atacaram’. Está quase insentando os bolsonetes de responsabilidade. Aconselho passar na página do Luciano Ayan e do próprio MBL e ver o nível bizarro de grosseria que parte dos bolsonetes – que, sim, compareceram em peso na página do MBL xingando-os.

Não é relevante ao que me importa, como já demonstrei.

E cuidado com a escrita. É conveniente reler ao menos uma vez para pegar detalhes mais grossos, como “insentando”.

“SOBRE A COLOCAÇÃO N. 3:

Não confio que Bolsonaro sentado na cadeira da presidência vai ser tão firme assim como vocês acreditam. O cara está desde os anos 90 (ou antes, caso eu esteja enganado) em cena e suas realizações são fracas. Não passa confiança de que seria um cara democrático – uma rápida busca no YouTube revela opiniões bizarras que ele tem que passam muita desconfiança. E outra, ele apóia regime militar. Entendi o que você quis dizer nessa colocação, mas é visível que, pra maioria, Bolsonaro e nada é a mesma coisa. E a culpa é TODA DELE por ser tão mal político.
Do mesmo modo que o PSDB tem culpa do PT estar há tantos anos no poder devido à sua articulação fraquinha, Bolsonaro tem culpa de ser tão mal visto devido a ter aberto a boca pra falar tanta asneira e participado de eventos bizarros que pedem a volta da ditadura militar.”

Sem problemas, da mesma forma.

Sobre a questão particular da ditadura, a resposta no ponto anterior provavelmente pode ter ajudado a esclarecer o que penso a respeito.

Sobre Bolsonaro, ele terá que se provar tanto quanto todos os outros, e para mim isso não é uma novidade e nem sequer um problema. Se o Bolsonaro desaparecer do dia para a noite, não mudará em nada a descrição da realidade política do Brasil.

Repare que eu não estou torcendo para ninguém. Estou querendo entender as coisas, ou seja, quero habitar os níveis 4 e 5 que expliquei no começo do texto. Se não deixei isso claro pelas rebarbas de meu texto anterior, espero estar agora me redimindo.

“SOBRE A COLOCAÇÃO N. 4:

‘O ponto mais baixo de Reinaldo ontem foi ter afirmado que Olavo agia por vaidade.’
Eu estou completamente de acordo com Reinaldo, visto que as críticas que Olavo faz aos outros sempre incluiu um EU exagerado, uma referência a si próprio, precisando sempre ele estar presente. Não é preciso muito pra ler as entrelinhas e ver que ele está reclamando de não ser aclamado, de estarem fazendo as coisas sem ele.”

Espera aí um momento. Reinaldo respondeu a uma mensagem específica que Olavo havia lhe encaminhado. Transcrevi esta mensagem mais acima. Nela não há nenhuma vírgula de vaidade, pelo contrário, Olavo considera claramente Reinaldo um interlocutor habilitado a trocar idéias com ele. Ou não é?

Se não há vaidade aí, então onde há?

Na imaginação daqueles que tem suas razões para detestar o que Olavo diz. Isto é o que você chama de “ler nas entrelinhas”.

Se Reinaldo pode julgar gratuitamente o caráter vaidoso de Olavo em geral, não respondendo com isso à mensagem específica que lhe foi remetida, porque não se pode fazer o mesmo com o Reinaldo de volta?

“Olavo disse que o Kim é tão relevante quanto “um mosquito”. Na nossa última conversa você me disse, com certa impaciência e irritação, “o Olavo é que fez tudo isso aí que está acontecendo”.
Não vi ele em nenhuma manifestação, nem convocando pessoas para a manifestação. Nem conseguindo fazer o Cunha abrir o processo de impeachment. Nem comparecendo na Câmara para pressionar os deputados a votarem a favor da redução da maioridade penal – haviam membros do MBL lá, inclusive o Kim, fazendo isso. Esse rapaz que o Olavo considera um “mosquito”.
Olavo escreveu muitas coisas, falou muitas coisas, mas quem está FAZENDO, do verbo FAZER, atos físicos, estar presentes nos lugares, fazer EVENTOS, não é ele, e você sabe bem disso.
Olavo precisa diminuir um jovem que está tentando mudar o país e, para isso, se auto referenciar de monte, se citar de monte. Isso não é vaidade?”

Não é vaidade.

São pelo menos três coisas:

a) primeiramente o reconhecimento de uma realidade, que é a vasta predominância e alcance do trabalho intelectual e cultural sobre o trabalho político. Gestos e palavras de pessoas hoje refletem idéias filosóficas de séculos ou milênios atrás. Olavo se reporta à esse nível de influência, e age neste mesmo nível. Se você não o viu nas manifestações, é porque ele não precisava estar lá para influenciá-las fortemente, e se isso parece estranho demais, basta rastrear e pesar todas as demais influências culturais e intelectuais que pesam sobre o ambiente político para verificar que essa é uma realidade. Não é estranho, por exemplo, que as pessoas tenham pensamentos marxistas sem nunca ter lido Marx na vida? Pois é, eis o nível em que Olavo opera. É mais sutil, mas dá para entender se você se dedicar a isso. Pedir que Olavo esteja pessoalmente nas ruas gritando palavras de ordem e agitando cartazes faz tanto sentido quanto pedir que Alexandre desça do seu cavalo para tomar posto entre os soldados da falange, porque senão “não estará na guerra tanto quanto nós”. Não é bom para Alexandre e não é bom para os soldados;

b) em segundo lugar, é a lembrança da ordem correta da sequência dos fatos. Quem foi às ruas em primeiro lugar foi o povo, bagunçando em 2013 uma estratégia que era inicialmente dos revolucionários petistas. Por um desses acasos da vida, quando o povo tomou as ruas em meados daquele ano, estava eu nos EUA e, coincidentemente, estava pessoalmente na companhia de Olavo no dia em que ele gravou um vídeo para ampliar a compreensão daqueles eventos. Ele daria uma aula normal para alunos naquele dia, mas resolveu gravar um vídeo sobre a situação política, porque a situação era confusa. Lembro claramente de Olavo dizer que a mobilização popular era “um corpo sem cabeça” que lutava contra uma “cabeça sem corpo“, isto é, o povo desorganizado e revoltado contra o governo de um lado e de outro lado os ideólogos e burocratas do governo que não conseguiam mais manobrar as massas. Isso em meados de 2013. Me recordo bem que ninguém conseguiu narrar os eventos com a mesma acuidade de Olavo. As televisões e jornais não tinham uma descrição dos fatos a dar, porque haviam, evidentemente, sido programados para narrar outra coisa, isto é, a mobilização organizada pelos interesses petistas que faliu debaixo da massa popular. Ora, foi a partir da descrição de Olavo da mobilização popular espontânea como “corpo sem cabeça” que ocorreu a organização dos movimentos populares posteriormente, seja sob inspiração direta da influência dele, ou indiretamente. Os movimentos espontâneos sem liderança foram inicialmente contra todo o organismo político, ou seja, tanto contra o PT quanto contra o PSDB, pois este era o sentimento das ruas. Ninguém se sentia representado por Brasília, e a cidade foi quase que literalmente virada do avesso em 2013. Com as lideranças organizando as ruas no ano seguinte, inclusive MBL, o primeiro desvio ou atenuação deste sentimento originário se deu em virtude do período eleitoral. A direita viu-se praticamente inteira na obrigação de apoiar Aécio, e com razão. A partir da vitória do PT e da decadência vertiginosa da situação do país em 2015, ocorreram todos os panelaços e as manifestações que vimos e de que participamos. Mas, se em 2013, por razões muito mais leves, o povo já ia para as ruas espontaneamente, porque deixariam de ir em 2015 quando a situação era muito mais grave? Não precisaram do MBL em 2013, quando este nem existia, e não precisariam novamente em 2015. É claro que o povo iria às ruas em massa, e talvez virassem, finalmente, Brasília do avesso. Mas não foi bem isso que aconteceu, e as lideranças, inclusive o MBL, organizaram as coisas como bem entenderam. É um direito dos movimentos fazerem o que acharem melhor. Mas alguns, como Olavo, podem achar que não agiram da melhor forma, e que estejam no fim das contas prestando (com ou sem consciência) um serviço ao esquema esquerdista. E Olavo particularmente fala isso como aquele que não só deu em grande parte e quase que sozinho as condições intelectuais de surgimento de uma direita no Brasil ao longo de anos, como aquele que diagnosticou rápida e precisamente a ausência específica de liderança para o grande sentimento de indignação das massas populares contra o esquema petista, espaço este que o MBL ocupou junto com outros movimentos. Considerando tudo isso, eu acho que Olavo pode falar alguma coisa a respeito do assunto;

c) em terceiro lugar, é a medida de comparação do peso dos sacrifícios que Olavo fez pessoalmente na sua vida para não transigir com o esquema esquerdista como um todo, contra a facilidade com que as lideranças dos movimentos cederam e aceitaram termos em comum com a esquerda soft. Se Olavo quisesse ser colaborador ativo do PSDB na sua carreira, seria pela sua capacidade intelectual eleito um luminar da esquerda soft brasileira, elevado às mais altas esferas intelectuais do país por FHC, Serra, etc. Olavo poderia facilmente ter feito isso. Mas não o fez, porque julgou que não era o certo, mesmo que essa recusa não lhe trouxesse quaisquer benefícios e, ao contrário, lhe causasse várias perseguições e campanhas de difamação. É com esta experiência nas costas e com o peso moral desta decisão que ele enxerga a fraqueza das lideranças atuais.

Isso tudo é vaidade?

” ‘É uma gafe mais ou menos como a de satanás reclamando da maldade de um outro, algo assim.’
Discordo. Se Reinaldo tem vaidade? Todos nós temos. Mas aonde Reinaldo se citou? Aonde Reinaldo se exaltou? ‘EU fiz isso, EU descobri aquilo, EU avisei tal coisa’. Não vi isso nos textos do Reinaldo sobre o caso. Reinaldo só está sendo coerente, pois ele sempre apoiou o MBL, entrevistou membros, participou inclusive de atos pequenos como um que teve no MASP em setembro passado. Reinaldo está citando feito louco a palavra EU, como Olavo tem feito?
Aliás, bem tendencioso colocar um crítico do Olavo como “satanás”, mesmo que seja em metáfora. Tem certeza que é o MBL que é o incriticável?”

Se Reinaldo não diz que fez isso ou aquilo, não pode ser pelo simples fato de que ele não fez mesmo?

Usei “satanás” como poderia ter usado uma figura qualquer. Se você achou tendencioso, então é porque infelizmente você acha mesmo que eu estou fazendo luta política a favor de Bolsonaro, Olavo, etc. Não estou.

É claro que Olavo não é incriticável. Só é difícil criticá-lo mesmo. Porque para fazer isso de fato é preciso subir ao nível dele, o que não é tão fácil quanto parece.

“ ‘O deslocamento da opinião pública para fora do controle hegemônico do esquerdismo está causando erupção de egos como nunca se viu antes.’
Isso por parte do Olavo e do público do Bolsonaro – não é nem o próprio Bolsonaro, e sim o público dele. Já no caso Olavo, o próprio e o público. Repito: não vejo Reinaldo se referenciando, clamando por atenção, clamando por ‘enxerguem EU aqui, enxerguem o que EU fiz’. “

Sem problemas, não sou juiz. Minha passagem era especulativa e eu coloquei esse juízo como hipótese. Não tem importância.

” ‘Prefiro acreditar nisso do que em covardia pura.’
Covardia? Sério mesmo?
Vejamos: Reinaldo sempre apoiou o MBL. Sempre. Reinaldo nunca se bicou com Bolsonaro e deixou isso claro. Reinaldo fez textos no qual endossa essas duas afirmações anteriores. Por causa disso, Reinaldo é um “covarde”.
O que faria dele um cara corajoso? Se ele exaltasse o Bolsonaro e descesse a lenha no MBL seria corajoso? Como não o fez é “covardia pura”?
Aí o Olavo entrou na história, criticando o Reinaldo pois, afinal, Reinaldo criticou o Bolsonaro, e onde já se viu criticar o Bolsonaro, né? OK. Olavo criticou e Reinaldo respondeu. Por ter respondido, Reinaldo é covarde? Se abaixasse a cabeça para o Olavo aí Reinaldo seria corajoso?
A não ser que eu tenha entendido completamente errado, mas o que parece que você quis dizer é isso: que Reinaldo é covarde por ter sido coerente com o que sempre opinou e defendeu.”

Embora esses aspectos não me interessem, vou comentar ainda assim porque você precisa melhorar a sua leitura.

Em primeiro lugar eu disse que prefiro acreditar em hybris do que em covardia. Isto quer dizer que eu não acredito em covardia, ergo, não estou chamando Reinaldo de covarde.

Em segundo lugar, se eu chamasse Reinaldo de covarde, seria obviamente por sua covardia e não por sua incoerência. Você afirma que Reinaldo só seria covarde se fosse incoerente, e essas duas características são bem distintas, preste atenção.

Incoerência, aliás, é uma das coisas a que Reinaldo está mais imune, e bem ao contrário, como é perceptível pelo seu esforço em favor do legalismo e pela defesa institucional, Reinaldo parece mais ser um refém da sua própria coerência. Já escrevi isto antes, num texto sobre a questão dos habeas corpus dos empreiteiros presos pela Lava-Jato.

Para mim, por exemplo, ele seria covarde se agisse como age para preservar seus empregos, coisa que não fizeram Joice Hasselmann na Veja, Olavo em muitos empregos, etc. Ainda assim, e apenas como chute porque –repito– não sou juiz de ninguém, eu apostaria mais em hybris do que em covardia. O que ainda é uma generosidade, porque um engano de momento é melhor do que uma fraqueza constitutiva.

Mas, insisto, não é devido julgar Reinaldo pessoalmente de forma alguma. E nem mesmo seria preciso, a título de punição por um erro, porque quem mais perdeu mesmo com a recente disputa foi ele próprio. E nada impede que ele amanhã dê uma grande volta nisso tudo, para o nosso gosto.

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2 respostas para “Esclarecimentos sobre o que (me) importa na divisão da direita brasileira (em resposta ao comentário de meu amigo sobre o texto “Dia triste uma ova”)”

  1. Boa noite. Agora sim li inteiro. Em primeiro lugar, ótimo texto. Foste dessa vez bastante claro e detalhou pontos que antes não haviam sido percebidos. Entendi o que quis dizer a respeito de subir o nível, passar da espuminha para as ondas (ou areia). Os pontos que gostaria de comentar, por não ter entendido por completo ou por discordância, são os seguintes:

    (1) Sobre a vaidade de Olavo, realmente, terei de ceder que na mensagem a qual ele enviou para Reinaldo não havia manifesto de vaidade. Embora seja altamente comum encontrar referências vaidosas em suas postagens do facebook (de cada 10, no mínimo umas 7 incluem a palavra EU seguida de um elogio ou um reconhecimento), mesmo assim, nessa que enviou para Reinaldo não havia vaidade.

    (2) Reli os dois textos de Reinaldo para Olavo e não identifiquei problemas, tirando essa parte da vaidade que, pra falar a verdade, nem considero um erro do Reinaldo pois, por mais que na mensagem que Olavo enviou para ele não houvesse nenhuma menção a si próprio em elogio, as críticas de Olavo ao MBL sempre aparecem carregadas de eus, de auto-reverência, e essa birra do Olavo com o MBL fazia parte do pacote. Reinaldo deu “dicas” para Olavo ser um “mestre”, mas deixou claro que era opinião, nada de “princípios elementar”, como adora falar bonito o Carvalho. Eu, ao menos, estou completamente de acordo com tudo que Reinaldo falou, inclusive nos elogios que fez.

    (3) Gostei bastante da parte que explicou a influência cultural do Olavo e estou completamente de acordo. Só não acho que “foi ele quem fez tudo isso que está aí”, como tu afirmou em nossa última conversa pessoalmente, e creio que tu mesmo não concorde com tal afirmação literal. Li um bom texto hoje que explicava sobre o fenômeno ocorrido em 2013 e o porquê de, depois daquilo e do surgimento dos movimentos pró-impeachment, agora os protestos contra o aumento da passagem estão com baixíssima aderência. Reconheço, e não é problema algum reconhecer, que ele fez e faz a parte dele no que lhe cabe, e que é importantíssimo o que fez/faz. Mas, sabemos, só isso não basta. É preciso haver ações no sentido físico da coisa, é preciso ter quem chame as pessoas pras ruas, é preciso ter quem se dedique com afinco como faz o site e página no facebook do MBL e dos demais movimentos. O trabalho desses é importante também. Me aborreceu ver Olavo desapoiando os que finalmente estão fazendo algo. Você diz que ele se revolta com o MBL trocando ideia com FHC porque ele próprio não o fez, mas são ações diferentes. MBL está agindo no sentido mais político da coisa, e é preciso haver quem faça isso, concordas? Uma pena que Olavo considere isso imoral a ponto de anular todas as ações que o MBL já fez.

    (4) No penúltimo parágrafo, não me ficou claro o que quis dizer. Pelo que entendi, disse que consideraria Reinaldo um covarde se ficasse sabendo que ele está “agindo como age” (palavras suas) para preservar seu emprego. O que quis dizer com “agindo como age”? Diz a respeito das respostas que ele enviou para o Olavo? Honestamente, e não só por concordar com o conteúdo delas, não as achei imorais e nem ofensivas. Cutucou na parte da vaidade, mas diante de tantos ataques que Olavo recebe, creio que isso seja apenas um peteleco, não? (Olavo ao tentar ofender Constantino essa semana disse que “toda a formação cultural do Constantino vem dos meus textos”. poxa! tá ficando chato tanta vaidade, na moral)
    Diante disso, não entendo como isso poderia ser uma estratégia para não perder o emprego que tem. Joice Hasselmann foi demitida por pressão recebida pelos covardes diretores da Veja quando ela disse que “Lula é um câncer que precisa ser removido” (de acordo), mas não vejo a ligação disso com o caso Olavo de Carvalho. Só se é “ele está desdenhando do Olavo pois o Olavo é um inimigo público do PT e, com isso, tira o dele e o da Veja dessa reta”, mas ainda assim me parece desconexo.

    De resto, de acordo com tal frase lúcida: não houve um rompimento na direita, pois na verdade uma junção nunca existiu. Essa situação serviu para mostrar isso. É uma pena que o grupo dos bolsofans, comumente reclamões de “brasileiro não faz nada, não protesta, deixa o governo fazer o que quiser com ele” não tenha nenhuma proposta além de votar no Bolsonaro em 2018, ou pedir volta da ditadura, enquanto poderiam se organizar e pensar em estratégias que mais lhe agradem para destruir o inimigo comum da direita. Agem como se esse deputado fosse o Salvador, que basta tomar a cadeira presidencial e todo o mal será dissipado, e isso é muito complicado… mas, problema deles.

    Há outras coisas a falar, menos relevantes, mas prefiro esperar a próxima conversa ao vivo.

    No mais, muito obrigado pelo ótimo texto e pela atenção às questões.

    Abraço!

    1. Sobre a questão da suposta vaidade de Olavo, garanto-lhe que tem mais nisto do que a vista enxerga, mas certas coisas precisam de tempo para amadurecimento e compreensão. Eu precisei.

      Do mais podemos falar mais tarde pessoalmente e esclarecer certos pontos.

      Uma dica: percebo que com razão você valoriza a iniciativa de ação dos movimentos. Talvez isso, ao invés de per se enobrecer as idéias e as intenções destes grupos, diga mais respeito ao seu sentimento pessoal, para a sua própria vida, de querer mais energia e movimento. Certamente não só contigo, mas com toda uma massa jovem pode ter ocorrido o mesmo sentimento, que tem uma raiz boa mas talvez se disperse na canalização para os grupos que pareçam terceirizar para a política um espírito de iniciativa que não se manifesta no nível individual. Este, aliás, é o combustível típico das ideologias: a canalização da frustração existencial da geração mais jovem para a promoção de projetos de poder.

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