Sobre a Fé

Biltmore Art in June 2015 including tapestries, paintings, details and cross lighting to show the state of the art.

 

Atrasado, atendo finalmente ao pedido de duas pessoas queridas que, mesmo não se conhecendo, coincidentemente pediram para mim a mesma coisa: que escrevesse sobre a fé.

Então vamos lá. O que é a fé?

Não farei um estudo sobre o tema, porque não acho que seja exatamente o que me pediram, além do que eu não teria a menor condição de montar uma análise de grande envergadura tão rapidamente.

Posso falar, então, do que me sobra, do que vem do meu coração:

Fé é a força de confiar no Bem.

Vamos por partes.

A palavra “fé” vem do latim fides, e significa acreditar ou confiar.

O uso comum que damos a essa palavra, na nossa experiência espiritual e religiosa da vida, designa uma capacidade particular de crença, voltada justamente a algo que transcende este mundo, que tem a sua origem para além da nossa experiência comum terrena.

Infelizmente, com a devastadora perda das tradições no Ocidente, as pessoas confundem o que é a fé no sentido tradicional com conceitos provindos de disputas da filosofia moderna.

No seu sentido tradicional a fé não é a crença na existência de Deus, ou na realidade do Espírito, etc.

O problema da abertura para a vida espiritual, para o que é invisível, transcendente, metafísico, etc., não é um problema de fé: é um problema de educação. O reconhecimento da realidade espiritual da existência depende de observação da experiência, sinceridade, honestidade, inteligência. Não é um problema de crença em coisa nenhuma.

Então temos aí o nosso primeiro mata-burros no assunto da fé: essa força é possuída pelos que não colocam a realidade espiritual em dúvida, ou pelos que já superaram suas dúvidas a respeito.

Ter fé não é acreditar em Deus, no sentido de que Ele exista, mas sim acreditar que Ele está contigo agora mesmo, que Ele deseja e age para o seu bem, e que portanto Ele espera que você seja a melhor pessoa que puder ser para receber as suas graças.

Isto nos leva a analisar o que é o termo “força” que empreguei na minha definição de fé.

A fé é, tradicionalmente, uma virtude.

Uma virtude é uma força, é um poder de fazer algo.

A fé é a força de confiar no Bem de duas formas:

1. Você acredita e confia que Deus não te criou para o abandono, para que fique largado e desprotegido neste mundo como uma fera na selva. E crê que, portanto, sempre que você precisar Dele e pedir sinceramente pela Sua ajuda, Ele não te abandonará. Parece simples, não? E é. A força de fazer isto é usada inúmeras vezes por inúmeras pessoas, todos os dias, quando elas acreditam que não estão abandonadas à sorte, e que se pedirem do fundo do coração, serão auxiliadas por um poder superior. Você acredita que foi criado para encontrar o Bem;

2. Você acredita e confia que Deus espera de você o melhor, ou seja, que a realidade espiritual da existência exige que você seja uma boa pessoa, a melhor que puder. Isto significa que para sermos bons espiritualmente nós teremos, com frequência, que negar diversos instintos animais presentes em nós, ou reações derivadas destes instintos. Nenhum animal jamais se coloca esse tipo de problema. Nós não só colocamos a questão espiritual, como exercitamos isso, através do uso dessa força (a fé), que pode ser usada até a mais plena santificação humanamente possível. O que é a santificação? É o caminho da perfeição humana, que só pode ser ativado a partir desta força sobrenatural da fé. Somente esta força nos permite praticar a caridade, a humildade, a justiça, etc., ou seja, a fé é uma virtude que concede ou permite o exercício das outras virtudes, como se as abrilhantasse com a luz do seu fogo divino. Negando-se interesses e benefícios quaisquer, você acredita que deve praticar o Bem, mesmo que, e especialmente, não tiver garantias quaisquer de ser retribuído por isso.

Por fim, a fé necessariamente tem uma origem sobrenatural.

Não pode ser uma “virtude humana” (no sentido de ter sua origem na mera existência terrestre), pois confiar no Bem é a mais gratuita, inocente e pura das intenções possíveis, e exige portanto algum tipo de energia ou de poder especial que permite abraçar essa gratuidade sem a existência de qualquer elemento causal externo, ou vínculo de necessidade. A fé é, assim, um “puro dom de Deus”, que nos dá gratuitamente a capacidade extraordinária de confiar no Bem.

É um caminho aberto para a descoberta da perfeição em dois níveis, a perfeição da própria criação divina, cujo Bem descobrimos sempre que nos abrimos sinceramente para conhecê-lo, e a perfeição da nossa própria alma, que sempre poderá ser melhorada por esse desejo de busca do Bem.

Pode soar engraçado até, mas na verdade ocorre que embora a fé não sirva para nos fazer crer que Deus existe, a consciência da presença dela serve perfeitamente como prova de Sua existência. Se Deus não existisse, donde surgiria a força de acreditar no Bem sem nenhuma exigência externa à nossa vontade?

A fé é a força de confiar no Bem: é a força de acreditar que somos destinados ao Bem que governa todas as coisas, e que é bom sermos bons, por pura gratuidade, ou seja, por pura Graça.

 

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