Uma chance para o país dos farsantes e dos tolos

Cristo Redentor

 

A revista EXAME, em sua última edição, afirmou que ninguém falava absolutamente, há um ano atrás, de uma crise da dívida pública. E que agora este tema surpreendentemente tomou densidade. O que querem dizer, na verdade, é que nenhum dos desinformados –ou dos desinformantes– falava do assunto. Eu publiquei aqui um texto sobre esta questão em Fevereiro de 2014, e já falava do tema desde antes disso, ao menos para os ouvidos menos sensíveis dos que não se incomodam de ouvir o que não lhes agrada. E certamente não fui o único. Mas o que é a mídia brasileira, senão uma tricotagem sem fim de camaradas que permutam entre si as mesmas versões dos fatos para ludibriar o grande público? Que uma revista dita especializada não tenha sequer cogitado tocar neste tema há apenas dois anos atrás, quando todos os sinais já eram suficientes para se fazer pensar pelo menos um pouco a respeito, este é o verdadeiro escândalo.

Isto me leva a fazer algumas considerações mais amplas.

Tenho para mim que o povo que sai para as ruas, em sua grande parte, ainda não atinou para a real dimensão do seu problema. Antes fosse o nosso único imbróglio a corrupção de PT, de PMDB ou de PSDB. Seríamos mais felizes. Desde que o mundo é mundo existe o roubo, a corrupção, etc., e de alguma forma nós sobrevivemos a esses problemas. O que é novidade e sinal dos tempos é o absurdo a que chegam as ilusões. Ocorre que a tolice e a farsa alcançam os níveis mais absurdos no Brasil. E isto é pior que a corrupção porque quem te faz crer e viver numa mentira te faz muito mais mal do que quem apenas rouba o seu dinheiro.

Existe todo um aparato potente capaz, de fato, de alienar massas inteiras da realidade do país, invertendo tudo quanto se pode: tornando aparentemente melhores as coisas que estão nas piores condições, e fazendo de pior aquilo que não está tão ruim; chamando atenção ao que é desprezível, e omitindo aquilo que é mais urgente. Nós poderíamos meditar sobre este método, que envolve não só a grande mídia, mas o mundo cultural como um todo, o famoso establishment. Há a repetição de modas e de instruções externas, há a deliberada ação estratégica premeditada para causar os efeitos desejados no longo prazo, e há diversas práticas de engenharia social testadas mais ou menos aleatoriamente. Mas não é o meu propósito aqui. Quero apenas fazer um anúncio muito feliz aos interessados: é sempre possível aterrissar no planeta Terra e voltar a enxergar as coisas como elas são.

A grande mídia é quase toda ela um instrumento de agentes de poder com interesses econômicos e políticos, o que não chega a ser uma grande novidade em parâmetros globais. A especialização brasileira, porém, abrange um terrível agravante: enquanto em toda parte (exceto em nações governadas por ditaduras) há um esforço para se conduzir e encaixar as narrativas falsas aos fatos de conhecimento comum, no Brasil parece que a mídia já se tornou a intérprete oficial e regulamentar da realidade. Aqui, ao contrário da natureza das coisas, parece que é a realidade que tem que fazer o esforço de se impor para ser vista por debaixo da sua versão imitativa midiática, exatamente como ocorre numa ditadura. Nunca a revolução cultural gramsciana encontrou no mundo um povo tão dócil e desprevenido quanto no Brasil.

As universidades constituem-se como fábricas de técnicos, como vendedoras de diplomas, e como difusoras de ideologia. A mínima noção de amor ao conhecimento –que é a base da idéia de universidade– escapa completamente da realidade mental brasileira. É assim também em outros países? Não sei dizer com pleno conhecimento, mas novamente parece ser bem possível ao caso brasileiro uma espécie de desistência mais profunda com relação a tudo o que há de elevado e superior. Aliás, falar em coisas “elevadas” e “superiores” no Brasil é quase uma breguice, uma cafonice. Experimentem e verão: a reação imediata mais comum a qualquer alusão séria de idéias e de valores nobres é o DEBOCHE. Isto é o Brasil.

Mídia, universidades… quem mais colabora na farsa?

Há também os vários representantes (não todos, evidentemente) da religião, vendidos por dinheiro e poder, ou cúmplices ideológicos de um esquema político, como ocorre com alguns evangélicos, com alguns católicos, etc. Há também os órgãos de classe, associações, sindicatos, etc., parceiros frequentes de tantos combinados republicanos e não tão republicanos assim. E há também, é claro, os muitos empresários e investidores que tiram e põe deputados e senadores no bolso do paletó como se fossem fichas de cassino.

Este é um país onde a mais vaga idéia de “interesse público” já passou tão longe, que já virou uma fábula, uma lenda. Afinal, estamos todos buscando apenas garantir cada um o nosso lugar ao sol, não é verdade? O Brasil é a terra que acredita no interesse egoísta de Adam Smith, mas não na sua teoria dos sentimentos morais. É uma nação que divide assim os seus expedientes: há aqueles poucos farsantes que enganam, e há aqueles muitos tolos que são enganados.

Outro dia dizia eu o seguinte: tem que pegar Teori e toda a turma do STF e mandar fazer estágio em Curitiba com o Moro. Riram, como se eu só estivesse fazendo uma graça. Mas além da graça, há uma razão, há uma lógica neste meu raciocínio, pois não falava de ensino jurídico, mas de ensino moral.

Passam por ingênuos os que acreditam ainda na força moral, mas só se não têm a caneta na mão. Moro tem uma caneta na mão. Ele então não é mais um mero ingênuo desprevenido: agora ele é o candidato favorito a um escândalo futuro.

Não é assim o Brasil?

Me digam se isso não é verdade.

Basta você sacar um nome que se apresenta impoluto e íntegro, como Moro, ou mesmo o Bolsonaro que as nossas esquerdas amam odiar, e incapazes de fazer o típico ataque frontal desmoralizador de costume (já é quase um “bom dia” no Brasil dizer que “ninguém presta”), os assanhados passam a torcer, com todas as forças e do fundo do seu coração, que esses também estejam vendidos a algum interesse, e que sejam desmascarados assim que possível.

Que imundície moral! Que coisa asquerosa!

Alguém se presta a levantar oposição real contra a corrupção generalizada, e o que fazem é torcer para que este alguém também caia no mal!

Que imundície, que sujeira.

Todos os que secretamente babam de prazer na sua volúpia descontrolada por descobrir que “ninguém presta” deveriam fazer sinceramente uma meditação antes de se entregar a esse orgasmo das trevas. Deveriam perguntar-se: o que me motiva a ter prazer e satisfação com a crença de que o mundo está entregue ao mal? Quem ganha com isso, afinal de contas?

Torcer para o mal ganhar não é realismo: é perversidade, e é a própria maldade em ação no seu coração.

Se forem honestas consigo mesmas, as pessoas obterão com o resultado deste esforço de consciência um autoconhecimento valioso, pois encontrarão, por assim dizer, o inimigo nos portões de sua alma, a ponto de conseguir finalmente expulsar esta energia nojenta e repulsiva de seus corações, e gritar por liberdade. Que descoberta! “O mal não está lá fora… ele está dentro de mim, querendo controlar minhas reações, meus sentimentos, meus pensamentos!” Pois é… a partir daí você consegue realmente compreender que a batalha verdadeira não é uma farsa escrita nos jornais, mas é essa disputa ferrenha na sua própria alma.

Tudo o que sai nos jornais, meus caros, habitou e moveu antes as almas humanas.

Os bons devem ser apoiados, e para cada um bom sujeito que cair por uma triste sina, devemos elevar outros dois outros bons em seu lugar, confiantes de que estes serão vitoriosos onde os outros falharam.

Nesta batalha não existe meio-termo, e não existe uma estrita objetividade desinteressada de observador puramente passivo. Repito: isto não existe.

Tudo o que a nossa sociedade –tanto quanto qualquer outra– precisa é de confiança no Bem, de forma a inverter este sistema perverso que está aí. Ao invés de desacreditar os valores e a moral, devemos fortalecer os que buscam estas coisas boas. Vocês se surpreenderiam se soubessem o quanto isso funcionaria, e o quanto funcionaria rapidamente.

A chance de mudança é real. Vocês não sentem isso no ar? Porque ainda estamos neste mundo, afinal de contas, senão para nos tornarmos pessoas melhores? Vocês não sentem isso? Embora pareçam desavisadas e mal formadas, essas massas populares que vão para as ruas (descontadas aquelas, já nossas conhecidas, que são movidas por um grande interesse particular por sanduíches de mortadela) conseguem ainda distinguir com certa clareza o mínimo que lhes é necessário na condução dos negócios da nação. Basta que os mais esclarecidos deixem para lá a sua mentalidade petrificada e cadavérica, para que surjam aos poucos as lideranças necessárias ao restabelecimento da ordem e a condução das coisas a favor da nação. Aos poucos, é claro. Ninguém está falando de revolução, e não é disso que o país precisa, mas somente de paz e ordem.

Isto já está começando a acontecer, embora sempre surja esse espírito de porco imundo que quer jogar tudo na lama, como se o brilho do valor real de alguma coisa verdadeira lhes ofendesse. É preciso parar com isso imediatamente e denunciar esse procedimento sempre que acontecer. Esta nação precisa fazer isto pelos seus filhos e netos.

Enquanto quiserem continuar com essa pose cínica de uma suposta maturidade desiludida, esqueçam tudo. Continuaremos sendo um povo de farsantes e de tolos.

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