Diário 2016

vega-sevilha

Passou rápido sob o gigante carcino

o rei veloz, trinta e duas vezes.

Que mais tantas dessas passe de novo,

e que por ele Deus me mostre o caminho.

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26/04/2016

O ano de 2016 merece um diário. Gostaria de fazer mais, de poder fazer mais… mas é isso o que temos por enquanto. As lamentações são detestáveis, porque sempre exibem aquela marca da impotência do espírito, e da inconformidade com as coisas. É mais fácil agir no que é possível no mundo concreto, e eis que a realidade surge cheia, forte, pesada, com seus gostos, cheiros, texturas e belezas de toda sorte. Prefiram sempre, meus amigos, viver na realidade, pois vale a pena e nós fomos feitos para isso. E toda lamentação é de certo modo uma fuga do real.

Estou navegando o barco da minha vida numa etapa importante, de uma grande virada que deve se concretizar perto da simbólica virada do ano-novo de 2017.

Agora é a hora da preparação final. Cuido da minha vidinha e vou virando o barquinho aos poucos, num movimento prudente e calculado, para que tudo termine bem para todos os envolvidos. A história terminará bem, se Deus quiser, principalmente pelos frutos deste movimento: que longe de ser um personagem embrulhado em ressentimentos e tristezas, eu possa ser realmente útil em alguma coisa, ou ao menos um sujeito feliz que não represente um estorvo. Vejam como eu sou modesto. Vocês aí, preocupados com o “sucesso”, e perdem essa paz de ser quem realmente deve ser.

Tudo o que eu escreveria e comentaria no meu site e nas mídias sociais, vou escrever privadamente neste diário, que será publicado no meu site apenas no fim de 2016.

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O senhor Juca Kfouri está alarmado com a quantidade de parlamentares que mencionaram Deus em seus votos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, e nisto representa toda uma categoria de miolos progressistas que está apensada na imprensa nacional. Mas que fique claro, não é nenhum sentimento religioso contra a hipocrisia que alimenta esse alarmismo, mas pelo contrário um repúdio esquerdista ao conservadorismo dos políticos, mesmo que este seja da boca para fora. Mas isto é uma desmedida reação contra o que é, no fim das contas, o sentimento de maior parte da população. Não digo que está tudo bem, mas está tudo melhor, sim, do que estaria se apenas progressistas afinados com a agenda globalista estivessem no poder. É difícil defender os parlamentares brasileiros, mas contra Kfouri et caterva de repente não fica tão difícil assim. Esta caipirice do nosso Parlamento é hoje, talvez, uma de suas maiores virtudes contra o esquema globalista de poder. Viva aos não sofisticados! Pela família, pela pátria, e por Deus! Etc., etc. 

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Roberto Jefferson e Eduardo Cunha são como Don Corleone: bandidos que conseguem ser admiráveis ao seu modo muito precário e limitado, e apenas em certas circunstâncias. Me parece que alguns hipócritas prefeririam até um totalitarismo petista devidamente camuflado com propaganda e atenuado com anestesias, do que uma vida política democrática com o jogo sujo declarado que, não obstante o seu elevado grau de putrefação, é o que impede o país de cair nas mãos de gente muito perigosa por razões muito piores que a corrupção.

Esta situação me lembra aquela conclusão que fiz do filme A Lista de Schindler: Boa parte daqueles judeus foram salvos por causa da corrupção de alguns nazistas menos ortodoxos, como o próprio vilão do filme, Amon Goeth. Em outro texto, falando especificamente do PMDB, já alertei que nós seríamos devedores desses picaretas.

O impeachment, que, aliás, está longe de ser uma solução para todos os problemas do país, saiu no fim das contas não por causa do PSDB, mas principalmente por causa do PMDB.

Aqueles que se esgoelam pelas contradições dos jogos de poder precisam ler menos teorias políticas idealistas e mais história. A defesa do Bem passa, no mundo concreto e especialmente no campo da política, pela tolerância de um mal menor contra um mal maior. A noção de hierarquia e de proporcionalidade racional é fundamental em matéria de moral.

Se tem muita gente reclamando disso, significa apenas que a nossa sociedade é infestada de mentalidades infantis e ignorantes.

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O nepotismo não é necessariamente um problema. O problema é o privilégio dos piores. Ou seja, no fim das contas, o problema é a injustiça.

O que se entende hoje em dia por “meritocracia” nada mais é do que uma sombra de uma moral tradicional, um arremedo produzido pela racionalização da virtude da Justiça para fins inferiores de atingimento do famoso “sucesso”. Que decadência.

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Está na hora de falar da existência de uma esquerda liberal no país.

A identificação total do liberalismo com a “direita” não faz mais tanto sentido. O liberal direitista em geral o é exclusivamente em matéria de economia, no resto sendo bastante conservador contra a agenda globalista. Já o liberalismo no sentido completo remete ao que os americanos chamam de liberals, ou seja, praticamente o mesmo que “esquerdistas”.

Este ajuste nos faria começar a voltar ao normal, ou seja, a escapar da hegemonia esquerdista que chegou a tal ponto no Brasil que tanto o liberalismo quanto o conservadorismo foram jogados no mesmo latão de lixo, como se tivessem semelhanças e concordâncias que no fundo não têm. Cada qual, representando as suas idéias, terá a oportunidade de compreender os limites que há entre as diversas posições e no fim, espero eu, ficará clara sim a existência de uma esquerda liberal.

O resultado final disto será que uma minoria optará pelo liberalismo total, de esquerda, e a direita ficará mais forte do que nunca, liberal em economia e conservadora nos costumes. O brasileiro quer prosperar, mas não quer se tornar um palhaço de circo. Ressalvo, não obstante, que mesmo o liberalismo estritamente econômico possui seus vícios e limitações herdados de sua origem revolucionária. É desta forma que até conservadores no Brasil podem curiosamente revolucionários, assentindo aos poucos com várias premissas revolucionárias via liberalismo.

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Quando digo “liberalismo total, de esquerda”, já pressinto a natural recusa do termo. Afinal, na questão econômica o que se entende como “liberalismo” parece ser o total contrário do pensamento de esquerda. Mas mantenho esta provocação, ainda assim, para dizer que na concepção de mundo das duas mentalidades, de direita e de esquerda, não é a gestão econômica que define as posições, mas o papel do Estado.

Digo papel e não tamanho. Em breve pretendo dissertar mais profundamente sobre a diferença que há, objetivamente, entre uma coisa e outra. Mas já posso antecipar que para o pensamento de direita, tal como eu o entendo, a conservação das tradições e dos costumes vale mais do que a idéia pura de liberdade econômica, que está mais atrelada a uma revolução cultural e a valorização do papel do Estado do que parece.

O raciocínio é simples: se o liberal não reconhece o valor das instituições tradicionais da sociedade civil, ao mesmo tempo em que ele prega a diminuição da interferência do Estado, ou do seu tamanho, ele reconhece que apenas o Estado é árbitro das questões públicas, ou seja, o condutor das questões relevantes para a sociedade. Escreverei mais a respeito disto. A verdadeira redução do Estado é a redução do seu papel social, e isso requer o fortalecimento não dos indivíduos (que, por si, nas suas disputas, requererão necessariamente a intermediação de um poder moderador, público, estatal), mas da sociedade civil em todos os seus organismos naturais, entre os quais e principalmente, as famílias e as comunidades religiosas. Eu sei que isto é um tanto polêmico e por isto voltarei depois para tratar com mais detalhes.

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Outro dia os jornalistas questionaram o Roberto Jefferson sobre a legitimidade de doações de empresas em campanhas eleitorais para a defesa de seus interesses junto aos parlamentares. A questão é o quão republicanos são os interesses, e não esta espécie de representatividade em si mesma. Porque raios uma empresa não poderia contribuir com uma campanha que lhe favorece legitimamente?

Os jornalistas, costumeiramente e convenientemente, escolhem quando querem ser maliciosos e quando querem ser ingênuos. No meio do caminho dessas escolhas ocorre o enfraquecimento do sistema democrático e do papel do Parlamento. A mídia trabalha como aquele que pretende ser um observador puramente passivo da ciência, e que inconsciente da sua influência no resultado das coisas surpreende-se com os resultados, e cobra dos outros aquilo que não é capaz de cobrar de si mesma em primeiro lugar.

A reforma política no país requer, além da implementação de um voto distrital e de outras coisas, a legalização do lobby.

Mais do que nunca a valorização do Parlamento é necessária, se é que nós queremos mesmo preservar a República e leva-la ao seu melhor termo. Por isso meus malvados favoritos são Jefferson e Cunha: foi o Parlamento do Brasil, através não só de convicções e de consciências mas através mesmo de um corporativismo interesseiro, que defendeu o país do totalitarismo petista. O que as pessoas precisam entender, de uma vez por todas, é que o totalitarismo é muito mais perverso do que se imagina. É quase engraçado saber que o povo deste país não tem a referência totalitária muito clara graças a intervenção dos militares em 1964, impedindo a implantação de um regime comunista.

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Fui moderadamente censurado no meu Facebook quando questionei o modelo de crítica de Reinaldo Azevedo contra a suposta “extrema-direita”, apenas porque mostrei um vídeo do Conde Loppeux criticando Bolsonaro de uma maneira que, para mim, parecia correta.

Será que estou amolecendo? Olho para a República com um olhar mais generoso do que deveria? Para o “Estado Democrático de Direito”?

Falta substantividade e concretude nesta história. Sinto o chão mais mole, começando a ceder.

Os críticos da Nova República, com muita justiça, mostram historicamente o desastre deste regime que nasceu e sucedeu-se temporalmente como uma série de golpes. Mas não deixam claro, ao mesmo tempo, o que pensam para o país. Criticam até aqueles que querem pensar nas idéias políticas: o pragmatismo prospera contra o PT e contra o Foro de São Paulo. Entendo. Vou até além: devemos ir contra o sinistríssimo sistema globalista, com sua influência nefasta por institutos, ONGs, regulamentos da ONU, etc.

Mas o problema é que, comigo, ainda penso em toda essa defesa dentro da democracia e do sistema político. É claro que isso dá trabalho, mas também dá mais segurança. O que impede um contra-golpe esquerdista de conquistar o poder contra um totalitarismo direitista? Não é a causa justa que garante a vitória.

Fico com São Tomás de Aquino: uma boa ação é boa nas suas intenções, nos seus meios e nos seus resultados. Nem Bolsonaro escapará desta realidade.

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O Senador Romero Jucá reconhece que a população pode passar por cima da classe política. Disse que ou os políticos decifram essa esfinge, ou serão devorados.

Não é uma questão de decifração. O que nós queremos é que as tão elogiadas instituições republicanas funcionem. Não é preciso decifrar isso, porque é evidente o desejo da população.

Pessoalmente não tenho porque ir contra um eventual governo Temer, e a continuidade da discussão política nos moldes das instituições aí presentes hoje, porque essas coisas podem funcionar.

Mas o que eu sei é que o PT precisa ser extirpado do poder como um câncer, antes de mais nada. Se os políticos querem uma chance de futuro, esse é o preço de entrada.

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27/04/2016

A política definitivamente é um jogo de forças, no qual ganha o que for mais forte numericamente ou mais astuto, e neste sentido podemos dar uma mínima razão ao pragmatismo maquiavélico. Mas a política não é apenas isso. E na sua parte mais nobre, mais importante, a política é o ambiente de entronização (ou não) da justiça, o que não é pouca coisa.

Daí que existe a tensão inescapável entre as forças e as razões, como o conflito olímpico entre o império do poder de Zeus e a ordem razoável de seu potencial sucessor, Apolo. Este é um outro tema interessante para ser explorado no futuro. Há, aliás, uma correspondência entre esta tensão e um sentido profundo da relação entre a Primeira e a Segunda pessoas da Santíssima Trindade, que no seu mistério resolvem de algum modo este conflito que para nós resulta, por nossos esforços, insolúvel.

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É evidente que o regulamento da ANATEL para limitação da internet fixa não obedece somente ao lobby das teles, mas a uma agenda política. Agenda esta que está, aliás, buscando compensar os vastos prejuízos já causados ao esquema de poder dos totalitários pelas redes sociais. É algo errado de tantas formas, que precisamos nos dar ao trabalho listar todos os motivos equivocados de tão absurda medida.

Um presidente de uma agência reguladora dizer que “chegou ao fim a era da internet ilimitada” chegaria a ser cômico, se não tivesse as suas repercussões no mundo real.

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Talvez o deputado Jair Bolsonaro esteja acertando numa tática de atração da atenção nacional, no velho esquema do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”. Isto não o torna imune, no entanto, às críticas que venham, inclusive, de aliados e simpatizantes. Se for realmente um modus operandi, esta é, no entanto, apenas uma das táticas necessárias para alcançar o poder. Nós precisamos e aguardamos as outras.

No mais, o esperneio da imprensa a respeito das polêmicas em torno de Bolsonaro chega a ser um espetáculo interessante, que nos permite até com facilidade apontar as premissas equivocadas desses bons moços da nação.

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Os hipócritas críticos dos discursos dos Deputados Federais na sessão que aceitou o impeachment da Dilma Rousseff, que julgam a sessão como “grotesca” etc., são mesmo confiantes de ser tão mais capazes de produzir eloquência política por si próprios? O Parlamento reflete a sociedade, especialmente na Câmara dos Deputados. Eu acho que a média é essa mesma, não vejo nada de errado. Uns 10% são mais coerentes, ou até menos, e o resto são papagaios e fanfarrões. Para que os melhores cidadãos se tornem políticos eleitos, é preciso em primeiro lugar prestigiar a política. Eis a primeira e mais decisiva contradição destes críticos: são incapazes de observar a sua própria contribuição para o agravamento do problema que diagnosticam. E fazem isso, pior ainda, nem tanto por convicção própria, mas sob a condução do mainstream de mídia, de grupos de pressão, etc.

Macaquinhos patéticos.

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A Flávia Tavares da revista Época, que chamou Bolsonaro de “meme de si mesmo” em uma reportagem, deveria tentar disfarçar melhor a premissa progressista embutida na sua crítica. Fica tão evidente, pelos termos e pela forma do seu discurso, que ela apenas propagandeia uma determinada posição política, que o seu texto acaba sendo inútil, uma pregação para convertidos. Pode não ser tão difícil assim –como até acho que não é de fato– fazer uma crítica a alguns pronunciamentos pontuais do deputado Bolsonaro, mas os que insistem em esculhambar serão devidamente desmascarados pelo seu próprio descaramento. Foi o que disse a respeito de Reinaldo Azevedo, de uma certa liderança do MBL, e repito agora para esta jornalista.

Que coisa lamentável ver que o senador Romero Jucá, recentemente, conseguiu superar esses progressistas neste pensamento, mesmo a partir da frágil posição de antigo um político partícipe deste sistema de poder. O Brasil precisa de jornalistas melhores, urgentemente.

Do jeito que está, Bolsonaro crescerá necessariamente. Ele está como o Hulk da nossa política: quanto mais batem nele, mais forte fica. Justamente porque desqualificam-se com uma mentalidade progressista e esquerdista que o povo já acha insuportável a esta altura do campeonato.

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Eu gostaria de ver a cara do ex-seminarista do diabo, Gilberto Carvalho, ao observar a desforra do avanço do senador Magno Malta contra o petismo, vingando e redimindo os evangélicos. Ser católico não me impede de achar razoável a atuação da bancada evangélica no Parlamento, e até pelo contrário, me faz aumentar a admiração pela capacidade dos cristãos combaterem a agenda petista e, mais do que esta, a globalista.

Até como consequência natural de todo esse processo político que nós vivemos, eu quero ver no futuro esta nação cristã jogar na privada também o PSDB, no tempo devido, quando as alternativas políticas surgirem.

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O governo de Michel Temer pode ser muito melhor para o país do que se pensa, tanto quanto podemos estar muito mais carentes de investimentos em bons projetos do que se imagina. Quantas reformas o país precisa ter para que a situação cambie? Três, talvez quatro? Se o Congresso Nacional em peso, excluídos os pesos mortos do país (PT, PC do B, PSOL e Rede), apoiarem as reformas conduzidas por Temer, coeteris paribus, a reversão do quadro econômico será sentida em coisa de doze meses, e em dois anos, por volta das novas eleições em 2018, já poderemos ter um país saneado.

O problema é o enfrentamento das questões estruturais de longo-prazo, ligadas à execução de uma normatividade constitucional capenga e irracional, herdada daqueles sonhos tolos de 1988. Temer poderá ser ótimo, mas nos seu tempo e no seu papel, relativamente breve. Precisamos de um fôlego político muito mais longo para lidar com tudo quanto seja necessário.

De minha parte, reitero o que já havia dito: a segurança da população deve vir em primeiro lugar, com reforma da legislação penal e do sistema penitenciário, e grande investimento no aparato policial e de inteligência. Esta deveria ser a única grande bandeira de qualquer candidato à presidência em 2018.

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Há na obsessão econômica implícita em agendas políticas tanto de PT quanto de PSDB o materialismo histórico que remonta a causa de todos os problemas do universo ao materialismo marxista. A agenda econômica do país não deve ter esta prioridade, e definitivamente os maiores problemas de uma nação não são econômicos.

Compreendido isto, fica evidente que o desafio político no Brasil é imenso, porque não é só a derrota de partidos revolucionários como PT e PSDB que está em questão, mas a destruição de toda a hegemonia socialista que permeia toda a cultura, na imprensa, na educação, etc. Isto é um trabalho para duas décadas ou, se formos muito felizes, para metade disso.

Todos os que ignoram esta realidade e apostam no desenvolvimentismo como pedra filosofal da política estão embriagados numa droga cuja origem remota desconhecem.

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É evidente que um papel crucial da desmistificação da crença na utopia do desenvolvimentismo econômico deve ser exercido pela Igreja Católica, mas esta só poderá fazer isto se antes se limpar da Teologia da Libertação. Não se pode acusar a sujeira alheia enquanto se anda todo cagado por aí. 

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O que digo a respeito da crença economicista não nega a realidade da prosperidade material dos povos e de suas qualidades.

Até pelo contrário, a devolução da questão econômica ao seu lugar devido na hierarquia das coisas aumenta a possibilidade de se fazer o povo prosperar, porque o tira do enlouquecimento marxista que leva às “soluções” econômicas que geram os próprios problemas que juram querer resolver. O marxismo não localiza o conflito de classes, ele o cria, e o criando impede, ironicamente, que o povo como um todo prospere, fazendo assim crer que as causas do problema são as que eles apontam, e como se não as tivessem criado. É uma feitiçaria muito suja.

Livre da mentalidade revolucionária, o Brasil prosperará de forma impressionante, e bastante rápida.

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O meu xará na PGR (Procuradoria Geral da República), Rodrigo Janot, também chamado pelo ex-presidente e atual senador, Fernando Collor, de “Janó”, está se saindo melhor que a encomenda junto ao STF.

Ainda não está perfeito, mas já dá aquele cheiro no ar… aquele cheiro de fim de festa… aquele cheiro de fim do PT… smells like victory.

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Não consigo produzir os documentos que deveria, tanto na atividade de clipping, quanto no esboço de idéias mais abrangentes. Muita coisa vai ficar para 2017.

Por enquanto vou fabricar as notinhas que tenho condições, e colocar tudo neste diário.

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Há uma lentidão misericordiosa na pedagogia divina, que nos permite substituir gradativamente as nossas concepções de felicidade por esquemas mais perfeitos aos poucos, de forma que não ocorram “trancos” mais abruptos quando as fatais e inevitáveis decepções surgirem.

Esta idéia me veio ao observar aqueles casos de pessoas famosas que morrem aos 27 anos. Minha mente sugeriu isto: quem ganha ao mesmo tempo o domínio de muitas falsas razões de felicidade de uma vez não tem onde se ancorar quando estas se mostram ocas.

O ritmo comum do ser humano é o de viver uma ilusão de cada vez. Você acredita que algo determinado trará a sua satisfação completa, e age a partir desta crença. Quando esta expectativa amadurecer e começar a se mostrar falsa, você já vai montando de algum modo uma substituição a altura do desafio, um objetivo ou alvo superior ao anterior. E assim caminhamos na nossa mediocridade humana até chegar, talvez, a um bom termo.

Digo “mediocridade” porque a doutrina das virtudes, ensinada desde a Antiguidade e parte integrante e essencial das tradições religiosas, permite ao ser humano ser algo mais do que medíocre ao mirar a excelência espiritual, que é a nossa verdadeira razão de existir. Mas o conhecimento destas coisas quase que escapa totalmente à nossa época, ao menos em boa parte do Ocidente modernizado, progressista, etc.

Somos muito medíocres, ou já estamos mesmo abaixo disso.

Quando um jovem artista enlouquece ao ver-se desiludido com o “mundo inteiro” em suas mãos, o que é que os nossos especialistas iluminados da modernidade têm a oferecer? Nada. Lamentam a “tragédia” de uma vítima de uma suposta falta de sentido universal da existência humana, como se não fossem eles, estes iluminados, os geradores de toda esta confusão.

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Bexiga de festa (1)

Sempre que você estiver lidando com pessoas animadas com alguma “nova arte de ter sucesso”, coisa que ocorre nos mais variados formatos desde envolvimento com alguns serviços de coaching até os mais variados e criativos esquemas de venda direta, visualize na sua mente a imagem de várias crianças enchendo bexigas numa festa infantil, estourando várias delas durante a sua diversão e vendo as demais esvaziarem naturalmente com o passar das horas. A cena deve ser um alívio cômico que lhe permita sair da seguinte armadilha: sendo óbvio, como premissa comum, que você quer o sucesso, é impossível escapar dos vendedores de fórmulas de sucesso a não ser pela sua ridicularização.

É claro que pessoas normais são naturalmente céticas com os encantos das cigarras. E mais do que isso, pessoas bem informadas sabem que a idéia de sucesso é, na grande maioria das vezes, de uma relatividade acachapante, podendo ser aplicada com sentido universal mais concreto apenas no caso da jornada espiritual do ser humano, e ainda assim com os atenuantes das diferenças religiosas.

Mas o que digo eu? Nós nascemos na geração que gerou os Telletubbies, nós não podemos jamais nos esquecer disso. Então a imagem da bexiga de festa ajuda a resolver com certa rapidez esse problema, porque você simplesmente ri das ilusões como ri de uma bexiga cheia prevendo que ela estará vazia logo mais.

Recentemente um internauta ativo e entusiasmadíssimo criou um site para publicar, entre outras coisas não muito profundas, textos a respeito do sucesso, inclusive e especialmente o sucesso na internet. O cidadão escreve muito bem. Deveria, inclusive, ir para o ramo das letras, mas parece que deseja, pessoalmente, trilhar a carreira de guru do empreendedorismo ou algo assim.

É curioso que a sua abordagem costuma ser criativa e assertivamente crítica contra os modelos mentais de propaganda do “sucesso”. O cidadão quase chega a desmascarar a farsa toda deste gigantesco sistema de wishful thinking, que já virou quase um vírus, mas ao invés de fazer isso ele declara, no fim das contas, ser um crente neste tal de sucesso…

Embora não seja um seguidor deste internauta, confesso que fiquei decepcionado com o andamento de suas idéias. É assim quando você vê alguém chegar perto e quase concluir corretamente uma sequência lógica de idéias, mudando porém de rumo no último instante.

Essa decepção me levou a pensar neste assunto mais detidamente. E já me lembrei de vários nomes que nós podemos falar para abordar a questão, entre os quais o pessimista E. L. Kersten do Despair Inc., e o nosso grande prosador G. K. Chesterton.

Escreverei um pouco mais depois, e em partes, sobre esse retumbante fracasso do sucesso.

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O cientista político Jairo Nicolau concordou comigo, sem o saber (evidentemente), em pontos importantes da sua entrevista para a revista Época: em primeiro lugar que os membros da nossa Câmara dos Deputados representam sim a população brasileira, e em segundo lugar que as pessoas mais qualificadas do país seguem carreiras na iniciativa privada, deixando a política entregue a nomes e currículos não tão bons.

Na entrevista se menciona várias vezes o “choque” que a sociedade pareceu ter sentido ao ver na sessão do impeachment de Dilma, no último dia 17, por causa do baixo nível dos deputados federais. A respeito disso, falou-nos o citado Jairo Nicolau:

Acho que pensávamos ter uma elite de políticos melhor que a que apareceu no domingo. A televisão sempre mostrou apenas o punhado de deputados que mais circulam na esfera de poder. No domingo encontramos os nossos representantes. O Brasil foi apresentado a eles em cadeia de TV.”

O que eu acrescento a isto é que necessária e consequentemente há um hiato entre o que a mídia normalmente mostra e aquilo que deveria ser mostrado. Isto, por sua vez, poderia levar àquela costumeira conclusão rasteira de que “a TV mostra o que o público quer ver”, mas por favor não venham para cima de mim com esta conversa mole.

Há uma condução proposital da cultura na escolha programática da mídia, seja impressa ou em qualquer espécie de veículo, tanto quanto há um bloqueio (natural ou não) pela falta de educação formativa moral e psicológica de uma população que não aguenta assistir a 15 minutos de trabalhos de uma sessão plenária, mas fica horas assistindo a uma excrescência como o BBB.

E tudo isto nos leva, por fim, a compreender o quão é profundo o problema do Brasil, pois ele é essencialmente cultural, de uma espécie que só pode ser resolvida por iniciativas culturais e educativas de longo prazo.

Pessoalmente, concluo que a desgraça mental do Brasil é o que me dá o ânimo de realmente querer fazer meus projetos prosperarem nos próximos anos. Quando penso, por exemplo, numa instrução de Direito Constitucional devidamente feita fora das exclusivas salas de aula das Faculdades de Direito do país, imagino que uma parte significativa de alunos e/ou leitores poderão tomar um gosto para trocar de canal e largar o BBB por uma sessão plenária do Congresso Nacional.

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Se tem algo que desmoraliza a política da Nova República é a quantidade de vezes que se falou em “reformas”.

Se o Brasil fosse um imóvel e os políticos fossem os seus administradores ficaria claro que eles não sabem o que estão fazendo, pois é inacreditável que tanto se tenha que reformar. Nós não vivemos num país; vivemos dentro de uma construção, em cima de andaimes e entre tapumes e biombos.

Isto vem da mentalidade revolucionária. Ninguém precisa “pensar o Brasil”. Tudo o que precisamos é de paz e ordem. Quando um cara vai lá e faz o que tem que ser feito, vem outro depois sonhar com um “mundo melhor” e vender o que não pode, demolindo o que havia sido feito. E daí temos as reformas, reformas e mais reformas…

Realmente, uma monarquia ajuda um tanto esse problema, pois a chefia do Estado não vai a lugar algum: é a família real, não precisamos sonhar com nada, é só viver a vida em paz.

Cada novo sonhador da política nacional é um construtor de ilusões que custam caro e prejudicam a nação, requerendo em seguida que venham as famosas reformas colocar tudo de novo nos eixos. E que fique claro: os revolucionários não são apenas do PT, mas também do PSDB.

Talvez, incrivelmente, o fisiológico PMDB seja o mais confiável dos partidos no sentido da estabilidade, da confiabilidade institucional, e da ausência de uma agenda revolucionária. Por isso acho que o potencial governo de Michel Temer pode fazer bem ao Brasil. Em tese.

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Vendo em retrospectiva: como é que o Bradesco deixa um Joaquim Levy embarcar nesse desastre chamado Governo Dilma II, fazendo a nação perder quase um ano de seu precioso tempo, até que chegamos agora e a muito custo ao impeachment? O que é que esses banqueiros estavam pensando? Essa gente não é burra. 

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A instituição do impeachment como instrumento de proteção ao Estado mostra o quanto a República é mulambenta.

O que é o impeachment perto de um Rei?

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Qual é a vantagem do parlamentarismo monárquico em comparação com o parlamentarismo republicano?

Um Presidente da República pode ser um carreirista, ou um agente-instrumento comprometido com uma agenda política. Principalmente diante da ameaça grave do globalismo com seus mil tentáculos, esse risco é considerável.

Um Rei não precisa fazer carreira, porque ele já tem o sangue, como os príncipes. E o comprometimento da família real é com a sua real família, a própria nação.

Podem me chamar de ingênuo, mas essas idéias provém da história real da humanidade e funcionam no mundo real, isso é o que importa. Quem acha que o mundo começou a existir e a funcionar em 1988 fique a vontade para contrariar isso.

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O Gugu (também conhecido como Luiz Gonzaga de Carvalho Neto) é muito bom! Não poderia deixar de registrar isso aqui: se além de Olavo de Carvalho eu encontrei alguém que fosse realmente devotado à virtude da sabedoria, ao ponto de gerar em outros a vontade de ter a mesma devoção, este alguém é o Gugu. Assistam as suas aulas e leiam os seus textos. 

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Ascendente em Libra.

Gosto de um acordo, de um entendimento, de uma conversa que acaba com sorrisos amigáveis, gestos generosos e tapas nas costas.

Entro em cada coisa com este espírito. É preciso que alguém seja tóxico e empedrado para me tirar do eixo libriano.

Entrei no texto de Fernando Schüler na revista Época com este espírito, quando ele começou a falar bem do nosso ex-presidente FHC. Pensei comigo: este é um socialista fabiano culpado por muitas coisas, entre as quais a confusão no qual o Brasil se meteu com o PT de Lula e de Dilma. Tenho minhas idéias nada amigáveis para com o senhor Fernando Henrique Cardoso.

Mas eis que o homem tem um currículo de feitos; sabe falar e sabe escrever, e sabe fazer essa política, seja ela boa ou não. Ok, que seja aceito por algumas qualidades como um interlocutor ou mesmo como um adversário respeitável, embora não admirável.

O problema é que o autor do texto resolve partir de uma crítica justa contra a intolerância de certos petistas para a propagação de uma idéia tola, que é essa comparação entre Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, como se fossem faces da mesma moeda. Não são. E um elogio a uma figura controversa (Ustra) não é o mesmo que dar uma cusparada em alguém. Tenha a santa paciência!

É isso o que dá confiar em acadêmicos. Você acha que o cara é razoável, e ele até começa assim, bem razoável, até que dá o golpe depois de conquistada a confiança, e passa um conceito tosco das coisas como se estivesse mantendo o seu prumo.

Daí vem outras asneiras. Quando se abre a caixa de besteiras, é difícil fechar de volta.

O referido diz que a “lógica amigo-inimigo” das redes sociais é “risível”. Tradução: o posicionamento político e ideológico firme é uma piada diante da saudável moderação da pasta gelatinosa da social-democracia. Nós entendemos esses truques. Lamentavelmente o MBL, ao invés de se posicionar claramente como alternativa a esse esquema, parece estar aderindo ao método contraditório da mentalidade revolucionária: em nome da tolerância das divergências decide-se não aceitar nenhuma divergência real.

O cidadão ainda diz que “algo vai mal na academia brasileira”. Não diga! Quem é que construiu e sustentou o sistema educacional que está aí? Será que tudo era melhor com FHC no poder? Ou em várias coisas –muitas coisas–, era a mesma porcaria do petismo, apenas menos evidente?

Eu gosto de um acordo, mas não gosto de proselitismo. Saí do artigo gostando menos do FHC do que quando entrei nele. Seu trabalho foi em vão, Fernando Schüler.

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28/04/2016

Não existe desigualdade social, existe falta de caridade.

A transformação de um problema moral em um problema político e econômico faz parte do esvaziamento da tradição civilizacional e sua substituição pelo materialismo cientificista, do qual todo o marxismo é apenas um dos frutos.

Vale a pena lembrar: não há maiores beneficiados por esta revolução do que os metacapitalistas, os super-ricos. Reis e senhores da antiguidade conheciam a expressão noblesse oblige, e o seu poder era reconhecido pela sua conduta de acordo com a realidade e as necessidades da população. Hoje os muito poderosos encastelam-se por trás da mentalidade revolucionária que prega a solução de todos os males pelo enfrentamento de uma suposta “desigualdade social”, como se não fossem eles os monopolizadores maiores da riqueza das nações. Não bastasse isso, fazem avançar uma agenda de escravização dos povos por mil e uma estratégias distintas, e atacando com força as tradições religiosas e filosóficas mais antigas.

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O que Walcyr Carrasco chamou de “amor esperto” na revista Época é qualquer coisa menos amor verdadeiro. Isto seria quase irrelevante, não fosse a confissão do autor de que ele empesteia as novelas com os roteiros que escreve baseados nessas experiências pessoais. Então você tem um tipo de vida reproduzido e amplificado pelo sistema televisivo, com repercussões reais na cultura e nos hábitos populares, sem que este modus vivendi seja, digamos, tão respeitável para merecer este tipo de divulgação.

Não sou e não quero ser moralista. Lembro-me bem de um Nelson Rodrigues e de outros autores que desbravaram uma realidade da nossa cultura e dos nossos hábitos, e não posso negar que Walcyr Carrasco esteja ao seu modo fazendo a mesma coisa.

Mas cabe a pergunta ancestral, matusalêmica, antediluviana: é a arte que imita a vida, ou é a vida que imita a arte?

Há algo de pernicioso, sem moralismos, em reproduzir artisticamente as piores coisas que o ser humano faz. O que não constitui um julgamento concreto, evidentemente, pois eu teria que analisar como um todo a novela em questão para ver como estão proporcionadas as diversas qualidades da trama. Ocorre que a minha vontade de assistir Eta mundo bom! é igual a zero.

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Deus não está na lasanha, a lasanha é que está em Deus.

Tudo o que há de bom no mundo deriva da bondade infinita de Deus. Não há razão para se elevar algo menor ao posto que só a devoção legítima deve ocupar. Isto pode parecer algo banal e óbvio, mas é nada menos que a solução de todos os vícios, que podemos entender como frutos derivados desta confusão hierárquica.

Deus estando acima de tudo, não há porque você se agarrar aos seus vícios como se eles é que dessem sentido à sua vida.

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Estréia hoje nos cinemas o filme Guerra Civil, do Capitão América. A Marvel está com fôlego para avançar mais ainda na produção destes filmes de super-heróis, que estão lotando os cinemas e as mídias. Até aquele filme ganhador de Oscar, Birdman, abordava essa enxurrada de blockbusters produzidos a partir de histórias de HQs. Engraçado que eu até gostei deste filme, mas o que eu menos gostei nele foi justamente esta crítica chatíssima ao sucesso dos pastelões cinematográficos. Como se todo e cada filme não pudesse ser destrinchado, criticado e reduzido, frequentemente, a bela bosta que é. Poucos filmes podem ser verdadeiramente arte. E antes de entrar nesta discussão enfadonha, volto ao Capitão América.

Estou revendo os filmes da Marvel antes de assistir este filme no cinema. A média, até agora (vi cerca de metade da produção deles), é ruim, ou pelo menos medíocre. As atuações são fracas ou muito limitadas nas suas qualidades, e os roteiros ainda deixam a desejar. Mas do que estou falando agora? Não sou crítico de cinema e nem quero ser. Se existe alguma substância mais palpável nessas histórias, é isto o que eu quero agarrar na minha atual pesquisa.

A discussão de Guerra Civil, se for como a da história dos gibis, é interessante: por um lado temos o problema da disputa inconciliável entre dois lados opostos que leva a um conflito aberto, e por outro lado temos a questão da confiança no arbítrio estatal para a resolução dos problemas.

Preciso assistir para dar minha opinião. De cara, se for para escolher um lado eu fico com o do Capitão América. Se tem algo que não funciona é a “solução estatal”.

E por mais que o senhor Stark seja carismático, cá entre nós, se você precisasse confiar a sua vida alguém, você escolheria o senhor Rogers.

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A colunista de Época, Ruth Aquino, disse que Bolsonaro é ninguém se comparado a Cunha.

Eu afirmo que, sem dúvidas, Ruth Aquino é ninguém se comparada a Bolsonaro.

Tolinha raivosa. Papagaia de iluminados.

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Se Ruth Aquino pensasse mesmo com sua própria cabeça, ao invés de produzir um argumento contra Cunha usando Bolsonaro de escada, ela pensaria no que faz estes sujeitos, cada um pela sua razão, inimigos tão terríveis do sistema petista. Se tivesse a preocupação pela proporcionalidade das coisas, estaria mais preocupada com o que o PT fez ao país –e como fez–, do que em pagar de boa-moça para a platéia. Estaria discutindo o sistema eleitoral, os riscos institucionais que o país vive, etc., e não chutando cachorro morto. Cunha é um cachorro morto. A não ser que se “safe”, como deixou escapar o senador Romero Jucá.

Os moderados virginais e puros podem povoar o país tanto quanto queiram, mas se são estes a maioria da nação, como é que o PT chegou ao poder, raios?

Chegou graças a mentes esclarecidas como a de Ruth Aquino, podem ter certeza disso.

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Se a edição nacional da revista Veja é uma coisa lamentável, a Veja São Paulo consegue ser pior ainda. Mal escrita, transbordante de clichês puros, e progressista até a medula. 

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O editorial da última edição de Veja faz um elogio a Cervantes e Shakespeare, na comemoração dos 400 anos de suas mortes, e dá-se ao trabalho de dizer por que esses autores são importantes até em uma época de discussão de impeachment… o que já mostra o tipo de leitor que Veja tem.

Em minha própria defesa devo dizer que não sou um leitor de Veja. Sou um examinador que abre a revista como um profissional de laboratório médico abre aqueles potinhos de exame de fezes.

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O estudo do simbolismo das esferas planetárias dá no mínimo uma noção relevante de proporção e hierarquia para as realidades humanas. Existe aqui um negócio que você acha que é tudo, mas que diante de um outro negócio parece um nada, e assim vamos até uma intuição de dimensionalidade da realidade completamente diferente do costume moderno. Como o próprio Gugu falou certa vez: “tudo que está longe parece pequeno”.

Nós temos que nos aproximar e cultivar dentro de nós, nas nossas ações e intenções, aquilo que é mais digno, nobre e elevado. Não tem outro jeito. Do contrário somos enganados pelos nossos “sentidos”, que na verdade são os nossos costumes e hábitos, incentivados pelo intenso desejo de ordem fechada e controlada, ou seja, somos enganados pela nossa mente.

Ver que há um Islam forte no ensino da tradição simbólica é algo admirável e um fato ao qual podemos ser até mesmo gratos, embora por outro lado isto nos faça, como cristãos, pensar seriamente: o que foi que a nossa Igreja fez com a sua tradição?

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Os liberais são da Babilônia; os conservadores são de Jerusalém (1)

Independentemente da classificação dos liberais como participantes da esquerda ou da direita –o que é, pensando bem, uma discussão um tanto abstracionista e até certo ponto inútil–, é relevante o entendimento do que diferencia os conservadores dos liberais, de maneira que o discernimento dos diversos atores do teatro político fique mais claro. Existe um esforço de definição da direita brasileira, e este esforço passa pela distinção entre o que é ser conservador e o que é ser liberal.

Infelizmente não posso entrar nisto com os dois pés na porta, porque eu teria que fazer uma pesquisa que atualmente é inviável. Mas posso dar algumas sugestões, aqui e ali.

Quero começar por dizer que os liberais fazem muitas vezes uma confusão medonha entre os conceitos de Nação, Sociedade e Estado. Eles costumam ignorar os dois primeiros, e concentrar todo o seu foco no Estado. Ora, o que eles acham que é “o Estado”? Praticamente tudo o que não é “o Indivíduo”.

As estruturas orgânicas de organização social são dissolvidas no empreendimento de confrontação contra o Estado, causando o efeito inverso ao que era pretendido em primeiro lugar: por um lado, ao reconhecer o Estado moderno como o grande “interlocutor político” do liberalismo, dá-se já ao próprio poder estatal um tamanho e uma legitimidade que não são conferidos pelo processo histórico; e por outro lado, ao enfraquecer as estruturas sociais que garantem a contraposição de poder ao organismo estatal, principalmente as famílias e a religião organizada, entregam aos indivíduos sozinhos toda a tarefa de defender-se do Leviatã.

Qualquer conservador que se preze reconhece que a Nação (ou seja, o grupo das várias famílias estabelecidas em um território) precede o Estado, e que a própria Sociedade é o centro da vida da Nação, ao qual o Estado deve servir única e exclusivamente como garantidor da paz e da ordem.

Os liberais ignoram isso e municiam seus próprios opositores. Ao discutir “o papel do Estado da economia”, por exemplo, os liberais já concedem a premissa de que o Estado tem que ter um papel na economia, quando na verdade isto não é garantido ou necessário de maneira alguma. A economia é uma realidade no âmbito da Sociedade sobre a qual a única tarefa realmente necessária do Estado é garantir o cumprimento das Leis.

A própria criação da Lei que regula a atividade econômica não compete ao que chamamos por “Estado”, visto que o Parlamento reflete muito mais a participação da Sociedade na ordem vigente do que a representação dos interesses da administração pública estatal.

Quando você diz para um liberal que as únicas funções do Estado devem ser as de Defesa, Justiça e Polícia, muitos deles acham isso um exagero. Por quê? Porque eles não enxergam a distinção entre Sociedade, Nação e Estado. E claro que não podem, já que todas as ações são reduzidas a predicados de dois únicos sujeitos agentes: os indivíduos e o Estado. Se não existe sociedade civil organizada, na forma das famílias, das empresas, das associações, etc., como é que os indivíduos vão ordenar os seus negócios, senão através da determinação dos diversos papéis da autoridade estatal?

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Digo algo que pode parecer escandalosíssimo, mas que digo com muita tranquilidade: se for para escolher, sem quarta alternativa, entre a vitória do esquema globalista ocidental, da revolução comunista, ou do Islam, escolho o último de olhos fechados. Que fique claro que me refiro, com isso, ao Islam tradicional, e não aos braços revolucionários do “radicalismo islâmico”, gerados pelos outros dois esquemas globalistas.

A quarta alternativa é, evidentemente, a Igreja Católica que não é refém nem do multiculturalismo globalista e nem da Teologia da Libertação. Até que esta Igreja exista –e a nossa crença é de que ela existirá até o fim–, estarei dentro dela.

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É evidente que o “cada um por si” do liberalismo só fortalece o Estado ao invés de limitá-lo. Sem o reconhecimento dos direitos da religião organizada e dos direitos das famílias contra o poder estatal, o indivíduo é devorado. Será que é mesmo muito difícil perceber isso? 

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Sempre tem alguém que faz questão de não entender nada.

Felipe Junqueira: “ué, mas o liberalismo reconhece o direito da religião organizada e das famílias contra o poder estatal… aliás, reconhece qualquer relação interpessoal entre indivíduos que consentem em um acordo/contrato, ou seja, desde que seja voluntário, tudo bem…

Ao que respondi:

“Quando falo em “direitos”, eu me refiro ao papel real que família e religião têm na sociedade. O direito que o liberalismo concede não é compatível com a importância real dessas instituições. É apenas o reconhecimento dessa possibilidade indistinta de liberdade de acordo consentido. Reconhecer o direito da família e da religião é reconhecer o seu papel real fundante e histórico na sociedade. E portanto dar proteção a essas instituições pela sua autoridade moral. O liberalismo não aceita isso, como aliás não aceita nenhuma autoridade acima da suprema liberdade de fazer o que dá na telha. Não aceita porque entende ser isso um privilégio desmedido, já que os adversários da religião ou da estrutura familiar tradicional não consentem, obviamente, com essa proteção. Acham que a religião ou a família são arbitrariedades e questão de livre escolha pessoal, e tiram disso as suas conclusões, que levam ao “cada um por si”, de que eu falava. É a lei da selva, do número, do arbítrio. Ironicamente, os socialistas não pensam muito diferente a respeito do “mundo ideal”. Enquanto isso no mundo real nós nos ferramos, porque na prática os grupos de poder tomam o Estado e fazem o que bem entendem, afinal são livres para isso, não tem quem lhes oponha uma força real.”

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29/04/2016

O nosso queridíssimo professor Olavo de Carvalho comemorou seus 69 anos de idade. Que Deus o abençoe muito, porque este homem merece mais do que nós pobres mortais podemos dar.

Olavo é um exemplo do que é possível fazer quando se aceita quebrar as regras do establishment, do mainstream, dos hábitos e normas da época, em respeito a uma sólida ligação com as tradições de sabedoria do passado, seja da filosofia ou do próprio cristianismo. Este exemplo me enche de satisfação e de ânimo para ser eu mesmo uma pessoa melhor.

Devemos ter coragem, como Olavo teve, de ser fiel ao Bem e a Verdade, de corrigir rumos quando for necessário, e de perseverar no caminho correto.

Que seria da nossa geração, sem a presença de uma luz como essa alma chamada Olavo de Carvalho?

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O site de notícias O Antagonista é um sonho de consumo das pessoas que querem se libertar da grande mídia e de seu viés compromissado. Se os seus autores forem capazes de tirar os últimos ranços revolucionários e progressistas –e digo isso mesmo que não se identifiquem, o que acho desnecessário, como “de direita”—acredito que a satisfação dos leitores será plena. Ninguém aguenta mais ambientalismo, gayzismo, abortismo, apologia das drogas, etc., e isto não representa nenhuma “guinada conservadora”, é apenas uma reação justa diante de uma agenda política descabida. O papel que vejo para O Antagonista, não só o atual, mas o potencial, é de ser uma verdadeira central politicamente incorreta, capaz de descrever a realidade tal como ela é da forma mais direta possível, como se fosse mesmo a produção de uma literatura, recuperando assim o legado de gigantes das crônicas como Nelson Rodrigues e Paulo Francis.

É possível fazer isso, mas os autores precisam ter esta vontade. A corrupção da imprensa não é apenas econômica e de política momentânea, é ideológica. Esta última corrupção é mais difícil de ser extirpada. Se O Antagonista conseguir se livrar completamente dela, se tornará um fenômeno definitivamente bombástico, arrasador e eu diria, até, hegemônico.

Não sei do Mario e do Claudio, mas o Diogo sem dúvida tem as condições de fazer esta navegação, se for do seu interesse.

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Um dia eu gostaria de entender as inexplicáveis aterrissagens de alguns vôos biográficos como os de Guilherme Afif Domingos e Kátia Abreu no governo Dilma II. Se possível, gostaria de entender também porque levaram tanto tempo para decolar para longe deste naufrágio. 

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Quantos anos precisam se passar para que uma criatura humana entenda que muitas das barreiras vividas pela sua geração, e pelas gerações imediatamente anteriores, são aquilo que eu já chamei de “restrições virtuais”?

Muitos. Às vezes, uma vida inteira. E pode mesmo não acontecer jamais.

As restrições reais, físicas e espirituais (ou morais), definem geralmente um campo de possibilidades muito maior do que aquele que se costuma apreender pelas repetições de hábitos e costumes de uma época. Isto ocorre naturalmente, visto que no conjunto daquilo que pode ser feito, nem tudo deve ser feito indiscriminadamente. Como se diz, nem tudo o que eu posso me convém.

As restrições virtuais, porém, não representam concretamente um malefício. Até pelo contrário, elas representam a sabedoria da vida humana acumulada pelas gerações, indicando o caminho da conveniência e da eficiência. O que cada geração experimenta, porém, é o teste de certos limites que não se atualizam na mudança de uma época para a outra. Os pioneiros de cada tempo são obrigados a enfrentar algumas destas restrições virtuais para explorar possibilidades que são boas, mas que residem fora do mapeamento do costume cultural do momento.

Disto tiramos que um certo grau de transgressão de normas, quando estas são não mais a representação das restrições morais saudáveis mas uma mera cristalização de certos hábitos que não fazem mais sentido, não só é aceitável como é benéfico.

O problema da mentalidade revolucionária é explodir essa lógica da transgressão para todos os costumes da tradição humana, inventando uma teoria conspiratória da história como farsa favorável a certos interesses exploradores.

Nossa missão individual é olhar com curiosidade e imaginação para as possibilidades de vida humana, tomando a precaução de não cair na armadilha revolucionária. Se há algo de podre em certos pedaços cristalizados de nossa herança, há também grandes conquistas do espírito humano e da civilização que não podem ser tocadas. Uma dica essencial é: o tempo já depurou os valores num processo mais ou menos espontâneo e natural. As coisas mais criticáveis não são partes de legados de milênios ou de séculos atrás, mas frutos de uma, duas ou três gerações anteriores a nossa. A exceção notável a esta regra é a da história da filosofia moderna, que já acumulou erros há pelo menos três ou quatro séculos.

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Quando certos críticos de Bolsonaro e Trump afirmam que é perigosa a manifestação da população favorável ao que chamam de “negação da política”, nada mais fazem com isso do que admitir que existe um interesse da classe política que divide e alterna o poder entre si atualmente contra os interesses da população. Mas ora, se a população apóia Bolsonaro e Trump (que são exemplares de espécies diferentes, diga-se de passagem), a realidade aponta exatamente o contrário do que dizem estes críticos: o que está ocorrendo agora é a verdadeira ação política contra um grupo de interesses estranhos ao desejo popular.

Não é a negação da política que ameaça essa classe de parasitas, é o contrário disso, a afirmação da política. Eles se assustam com essa possibilidade terrível que é a de os políticos terem que representar –ai que horror!– a população que os elegeu.

Não adianta virem com conversa mole de “golpe”, de “radicalismo”, etc. O povo não aguenta mais vocês, seus crápulas.

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Em parte a discussão jurídica nesse processo de impeachment da Dilma me lembra o que diziam os líderes alemães presos e julgados por ocasião do Tribunal de Nuremberg: quem vence tem que mandar cumprir a sentença que bem entender, ao invés de criar desculpas legais para justificar a sua vontade.

O governo Dilma está morto politicamente. Todas as discussões jurídicas no âmbito do Parlamento são apenas uma conversa de velório.

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Falando em farsa, a administração “democrática”, “aberta” e “transparente” de empresas é uma grande fraude, que chega a ser cômica quando algumas lideranças tentam executá-la.

A verdadeira abertura e superação da hierarquia, aos interessados, é o empreendedorismo, com todos os seus riscos inerentes.

Prometer aos desavisados uma gestão participativa, ou seja, prometer poder, sem cobrar com isso as responsabilidades consequentes é não somente inviável na prática, como imoral e pedagogicamente improdutivo. Existe um enorme moral hazard espalhado na sociedade, com base justamente nesta brincadeira de incentivar as pessoas a quererem dar palpite sem responder por seus atos.

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Se os liberais, libertários, anarco-capitalistas, etc., pararem de terçar idéias a respeito de conceitos com históricos complexos, como o de Estado, e passarem a combater plenamente a burocracia estatal, ganharão sem dúvida muito mais força pela evidência da justiça de sua causa. Ao querer inventar um mundo ideal ad nihil, com dificílima conexão com a história real da humanidade, tornam-se revolucionários tanto quanto os socialistas. Ninguém mais quer saber de historinha, acordem. 

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Por pequena que seja, existe uma possibilidade de Elon Musk se tornar um Eike Batista dos EUA?

Uma matéria do Wall Street Journal menciona o envolvimento “incomum” das finanças das empresas do bilionário com as suas próprias. As ações que Elon Musk detém em suas principais companhias, Tesla, SolarCity e SpaceX, servem de garantia para empréstimos tomados pelas próprias empresas, que por sua vez financiam-se umas às outras conforme a necessidade. É como se Musk, na prática, detivesse o controle de um conglomerado informal, tirando as vantagens de flexibilidade inerentes ao formato de gestão de suas empresas. Nós já vimos algo parecido aqui no Brasil.

Musk disse que “é importante que não haja nenhum tipo de castelo de cartas que desabe se um elemento da pirâmide Tesla, SolarCity e SpaceX balançar”. Os termos “castelo de cartas” e “pirâmide” não são nada animadores, cá entre nós.

É claro que Musk produz e vende coisas reais, enquanto o nosso Batista era praticamente um vendedor de apresentações de power point.

Mas a escalada financeira é perigosa de qualquer modo, especialmente quando as garantias dadas nas linhas de crédito são ações negociadas em bolsa. Qualquer desabamento mais forte nos mercados abriria uma chamada de margem para os empréstimos concedidos. Se as coberturas forem feitas com mais ações e o mercado continuar em queda, ou particularmente as ações de uma das empresas do grupo… calculem-se os efeitos.

Quem não lembra do efeito dominó no grupo EBX: OGX, OSX, MMX, LLX… as empresas se contratavam e se garantiam umas às outras. Bastou a petroleira furar alguns poços vazios que de repente o homem mais rico do Brasil virou subitamente um caloteiro.

Há outras diferenças substanciais entre os empresários e os grupos, evidentemente. A principal delas é que Eike Batista vendia apenas commodities, enquanto Elon Musk vende tecnologia. Isto traz, em tese, uma vantagem a Musk, porque o valor de inovação agregada aos seus produtos sustenta o interesse do mercado.

Mas há, olhem só, uma outra fresta no plano de Musk que o assemelha ao nosso Sr. X: contratos da SpaceX com o governo americano. Na teoria nada obriga que isso cause distúrbios, mas na prática, como sabemos, a teoria é outra.

Um deputado do Partido Republicano já propôs a idéia de proibir a SpaceX de comprar títulos da SolarCity (imagino aqui uma influência de lobistas do setor de petróleo, é claro), já que a primeira é contratada do governo americano e estaria usando, assim, dinheiro público para financiar uma terceira empresa. A SpaceX responde o óbvio: o dinheiro do caixa da SpaceX não é do governo, é da própria empresa para fazer o que bem entender com ele.

Por enquanto está tudo bem com essa história, mas o barulho já existe, e nada impede que ele cresça no futuro.

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30/04/2016

Não sei porque mas não confio plenamente no economista Marcos Lisboa. Talvez isso possa ter algo a ver com o fato de ele ser muito citado na imprensa, o que nunca é bom sinal, ou com o fato de ele ser um acadêmico. Mas não tenho nada concreto a afirmar, por enquanto.

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Há um demônio que usa efetivamente a moral utilitarista para destruir a vida de alguns pobres seres humanos. A moral utilitarista é necessariamente materialista. Porque mesmo que reconheça a força natural das virtudes, acaba por deixar perder o seu lado superior, que é essencialmente não-utilitário por ser um fim em si mesmo, e valoriza nas forças humanas apenas aquilo que se extrai de útil delas para uma finalidade externa qualquer. Ora, qualquer finalidade fora da alma humana é material: ninguém faz nada para que melhore ou piore as vidas dos anjos ou dos demônios.

Eu não chegaria ao ponto de dizer que todo utilitarismo é viciado, e nem sei dizer o quanto esse pensamento se isola numa escola de idéias materialistas. Essas coisas modernas são todas meio toscas por pretenderem expandir um pedaço da realidade para cobrir todo o resto. Testam a elasticidade dos conceitos. Ora, praticamente tudo pode ser abordado pelo aspecto da utilidade, o que não quer dizer que este seja o aspecto mais relevante em toda e qualquer abordagem. Por exemplo, é evidente que para a salvação do homem a religião serve como instrumento útil, mas além disso existem outros aspectos mais relevantes na vida religiosa, que se justificam por si mesmos, e integram a salvação dentro de um processo orgânico. Aliás, organicidade é justamente o que falta ao pensamento cientificista e aos seus derivados, como o utilitarismo. Os “sábios” de nossa época conhecem a ordem como uma equação ou como o projeto de uma máquina. Mas a realidade exibe, e o faz abundantemente, ordens orgânicas, através do fenômeno da vida nas suas diversas manifestações, uma mais exuberante e bela do que a outra. O utilitarismo carrega uma ação desde uma causa para um efeito, e afirma que a causa foi justificada por gerar um efeito que é “útil”. Ora, quantas experiências reais da vida nós podemos realmente codificar e explicar perfeitamente por este mecanismo? A menor parte delas.

E ainda assim, a moral utilitarista prospera julgando a qualidade dos homens de acordo com a sua função útil, sem dar conta das referências que realmente tornam os homens superiores a si mesmos, o Bem, a Beleza, a Verdade, etc., e sem identificar a verdadeira profundidade de virtudes como a Sabedoria, a Coragem, a Justiça, etc.

Pode-se compreender, assim, que a moral utilitarista é mais uma das prisões infernais no qual o demônio quer nos fazer crer limitados. De todos os caminhos para fora desta cadeia, talvez o mais rápido e efetivo seja o da lembrança da morte e da imortalidade: assim como a moral utilitarista reduz a uma sombra todos os aspectos superiores do espírito, por serem “inúteis”, a lembrança da imortalidade da alma reduz a uma sombra tudo aquilo que é útil para uma existência marcada pela necessidade e pela finitude. A verdade, enfim, liberta como sempre, mas ela tem que ser lembrada.

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Já disse uma vez que a linguagem verdadeira é a simbólica, que é a linguagem das próprias coisas, a “linguagem da existência”, “linguagem ontológica”, “linguagem do Ser”.

Isto significa que todas as palavras que nós usamos são verdadeiramente imprecisas, de uma maneira definitiva. Não é possível, por exemplo, que o verbo “amor” signifique exatamente a mesma coisa em “amar a Deus sobre todas as coisas” e em “amar o próximo como a ti mesmo”. Com a nossa linguagem nós conseguimos indicar uma ação para esses determinados objetos, e usamos o mesmo verbo nas duas frases para os objetos diferentes, mas sabemos que não é a mesma coisa que se faz em cada ação, e não pela variação do objeto, mas pela necessária transformação do ato descrito pelo verbo naquilo que se adequa mais perfeitamente à realidade do seu objeto. Não é que o amor à Deus é somente “maior” que o amor a si próprio ou o amor ao próximo. Não, é uma coisa diferente e especial, que requereria o uso de um verbo especial que significaria especificamente “amor-a-Deus”.

A generalidade da nossa linguagem decorre da sua necessidade prática e da nossa limitação nesta existência atual. Se as idéias puras, em si mesmas, dentro do Logos, da estrutura da possibilidade universal, são perfeitamente distintas e universais, quanto mais distintas e igualmente universais não são todas as possibilidades de relação entre todas as idéias?

Isto quer dizer, falando de forma simples, que a nossa linguagem jamais chegará sequer próxima do que é a linguagem verdadeira, aquela que “diz com as próprias coisas”, e que o faz perfeitamente.

Eu não gosto de livros, ou de estudar por qualquer forma, por um fetiche, mas por saber que essa realidade profunda reside abaixo da camada superficial da nossa referência verbal imediata. Então nós achamos ótimo que alguém lance um livro explicando uma única sentença, como “amar a Deus sobre todas as coisas”, porque nós sabemos que esta frase faz a indexação de uma realidade que ela sozinha não consegue abranger totalmente, e que outras frases nos farão aproximar mais do objeto real.

O amor aos livros e aos estudos, quando é saudável, é esse desejo de proximidade da verdade que a nossa linguagem jamais poderá carregar, mas a qual poderá sempre, se for feliz, indicar com algum grau de sucesso.

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A Kátia Abreu dizer que as pedaladas de pagamento de benefícios sociais com dinheiro de bancos públicos foi apenas “atraso no pagamento” e não uma operação de crédito, sendo que o próprio governo pagou juros aos bancos pelo período do débito, é de uma desonestidade inacreditável. Que a mulher tenha coragem de dizer isso no Senado Federal, já é impressionante. Que julgue que isso poderia beneficiar concretamente a Dilma contra o impeachment, é algo ridículo. Ela só mostra ser fiel a um esquema de poder, e nada mais. Que vergonha. 

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Pelo que me lembro, Henrique Meirelles não foi ruim como Presidente do Banco Central. A condução dele ao Ministério da Fazenda deve ser acertada. Se o Serra não gosta muito dele, temos mais uma razão para achá-lo bom. Em economia Serra é o mais petista dos tucanos. 

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01/05/2016

O Maro Filósofo diz com razão que as idéias revolucionárias de certos direitistas não ajudam em nada a enxergar as coisas, seja com libertarianismo, anarco-capitalismo, etc., e faz um apelo: “vamos viver a realidade”.

O apelo é correto, assertivo e pertinente. Eu diria apenas, em complemento, que isto não é total. Muita gente que vive a realidade padece dela, e restará sempre a pergunta “mas o que é afinal real e o que não é?”. A discussão das coisas é inevitável. Se você quiser guiar os temas pelo senso comum, o que você terá no Brasil de hoje será o governo de uma mentalidade socialista, estatizante, etc. Para contrapor a isto “a realidade”, é necessário demolir as idéias erradas do esquerdismo não com outras idéias erradas do direitismo, mas com idéias boas que, não obstante, são idéias mesmo assim.

Nós precisaríamos do nosso William Buckley, alguém disposto a enfrentar o debate intelectual e ideológico, sem apelar para idéias nonsense tão revolucionárias como as de seus opositores.

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O ensinamento das virtudes tradicionais e da via de perfeição espiritual é algo quase que totalmente perdido na nossa sociedade. O que se entende por virtude hoje em dia é o contrário do que diz a tradição, é uma secura de uma mentalidade inescrupulosa, astuta, vil até. E se há alguma noção de via espiritual para a nossa geração, em grande parte esta noção cai presa do cobertor do New Age, uma mistura sem sentido de símbolos soltos e indevidamente desapropriados de suas verdadeiras origens tradicionais.

Estou um pouco deprimido com este quadro. Eu sei que lá no fundo todo mundo quer ser amado, que este jogo é uma grande farsa demoníaca na qual as pessoas não têm culpa em grande parte pelos grandes males, e que o mundo real de fato está livre desse desastre que é apenas uma possibilidade espiritual entre tantas outras. Mas uma coisa é saber isso tudo, e a outra é ver ao redor jogarem-te correntes para uma prisão, como aquelas cenas de horror do filme Hellraiser.

Infelizmente eu não construí pontes para abrigos contra esse assédio dos infernos. Meu barco não é grande, o mar é imenso, agitado e tempestuoso, e eu sou o único condutor. Um ou outro podem tomar carona na minha navegação, mas sou responsável sozinho, e em meu apoio só tenho Deus.

Esta descrição dos fatos mostra, aliás, qual é a saída da situação: é a “navegação temerária” (aos olhos comuns) que tem na verdade Deus por guia na base da pura confiança. Nem o oceano escuro como um abismo, e nem os ventos destrutivos da mais terrível borrasca são capazes de impedir que se cumpra a vontade de Deus. Mais uma vez tudo o que nos importa é amar a Deus sobre todas as coisas e confiar Nele com todas as nossas forças.

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Ver uma figura moralmente decrépita como o ator José de Abreu ter plenamente garantido o seu direito de justificativa pública pelo infeliz episódio da cusparada contra um casal que supostamente o havia admoestado, sem dar a mesma oportunidade para as outras partes da querela, é uma amostra cabal da insensibilidade brutal da Rede Globo, que por sinal foi de certa forma a genitora indireta desta forma de “expressão política” por ter dado todas as câmeras e holofotes para a lamentável figura de Jean Wyllys surgir e fazer sucesso na cena pública nacional.

Pior, a Rede Globo, e nisso não fica sozinha, passou a condenar o deputado Jair Bolsonaro por sua fala em favor do coronel Ustra, sem fazer a necessária condenação recíproca contra as exaltações de personagens como Marighella e Lamarca, que por sinal ocorreram na mesma fatídica sessão do impeachment de Dilma na Câmara dos Deputados. Da mesma forma, as TVs, jornais e revistas correm para formatar Bolsonaro no mesmo quadro de Wyllys, como se a conduta dos dois fosse equiparável. Como se o uso do legítimo direito de expressão no Parlamento fosse compatível com uma cusparada. Qualquer deputado ou senador da oposição poderá cuspir, amanhã, na cara dos petistas mais desagradáveis, quando estes falarem a primeira asneira? É claro que isto não é aceitável.

Sou um masoquista. Continuo acompanhando a mídia. No momento deixo de ler grandes mestres, aos quais não posso dar a digna atenção que muito honradamente eles merecem, e acabo lendo esses jornais asquerosos, essas revistas repugnantes. Inevitavelmente terei que retomar, no futuro, a atividade do clipping. O que é, na verdade, um serviço mais de media watch, de cotejamento da produção da imprensa, de acompanhamento das narrativas, das agendas políticas, etc. Não é por gosto, que fique claro. Realmente o material dá quase que uma ânsia de vômito. A questão é que fica impossível ler distorções, desinformações e até mentiras puras, sem fazer o necessário comentário corretivo ou no mínimo um alarme, para que ao menos fique registrado, para quaisquer gerações futuras, que alguém se deu ao trabalho de ler essa bosta toda e dizer com todas as letras o que isto é: uma bosta.

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02/05/2016

Diogo Schelp, que escreve na Veja, infelizmente não tem a irrelevância que merecia por suas ideias. Afirmou, consolidando um entendimento produzido pelo consenso hegemônico da esquerda, que o elogio a um suposto “torturador” da ditadura é pior do que o elogio aos terroristas que eram punidos por seus crimes. Trata Jean Wyllys e Jair Bolsonaro como membros de uma mesma espécie, apenas com sinais trocados. Compara e iguala, de uma forma que chega a ser vil, xingamentos com cusparadas, como se Wyllys e Bolsonaro se merecessem mutuamente, e tivessem agido com igual postura naquela famigerada sessão de votação do impeachment. Mas no fim das contas considera, entre os imperdoáveis, Bolsonaro como o mais imperdoável de todos. Isso porque a chamada perseguição de um agente de Estado seria pior do que o crime de terrorismo que a motivou em primeiro lugar. Como se vê, a lógica e a razoabilidade não acompanham Schelp tanto quanto ele gostaria, para que ficasse em situação de verdadeira superioridade.

Na prática o interesse do establishment, do qual Veja faz parte como um importante veículo de formação de opinião, é outro: é torpedear de todas as formas uma eventual candidatura de Bolsonaro para a Presidência. Vejam, Bolsonaro é perigoso mesmo que não tenha chances reais de vitória, porque ele é alguém que pode subir num debate televisivo, com seus 8% ou 10% de intenções de voto, e dizer terríveis verdades em cadeia nacional com grande audiência. Os beneficiários do esquema de poder que está aí querem evitar isso a todo custo, e isso inclui não apenas PT de Lula e Dilma, ou o PSOL de Wyllys, mas também o PSDB de FHC e Serra.

Começamos a compreender melhor a estratégia de Bolsonaro. Sob esta lógica pragmática, seu discurso pode ter sido excelente no fim das contas. Coloca-se em evidência, pois sabe que a mídia necessariamente explorará qualquer viés negativo que puder sobre ele, e expõe ao mesmo tempo esse sutil –e às vezes nem tão sutil– mecanismo persecutório e de agregação consensual da esquerda. Uma das coisas mais fáceis do mundo para Bolsonaro será expor a cumplicidade de entes como o PT e o PSDB, não só no terreno da política como também na área cultural e de opinião. Schelp, talvez sem o saber, contribui para isso. E expõe-se vergonhosamente como o empregadinho do establishment que ele é.

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Se o Kim Kataguiri quiser realmente se destacar na cena política, seria bom ele parar de fazer cara de Boris Karloff.

O sorriso autêntico é o item um da página um do livro um da política. Expressões amarradas e sinistras não são bem-vindas, avisem o rapaz.

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Olavo tem razão, a senadora comunista Vanessa Grazziotin é cúmplice moral de genocídio. 

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Ciro Gomes diz que não assiste o programa Roda Viva e em seguida (literalmente) diz que é preciso assistir a entrevista recente de Roberto Jefferson no mesmo programa.

Ciro Gomes é o fanfarrão mais evidente da história política nacional. Sua eloquência é retórica, e até poderia servir muito bem ao país se ele não tivesse funestamente se atracado ao naufrágio chamado PT, e particularmente na defesa do governo Dilma II.

Ofende, xinga, insulta, e faz perder com toda a sua fúria uma a uma todas as chances de se recompor politicamente. A narrativa de salvaguarda moral pessoal pode funcionar, é claro, mas institucionalmente simplesmente não funciona mais, é completamente inviável neste momento.

Se Ciro quiser ter alguma chance real de disputa, ele deveria estar focado exclusivamente nos problemas concretos do país e deixar a discussão do entrave político para os momentos decisivos onde aí sim ele poderia entrar como figura individualmente impoluta para ganhar a confiança popular.

Eu não me convenço pelas idéias de Ciro. Me parece um estatólatra mais ou menos disfarçado, dando por vencidas e datadas as idéias liberais naquele costumeiro expediente de dar por pressuposto algo que não está absolutamente determinado de maneira alguma. Imagino que no fundo Ciro saiba que as coisas não são assim tão separadas, mas ele tem que ser julgado pelo que diz e não pelo que supomos que ele acredite.

Se Ciro tem, a essa altura do campeonato, ainda algum mérito, será sempre o da sua inegável eloquência, e também a coragem de se expor publicamente (ainda que de forma suicida) mesmo que a um grande custo de risco político.

Marina Silva é, sob este aspecto, um ser politicamente detestável. Esta mulher não deveria receber mais um voto sequer em sua vida. Ciro? Eu não acharia estranho e nem tão mal assim ele ter uns 10% dos votos válidos num primeiro turno de Eleições para a Presidência. Mas não deveria passar disso.

É fácil para a esquerda dar por vencido Bolsonaro, por seus problemas e limitações atuais. Mas quem é o campeão da esquerda para 2018, se Lula for coerentemente encaminhado pela Polícia Federal ao seu devido lugar por ser chefe de quadrilha? É Ciro Gomes, este fanfarrão, o campeão da esquerda?

Por absurdo que pareça, a sonhática Marina Silva infelizmente parece ter reais chances de representar a continuidade do petismo. Eu quase que seria capaz, numa lúdica disputa Marina X Ciro, de votar neste último. Mas por ora prefiro rezar para que Deus nos livre deste cenário.

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Os liberais são da Babilônia; os conservadores são de Jerusalém (2)

Por uma coincidência ou não, vejo ultimamente repercutir uma discussão a respeito do suposto direitismo, ou ao menos do anti-esquerdismo dos liberais, que já era um assunto que eu queria tratar aqui.

Do ponto de vista conservador, os liberais não só colaboram no avanço da agenda progressista esquerdista (liberação de drogas, desarmamento, casamento gay, aborto, etc.) como também acabam colaborando no sistema de estatolatria que juram combater. A defesa do “indivíduo” contra o Estado é uma espécie de quixotismo insuspeito. O que pode o indivíduo atomizado, ou seja, desprendido das suas relações orgânicas de empoderamento na sociedade civil, diante do Leviatã?

Os liberais reconhecem o Estado como seu interlocutor, alçando-o a uma posição de importância desmedida. Quem pode realmente moderar o Estado, afinal? São os indivíduos, sim, representando seus interesses privados e públicos, através não só das instituições políticas que se integram e articulam com o Estado, mas através das instituições que fundamentam a própria vida da sociedade: famílias, empresas, associações, escolas, sindicatos, mídia, igrejas, etc.

A única forma de realmente esvaziar o Estado da sua posição de supremacia é tirar dele as funções que não são naturalmente suas, e restaurar o seu desempenho pela sociedade civil, devidamente regulada por leis e regras claras. O Estado exerce função natural naquilo em que ele é insubstituível, ou seja, quando a nação precisa ser representada pelo poder público inescapavelmente: defesa, justiça e polícia. Em todo o mais o Estado não passa de ser um atravessador inconveniente, que atrasa o andamento dos negócios da nação e encarece tudo pela sua ineficiência e corrupção.

O poder público não se limita ao Estado. A legislação e a função regulatória, desempenhados pelo poder político mais importante de todos, que é o Legislativo, extrapola em muito o que é mera função administrativa do Estado. Porque, então, nós jogamos para o Estado tantas e tantas obrigações e, consequentemente, tantos e tantos poderes?

Porque somos civilmente desorganizados, porque os princípios de ordem e de autoridade das instituições não-estatais da sociedade estão enfraquecidos, e porque não prestigiamos o verdadeiro poder político, que é o poder do Parlamento.

A conversa liberal, ou melhor, a exageração desta, que é o libertarianismo, o anarco-capitalismo, etc., contribuem para o fortalecimento do Estado ao invés da sua supressão, porque aumentam a causa da força estatal: o caos social, a desordem civil. Contra toda e qualquer autoridade e princípio de ordem, os imbecis, que no fundo são anarquistas mal formados, levam a confissão de impotência social e política total, e com isso a necessidade urgente de um remédio estatal forte, um novo princípio de restauração da ordem social.

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Alguns anos atrás eu escrevi dois textos elogiando amplamente o potencial dos simuladores eletrônicos, como forma de reduzir estresses contemporâneos e até mesmo custos de atividades através das suas alternativas lúdicas. Eu sei que mexi num tema complexo. Não sou nenhum entusiasta de algo que funcione como o sistema de escravização do filme Matrix, nem nada perto disso. Ainda assim, vejo que é preciso fazer alguma revisão nas idéias a respeito deste assunto.

Farei isto em partes, e de uma forma propositiva.

De imediato, não desisto da idéia de que uma simulação tem o seu valor, especialmente na ampliação da imaginação, como ferramenta laboratorial de educação, e até como suporte de uma assistência vocacional. Reconheço, não obstante, o perigo que há em jogar uma geração que já não está, digamos, muito bem da cabeça, dentro de um sistema que pode ser usado para fuga e escapismo tanto quanto as drogas. Já há casos de viciados em jogos, e nós nem estamos falando ainda dessa reprodução de realidade virtual que, pelo que é relatado (ainda não tive a experiência), deixa os queixos caídos de admiração.

Nós precisamos, necessariamente, acompanhar a evolução da virtual reality junto com a agenda política num plano internacional, ou seja, das iniciativas do globalismo para avançar em certos tópicos ao mesmo tempo em que se disseminam estas tecnologias. Se esta ferramenta for não apenas um novo pico tecnológico, mas consolidar-se como um poderoso sistema de alienação, nós poderemos ver algo como preços inexplicavelmente baixos para esses produtos, “liquidações” ou “promoções” inexplicáveis, e financiamentos extremamente facilitados, como forma de expansão rápida da adesão à nova tecnologia (o que me lembra aquele filme Kingsman). Aparentemente esta será diferente da internet, que como plataforma de difusão da informação livre acabou indo contra o propósito do controle mundial das populações.

Não é possível, no entanto, fazer o discurso alarmista catastrofista apenas porque temos uma nova tecnologia na praça. A locomotiva veio, o avião veio, o telefone veio, a internet veio, e nós não queremos que estas coisas deixem de existir. Possivelmente ocorrerá a mesma coisa com a VR, no fim das contas.

Num próximo texto abordarei detalhadamente certos planos de simulação dentro da perspectiva da educação. Tenho desenvolvido esses planos ao longo dos últimos anos com lentidão, até por conta de meus outros interesses (maiores), mas acho apropriado fazer essa revisitação.

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É imoral, incoerente e histérico o argumento petista de que Dilma está sendo punida por crime de responsabilidade enquanto os seus antecessores foram deixados livres.

É imoral porque você simplesmente não pode exigir para si impunidade porque um outro cometeu uma violação sem ser punido.

É incoerente porque é a confissão de que os políticos que fazem oposição hoje são melhores do que os próprios petistas quando se opunham aos presidentes anteriores a Lula.

É histérico porque reage por pura imaginação ignorando que (a) a desproporção descomunal entre o tamanho da irresponsabilidade particular de Dilma com relação aos presidentes anteriores já mostra porque ela deveria ser punida quando os outros foram perdoados, e que (b) as consequências estruturais na economia do país destes desequilíbrios fiscais foram muitíssimo mais vastos do que o ocorrido nos mandatos anteriores.

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Estou espantado com o artigo “Deus está vivo” de Vilma Gryzinski na Veja.

Impecável.

Como a maioria da população apoia o impedimento, a atitude de mais de dois terços dos deputados correspondeu ao desejo popular. Quem se horrorizou foi a casta dos bem-pensantes que torcia por um resultado oposto, mas, na falta de argumento melhor, resolveu ridicularizar os representantes do povo.”

Esse tipo de dissintonia cognitiva decorre da convivência exclusiva entre iguais. Professores universitários, profissionais liberais, jornalistas e correlatos em geral estudam em escolas semelhantes, frequentam apenas uns aos outros e, hoje, são filhos de pais que se desligaram dos laços religiosos tradicionais, sem transmitir a prodigiosa riqueza cultural da antiga religião dominante, a católica.”

Meu Deus! De onde tiraram essa mulher?!

Eu nunca pensei que leria na Veja as palavras “laços religiosos tradicionais” juntas com “prodigiosa riqueza cultural da antiga religião”. Um assombro essa Vilma.

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03/05/2016

A falta de comunicação, ou a comunicação ineficaz, explica muitos dos problemas que os seres humanos vivem. Nós fomos enfiados mentalmente num mundinho ilusório de disputas e de competições totalmente absurdo, que impede que as pessoas se entendam. A competitividade é saudável dentro de um “sistema de jogo”, do qual as pessoas devem saudavelmente sair o mais rápido possível e retomar suas posições de maturidade psicológica.

Especialmente aquelas lideranças e chefias que deveriam dar o exemplo da compreensão e da capacidade de harmonizar e esclarecer os subordinados acabam sendo, estas mesmas, as condutoras do caos, das pressões desmedidas e das disputas sem fim.

As pessoas que gostam da “lei da selva” não apreciam realmente a sua exposição aos riscos que isto implica: elas apreciam o poder sobre as outras pessoas. Este é o segredo do “dividir para conquistar”, que não é uma visão coerente e decente sobre um mundo, mas uma técnica para enfraquecer os outros e prevalecer sobre eles.

Nós entendemos a validade disto até certo ponto. A partir de um determinado momento, isto se torna desumano e cruel. Mas é claro que alguns dos empoderados não ligam para isso, porque para eles tudo está muito bem obrigado. Sou um admirador confesso de muitas coisas da cultura americana, mas uma das coisas que eu acho mais problemática é essa obsessão pelo winning. Sem limites, esta brincadeira acaba muito mal. Seria como, na mitologia antiga, você tirar Júpiter do poder e colocar Marte em seu lugar, o resultado será uma zona de guerra, ou seja, de sangue, suor e lágrimas.

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O Rodolpho Loreto está certo ao apontar os limites da solução espiritual conservadora dentro do mundo anglo-saxão. Eu também lembrei, ao ver os elogios de Roger Scruton a “contemplatividade”, do tampão metafísico herdado de Kant. Posso falar com certa propriedade aqui porque testei na minha vida, por volta de meus 20 anos de idade, os limites da tranquilidade contemplativa sugerida pelo senhor Arthur Schopenhauer, também um filhote de Kant, e que tem no fim das contas a efetividade equivalente a de se querer curar uma fratura exposta com um band-aid. Não funciona, desculpe senhor Scruton. O senhor é muito bom, mas isso não funciona. E além de não funcionar, não impede o avanço avassalador do laicismo niilista ocidental, por um lado, e do Islam como cultura alternativa por outro. O que vocês precisam é da Igreja Católica, só que vocês não sabem disso ainda. 

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O Conde Loppeux (Leonardo Olivaria) tem razão na sua análise, que corrobora o que venho dizendo aqui, sobre a importância da eleição de um Legislativo conservador no país. Sim, sem isso não adianta eleger quem quer que seja para o Executivo. Não se esqueçam que foi o corrupto, fisiologista e moralmente suspeito PMDB, no Parlamento, que conseguiu realmente derrubar o PT do poder, especialmente o sujíssimo Eduardo Cunha.

Eduardo Cunha falou, em Março do ano passado, que o afastamento do PMDB da base (um processo que começava ali, ou ao menos um processo de desconfiança política) se devia ao expediente petista de abrir uma nova legenda sob Kassab para esvaziar o PMDB, como se havia feito anteriormente com o PFL/Democratas, esvaziado na abertura do PSD, com o mesmo Kassab. Isto de fato ocorreu na época. Vocês não se lembram?

Mais: Delcídio do Amaral, em sua delação premiada feita para o Ministério Público Federal, deixa claro que a disputa de poder entre PT e PMDB havia ocorrido principalmente por causa da ameaça a proeminência de Cunha na administração de Furnas. Vocês não se lembram?

Por razões mais republicanas ou menos republicanas, o que travou o crescimento totalitário do PT no Brasil foi o corrupto PMDB, levado pelo corruptíssimo Eduardo Cunha. Se isto não servir para mostrar a necessidade da eleição de candidatos bons e fortes para o Legislativo, eu não sei o que serviria.

Há uma evidente confluência da decepção, do fracasso e da impotência política e cultural na Direita para as soluções macarrônicas, na linha de escolha, por exemplo, de um Bolsonaro como líder do poder Executivo. Qual é a real efetividade disso para o país, se não nos preocuparmos tanto quanto, ou até mais ainda, com a eleição de um Parlamento mais conservador? Eu entendo que é para poucos a luta geracional no âmbito cultural e social. Quem quer se comprometer com um projeto que vai levar vinte anos para funcionar? Eu não ligo, eu aceito, porque é isso que faz mais sentido para mim e me satisfaz pessoalmente. Mas a maioria quer soluções emergenciais, e com isso acabam colhendo resultados pífios, deixando passar oportunidades valiosas.

Falando nisso, não subestimem a esquerda depois da queda de Dilma. Eles podem aprender rapidamente que a razão do seu ocaso foi a falta de apoio parlamentar (que já não era mais possível comprar), tanto quanto ocorreu com outros países do Foro de São Paulo, e podem contra-atacar com um esforço lento mas bem empenhado na eleição de progressistas e de esquerdistas em geral para o Congresso Nacional em 2018 e em 2022. É preciso atacar nessa frente e competir ferrenhamente para que o Legislativo seja predominantemente conservador e moderadamente liberal.

Como fazer isso?

Há muita coisa por se fazer.

Não consigo indicar todos os caminhos, mas sem dúvida há um trabalho importante a ser feito na internet, nas escolas, nas universidades, no acompanhamento da mídia e do próprio Parlamento, etc. De minha parte mesmo, uma das coisas que pretendo fazer de forma mais intensa a partir de janeiro de 2017 é o meu serviço de media watch. Não se pode perdoar que os jornais, revistas e televisões propaguem idéias da agenda revolucionária como se fossem consensuais e retiradas dos anseios populares. Mas isto é apenas um tipo de serviço, e que tem que ser feito por muitas pessoas e de muitas formas diferentes.

O monitoramento especificamente liberal-conservador dos nossos congressistas, por exemplo, para uma espécie de raio-X na época da eleição, é algo fundamental.

Não garanto que poderei dar fôlego para iniciativas práticas além do media watch antes de 2018, mas posso tentar viabilizar essas coisas, contando até talvez com a ajuda de alguns amigos meus.

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04/05/2016

Em grande parte a tolerância com o PT deriva apenas da cobertura compreensiva, generosa e acobertadora da mídia. Não acredito, exceto por uma militância mais ou menos alinhada com os feudos demográficos dos funcionários públicos e dos beneficiários de programas assistenciais, que exista mais apoio popular a uma entidade como o PT. Existe na mídia e também, é importante frisar, nas universidades, uma rede de solidariedade e de proteção aos interesses da esquerda em geral, mas este é um apoio que foi conquistado no longo prazo pela ocupação de espaços.

A política é um território onde a iniciativa é extremamente importante. Quando se estima a influência real do chamado soft power, que é o principal instrumento da hegemonia cultural que dá tanta sustentação política aos contendores da esquerda, percebe-se que o trabalho nesta área recompensa. Os direitistas em geral, confessadamente anti-petistas e anti-esquerdistas, mal começaram a trabalhar realmente na formação do seu próprio soft power e já querem vitória em todas as frentes que combatem.

É preciso olhar as coisas em perspectiva. E é preciso tomar o gosto pela discussão concreta de temas, para além do alarmismo político. Eu entendo perfeitamente que dizer “não” para a agenda progressista é mais do que suficiente para nos deixar viver mais em paz, mas como disse, a política requer a iniciativa. É difícil conseguir realmente uma paz duradoura, tanto quanto é difícil, particularmente aos conservadores, ter uma agenda positiva que não contenha apenas a reação contra o esquerdismo progressista. Todos estes problemas devem ser enfrentados.

Do lado liberal, a força está em promover a prosperidade sem colar nisso o progressismo cultural, dos costumes, etc. Eu não entendo ainda como tantos liberais conseguem ser insensíveis neste ponto. Não há nada de revolucionário em se propor que o povo de uma nação enriqueça. E não há conservador neste mundo (exceto entre uns poucos que são, na verdade, tradicionalistas) que vá afirmar que a prosperidade conduz necessariamente a uma decadência social, o máximo que pode dizer é de um certo risco que vale a pena ser admitido para que as pessoas vivam melhor. O maior tiro no pé que os liberais dão –mas me refiro especificamente aos chamados libertários, anarco-capitalistas, etc.– é formar essa gelatina que mantém junto com a agenda de prosperidade do livre mercado a revolução cultural que desprestigia as instituições tradicionais da sociedade, principalmente a família e a religião.

Do lado conservador, como já disse as coisas são um pouco mais complicadas. Não se trata de promover algo totalmente novo a ser acrescentado como um corpo estranho ao tecido social, e nem de fixar-se num imobilismo petrificado que engesse o fluxo da vida. O desafio é o de conservar as melhores coisas das nossas tradições através de um resgate, ou seja, da recuperação e da “atualização” dessa sabedoria para os nossos dias, de forma que cada geração atual tenha a possibilidade de recuperar para si a parte do tesouro da tradição que lhe compete. Isso dá mais trabalho do que se imagina. Você precisa de uma classe inteira de pessoas dedicadas a fazer este resgate e a educar a população, num trabalho que leva décadas. E cada um desses contribuintes precisa ser bem educado, numa boa base moral, para que possa pessoalmente dedicar-se ao resgate ao invés de cair na tentação da “criatividade”. Nós podemos ser conservadores criativos após a recuperação da tradição, ou seja, nas formas e nos meios variados de difusão daquilo que recuperamos para a nossa comunidade. Mas não antes disso. E o problema é que existe uma sistemática que repele essa dedicação serena aos estudos tradicionais, como aliás a própria comunidade científica contemporânea acaba admitindo quando afirma que o volume de pesquisas “criativas” excede muito a qualidade real destas pesquisas, simplesmente porque a remuneração dos pesquisadores é atrelada, evidentemente, ao volume mensurável dos trabalhos.

Isto me remete ao artigo O maior problema do mundo, de Olavo, que já abordou o problema das limitações da nossa época no que tange a produtividade e o reconhecimento social. Existe toda uma camada social desajustada que deveria estar engajada em determinadas atividades relevantes para a sociedade, mas que fica infelizmente refém dos critérios atuais de produtividade, de utilidade, de reconhecimento de valor, etc.

É aí neste cenário que a iniciativa individual desponta com um peso enorme. Nós podemos, individualmente, dedicar-nos a fazer aquelas coisas que coletivamente são inviáveis, desde que estejamos prontos para pagar o preço social e os sacrifícios biográficos que são exigidos para o sucesso deste tipo de empreitada.

Por uma razão ou por outra, eu acabei me vendo praticamente sem alianças ou patronatos de quaisquer naturezas, tendo com isso a dificuldade de fazer algo dar certo pelas minhas forças (embora tenha tomado impulso, diga-se a verdade, nos ombros de gigantes, vivos e mortos), mas tendo também a vantagem de afirmar, a qualquer momento, que não estou comprometido com quem quer que seja, e que atuo, assim, com autonomia e liberdade quase ideais no campo intelectual.

Leva muito tempo, na escala do indivíduo, para fazer esse tipo de iniciativa gerar algum resultado por mínimo que seja, mas vale a pena.

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Diogo Mainardi tem o prazer sincero de ser um Antagonista cético e cínico. Ele jamais irá aprovar qualquer discurso positivo no campo político. A única verdade que ele sempre defenderá será a de que ninguém presta. Não peçam mais nada dele a não ser isso. Ele é um conservador num sentido muito antigo da palavra. 

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Bexiga de festa (2)

Minha desconfiança com a “indústria do sucesso” vem de longe. Faz mais de quinze anos que acompanho o trabalho da empresa Despair Inc., que produz os chamados Demotivators. A intenção desta companhia é gerar produtos de contra-cultura, invertendo a lógica da indústria motivacional pela desqualificação do discurso e pela geração de uma versão cética e cínica a respeito das relações entre as empresas e os seus empregados.

O criador da empresa, E. L. Kersten, escreveu um livro chamado The Art of Demotivation, o qual já li e posso recomendar como uma leitura interessante, embora não seja de fato genial. Kersten, às vezes, beira o pensamento marxista, assumindo o que seria o discurso do lado do explorador da luta de classes, sempre de forma dúbia. A dubiedade é a marca do Despair Inc., onde você nunca sabe exatamente se os caras acreditam em 100% do que dizem, ou se a intenção é apenas provocar com ironia. Eu, particularmente, aposto na ironia. Acredito que o Sr. Kersten não faça realmente idéia de que é possível, em algumas partes do mundo (e até nos seus EUA de Obama), creditar a sua postura empresarial a uma ideologia de classe.

As orientações de gestão de recursos humanos não são a parte mais relevante do trabalho de Kersten no Despair Inc. A parte mais interessante é realmente a desmontagem e a ridicularização dos discursos motivacionais, o que é feito pelo produto principal da Despair Inc., os Demotivators. Futuramente pretendo comentar um por um desses famigerados pôsteres, explorando seus respectivos insights, que podem de fato ser mais instrutivos do que o aspecto cômico insinua a primeira vista.

Por ora o que posso afirmar é que esse tipo de zombaria com a indústria motivacional é necessária para dar o contrabalanço realista ao que se vende por aí. Sou fã da abordagem em que Kersten denuncia no seu livro o “ciclo da motivação”: (1) você está naturalmente desmotivado com a sua realidade concreta; (2) você precisa de uma injeção de ânimo motivacional para voltar a sonhar com uma hipotética felicidade futura; (3) o sonho motivado te encaminha inevitavelmente para o confronto com a realidade; (4) a destruição do sonho sem fundamentos pelos limites das possibilidades reais gera nova desilusão; volta-se ao ponto (1) e começa-se tudo de novo.

A prova de que este ciclo existe é a quantidade assombrosa de livros de auto-ajuda que existem. Sejamos francos: se uma orientação de auto-ajuda fosse realmente boa o suficiente, não seria necessário escrever mais pilhas e pilhas de livros a respeito.

Se é verdade que existe em filosofia a investigação das causas e da própria concretude da felicidade humana, o propósito desta pesquisa é alcançar patamares reais da ciência, como aliás tenho para mim que conquistamos com Sócrates, ou com Santo Agostinho.

Já em psicologia, você tem uma dispersão daquela concentração filosófica inicial para dentro de várias linhas de pensamento que tentam mais ou menos se reportar umas às outras, embora no fim das contas sai-se da ciência estrita quando se decide por uma premissa que se torna crença do método de determinada escola de psicologia.

A auto-ajuda e a indústria motivacional como um todo já generalizam esta lógica do vício humano de se acreditar em ilusões para o mero conforto psicológico momentâneo e cria várias esteiras para que as pessoas corram em cima inutilmente, sem nenhum compromisso com a ciência de se buscar a verdade das coisas.

Paradoxalmente (ou não), o volume de atenção e dinheiro dedicado a busca da felicidade é inversamente proporcional a solidez do método utilizado: muitos consomem auto-ajuda como se fosse água para hidratar o ego, menos pessoas buscam a psicologia para uma compreensão mais profunda de si mesmos, e um número realmente mínimo tem a preocupação de atingir a ciência superior da filosofia.

Fico feliz comigo mesmo por ser um pobre rapaz sem dinheiro nem atenção, mas consciente da proporcionalidade das coisas.

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Os liberais são da Babilônia; os conservadores são de Jerusalém (3)

A Babilônia é a Cidade dos Homens porque nela o homem é o centro de atenção do universo. O “homem universal” não é filho de Deus, mas é filho do Homem apenas. O destino humano é feito pelo próprio homem. O telos humano é função do desejo de ser do próprio ser humano. O sentido da vida humana é auto determinado, auto fundante.

Jerusalém é a Cidade de Deus porque nela Deus é o centro de atenção do universo. O homem universal é Jesus Cristo, Filho do Homem, mas também Filho de Deus, o Verbo Encarnado. O destino humano é determinado pela vontade divina que harmoniza a vida dos indivíduos num concerto espiritual perfeito. O sentido da vida humana é transcendente à própria vida.

Posto isso, podemos identificar claramente no idealismo dos liberais aquele abstracionismo que seria característico dos habitantes da Cidade de Deus, se não fossem estes habitantes inequívocos da Cidade dos Homens. Em outras palavras: os liberais pensam que estão em um lugar com a garantia da civilidade, e abusam de sua liberdade, sem perceber que na verdade estão presos na lógica da Cidade dos Homens. A liberdade individual destemperada e sem os freios de uma autoridade política reconhecida publicamente se torna despótica, e a Polis se torna reino da tirania humana. O mais forte vence pela lei do número se não existe nenhuma moral ou Lei superior que regule as vontades individuais. A liberdade individual como valor máximo não leva à civilização, mas à barbárie da Lei da Selva.

A civilização humana é muito menos fruto da inventividade de indivíduos socialmente isolados do que da civilização ordenada por princípios transcendentes encarnados na cultura. É de Jerusalém, e não da Babilônia, que sai a verdadeira paz, a verdadeira prosperidade, e a verdadeira civilização.

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James Shapiro fez muito bem em dar um chega para lá na reportagem de Veja, sobre fofocas dos detalhes da biografia de Shakespeare. “Nunca tive muito interesse em especular sobre isso.”

Tomem, seus bestas.

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Porque eu faria alguma coisa pelo futuro se ele nunca fez nada por mim?

Groucho Marx

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Eu escrevi em meu site que faz todo o sentido do mundo repensar o Orçamento da União integralmente, calcular tudo o que pode ser feito em termos de redução inteligente sem a menor interferência de pensamentos ideológicos, e então apresentar o plano ao Parlamento com a chancela de todos os grandes economistas do país. O que o Congresso Nacional poderia fazer, senão levar a coisa adiante, conversar com todo mundo na sociedade e levar em frente o projeto, mesmo que com pequenas alterações nos volumes dos cortes ou certas ampliações no cronograma?

Armínio Fraga concorda comigo, pelo que disse na entrevista que deu ao programa Roda Viva da última segunda-feira. Orçamento base zero.

Jorge Lemann e sua equipe do 3G, esses bilionários brasileiros que são elogiados por sua competência em gestão por ninguém menos que Warren Buffett, o caçador de vantagens competitivas de longo-prazo, aplicam em toda e qualquer empresa que compram a mesma coisa: revisão total de todos os custos, como se a empresa existisse do nada. E mais: aplicam uma política de revisão constante dos custos, pois como se sabe, custo é como unha, é preciso cortar sempre. Orçamento base zero.

Claudio Galeazzi, parceiro de Abílio Diniz, é conhecido como o mãos-de-tesoura por aplicar igual rigor na avaliação dos custos, e ser capaz de produzir rentabilidade como se fosse mágica. Já disse que aceitaria consertar a Petrobras sem problemas, desde que não amarrassem as suas mãos. Orçamento base zero.

Acabo de ler uma reportagem na IstoÉ Dinheiro sobre a gestão de Antonio Roberto Cortes na MAN Latin America. Resolveram avaliar cada custo desde o princípio e como resultado alcançaram 30% de redução nos custos. Repito: 30%. Orçamento base zero.

Orçamento base zero, orçamento base zero, orçamento base zero…

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A questão da imposição de um limite de consumo na banda larga fixa no país não é uma “polêmica”.

Outro dia eu disse que era absurdo o presidente da ANATEL dizer que “a era da internet ilimitada acabou”. Tive que ouvir que isso era “bobagem”.

Não é bobagem.

O presidente da ANATEL não representa as empresas, ao contrário, representa os consumidores dos serviços regulados contra os interesses destas.

O streaming, que nós sabemos muito bem que ameaça as receitas das grandes operadoras, pode ser visto como pressão para avançar ou para retroceder. A proteção de uma agência reguladora é um retrocesso. As operadoras devem competir livremente e se uma delas conseguir fornecer o melhor custo-benefício, esta será premiada pelo mercado. Se as operadores revolverem se cartelizar, serão punidas por isso. A missão da regulação de mercado é espremer os fornecedores até o último centavo.

Vocês acham que a ANATEL está fazendo isso?

Vocês acham que a fala do cidadão é uma bobagem?

Quando Amos Genish, da Vivo, diz que é injusto que um cliente que consome menos pague tanto quanto aquele que consome mais, ele só se esquece de esclarecer se cobrar mais de quem consome mais é mais justo do que cobrar menos de quem consome menos.

A inovação sempre baterá nessas máfias. E as máfias baterão sempre nos seus compromissados. É muito mais fácil fazer política do que fazer gestão.

Não há que se falar em mudança de regulação para as operadoras. Elas simplesmente têm que trabalhar e oferecer o melhor serviço possível pelo menor custo possível. Eu entendo que uma empresa peça licença para oferecer um pacote com franquia, evidentemente. Mas não defendo que isso se torne prática consensual, e muito menos que essa prática seja endossada pela agência reguladora… francamente.

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Eu gostaria de ver pessoalmente a cara do Caio Blinder quando Trump vencer a Hillary Clinton. Infelizmente teremos que saber por testemunhos, se é que ele não vai chorar num quarto sozinho. 

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Márcio Kroehn, da IstoÉ Dinheiro, se não rompeu os limites da retórica, acreditou mesmo que seria possível avaliar o desempenho de um Presidente da República como se faz com um CEO de uma empresa?

Além desta tolice, o editor afirma que “ainda temos uma direita covarde elogiando a Ditadura Militar”. Quem é covarde, seu imbecil?

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05/05/2016

O Antagonista tem tudo para ser o que a população precisa em termos de imprensa, mas ainda deixa a desejar. As besteiras que eles escrevem às vezes são vícios do jornalismo pregresso, ou são convicções sérias mesmo?

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06/05/2016

Um dia para muitas reflexões e, como sempre, pouco tempo para refletir.

Se uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida, o que nós estamos fazendo no meio desta bagunça?

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O Antagonista definitivamente passou um atestado ontem, na decisão que o STF tomou para afastar Eduardo Cunha do mandato e, consequentemente, da Presidência da Câmara dos Deputados. Só não sabemos ainda se foi um atestado de burrice ou de comprometimento.

Os organismos políticos e midiáticos legalistas da auto-nomeada “oposição democrática”, como PSDB, MBL, Reinaldo Azevedo, etc., corroboraram a versão absolutamente estapafúrdia, alardeada por uma senhora conhecida nossa de nome Eliane Cantanhêde, de que o Ministro Teori Zavascki teria supostamente desarmado uma “bomba”, que seria uma conspiração de Lewandowski com Marco Aurélio para julgar com urgência uma ADPF solicitada para a Rede que tiraria Cunha do poder e invalidaria seus atos como Presidente da Câmara, algo que teria impacto potencial sobre o processo de impeachment, que foi acolhido por Cunha na função de Presidente da Câmara.

Isto faz tanto sentido quanto você roubar preventivamente um banco para evitar que uma determinada gangue faça o roubo antes, porque os integrantes desta gangue usariam supostamente o dinheiro para fabricar uma bomba para um atentado terrorista, enquanto você é bonzinho e não vai fazer nada de mal com o produto do assalto.

Ninguém quer Cunha na Câmara, é evidente. Mas o instrumento de sua suspensão foi absolutamente, escandalosamente ilegal, como se o STF declarasse publicamente a sua plena capacidade de bolivarianização ao toque de uma corneta. Quem poderá ser impedido amanhã de exercer poderes por estre superpoder chamado STF?

O mais ridículo de tudo é assistir justamente os legalistas de sempre aplaudirem a decisão como se fosse sábia e sinal, pasmem, da saúde institucional do país. “Acabou a impunidade”, dizem. Seria interessante ver a aplicação deste precedente nos casos de Renan Calheiros, Lula e Dilma, por exemplo.

Também nos espanta que todos aqueles que julgavam a “extrema-direita” como conspiracionista topem acreditar na primeira versão vagabunda que é apresentada para justificar o ato de ontem., que foi completamente intempestivo.

Como eu já disse, a política deste país é quase que exclusivamente palaciana, e o jornalismo não é outra coisa que o meio oficial de propaganda das versões oficiais e oficiosas dos poderosos do momento.

O Antagonista era uma notável exceção, pelo menos até ontem. Vejamos como se comportam daqui para diante. Eu gostaria que eles tivessem vivido apenas um momento de estupidez temporária ontem.

Meus parabéns para a Joice Hasselmann, uma brava mulher, por ter denunciado essa farsa ridícula.

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A música do dia é “Magic” do Coldplay. Eu não consigo tirar da cabeça, para o bem ou para o mal. E olhe que não é o meu tipo de música. 

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Outro canceriano notável, vizinho de dia de aniversário: Christian von Koenigsegg. Não sei até onde o mérito é pessoalmente dele, mas a produção de uma máquina como o Agera torna automaticamente o seu fabricante um indivíduo relevante. 

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Tem muito empresário que se gaba de sua inteligência “prática” só porque não conhece a mente de um Erwin Rommel. Se conhecessem, esses presunçosos sentiriam vergonha de ser exibidos. 

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Com o avanço da candidatura Trump, os nossos esclarecidos analistas políticos internacionais ficam embasbacados e quietos. Faltou, afinal, para que suas brilhantes teses procedessem, o respaldo de algo que se chama realidade.

Se estivessem realmente preocupados com os fatos, estariam avaliando seriamente qual é a relação com a NOM globalista ocidental, e reciprocamente com a Rússia de Putin. Esta é a única coisa que realmente interessa em Trump: se ele é anti-NOM, ou ele é um líder patriótico de fato ou é uma criação mais moderna do esquema russo-chinês, em substituição aos Clinton.

Mas os nossos analistas não podem perder o seu precioso tempo com essas maluquices, não é? Tanto quanto não podiam acreditar, até ontem, que Trump seria o candidato do Partido Republicano.

Nós ficamos, de nossa parte, cada vez mais cansados de ouvir e de ler mentiras e desconversas na grande mídia.

Por isso é tão importante incentivar projetos de jornalismo livre na internet e ficar, ao mesmo tempo, vigilantes com o menor sinal de comprometimento fisiológico ou ideológico.

Falando nisso, congratulo o Paulo Enéas pelo seu site, Crítica Nacional, que apareceu para a nossa satisfação. Já acompanhava o que escrevia no Facebook e posso dizer que este diz as coisas sem cabresto.

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Um dia Olavo olhou para mim e disse “não faça as coisas sozinho”.

Ele não disse isso para mim, mas para todo um grupo de pessoas do qual eu fazia parte quase que anonimamente. Naquele instante, naquela frase, eu era o contemplado com o olhar generoso e compreensivo deste grande professor, desde verdadeiro mestre.

Pois é, professor, eu tentei. Mas o meu problema não é que eu quero fazer as coisas sozinho, o problema é que eu estou sozinho. Já faz anos que esta não é uma reclamação, é apenas a declaração de um estado de coisas. Muitos colegas, projetos, reuniões e conversas depois, continuo na minha situação de indivíduo relativamente isolado. Tenho leitores esporádicos, e muito eventualmente alguma sugestão exterior de pauta, mas no geral não consigo agregar nenhum valor com os contatos que tenho. Sou socialmente imprestável neste sentido.

Não existe utopia intelectual que dê conta de tantos egos ao mesmo tempo. Cada um tem que se humilhar diante do nosso verdadeiro Mestre e dizer a Ele: “faça comigo o que quiser”. Às vezes o resultado disso é um trabalho solitário e discreto, mas que não deixa de ter o seu valor.

Meu registro, porém, será sempre este: não foi pela minha vontade que fiquei sozinho. É o resultado de uma força maior. Manda quem pode, e obedece quem tem juízo.

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Não foi por piada que sugeri no Twitter do Deputado Federal Eduardo Bolsonaro que os membros da família Bolsonaro viagem em aviões diferentes. Na ausência prática de uma família Real que ponha a mão na massa, nós precisamos dos Bolsonaro. É bom que eles adotem algumas práticas de segurança da realeza. 

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O maior problema do mundo não é apenas dar função socialmente útil aos desajustados, mas permitir, ao mesmo tempo, que as virtudes atrofiadas de alguns desses desajustados floresçam e inundem o mundo com a luz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para que isso ocorra, nós precisamos de pioneiros.

E para que haja esses pioneiros, nós precisamos dos primeiros entre eles.

A virtude da coragem abre o espaço para as outras aparecerem.

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A histeria da grande mídia contra Trump apenas o fortalece, pois serve como prova de seu principal argumento: o establishment político vive de enganar o público com os serviços de uma imprensa mentirosa.

Praticamente todos os que acusam Trump de praticar insultos usam de uma linguagem morna para ataca-lo de forma vaga e imprecisa, como alguém que apela, que faz discurso baixo, etc. É engraçado este paradoxo: Trumo esquenta o discurso, e apaixona as massas, porque fala diretamente de assuntos publicamente relevantes sem papas na língua, enquanto a mídia quer esfriar o debate apelando, não obstante, para o desvio da discussão das questões tratadas por Trump de forma bastante objetiva.

O medo que se quer incutir pode muito bem ser o sentimento do establishment diante de um possível Trump como POTUS. Se a maior autoridade dos EUA romper com o politicamente-correto nós veremos o desabamento em série de várias farsas culturais e sociais. Por mais ardilosas que sejam as mentiras construídas com requintes de uma fina engenharia social ao longo de décadas, a força da verdade é uma ameaça temível, principalmente quando é usada por um nome nacionalmente forte, de uma autoridade pública.

Ressalvada a hipótese, a que já me referi, de um Trump teleguiado por FSB/KGB, será lindo assistir o terror do estamento globalista nos EUA.

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Apelidos dos nossos aprendizes de ditador no STF: Vencido (Marco Aurélio), Exemplar (Cármen Lúcia), Principiólogo (Fux), Rigoroso (Zavascki), Pacificador (Fachin), Contributivista (Barroso), Gélida (Weber), Positivista (Toffoli), Antimajoritário (Gilmar Mendes), Decano (Celso de Mello) e Garantista (Lewandowski).

Como se vê, o grupo tem tudo para ser uma gangue, até os codinomes.

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A Maria Cristina Fernandes, jornalista do jornal Valor, é muito cuidadosa. Escreveu um texto sobre Bolsonaro na edição de hoje e, sem ataques gratuitos, deu a impressão de que este sabe se virar jogo político, apesar de muitos pesares, sólidos pesares, graves pesares. Se ela for esquerdista ou ao menos progressista, como acredito que é o caso, talvez seja uma das mais hábeis em circulação na imprensa.

Bolsonaro marca pontos: ele é assunto. A própria coluna afirma: Maria do Rosário retirou-se, Jean Wyllys também se retira… Bolsonaro fica e aparece.

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Independentemente da solução da questão dos jogos simuladores no futuro, que se tornou mais complexa com o advento da mais recente tecnologia de virtual reality, mantenho a premissa mínima de que um sistema que simula determinados ambientes pode servir para aumentar a capacidade de aprendizado de estudantes de diversas áreas.

Essas simulações não precisam ser gráficas. É aí que eu me permito desprezar, por ora, a questão da tecnologia VR. Não precisamos recriar o mundo real. O valor educativo da simulação, tal como o vejo, está na representação dos papéis, algo mais ligado à imaginação poética e, ao mesmo tempo, à compreensão de estruturas abstratas.

Eu aprendi essa possibilidade com os jogos de RPG (Role Playing Games) tradicionais de mesa, ou seja, os jogos realmente “livres” que usavam as mentes dos jogadores no lugar do hardware dos videogames.

O roleplay é a interpretação do papel, é o assumir virtual de decisões e da responsabilidade pelas consequências. Isto pode ajudar alguém a aprender muito mais rápido que com muita teoria escrita ou falada.

Com o tempo idealizei mais ou menos três jogos, que poderiam ser rodados paralelamente ou simultaneamente, para servir a esse propósito educativo. Embora o terceiro seja ainda um pouco controverso, posso falar dos primeiros dois sistemas: de simulação econômico-financeira e de simulação político-militar.

Na parte de finanças e economia, a idéia é recriar um ambiente virtual de atividades econômicas livremente pactuadas, com as regras mais simples possíveis. Cada jogador possui um patrimônio virtual e é responsável pela administração de seus negócios, em aliança ou até em competição com os outros jogadores. Haveria um desaguamento dos resultados desta simulação para a próxima, a partir do momento em que as lideranças políticas representativas de papéis do segundo simulador poderiam ser apoiadas por doações de pessoas físicas e jurídicas do primeiro simulado, perfazendo assim um sistema completo de simulação de economia e de política, com os respectivos desdobramentos financeiros e militares em cada ambiente particular.

Esta explicação é mais ou menos enfadonha, eu sei. Pretendo resolver o problema transcrevendo um simulado protótipo. Para isso preciso criar o sistema básico de economia e lançar nele os jogadores virtuais que teriam suas posições relatadas, como num roleplay.

Ainda me faltam as regras, que pretendo escrever em breve quando tiver mais tempo disponível (que coisa mais escassa essa, o tempo). Já imaginei as holdings fictícias, algumas mais óbvias e outras nem tanto, e suas respectivas especialidades industriais (um agregador de bônus).

O terceiro e derradeiro simulador, seria o de uma disputa cultural-ideológica. A idéia é a de costurar os três simuladores numa única história cíclica, que envolveria os jogadores e os incentivaria a aprender sobre esses três graus de poder mundano.

Tudo começaria como uma rivalidade de facções que se estabeleceria no mercado financeiro e em diversas áreas da economia. A busca do lucro serviria para consolidar esses impérios econômicos e para financiar a eleição de políticos (ou até a carreira de golpistas), que tomariam o poder e agiriam para a defesa dos interesses de suas respectivas facções, ainda dentro do âmbito econômico-financeiro.

Em determinado momento (quando uma facção vencesse as demais por uma superioridade patrimonial considerável, talvez na casa dos 75%) o conflito de facções passaria para o âmbito militar. As lideranças políticas seriam mantidas, com interferência na escolha dos comandos, e até em estratégias mais amplas. Com isto, interpretados os papéis econômicos, políticos e militares, praticamente toda a simulação estaria encerrada até este segundo capítulo, quando uma facção sobrepujará as demais em domínio territorial (também com uma possível superioridade de 75%).

A narrativa descreveria então um cataclismo global com o acionamento de múltiplos dispositivos de destruição em massa, o que levaria o mundo de volta a um nível relativamente primário de sobrevivência. O que conhecemos como economia e política modernas seria história passada. As comunidades se organizariam para a sobrevivência de seus membros locais, e a rivalidade residual entre facções ocorreria com disputas entre esses feudos.

Com o fim do processo de desenvolvimento industrial, econômico e político, restará às facções o domínio cultural desses feudos, a doutrina definitiva que vencerá as demais e se firmará como bandeira final da humanidade. Cada facção poderá escolher, então, os seus determinados “campeões” que surgirão por um advento sobrenatural, e poderão ser convocados para lutar por uma determinada cidade contra a outra, levando consigo uma determinada bandeira cultural a se propagar na população local em caso de vitória. Eu sei muito bem que aqui nós atingimos o limite do razoável e já entramos na ficção total. Acabou o aprendizado, então? Resta apenas a diversão?

Não é bem assim porque a escolha dos campeões, figuras necessariamente emblemáticas, determina o entendimento de certos traços culturais que configuram a “bandeira” daquele campeão. Cada jogador terá acesso, então, a esses traços, e poderá compreender com mais profundidade (tanto quanto queira) como esses traços se desdobram na prática da vida humana, seja individualmente ou em sociedade. Sim, neste ponto nós sempre dependeremos da vontade de saber do jogador, mas isto é natural. Existe uma barreira intransponível que impede a “jogabilização” desses traços culturais, tanto quanto são imensuráveis as realidades fundamentais da nossa vida espiritual, o Bem, a Verdade, a Beleza, etc. A idéia é apenas levar o jogador a ter contato com diferentes idéias nas formas dessas bandeiras culturais, e trazer também a noção de que pode haver uma espécie de “guerra cultural”, embora o jogo faça isso de forma limitada. Seria possível pensar em um jogo mais especializado na guerra cultural em si, que levaria no entanto a um outro tipo de sistema que não é o que eu tenho em mente.

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09/05/2016

Sonhos tranquilos nesta última noite: em um deles uma autoridade dizia que haveria um terremoto no dia Sete de Setembro, e no outro eu assisti da janela uma chacina com direito a um longo tiroteio e muitos gritos de terror. Nada melhor que isso para começar um novo dia, não é?

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Toda a confiança excessiva em seres humanos gera algum tipo de desilusão, maior ou menor, que corresponde ao desajuste entre as qualidades do objeto e a sua dignificação. A oração e a vida espiritual saudável, em geral, são as vias seguras para evitar este problema, pois a Deus em primeiro e em único lugar já foi dirigida todo o louvor e a adoração. Resta aos nossos irmãos o reflexo dessa relação com Deus, que é um amor piedoso, compassivo, caridoso, etc.

A quantidade de erros políticos que se desdobram pelo desconhecimento desta simples regra da existência humana é ilimitada. Todos os “erros da Rússia” são advindos da falta de piedade, toda a mentalidade revolucionária é oriunda deste desequilíbrio. As pessoas querem ser salvas, mas os tiranos as encaminham para objetos falsos de salvação, que são aceitos na medida da ignorância que o povo tem de suas próprias tradições. E por isso a religião será sempre a adversária mais temível da tirania.

Os libertários que pretendem libertar os indivíduos da tirania estatal condenando junto também toda a força social da religião simplesmente não sabem o que estão fazendo. Eles não conhecem a origem da verdadeira liberdade do homem, que é a vida espiritual. Confundem as coisas, e são propositalmente confundidos pela mentalidade revolucionária que os colhe em sua rede insidiosa de imaginação e crenças.

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O novo Presidente da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, que substituiu Eduardo Cunha (afastado pelo STF), resolveu anular a sessão do impeachment na Câmara. Parece que o fez articulado com José Eduardo Cardoso, o defensor de Dilma na AGU (Advocacia Geral da União). Mesmo que o processo já tenha ido para o Senado, nada impede que Renan Calheiros mande de volta o processo para a Câmara, ou que peça orientação para o STF.

Enfim, nós temos aí um imbróglio que pode acabar de muitas formas.

Se acabar com a manutenção de Dilma no poder, além de uma crise agravadíssima no país nós teremos a confirmação de uma articulação sinistra que envolveu o senhor Maranhão, o senhor Cardoso, o senhor Calheiros e o senhor Zavascki.

Tolos serão todos os que confiaram naquela desconversa conspiratória de Eliane Cantanhêde quando Cunha foi afastado.

Mas existe uma chance razoável de que esse ato de suspensão de Maranhão seja ele próprio suspenso. É o mais fácil a se fazer, e em seguida se tocar o barco do impeachment. Não posso segurar, porém, aquele contentamento macabro caso esse golpe prospere, de dizer a todos os legalistas que confiam na solidez das instituições brasileiras: bem feito. E mesmo que o golpe não passe: bem feito pelo susto.

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A Microsoft comprou o jogo educativo chamado MinecraftEdu, baseado no popular Minecraft.

Será que finalmente vão investir em plataformas jogáveis para o ensino? Existe um potencial de muitos bilhões e mais bilhões nesta área. O ensino tradicional magisterial será gradativamente substituído pelo participativo, onde o aluno é mais ativo. Não faz sentido deixar estudantes parados absorvendo conteúdos teóricos inúteis, desde que já se assumiu de uma vez por toda que a idéia do ensino moderno é colocar bons profissionais técnicos no mercado. Ora, para a habilitação técnica os jogos são muito mais valiosos do que o ensino tradicional.

As exposições orais devem ser reservadas aos buscadores da alta cultura, que serão sempre uma minoria.

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11/05/2016

Hoje é o dia de o Senado Federal votar a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma. Será que depois de todo o tormento vivido, as instituições finalmente funcionarão para alguma coisa? Aguardemos o desfecho… não se esqueçam de que temos ainda figuras como Renan Calheiros e Teori Zavascki para estragar tudo. Embora eu acredite que o clima político de Brasília já esteja mudado de fato. Está chovendo na horta de Michel Temer.

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Como sabem, sou entusiasta da candidatura de Jair Bolsonaro, embora não seja militante. Não sou militante por duas razões: (1) um impedimento moral pela função intelectual que desejo exercer e que me impede ter um comprometimento com um Partido ou uma candidatura em particular; (2) porque mesmo que pudesse militar, Bolsonaro teria que trabalhar mais para me convencer definitivamente. Votar no menos pior é diferente de militar politicamente por alguém por se ver que é de fato um bom candidato.

Quando alguém diagnostica que Bolsonaro é um bom presidenciável por ser totalmente independente da estratégia globalista para a América Latina (Clube de Roma, Diálogo Interamericano, Foro de São Paulo), isto não o qualifica individualmente em nada, apenas o enaltece por contraste com os outros, que são comprometidos. Não que Bolsonaro não tenha qualidades individuais notáveis. Ele deve tê-las e eu próprio já escrevi aqui a respeito de apenas uma delas, que é a coragem que certamente ele tem.

Mas isto não é suficiente para a Presidência. Já ser a única alternativa real da nação contra o globalismo, esta pode ser uma qualidade suficiente.

Se este é de fato o ponto mais forte de Bolsonaro, há que se pensar no que isso representa estrategicamente, politicamente e eleitoralmente.

A população geral não faz idéia do que é o globalismo, e mesmo que se lhe explique, a tradução disso para o mundo dos interesses práticos é muito difícil e complexa. Não será uma elite intelectual de esclarecidos que elegerá Bolsonaro Presidente. E não será também uma militância barulhenta que no universo dos eleitores representará certamente uma minoria.

Não sou estrategista político, mas se o fosse pensaria em agir em dois planos: um propositivo bastante simples e enxuto ligado a questão da segurança pública, e o outro crítico das candidaturas alheias que serão atacadas por não oferecerem uma solução boa para a questão da segurança, e por serem alienadas por interesses específicos da agenda globalista.

O país tem muitos problemas, mas o mais grave deles é a insegurança. Eu acredito que alguém, qualquer um, prefira ser um pobre vivo do que um rico morto. Reparem: eu disse “pobre”, e não miserável.

A melhora da Segurança Pública depende de uma reforma da legislação penal que reflita o anseio popular com o tema (limitando algumas coisas como a pena de morte ou a liberação total do direito de portar armas), de uma reforma do sistema penitenciário que permita aos presos viver dignamente com o suor do seu próprio trabalho, e de um fortalecimento maciço dos serviços de polícia e de inteligência contra o crime nacional e internacional, inclusos aí principalmente os organismos mais perigosos como PCC, FARC, etc.

Bolsonaro teria que oferecer esta solução de maneira ampla, detalhada, diminuindo sempre os outros problemas nacionais diante deste. E então deveria partir para o angariamento de uma maciça aprovação popular a esta agenda, o que não deve ser muito difícil de se fazer. As pessoas, de qualquer classe, raça, sexo, etc., simplesmente não querem ser ameaçadas, assaltadas, sequestradas, estupradas, assassinadas, etc. Este é o maior consenso do universo, e é a origem mesma do poder político num sentido tradicional e histórico: os líderes políticos são os que defendem a vida e a liberdade do seu povo. Um governo serve em primeiro lugar para isto. Bolsonaro deve vestir esta camiseta, acordar e dormir com ela, ir a todos os lugares com ela, e só falar dela.

Os adversários de Bolsonaro terão que ser atacados frontalmente, em primeiro lugar, por serem muito frouxos com o tema da Segurança Pública. Devem ser denunciados como potenciais cúmplices da marginalidade e da impunidade no país. Como ousam falar de outros temas antes deste? E por aí em diante.

Em segundo lugar, os adversários deverão ser atacados nos seus planos, através de um rastreamento bastante eficaz que mostre as digitais globalistas, de maneira bastante concreta, nas agendas de cada um deles, um por um. O PT e o PSDB devem ser denunciados como colaboradores das ditaduras do Foro de São Paulo. A Marina Silva deve ser exibida como ambientalista a serviço de interesses externos. No caso de Ciro Gomes, esta discussão talvez fique um pouco mais complexa, mas deverá ser enfrentada.

Aliás, Ciro Gomes tem potencial para ser um problema agudo para seus adversários nos debates entre os presidenciáveis. É preferível que a máquina de propaganda de PT e PSDB (e PMDB?) faça a devida demolição da reputação de Ciro Gomes, do que buscar a vitória numa disputa retórica em debate, o que contra ele é muito difícil de ser feito mesmo por um orador bastante hábil, quanto mais será difícil para Bolsonaro, por exemplo. Se a máquina trituradora de reputações não der conta de Ciro Gomes, há que se pensar –e isso desde já, preventivamente– na forma  mais viável de se criticar assertivamente as suas idéias, buscando a conexão entre a sua agenda e os interesses globalistas, pontualmente e de forma muito incisiva. Eu próprio não consigo fazer este rastreamento agora, mas tenho uma intuição forte de que as pegadas estão lá.

Vai dar trabalho, mas é claro que vale a pena.

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Esses “mal-entendidos” de Temer a respeito da nomeação de ministros e secretários é um ótimo sinal. Ele sabe fazer esse negócio chamado política. 

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A internet fez mais pela queda do PT do que o PMDB, assim como o PMDB fez mais pela queda do PT do que o PSDB. 

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12/05/2016

Dilma cai. Temer sobe.

Quem é o nosso vice-presidente agora? Waldir Maranhão?

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Tudo é pecado, ou pelo menos tudo pode ser pecado de algum modo…

O que nós sabemos que não é pecado de jeito nenhum?

Fazer a vontade de Deus.

Mas qual é a vontade de Deus para a minha vida nos próximos 15 minutos?

Essa é a questão.

Quando você resolve isso, precisa se perguntar novamente para os próximos 15 minutos, e assim por diante.

Quando você achar que pegou o jeito e parar de rezar, você vai pecar de novo, e daí tem que voltar e perguntar de novo para Deus o que Ele quer de você…

No fim das contas você não tem que desistir de saber o que Deus quer. Pelo contrário, tem que desistir de achar que sabe o que é melhor para si mesmo e cultivar um relacionamento perpétuo com um negócio chamado verdade.

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Quanto menos tempo eu tenho, mais coisas restam a ser feitas.

Seguindo a linha de quebra do modelo de ensino magisterial para um modelo participativo, imaginei a criação de um trabalho coletivo que funcionasse tanto para a manutenção e expansão do sistema simulador (próximo da forma que já citei recentemente), quanto para o desenvolvimento do pensamento reflexivo e crítico a respeito de temas essenciais.

Não é uma “academia” (coisa que já cogitei antes), não é uma “escola”, não é um “grupo de estudos”. Não sei direito o que é isto, mas o que mais se aproxima do que eu estou concebendo seria um think tank, onde a discussão seria livre mas, ao mesmo tempo, o controle da admissão e da participação dos membros seria totalmente arbitrário pela linha de pensamento da liderança, neste caso uma orientação conservadora.

Não pensem que este é um pensamento vago e tolo que habitou minha mente nos últimos 5 minutos. Não. Que eu me lembre, a primeira vez que pensei no assunto (a formação de um grupo de trabalho intelectual) foi por volta do ano de 2008, portanto há 8 anos atrás.

O modelo escolar não funciona para mim. O aproveitamento do sistema expositivo tradicional é baixo para os que ainda não se interessam pela oferta atual de boa instrução formativa e de alta cultura, que existe no Brasil de hoje. Vide o Seminário de Filosofia, vide o Instituto Lux et Sapientia, vide o acervo online do site do Padre Paulo Ricardo, etc.

Não me vejo “pregando para convertidos” melhor que um Olavo, um Gugu, ou um Pe. Paulo Ricardo.

Por outro lado, não me vejo fazendo uma pesquisa especializada, ao menos não por ora.

Mas eu vejo uma janela de trabalho no modelo de simulação participativa, e da exposição oral e escrita de posições em questões de Política, Governo, Parlamento, Justiça, Mídia, Ciência e Cultura, e o próprio Roleplay (o sistema simulado). Aqueles que têm baixa aderência e tolerância com as exposições longas e razoavelmente complexas podem ser estimulados aos trabalhos intelectuais aos poucos, quando estes forem picados e trabalhados metodicamente neste sistema participativo.

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Os liberais são da Babilônia; os conservadores são de Jerusalém (4)

Como Olavo já lembrou recentemente, o grande problema dos liberais (lembrando sempre que nós notaremos isso agudamente nos chamados “libertários”, “anarco-capitalistas”, etc.) é a sua dependência excessiva de abstrações mentais para o pensamento político, mais ou menos como ocorre com socialistas e progressistas em geral. Há muita conversa e especulação sobre teorias políticas, e pouco esforço de compreensão da história real. Se você estuda mais teorias do que a história, inevitavelmente você gerará pensamentos e soluções ideais que podem não se aplicar muito bem ao mundo real. Deste mal não padecem os conservadores: para eles a história é mais relevante para a política do que os nossos ideais.

Isto é interessante: os liberais são mais dogmáticos, neste sentido, do que os conservadores, pois enquanto estes são mais compreensivos com as contradições embutidas nos costumes e nas tradições, aqueles são menos tolerantes com estas tensões reais da experiência social humana.

A diferença que há entre pensar a partir de idéias políticas abstratas e a partir da experiência da história é mais ou menos a diferença que há entre o que nós pensamos e o que Deus pensa. A realidade tem uma prevalência ontológica insubornável.

Ademais, se me permitirem falar outra coisa ainda sobre este tema, e acredito que encerrarei neste quarto bloco, é preciso identificar na história o fenômeno real do poder no mundo, sem o que o pensamento político resta quase que como uma brincadeira. A essência da política é a medida da relação de poder que uns seres humanos têm sobre outros. Se você não entende como o poder funciona, não poderá, em última análise, compreender realmente como a política funciona.

Enquanto os liberais crêem numa distribuição mais ou menos espontânea e contratualista (fundada, portanto, numa liberdade inquestionável) do poder no mundo, os conservadores possuem uma arquitetura mental mais preparada para o entendimento do poder na política, pois aprenderam com a realidade histórica.

Mais ainda. Os conservadores mais bem preparados possuem ainda um arcabouço intelectual mais vasto até no campo abstrato da filosofia política (que não ignora a história, mas se integra a ela), com Platão, Aristóteles, etc.

Vejam, por exemplo, uma concepção tradicional do poder como esta: as fontes naturais do poder são quatro, (1) o indivíduo, (2) as famílias, (3) os casamentos entre famílias e as sociedades de interesses comuns, (4) a nação (a grande família, a família das famílias). O poder se manifesta na escala individual, familiar, societária e pública-nacional, conforme a escala dos interesses.

Ora, você tem aí no mínimo a duplicação das entidades empoderadas na sociedade, e justamente a inclusão de intermediários entre o que é, de um lado, o poder individual e, do outro, o poder estatal. O liberal coloca-se como um átomo isolado diante de um colosso burocrático. O conservador reconhece a sociedade civil como sistema intermediário e moderador entre a burocracia e a mera liberdade individual.

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O Joaquim Barbosa disse que o impeachment careceu de legitimidade popular, além da sua legalidade. Mas quem elegeu o Congresso Nacional, foram os marcianos?

Será que Joaquim Barbosa ficou puto porque Temer não o convidou para o Ministério da Justiça?

Apenas especulando… advogados e juízes geralmente são pessoas vaidosas.

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Seria o General Sérgio Etchegoyen, a ser empossado hoje como chefe da Secretaria de Segurança Institucional no governo de Michel Temer, um adversário consciente do Foro de São Paulo? Será que o Brasil teria esta graça? 

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Parece que Waldir Maranhão não é o sucessor de Temer. Já seria o Renan Calheiros como Presidente do Senado, e depois o Lewandowski como Presidente do STF.

O que, mesmo se for verdade, não melhora muito a nossa situação.

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13/05/2016

Não é tão difícil assim obedecer a Deus quanto possa parecer. Pois a quem seria dado por um Deus justo um fardo maior que a sua força é capaz de carregar?

Subestimamos a nós mesmos, enganamos uns aos outros com as nossas crenças tolas sobre nossos limites, condições, garantias, etc.

Há coisa de uns quatro ou cinco meses atrás, senti uma brisa refrescar o meu espírito e levantar o pó da situação mesquinha e pequena da minha própria vida. Não é que eu me tornei maior: eu vi que já era maior, mas vi que estava vergado pela imundície mental reinante, quase que de quatro diante de besteiras mundanas, de idolatrias tolas, e então me ergui. Somente isso.

Levantei a visão e disse para mim mesmo: “puxa, esse negócio não está tão difícil assim”. Ótimo: vou fazer o que precisa ser feito, e não vai doer tanto assim, Deus queira.

Passados esses meses, não é que já sinto de novo ser aquele “espírito encarquilhado”, com o “coração ressequido”?

O que aconteceu?

Aconteceu que, além da minha fraqueza de fé, em 99% do tempo lidei com pessoas espiritualmente medíocres ou ainda piores do que eu, mais desligadas do que eu.

Quando você precisa e quer melhorar, é necessário cercar-se de pessoas melhores do que você, para impregnar-se da força delas. É assim que funciona em qualquer coisa. Até um ladrãozinho mequetrefe, se quiser se aprimorar na sua gatunice, precisa cercar-se de bandidos profissionais, experientes e sabidos no seu ramo. Veja o que ocorre nas prisões do PCC, ou no próprio Congresso Nacional. É assim que as coisas funcionam.

A noção de que basta que Deus nos assopre uma brisa fresca e levante aquele pó encardido da alma, para que possamos nos renovar somente com isto, é uma noção desqualificada. É verdade que a origem de todos os bens é a graça divina, bem como o nosso destino, se Deus quiser. Mas no meio do caminho você tem um corpo, uma vida, e uma experiência do mundo, deste mundinho, deste vale de lágrimas. E aí não adianta você querer se fazer de gostosão: você será contaminado com o que lhe cerca. Não tem jeito, meus queridinhos. Se você ouviu o que Deus pretende para a sua vida, precisa se aliar com aqueles que ouviram um chamado parecido. É assim que funciona. E se você não fizer isso, se verá dominado por uma rede de irrelevância e mediocridade sem fim, quando não for até por algo verdadeiramente maléfico. Afinal, o diabo está também sempre atrás de sua freguesia, não se esqueça disso.

Mas aí entram, no meu caso, meus outros defeitos. Coleciono defeitos como qualquer pobre mortal, como se vê.

Embora eu saiba ser gentil e socialmente amável, não sei ser, digamos, tudo isso e “socialmente verdadeiro” ao mesmo tempo. Como é que se faz isso? Nunca me deram esse manual. Quando eu realmente digo o que eu penso e sinto, mas de verdade mesmo, geralmente gero perplexidade ou o sentimento de ofensa e de insulto, algo assim. Simplesmente, no nível das coisas realmente relevantes, as pessoas são, em sua grande maioria (os 99%) meio idiotas, meio infantis, e suas idéias são desprezíveis. Mesmo sendo tão insuportável, olhe que eu até consegui fazer algumas amizades de fato. E consegui até aprender a ser humilde no mais recente capítulo espiritual de minha vida, com a graça de Deus.

Ou Deus me fez socialmente confuso por alguma misteriosa razão cômica ainda a ser revelada, ou então estou de fato no lugar errado e com as pessoas erradas.

Conheci gente melhor que eu, é claro. Por sinal, conheci pessoas muito melhores que eu.

A maioria delas já está morta, que Deus os tenha.

Grandes filósofos, grandes santos, grandes Doutores da Igreja. Gente maravilhosa, da melhor espécie. Almas profundas e sensíveis, espíritos superiores, corações caridosos e generosos. Leves com o que requer leveza, pesados com o que requer pesar. Tementes a Deus e à Verdade, amantes do Bem e da Beleza. Estrelas que nos guiam num céu escuro de Lua Nova.

As pessoas vivas que me impressionaram mais ou possuem qualidades a respeito das quais não tenho o menor interesse ou, se possuem vocações convergentes com a minha, estão devidamente ocupadas fazendo as suas próprias coisas. As melhores pessoas estão trabalhando, sempre, mesmo quando parecem ociosas. A maquinaria está sempre funcionando por dentro, tramando os seus estragos.

Mas eu não fico sozinho, não. Fico cercado de bocas falantes, falantes de coisas racionalmente não faláveis, dizentes de coisas pouco meritórias, pensantes de idéias pouco sólidas, de coisas confusas, vagas, imprecisas, e frequentemente infantilizadas ou obcecadas com recortes muito pequenos da realidade.

Ah, os especialistas.

Deus fez os especialistas para que os filósofos tivessem alguma diversão neste mundo, nos intervalos do seu ofício.

Como não rir vendo os tolos querendo explicar o todo pelas partes, de novo, de novo, e de novo… não aprendem jamais nesta comédia perene da tolice humana, no espetáculo patético da estupidez persistente pelo controle, pelo domínio das coisas.

Por menos que você queira, você se contamina.

Falei, alguns dias atrás neste diário, da moral utilitarista. Trocando em miúdos, que diacho é isto, senão a racionalização dos vícios da cobiça e da avareza?

Aquele que se preocupa, acima dos bens espirituais, com os bens materiais, é cobiçoso de prazeres e confortos, ou é ávaro de segurança e de garantias de superioridade material para a sua porca vida, quando não for –o que com frequência é– as duas coisas ao mesmo tempo.

É isto o que este ambiente mental tem a me ensinar espiritualmente? Cobiça e avareza?

Não, muito obrigado.

Prefiro a companhia dos mortos. Estes não cobiçam mais nada e nem se preocupam mais com a sua futura segurança financeira, graças a Deus. São as pessoas mais confiáveis que existem.

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Bexiga de festa (3)

  1. K. Chesterton escreveu um excelente texto chamado The Fallacy of Success (“A Falácia do Sucesso”), em que ataca essa maluquice moderna do “segredo do sucesso”, já na sua época uma atividade precursora da nossa vastíssima literatura de auto-ajuda motivacional contemporânea, e que não passa da repaginação daquilo que sempre foi conhecida como a velha arte de se vender sonhos e ilusões.

O começo é devastador.

There has appeared in our time a particular class of books and articles which I sincerely and solemnly think may be called the silliest ever known among men. They are much more wild than the wildest romances of chivalry and much more dull than the dullest religious tract. Moreover, the romances of chivalry were at least about chivalry; the religious tracts are about religion. But these things are about nothing; they are about what is called Success.

Em outra ocasião mais fortuita, quando eu tiver mais tempo livre (risos), farei a leitura e o comentário completo deste artigo em meu site. Por enquanto quero ficar com essa realidade inegável: o sucesso é altamente relativo e vazio em si próprio e assim, portanto, falar dele é como falar de coisa nenhuma.

Data vênia aos vendedores de todos os tempos e lugares, trabalhadores dignos, a diferença ontológica que existe entre a criação de algo e o comércio desse mesmo algo é monstruosa.

Embora a valorização comercial pelo esforço de venda, de divulgação, pelo anúncio de marketing, etc., colabore para a vantagem de quem produz algo e até mesmo para o destaque daquilo que foi produzido, nós sabemos muito bem que o valor original está na criação, e é evidente que se não existe nada real a se vender, todo e qualquer valor atribuído a essa nada é falacioso, para não dizer literalmente mentiroso. É uma espécie de roubo.

Percebo isso com a preciosa filosofia, ou a “arte de amar a verdade”: o destaque e a divulgação comercial de idéias não vai necessariamente favorecer aquele que realmente se dedica e tem o amor mais forte pela verdade das coisas, e aliás, bem pelo contrário, geralmente o verdadeiro amante é desvalorizado, isso quando não é perseguido e até condenado a morte conforme variar o sentimento da platéia, seja morte por cicuta ou pela Crucificação. O marketing consegue valorizar os sofistas no lugar de Sócrates, e até mesmo Barrabás no lugar de Jesus Cristo.

Não é só no aspecto filosófico, ou até mesmo espiritual, que se padece dos enganos da propaganda. A própria economia se vê refém, vez ou outra, de propagandas enganosas. E neste ponto, como em todos os demais, minha conclusão segue sendo: fique com a realidade, porque esta jamais te engana (meu amado Tema II).

Quanto da produtividade econômica não pode ser aumentada de fato analisando-se concretamente o que é real e o que é farsa discursiva? Quanto da própria motivação da mão-de-obra não é falha por essa mesma mentalidade farsante, desse oba-oba tosco, dessa lenga-lenga sem fim, ao invés de se valorizar a verdadeira virtude produtiva, essa velha romana chamada industria?

Estou pegando um pouco pesado demais? Não sei.

Escreverei mais um texto sobre esse assunto, tentando ser mais positivo para encerrar.

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16/05/2016

Meu amigo me disse: “não sabia que você gostava de ouvir Roger Hodgson”.

Eu também não sabia.

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Michel Temer, na função de Presidente interino da República, possui a qualidade da flexibilidade política que tanto faltava para Dilma, mas está se mostrando talvez soft demais.

A histeria politicamente correta que critica a ausência de mulheres no seu ministério, ou a choradeira dos viúvos e viúvas do Ministério da Cultura, são fenômenos sociais que deveriam ser solenemente ignorados. Temer poderia mostrar, assim, que do ponto de vista da sobriedade de um Presidente da República estas demandas não fazem o menor sentido e não merecem a menor atenção.

Criar uma Secretaria da Cultura e colocar no seu comando uma mulher, como que para atender a essa suposta “reivindicação social”, ao invés de fortalecer Temer, na verdade o enfraquece. Pois ele se mostra vulnerável a esse tipo de pressão. Seus adversários sabem que ele cede, e com relativa facilidade.

Eu havia elogiado Temer por sua flexibilidade. Atualmente, porém, já me preocupo com a sua falta de fibra.

Talvez o máximo benefício que advenha do governo Temer seja a da qualidade profissional de uma tecnocracia, e não passe disso. Temer, se fosse um estadista, poderia usar estas pressões descabidas para mostrar para a nação a fonte real de seus problemas profundos: uma corrupção moral e intelectual que conta com a adesão desses grupos na mídia, em escolas e universidades, grupos esses que definitivamente não representam a população brasileira, mas somente os interesses de um determinado establishment.

O feminismo não é a mentalidade do povo brasileiro. E tampouco é a reserva de mercado de artistas fracassados e moralmente questionáveis. Temer poderia decidir mostrar a nação como é possível vencer estas coisas, e poderia pedir o apoio popular neste momento. Mas não faz isso. Mostra-se assim, aos poucos, mais um serviçal do estamento burocrático e do pacto das elites políticas, do que um verdadeiro homem público minimamente preocupado com a realidade do país.

Um pragmático poderia me dizer que essas pequenas concessões de Temer não interferem muito, porque é apenas um ato simbólico.

Isto está errado, três vezes errado.

Primeiro que se o que importa é apenas a administração tecnocrática, isto quer dizer que o conserto dos problemas do país servirá apenas para entrega-lo novamente, na sequencia, para lideranças políticas desmioladas que não são puramente tecnocráticas. A liderança de uma nação comporta a defesa de determinados valores e visões de mundo, inevitavelmente. Quem quiser escapar desta realidade apenas entregará aos seus adversários –que são preocupados com isso– a hegemonia da cultura e da formação da mentalidade social.

Segundo que as coisas simbólicas são muito importantes para uma nação, desde que aquilo que é o centro da vida pública deve irradiar racionalidade, sensatez, valor, mérito, dignidade, etc. Um ato de concessão para a histeria ridícula desses grupos de pressão representa, simbolicamente, a desmoralização da liderança do país e isto tem consequências sociais, culturais e psicológicas mais profundas do que se imagina, embora estas não sejam sempre verbalizáveis dado o profundo estado de catatonia mental no país.

Terceiro que há uma conexão estratégica entre essas “pequenas coisas” e os assuntos maiores, pois os mesmos agentes que impõe essas narrativas farsescas sobre assuntos miúdos hoje impõem, amanhã, farsas narrativas sobre questões maiores, politicamente muito mais relevantes.

Temer deveria conversar com a população, dirigir-se a ela, atender aos seus pedidos e necessidades, e não tratar com grupos desqualificados como esses. O seu maior problema seria o enfrentamento da rede de proteção que a grande mídia fornece a esses coletivos, mas mesmo isso poderia ser feito com a colaboração dos formadores de opinião realmente independentes, e com a colaboração, sim, da própria população.

Um Presidente que aceita a chantagem desta opinião pública forjada ou é conivente com o seu esquema de poder, ou é mais fraco do que ele e já não possui os meios de fortalecer-se para o enfrentamento. Temer é cúmplice ou é fraco. Se existe uma terceira alternativa, ela tem que aparecer logo. Mas quanto tempo demoraria para que um estadista surgisse?

A aceitação dessas pressões é descabida.

A população não quer essas coisas!

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Se o Senador Magno Malta realmente trabalhar pela criminalização do comunismo, nos mesmos moldes em que o nazismo é criminalizado, terá o meu apoio total e irrestrito. Isto certamente é um efeito relativamente menor da pressão das ruas.

Ah, se os movimentos de rua fossem realmente anti-revolucionários… o que não se poderia fazer neste país?

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A depender dos rumos do governo Temer, nós poderemos ter uma ótima ocasião de constatar o comprometimento das classes políticas com a sua própria sobrevivência, sob uma camuflagem de atendimento dos anseios populares (orquestrada pelos movimentos de rua teleguiados por PSDB e afins). Este será o próximo passo esclarecedor para a direita mais verdadeira, ou mais conservadora, do país.

Quando um Romero Jucá diz, meio alarmado, que só pode existir solução para o país através da política, ele faz aqui o que os defensores do establishment fazem nos EUA contra Trump: desmoralizam todos os discursos não-alinhados como se fossem anti-democráticos automaticamente. Isto é doente. Isto é a doença do esquerdismo, que desqualifica o adversário que realmente pode ameaçar o esquema e o marginaliza como alternativa fora do sistema legítimo de disputa do poder.

É assim que PSDB, Reinaldo Azevedo, MBL e afins desempenham, no Brasil, o papel que os democratas desempenham nos EUA. Os democratas americanos ao menos tem a decência de não se dizerem “direitistas”, “direita-democrática”, “nova-direita”, etc., como algumas dessas entidades e pessoas dizem aqui no Brasil.

Trump, assim como o nosso Bolsonaro, não pode representar uma alternativa anti-política porque disputa o poder, meu Deus do Céu!, dentro do sistema democrático! Se ele não se alinha com os interesses do estamento burocrático e, por isso mesmo, ganha popularidade, bom para ele e para a população que finalmente encontraram um caminho para fora desse domínio político perpétuo da revolução a serviço do globalismo.

As campanhas difamatórias, os ataques gratuitos, bem como as ameaças e até os possíveis ataques diretos à integridade e à vida de figuras como Trump e Bolsonaro só mostrarão sempre o quanto eles realmente machucam interesses espúrios aos de suas respectivas nações.

Se o fazem por coragem e patriotismo, ou por outros interesses, isto só o tempo é capaz de revelar.

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Ouvi o áudio de um dos líderes do MBL, Renan Santos, num novo capítulo da história da definição das posições políticas no Brasil.

Não vou julgar o mérito do que ele fala, porque isso já encheu o saco, realmente. É como o Reinaldo posando de superior.

O fato é que as questões fundamentais não são discutidas, ou melhor, a questão fundamental: o apoio político ao estamento burocrático e às elites políticas não-petistas.

Será que o povo brasileiro quis apenas o fim do petismo?

Será que o povo realmente confia em entidades como PMDB, PSDB, etc., e se sente representado por elas?

Ao fim e ao cabo, a aliança da autoproclamada “direita democrática” contra a “esquerda democrática” serve tão somente para esvaziar qualquer possibilidade política para uma direita conservadora no país, ou seja, uma direita que não aceita a agenda da ONU e dos globalistas, uma direita que valoriza as tradições do povo, uma direita que repudia a revolução cultural e a mentalidade revolucionária como um todo.

Atacar MLB, PSDB, etc., já não é mais tão produtivo quanto começar a divulgar uma campanha direitista verdadeira nos moldes que já apresentei aqui antes, ou seja, atacando frontalmente o problema da Segurança Pública e cobrando dos elegantes “democráticos” de esquerda e de direita que se posicionem claramente a respeito de reforma da legislação penal e do sistema prisional, do fortalecimento do aparato policial, etc.

Identificar um “paumolenga” (expressão de Lobão que na minha opinião é perfeitamente cabível aos nossos “democratas”) é fácil: basta perguntar o que aconteceu no Brasil no ano de 1964.

Confrontar um “paumolenga” só é possível fazendo uma proposta clara na questão mais crucial do país (que não é a Petrobras, e nem mesmo o regime de Previdência) que é a insegurança do país e exigir em contrapartida um posicionamento claro desses “democratas” a respeito.

Digamos: seremos responsáveis fiscalmente, generosos com os mais necessitados, etc., mas atacaremos principalmente e acima de tudo o problema da Segurança Pública.

Quais são as propostas dos “democratas”?

Diante disso o povo enxergará a realidade e fortalecerá imensamente o movimento conservador no país, e a direita política será eleitoralmente beneficiada.

É claro que antes é preciso haver de fato um movimento conservador. Só será possível fazer isto parando de reclamar do MBL, Reinaldo, PSDB, etc. no Facebook, e reunindo-se com outras pessoas que queiram fazer um negócio chamado política.

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Reinaldo Azevedo usando o termo “reaças” é um fenômeno muito revelador. Singelo e bruto. Sintético e demonstrativo. 

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Neste ano de 2016 estou mais viajado do que nunca: já fui para São Roque, Balneário Camboriú, Curitiba, Ubatuba… e se Deus quiser ainda irei para Richmond, Madrid, Toledo, Granada, Sevilha, Cadiz…

Pode parecer pouco para pessoas realmente viajadas, mas para os meus humildes padrões é quase como uma overdose.

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Bexiga de Festa (4)

Não faço nenhuma crítica ao modelo da autoajuda motivacional baseada na venda de fórmulas do “Sucesso” sem ter um certo conhecimento do assunto.

Sou um grande absorvente de mentalidades impregnadas no meu meio-ambiente. Fazer o quê? Meu mapa natal mostra uma quantidade exuberante de água. O que me torna sensível ao que as pessoas pensam e sentem ao meu redor. Não levei muito tempo para captar a moral utilitarista do ambiente. E a moral utilitarista leva, como toda moral, aos seus campeões, aos seus “santos”: o que no nosso infeliz caso contemporâneo coincide com as pessoas bem-sucedidas.

Nos nossos tristes tempos modernosos as pessoas mais virtuosas são as que sobem mais alto e mais depressa numa lista da Forbes, ou as que aparecem mais vezes na capa da Time. São as que têm mais seguidores no Twitter, ou curtidas no Facebook. Até eu, que sei melhor das coisas, fico com o ego um pouquinho afagado a cada novo “follow”, a cada novo “like”.

Mas minhas águas também são profundas. Marte e Saturno residem em Escorpião, o signo das profundezas, o inquisidor dos segredos. Percebo e sinto a mentalidade do ambiente, mas isso não me basta. Eu preciso perscrutá-lo.

Fui ler os gurus do sucesso, vários deles.

Depois de uma reflexão, acompanhada paralelamente de uma formação intelectual mais clássica e tradicional, consegui compreender que em grande parte essa mentalidade é oca. A propagação de idéias positivas está muito distante da força da moral tradicional, mas muito mesmo.

O que não nos impede de trabalhar com essas idéias e tentar extrair algo de bom. Isto, aliás, prova a nossa boa-fé no trato das coisas. No ano de 2011 fiz um Curso de Vocação para alguns alunos, ministrado em cerca de dois meses. Neste curso usei alguns conceitos próximos da auto-ajuda, embora já fora do campo motivacional. Busquei testemunhos mais realistas e menos entusiasmados a respeito do sucesso, e busquei principalmente as idéias que enlaçassem os conceitos de performance e de eficiência. Sou meio tarado por esse assunto. Um grande general (George S. Patton) disse uma vez: “suor poupa sangue”. Um outro grande general, talvez maior ainda que o primeiro (Erwin Rommel), disse: “cérebro poupa os dois”. Não só no passado mas ainda hoje eu tento aprender sempre com essa praticalidade quase militar, e muitas vezes podemos encontrar dicas preciosas nos relatos de empresários e executivos de sucesso.

Mas o sucesso não é uma garantia de conhecimento da verdade, tanto porque podemos conhecer a verdade também no fracasso quanto porque o sucesso costuma, ao contrário do fracasso, nublar a racionalidade. O maior perdedor sempre será o homem mais realista do cassino.

Depois das denúncias de G. K. Chesterton e de E. L. Kersten, é possível fazer ainda algum aproveitamento da “literatura do sucesso”?

Façamos mais uma experiência.

Sou um dos mais de 300 mil inscritos no canal de Evan Carmichael no YouTube. Este cidadão é mais obcecado pela idéia de realização do que pela de “sucesso”, mas é fácil perceber como para justificar o empreendedorismo o sucesso funciona, sim, como uma bela cenourinha lá na frente. Há uma série de vídeos no canal focados nos relatos de pessoas bem sucedidas, mas nenhum (que eu saiba) que busque aprender algo com um perdedor. As lições dos perdedores só valem quando estes se tornam ganhadores depois. Por óbvio, estamos mais ou menos no território criticado por Chesterton ou por Kersten.

Há muitos vídeos neste canal que seguem a mesma fórmula: um cidadão qualquer é apresentado através de suas “Top 10 Rules for Success”. Dei-me ao trabalho de assistir vários desses vídeos. Em determinado momento, entre o tédio de ouvir muita lenga-lenga e o ânimo de uma fugaz centelha de esperança de ver algo de valor, resolvi trabalhar com estes testemunhos e fazer um estudo a respeito.

Primeiramente cortei todos os nomes de pessoas que só fizeram sucesso falando a respeito do… sucesso. Entendo porque Carmichael queira destacar esse pessoal, considerando a grande dedicação dele a este assunto, mas eu não posso tolerar as idéias desses vendedores de carros usados (com todo respeito aos vendedores de carros usados). A notável exceção foi a de Robert Kiyosaki, que é alguém que eu considero um pouco acima da média na sua área, e é destacável no mínimo por ser um grande best seller.

Cheguei numa lista com 44 nomes. Há empresários, executivos, esportistas, políticos, artistas, etc. Anotei todas as dez “regras para o sucesso” que cada um deu (involuntariamente, pois Carmichael edita depoimentos de vídeos de terceiros) e isto me revelou 440 regras ao todo.

O próximo passo, que foi o intelectualmente mais trabalhoso, foi o trabalho de processamento dessas regras em termos padronizados. É relativamente difícil fazer isso sem derrapar, porque cada um dá uma nuance diferente para termos parecidos, e você tem que captar essa diferença de intenção que é importante e não está no texto, está, digamos, “no espírito” de cada autor.

Ergui uma estrutura com 15 categorias* onde todas as 440 regras foram enquadradas com razoável sucesso. A minha idéia desde o início foi a de traduzir as “regras para o sucesso” em termos moralmente identificáveis pela sabedoria das virtudes humanas tradicionais.

Enquadradas as idéias desse grupo de estrelas dentro das minhas 15 categorias, o passo seguinte foi checar a quantidade de vezes que cada categoria foi repetida dentro deste universo de 440 regras. Eis a resposta: Knowledge (conhecimento), 59 vezes (13,41%); Courage (coragem), 50 vezes (11,36%); Love (amor), 46 vezes (10,45%); Trust (confiança), 37 vezes (8,41%); Inovation (inovação), 36 vezes (8,18%); Devotion (devoção), 35 vezes (7,95%); Truthfulness (veracidade), 33 vezes (7,50%); Long term (longo prazo), 31 vezes (7,05%); Charity (caridade), 23 vezes (5,23%); Dream (sonho), 21 vezes (4,77%); Competitiveness (competitividade), 17 vezes (3,86%); Humility (humildade), 15 vezes (3,41%); Faith (fé), 13 vezes (2,95%); Efficiency (eficiência), 11 vezes (2,50%); Ambition (ambição), 8 vezes (1,82%); Brand (marca), 3 vezes (0,68%); Power (poder), 1 vez (0,23%); e Satisfaction (satisfação), 1 vez (0,23%).

Se prestarmos atenção nesta lista, veremos que as virtudes tradicionais aparecem por trás das “regras para o sucesso” em muitas das vezes, embora com frequência isso aconteça de forma inconsciente ou disfarçada. Vejamos cada uma das categorias, antes de fecharmos uma conclusão.

A categoria campeã foi “knowledge” (conhecimento), o que é uma excelente homenagem a nossa clássica virtude da sabedoria. Esta categoria resume todos os elogios feitos ao conhecimento da verdade como forma de atingir o sucesso, seja com estudos, pesquisas, conversa com pares bem informados, aprendizado atento nas situações de fracasso e erro, meditação, etc. A qualidade mais notada pelo nosso time de estrelas foi a capacidade de conhecer a verdade e, evidentemente, agir de acordo com ela.

Em segundo lugar temos “courage” (coragem), outra virtude tradicional. Constantemente as pessoas bem sucedidas falam que foi preciso enfrentar seus medos, seja do fracasso em si ou da rejeição social, e agir de forma ousada para conseguir fazer algo que era desejado mas que representava riscos reais.

Em terceiro lugar temos “love” (amor), que não remonta a uma virtude específica, mas a nossa capacidade geral de “amar o que é bom”. Nesta categoria entraram todos os testemunhos que falaram da importância de se fazer algo porque é a coisa certa, ou porque se ama aquilo profundamente, independentemente do sucesso material ou social que isso representaria. O amor não é pelo sucesso, mas pelo que causou acidentalmente algum sucesso. Frequentemente a dica era “faça o que você gosta”, no lugar do “goste do que você faz”. A raiz espiritual desta atitude é inegável: aquilo que você faz por amor é algo que se basta, que se justifica automaticamente sem precisar de um efeito ou um uso posterior. Todo objeto de amor é um fim em si mesmo.

Em quarto lugar temos “trust” (confiança), que representa a honradez ou capacidade de criar e manter vínculos fortes com colaboradores. Isto era mencionado repetidas vezes: você precisa ter pessoas próximas nas quais você confia e que reciprocamente confiem em você.

Apenas em quinto lugar nós encontramos uma regra que combinaria mais com o habitual modo de pensar dos entusiastas do empreendedorismo: “inovation” (inovação), que pode ser entendida também como criatividade ou oportunismo, conforme o caso. Em sexto lugar temos outra regra que geralmente é mencionada com maior predominância pelos gurus: “devotion” (devoção), que também conhecemos como “trabalho duro”. Estas duas qualidades são as primeiras que combinam com o receituário típico da indústria motivacional e que não se refletem tão bem no sistema tradicional das virtudes.

Em seguida, porém, voltamos ao normal com “truthfulness” (veracidade) e “long term” (longo prazo). A veracidade nada mais é do que a honestidade do coração, candor, o ser sincero com os outros e consigo mesmo, sem se comprometer com farsas ou mentiras. É uma espécie e amor pela verdade, a sua maneira. E a visão de longo prazo está intimamente relacionada com a virtude da esperança, a capacidade de sacrificar alguma coisa ou tolerar alguma coisa no presente em nome de uma coisa melhor no futuro. Podemos chamar também de resiliência ou persistência. É evidentemente uma qualidade espiritual: o que não é presente não é material de forma alguma; se isto me move, é porque meu espírito se guia pela presença de algo que é invisível, ou que se revelará com o tempo.

Depois temos outras regras que remetem também à qualidades espirituais, às vezes de forma bastante óbvia ( como em “charity”, “faith”, “humility”).

Se você pega qualidades que são famosas para empreendedores e caçadores de sucesso, como “competitiveness” (competitividade), “efficiency” (eficiência), ou “ambition” (ambição), você vê que juntas elas mal chegam em quantidade de menções à metade da primeira colocada. As pessoas de sucesso amam mais o conhecimento do que tudo isso junto.

Eu poderia continuar sondando este material para tirar outras conclusões, mas acho que já tenho uma idéia do que queria entender.

A conclusão a que chego ao fim deste trabalho é a de que o ensino moral das virtudes tradicionais é uma forma muito mais completa, direta, simples, plena, profunda, verdadeira, consciente, correta e satisfatória de educação do que a insistência em modelos falsos, inclusive o modelo de “ensino do sucesso”.

O que todas essas pessoas experientes com o sucesso estão dizendo, basicamente, é que se você cultivar as virtudes humanas clássicas no seu modo de viver, você terá sucesso. Ou pelo menos eles dizem que tiveram o seu sucesso fazendo isso.

Se eu pudesse numa regra resumir o que o estudo revelou, esta frase seria: busque o conhecimento, tenha coragem e faça aquilo que você ama sem exigir nada em troca, confiando nas pessoas e sendo uma pessoa confiável.

Basicamente é isso. Se tudo que eu pensei estiver em ordem, esse único parágrafo vale por toneladas de livros auto-ajuda. Se for meditado e levado a sério, é claro.

*A minha lista de categorias está escrita originalmente em inglês, mas isso definitivamente não significa que eu simplesmente fiz a contagem de vezes em que essas expressões apareceram nos respectivos discursos. Fiz um trabalho mais demorado e complexo de verdadeira análise dos discursos e de encaminhamento para conceitos mais estáveis e abrangentes. Usei a terminologia em inglês apenas para ampliar o uso vocabular, tanto para minhas próprias pesquisas futuras quanto para outras pessoas que tenham interesse nesses conceitos.

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Marco Antonio Villa enquadrou bem o Prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, hoje. O petista havia chicanado o comentarista político com uma agenda falsa, sabendo que Villa comentava diariamente os compromissos do Prefeito num programa de rádio. Villa pode ter mil defeitos, mas conseguiu pegar o “moleque” (como O Antagonista) no pulo.

“Mentiroso, omisso, medíocre e incapaz.”

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Eu imagino que as partes mais reveladoras da atuação de FHC como Presidente do Brasil não estão nos grossos volumes de seus Diários da Presidência, mas em sua memória pessoal. De qualquer modo eu vou ler essa coisa toda linha por linha (quando o tempo sobrar, vocês sabem) para ver se pego algo interessante. Sempre pode acontecer uma revelação espantosa, como a do Rockefeller outro dia assumindo suas culpas num livro. Quem sabe? Vou ler, e depois eu conto para vocês. 

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17/05/2016

Eu não ligo a mínima que alguém diga que 80% ou 90% do que já publiquei no meu site seja um material questionável ou até descartável, desde que me diga que foi minimamente bem escrito, o que acho mais do que justo. Estou desejoso de produzir coisas mais interessantes e profundas no futuro, e tudo o que faço até lá é aumentar o máximo a minha qualidade com o treino da prática.

Estou perfeitamente ciente de que dentro do escopo que escolhi para mim, e que acredito aproveitar ao máximo a minha vocação real, os frutos mais relevantes demoram mais de década a aparecer depois que a dedicação integral aos problemas já completou, por sua vez, pelo menos uma década de esforços. Isto, por seu turno, só ocorre depois que pelo menos uns dez anos já se passaram dentro de um trabalho de formação intelectual com razoável qualidade.

Digamos que há, aí, uns trinta anos: a primeira década para a formação, a década seguinte para o treino, e a última década para o aperfeiçoamento até um ponto de excelência. Já fiz com certeza o primeiro terço, e já entrei no segundo. Se Deus quiser antes de 2025, se este mundo ainda existir, já terei entrado no último terço, a fast track.

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Uma das maiores satisfações que existem num ambiente de trabalho, quando você é um chefe, é ver alguém crescer através de um novo desafio. Quando a pessoa recebe a pressão e se esforça de verdade, se interessa, e entrega os bons resultados, você percebe que essa coisa de rotatividade de funções faz sentido mesmo. Há, é claro, aqueles acomodados que rejeitam novidades. Mas uma das vantagens desse processo é justamente a de poder identificar a desmotivação dessas pessoas e trabalhar para coloca-las no lugar certo, nem que esse lugar seja, na pior das hipóteses e para o bem da própria pessoa, a rua. 

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O livro A Verdade Sufocada, do Coronel Ustra, consta em diversas listas de livrarias entre os mais vendidos.

Como já falei, Bolsonaro está sabendo fazer as coisas.

Mais do que se supõe por aí tolamente, lendo-se as notícias de jornal. Aliás, notícias de jornal nós não lemos; nós estudamos precavidos da nossa higiene, como se faz com um exame de fezes.

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Quem gosta de fazer os outros se sentirem culpados não é cristão, é funcionário do diabo.

Por mais firme que seja uma admoestação, ela tem que se embasar na vida espiritual verdadeira, isto é, na revelação de Deus e de seu Bem imediatamente, pelo seu testemunho. Você pode até dar um tapa na cara do sujeito ou jogá-lo de cima da escada, mas o modo santo de se fazer isso é chamar para Deus e não acusar.

Quem acusa uma alma leva-a para o diabo. Ok, os profetas e as pessoas muito santas são exceção, mas estes aí têm uma permissão divina para fazer isso. Você por acaso tem?

Isto basta para se condenar todo tipo de moralismo como, na melhor das hipóteses, uma pura perda de tempo. Na pior é um malefício, porque leva o outro a perder a esperança, o que é uma armadilha diabólica das mais terríveis.

Quem não ajuda não atrapalha: se você não sabe ser santo na sua interferência caridosa na vida alheia, não interfira. Neste caso a oração é muito mais eficiente. Reze e deseje sinceramente que Deus faça a pessoa encontrar indivíduos melhores que você para ajudá-la de verdade, e não encha o saco.

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Quem tem muito medo das coisas não se sente abençoado. A consciência da graça divina, por mínima que seja, é uma muralha espiritual por si só.

The blessed don’t care what angle they’re regarded from”. Saber-se amado, saber-se filho e amigo de Deus, vale por mil qualidades e riquezas humanas, mesmo que você saiba que não merece nem a primeira das graças recebidas. Do que você vai ter medo, se não for de Deus?

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Na minha conta modesta, feita no ano passado, a respeito de cortes no orçamento federal, eu cheguei em mais de R$ 180 bilhões de economia para 2017, sem sangramento da sociedade.

Temer já está mexendo na área de comunicação do governo, mas vai devagarzinho. Não sei como funcionam os meandros da política, mas num orçamento familiar ou empresarial eu sei que essas coisas nós fazemos de uma vez só e o mais rápido possível.

De novo repito aquela minha velha pergunta: qual é o privilégio que o Governo tem sobre os seus próprios contribuintes?

A estatolatria é praticamente obrigatória no pragmatismo da administração pública moderna, pois exige o reconhecimento desse privilégio. Os números estão aí. Temer corta 4 000 cargos comissionados e já ouvimos uma gritaria imensa. Mas, esperem um pouco… era para ter cortado uns 10 000 no mínimo, e já estão reclamando?

Já vi aqui e ali que o problema é o modelo presidencialista, ou mais especificamente o do “presidencialismo de coalisão”. Não entendo essa lógica. Nada impediria que um modelo Parlamentarista custasse até mais dinheiro do que esse, e abrisse o caminho para mais corrupção ainda do que já temos. Porque as pessoas insistem em discutir abstrações políticas, quando o problema em questão é moral? Eu quase que sei a resposta: é claro que não querem discutir a moral. É mais fácil fingir que o problema é a reforma política, etc., do que dizer a verdade, ou seja, que as lideranças políticas são safadas e saem impunes, já que a Lei não os atinge na maior parte dos casos.

De forma bem prática, a única maneira de reformarmos a legislação para conter o prejuízo com esses verdadeiros ralos morais é mexer, por um lado, numa redução drástica do custo das campanhas eleitorais, e na nomeação obrigatória de profissionais de carreira para as todos os quadros abaixo de primeiro escalão, e por outro lado na brutal mudança do paradigma penal e judiciário para capturar e punir severamente os corruptos que persistirem no erro após o período das reformas.

Se isto acontecesse seria possível aceitar até mesmo, com ressalvas e limites ponderados, uma anistia geral de crimes de corrupção que permitisse ao Parlamento votar essa porcaria toda sem colocar uma corda no próprio pescoço.

Mas nós precisaríamos de uma liderança política e moral enorme no país, que conduzisse esse processo e tivesse aceitação geral da nação. Esta pessoa não existe ou, se existe, está muito bem escondida fazendo sabe-se lá o quê.

Estas, porém, seriam algumas medidas pragmáticas sem falsas ilusões e abstracionismos inúteis. O problema não é ter o Presidencialismo, com ou sem coalisão, e fazer a reforma política da Terra do Nunca. O problema é as pessoas serem honestas e cumprirem a Lei, meu Deus do Céu.

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O Procurador da República junto ao TCU, Dr. Júlio Marcelo de Oliveira, é um bravo elegante: vence pela qualidade, é forte pelo método, é resguardado pela preparação. Ver pessoas assim trabalhando em funções públicas no Brasil é muito satisfatório. 

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O Conde Loppeux fez uma crítica dura ao Bolsonaro pelo seu batismo, simbólico ou formal, no rio Jordão em Israel, junto dos protestantes do PSC, embora este declare-se católico.

Sua crítica não procede e procede ao mesmo tempo.

Por um lado, como ele mesmo observou anteriormente, Bolsonaro precisa fazer política e isso significa até, como ele próprio disse, apertar a mão de gente que “fede a enxofre”. Ora, por esta ótica que é pragmatista por excelência não há como dizer que Bolsonaro age mal tentando atrair a simpatia dos protestantes. Embora a nação brasileira tenha origens católicas e até uma predominância desta Igreja na sua demografia, nós sabemos que os protestantes politicamente mobilizados são mais relevantes para a direita brasileira do que os católicos politizados que são, por sua vez, aderentes ou simpatizantes às idéias da infernal Teologia da Libertação. Em quantas votações no Congresso sobre assuntos essenciais nós não fomos ajudados –quando não mesmo salvos– pelos parlamentares da bancada evangélica? Como é que Bolsonaro não reconheceria isto?

Por outro lado, é verdade que do ponto de vista religioso nós não podemos aceitar qualquer situação sem mais nem menos e, especialmente, não podemos aceitar a inversão da hierarquia das coisas num nível mais fundamental.

A irritação mais justificada do Conde, porém, é aquela que atinge os “liberais conservadores”, ou os “católicos liberais”. Eu próprio já me classifiquei como liberal-conservador, mas fiz questão de deixar claro que o liberalismo que defendo é somente econômico. Hoje em dia acredito que esta formulação é até indevida. A liberdade econômica é uma realidade e uma tradição da civilização humana antes que alguém inventasse um treco chamado “liberalismo”. A identificação do liberalismo com o esquerdismo, aliás, para mim hoje em dia é praticamente total. Quando vejo um Vargas Llosa defender tudo o que não presta dentro do liberalismo, ou um FHC criticando o “atraso” das mentalidades petistas em nome de um mesmo liberalismo moderno (que nós sabemos muito bem onde é que vai dar), eu reconheço perfeitamente essa coisa sinistra que o Conde condena, e vejo que é urgente a nossa direita se livrar disso.

Isso não será fácil nem para as pessoas inteligentes, imagine então para as burras?

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18/05/2016

Reinaldo Azevedo continua enchendo o saco.

Apela como nunca se viu antes, e faz enorme papel de ridículo. É um homem com uma missão. Ou com uma raiva enorme. Ou talvez ainda com um pouco dessas duas coisas.

Ao fim e ao cabo, porém, quem é Reinaldo sem uma Veja, sem uma Folha de São Paulo, sem uma Jovem Pan? Um escritor mediano com algumas sacadas e não passa muito disso. Ninguém ouviria falar dele pela sua obra, que beira a irrelevância. Ninguém quer se dedicar às idéias profundas de Reinaldo Azevedo porque elas praticamente não existem. Essa é a verdade.

Sempre fui elogioso na medida em que Reinaldo era sensato e colaborava de fato no esclarecimento das coisas, ao seu modo. Reinaldo escreve bem, fala bem, e sempre pareceu tomar uma distância razoável da correnteza da política, embora fosse aqui e ali chamado de “tucano”. Nunca liguei muito para isso. Cada um faça o melhor que pode.

Se ele abandona agora o barco firme da resistência cultural do país para agarrar essa bóia efêmera que é o seu próprio sucesso midiático no processo de decadência do PT, misturado com um agenciamento político mal disfarçado, o problema é dele. Que arque com as consequências. Não posso fazer nada senão lamentar e desejar que um belo dia ele acorde e perceba sua insensatez.

Mas não acho que isso vai acontecer. Pelo contrário, acredito que o tempo poderá revelar algumas coisas desagradáveis. Espero estar errado.

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Em episódios como esse mais recente do Reinaldo Azevedo manifestando-se, novamente, contra Olavo, nós podemos perceber claramente a distância monumental, cósmica, que há entre ser um intelectual a serviço de uma agenda e ser um amante da sabedoria.

Ninguém sabe dizer ao certo se Reinaldo estrebucha por suas próprias convicções, ou por um esforço concertado com poderes políticos. A cada dia que passa parece que Reinaldo está mais e mais alinhado com interesses externos a pura análise política. Se não fosse para o atendimento de uma vontade superior, porque raios Reinaldo se jogaria suicidamente numa missão esdrúxula de desqualificação moral e intelectual de alguém que é, infelizmente para ele, moral e intelectualmente muito qualificado? O próprio Reinaldo reconhecia isso.

Se alguém age contra o senso normal de suas próprias idéias (coisa em que acredito) e se lança num ataque gratuito contra alguém que até a véspera reconhecia como força intelectual superior não só a média mas a todos os analistas do país, é porque há um poder maior exercendo autoridade sobre este alguém, ordenando-lhe que proceda de tal e qual forma.

Se pararmos para pensar bem, a única consciência intelectual que se opõe e até transcende a mentalidade tucana é justamente o conservadorismo inaugurado pelo trabalho cultural de Olavo de Carvalho. Imaginem agora, diante da queda do PT, a fúria das potestades de PSDB (e mesmo de outros partidos) ao ver que não conseguem manter a hegemonia cultural e dominar a cena política, e que essa restrição ocorre em grande parte por causa da ação de longo prazo de um único homem? É claro que esse homem tem que ser desqualificado de todas as formas. Isto é algo que ocorre faz tempo, aliás, mas agora, com a mudança do cenário político, nós entramos em uma outra fase. Olavo não é mais “polêmico”, “esquisito”, “controverso”, etc. Agora ele é um “doente mental” seguido por outros “doentes mentais”, e assim por diante.

Mas, ora, se toda a força do establishment tem que se reunir para tentar rasgar a reputação de um único sujeito que não tem o patronato e nem o suporte de nenhuma força política ou social que não seja a de indivíduos isolados, seus próprios alunos e leitores, e esse estamento não consegue sucesso nisso de maneira nenhuma, o que nós temos aqui é a prova concreta de que o amor pela verdade é superior, no seu campo, a todos os poderes, propagandas e pirotecnias desse mundo.

O que essa campanha difamatória faz é provar, descaradamente, o mérito e a superioridade de seu próprio alvo.

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O Paulo Enéas, no Crítica Nacional, analisou bem esse destempero de tucanos, Reinaldo Azevedo, MBL, etc. De fato, se não existisse risco real contra a hegemonia esquerdista, porque rosnariam? Estão com medo de alguma coisa. Principalmente o PSDB.

Pagam pela sua omissão em 2005. A época para enterrar o PT era aquela, há dez anos atrás, no episódio do mensalão. Agora o PSDB corre o risco de se afundar politicamente junto com o PT.

Aliás, nesta última segunda-feira o ex-senador Delcídio do Amaral revelou no Roda Viva que a retirada da menção no Relatório final da CPMI dos Correios, da qual ele era o Presidente, dos nomes de Lula e de seu filho, ocorreu naquela ocasião por solicitação da oposição! A desculpa era a de que o relatório todo, um trabalho de mais de um ano, seria “perdido”, etc. Mentira. Nós sabemos hoje que FHC quis poupar Lula, e a estratégia do PSDB foi manter o PT como o seu principal interlocutor político para o futuro.

Poucos representam tão bem essa relação de amor e ódio entre PSDB e PT que o próprio Delcídio. Esses organismos políticos são sócios no projeto de divisão do poder, e são subordinados a interesses estrangeiros estranhos à nação brasileira.

A queda do PT, por si, não seria tão dramática para o esquema como um todo, se não ocorresse junto a erosão de toda a farsa, que envolve inevitavelmente o PSDB.

A forma mesma dos ataques, seja contra Olavo ou Bolsonaro, já demonstra um certo desespero, pois é em geral uma desqualificação gratuita. As melhores críticas que vejo, principalmente com relação a candidatura futura de Bolsonaro, partem da própria direita real, a direita conservadora.

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Há uma cultura de morte que ameaça alguns dos cristãos mais desavisados, especialmente entre os católicos, que cultuam a mortificação em excesso e, com isso, acabam cultuando a morte sem o perceber. A parte a origem sobrenatural do culto da morte, que é própria dos infernos, há também origem social nos inimigos da Igreja que buscam o enfraquecimento de alguns piedosos tornando-os obsessivos.

Sempre tive problemas com esse tema, porque Deus mesmo nos fala: “quem me seguir não andará nas trevas, mas habitará na luz da vida”. O valor da vida não é condicionado. Não é um valor relativo, exceto em relação ao próprio Bem de Deus. A idéia de que podemos nos tornar espiritualmente mais perfeitos negando o valor da vida deve ser limitada a determinados exercícios e práticas menores, apenas com um intuito pedagógico e apenas para aqueles que precisam dessas coisas por um desvirtuamento excessivo de suas visões particulares.

Na raiz de uma cultura da morte há tanto o gnosticismo ancestral quanto a pura soberba espiritual: o homem não deveria estar neste mundo, ou ele por si já o transcende pela negação do que não é puramente espiritual. E ambas estas coisas levam à loucura e à perdição.

Se a nossa vida já é uma dádiva dada por Deus, ela não é certamente casual. Deus nada faz por acaso, e nada ensina por trapaças e truques mentirosos. A malícia não é boa em nenhuma hipótese, e não seria mais benéfica dentro da jornada espiritual de um ser humano. Cuidado com os vendedores de segredos e de caminhos ocultos.

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O diabo é um terrorista. Embora Deus tenha feito o mundo e visto que era bom, o inimigo do homem quer sempre dizer que está tudo indo de mal a pior, e como forma de prová-lo arrasta diante dos nossos olhos tudo o que não presta da forma mais abusada e escandalosa possível, coisas que ele mesmo provocou levando os homens aos vícios mais profundos e à loucura. O truque do diabo é nos prender numa ilusão temporária aqui e agora, para que fiquemos eternamente nos infernos depois. 

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De certo modo, a malícia é o exato oposto da fé. 

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Ciro Gomes em uma dada ocasião disse considerar Maquiavel o grande cientista político que deve ser lido, estudado, compreendido.

O mesmo Ciro Gomes, em outra ocasião, disse que a cusparada de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro foi legítima, e que ele próprio poderia fazer isso, ou como ficou implícito, ainda pior.

Foram essas coisas que ele aprendeu com o Mangabeira Unger?

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É impressionante a capacidade de mobilização das esquerdas em geral, das mais moderadas até as mais radicais, dentro da sociedade civil, especialmente em ambientes de educação e imprensa. Eles se reúnem, eles discutem, decidem, organizam, enfim, fazem as coisas na prática. Se haverá uma direita brasileira culturalmente estabelecida e politicamente organizada para competir em nível de igualdade de poder com a esquerda, ela levará uns quinze ou vinte anos para aparecer. Ressalvado um milagre. 

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Neste ano de 2016 está acontecendo uma coisa interessante: quanto mais as pessoas persistem em manter uma farsa, mais rápido ela cai. Já percebi isso acontecer em diversas situações e planos diferentes. 

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19/05/2016

Eduardo Cunha tenta se defender na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, que julga uma Representação apresentada por PSOL e Rede, que afirma que ele mentiu ao dizer que não tinha conta no exterior. Argumenta com uma tese mais ou menos esdrúxula, de que se formou um Trust com recursos prévios, etc. Não é provável que a Comissão o absolva e, se por ventura isso acontecer, indiretamente o Governo Temer será atingido por um baque moral razoável.

Não escondo minha estima pelo Eduardo Cunha por determinadas questões, além da maestria na condução do impeachment, principalmente a sua posição veemente contra o aborto. Isso não o torna melhor do que é de fato, mas o torna melhor que muitos outros que, além de corruptos, são apologetas do genocídio de crianças inocentes.

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Se você se sente acusado, mas não há ninguém fazendo isso contra você, pode crer que é o próprio demônio. Sim, nós temos uma consciência capaz de reconhecer erros, mas o caminho consciente é o da reflexão e, se for o caso, o arrependimento. A acusação é uma prerrogativa infernal irrevogável.

A solução, quando isso acontece, não é esconder o erro e nem aceitar o discurso acusatório, mas voltar à consciência, à reflexão meditada, ao arrependimento, etc.

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Eduardo Cunha dizendo que não é dono de dinheiro no exterior por não ser trustee, embora seja beneficial owner do referido Trust, é de uma cara de pau mítica. 

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Um diabo de vez em quando me tenta na inveja de pessoas arrojadas na internet, escritores de artigos, críticas e ensaios bem pensados e bem escritos, sendo lidos e “curtidos” enquanto eu levo a vidinha cotidiana num isolamento e quase total desconhecimento social. É ousado, esse espírito: eu já escrevi em teses passadas que esse sentimento é desqualificado, e vem o inferno me bater na cara, de novo, com a tentação.

A história de uma alma é assim. A história verdadeira. Por isso não me incomodo de conta-la neste diário, eventualmente. Num momento de reflexão contra a tristeza. Não quero jamais fingir que sou outra coisa que não seja essa alma disputada no cassino das tentações. Que alma não é ou não foi um dia, afinal de contas?

Minha defesa prática, e que é certamente a mais infalível de todas, é o conselho do Sertillanges: trabalho.

Devo enfiar minha viola no saco, aceitar e recolher-me à minha insignificância social, que é real, e agir dentro disso com humildade e com caridade: fazer tudo considerando ser apenas um “humilde servo nas vinhas do Senhor”, e trabalhar para que algo deste meu serviço possa servir a quem quer que seja, mesmo que o seja anonimamente, e principalmente que o seja sem recompensas ou reconhecimentos de qualquer espécie. Há uma felicidade especial, uma alegria transbordante, há todo um Paraíso por trás desta simples solução.

É assim que se faz. O diabo não deve ser questionado com argumentos lógicos, argumentos racionais, etc. Neste campo ele sempre vence o homem, pois é o seu território. Pois quem é o homem sem Deus? É uma poeirinha, uma sombra de algo que você mal piscou os olhos e já não existe mais. O diabo deve ser exorcizado pelos que são competentes para tanto e, para fora e para além, na nossa luta espiritual cotidiana, deve ser calado com boas ações. Com ações virtuosas e com a busca de Deus a cada minuto de nossa vida, a cada respiro.

Todos os dias tristes são dias em que Deus parece ter ficado mais distante, mas nós é que ficamos mais distantes Dele. Porque erramos, porque somos fracos, porque não temos a fé, não temos a esperança, escondemos a verdade, etc.

Tudo isso me mostra que o meu modo de vida, por confortos e comodidades que tenha, é espiritualmente enfraquecedor. Não dou a mínima para ser uma “pessoa forte” em termos mundanos. Sempre achei isso uma perda de tempo, uma coisa enfadonha e entediante. Sempre quis ser uma pessoa inteligente. O meu problema é a verdade. Até mesmo a coragem, sem a sabedoria, deixa de ser virtude. Tenho alergia às convicções cegas e me tornei, por escolhas pessoais e alguns frutos da minha formação, quase que imune à precipitação. Há uma diferença clara entre a prudência e a covardia. Já tratei disso antes. No limite final desta discussão, falando do que realmente interessa, há sempre o despejar ou não da Graça divina, pois o que diferencia a ação boa da ação ruim, em sua base, é a sabedoria. E a sabedoria é uma Graça de Deus. O homem não conheceria de fato uma só formiga sem que Deus o permitisse e desejasse pela sua infinita misericórdia.

Isto é muito real.

Não se trata de uma fuga para a misericórdia divina: é, antes, um “abandono à divina Providência”.

Ciente da minha pequenez, retorno à miséria do dia.

Mil e um projetos não funcionarão jamais sem pessoas que dêem vida a eles. Um sistema verdadeiramente orgânico de simulação educativa por roleplay? Preciso de pessoas. Um think tank conservador? Preciso de pessoas. Para tudo que seja um “sucesso” eu preciso de pessoas.

Mas eu treinei “a vida inteira”, por assim dizer, para não precisar das pessoas. Afastei-me do “sucesso mundano”, sim, mas também do que seria a “fraternidade cristã”. Ok, a época em que vivo não é flor que se cheire, mas eu não presto muito mais do que a época em que vivo. O pior de tudo é que eu pequei, inevitavelmente, contra a caridade. E contra a humildade, num vil orgulho. Etc., etc. Já falei disso tudo antes.

Mas a solução não é que eu me torne agora um tapete humano, para que pisem em cima de mim, como forma tosca de compensação. Não pode ser assim. Isso apenas serve para o escárnio do demônio. E a solução não pode ser, definitivamente, a negação da verdade das coisas. Eis que eu faço um voto de humildade para praticar a caridade, e no mesmo instante digo-me: mas como é que eu poderei praticar a caridade se eu não posso agradar essas pessoas que eu conheço? A solução é o velho truque: dê a esmola, ajude, mas logo depois saia correndo! Do contrário você se corrompe. É difícil esta arte.

Estou perdendo a linha deste texto? Não quero parecer confuso, porque não estou.

Retomo o fio da meada.

Escrevi certa vez que me inspirava no simbolismo do Turin Turambar, personagem de Tolkien, para centrar minha própria atenção no que interessa: o combate do mal na forma específica e fundamental da ignorância. Que fique claro, mais uma vez, aos que desconhecem a história do “Senhor do Destino”: é um personagem trágico. Seu final, em termos mundanos, definitivamente não é feliz.

Quando eu vejo Olavo sendo massacrado pela “opinião pública” que sai das várias bocas e penas de figuras lamentáveis, entre as quais se conta o infeliz Reinaldo Azevedo, eu vejo que a força de Olavo não é a do “sucesso humano”, mas é a da renúncia desse mesmo sucesso oco e efêmero em fidelidade a uma missão transcendente, a um ideal superior de vida. Há uma dupla tradição aqui: tanto a tradição sacra cristã com o modelo supremo do próprio Jesus Cristo, quanto a tradição profana filosófica com o modelo fundante de Sócrates. Olavo herda e realiza em sua vida uma missão de filósofo e de cristão. E Olavo é, efetivamente, o meu modelo imediato de vida, através de quem herdei o conhecimento e a admiração do legado tanto da tradição cristã quanto da filosófica.

Quando falo de Turin, vejo atrás de seu símbolo o exemplo de Olavo, que me leva a Sócrates e, ao fim de tudo, a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essa cadeia simbólica leva até a mais completa humilhação e adoração a Deus. Esta é a única saída verdadeira para a vida humana, e por trás dela há um segredo milenar: uma felicidade transbordante, sem fim, extasiante.

Olavo não tem razão porque tem qualquer tipo de sucesso neste mundo, mas porque ama a verdade.

Acabem todas as farsas e ilusões. O destino humano, individual e coletivo, é uma “reserva de mercado” de Deus. Não percamos tempo discutindo o “sucesso”. A nossa parte é a obediência humilde e servil a Deus, não aos homens, realizando as virtudes concedidas pela Graça divina.

Dito isto, que explicação devo eu ao diabo, essa figura ridícula e decrépita, podre, decadente e fedorenta, a respeito de minha vida? Nenhuma. Não devo invejar porque não devo julgar, e não devo julgar porque não sei da vida alheia tanto quanto sei da minha própria, que já não é lá essas coisas. Assim como não julgo, não admitirei nenhum julgamento que venha de Deus para baixo, excetuadas todas as justas admoestações pedagógicas e caridosas em essência dos virtuosos a quem devo respeitar e imitar, os vivos e os mortos.

No mais, volto ao simples Sertillanges: trabalho, trabalho, trabalho.

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Ciro Gomes é alguém que acredita num negócio chamado “o milagre da política”.

É um sujeito perigoso, portanto.

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20/05/2016

É sempre mais fácil e cômodo reclamar do “mundo moderno” do que tentar ser uma pessoa melhor.

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Não me surpreenderia se, na sequência dos vários ataques gratuitos e desvariados de Reinaldo Azevedo contra Olavo, ocorresse a formação orquestrada por interesses políticos de um pool de intelectuais acadêmicos com o único e exclusivo intuito de tentar desqualificar e desmoralizar publicamente o filósofo. Refutar de fato será praticamente impossível, é claro.

Não são almas falando, são papéis sociais, como sempre.

E enquanto continuarem farsantes, Olavo será invencível.

Se e quando um desses intelectuais deixar de fingimento e começar a ser sincero do fundo de seu ser, se tornará aluno de Olavo no minuto seguinte, naturalmente e com muita tranquilidade.

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Omnis terra veneratur

Não tem escapatória! Renda-se!

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Assim como você não obtém uma imagem boa do seu corpo ao tentar ver-se através de um espelho sujo, também não é possível você se conhecer bem se o brilho da sua alma se reflete em uma mente opaca, suja e confusa. E se você não se conhece minimamente, não consegue ser sincero e verdadeiro em nada do que faz.

Isso inclui a oração. Nem perca o seu tempo.

Primeiro você tem que ter minimamente alguma seriedade e sinceridade, com direito a todas as crises, choradeiras e vômitos, e depois com a cara limpa vem o resto, inclusive a adoração verdadeira.

O máximo que você pode fazer antes disso é abraçar os joelhos de Deus e suplicar para que Ele lhe dê por piedade a graça de deixar de ser o farsante mentiroso e abjeto que você é.

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Estou lendo uma entrevista do Ricardo Paes de Barros na revista EXAME. Como um Ciro Gomes, toda a sua inteligência estadista curva-se no fim das contas numa estatolatria completa.

Não se concebe, sob este prisma, uma nação forte sem um Estado forte, ou seja, não se concebe uma sociedade civil capaz de agir e de resolver livremente os seus problemas. A premissa intocável é a de que as pessoas são individualmente fracas, desamparadas, ou então, e até combinadamente, que são vítimas indefesas de exploradores terríveis de interesses os mais espúrios. Esta mentalidade gera, com suas políticas desdobradas ao longo do tempo, a sua clientela favorita: gerações de pessoas mimadas e infantilizadas, dependentes de soluções estatais para tudo quanto é assunto, e incapazes não digo nem de “viver em liberdade”, mas de sequer cogitar o que é ser livre.

A questão cultural é prioritária. Mas há aquela dificuldade do prazo e, principalmente, a dificuldade da aceitação da liberdade humana como uma realidade.

Por um lado as pessoas querem resolver as coisas agora e não para daqui a vinte anos (prazo normal de maturação de uma nova cultura na sociedade), e isto faz surgir a carência por líderes salvadores. Por outro lado, é mais fácil uma liderança política tocar o povo como se fosse gado para a direção que escolhe ser a melhor, do que servir de fato a essa população presumindo a sua liberdade de decidir os rumos de sua vida.

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Essa conversa de “aprimoramento” do Bolsa Família leva a uma série de medidas de maior controle e escrutínio da vida dos cidadãos do país. É incrível como em troca de um cartão de crédito nós estamos dispostos a entregar a nossa liberdade.

Como já falei antes, o verdadeiro aprimoramento do Bolsa Família se chama “geração de emprego e renda”.

É claro que sou favorável a fiscalização para que só os realmente necessitados recebam o benefício social, mas na prática onde isso vai nos levar? No longo prazo, se não tomarmos cuidado, seremos levados a uma situação onde o Estado simplesmente tem todo o poder e legitimidade de decidir qual é o seu papel na sociedade, no que deve trabalhar, quanto deve ganhar e gastar, etc. Qualquer semelhança com um regime comunista não é mera coincidência.

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Poderia haver uma lei que estabelecesse definitivamente o seguinte: a redução forçada dos juros nominais sem a sua devida contrapartida fiscal constitui crime de responsabilidade diretamente imputável ao Presidente do Banco Central e ao Presidente da República que o nomeou, puníveis com exoneração e impedimento respectivamente.

Digo que poderia e não que deveria porque é claro que a realidade política, social e econômica transcende esse tipo de regramento. Da mesma forma com que sofremos hoje com a burrice das despesas obrigatórias do orçamento, poderíamos sofrer no futuro com essa regra da contrapartida. Expresso-me mais como se fosse numa quase comédia: seria ridículo ter uma lei obrigando as pessoas a obedecerem a força da gravidade, mas não tão ridículo se algumas pessoas quisessem seriamente violar essa realidade da natureza. Da mesma forma os proponentes da manipulação monetária desatrelada da responsabilidade fiscal são como violadores de uma realidade primária. Daí entraria a minha lei, como um lembrete do ridículo da situação.

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A idéia de que a nossa inflação não é de demanda, mas de custo, considerando a capacidade ociosa da nossa indústria, etc., por correta que seja leva implacavelmente a observar que a redução forçada dos juros não é uma solução séria, nem nas intenções, nem nos meios e nem nas finalidades.

A pressão do câmbio na inflação resulta do desajuste entre demanda e oferta no mercado doméstico sim. Não é diretamente uma inflação de demanda, mas indiretamente. Você consome importados que substituem a produção doméstica que você tem o poder de comprar mas não tem o poder de produzir, evidentemente. Isso é demanda maior que oferta. Essa substituição por sua vez resultou da ampliação desmedida de renda e crédito sem contrapartida nos investimentos. O Estado trabalhou para aumentar a renda e não conseguiu fazer o mesmo na ponta da produção, por razões óbvias que nós já conhecemos: o Estado não chega aos pés do mercado nesse tipo de equilíbrio. O Estado planejado é um mastodonte esclerosado e sempre será.

Os juros sobem como consequência do desajuste fiscal. O Estado teve que reiteradamente suprir com fiat money a ausência de capacidade produtiva, gerando uma renda falsa que ampliou a sua dívida. Se o câmbio apertou a inflação, foi apenas porque nós ganhamos o poder de consumir o que nós não temos o poder de produzir. Oferta e demanda, sim.

Política monetária, política fiscal e política cambial são realidades que cercam a realidade central que é a economia real, oferta e demanda.

Os juros são altos porque há estruturalmente de fato um desequilíbrio entre oferta e demanda (como demonstrado acima) e, mais do que isso até, porque a perspectiva de insolvência fiscal exige o aumento do prêmio pago aos credores do país, e este prêmio são os próprios juros. Quem é que vai sustentar essa porcaria e aguentar esse risco sem receber um benefício à altura?

Tudo em economia pode ser infindavelmente discutido, mas com relação à história recente da economia brasileira não se deixem enganar jamais: o endividamento estúpido do Estado sem a atração e geração de investimentos é a causa substancial de todos os males, entre os quais os juros altos, a inflação e o desemprego. Porque isto acontece? Porque o Estado é um ator econômico desqualificado e um péssimo administrador. O governo brasileiro fez “dívida de pinga”: consumiu-se o dinheiro e não sobrou nada.

A formação bruta de capital, a taxa de poupança doméstica, que é a solução real para o problema no longo prazo (e disto eu não poderia discordar), depende em primeiro lugar da maior ausência possível do Estado e de suas interferências indevidas. Isto faz a curva de juros cair de fato, diminui a dívida pública e direciona o capital aos investimentos produtivos. Vocês já viram a pequenez do nosso mercado de capitais? É ridículo. E muitos dos críticos da baixa industrialização brasileira continuam aprovando a interferência estatal e criticando os juros altos! A legislação e o ambiente regulatório precisam ser ótimos, e isto é uma questão pública, mas o ajuste das expectativas sobre o futuro é uma questão privada da sociedade civil. Prevenidos os monopólios e as manipulações ilegais, porque deveríamos esperar que o Estado regule o quanto nós devemos ganhar, gastar, poupar, etc.? Vivem dizendo que a economia planejada, a estatização da sociedade, etc., são lendas do comunismo já falecido no século passado. Mas nós vemos esse tipo de discussão ainda aqui e agora, no nosso Brasil de hoje.

Podem me chamar de radical o quanto queiram. Eu acho que radicais são esses estatólatras. Não posso negar a heterodoxia das minhas idéias nesse ambiente de idólatras, mas não deixo de examinar essas coisas e concluir que as pessoas gostam de viver de ilusão. Até a Previdência Social é o resultado de uma espécie de alucinação coletiva, se você pensar bem.

E tudo isso remonta à Terra do Nunca inaugurada com a Constituição de 1988: um país que todo mundo quer, mas onde ninguém jamais vai viver.

Reparem, não obstante, que os vendedores desses sonhos vivem muito bem, obrigado, sustentados pela população que compram as suas ilusões à vista e aceitam receber o prometido à prazo, sem pressa.

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Sabe quanto o Tesouro Nacional sob Dilma Rousseff deu ao BNDES para empréstimos camaradas desde 2011? Mais de R$ 1 trilhão. 

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O fato de o Brasil ter investido tantos bilhões em Copa do Mundo e em Olimpíadas tendo ao mesmo tempo apenas 50% dos seus lares com saneamento básico já mostra a merda, literalmente, que é a governança deste país, suas lideranças, sua cultura, etc. 

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Um dos principais truques retóricos do Ciro Gomes é o uso de detalhes para desestabilizar o discurso adversário. É totalmente inviável uma discussão em termos mais abstratos com ele. E não me refiro ao caso do Rodrigo Constantino. Isso é geral. O caminho da desmontagem da sua propaganda passa pelo enfrentamento desse dispositivo: contra-atacando detalhes com mais detalhes, contestando os detalhes eventualmente distorcidos ou contrariando a interpretação dada aos fatos. E também combatendo, é claro, a sua visão política de mundo, que é muito mais precária do que se imagina.

A prodigiosa capacidade verbal de Ciro é uma coisa que venho analisando faz um tempo. Além desse truque do detalhe, há outras habilidades notáveis. Eu destacaria duas outras importantes além do detalhamento: a exemplificação prática abundante que ilustra cada argumento com cenas compatíveis com o cotidiano de qualquer um, e uma capacidade de sintetização e de simplificação bastante rápida e convincente.

Por aí também conhecemos as vulnerabilidades de Ciro: ele não resiste a um ataque direto e certeiro contra as premissas essenciais do seu argumento. É o que sempre ocorre com quem simplifica as coisas: as premissas essenciais são o ponto fraco. Derrube uma dessas colunas e o edifício inteiro se desmorona.

A questão é localizar rapidamente essas premissas e perceber a maneira mais letal de destruí-las de forma rápida. Não é para qualquer um.

Continuo acreditando que a maneira mais fácil de dinamitar a candidatura de Ciro é o jogo sujo do assassinato de reputação, deixando claro que eu não aprovo esse método. É apenas uma constatação pragmática do jogo político. O ataque ao temperamento explosivo de Ciro, por exemplo, é uma abordagem possível, mas mesmo essa tem que ser feita com cuidado para não ter o efeito inverso de torna-lo publicamente uma figura sincera, bem intencionada e apaixonada pela verdade em defesa do país, etc. Não se esqueçam de que o Brasil já elegeu Lula. Colabora para a condenação do destempero de Ciro o fato de que temos o Presidencialismo no país: elegemos não somente o chefe de Governo, mas também o chefe de Estado.

Ciro Gomes está perdendo o bonde da história nestes dias em que o conservadorismo da população brasileira borbulha pedindo por representação política.

Se Ciro se desligasse da esquerda e do progressismo em geral, esquecesse o discurso de defesa das eternas vítimas do mundo injusto, e mudasse alguns paradigmas da sua visão política, especialmente no que concerne ao papel do Estado na economia, ele poderia adotar algo da postura de Donald Trump e ser, mesmo que bastante destemperado, o perfeito candidato anti-establishment. Em suma, se Ciro não quisesse ser um Lula com leitura, ele seria invencível.

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Comentário que publiquei a um ótimo texto do Paulo Enéas no Crítica Nacional, a respeito das perspectivas conservadoras no Brasil:

É preciso discutir a velha questão da ocupação de espaços, especialmente na educação e na mídia, e o trabalho de disseminação da cultura conservadora com prazos, meios e níveis diversos. Vai dar trabalho e vai levar tempo, inevitavelmente. Hoje nós temos até mesmo a dificuldade de identificar quem são todos os agentes conservadores menores no campo da cultura e com alto potencial, qual é a capilaridade desses agentes, como eles se relacionam entre si, e principalmente como é possível incentivar o surgimento de novos atores nesse campo, conforme essas inteligências vão se formando, como organizar o funding dessas atividades, etc. Não há serviço de inteligência que reúna essas informações (que seja do meu conhecimento, é claro), e não há organização que passe da promoção de alguns eventos isolados. Mas estamos apenas começando, certamente. E essa dispersão também é um tipo de força: não há um centro a ser golpeado pelos adversários e que represente um desastre no lado conservador. A perseguição contra Olavo mesmo já mostra, a esta altura, essa disseminação: vários alunos atuando independentemente conseguem rechaçar com sucesso essas investidas contra o professor. Há muito a ser feito, na área de mídia, de educação, etc. Eu vejo uma militância atuando com sucesso a favor de Bolsonaro, por exemplo, mas não vejo ninguém analisando numa reflexão mais demorada como é que se vai golpear com força as candidaturas de figuras como Marina Silva, Ciro Gomes, mesmo Aécio Neves, etc., um trabalho que tem que ser começado desde já. Há uma militância responsiva, rápida, criativa, etc., mas eu não vejo muito trabalho na área estratégica, conceitual, que gere aderência e consenso em públicos mais velhos e mais educados. É claro que estamos mal acostumados com a presença de Olavo, afinal o homem sozinho geralmente faz todas essas coisas muito melhor do que todos nós juntos conseguiríamos. Mas é preciso fortalecer essas energias e essas iniciativas, e começar a fazer isso de forma mais sistemática e organizada. Isto seria um movimento de fato, e não um “corpo sem cabeça”. A oportunidade é enorme. Parabéns por estimular esta reflexão.

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23/05/2016

Michel Temer não tem conexão efetiva com os anseios populares que mobilizaram a classe política para o impeachment de Dilma. A busca de um governo de excelência tecnocrática, de legitimação da atual classe política, e de normalização do funcionamento das instituições aparelhadas é exatamente a função de um salvador do establishment, e não de um estadista realmente patriótico. Confirma-se assim, aos poucos, o ciclo de amortecimento e arrefecimento da energia de revolta popular, usando Dilma como bode expiatório em prol da manutenção da estrutura de poder no país, a estrutura das esquerdas, do Foro de São Paulo, dos interesses globalistas (sejam do Leste ou do Oeste).

Se Temer tivesse realmente conexão com os interesses do povo, ele simplesmente atropelaria a gritaria dos que atacaram histericamente a ausência de mulheres ou negros no seu ministério, e principalmente as críticas contra a extinção do Ministério da Cultura. Em suma, os brasileiros estariam do lado de Temer, se Temer estivesse ao lado dos brasileiros.

Eu não digo que lamento isso, porque era mais ou menos previsível. Temer ainda pode surpreender, mas o tempo corre contra ele.

A força verdadeiramente confiável de todo o atual cenário público brasileiro é a Lava-Jato. Minha dó se o PMDB cair sob golpes de marretada de Sergio Moro será igual a zero. Mesma coisa para o PSDB, etc. A chantagem política pela defesa da “normalidade” e da “institucionalidade” é uma farsa: não há piso normal e mais institucional do que o cumprimento da Lei, quando esta é justa.

E podem crer que peemedebistas e peessedebistas, com a corda da Lava-Jato no pescoço, farão de tudo para justificar o seu poder político, principalmente apelar para a estabilidade da nação. Serão chantagistas sujos e se equivalerão politicamente ao PT. Isto será muito bom para o Brasil, porque não é que com isso o PT se recupera: estes outros é que afundam junto com o PT.

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Duas coisas espantosas no documentário Winter on Fire do Netflix, a respeito da revolta popular na Ucrânia contra Yanukovytch: por um lado a coragem dos populares que lutaram contra o regime arriscando (e em alguns casos perdendo) a própria vida, e por outro lado a brutalidade policial no uso de força letal contra a população.

Isto mostra o potencial para os aspectos mais sombrios da história humana e ao mesmo tempo revalida a noção tradicional dos valores humanos, tanto dos heroicos do lado da defesa da justiça, quanto dos tirânicos do lado da repressão violenta.

Mais pragmaticamente não é difícil entender como uma população mais passiva pode perfeitamente aceitar um regime ditatorial, ao invés de partir para o enfrentamento. No limite, a questão cultural sempre impera no fundo, e a eventualidade da presença de alguns bravos enviados para liderar e lutar pelo povo.

O melhor depoimento foi de um senhor que disse, ao fim do documentário: “os melhores ucranianos morreram neste confronto.” Sim. A nobreza é característica daqueles que assumem risco para suas vidas por algo que as transcende. A estes deveria ser naturalmente direcionado o poder e a autoridade. Em sociedades sadias é assim que funciona.

É desnecessário dizer como a burocracia estatal moderna, os Estados inchados, a presença de uma mídia poderosa, etc., perverteram a lógica tradicional de valores e serviram para dar poder aos piores elementos de uma sociedade. Mas uma situação de crise subitamente pode revelar a verdade das coisas, como aconteceu na revolução ucraniana. Aquelas pessoas viveram a realidade da política, sem jogos, sem propaganda, sem farsas. Aliás, foram violentos, e com razão, a cada momento em que um “oposicionista” aparecia para defender uma paz e um acordo com o governo de Yanukovytch. Esses políticos eram chamados de “traidores” e “criminosos”.

Isto é consciência política. Infelizmente parece que a consciência política e o desejo intenso de liberdade tem algo a ver com derramamento de sangue em algum grau. Meu conhecimento de história não alcança o conhecimento suficiente para atestar isso, mas é uma impressão que ficou mais forte depois de assistir Winter on Fire.

Se o movimento da Maidan foi manipulado por George Soros, o documentário certamente foi encomendado por ele, pois tudo parece ser a coisa mais autêntica e honesta possível.

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Aos ávidos por conspiracionismo: Soros agiria pelos Rockefeller, e Putin pelos Rothschild. A questão ucraniana seria, portanto, uma disputa interna da NOM, assim como a questão síria a respeito do abastecimento de energia da Europa (Sauditas vs. Russos).

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Romero Jucá, pego em gravação clandestina, conversou coisas interessantíssimas que corroboram as idéias sobre o “impizzachment” de Dilma: a idéia era fazer um acordão político usando o governo Temer, e jogando Dilma como “boi de piranha” (expressão literal de Romero Jucá) para parar a Lava-Jato.

Assim como o país ficou devedor de PMDB e até de uma figura como Eduardo Cunha, para desestabilizar o PT, por mais incrível que isso possa parecer pode ser que hoje o país deva à vendeta do PT o triunfo final da Lava-Jato: o sepultamento simultâneo de PT, PSDB e PMDB numa derradeira briga entre ladrões sanguinários.

Nada melhor do que um pistoleiro vingativo que não quer cair sozinho para que todos os bandidos atirem uns contra os outros desvairadamente e morram juntos ao mesmo tempo.

Este ano de 2016, definitivamente, é um ano revelador, “ano do Sol”. Deus não está deixando ninguém esconder as coisas debaixo do tapete. Não tem mais tapete: tudo fica nu.

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Todos os entusiastas do “impizzachment” estão querendo desligar o PMDB dos ladrões do PMDB de Temer. Até O Antagonista está fazendo isso, justamente eles que sempre foram tão entusiasmados (com toda a razão) com a Lava-Jato.

Quando um ser humano quer se iludir, ninguém segura.

Se eventualmente aparecer uma gravação ou qualquer outro tipo de prova comprometedora contra Temer, mostrando a sua adesão ao acordão do “impizzachment”, sabe o que esse tipo de pessoa vai dizer? “Vou para Miami.”

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Deus seja louvado pelo que ocorre no Brasil de hoje. Que sustente e proteja os inocentes da população que precisam de ajuda, mas que jogue aos calabouços até o último dos pilantras saqueadores do Tesouro. Não pode sobrar um. Se sobrar um “mais ou menos”, que esse implore por uma chance de joelhos, ao invés de dar as cartas, como ocorre hoje em Brasília. 

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Que ironia. Num dia o Luciano Ayan escreve um longo texto desqualificando as análises políticas de Olavo, elogiando Reinaldo Azevedo, e defendendo a glória da conquista do impeachment, e no dia seguinte Romero Jucá é pego em gravação mostrando que o que ocorreu foi justamente um “impizzachment” para salvar a classe política inteira, exatamente como Olavo dizia que era.

Não é preciso nem mesmo começar a refutar as coisas, os fatos respondem por si mais rapidamente. Que ano!

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Tem um pessoal afobadíssimo com a repercussão do vazamento do áudio do Jucá, porque obviamente o PT usará isso para validar a tese do golpe. Mas é claro que vai. Porque a Folha de S. Paulo teria divulgado esse negócio?

O que algumas pessoas ainda desavisadas precisam fazer é quebrar a relação falsa de Governo Temer vs. Dilma-Lula-PT, e entender que nós estamos falando de Brasil vs. classe política.

O temor dos temores de quase todos os políticos atuantes, seja no governo impedido, ou neste governo, é que todos eles sejam jogados ao mesmo tempo na lata de lixo da história. A revelação da verdade no caso do impeachment deve levar não ao prestígio de Temer e do PMDB, mas a continuidade do passamento do esquema político, atingindo outros entre os quais principalmente o PSDB.

A preocupação pragmática “mas quem vai governar agora?” precisa aguardar a apuração antes de toda a lista de quem “não pode governar agora”. E esta lista é grande…

Condenar o PMDB como o cúmplice que ele é de praticamente todos os crimes e sacanagens não é absolver o PT e muito menos endossar o retorno de Dilma Rousseff. É simplesmente atestar um fato.

A administração do país pode ser sempre deixada para tecnocratas provisoriamente, desde que a classe política aceitasse conceder o controle das coisas até que o último deles seja preso. Mas é claro que eles não querem isso, ao contrário, querem vincular cada vez mais a salvação do Brasil às suas porcas biografias políticas. E é por isso mesmo que Lava-Jato e mesmo a arapongagem do PT ou seja de quem for devem continuar a revelar todos os fatos, até a situação de xeque-mate e de autodestruição. Não podemos aceitar a chantagem dessa classe política.

Se não for Temer a estabelecer um governo tecnocrático porque ele próprio estará comprometido com as sujeiras mais sinistras do PMDB de Jucá, de Renan e de Cunha, então que ele caia junto. E que caiam os outros todos. Até que alguém levante uma bandeira branca e diga: “o governo vai seguir administrado por este grupo de técnicos aqui, nós vamos ignorar as eleições passadas disputadas ilegalmente por esse bando de safados e a população vai votar novamente em quem tenha sobrado dos políticos e dos partidos”. Infelizmente para que tudo isso possa ocorrer –se é que vai– nós vamos ter que ver muita água passar por debaixo da ponte, e queira Deus que seja água e não sangue.

Pessoalmente eu acredito em pizza, uma das especialidades mais tradicionais da gastronomia de Brasília. Não sei se ela será servida por Temer em pessoa ou ainda por um outro, mas tenho a impressão que este será o cardápio.

A nossa parte, de pobres mortais, é, repito, não aceitar a chantagem da classe política. Tudo o que eles querem é justamente este sentimento social de desamparo e de medo, que os torne os salvadores que eles não são de jeito nenhum.

Se vocês estão aflitos, eu sinto muito em dizer que a minha pena é igual a zero. A causa de todo esse rolo é uma confiança desmedida na classe política e a falta de envolvimento pessoal e de organização para o entendimento e para o saneamento das coisas.

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Sonho reacionário ultra-direitista conservador: Monarquia Parlamentarista com Bolsonaro indicado como PM e Sergio Moro nomeado Ministro da Justiça.

É muita opressão, né?

Mas afinal, o que vai nos restar senão fazer exatamente isso?

Dia após dia, não fica claro que sem colocar pessoas realmente confiáveis no poder não restará país algum no qual se viver exceto uma ditadura?

Escolham.

Penso que, se convocados ao dever, tanto o Rei quanto Bolsonaro quanto Moro não recusarão atender à pátria. Eles estão aí para isso.

E isto é mil vezes melhor que uma intervenção militar que, a esta altura do campeonato, tende a descambar para um aparelhamento esquerdista muito perigoso.

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24/05/2016

Michel Temer exonerou Romero Jucá da função de Ministro do Planejamento.

Melhor que Dilma, mas não necessariamente muito melhor que Dilma.

Os próximos três ou quatro meses serão decisivos para este governo.

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A idéia de criminalizar o comunismo, como ocorre com o nazismo, é muito acertada e pertinente. E é claro que os pragmáticos de plantão vão alegar que esta providência é inócua, intempestiva, etc., com a sua supervisão de curto alcance que não enxerga além da esquina. 

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Toda e cada vez que você pretende melhorar-se de fato, algumas cascas de banana espirituais aparecem no seu caminho. Vem a velha idéia de que você nunca prestou, que está preso aos seus vícios antigos, etc., que o melhor é aceitar isso tudo de uma vez, ficar do jeito que está do que querer ser diferente, do que querer ser melhor. O diabo está sempre convicto de que você não é capaz de ser tão bom quanto pensa que é. Sempre. Esta é a razão de ser dele. Ele, um ser puramente espiritual, não pode simplesmente aceitar que alguém nascido na sujeira e na pobreza deste mundo possa ter qualidades espirituais e ser amado por Deus. Basta desafiar-se legitimamente a trilhar um caminho espiritual e ele parte para a prova de sua tese infernal. É garantido.

O segredo é não entrar nesta lógica da provação. Tudo o que podemos ter de bom deriva de Deus, sempre. Não podemos provar nenhuma qualidade inata, pois não há bem que não tenha causa próxima ou remota na bondade de Deus. Só os muito burros não percebem isso, porque a sua mente está perdida na abstração de intermediários e eles se tornaram incapazes das duas ações fundamentais para o reconhecimento do Bem: a gratidão e a adoração a Deus. Não perca o seu tempo com “provações” desta espécie: faça melhor buscando Deus. Ore, jejue, dê esmola, etc. É o que aprendemos com os melhores nesta área.

Se você quiser transformar a sua própria alma em um cenário de reality show espiritual o resultado não será nada bom. As razões das suas razões são tolas, e os segredos dos seus segredos são farsa pura.

Você já está nas mãos de Deus, e só se sente perdido porque não se deu conta disso ainda.

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Não tenho nenhum receio de falar de Deus e do diabo pela razão de que isso poderia incomodar pessoas desacostumadas com essa abordagem das coisas. Pelo contrário, a intenção é justamente acostumar a ver as coisas por este lado. Depois de anos contaminado com o cientificismo positivista ou até por um pessimismo quase niilista, posso dizer que minha linguagem é bem mais realista do que a daqueles que pecam por generalizações e abstracionismos.

Chega de se fazer concessões às modas e preconceitos modernos. Não leva a lugar nenhum. Você apenas se tolhe e se envergonha de conhecer a verdade. Nós vivemos numa época sinistra demais, onde amar a verdade se tornou um vício e entregar-se a ilusões uma virtude. Esta sociedade não tem futuro. E não vou amarrar o meu burro nela, sinto muito.

Se Deus quiser no futuro eu poderei divulgar com mais cuidado e dedicação algumas palavras dos sábios de todos os tempos a respeito disso. A superioridade da visão tradicional é devastadora.

Por ora digo apenas: os ingênuos conhecerão a verdade e os maliciosos conhecerão apenas a mentira. A sofisticação de um pensamento malicioso não o torna nem um pouco mais certo, até pelo contrário, o torna mais perigoso ainda.

Sejam inocentes! Pouca coisa é mais urgente do que isso.

Sejam inocentes!

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Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Que catástrofe é a dissolução dos costumes religiosos e a perda da transmissão dos valores tradicionais entre as gerações. As famílias sofrem, as amizades sofrem, e os efeitos destas perdas na sociedade são incalculáveis. Sozinho um indivíduo não é ninguém para lutar contra esta força dos tempos que o atropela como a uma formiga. Só mesmo a misericórdia divina pode sustentar os coitados pingados, aqui e ali, largados na sarjeta da história humana, para lhes dar alguma dignidade espiritual. Ainda há um Reino da Consciência, ainda há uma Redenção, mas os seus sinais são mais discretos do que nunca e exigem uma busca determinada para a saída desta ratoeira.

Não é de se estranhar nem um pouco que excelentes pessoas tenham buscado viver solitárias em desertos, florestas e cavernas. Lá elas voltam a enxergar o Reino.

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Será que estou muito sensível hoje?

Como é detestável uma gestão eufemística, ardilosa, insidiosa… em uma palavra: mentirosa.

Falsa. Enganadora. Omissa. Negligente.

As pessoas correm da verdade com uma naturalidade obscena.

E, agindo coletivamente como sociedade, nós institucionalizamos a mentira como se fosse uma conquista! É inacreditável!

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No dia 21 de maio passado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu uma entrevista para a Folha de S. Paulo a respeito do novo governo de Michel Temer.

Entre as idas e vindas da já conhecida mente presidencial de FHC, a folha perguntou se “o novo governo representa uma guinada conservadora”. Vejamos a resposta:

Ele nasceu no Congresso, e o Congresso hoje é mais conservador, porque a sociedade ficou mais conservadora. É importante para o PSDB não entrar nessa. Temos que ser sociais-democratas nas relações entre sociedade, mercado e Estado, e liberais no comportamento, aceitando a diversidade. Mas a sociedade não pensa assim, e tem que dar a batalha nesse sentido.”

Vejam, não é preciso fazer nenhum grande esforço para provar que os partidos socialistas são revolucionários.

Estes políticos confessam orgulhosamente que não representam a sociedade que vota neles, mas sim um não-sei-qual ideal de sociedade que deve ser imposto desde cima. Como FHC mesmo diz: “tem que dar a batalha”. A sociedade não progride, portanto, pela reflexão das suas próprias experiências e anseios reais. Não para um revolucionário. Ela deve progredir desde uma formulação externa a sua realidade, liderada por figuras que compreendem melhor o que é necessário ao povo, uma elite esclarecida, uma verdadeira aristocracia intelectual.

Não se enganem: a política pelo guiamento de um povo desde uma liderança central iluminada que ignora os anseios populares reais e empurra a sua própria agenda é aquela que levou ao poder figuras como Hitler, Stalin, etc.

Não estou me dirigindo aos esquerdistas, evidentemente, e nem aos liberais no sentido estrito, que a esta altura do campeonato considero tão esquerdistas quanto todos os outros. O que diferencia um esquerdista típico de um liberal pleno? Apenas a forma como a economia será administrada para um mesmo fim: o sepultamento definitivo das tradições, a transformação do ser humano no centro do universo, e o advento do reino da liberdade total sem nenhum fim que não ela mesma. Socialistas e liberais sonham igualmente com um negócio chamado “mundo melhor”, acreditam que o ser humano deve salvar-se a si mesmo, e que para chegar lá é necessário apenas regular o papel do Estado no meio do caminho, e divergem essencialmente apenas neste ponto. Socialistas e liberais são revolucionários. Não me dirijo, portanto, a eles.

Dirijo-me aos conservadores.

Se os adversários, como o próprio FHC, já confessam descaradamente que são inimigos e manipuladores da vontade popular, o que falta para que a população expurgue do seu ambiente político esse tipo de enfermidade é apenas o esclarecimento dos fatos através de um negócio chamado educação.

De que me adianta lutar contra cada nova loucura revolucionária que é posta para circular na praça, se eu não ataco a sua fábrica? Vocês não se lembram da batalha de Hércules contra a Hidra?

É urgente, claro, combater a ideologia de gênero, a cultura do aborto, e tudo mais de insano que sai dessa geléia revolucionária. Só que a limitação a esse escopo recolhe os conservadores ao papel reativo que não se apresenta nunca para a sociedade como alternativa política real. E deve ser!

Esta é a limitação de ser reacionário no sentido operativo. Devemos ser reacionários no sentido tradicional da coisa: não queremos a loucura das modas modernas, muito obrigado. Mas não podemos ser reacionários no modo de fazer política.

Porque FHC confessa publicamente a sua mentalidade? Porque conta, por um lado, com a cobertura hegemônica na cultura e na mídia, a mesma que já serviu para garantir a eleição de PSDB e PT diversas vezes. E conta também, por outro lado, com a inércia dos conservadores.

Vejam bem, vejam o tamanho disso: mesmo a eleição de um Congresso Nacional mais conservador não intimida nem um pouco o senhor Fernando Henrique. Por quê? Porque o campo superior, que é o da cultura e o da educação, já está tomado.

Michel Temer, por exemplo, foi pressionado a reverter a extinção do MinC em poucos dias, apesar de ter muito provavelmente a população brasileira em massa do seu lado. Como isso é possível? Ora, a força política que realizou essa pressão contra Temer é uma das ferramentas barulhentas que estão nas mãos desses grupos revolucionários como PSDB, PT, etc. E eles estão fazendo exatamente isso, estão “dando a batalha” contra a vontade popular e a favor de sua agenda.

É isso mesmo: grupos políticos revolucionários sequestraram a política e não vão abrir mão de buscar os seus objetivos por todos os meios de que dispõem.

Querer lutar contra eles com a força é ilógico por várias razões, entre as quais pela ignorância histórica de que eles próprios já testaram e já superaram essa fórmula. Não precisamos do nosso Gramsci, já temos o deles.

Neste nível nada substitui a política, que é a arte de produzir o consenso e o sentimento de normalização na sociedade. As pessoas querem isso, elas querem a paz. Ninguém quer viver em guerra. E os que provocam conflitos são mal vistos pela sociedade e pela história.

Alguém pode lutar pela justiça e ser execrado ao mesmo tempo, tornando o seu nobre esforço completamente inútil e estéril. Pode até ser uma alma salva, mas é salva sozinha. Não é possível substituir a política e, acima dela, a educação e a cultura, pela simples força das armas.

O que vem antes de tudo é a inteligência e o entendimento do que está acontecendo. Essa sabedoria é em primeiro lugar possuída por uma verdadeira elite intelectual, que está interessada em conhecer a realidade e não em transformá-la, depois é transmitida para educadores e artistas, e só depois é transmitida para lideranças políticas e militares.

O sentimento de impotência diante dos revolucionários não resultará em nada se não for convertido em determinação para trilhar, como os adversários trilharam, um longo caminho de construção sólida das bases intelectuais e culturais que possibilitem no longo prazo a formação de uma representação política concreta.

E essa determinação não levará a nada, por sua vez, se os indivíduos responsáveis por essa tomada de consciência não resolvam sacrificar-se e dedicar-se a realização deste empreendimento.

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Teria Temer tentado humilhar sutilmente o feminismo (ou talvez não tão sutilmente assim) com a idéia de criar um “Ministério da Mulher, do Idoso e de Pessoas com Deficiência”? 

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Poucas situações psicológicas são tão danosas quanto a dispersão, esse mal ao qual estamos expostos 24 horas por dia. Se você prestar atenção na sua situação real, você consegue compreender mais do que se ficar divagando em pensamentos. Se você prestar atenção na postura real das pessoas, vai compreender melhor como elas realmente são do que se tentar acertar no chute da imaginação. Se você prestar atenção em uma determinada tarefa e ganhar domínio sobre ela, vai poder impregnar-se deste controle e tornar-se uma pessoa mais forte para outras tarefas. A atenção é o começo da inteligência. É a fábrica da meditação. É o gatilho da consciência. É um pouco que fazemos, mas mais do que suficiente, abrindo a tampa do vaso de nossas mentes para que nele Deus derrube suas águas de sabedoria. 

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Ah, esqueci de registrar: quem protocolou o PL 5358/2016 de criminalização da apologia ao comunismo foi o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro.

Eleito com o meu voto.

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A banqueira Maria Silvia Bastos Marques, colocada por Temer no comando do BNDES, achou no caixa do banco 100 bilhões de reais que poderão ser devolvidos ao Tesouro Nacional. O que esse dinheiro estava fazendo lá parado? 

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O Antagonista afirma que porque Michel Temer exonerou Jucá no mesmo dia da divulgação das gravações, “ele desmente, na prática, a idéia de que o impeachment foi um golpe para melar as investigações”.

Não desmente não, meus caros. Pelo contrário, despista.

O jornalismo que não consegue separar o discurso a favor do bem prático da nação de uma análise objetiva da realidade não é confiável. Tudo tem que ser lido com cuidado. O que desmentiria a tese de comprometimento seria a não nomeação de Jucá em primeiro lugar, entre outros investigados pela Lava-Jato que por sinal ainda estão no governo.

Será que é necessário ter muitos neurônios para entender que uma mesma realidade política pode servir para resgatar a economia do país e salvar uma classe política corrupta simultaneamente?

Esse era o “acordão” de Jucá. Salvar o país e salvar a si próprios.

Digo mais: ainda é.

Ou quem vocês pensam que vão votar no Congresso Nacional as medidas de Temer? Virgens puras saídas de um convento? Anjos enviados por Deus?

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R$ 4.143.325,00

Quatro milhões, cento e quarenta e três mil, trezentos e vinte e cinco reais.

Pagos pela população como forma de apoio a “Turnê 2014” de Luan Santana.

Tá sobrando mesmo, né?

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Não sou contra o Governo Temer.

Já disse que o PMDB com corrupção e tudo é menos danoso ao país do que os revolucionários do PT e mesmo talvez do PSDB. Isto não quer dizer que a corrupção é boa.

E sustentar tudo isso não é uma incoerência, é uma tensão entre coisas reais. Apenas é preciso ter um mínimo de maturidade psicológica para aguentar isso e refletir qual é o melhor caminho, o que deve ser feito, etc. Isso não é para crianças inexperientes e nem para adultos infantilizados.

Aliás, Temer com seus 75 anos de idade deve saber disso melhor do que ninguém.

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Recapitulando uma coisa importante sobre o PMDB e o “acordão” de Jucá.

Há quem pense que os políticos estejam movidos pelo receio da pressão nas ruas mais do que pela ânsia de serem salvos da Lava-Jato, já que a operação da Justiça seria “imune” a qualquer tipo de influência externa, etc.

Mas uma coisa não é tão diferente da outra. Sergio Moro mesmo já disse que a pressão das ruas é vital para o andamento e evolução das investigações. Conceder alguma coisa para a população no âmbito da economia e da organização do governo é uma maneira (e talvez a única) de aplacar a fúria das ruas e, por isso mesmo, diminuir a vazão da Lava-Jato, permitindo que os diversos grupos de interesses voltem a se acomodar. Quase todos os políticos enrolados com a Justiça estão contando com isso: se o brasileiro voltar a ter dinheiro no bolso, ele esquece tudo isso de corrupção rapidinho. Pode até ser que eles estejam errados, mas que outra carta eles têm para jogar fora essa?

Recomendo que vocês voltem àquela entrevista de Jucá no programa Roda Viva. O político deixa muito claro que não há solução “fora da política” e isso se traduz muito claramente em “fora da nossa política”. O terror de se permitir que a disputa de poder ocorra fora do esquema montado hoje em Brasília é nítido. E os caras ainda jogam espertamente com a memória da ditadura militar –memória construída pela hegemonia da esquerda, é bom lembrar–, colocando-se a si próprios como as únicas alternativas contra o autoritarismo ditatorial.

Querem deixar a sociedade refém de um falso tertium non datur.

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“Ou se coloca Deus no centro de todas as coisas, ou não haverá restauração do Brasil”, disse Dom Bertrand de Orleans e Bragança.

Você pode não ser monarquista, mas se for cristão é difícil não concordar com ele.

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Os liberais que priorizam mais a solução da crise econômica do que da segurança pública são loucos ou moralmente desajustados.

Com o advento de uma candidatura de Bolsonaro, poderão ser também perdedores, que é só o que lhes falta para a sua completa obliteração política.

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O editorial da revista Época da última semana (“Síndrome da máquina do tempo”) diz que o Brasil é vítima de uma “síndrome da volta ao passado”, e torce para que o “Brasil moderno possa vencer o Brasil antigo”.

Do que se trata?

A observação é a de que certas conquistas foram feitas por alguns governos e depois foram perdidas pelo governo Dilma, de maneira supostamente surpreendente, repetindo o passado e reforçando uma espécie de sina maligna do país.

Mas qual é a surpresa? Vocês querem ser governados por gente ou por máquinas? Qual é a possibilidade de as instituições substituírem as decisões das lideranças políticas, que são renovadas a cada eleição?

O problema apresentado não existe. Para começar, os termos “moderno” e “antigo” devem significar muita coisa para João Gabriel de Lima (o autor do texto), mas para mim não dizem muita coisa. Ok, ele exemplifica com a estabilidade da inflação, com a LRF, etc. Mas essas coisas não foram frutos do progresso natural de uma abstração chamada “Brasil”, e sim de uma determinada vontade política impressa em reformas ocasionais que vingaram.

O problema real é a eleição de uma pessoa como Dilma Rousseff, e de um partido como o PT.

Como isso foi possível? E mais: pode acontecer de novo?

Ao fim e ao cabo, aparecerão as impressões digitais do PSDB, que foi em grande parte o autor das medidas elogiadas do passado, como o grande colaborador na dobradinha com o PT, para que fossem reconhecidas como alternativas políticas as candidaturas de Lula e de Dilma.

Em suma, o Brasil não é vítima coisa nenhuma ou, no máximo, é vítima de si mesmo.

A política não pode ser negada.

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Só o fato de ter que haver uma “Secretaria de Acompanhamento Econômico” cuja missão é “avaliar o custo e o benefício de políticas públicas” já mostra que vivemos num quase hospício.

Eu imaginei, tolamente, que essa avaliação era premissa da criação de todas as políticas públicas. Mas como eu sou ingênuo.

Boa notícia: pelo menos o recém-empossado dono da pasta sabe fazer contas, o Mansueto Almeida.

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O Ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, acha boa idéia legalizar o jogo no Brasil. O incremento em impostos pode ser de algo em torno de R$ 15 bilhões.

Parece que o PMDB está querendo montar um esquema, o que não surpreende mais ninguém, é claro. Não me refiro à corrupção direta na área, mas ao uso indireto como mecanismo de lavagem de dinheiro, especialmente nas atuais condições bizarras de ilegalidade de doações oficiais por empresas. Tem gente que acredita que isso vai acabar com as doações privadas, mas nós sabemos que elas simplesmente vão ocorrer 100% por fora. Usar o sistema da jogatina para lavagem de recursos nessas condições não é uma má idéia (para os partidos).

Eu entendo todos os argumentos pró-jogo: mais impostos, mais empregos, etc. Só que é um vício. Não tem jeito. Não sou um liberal que aprova a autodestruição da sociedade em nome do vale-tudo. Não acredito em vale-tudo. E principalmente não acredito em “vale-vício”.

Existem gradações na legalização dos vícios, que variam conforme os usos e costumes da sociedade. Nas atuais condições sociais sou contra a legalização do jogo.

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É preciso reconhecer o maior responsável pelo mérito do Plano Real de uma vez por todas: o povo brasileiro. Tudo o que era preciso fazer era confiar numa nova moeda e não aceitar a escalada de preços. Ok, o time da gestão econômica teve que trabalhar para conduzir isso e coibir alguns abusos, mas foi o povo que resolveu acreditar no fim das contas. Os políticos não fizeram mais do que a sua obrigação. Se isso é excepcional, não aumenta em nada o mérito deles. Apenas amplia, mais ainda, o demérito das várias equipes fracassadas dos outros governos.

Não falo isso por perseguição ao PSDB ou particularmente ao FHC. Se você perguntar os caras vão dizer isso mesmo: podia dar errado, mas o povo fez dar certo.

Deve chegar uma hora em que a população simplesmente não aguenta mais. Tomara que esse dia chegue para o movimento revolucionário instalado na mídia, na política, na educação, etc. Mas é claro que vai dar mais trabalho e, em especial, vai requerer uma liderança forte, persistente, bem preparada. É coisa para mais de dez anos.

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25/05/2016

O Antagonista continua bajulando o governo Temer.

A reclamação dos leitores é grande. Perderão a confiabilidade conquistada?

Porque se é para ter o trabalho de interpretar o viés das notícias, nós já temos a Veja, a Folha, o Estado, etc. Não precisamos de mais uma esfinge na imprensa.

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Reinaldo Azevedo ataca novamente.

Como já disse, é um homem com uma missão.

Repete a tática esquerdista fundamental: acusar os outros daquilo que se faz.

Seu último texto se chama “Quem paga Olavo de Carvalho para ele atacar expoentes da tese pró-impeachment?”.

Erra descabidamente. Olavo não “ataca” expoentes de coisa nenhuma. Analisa as coisas e atribui as responsabilidades às figuras públicas seguindo uma lógica causal absolutamente normal. E é financiado por milhares de leitores e de alunos que o acompanham ao longo de anos.

Reinaldo, por sua vez, é um analista realmente isento ou está a serviço de algumas potestades políticas que financiam seus ataques contra a direita verdadeiramente conservadora?

Sim, os empregadores de Reinaldo são conhecidos e este mesmo é o problema: é a grande mídia.

Seguindo a lógica reinaldiana até o fim um autor bancado pelo establishment seria mais confiável do que um autor independente sustentado apenas pela sua base de leitores e alunos. Mas Reinaldo não pode aceitar esses termos, é claro. Porque fica evidente, por essa linha, que ele tem muito maiores chances de ser comprometido do que Olavo. E por isso apela ao recurso insustentável de lançar suspeição a respeito da sustentação financeira de Olavo, como já fizeram alguns críticos sem nenhuma credibilidade.

Qual será o próximo passo? Falar de uma conspiração da CIA, do Mossad, etc.?

De novo indago: quem é Reinaldo sem uma Veja, uma Jovem Pan, uma Folha de S. Paulo?

Olavo, por sua vez, mesmo tendo sido perseguido e excluído da grande mídia há mais de década atrás, continua influente simplesmente pela qualidade da sua obra.

Reinaldo faz troça do anticomunismo quase como um esquerdista. Mas não realiza uma crítica com argumentos sólidos para desqualificar de fato a pesquisa de Olavo sobre o movimento revolucionário. E não o faz porque não o pode fazer. O máximo que consegue produzir é uma crítica contemporânea mais superficial que cerca apenas o tema do impeachment, e o faz certamente com o intuito de jogar o recém surgido movimento de direita das ruas para que fique a favor das instituições da Nova República e das forças políticas atuais contra um suposto conspiracionismo paranóico de Olavo.

Do jeito que a coisa anda não demorará muito para Reinaldo condenar publicamente todo conservadorismo que saia do âmbito estritamente cultural e entre no campo da disputa política. E isto é exatamente o que o PSDB, Rede, PSOL, PT, etc. etc. querem. O surgimento de uma força política realmente antagônica ao esquema revolucionário e progressista é intolerável e inconcebível. Nós provavelmente estamos presenciando uma antecipação no campo cultural do que será a discussão política por volta de 2018. Infelizmente quando digo “cultural” isso não quer dizer uma discussão esclarecida e embasada nas idéias, mas tão somente a propaganda e o proselitismo.

Aliás, foi assim que começou esse rolo todo entre Reinaldo e Olavo: este convidou aquele para uma discussão mais aprofundada da questão política, e foi respondido com uma recusa, com acusações, etc. Ali as regras do jogo já ficaram claras.

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Não digo que seja 100%, mas algo em torno de 95% das opiniões esclarecidas da nossa época, no Ocidente, são emitidas por pessoas amarguradas que nunca viram uma boa ação de verdade em todas as suas porcas vidas. E elas querem nos arrastar junto com o seu ressentimento!

Meu barbeiro estava certo, dia desses, quando comentou comigo enquanto cortava o meu cabelo: “ensino de humanas é uma merda, não serve para nada”. Ele tem razão. A Coréia do Sul, há trinta anos atrás, era mais ou menos igual ao Brasil em termos econômicos, renda per capita, etc. Mas os caras ensinaram matemática e engenharia para as novas gerações, enquanto nós ensinamos “humanas”. Resultado: nós exportamos soja e minério e importamos carros, televisões, computadores, etc. O ensino de humanas não serve para nada.

Eu completaria: serve sim, para nos deixar deprimidos.

O papel legítimo de ensinar as “ciências humanas” cabe à tradição religiosa e filosófica do Ocidente, que praticamente ninguém mais quer ler, estudar ou entender. A usurpação dessa legitimidade por gente desqualificada (sobretudo moralmente) explica grande parte da nossa decadência nos últimos séculos.

Se cabe alguma crítica à ultima geração da Escolástica, é a de não conseguir segurar a onda na Contra-Reforma. Mas já estou indo longe demais, isso é assunto para outra reflexão.

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Não sou nenhum entusiasta do desenvolvimentismo econômico, devo deixar isso claro. Mas não recuso a prosperidade da nação, como se isso fosse contrário à natureza do ser humano e de sua vida em sociedade. Há um equilíbrio a ser aprendido aí. E ele vai começar –ou ao menos começaria um dia, em tese– quando a Igreja Católica condenar explicitamente o conceito de justiça social e passar a pregar a Caridade no seu sentido tradicional e com todas as forças. Já escrevi sobre isso antes. 

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O Helio Gurovitz lembra que entre os movimentos de “disrupção” tecnológica podem ser contabilizados os sistemas de remuneração de tráfego de Google e Facebook, contra o jornalismo convencional. Algumas pessoas ainda torcem o nariz para isso, como se o jornalismo tivesse algum tipo de privilégio ancestral. Não tem. O tráfego online é gerado pela qualidade relativa do conteúdo. Se os nossos leitores da internet não são exigentes, eles não o serão mais como consumidores do jornalismo do que o são com o conteúdo criado livremente na rede de computadores. Isso me lembra a ladainha do Umberto Eco a respeito do mesmo assunto. Inevitavelmente, com o tempo, o jornalismo será arrastado para a mensuração dos veículos online e terá que dançar conforme a música. Jornais e revistas impressos continuarão existindo, mas não terão a mesma resiliência que os livros têm em relação às suas versões digitais. 

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Dizem que a Malu Mader vai fazer 50 anos de idade, mas eu não acredito. 

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Galen Strawson, professor de filosofia, escreve na Veja (“Não é mistério, é matéria”) um endosso a Bertand Russell ao afirmar que “a experiência da consciência humana é uma questão de acontecimentos corporais, particularmente no cérebro”.

Afirma que o nosso problema é assumir que desconhecemos ainda a natureza da matéria, e que só por isso temos a dificuldade de aceitar que a consciência tenha uma substância material. A fronteira da pesquisa científica, portanto, não estaria em conhecer a natureza da consciência, mas a natureza dos fenômenos físicos.

Eu até acho que ele poderia ter razão de algum modo, muito embora a solução física da consciência não será alcançada pela ciência. Ele poderia ter razão porque nós não conhecemos mesmo, no fim das contas, a realidade fundamental e definitiva do fenômeno da consciência. Mas o senhor Strawson carrega uma sacola de premissas que eu não me obrigarei jamais a carregar.

Ele dá por pressuposto que a tese de Russell está provada, e nós temos que simplesmente aceitar isso sem mais nem menos. Eu não aceito.

Por outro lado, cria esse tertium non datur da natureza da consciência vs. natureza da matéria, como se isso também fosse obrigatório. Isto é apenas um interesse menor de uma determinada linha de pesquisa científica positivista-cientificista moderna, que se acha o centro do universo (e nisso é ajudada pela divulgação na mídia, como faz a própria Veja). Eu posso muito bem ignorar isso e ficar com pesquisas muito mais relevantes existencialmente.

Nós sabemos o que esses caras querem. Eles querem eliminar o fenômeno moral. O que é a moral? É uma realidade espiritual, invisível, mas que apesar disso é bastante real. Se um dia um celerado desses conseguisse provar a causa perfeitamente física da consciência humana como um evento causal qualquer, estaria abolida a noção de uma ordem moral transcendente objetiva. Seria uma demonstração parcial de Kant, de certo modo, e uma entronização da salvação do homem por ele mesmo, a abolição da religião, etc.

É um fetiche.

É como a ânsia da descoberta de vida extraterrestre, que tem mais ou menos com a mesma finalidade. Esses caras são tarados para sepultar a cosmovisão tradicional de uma vez por todas, mas está difícil.

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Eu vejo uma foto recente do Cauby Peixoto e –Deus me livre– me lembro do Leatherface do filme O Massacre da Serra Elétrica. 

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27/05/2016

Talvez eu esteja com caxumba. Não sei. Como eu estou muito gordo, o inchaço não é tão evidente. É como no caso do Heráclito Fortes, apenas menos grave: quando a sua cabeça já é rechonchuda demais, fica meio difícil dizer.

Teoricamente eu não poderia ter, pois tomei todas as doses da vacina tríplice viral. Mas, como sabemos, a única verdadeira garantia de sucesso de uma campanha de vacinação no Brasil é a do lucro com a licitação do Ministério da Saúde.

É como aquela piada: “vá pelo menos duas vezes por ano ao dentista. Se não fizer bem para você, vai fazer bem para ele.”

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Olavo deu a devida surra no Reinaldo Azevedo ontem. Não precisou construir uma peça literária como na série “O Homem do Mim” (sobre um cidadão também conhecido como “Rodericus Constantinus Grammaticus“). Seja por falta de tempo ou de paciência, montou tão somente um documento demolidor de 76 páginas chamado “Cronologia da Minha Discussão com Reinaldo Azevedo”, onde fica comprovada a má fé abundante do sr. Reinaldo, bem como a escalada do seu ímpeto beligerante em trajetória diretamente proporcional a da derrocada do PT. 

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Vou fazer um comentário mais íntimo agora. Vocês merecem, meus queridos. Quem chegou até aqui merece.

A última vez que visualizei seriamente uma mulher como minha esposa, mãe de meus pirralhos, foi em 2000, ou 2001. Faz, portanto, cerca de uns 15 anos. O nome dela era Ingrid. Era do Rio de Janeiro. Ruiva, vejam só que coisa mais inusitada. Na verdade, meio ruiva e meio loira. Só vi em foto. Escrevemos algumas mensagens e nos falamos algumas vezes. Era uma dama.

Uma dama gentil, educada, bela e rica. O que mais se pode querer sob a face da Terra? Eu imaginava tudo o que tinha direito: uma grande casa de campo com muitos filhos espalhados por todos os lados. A cada manhã um novo belo dia, etc.

Era meio louquinha, a Ingrid. Mas tinha um inexplicável respeito por mim. Não fiz absolutamente nada para merecer isso, só fui eu mesmo. Mas ela me escrevia e me falava como se eu fosse um lorde, um nobre de grande dignidade. Durou pouco isso, mas foi uma maravilha. A mulher que faz seu marido se sentir um rei se torna rainha.

Era uma dama.

De lá para cá não vi mais dama nenhuma que fosse viva e solteira ao mesmo tempo, ou seja, disponível. Pode ser que eu tenha ficado meio distraído também, é verdade, mas não vi nada espetacular.

Onde estão as damas?

Vi vulgaridade, vi frescura e vi frieza.

Há um estoque ainda razoável de feminilidade, mas se você tirar daí o que é vulgar e o que é frescura, o que sobra? Sobra a mulher moderna pós-feminismo: o melhor amigo do homem depois do cachorro.

As melhores amigas que um homem pode ter são quase homens elas mesmas, frias como uma geleira da Sibéria. Servem para tudo o que você quiser no mundo, e servem até melhor que o homem. Mas servem para casar? Eu não sei. Não quero uma carrasca, uma governanta de campo de concentração. Não, muito obrigado.

O feminismo foi uma catástrofe. Causou e causa o sofrimento de milhões de mulheres que sentem que precisam provar alguma coisa. Uma mulher não pode simplesmente cuidar do lar e das crianças, e viver isso até como um privilégio exclusivo seu. Não, isso agora é um rebaixamento para as mentes iluminadas. Mas quem está perdendo com isso, realmente? Será que são os homens? Outro dia o Trump disse isso, e é claro que acharam um escândalo, de um machismo imperdoável: “eu gosto de contratar mulheres porque elas sempre estão querendo provar alguma coisa”. O feminismo causa esse sofrimento para as mulheres. Bem como o de muitos homens que se perderam nos vícios da própria vulgaridade da época, e de mais tantos outros que se afeminaram por falta da presença de mulheres dispostas a serem protegidas. Parabéns, filhos do mundo moderno, vocês estão conseguindo destruir a espécie. Estará tão longe assim a última geração do mundo? Sim e não. Sim, a deste Ocidente decadente. Não a do Oriente islâmico que vai habitar a Terra. É, como já se disse, “o plano B de Deus”.

Mas divago. Sou quase um padre a esta altura do campeonato, portanto falo daquilo que não entendo muito na prática. Me apaixonei algumas vezes, mas essas coisas não contam. Paixão só serve para fazermos cagadas e, às vezes, alguns filhos.

A coisa mais gostosa que posso fazer sobre esse tema é sonhar, sem nenhum lastro na realidade, com a casona de campo, com a senhora Dona Ingrid ao meu lado, e com as pencas de filhos pendurados na gente. Quem sabe numa outra vida?

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No Brasil só há liderança reconhecida no setor econômico, figuras moralmente decrépitas como Eike Batista, André Esteves, Marcelo Odebrecht e outros ainda a ser revelados. Eles enchem o rabo de dinheiro e ainda se aliam com os revolucionários num consórcio fascista. A única virtude louvada no Brasil é a capacidade de se dar bem na vida.

O Brasil não merece dar certo. “Aquele que quiser se salvar se perderá.”

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Finalizei as simulações de governo com todos os países no jogo “Democracy 3”, o qual eu recomendo muito como ferramenta educativa. Existem alguns países extras (“MODs”) jogáveis mas eu só usei os que vieram com o jogo básico, que são: Austrália, Alemanha, França, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

A França e o Canadá são insuportavelmente esquerdistas, especialmente o Canadá. A Alemanha também não é fácil. Com os Estados Unidos é mais simples fazer o que precisa ser feito, a população não enche muito o saco.

Nos primeiros fracassos, eu persistia em fazer políticas do meu jeito. Fui assassinado várias vezes. Cansei. Com o tempo aprendi a manobrar o desejo do povo com coisas baratas e relativamente inofensivas para ganhar tempo e reeleições (a política de “food stamps“, por exemplo, que é o bolsa família anglo-saxão, é uma ótima pedida) enquanto eu arrumava paralelamente o orçamento.

Coisas garantidas que eu fazia na administração de todos os governos, mesmo nos encardidos da França e do Canadá, e que davam certo inescapavelmente: 1) uma brutal reforma trabalhista “pro-employer”, que gerava epidemias esporádicas de estresse, mas geravam uma produtividade excelente, consistente e de longo prazo; 2) investimento ao máximo em forças policiais e serviços de inteligência; 3) proibição da prostituição e do jogo legalizado (apenas nos países que permitiam essas atividades, obviamente) para coibir o crime organizado; 4) subsídios estatais generosos para o setor de tecnologia e para a educação técnica e científica (este talvez seja o único ponto em que eu concorde integralmente com o Ciro Gomes, a respeito do Estado como subsidiador e financiador da inovação tecnológica); 5) serviço de vigilância de fronteiras e de imigração de primeira qualidade, com escaneamento de retinas.

Resolvido o problema da dívida pública com uma economia mais próspera, eu finalmente investia pesado nos problemas mais sérios do país e então fazia drásticas reduções de impostos para o comércio e investimento (sales tax e corporate tax), o que por sua vez garantia uma solidez da performance econômica resistente aos ciclos de retração e carestia. É infalível.

Como dizia o Sarney: governo é como violino, você pega com a esquerda e toca com a direita.

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Falando em Sarney, as coisas não vão nada bem para ele. Supondo Lula e Sarney na cadeia, ou sendo devidamente enquadrados nas formas mais rigorosas da Lei conforme as suas culpas concretas, só faltará um ex-presidente ser coletado pela Lava-Jato para termos a satisfação do sepultamento da Nova República: Fernando Henrique Cardoso.

Ah, como vai ter choradeira se chegarem até o FHC. Serão as carpideiras da Nova República, lamentando a morte do seu projeto. “O Brasil falhou, deu tudo errado, não é possível”, etc.

Para a nossa alegria.

Nós, conservadores, vamos ser as pessoas mais alegres que já compareceram a um velório em toda a história. Brindaremos com copos cheios das lágrimas dos nossos inimigos.

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A Folha de S. Paulo (leia-se: PT) segue no projeto de desmoralização do impeachment.

Acusa o MBL, Movimento Brasil Livre, de ter recebido ajuda de partidos como PMDB e DEM, não só em estrutura e em logística, mas até com dinheiro para imprimir panfletos (recursos que teriam vindo do PMDB). Esses panfletos diziam, ironicamente, que “o impeachment é nosso”, ou seja, seria do MBL e não do PMDB do Eduardo Cunha. É tragicômico. Mas não é uma surpresa de maneira nenhuma.

Tem um ditado que diz: quem dorme com uma prostituta acorda ao lado de uma prostituta.

Esse tipo de exposição só ocorre porque os movimentos de rua se aliaram com alguns partidos políticos para atingir os seus fins.

Se fosse um movimento exclusivamente popular, não ocorreria isso. Uma coisa é você dizer que é obrigado, institucionalmente, a protocolar o pedido de impedimento com o Presidente da Câmara dos Deputados, que era no caso o sinistro Eduardo Cunha. Outra coisa é você abraçar o PMDB, o PSDB, etc., como se essas forças políticas não fizessem parte do problema, como se não tivessem sido parceiros do PT nesses últimos treze anos.

Os votos da maioria do Congresso no processo de impeachment, pelo que saiu das gravações daquele chantagista da Transpetro com Renan Calheiros, Sarney, Romero Jucá, etc., vieram mais de um acordão para tentar conter a fúria popular com o sacrifício do “boi de piranha” chamado Dilma Rousseff do que de uma pressão esmagadora das ruas. Esta é a percepção de muitas pessoas no momento: as ruas queriam sangue e a classe política viu nisso uma oportunidade para sobreviver entregando a cabeça de Dilma.

Se o MBL tivesse sido representante da população contra toda a classe política que foi cúmplice e comparsa do PT, não só nós poderíamos ter o impedimento de Dilma, mas a execração pública de todas as figuras públicas presidenciáveis de PMDB, PSDB, etc.

O MBL poderia muito bem ter dito aos líderes da “oposição”, como as lideranças civis da Euromaidan ucraniana fizeram: vocês são criminosos e traidores da nação.

Atenção. Os líderes de PMDB e de PSDB, junto com os líderes de PT, PSOL, Rede, PCdoB, etc., são isso mesmo: criminosos e traidores da pátria. Não merecem nada além de um sincero repúdio e da completa exclusão da atividade política pelo resto de suas porcas vidas.

O PT obviamente contra-ataca. E como o PT deve ser completamente detonado pela Lava-Jato, é o caso mesmo de torcermos para que PMDB e PSDB caiam junto e sejam enterrados na mesma cova. Economizamos até as velas e os lenços no velório.

Os movimentos de rua não têm que conversar com a canalha política. Aliás, nunca deveriam ter feito isso. Eles têm que ir para a porta do STF e mobilizar milhões junto consigo, porque aquele tribunal é o que realmente tem em suas mãos o futuro do país: a condenação de todos os criminosos e traidores da pátria. Os ministros do STF têm que pensar o seguinte: se não fizermos a justiça que esses milhões estão pedindo na nossa porta, nós vamos para a lata do lixo junto com os outros.

As velhas raposas políticas convenceram as jovens lideranças de que eles eram a única possibilidade de garantia da estabilidade institucional do país. É inacreditável: eles são partícipes dos crimes do PT! Foi um truque sórdido.

O país pode perfeitamente ser administrado por uma tecnocracia, enquanto o imbróglio político é resolvido e depurado, o que aliás, note-se, é o que está acontecendo hoje. Quem governa os negócios do país, atualmente? Michel Temer? Não. É Henrique Meirelles, Ilan Goldfajn, Mansueto Almeida, etc. É uma tecnocracia administrativa competente.

As lideranças da maioria dos partidos políticos (não falo dos quadros internos, evidentemente) são compostas de chantagistas inescrupulosos, e nada mais do que isso. Nunca deveriam ter sido confiadas como partícipes da solução da crise política.

Esse rolo só dá mais chances de desmoralização para o impeachment, o que nos leva a uma terrível possibilidade, que é a de um novo acordo das lideranças partidárias para voltar com Dilma Rousseff como fiadora da proteção institucional das carreiras desses gângsteres todos. A que ponto nós chegamos, de correr esse risco?

É claro que aí a hora será de ir às ruas novamente e, espero eu, com a devida precaução de não se fazer mais acordos com o diabo.

Eu ainda acho que a Lava-Jato de Moro, com PF, MPF e PGR, podem muito bem enquadrar todo mundo de tal forma que restará apenas ao STF cumprir a sua parte, se for devidamente pressionado. E com isso teremos, se Deus quiser, a queda de todos esses titãs malignos da política nacional.

Deus ajude e guarde o Juiz Sérgio Moro e a República de Curitiba, a única coisa da qual o capo de tutti i capi, Lula, confessou que tem realmente medo.

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O MBL ainda não se pronunciou sobre a acusação feita pela Folha de S. Paulo. É inacreditável. Postei uma mensagem no Facebook do movimento:

Vocês não têm um comitê de crise? Precisam se pronunciar. Está demorando muito e isso só piora a situação. Só uma pergunta: os tais panfletos foram pagos pelo PMDB mesmo? Vocês confirmam isso? Se foi, por um acaso foi pago com dinheiro da Petrobras ou de outro propinoduto qualquer que financia o partido? Vocês sabem qual é a origem dos recursos do caixa do PMDB? Por um minuto se preocuparam com essa questão? Só isso, obrigado.”

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O Antagonista acha que o MBL deveria ter recebido mais dinheiro do PMDB.

É inacreditável.

Será que o dia de hoje está realmente acontecendo, ou é um sonho? Se for de verdade, então é Deus “aprontando de novo”, revelando todas as coisas que ocorrem debaixo do Céu, sem dó nem piedade dos farsantes.

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Ah, O Antagonista apagou o post. Miseráveis. Eu deveria ter printado aquela porcaria. Já os questionei em outro artigo, e obviamente não serei respondido.

A internet está em polvorosa. A fabricação de artigos, explicações e argumentos transcorre em ritmo frenético.

De certa forma é para mim um alívio escrever em um diário que só será publicado no fim do ano, quando tudo isso já será história velha.

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Voltou a ficar online o artigo “Faltou ajuda”, de O Antagonista.

Já está devidamente printado para a posteridade.

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Agora foi a página do MBL no Facebook que apagou uma postagem anterior que estava carregada com mais de dois mil comentários, em grande parte negativos.

Assim fica difícil ter credibilidade, meus caros.

Pelo menos já publicaram a sua defesa. Vou ler, refletir e comentar mais tarde com calma. Bem como um artigo de O Reacionário que estão divulgando, chamado “Como o UOL e a Folha tentam criminalizar o MBL distorcendo fatos”.

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Meu inchaço é de caxumba mesmo, não é possível que seja normal isso. O lado esquerdo do meu já natural gordo papo está se expandindo gloriosamente. Agora eu entendo uma dor de cabeça infernal que tive uns dois dias atrás.

Má notícia para a minha dieta: quem tem caxumba tem que comer muito bem e ficar em repouso absoluto, porque não há remédio para esse vírus. Em resumo, serei vítima de uma precaução adiposa e sedentaríssima. Realmente ainda não é o meu momento de perder peso. Já tinha chegado em 109 quilos. Que coisa, né? Quando não é para ser, não é.

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Esqueci de mencionar, no time da tecnocracia administrativa, a Maria Silvia Bastos Marques, nova banqueira do BNDES. Outro nome de peso que ajuda a segurar a onda quanto a Lava-Jato passa Brasília a limpo. Será tão difícil fazer uma coisa dessas? Não, mas todo mundo acharia um golpe, exceto a Marina Silva, que está quietinha esperando para dar o seu bote. Mas nós já marcamos a Rede, não tem jeito não, dona Marina, santinha do pau oco. 

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Eu tinha dito que a cereja do bolo de merda que o PT serviu ao país seria uma série de apagões. Estes não ocorreram, porém, porque o PIB caiu mais do que qualquer um imaginava que poderia cair. Com o PIB em queda cai junto a demanda de energia, e o sistema elétrico ficou aliviado.

Seria de se pensar que a administração pública aproveitaria esse fôlego para organizar o sistema, certo?

Sim, mas aqui é o Brasil, tolinhos. Eis a nossa situação.

Se o país alcançar nos próximos anos um crescimento de 2% do PIB, isto pode ser fatal e gerar os famosos apagões. Desde 2012 há um descompasso entre o ritmo dos leilões de geração e os de transmissão de energia (os chamados “linhões”). O sistema elétrico funciona em três partes de simples entendimento: há a geração, a transmissão e a distribuição. A geração produz a energia, a transmissão leva essa carga das usinas até as distribuidoras, e essas por fim vendem ao consumidor final, as indústrias, empresas em geral, e as famílias. É evidente que o governo e a agência reguladora, que no caso é a ANEEL, têm a responsabilidade básica de fazer essas três partes funcionarem e crescerem em harmonia. Ainda assim, no Brasil, tudo tem um jeitinho especial de ser.

O Brasil para virar uma merda ainda tem que melhorar muito. A partir do ano que vem, 2017, o país vai gerar mais energia do que será capaz de transmitir. Sim, é isso mesmo. Gastaram-se bilhões com usinas que vão gerar uma energia que será levada do nada ao famoso lugar nenhum. Mais ainda, estima-se que 3/4 dos ativos da rede de transmissão já instalada estejam depreciados, ou seja, carecendo de investimentos de manutenção para não falharem. Sim, é isso mesmo, 75%.

E, lembrem-se, tudo isso com o país sob o comando da “gerentona” Dilma Rousseff, especialista em energia. E não adianta nem falar em causas de longo prazo. Dilma era Ministra da Casa Civil de Lula e, antes disso, adivinhem? Ministra de Minas e Energia.

Dilma é uma mulher de causas e efeitos retardados. Será uma figura certamente inesquecível para todos nós.

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Meu interesse pelas Olimpíadas do Rio de Janeiro é igual a zero.

Prefiro fazer palavras cruzadas do que pensar nas Olimpíadas.

E sem querer ser chato, um país que tem apenas 50% dos seus lares cobertos pela rede de saneamento básico (água tratada encanada e escoamento de esgoto) não deveria gastar um centavo com esportes. Deveria haver uma lei dizendo assim: enquanto todo mundo não tiver privada para cagar está proibido o gasto de dinheiro público para comprar uma bola de gude que seja.

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30/05/2016

Peguei caxumba de fato. Cada vez que você precisa comer é um tormento. Parece que está mastigando um rolo de arame farpado.

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Li aquele artigo de O Reacionário em defesa do MBL, e o próprio texto do movimento na sua página do Facebook. Esperava mais. Há a identificação da Folha de S. Paulo como uma entidade favorável ao petismo, o que não é nenhuma novidade. Eles esperavam o que exatamente deste jornal, neutralidade política? Na questão que para mim pareceu fundamental, do dinheiro dado pelo PMDB, a defesa diz que não há denúncia nenhuma, visto que era público e notório que os movimentos envolveram os partidos políticos para avançar com o impeachment. Reclamaram, aliás, de não terem recebido mais ajuda.

Parece que há um pouco de lama na água. Senão vejamos. A repetida tese de que os movimentos de rua empurraram os partidos para que esses aderissem ao impeachment serve a explicação de que não há serviços prestados pelos movimentos aos partidos e, consequentemente, para a classe política, mas ao contrário, estes políticos é que serviram a uma pressão das ruas, canalizada pelos movimentos.

Isto estaria ótimo, e estaria perfeitamente explicado que PSDB, PMDB, DEM, etc. mobilizassem as suas respectivas militâncias para apoiar o impeachment junto aos movimentos de rua. O que a Folha de S. Paulo disse foi que os partidos deram apoio material aos movimentos de rua e, especialmente no caso do PMDB, dinheiro. Isso muda um pouco as coisas. Você aceitaria um centavo do PMDB, para o que quer que seja? Acha que um movimento de rua, apartidário ou suprapartidário, deveria aceitar um centavo de um partido como o PMDB? Eis a questão. O MBL afirma que esse apoio partidário foi ínfimo, dinheiro de pinga, digamos assim. Esses argumentos todos são atenuantes razoáveis, mas não resolvem o problema.

O problema foi que quando o primeiro picareta peemedebista ofereceu um clipe de papel como ajuda, dever-se-ia ter-lhe respondido o seguinte: “cumpra o seu dever, ajude o impeachment e não nos encha o saco, não queremos conversa com cúmplices dos petistas.” Que fique claro: o descalabro que acomete o país hoje, politicamente, institucionalmente e economicamente tem como origem a participação profunda de PMDB e também de PSDB junto ao PT, seja com cumplicidade direta, seja com negligência e omissão no papel de oposição.

Dar mole para uma parte dessa classe política para garantir o fim do governo petista é a crítica que muitos fazem ao MBL e outros movimentos. Tudo o que era preciso para agravar essa desconfiança era esse envolvimento delatado pela Folha de S. Paulo, relacionado com o PMDB.

Não era para ter pedido e nem recebido ajuda de partido nenhum. Muito menos afirmar que “podiam ter ajudado mais”. Quem pediu o impeachment foi o povo brasileiro nas ruas aos milhões e milhões. Tinha gente até no lustre. O que esses calhordas nojentos da classe política fizeram foi uma curva de 180 graus para que parecesse que estavam com o povo desde sempre. Mudaram no último minuto, da maneira mais oportunista e sórdida possível. Quem, aliás, está mancomunado com o petismo que move um órgão como a Folha de S. Paulo hoje para tramar o retorno de Dilma Rousseff e do PT? Não é o PMDB, porca miséria? De que grupo social poderão vir eventualmente os votos favoráveis a Dilma no julgamento final do processo no Senado? Das carmelitas descalças ou desta mesma classe política, dessa gente que “deveria ter ajudado muito mais”?

Isso não bate muito. Não bate com o sentimento popular de repulsa e quase de ódio aos partidos políticos em geral e, principalmente, não bate com a linha de ação da Lava-Jato. A Justiça pegou praticamente todos os grandes partidos metidos em sociedades nesse consórcio criminoso do PT. O único grande que parece que ainda falta pegar é o PSDB, e somente por enquanto.

Repito: quem não dorme com prostituta não acorda com prostituta.

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31/05/2016

Todo mundo que te liga sabendo que você está com caxumba diz: “cuidado, hein, para não descer”. Não há nada que um homem possa fazer para evitar que a caxumba “desça”, então eu não sei por que continuo ouvindo isso. O vírus faz o que ele quiser com o seu corpo, fica passeando ao seu bel prazer, e pode decidir “descer” quando bem entender. Mas obrigado por lembrarem.

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Eu fico pensando comigo que há uma certa deficiência na apologética católica contemporânea, quando se fala muito de sofrimento e da aceitação das nossas cruzes, o que eu entendo perfeitamente, mas se fala pouco da alegria de ser cristão, nesta e na outra vida.

Se você disser aos jovens que eles têm que se preparar para comer o pão que o diabo amassou, que vão apanhar e vão ter que sacrificar tudo de bom que eles conhecem, para que sejam salvos e, portanto, vivam uma vida eterna que ninguém sabe exatamente como vai funcionar e que ninguém quer falar a respeito, estes jovens têm todo o direito de especular se eles estão sendo convidados para entrar na Igreja ou num clube de masoquismo.

A felicidade de ser cristão, especialmente a de ser católico, é imediata e preenche toda a nossa vida, bem como indica uma felicidade maior ainda na outra vida, a qual podemos esperar seguramente. Só que você não consegue transmitir isso da boca para fora, sendo uma pessoa amargurada. A Igreja precisa de santos, em outras palavras, de pessoas maximamente livres e felizes.

Foi como disse o então Cardeal Ratzinger uma vez:

É impressionante comparar a maré de conversões através de Padre Pio com o catastrófico fracasso da catequese moderna.”

É a diferença entre a vida e a morte, literalmente.

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Há uma expansão sincronizada de páginas e de artigos contra Olavo nas redes sociais agregando mais ou menos a mesma clientela de sempre. A principal obra de Olavo, no entanto, está fora e é independente da internet, prossegue em andamento silencioso e vai gerar seus maiores efeitos no longo prazo. Se os seus detratores tivessem noção, nem perderiam o seu tempo. Nem o assassinato de Olavo de Carvalho a esta altura mudaria em nada o ritmo das coisas. 

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01/06/2016

Chega o mês de Junho e, com ele, o fim da primeira metade de 2016.

Acabei de descobrir que o Itaú Cultural recebeu R$ 15 milhões pela Lei Rouanet no ano passado.

Ou seja, R$ 15 milhões de dinheiro que era para o governo usar para instalar esgoto em Catolé do Rocha foi destinado a uma instituição inócua, para não dizer inútil, enquanto em certas partes do país tem gente sem privada para cagar. É o Brasil.

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06/06/2016

Os longos soluços dos violinos do outono ferem o meu coração com um langor monótono.

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Já passou a fase do “molho” por causa da caxumba. Rotina normal agora. 

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Se o New York Times está de fato contra o governo Temer, ao qual deu o “prêmio” de governo mais corrupto, etc., isto traz muitos pontos favoráveis ao Presidente interino. O NYT é uma instituição contratada do globalismo, como o Sean Penn ou o Greenpeace. Quando ataca o governo de um determinado político é porque provavelmente este está trabalhando mais na representação dos interesses nacionais do que na agenda globalista. Ponto para Temer. Ele aparentemente se distancia, assim, das sombras do Clube de Roma, do Diálogo Interamericano, do Foro de São Paulo, etc. Aparentemente. Ninguém deve ser tolo de tirar maiores conclusões a partir dessas parcas sinalizações. 

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Apesar de eu não merecer, Deus está me metralhando com graças hoje. Várias boas notícias e a possibilidade crescente de, quem sabe, uma vida mais pacífica lá adiante. Estou muito grato. Perdoem a tosquice da expressão, mas Deus é “imperdível”. Não deixem de rezar, de pedir e de agradecer, sempre. Larguem as suas obsessões e sejam focados e sedentos por Deus o tempo todo. O resto da sua vida vai deslanchar naturalmente, porque essa é a nossa “programação eterna”. O principal programa do canal espiritual se chama “Primeiro Mandamento”, não percam isso de jeito nenhum. O resto vem por consequência. 

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07/06/2016

O Antagonista diz que ninguém barra a Lava-Jato.

No outro dia, diz que Rodrigo Janot vai barrar a Lava-Jato.

Decidam-se, meus caros.

Para mim a credibilidade desse jornal eletrônico é cada vez menor. Eles confessam duas coisas que são mortais na ocupação jornalística: veiculam hipóteses abertamente embora muitas vezes não saibam realmente o que está acontecendo a respeito do que falam, e fazem uma torcida descarada para determinados desfechos na agenda política, atrapalhando assim a olhos vistos o juízo real dos fatos.

Eu penso que Diogo Mainardi vai muito melhor como cronista solitário, a esta altura do campeonato, do que como colaborador desse projeto. Dos outros eu não sei dizer, pois não me interessam. Literatura é muito mais importante do que jornalismo, dentro de uma perspectiva cultural mais ampla. Se O Antagonista abandonar o diferencial impactante de ter mais credibilidade que a grande mídia, e a função correlata de media watch, não servirá para mais nada.

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09/06/2016

Enquanto não se entender o que é o primado da realidade na filosofia de Olavo de Carvalho será impossível “discutir as ideias” deste pensador. O ser humano em geral é um escravo ou um refém miserável de concepções enganosas da vida e do mundo, por causa da linguagem e de um consequente nominalismo, por causa da nossa capacidade criativa, da nossa credulidade, da nossa obsessão por ordem e controle, e o nosso medo terrível do que é desconhecido e imensurável. A pior coisa que se pode fazer mentalmente é buscar e enfiar convicções definitivas na cabeça a respeito de todas as coisas o tempo todo, justamente porque nós temos uma capacidade ilimitada de inventar ilusões que culminam no nosso próprio aprisionamento. O que é o primado da realidade? É a substituição do arbítrio mental pela contemplação: a verdade existe, mas ela não é um produto da minha mente e nem mesmo está localizada nela, seu lugar é a própria realidade que habitamos e a qual podemos, se quisermos, conhecer efetivamente. A função primordial de uma mente sadia é a reflexão sobre os fatos, posterior necessariamente à sua aceitação e ao reconhecimento de sua prioridade diante de nossas preferências pessoais. A criatividade mental é posterior e de qualidade totalmente dependente do aporte de consciência da realidade do qual procede. Os caçadores de contradições do Olavo estão, portanto, numa situação muito precária, e certamente mal sabem disso. Não é que eles não estejam habilitados a compreender o filósofo. Eles não estão prontos sequer para iniciar os seus estudos. Estão abaixo do que eu já chamei de “aspirante”. O primado da realidade não é, afinal, a conclusão da filosofia de Olavo de Carvalho: é apenas um dos inícios de uma longa jornada da consciência. O primeiro dever intelectual é o do abandono das pretensões ideológicas, do desejo sedento por convicções rápidas e infalíveis. E quem inventou isso não foi Olavo, foi um sujeito chamado Sócrates, há mais de dois milênios atrás. O pretendente que não é honesto e sincero nem mesmo para detectar e assimilar sequer a presença real de contradições na sua própria vida não será jamais forte e resistente o suficiente para encarar as contradições dos grandes problemas reais por nem mais que dois minutos: não será um pretendente a ser um filósofo, será pretendente a ser um idiota. Ao fim e ao cabo quem realmente entende no fundo o que Olavo faz é somente quem o admira pelo seu verdadeiro e profundo amor pela sabedoria, e portanto, quem o faz porque deseja imitar de algum modo esse amor. O resto, sinto muito dizer, é resto.

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Estou escrevendo menos neste diário, mas não quer dizer que não esteja percebendo coisas notáveis. Uma das descobertas recentes que fiz é que há realmente um tesouro escondido numa vida simples, low profile, under the radar. Era uma hipótese que circulava na minha mente faz tempo, mas agora se confirma solidamente. Uma das coisas que me sabotaram no passado foi uma ambição desmedida, embora muito bem disfarçada e atenuada em sonhos de longo prazo, e eu não pretendo cair nesse mesmo problema novamente. Quero uma vidinha simples e feliz.

Isto não quer dizer que não vou escrever, e nem mesmo que não vou escrever bastante no futuro. Apenas a finalidade será mais adequadamente modesta: falar do que é razoavelmente notável a quem possa interessar, sem nenhuma pretensão que vá além de dizer bem dito o que precise ser dito. Já não é o bastante?

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O Procurador Júlio Marcelo de Oliveira do TCU já é um clássico da nossa época. Disse para a Senadora Gleisi Hoffmann ontem na Comissão Especial do Impeachment, no Senado Federal: “a senhora é a dona da pergunta e eu sou o dono da resposta”. 

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O Pondé fez um vídeo decente sobre Olavo, reconhecendo várias verdades numa época em que a mentira e sordidez predominam. E reconheceu corajosamente que é um “animal da Academia”, admitindo com isso, de maneira discreta, as circunstâncias que limitam e separam o entendimento de um pensamento não acadêmico. Apenas equivocou-se, ao meu ver, ao afirmar que tem divergências filosóficas com Olavo quando ao mesmo tempo demonstra claramente que não conhece de fato a filosofia deste. Não é possível discordar intelectualmente do que não se conhece. É como querer trancar a gaveta e jogar a chave dentro. Não dá, Pondé.

Olavo reagiu generosa e prudentemente: agradeceu a expressão justa de Pondé e já prometeu empilhar seus livros para uma leitura atenta. Que isto fique registrado.

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Uma fofoca, um pensamento solto: algo me faz crer que é mais do que coincidência que Pondé tenha escrito um livro cujo título seja “Contra um Mundo Melhor”, uma idéia e uma expressão que Olavo carrega e divulga faz vários anos, e a respeito da qual deu conferências que estão inclusive gravadas e disponíveis ao público. Mas vai saber. 

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Ciro Gomes vive classificando FHC de ter sido um oportunista e quase que usurpador do Plano Real para se lançar como Presidente da República.

Fico pensando aqui comigo: será que esse não foi justamente, ao contrário, o plano do próprio Ciro Gomes?

Não digo isso em defesa de Fernando Henrique, evidentemente. E não pergunto retoricamente, mas de fato. Provavelmente uma figura que poderia definitivamente esclarecer isso seria o Tasso Jereissati, que teria supostamente sido traído junto com Ciro.

É engraçado que Ciro Gomes tem uma rejeição e uma inelegibilidade meio naturais por ter uma característica semelhante a de Jair Bolsonaro: ser quase um anti-político, ou pelo menos um crítico feroz de praticamente todas as lideranças políticas nacionais. Chamo a atenção porque se grassar mais ainda o sentimento anti-político no país, Ciro Gomes tentará se apropriar da imagem de outsider, tanto quanto Marina Silva com a sua suposta “nova política”. É claro que esta imagem é falsa e basta lembrar a história recente do país para se tirar as devidas conclusões. Bolsonaro é sim, de fato, uma alternativa total ao sistema de poder vigente. É, ao seu modo, o nosso Trump.

Falando em Trump, José Serra, o perdedor-geral da República, riu no último programa Roda Viva a respeito da possibilidade de Donald Trump ser eleito presidente dos EUA.

Como diria o Patton, na guerra (e na política, eu acrescentaria) quem perde e ri não vale um caracol.

José Serra não vale um caracol.

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Na perspectiva individual, faz mais sentido calcular o orçamento com seus respectivos volumes de receita e despesa anualizados do que em valores mensais.

Embora o período mensal seja bom para localizar a origem de déficits e providenciar o tratamento pontual de sua solução, o período anual é mais adequado para uma compreensão contextualizada da evolução financeira e patrimonial, e sua integração com os planos que o indivíduo faz para o uso de seus recursos.

A perspectiva mensal é prisioneira da lógica financista estrita, de curto prazo, a “rat race” de Kiyosaki. A visão anual ajuda a cotejar o desempenho financeiro com a performance do seu uso como meio efetivo para outras finalidades superiores. Vira uma “fast track”. Pode parecer uma bobagem, mas faz diferença. Você está mais disposto e acomodado para pensar que vai viver por volta de 80 anos do que 960 meses.

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10/06/2016

Se tem algo que faz você levar pancada de todos os lados é dizer algo como “o Islam é o ‘plano B’ de Deus”. Os cristãos acham isso inaceitável. Os muçulmanos acham isso inaceitável. Os ateus acham isso inaceitável. É o tipo de coisa que você pode cogitar como hipótese, mas não pode falar a respeito, porque é impossível não ofender muitas pessoas, pessoas inclusive boas e piedosas. Refiro-me, é claro, aos cristãos e aos muçulmanos; não me importo nem um pouco de ofender os sentimentos de um ateu, que tem mais é que se converter e parar de nos encher o saco.

Meu coração é católico.

O cristianismo, para mim, é o plano A de Deus, e também o B, o C, o D… até a letra Z, incluindo aí quaisquer outras letras que sejam inventadas até o fim dos tempos.

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Sobre a suposta irresponsabilidade fiscal na operação de antecipação de R$ 100 bilhões de devolução de empréstimo do BNDES ao Tesouro Nacional, que aparentemente está soando como uma “pedalada” do governo Temer para alguns ministros do TCU, é preciso resgatar imediatamente o critério técnico, factual e objetivo no ajuizamento desta decisão.

Quando o governo Dilma pagou suas obrigações usando dinheiro de bancos públicos e, pior, não registrou o respectivo débito no seu passivo financeiro, é evidente que cometeu fraude e consequente crime de responsabilidade.

Quando o BNDES devolve recursos ao Tesouro antecipadamente (não importando o prazo antecipado, se é de cinco, dez, vinte ou duzentos e cinquenta anos), é preciso primordialmente verificar se o banco pode prescindir legalmente do direito de cumprimento do prazo original contratado, e secundariamente se há algum custo financeiro efetivo na operação de antecipação que gere um ônus ao banco omitido da apuração das contas do governo. Se o direito do cumprimento do prazo pode ser abdicado e a operação não gerar ônus financeiro real, não há, no meu entender, nenhuma irregularidade fiscal nisso.

É isto o que o TCU tem que determinar de forma clara e técnica.

Qualquer conversa mole que escape dos dois pontos aventados me parece ser apenas politicagem pura e simples… petismo, lulismo, dilmismo, etc.

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Porque o STF não toma decisão “excepcional excepcionalíssima” contra um petista sequer?

No Cunha é refresco, né?

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A Mariana Godoy é comunista?

Parece que é. O pior é que talvez nem a própria coitada saiba disso…

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Querer aumentar os impostos para os ricos é uma idéia quase que engraçada, se não tivesse consequências práticas potencialmente devastadoras (como a história recente da política francesa mostra). Como não rir da imbecilidade socialista que acha uma boa idéia prejudicar e punir os agentes econômicos que geram a riqueza?

Especialmente em nossa época globalizada, de grande liquidez e mobilidade financeira, isso não faz sentido nenhum.

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O Leandro Roque do Instituto Mises Brasil tem razão: o melhor que poderia ser feito com o BNDES seria fechá-lo. Aliás, no meu comentário ao Orçamento público eu já dei essa sugestão. Não faz sentido. É desenvolvimentismo, keynesianismo, essa tralha toda que não funciona. Pode ter feito algum sentido ter essa instituição no passado (o que eu duvido), mas hoje em dia com um sistema financeiro avançado e um mercado de capitais plenamente disponível, é um escândalo. 

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13/06/2016

Aconteceu um crime terrível em Orlando, nos EUA, suficiente para dar um verdadeiro curto-circuito na cabeça de qualquer esquerdista defensor de minorias: um muçulmano filho de afegãos matou a tiros 50 pessoas numa boate gay. E agora? Como é possível atacar ao mesmo tempo a homofobia e a islamofobia?

Mais: o local do crime era gun free, ou seja, ali era proibido portar armas. É evidente que essas regras não funcionam com criminosos, mas só com pessoas de bem, não é? Se não era evidente, agora é. Aí está o resultado. Bastasse que uma pessoa qualquer presente na boate, um cliente, um funcionário ou um segurança, desse logo um tiro na cabeça do assassino, e várias vítimas, potencialmente dezenas, poderiam ter sobrevivido a esse atentado sangrento. Aliás, talvez o bandido nem tivesse tentado cometer o crime. As leis contra armas não funcionam com criminosos, só com pessoas inocentes a quem não se dá a permissão para se defender. Não há maior show de impotência do que ver as equipes da SWAT armadas até os dentes chegando na cena do crime depois que os corpos das vítimas já estão devidamente empacotados, ao lado de coroas de flores, velas e pessoas chorando. É ridículo. Criminosos tripudiam e zombam do monopólio estatal da força, que é uma coisa que obviamente não funciona.

Além da tragédia pessoal para as famílias e para os amigos das vítimas, que desastre para agenda esquerdista foi esse evento macabro!

Mas é claro que os esquerdistas são criativos e vão inventar uma narrativa onde os culpados por tudo no fim serão os cristãos heterossexuais pró-armas. Aguardem e verão.

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De acordo com uma pesquisa da Ethics & Compliance Iniciative (ECI), esse glorioso grupo de países chamados de BRICS estão no topo de uma lista de países no quesito percepção de corrupção empresarial. Ok, salva-se a África do Sul, que não foi mencionada. De resto, os primeiros colocados são: Rússia, Brasil, Índia e China. Estamos em boa companhia, como se vê.

Esse é uma das várias consequências da mentalidade desenvolvimentista: o apreço pelos números atenua a percepção de onde eles são empregados, isto é, em sistemas tirânicos, corrupção pública e privada, ineficiência estatal, etc. Tudo isto é fruto de uma visão de curto prazo. Quando uma geração entende que a sua missão no planeta Terra é se dar bem antes de morrer, ninguém segura a catástrofe. Onde, por outro lado, a preocupação é gerar valor de longo prazo, a prosperidade é sólida e muito mais distribuída, embora os efeitos sejam mais difíceis de serem percebidos sem uma análise histórica.

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A qualidade de um prato depende da habilidade do cozinheiro, a qualidade de um sapato depende da habilidade do sapateiro… por que diabos as pessoas ainda se surpreendem e precisam ser alertadas de que a qualidade do ensino depende da habilidade do professor?

A sociedade não premia o cultivo e o amor ao conhecimento, e se surpreende depois com a catástrofe resultante.

Minha dó é igual a zero.

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15/06/2016

A Empiricus, que vende conselhos para investimentos alheios, oferece um plano chamado de “vitalício” aos seus clientes. Com algum choro, você consegue esse serviço ad aeternum com desconto por uns vinte e cinco mil reais. É a eternidade com preço fixo, uma coisa imperdível.

Agora, é preciso lembrar que a assinatura anual vale uns oito mil reais.

Quer dizer, a Empiricus faz short de si mesma, não é isso?

Suponha que esses conselhos sejam ótimos e façam você enriquecer ano após ano. Ora, em dez anos você pode pagar uns 80 mil reais em relatórios, ou até mais, e ainda ficar feliz da vida. Porque diabos uma empresa prestadora de serviços frustra a sua própria expectativa de receita futura em mais de 65%? Inflação e juros? Não faz sentido. Qualquer um sabe que o setor de serviços é o mais resistente contra a inflação. Por causa do tamanho das margens, a indexação do preço cobre e transborda dos custos operacionais.

O único sentido que faz essa tremenda depreciação do valor dos serviços para venda a vista é a consciência profunda, refletida e discreta, de que esses relatórios não valem tanto assim, e que daqui a dez anos possivelmente haverá uma quantidade bem menor de clientes na base de faturamento.

Até a minha avó nascida em 1927, que não é muito entendida de negócios, mas é bastante lúcida, deve saber que a Empiricus cresceu na aposta da alta do dólar nos últimos anos. Esse pessoal pode ser bem relacionado, informado, engajado, esperto, etc., mas no fim das contas a tese “O Fim do Brasil” era tão somente uma grande campanha dizendo: compre dólar que vai dar certo.

Havia fundamentos na realidade, é claro. Mas eles não eram necessariamente tão sutis assim, disponíveis apenas para os iniciados nas arcanas artes das finanças. Ou então eu também sou um iniciado nesse insuspeito ocultismo: fiz o mesmo tipo de antecipação, até antes que a Empiricus começasse a fazer a sua propaganda, e ainda adiantei algo que eles demoraram bem mais para falar, a hipótese de uma “crise da dívida” que sugerisse a grande conveniência de converter o capital líquido de fiat money em ativos físicos. Isso tudo no início de 2014.

A alta do dólar foi a bala de prata da Empiricus. Usaram e agora, o que sobrou? Gente bem relacionada, informada, engajada, esperta, etc., dando conselhos que eu não subscrevo nem mais nem menos do que os conselhos de banqueiros tradicionais.

O bom senso diz que se conselho fosse bom, não era de graça. Como eu já disse uma vez, na área financeira essa é uma coisa quase absurda: alguém vender sua sabedoria para enriquecer um terceiro em troca de uma mera comissão. Qual é o sentido disso?

George Soros, em certo episódio bastante conhecido, intuía que a libra esterlina se desvalorizaria brutalmente. Ele saiu vendendo relatórios? Não, ele telefonou para o seu sócio e disse o seguinte: vamos vender libra a descoberto com todo o dinheiro que temos e o que não temos, com todo tipo de crédito, empréstimo, margem, tudo. Alugue-se a própria mãe para o bordel da esquina se for preciso. Rasparam a panela para vender o máximo de libra a descoberto. A exposição era gravíssima, suficiente para causar uma falência monumental. O sócio de Soros dizia que aquilo era uma loucura. No fim das contas ganharam 1 bilhão de libras com a aposta. Quanto eles teriam lucrado vendendo conselhos? Um milhão? Dez milhões?

Warren Buffett disse certa vez que Wall Street era o único lugar conhecido em que pessoas que andam de Rolls-Royce vão pedir conselhos para quem usa o metrô.

Eu digo que não: tem também a Empiricus.

Não quero desprestigiar os caras. Ao contrário, eles surfaram uma boa onda e ajudaram pessoas a enriquecerem. Mas precisavam vender assinatura vitalícia? Isso é o mesmo que dizer que eles próprios não acreditam muito em seu trabalho no longo prazo. Também pudera: se o nível de qualidade de suas análises, por melhores que estas sejam, não ultrapassar a média da dos tradicionais banqueiros de investimento, que vantagem seus clientes levam comprando seus relatórios?

Porque o prestígio pontual com o estouro do dólar funcionou tão bem, então?

Porque o mercado financeiro estava vendido com a Dilma.

Não se esqueçam de que o Banco Santander demitiu a coitada da analista que dizia que o país estava indo de mal a pior. Lula ligou putíssimo da vida para o senhor Botín, que veio pessoalmente da Espanha dizer que estava tudo bem com o Brasil e para passar um sabão no pessoal de asset management.

Em suma, por volta de 2014 havia uma farsa política e econômica onde os banqueiros eram cúmplices de certo modo dos petistas, pois tinham seus interesses atrelados ao de certas políticas do governo (especialmente o aumento e a manutenção da SELIC alta). Por esta razão eles demoraram tanto para dizer aos seus clientes que era preciso comprar dólar, o que não impedia, evidentemente, fosse eu, a Empiricus, ou qualquer um, de dizer o que estava acontecendo.

Acabaram as balas de prata, e a Empiricus faz short consigo mesma.

Especialmente com as posses de Meirelles na Fazenda e de Goldfajn no BC (mais importantes economicamente do que a presença do próprio Temer na Presidência), a tendência é a de que não haja nada de novo no front.

A única reviravolta que poderia ocorrer e causar um abalo sísmico teria origem 100% política e policial: desdobramentos pesados da Lava-Jato contra o PMDB e PSDB, os partidos fiadores da nova república.

Que eu saiba a Empiricus não tem informações privilegiadas da Lava-Jato. E se eles tivessem, não estariam oferecendo assinatura vitalícia, eu suponho.

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23/06/2016

Estou de “férias” nos EUA durante dez dias, por isso parei de escrever recentemente. Na verdade não são férias, é uma licença para eu resolver alguns assuntos.

Mas hoje não poderia deixar de fazer brevíssimos comentários a respeito da pistoleira Marina Silva e do Brexit.

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Existe uma aura de morte ao redor de Marina Silva. Alguém ligado a ela morreu de novo. Alguém que a Polícia Federal iria prender. Alguém que iria falar. Esta mulher é perigosa e está, pelos meus cálculos conspiratórios, ligada com gente perigosa de fora do país, com interesses globalistas. Existe uma aura de morte ao redor de Marina Silva. 

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Os ingleses estão votando hoje a saída ou não da União Européia, aquela instituição burocrática criada como prévia de um governo global. Para variar os entusiastas da manutenção do Reino Unido na UE não estão animados com suas próprias perspectivas: estão aterrorizando os que desejam votar pela saída. Não é a mesma coisa aqui nos EUA, a respeito da eleição de Trump? Hillary Clinton não vale um caracol, não tem muito a propor de interessante para resolver problemas reais e para fazer nada além de continuar as políticas de Obama, mas periga ganhar na base do medo, propagando a idéia de que eleger Trump é um absurdo, com consequências terríveis, etc. Veremos a mesma coisa no Brasil com o Bolsonaro, provavelmente.

Em suma, lidamos com terroristas em toda parte.

O que está ocorrendo, porém, ao menos neste ano de 2016, é que as pessoas parecem estar mais decididas a julgar as decisões pelos fatos concretos do que pela propaganda, especialmente quando esta vem do establishment que demonstra claramente desejar apenas manter-se no poder e nada mais. De repente as pessoas pensam: será que o mundo vai mesmo acabar se nós tirarmos o poder dessa gente que está aí faz décadas e não resolve os nossos problemas? Isso vale para a classe política da UE, dos EUA, do Brasil, etc., os mesmos criadores de dificuldade e vendedores de facilidades de sempre.

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27/06/2016

De volta ao Brasil.

É claro que o Brexit pode ajudar de algum modo o esquema russo-chinês, desde que se pense que a União Européia era uma espécie de antagonista de Putin como se viu, por exemplo, na briga dos ucranianos para serem vistos como membros da Europa democrática. Mas para que tais efeitos se consolidem é necessário primeiro que a UE desapareça e, além disso, que os países europeus individualmente sejam coniventes com a política de Putin. Quem disse que o Reino Unido, a Alemanha e a França seriam mais complacentes com a Rússia do que é hoje a União Européia? Quem disse que estes países não podem oferecer mais resistência ao esquema eurasiano, e não menos, em comparação com a UE?

De outro lado, o fim da UE não representa a mínima diminuição do poder e da influência da OTAN, esta sim a verdadeira represa dos mais primitivos instintos russos. Há quem diga, inclusive, que a UE bem ao contrário do que se pensa na verdade prejudica a OTAN, fazendo uma diplomacia dovish onde o bloco militar poderia ser mais rigoroso em questões como a migração, a contenção da Rússia na fronteira ucraniana, a guerra na Síria, o combate contra o ISIS, etc.

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Ainda sobre o Brexit. Por incrível que pareça tem gente que acha que o maior absurdo de todos é justamente ter deixado que o povo inglês decidisse sair da UE. Como começar a explicar para alguém que pensa assim o quanto esta reclamação é injusta e absurda?

Para algumas mentes o globalismo ganhou a autoridade de um imperativo categórico, e o povo nada mais é que um aglomerado estatístico a ser liderado pelas cabeças iluminadas da burocracia estatal. E ainda por cima tudo isso é chamado de “democracia”.

É insano, mas é real: o maior perigo da modernidade é a adesão voluntária e em massa a um sistema polido e anestésico de escravidão. Não demorará muito para que as pessoas aceitem trocar suas almas por comodidades como o forno micro-ondas ou o aparelho de ar-condicionado.

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Há uma conexão profunda entre a natureza anímica do ser humano e a sua liberdade concreta. Não por um acaso Deus se identifica assim ao seu povo: “Eu Sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão”. A liberdade diante da opressão, do jugo da escravidão, é um presente de Deus a seus filhos. Nossa vontade, a partir de nossa natureza espiritual, é o desejo desta liberdade e isto, ao mesmo tempo, requer a graça divina que nos permita viver livres a despeito das leis da necessidade.

Que fique claro o seguinte: a realidade humana de dependência da necessidade temporal não é violada e não foi feita para ser violada (como sugerem as idéias gnósticas), pois é uma herança da situação humana desde a Queda. Deus criou e guiou o homem. O homem virou as costas e rejeitou a companhia de Deus. Agora o homem deve procurar Deus de volta, a cada nova geração. E o advento de Nosso Senhor Jesus Cristo não altera isso, ao contrário, confirma o infinito amor e o desejo intenso que Deus tem de salvar seus filhos. O que redime o ser humano é a mão libertadora de Deus. Mas esta graça alcança aqueles que a clamam. É preciso desejar a liberdade temporal (sempre finita e relativa, evidentemente) como ato de submissão à vontade e à graça de Deus.

Nada pior, portanto, para o ser humano do que essa doutrinação moderna cheia de mimos e de infantilizações, garantias e seguranças estatais, substituindo o desejo de liberdade através da adoração de Deus pelo desejo de segurança através da idolatria do Estado.

Vocês vêem como a nossa cultura política moderna se torna satânica?

O chamado welfare state é um Egito dos nossos tempos. Um regime bem disfarçado e atenuado, mas efetivo na estrangulação da liberdade do povo.

E, como sempre, somente Deus pode nos fazer sair da casa da servidão.

Não há nada de novo sob o Céu.

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Ciro Gomes: “é preciso dar cabeças ao povo para ele voltar a acreditar no sistema”.

Ninguém seria capaz de expressar melhor a realidade da nossa política atual: a urgência de retomar a “normalidade”. E isso dito por alguém que chama Michel Temer de traidor, conspirador e golpista.

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A mais nova narrativa enlouquecida da esquerda: o medo de crimes gera a violência policial que por sua vez causa o comportamento criminoso. Digam-me, é ou não é para se enfiar uma criatura que pensa uma insanidade dessas no hospício?

A inversão revolucionária tão bem descrita por Olavo gera hoje os seus espécimes intelectualmente mais delinquentes e esquizofrênicos.

Apenas não digo que a solução é de fato a hospitalização porque essa é uma medida perigosamente capturável pela tirania revolucionária. A melhor medida é o desprezo e o ocaso absoluto.

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O Antagonista registra com tom ameaçador que a S&P rebaixou a nota de crédito do Reino Unido de AAA para AA.

Ai, que medo!

A Inglaterra resistiu aos nazistas e aos comunistas, será que vai se acovardar diante da Standard & Poors? Façam-me o favor.

Ainda bem que o destino dos ingleses não é decidido por gente frouxa que se caga nas calças quando os globalistas passam um pito. Antagonistas, por favor voltem a falar do PT e do Brasil, esqueçam o Brexit.

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O partido revolucionário e explicitamente bolivariano Podemos apanhou do PP nas eleições majoritárias da Espanha. Nada como ter uma Grécia na frente de exemplo para deixar de fazer uma cagada monstra. Até o PSOE, a esquerda mais tradicional, perdeu da centro-direita espanhola. A Europa continua dando boas notícias. 

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29/06/2016

A revista Veja relata que os EUA estão com um “problema”: o seu estoque de petróleo está elevado demais, com 503 milhões de barris de óleo guardados. Os níveis de produção continuam elevados. Começaram a exportar.

Lembro-me muito bem que um senhor chamado Olavo de Carvalho dizia, há mais de dez anos atrás, que os EUA não possuíam nenhum problema de abastecimento com esse insumo energético e nem passaria por qualquer adversidade neste quesito no futuro, dadas as proporções de seus estoques, a novidade tecnológica do fracking, etc. Isso era dito, aliás, como demonstração de que não havia motivo econômico por trás da guerra no Iraque, que ocorreu por interesses estratégicos e de segurança (se justos ou não, é uma outra questão).

Na ocasião foi chamado de louco, mal informado, etc. Agora, passados dez anos, até que o velho já não é tão doido assim, não é?

Este é apenas um breve episódio que comprova, já de forma quase entediante, duas coisas: Olavo estuda e fala a respeito da realidade, e a nossa imprensa fala a respeito do que mandam ela falar por conveniências políticas, econômicas e ideológicas.

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Outra coisa que Olavo dizia, e nesta eu confesso que não colocava muita fé, era que seria perfeitamente possível a continuação do processo de imbecilização da população, especialmente da mais bem “educada” e ilustrada. Eu achava que não seria possível piorar um quadro já tão tenebroso. Mas descubro em nossos dias que não só era possível como foi isso mesmo o que aconteceu.

É como um gigantesco sistema de encantamento, uma feitiçaria produzida pela engenharia social através da cultura e da educação: as pessoas são conduzidas a reagir com credulidade a determinados estímulos e a negar convictamente, por outro lado, os fatos e evidências recebidos diretamente da percepção da realidade.

É feitiçaria da braba!

A boa notícia: as pessoas que não absorvem a cultura mainstream e não levam a sério a educação formal de escolas e universidades são relativamente imunes ao processo imbecilizante.

E mais: mesmo que com breves e superficiais aberturas a culturas não-fabricadas pela engenharia social, seja a alta cultura ocidental ou mesmo a cultura caipira local com as suas respectivas tradições, é possível neutralizar e compensar com relativa facilidade todo o esquema de ilusões fabricado contra a população.

Em suma: o trabalho do diabo é ingrato demais. É como um trabalho de Sísifo, eternamente a rolar pedras no inferno. Cria-se uma feitiçaria monumental para aprisionar as pessoas em ilusões diversas e sofisticadas e de repente uma simples brisa fresca do mundo real é o suficiente para fazer desabar todo esse edifício de papelão.

Isso não diminui em nada o nosso ímpeto de trabalhar para produzir uma educação sadia. Pelo contrário, é um estímulo. Vamos, de bica em bica, com voadoras e rasteiras, desmontar essa alucinação toda. O meu desejo é fazer as pessoas viverem plenamente diante de Deus e com paz em seus corações. Isto, que quero para os outros, é o que quero para mim mesmo. Nossa felicidade é isso: querer o que nós é devido e ter tudo o que queremos.

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Cada vez mais chinfrim, O Antagonista agora nos afirma que os europeus em sua maioria rejeitam a candidatura de Trump.

O Antagonista saiu da Veja, mas a Veja não saiu de O Antagonista.

Que diabo importa a opinião de um europeu a respeito das eleições americanas?

Grande porcaria a opinião dos suecos. O Antagonista pensa em se mudar para Bruxelas, ou para Estocolmo, em busca de novas audiências?

Que mimimi insuportável, a mesma coisa aconteceu com o Brexit.

Deixem os caras escolherem o seu destino livremente, será tão difícil fazer isso?

Choro de globalista é lágrima de crocodilo. Coitadinhos né, estavam devorando o mundo e acabou a farra…

O impressionante é que a mídia, mesmo a “independente” como seria o caso de O Antagonista, trabalha involuntariamente e talvez até inconscientemente como serviçal dos globalistas contra a liberdade dos povos decidirem os seus respectivos destinos.

Seria inacreditável, se não fosse o mesmo velho mundo de sempre.

Na esteira do que já é uma tradição da imprensa moderna, O Antagonista endossa o coro pessimista-apocalíptico que é necessário para justificar o messianismo da política moderna. Tudo o que não for condizente com a agenda progressista e globalista é meio caminho andado para o fim do mundo, pois não facilita a venda das facilidades da burocracia estatal.

Não quero julgar caráteres, mas numa simples apreensão psicológica simplória eu entendo que o Mário Sabino tem o tom mais progressista e modernoso, é um jornalista e editor que “anda nos trilhos”, mesmo que estes insuspeitamente levem ao precipício. Já deu sinais de uma leve histeria escatológica, meio catártica. Está desequipado e indefeso intelectualmente no meio de uma briga entre dragões, o que o leva ao fim a ao cabo, depois de levar suas pancadas e baforadas, a segurar-se firme na proteção do consenso dos pares, na intelligentsia iluminada do progressismo. É a velha necessidade de parecer normal num mundo doido, que faz o sujeito ficar mais doido do que já era antes.

Diogo Mainardi, por sua vez, é mais complexo. Ele não tem cabresto e, pelo contrário, tem a fibra de um homem autenticamente revoltado. Mas tem um temperamento extremamente pessimista e negativo, o qual lhe permite ser muito criativo e luminoso quando esta sua mentalidade lhe serve na fabricação de uma deliciosa crítica sádica à falsidade pública na cultura, na política, etc., mas é danoso quando lhe faz colaborar involuntariamente na consolidação dessa gelatina apocalíptica que é a visão de mundo moderna.

Diogo Mainardi seria grande, como escritor ou como comentarista em geral, se fosse mais realista, se fosse mais medieval, se fosse um espírito mais livre e, neste sentido, mais expansivo. Ele quase chega lá, mas no fim do dia não dá o passo necessário e paga o tributo ao senso comum entorpecido da época, que acha que o mundo vai acabar amanhã e que não há coisa que preste nesse mundo. Uma pena e um desperdício.

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No fim Ciro Gomes será soterrado pela sua soberba e mal disfarçada falta de humildade. Isso vai acabar com ele, cedo ou tarde. É um desastre anunciado. 

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A BBC fez uma burrada monumental com a dispensa de Jeremy Clarkson do programa Top Gear. Obviamente Richard Hammond e James May saíram na sequência. O show acabou. Os três eram o programa e ponto final. O que continua passando como se fosse o mesmo programa na verdade é uma porcaria e todo mundo sabe disso, provavelmente a começar pelos próprios apresentadores substitutos.

Clarkson vivia se metendo em problemas –e foi demitido por isso–, mas digamos que ele tinha audiência suficiente para agir como agia. É como um rockstar. Pessoas assim, quando fazem algo errado, podem ser processadas por muito dinheiro e o problema acaba por aí. Ninguém diz que o artista deve sumir do palco como punição por seu comportamento desvairado. Isso não existe. Mas a BBC achou que existia, e agora paga o preço com uma queda brutal de audiência.

Clarkson, Hammond e May são artistas. No futuro vou explicar mais em detalhes o porquê disso, já que me tornei aos poucos um apreciador do show e poucas coisas nos dão a satisfação de falar daquilo que gostamos.

Top Gear não era divertido, assim como o The Grand Tour não o será, por causa somente dos carros, das viagens, ou dos eventos mostrados. A diversão é consequência direta da performance do trio e, entre eles, especialmente a de Clarkson.

Bem feito para a BBC.

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30/06/2016

Parabéns pelos seus 32 invernos, Rodrigo.

Para não dizer que ninguém se lembrou de mim até agora, recebi um e-mail da Porto Seguro me desejando um “feliz aniversário”.

Obrigado, Porto Seguro.

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É gozado, já vi mais de um astrólogo ligado a tradição védica afirmar uma crença pessoal em vidas passadas, mas sustentar e explicar o simbolismo de Ketu navagraha com exemplos factuais das primeiras fases das vidas dos nativos. Assim fica fácil permanecer na tradição ocidental. Parece mais coerente e realista dizer que Ketu representa o que você já tem por conquistado ou seguro no começo da vida até a idade adulta e, portanto, aquilo que é mais conveniente superar e abrir mão pelas circunstâncias concretas, do que apelar para uma narrativa reencarnacionista que afirma um carma passado. O carma parece ser, novamente, um tampão para justificar as grandes diferenças dadas a priori nas vidas das pessoas. Um crápula nasce em berço de ouro com todas as mordomias e um santo nasce escravo dentro de uma jaula… como lidar com isso? O carma “resolve”. Um oriental poderia dizer que a infalibilidade do Deus único crido no ocidente também “resolve” do mesmo jeito, é claro. Meu intuito não é polemizar entre as tradições. Apenas reafirmo a crença na minha tradição, e somente isso. Na prática, mesmo que haja uma reencarnação (no que não acredito), os fatos que demonstrarão o significado da posição natal de Ketu serão retirados exatamente das fases iniciais desta vida, e não de qualquer outra que seja incognoscível ou subconsciente. 

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Uma horda, por maior que seja, é fraca contra uma falange disciplinada e organizada. Foi assim que Alexandre invadiu a Ásia. “A infantaria é a bigorna, a cavalaria é o martelo.” 

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O dia já melhorou, mais alguns parabéns, e já ganhei até presente. 

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A vida é uma longa lição de humildade. A velhice é o exame final. 

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04/07/2016

Happy Independence Day!

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Este texto será uma carta a você, Digão, e ao mesmo tempo uma entrada no meu diário. Vale a pena fazer assim. Você me pediu um balanço do primeiro semestre. Nós fazemos isso, não é? Nós fazemos balanço de seis meses. Mas não é balanço contábil, fiscal ou financeiro. É balanço da vida, é balanço biográfico. Meu aniversário marca o fim dos primeiros dois trimestres de cada ano, e o fim do primeiro semestre inteiro. Decidi compartilhar essas considerações com o público em geral, embora o material do diário só venha a ser efetivamente publicado no meu site no final do ano, após um intenso trabalho de revisão para eliminar ou corrigir eventuais barbeiragens e excessos.

O ano de 2016 foi anunciado como “Ano da Misericórdia” pelo Papa. Astrólogos o chamam de “Ano do Sol”. Eu não sei exatamente o que eles querem dizer, tanto o Papa quanto os astrólogos. E para saber eu teria que fazer um estudo de cada uma dessas coisas. O que eu sei dizer é que até agora este ano foi para mim um tempo de contentamento, de alegria até, e um ano de revelações e oportunidades. Ouso dizer, saindo do que seria uma esfera mais estritamente subjetiva e individualista e partindo para uma objetividade histórica, que no mundo ocorreram e ocorrem igualmente oportunidades de alegria, de revelação e de oportunidade.

Alegria pela Graça de Deus benevolente, que distribui presentes e dons abundantemente; revelação de segredos que travavam e enganavam a vida das pessoas, revelação de engodos, traições, jogos sujos, golpes e complôs; oportunidade de libertação do que era restrição e limitação, chance de tomar as decisões corretas ao menor custo (ou seja, na hora certa, na melhor ocasião), e também oportunidade de redimir-se de erros passados fazendo agora a coisa certa.

Na minha vida essas coisas aconteceram. Você testemunhou, já no fim do ano passado, a minha saída de uma espécie de “entorpecimento”, e um avanço nos planos e nas idéias para o futuro. Nunca o futuro pareceu tão desejável quanto nesses tempos. Entrei neste ano confiante, e permaneci assim. Mas isto está acontecendo apenas na minha vida?

Não me parece. Recebo relatos de pessoas nas mais variadas situações que também estão passando por importantes testes e transformações atualmente. Pode ser um tipo de projeção minha, por eu estar hoje mais aberto a esse tipo de coisa, mas sinto que é mais do que isso, porque de fato coisas importantes estão ocorrendo aqui e ali, seja num cenário mais doméstico, seja num cenário político.

Se você pegar, por exemplo, o que ocorre no Brasil com a Lava-Jato, e a repercussão desse fenômeno na política, com a ascensão de figuras anti-políticas seja na esquerda (ex. Ciro Gomes, e até a própria Marina Silva, supostamente) ou seja na direita (ex. Bolsonaro), você vê um fenômeno incrivelmente semelhante ao que ocorre no Reino Unido com o Brexit, ou nos EUA com a candidatura de Trump.

O pensamento do povo em toda parte é: “basta dos poderosos nos enrolarem, nós queremos que as coisas sejam como nós queremos agora, chega!”. Ora, um povo só consegue fazer isso se ele sente que é intitulado para tanto, que é capaz de assumir as rédeas da sua vida, que existe um bem comum viável que é obstaculizado por interesses de poderes estranhos que, não obstante serem poderosos, não são invencíveis.

É um ano em que o little man se torna big man. É um ano em que o establishment é contestado. É um ano em que as pessoas acreditam que as coisas não precisam ser para sempre do jeito que são, podem e devem ser melhores do que isso.

Soa um tanto revolucionário. Historicamente, essa mentalidade é aquela que costuma preceder momentos das cagadas homéricas. Mas não somente: às vezes é para o bem. Existiu uma Revolução Francesa, mas existiu também uma Revolução Americana. Existiu uma Revolução Chinesa, mas existiu também uma Revolução Indiana. O que é que garante que a grande mudança almejada é boa? O critério distintivo é simples: tem que ser uma boa ação. E boa ação é, de acordo com o nosso Doutor Angélico, S. Tomás de Aquino, uma ação que é boa nas suas intenções, nos seus meios, e nos seus resultados.

Boas intenções são aquelas que buscam a liberdade, a paz, a justiça, a prosperidade, etc.

Bons meios são aqueles não-violentos, legítimos, justos, proporcionais, etc.

Bons resultados são aqueles concretos, consolidados, perenes, verdadeiros, que impedem e previnem um mal maior, e que são caridosos.

Entendo, socialmente e politicamente, que estamos num meio caminho para coisas novas, mas ainda não é seguro que as coisas acabem bem. É evidente que a roda da história gira sem parar e que para cada boa notícia uma má virá em seguida. Mas é possível sim obter ganhos e vantagens concretas, desde que as pessoas envolvidas no processo de mudança estejam conscientes do que é que estão buscando.

Voltando um pouco para as nossas vidinhas, eu diria que como a nossa geração é costumeiramente composta de cagões e de covardes, e que o nosso desafio é buscar o que resta de jovialidade no fundo de nossas almas para renovar as coisas e corrigir os rumos.

É claro que há irresponsáveis na nossa geração. Mas não é aquela insanidade do século passado, de uma quantidade massiva de pessoas que se acabaram pelo abuso de drogas e álcool, num estilo de vida absolutamente insustentável e autodestrutivo. Hoje em dia eu vejo mais fugitivos. Não é um pessoal necessariamente libertário e anárquico. É gente que se esconde em vícios, hábitos e costumes, para não tomar decisões graves e arriscadas. Se a pessoa usa drogas e álcool, é porque é depressiva, pessimista e niilista, e não porque quer “viver a vida adoidado”. Os hippies não eram depressivos, bem pelo contrário, eram exageradamente desprendidos e avoados, viviam um tipo de alegria. Nossa geração é chorona, medrosa e melodramática. É gente que vive como adolescente pelos hobbies e interesses, que teme sair da casa dos pais e adia essa decisão. Gente que não casa ou atrasa o casamento, e que se constrói o matrimônio é para ter um filho no máximo, ou talvez mesmo nenhum. É gente que pensa muito em aposentadoria, pensão, previdência privada, plano de saúde, etc. É um pessoal que, em suma, está adiando a própria vida, porque parece que só quer começar a viver quando as coisas estiverem realmente garantidas.

É uma coisa estúpida. Você deve se lembrar de quando eu falava do meu Tema IV na antiga Academia. Dizia eu que esse tipo de vida é como cometer um suicídio em prestações: você não se mata de uma vez, vai morrendo de pouco em pouco.

Acontece que embora todos os adiamentos sejam razoavelmente toleráveis até aproximadamente uns 35 anos de idade, conforme a curva dos 40 anos vai chegando essa lógica começa a mudar. Porque está vindo lá adiante o momento em que o tempo passará a estar contra o sujeito, e não mais a favor. Ou seja: chega uma época da vida em que não vale mais a pena realmente sonhar com qualquer redenção biográfica ou correção brusca de rota que não seja algo somente introspectivo, como uma ação da vida espiritual. Entre os 45 e os 50 anos de idade (no período em que ocorre o que se chama popularmente de “crise de meia-idade”) a pessoa já tomou tantas decisões repetitivas numa mesma direção que o seu hábito praticamente tomou o controle dos comandos de sua vida. Não é impossível uma grande mudança nessa época da vida, mas é muito mais difícil e custoso.

Se, portanto, uma pessoa põe a mão na consciência ainda por volta, ou se possível antes, dos seus 35 anos de idade, ela pode ainda usar um tempo relativamente grande a sua frente para fazer todas a correções e ajustes necessários com bem menos dificuldades e custos. É a visualização do que os aviadores chamam de PONR (“point of no return”): dali para diante não tem volta, então é bom fazer o que é preciso ser feito antes de chegar a este ponto.

Quando chegarem os 40 anos, a pessoa já poderá estar no trilho certo. Entre 45 e 50 anos, quando a pessoa se cobrar mais pesadamente os resultados de sua vida, ela verá que conseguiu se endireitar no meio do caminho. E que conseguiu plantar as sementes que agora viraram os bons frutos a serem colhidos.

Não se espante, portanto, ao ver algumas pessoas da nossa geração tomar nos próximos cinco anos decisões nobres, expansivas e finalmente corajosas, bem como também outras pessoas (e infelizmente, creio, a maioria) tomarem decisões baseadas na segurança e na extrema prudência, como entrar na carreira do funcionalismo público, depender de auxílios e programas assistenciais, indispor-se definitivamente a casamentos e filhos, e a carreiras desafiadoras.

Não se espante porque este é o teste: afinal, existe ou não o mundo e a vida do Espírito? Podemos ou não podemos viver nesta vida uma realização espiritual que reflita paz, alegria e contentamento?

Explico. A obsessão doentia por seguranças e garantias reflete um enfraquecimento da nossa fé e do nosso espírito, e consequentemente gera um comportamento histérico. No mundo da contingência e da necessidade não existem garantias reais. A idéia de segurança e de garantias é falsa e enganosa. O sujeito afunda o seu coração em mágoas e desencantos, dedica-se ao deprimente funcionalismo público para se “proteger”, e dez anos depois contrai um câncer que o mata com dores e agonias terríveis. Quem foi que plantou a doença, senão o próprio cidadão que fugiu da vida ao invés de abraça-la?

Não faz sentido nenhum querer fugir da vida, porque isso é inevitavelmente um desejo da morte e, mais até, um desejo de não-existência. A pessoa lamenta que tenha vindo ao mundo.

Querer a vida, por outro lado, é querer algo que é arriscado e incerto por definição. Mas é algo que, paradoxalmente, envolve uma garantia e uma segurança profundas: a de que você está buscando a coisa certa, o seu sentido, o seu telos. Isto é uma decisão espiritual: Deus me criou com determinadas intenções e se eu realiza-las viverei feliz e em paz.

Mas Deus é invisível. Nós herdamos os hábitos e, portanto, a culpa da Queda. Houve um tempo em que Deus não era invisível, em que ele visitava o mundo, mostrava-se, falava e ensinava, e em que tudo era imerso na Graça. Deus buscava o homem. O homem, porém, traiu Deus e se escondeu Dele. E nós herdamos essa traição e repetimos isso dia após dia. Continuamos traindo Deus e nos escondendo Dele. O resultado espiritual desta aventura é que agora o homem é que deve procurar Deus. Embora invisível, Deus nos quer o tempo todo, porque nos fez para isso, para viver nos planos Dele, felizes e completos. Só que se eu não vou atrás isso não acontece, porque eu herdei essas ferramentas que me permitem trair Deus e me esconder Dele.

Não é essa a questão? Qual é o sentido da minha vida? O que eu devo fazer?

Eu não sei. Não nasci com manual de instruções.

Creio, não obstante, que há sim um propósito individual para cada um de nós, e que se esse propósito é realizado, nós vivemos em alegria e em paz.

Mas se esse sentido individual da vida existe, quem é que sabe um troço desses? Só pode ser quem nos criou, e não estou falando de papai e mamãe, estou falando do Altíssimo Pai, Criador do Céu e da Terra. Ele, imenso em infinita glória e majestade, decidiu que eu existiria! Que você existiria! Deu-se a esse trabalho, digamos assim. E Ele sabe qual é “o nosso lance”, o que viemos fazer no mundo. Cada um de nós.

Mas não adianta, não existe mais o Paraíso terrestre que havia para Adão e Eva antes da Queda. Ou seja, Deus não vai aparecer para bater um papo e explicar as coisas. Melhor dizendo: Ele pode fazer isso, evidentemente, quando bem entender, porque é Deus. Mas a tendência é que não o faça senão para pessoas muito especiais (por exemplo, os Patriarcas e Profetas que vieram depois da Queda), porque nós somos da estirpe dos traidores, Adão e Eva. A nossa benção especial não é a da Graça preternatural do Éden; é a bênção da redenção: apesar de sermos instintivamente traidores do Espírito, nós podemos ser resgatados de volta para viver uma vida abençoada diante de Deus.

A única coisa que precisamos fazer é querer isso com vontade forte e com sinceridade e até mesmo ingenuidade de coração. Temos que desistir de diversas concepções perversas, sejam de criação da nossa própria imaginação ou importadas do mundo da cultura do nosso ambiente, que servem apenas para que nos distanciemos da vida do Espírito.

Exemplos: tanto o liberalismo quanto o socialismo são perversos neste sentido, porque ignoram a realidade da caridade (que é uma virtude, ou seja, uma força espiritual) e por causa disso fazem os povos sofrerem, seja pela escravidão do capitalismo desenfreado, seja pela escravidão do comunismo. Indo mais fundo: essas mentalidades nos tornam instintivamente materialistas e utilitaristas. Não há vida espiritual possível no meio dessa pocilga, dessa briga de monstros, há apenas um deserto de luta, fadiga, necessidades, etc., um fracasso sem sentido e sem fim.

Eu poderia citar muitas outras formas mentais que nos alienam da nossa realidade espiritual e nos jogam numa vida de sofrimento, e consequentemente de ressentimento e de ódio, que no fim das contas gera o mal em todas as suas formas.

A vida espiritual é uma vida de liberdade no sentido mais profundo, é uma vida de força e de potência, mas também uma vida de paz e de contentamento. Ela não está mais disponível num sentido de realização social para nós, por causa da decadência da prática cristã na nossa geração. Isto quer dizer que redobradamente o nosso esforço agora precisa ser individual. Mais do que nunca o Bem, a Verdade e a Beleza não serão apontados e reconhecidos publicamente e socialmente, mas terão que ser buscados por cada um de nós com bastante vitalidade e firmeza. Ganhando individualmente a Graça de receber e contemplar esses bens espirituais, poderemos daí fazer o caminho inverso e apresentar essas coisas para a nossa comunidade, ajudando um pouquinho nessa grande missão de redenção.

Vejo que meu texto não saiu exatamente como eu esperava. Eu imaginava que relataria como foram esses seis meses de uma forma mais analítica, pontual, mas no fim das contas não senti a menor vontade de fazer isso.

A oportunidade de 2016 é muito grande. É colossal. É a oportunidade de corrigir uma vida para alcançar a verdade dela, de rasgar os falsos pactos e as redes de mentiras, sem ter que pagar tão altos preços por isso. É o melhor ano em muitos anos.

Mais, até: eu arriscaria sem medo dizer que esse foi, até agora, o melhor ano da minha vida.

Saudações entusiasmadas e fraternais!

Espalhe a mensagem: Deus nos aguarda com todas as portas e janelas abertas! Sejamos fiéis e humildes a esse apelo, porque vale a pena: o resultado é a paz, liberdade e alegria de viver de acordo com a vontade divina.

Um grande abraço,

Rodrigo

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Nigel Farage saiu da Presidência do UKIP depois de garantir a votação favorável ao Brexit, para cuidar da própria vida.

Sua missão era ter o seu país de volta. Venceu.

Agora ele quer ter a sua vida de volta.

É um Faragexit.

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O Antagonista questiona que a aglomeração espontânea, semi-organizada, de eleitores de Bolsonaro na quantidade de 300 pessoas transforma o político em um “Bolsomico”.

Não sei. Respondi que nós vamos saber depois. Eleitores costumam se reunir nas urnas, não nas ruas. E nós vemos esse fenômeno global do “voto envergonhado” em massa, ou seja, muitas pessoas escondem ou falsificam sua opinião eleitoral (que é conservadora) diante do constrangimento violento da mídia de massa progressista, mas na hora decisiva vota de acordo com a sua consciência.

Algo me diz que no Brasil isso pode acontecer aos milhões. Não sei.

O que sei é que O Antagonista é o grande fiasco do momento para milhares de pessoas, potencialmente até para a maioria simples de seus leitores.

Vejam bem: não é como o caso do pobre Reinaldo Azevedo. Esse coitado pelo menos tem um público cativo que vota no PSDB e acha FHC o suprassumo da política e da vida intelectual. Eles lambem Reinaldo dia e noite.

O Antagonista cresceu com pessoas descontentes com Reinaldo e com a Veja. O seu público é de pessoas que votariam em Bolsonaro ou no mínimo teriam alguma precaução antes de ridicularizar o político dentro da onda das esquerdas.

Que vergonha. Não achava que esses caras eram tão burros.

Pelo menos não são mais tão covardes. Já começaram a dizer com clareza o que pensam de Bolsonaro.

Ótimo. Nós vamos começar a dizer também com clareza o que nós pensamos de O Antagonista.

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Sou um obcecado por autoconhecimento. Se eu achar que você sabe algo sobre mim melhor do que eu mesmo, vou ter perseguir ao quinto dos infernos se for preciso, até que me diga o que viu e o que sabe a meu respeito.

Invisto com facilidade em todo tipo de educação e instrução que ajude no autoconhecimento. Daí que além da minha paixão pelo simbolismo tradicional, tenho fascínio pela técnica da astrologia natal. Esta é mais complexa do que normalmente se supõe. Temos que estudar por vários anos até pegar uma boa noção da coisa. Só depois de muita paciência com decepções, e depois de você passar no rigoroso teste de pensar seriamente que esse negócio todo não presta para nada, é que essa sabedoria começa a aparecer aos poucos.

As recompensas são vastas para quem persevera, mas o tempo até que os melhores frutos surjam costumam ser longos.

A exceção a esta regra é o caso de alguém que tenha dedicação praticamente exclusiva para o assunto, que se aplique com rigor e intensidade, e que tenha também uma facilidade natural, uma predisposição, para este tipo particular de estudo técnico e também para o estudo do simbolismo tradicional.

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06/07/2016

Antes de pensar em converter alguém ao cristianismo, garanta que tenha convertido primeiro a si próprio. Isso poupará os desavisados de muitos vexames. Eu tento falar sempre da experiência cristã com o entusiasmo e otimismo de quem tem uma boa notícia para dar e, paralelamente, falo de questões filosóficas com a consciência da convergência da busca da verdade pelo homem com a busca do homem pela Verdade através da Revelação. Mas sou obrigado a conhecer os meus limites quando entro no terreno da apologética missionária. E esses limites estão naqueles territórios onde, na minha vida, ainda não sou tão bom cristão quanto poderia ser agora mesmo. Nenhuma missão apologética substitui o nosso caminho de confissão, arrependimento e redenção. Em casos muito especiais Deus pode conceder graças excepcionais para o propósito da conversão das almas através das nossas palavras e gestos, e então Ele nos usa como bem entender, mas normalmente a nossa primeira obrigação moral é sempre a da nossa própria conversão. Você não consegue dar o que você não tem.

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Encontre um autor-gatilho: alguém que desperte a sua inteligência rápida e intensamente com pouco esforço, como se fosse mágica. Quando suas baterias estiverem descarregadas, você volta lá e lê o cara.

O meu autor-gatilho preferido é Leibniz. É infalível.

Aristóteles também é tiro e queda, é como tomar um Red Bull.

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O Antagonista, aquele site que saiu da Veja, mas do qual a Veja ainda não saiu, postou uma nota ridicularizando Jair Bolsonaro e seus fãs por um evento no qual aparentemente o político quis fazer um pulo para os braços da galera, mas na verdade teria caído. Publiquei um comentário.

Puro schadenfreude do Antagonista.

Não só com Bolsonaro e com seus fãs, mas indiretamente com o Brasil. Para vocês a entrega do país nas mãos de bandidos não só é um destino fatal como é causa de um prazer sádico.

Vocês têm muito humor, mas não têm muita cabeça. Coisas da vida. Ainda bem que não dependemos muito de vocês.

Voltem para a Lava-Jato e fiquem lá 100%. Agradecemos o serviço com sinceridade. 

Esqueçam Bolsonaro, ou inevitavelmente serão vistos como colaboradores dos tucanos, que não são nada menos que TRAIDORES do Brasil”.

Joguei um peso grande nestas palavras propositalmente, porque de fato a intenção do site é quase que de propaganda, ou no mínimo a de um desejo intenso de supostamente provar uma tese qualquer a respeito de Bolsonaro. No caso, de que a sua popularidade na verdade é baixa, etc.

Eu poderia fazer críticas pesadas também aos militantes de Bolsonaro, especialmente no que diz respeito ao entrincheiramento na internet, o que é bom mas não é suficiente, e sobre o malefício de incentivar toda e qualquer ação do político. Bolsonaro tem que ser incentivado a melhorar. Mas quem sou eu para cagar regras para uma militância, se eu não faço parte dela?

Acredito no voto em Bolsonaro como alternativa ao nefasto esquema de poder que há hoje no país, com PT, PMDB, PSDB, etc. Bolsonaro não faz parte disso, e além de ser honesto é corajoso. Para mim basta. Isso para mim vale muito mais que tal ou qual outra característica do político, que no meu entendimento, repito, precisa melhorar se quiser de fato ser competitivo politicamente.

Na disputa política não basta ser a melhor escolha, tem que parecer a melhor escolha. Especialmente no Brasil.

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07/07/2016

Por mais que eu admire a técnica astrológica, o simbolismo tradicional no qual ela se baseia é intelectualmente superior, mais refinado e preciso, assim como a técnica dialética e a reflexão filosófica em geral são operacionalmente superiores, ou primordiais, em relação ao próprio simbolismo natural. Não sei dizer qual é a margem de erro da técnica astrológica, e nem acho cabível que um dia eu diga isso, mas suspeito que na astrologia natal ela seja substancial. Tanto que os melhores profissionais da área parecem ser muito precavidos, preferem responder perguntas bastante pontuais e de forma breve, sempre falam menos do que deles se espera. É prudente agir assim. Os diversos efeitos pessoais e caracterológicos das decisões individualizadas tomadas pelo uso da liberdade não determinada pelas realidades simbolizadas no mapa natal podem ser enormes. No fundo quem é mais adequado a interpretar um mapa natal de acordo com a biografia real, do que o próprio nativo? Ninguém, eu suponho.

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Eduardo Cunha renunciou a Presidência da Câmara.

Acusou o petismo de perseguição contra si e sua família, etc.

Nós sabemos que além disso a pressão foi grande mesmo era para que permitisse a retirada de Waldir Maranhão da posição de comando da casa, deixando assim que as coisas voltem a funcionar. Possivelmente foi negociado um acordo para que Cunha não seja cassado. Quando um político empossado num determinado cargo diz “jamais renunciarei”, entenda-se o seguinte: “estou esperando saber o que vou ganhar em troca da minha renúncia”. Cunha deve ter descoberto.

É possível torcer para que Cunha acerte as suas contas com a Justiça, e isso inclui evidentemente pagar por tudo o que tenha feito de errado, e ao mesmo tempo agradecê-lo pelo que fez de correto ao país, ainda que por intenções tortas e pessoais. Lembrando que digo isso assumindo integralmente que sou insensível ao sofrimento de comunistas. Lágrimas de petistas existem para serem servidas com gelo e limão no copo, e tomado com gosto.

Disse Cunha na sua carta de renúncia:

Tenho a consciência tranquila não só da minha inocência bem como de ter contribuído para que o meu País se tornasse melhor e se livrasse do criminoso governo do PT.

A história fará Justiça ao ato de coragem que teve a Câmara dos Deputados sob o meu comando de abrir o processo de impeachment que culminou com o afastamento da Presidente, retirando o País do caos instaurado pela criminosa e desastrada gestão que tanto ódio provocou na sociedade brasileira, deixando como legado o saldo de 13 milhões de desempregados e o total descontrole das contas públicas.”

Vale o registro.

Você já pensou a quantas andaríamos se Eduardo Cunha não existisse?

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Leandro Karnal? Nunca tinha ouvido falar até anteontem. E suspeito que muito em breve me esquecerei de sua pouco notada existência como se esquecesse de uma prisão de ventre, de uma dor de cabeça ou de uma unha encravada. Algo desagradável, um mal-estar passado que a sua mente quer esquecer o quanto antes.

Clóvis de Barros? Lembro vagamente, mas tudo indica que seu destino para mim será o das trevas perpétuas do esquecimento eterno no infinito abismo do Nada.

Não tenho nada contra essas pessoas, vejam bem. A palavra é exata, não tenho nada com elas. É como se não existissem para mim.

Eu gostaria de ser surpreendido positivamente por acadêmicos brasileiros. Adoraria destruir meus preconceitos e me tornar otimista num país tão desolado, moral e intelectualmente. Já me tornei otimista com tanta coisa nos últimos anos, porque não poderia acontecer também com os acadêmicos? Bem que poderia!

Poderia, mas os caras não colaboram. Eles imploram para serem ignorados pela abissal e vertiginosa irrelevância de suas “idéias”. Aguardo ainda assim ser surpreendido, não obstante, pois acredito em milagres e não torço pelo pior.

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É possível que a Igreja Católica seja guiada a um desastre doutrinário por uma liderança muito mal intencionada? É.

É possível que os ortodoxos e mesmo os protestantes ajudem os católicos verdadeiros, os remanescentes resistentes às reformas modernistas, a recuperar algo da fé original da própria Igreja? É.

É possível que tanto o Cisma quanto a Reforma tenham sido realidades históricas providenciais compatíveis com a resistência futura da própria Igreja Católica contra a dissolução generalizada do cristianismo na modernidade? É.

Deus faz o que quiser, meus caros.

Mas Ele não deixa de realizar nenhuma promessa. As portas do inferno não prevalecerão sobre a sua Igreja. O fim é garantido. Como nós vamos chegar lá, é outra história. É uma história a ser vivida e decidida a cada passo.

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08/07/2016

Tenho três pais e duas mães.

Meu primeiro Pai é espiritual. Quero dar razões para Ele achar que até que foi uma boa idéia ter me criado no fim das contas, e para que tenha a misericórdia de me levar Consigo ao Céu quando eu partir da Terra.

Meu segundo pai é biológico, cuidou de mim, me fez crescer seguro e saudável para a vida. Quero lhe dar o orgulho por ser um filho grato e honrado. E por realizar coisas boas de um tipo que nossa família nunca viu, mas que através dele se tornaram possíveis, pois me deu abrigo e sustento para que as pudesse fazer por eles.

Meu terceiro pai é intelectual, me deu acesso a uma riquíssima herança de sabedoria, e me deu o incentivo para que participasse do trabalho de cultivo e difusão desses bens como realização da minha vocação. Quero lhe dar o orgulho de ver que eu prestei muita atenção e soube continuar de algum modo o seu trabalho, com dignidade, força e profundidade.

Minha primeira mãe é a que me fez nascer dela mesma, me protegeu, me fortaleceu e me ajudou a vencer os vários desafios da vida. Quero lhe dar o orgulho de ver que valeu a pena essa dedicação, pela qualidade do serviço que eu poderei prestar aos outros.

Minha segunda mãe é cheia de Graças, intercessora por mim e pelos miseráveis da Terra. Quero lhe dar o gosto de ver que eu quis e quero melhorar a minha conduta e me tornar mais obediente ao seu Filho, para que interceda finalmente uma última vez por mim, quando for partir do vale de lágrimas.

Com cinco pessoas tão especiais em mente (para não falar de outras), as quais eu quero agradar e retribuir de alguma forma tudo o que fizeram e fazem por mim (o que é uma dívida IMPAGÁVEL), vocês acham que eu vou perder o meu tempo com o que este mundo espera que eu faça de acordo com suas modas, caprichos e ilusões?

Não tenho tempo a perder, especialmente considerando que três dessas pessoas especiais estão perto ou já passaram de ser septuagenárias.

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Provando, parcialmente, uma tese que eu mencionei ontem: se, por exemplo, Deus odeia o aborto –como estou convencido de que odeia de fato– e concretamente as forças políticas mais decisivas para impedir o avanço da legislação abortista no país são derivadas de grupos herdeiros da Reforma protestante, eu estaria errado em dizer que Deus está usando os protestantes para fazer o bem, e talvez até mais do que consegue usar os católicos de hoje em dia?

Não estou desmerecendo nenhum esforço católico anti-abortista no país, que eu sei muito bem que existe e é muito meritório.

Também não estou ignorando que esses tantos protestantes que estão aí poderiam, naturalmente, ser católicos e defender tão bem –ou melhor ainda– a vida dessas crianças indefesas.

E também não estou ignorando o fato de que a Igreja Católica fez mais pelos protestantes do que o contrário, no mínimo por guardar por muitos séculos as Sagradas Escrituras que estes rebeldes agora usam contra a sua própria garantidora.

Digo, apenas, que a Reforma protestante agiu dentro da realidade da religião organizada, e não nos fundamentos da realidade como um todo. No mundo real Deus continua mandando como sempre mandou. E um protestante pode ser mais santo aos olhos de Deus do que um católico, naturalmente. Pelos frutos os conhecereis.

Não digo isso contra a minha Igreja, Deus me livre, mas até a seu favor: vamos parar de contar vantagem pela nossa nobre origem e sejamos pessoas melhores e mais nobres pelos nossos atos.

Eu não acho que Deus dê mais atenção ao órgão emissor do nosso certificado de batismo do que aos nossos atos de obediência a Ele e de amor ao próximo. Duvido muito, embora isso não diminua em nada o valor exclusivo e especial dos rituais e dos sacramentos da santa Igreja. No fim das contas a Reforma fez parte da inauguração do mundo moderno lotado de monstruosidades inéditas, e nada vai mudar essa história.

É difícil ser justo ao falar de realidades complexas, mas não é impossível.

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Eu não sei dizer o que é essa comichão irresistível, mas algo me diz que estudando Plotino eu vou melhorar o meu entendimento da questão do principium individuationis. E talvez, quem sabe, poderei ao mesmo tempo defender parte do legado de Duns Scot sobre a questão e ainda de quebra mostrar como a arrogância e o desejo de domínio da sabedoria (atitudes francamente anti-filosóficas) foram as verdadeiras causadoras da devastação nominalista. Scot seria, assim, um continuador do realismo tomista. 

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Os Banco Centrais do mundo todo (leia-se: os globalistas) estão usando o Brexit como desculpa para todas as suas maracutaias e pilantragens hoje em dia. São usurpadores e mentirosos na vitória e na derrota, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, per fas et nefas. 

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É óbvio o que diz o Padre Amorth, mas vale sempre frisar: o diabo tenta especialmente aos poderosos. Com o crescimento incalculável do poder de alguns seres humanos sobre os outros no passar dos séculos, ficou mais fácil ao diabo sistematizar e industrializar desgraças em massa.

Neste sentido a separação das localidades políticas e o esmagamento de todo tipo de burocracia estatal, paralelamente ao desmantelamento de todo tipo de monopólio ou esquema concentracionário econômico, deveria ser a prioridade número um de um movimento conservador e contra-revolucionário mundial.

Não dá para derrotar o diabo definitivamente. Quem vai fazer isso será Nosso Senhor Jesus Cristo no fim dos tempos.

Mas dá pelo menos para tirar o diabo do atacado e força-lo a agir somente no varejo, onde a rotina da vida da Igreja já é suficiente para lidar com os seus empecilhos.

O melhor a fazer com um completo psicopata é interna-lo definitivamente, mas enquanto isso não é possível é melhor garantir que ele só possa usar estilingues e pedras, e prevenir que tenha acesso a metralhadoras, bombas e outras armas mais pesadas. É o que recomenda a prudência.

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Quando um anjo estava trabalhando numa panela gerando a sopa da minha alma, o chefe dele lhe disse assim: “é melhor colocar um traço de rebeldia nessa receita aí, mas só um pouquinho”. 

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11/07/2016

Hoje é dia de São Bento, padroeiro dos intercessores.

Orai por nós, São Bento, e pelos que oram por nós!

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Tem gente que “se preocupa” com você a ponto de dar conselhos a respeito de tudo quanto há sobre a face da Terra nos mínimos detalhes, mas se recusa a te dar 100 reais se você pedir emprestado sem dar um prazo para devolver. Preciso explicar a falsidade desta suposta caridade?

O fato é que muitas pessoas se cagam tanto de medo por diversas bobagens que os seus dejetos espirituais transbordam para fora da privada que elas chamam de “vida” e esparramam-se em forma de conselhos e admoestações para terceiros.

Minha dica: não aceite bosta por ouro.

Conselho bom é o que vem de pessoas melhores que você, e não de quem é um náufrago perdido boiando sem rumo no meio de seus próprios excrementos.

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12/07/2016

Quando questionaram porque o LaFerrari não possuía um modo de condução baseado apenas em motorização elétrica, a Ferrari disse simplesmente: “nós não temos interesse em carros elétricos.”

Digo a mesma coisa a respeito da filosofia moderna: não tenho interesse.

Dos modernos (pós-Leibniz) coloco na estante Schelling, Husserl, Lavelle, Zubiri, Voegelin, Lonergan, e os nossos Mário Ferreira e Olavo. Acaba por aí.

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A mentalidade de muitas pessoas é o tamanho de uma casca de noz e você tem que se dignar a dar uma grande atenção a essa coisinha, não somente para não parecer arrogante e pretensioso, mas porque ali atrás daquele pensamento minúsculo há uma alma imortal que vale mais do que um universo inteiro.

De novo: a vida é uma grande lição de humildade. Per fas et nefas.

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Fui no cardiologista ontem.

Médico bom, em primeiro lugar, é velho. Quanto mais velho for, melhor.

Quanto mais honesto for, melhor também. Bom é o cardiologista que já te olha com aquela cara de “você não tem vergonha, seu gordo filho da puta?”

Me perguntou se eu fumava. Disse que sim, mas somente um ou dois cigarros por dia.

“Foda-se”, respondeu ele.

Excelente! Que pena que o mundo não roda mais assim. Vou sentir saudades dessa geração, e já penso nos pobres coitados mais novos que nem a terão conhecido, e que viverão em camisas-de-força sem nem perceber.

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Descobrir-se um fingidor é parte de um nível elementar do autoconhecimento. Descobrir o fingimento em cima do fingimento é a graduação. Descobrir a inutilidade de todos os fingimentos e, por trás dela, a Graça da comédia divina, é a pós-graduação. 

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13/07/2016

Tem gente que nos diz na cara que espera que não tenhamos sucesso, e ainda quer que estejamos gratos pela sua sinceridade.

O tamanho da cara de pau nesses dias não tem limite mesmo. Ou, melhor, o tamanho da inconsciência, porque eu sou generoso e prefiro imaginar sempre que as pessoas não sabem o que fazem. O ego mimado sublimou a sua mais banal percepção da realidade.

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O ramo das revistas de cultura no Brasil é parecido com o de geladeiras no Pólo Norte: nunca vai muito bem por baixa demanda.

A Dicta & Contradicta durou dez volumes até agora. Já comprei tudo, porém li somente a metade por enquanto. Desde a ótima entrevista de Bruno Tolentino na edição inaugural, devo dizer que o nível deu uma caída. Mudaram a periodicidade para semestral. E nem sei mais se não mudaram de novo para uma publicação anual ou bienal, ou ainda quem sabe para uma a cada dez anos. Talvez a cada retorno de Saturno?

A Nabuco chegou ao número seis. Segue firme a vida tentando atingir os dois dígitos. E eu sigo firme comprando (falta ler, confesso).

Tomo conhecimento do mais novo empreendimento no ramo, a Verbum. Assim como no caso das outras duas, é evidente que vou adquirir e prestigiar, torcendo para que dê muito certo.

Esta revista me parece, digamos, mais “católica”. Quem sabe é um bom sinal?

Toda boa sorte a esses bravos.

Se me perguntarem como essas coisas deveriam ser feitas, vão perder o seu tempo. Não tenho a menor idéia. Não estou no mercado da cultura e não faço planos a respeito por ora.

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Falando em mercado editorial, vou ter que importar edições de F. W. J. Schelling, Duns Scot e de Francisco Suárez, porque a indústria brasileira está ocupadíssima editando alguns dos nossos gênios nacionais como Cortella, Karnal, Barros, etc., esses humildes. 

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Para se ter uma idéia do trauma que é uma reforma protestante e do seu potencial nefasto, há que se considerar a posição de muçulmanos tradicionais a respeito do salafismo como causa do terrorismo islâmico, sendo o salafismo um reformismo da religião deles.

Digo isto como um estímulo a pesquisa, e não como formulação de um juízo de qualquer espécie.

Vendo a discussão dentro da religião dos outros podemos ver desperto o nosso interesse em conhecer a história da nossa própria religião, onde ocorreu muito derramamento de sangue no passado em virtude das inovações teológicas que romperam com a nossa própria tradição. Mais profundamente ainda, podemos ver como mesmo depois da pacificação nós vivemos num mundo moldado por esta ruptura cujas consequências sofremos até hoje nos mais diversos campos da vida e do pensamento.

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Stirling Moss, citado pelo Petrolicious: “se tudo está sob controle, você simplesmente não está indo rápido o suficiente. 

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Encaminharei meu texto Sobre a Igreja da Consagração da Rússia a um bom católico que fez recentemente um debate a respeito da Caridade. Quem sabe pode ter bom proveito?

Os capitalistas acreditam que enquanto alguns têm Mercedes-Bens, a maioria terá sempre Volkswagen.

Os socialistas acreditam que o justo mesmo é que todo mundo tenha Lada.

Eu, teimosamente e talvez meio sonhador, acredito que todo mundo pode ter Mercedes-Benz.

Não há problema nenhum de falta de riqueza no mundo. O que há é excesso de gente burra e maliciosa.

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14/07/2016

Quando muito e depois de muito esforço, numa conversação mais elaborada, a maior parte das pessoas consegue montar um raciocínio mais ou menos linear até chegar a umas duas ou três consequências e daí tirar suas conclusões finais. A dificuldade de resgatar erros originários das premissas fundantes do raciocínio é monstruosa, e pior ainda é a capacidade de sustentação especulativa de hipóteses contrárias simultaneamente, mesmo que sejam somente duas.

Daí o problema de se ter uma conversa madura com pessoas que não foram educadas e/ou não têm interesse em descobrir a verdade objetiva sobre as coisas sobre as quais elas fingem ter interesse real. Normalmente o interesse das pessoas não é pela realidade dos fatos, mas pela confirmação de suas próprias opiniões. Isto é fato na maioria dos casos e é consequência de um mecanismo psicológico de sobrevivência derivado do desenvolvimento da razão prática.

Para a maior parte das pessoas o lugar para se começar a tratar as coisas com seriedade não é numa conversação, mas sim numa sala de aula prestando bastante atenção com a bunda sentadinha na cadeira por algumas horas.

Mas vai dizer isso para os outros, para ver só a reação. Você se acha o sabichão, é arrogante, pretensioso…

Na verdade é o contrário. Você foi humilde de se dedicar a um aprendizado real e chama os outros para a mesma atitude de humildade. Mas o convite soa ofensivo.

Haja paciência. Nós temos que resistir e ser caridosos, pois se nos irritarmos temos um explosivo potencial desmoralizante contra pessoas que, no fim das contas são inocentes na maior parte dos casos. Podemos causar sérios prejuízos se dissermos tudo o que sabemos para afogar de vez os desavisados. Mas lembremos: não fomos afogados nós mesmos, fomos pescados e resgatados com caridade e misericórdia.

Os nossos privilégios morais e intelectuais não se constituem socialmente como direitos, mas primeiramente como deveres.

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De novo: a liberdade verdadeira é um bem espiritual.

A liberdade material imita de forma imperfeita, circunstancial e limitada esta liberdade primordial da alma.

Aqueles que não conhecem esse bem espiritual se sentem profundamente ofendidos e ultrajados pela presença daqueles que o conhecem, pois ela lhes lembra da sua obtusidade espiritual voluntária. Ou seja: lembram-se do mau uso da liberdade que efetivamente têm e de cuja consciência não podem se esconder na presença de uma pessoa melhor, assim como baratas não podem se esconder num campo aberto debaixo do sol.

A companhia de pessoas mais livres que nós pode ter pelo menos dois tipos de efeitos. Aos que buscam o mesmo bem o efeito é fortificante, animador e entusiasmante. Aos que fogem desse bem o efeito é a desmoralização, a inveja, a vaidade e o orgulho.

Dito isso é óbvio que quem quer a liberdade deve buscar a companhia de pessoas mais livres.

Se você quer sair do porto e navegar pelo mar aberto, você não precisa de âncoras, mas sim de velas resistentes e bem construídas e de ventos fortes e favoráveis.

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O pessoal que esculacha o Trump nem se dá ao trabalho de, por exemplo, avaliar independentemente da conveniência política da candidatura em si a sua capacidade retórica. Se o fizessem aprenderiam algo, certamente.

O máximo que eu já vi foi um vídeo desmoralizante, afirmando que Trump busca os votos de uma maioria de pessoas mal-educadas por causa da restrição do vocabulário que usa e da constante repetição de termos-chave.

É assim que o esquerdismo emburrece a si mesmo justamente enquanto tenta se fazer de superior: usando como premissa a necessidade de esculachar o adversário esquece-se de prestar atenção aos efeitos reais de seu discurso. Pior: não percebem que a sua atitude é usada como evidência mesma do que Trump busca demonstrar contra o establishment.

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Mais uma carta a um amigo que quero registrar em meu diário.

Questionou-me de que maneira poderia a Lua ter peso maior do que o Sol na astrologia védica, de vez que na tradição ocidental consideramos o Sol mais significante.

A primeira observação necessária é a de que a maior significação da posição solar pode ser mais um costume, e até relativamente moderno, do que de fato uma dignificação permanente. Sou um mero estudante no assunto, então precisaria de muito mais tempo para pesquisar isso e dizer como, dentro da técnica ocidental, nós podemos comprar Sol e Lua.

Pareceu-me pertinente, não obstante, fazer algumas observações sobre as quais já me sinto seguro, não na diminuição da significação do Sol, mas ao contrário, no aumento do escopo do símbolo da Lua.

Tecnicamente a Lua tem relevância especial por ser determinante da mentalidade. Aqueles elementos que aspectam a Lua num determinado mapa simbolizam as nuances que influenciam a mentalidade. E isto não é pouco. A mentalidade representa o modo de percepção do mundo, aquilo a que mais prestamos atenção e retemos na nossa memória e, igualmente, aquilo que com que temos maior disposição para trabalhar imaginativamente. É o modo pelo qual sentimos o mundo, nos lembramos dele e o imaginamos. Ainda assim, o Sol pode ser considerado mais relevante, pois simboliza a inteligência, uma faculdade espiritualmente superior à mentalidade, pois a capacidade de ver a realidade objetiva transcende o nosso modo subjetivo de percebê-la. A Lua representa a impressão que o mundo nos causa, o Sol representa o conhecimento de fato que temos do mundo.

Simbolicamente, porém, é possível estabelecer uma relativa equidade entre os dois planetas.

Antes de mais nada, estes planetas são dois luminares. São especiais, portanto, em comparação com os demais.

Em Gênesis 1:14-15 Deus diz: “Façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos, e resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a terra.”

A resplandescência dos luzeiros que iluminam a Terra, Sol e Lua, indica uma importância especial e exclusiva, e já acentua uma distinção entre o Céu e a Terra.

Você deve se lembrar de que no simbolismo os demais planetas representam algum grau de relação entre Terra e Céu, sendo Vênus e Marte misturas do Céu “solar” com a Terra, Júpiter e Saturno misturas do Céu “lunar” com a Terra, e Mercúrio a mistura dos dois “modos celestes”, solar e lunar, com a Terra.

Mas Sol e Lua, em si mesmos, representam o Céu de uma forma mais perfeita. No dia o Sol representa a presença ativa do Céu na Terra como força que ilumina e permite assim enxergar as coisas, uma força que aquece o mundo, gera a vida, etc. Mas e a Lua?

Na noite a Lua representa a Terra que acolhe o Céu em si. Pois o que é a Lua? A Lua é um pedaço da Terra que reflete passivamente em si a luz do Sol tão bem que consegue ela mesma iluminar a própria Terra. A Lua é a Terra que acolhe o Céu em sua intimidade, de forma passiva. É a memória do Céu que permite, mesmo durante a noite escura, a orientação dos homens no mundo.

Mais ainda. A Lua representa, ao seu modo, uma familiaridade da Terra com o Céu. Digamos que, se a Terra fosse o Céu, seria como a Lua, ou ainda, a Terra que imita mais perfeitamente o Céu é como a Lua. É o máximo de familiaridade que a Terra consegue ter com o Céu.

Para ajudar, podemos também dar uma olhada no simbolismo que associa os planetas a diversos personagens da tradição: Marte com o Rei Davi porque foi especialmente corajoso, Júpiter com Moisés porque trouxe a Lei de Deus ao mundo, Saturno com Abraão porque foi obediente a Deus, etc.

Em algumas tradições associa-se a Lua com Adão, porque ele foi feito a partir da Terra à imagem e semelhança de Deus no Céu.

Para compreender bem este símbolo, pense em Adão antes da Queda: ele era o cume e a coroa da criação terrestre. Podia chamar todo o Universo de lar e já vivia em um estado paradisíaco, de perfeição.

Nós precisamos da salvação porque nascemos da natureza da Queda, mas Adão não foi criado dependendo de nenhuma salvação, pois foi feito de forma perfeita e completa por Deus. Essa talvez seja uma boa dica do que a Lua representa simbolicamente.

A Lua pode representar, assim, uma espécie de perfeição paradisíaca que a Terra pode ter quando ela é perfeitamente passiva e quando deixa refletir em si a luz do Céu.

Espero que essas observações possam ajudar a refletir sobre o simbolismo da Lua.

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O debate entre o Marco Feliciano e o Felipe Neto não é relevante.

Pode ser significador como um sintoma de alguma coisa, mas não é importante em si. E eu não devo perder tempo explicando o porquê, então não me perguntem.

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15/07/2016

Um lunático matou dezenas de pessoas ontem em Nice, na França, no momento da comemoração da tomada da Bastilha.

É um evento horrível ocorrido durante a lembrança de outro momento horrível por tudo o que simboliza para a história do Ocidente, e que definitivamente não deveria ser comemorado.

A história da França explica de certo modo tudo o que há de ruim no nosso mundo de hoje.

É razoável supor que a história futura deste país exiba os desdobramentos de tudo o que foi plantado até hoje na modernidade. Não esperem boas notícias.

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A reclamação de muçulmanos pacíficos sobre a culpa das lideranças ocidentais pela criação das monstruosidades terroristas de origem saudita, salafista e wahhabita, soa tão suficiente e razoável quanto, por exemplo, a reclamação de católicos sobre a culpa da infiltração da KGB pela criação da Teologia da Libertação.

Desde quando culpar o mal é uma desculpa legítima para não fazer o bem?

Os maus fazem o seu serviço, e sempre o farão.

Os bons devem fazer o seu serviço também –e devem por obrigação moral fazer mais e melhor.

Apontar culpados não resolve muita coisa, pois seria ingenuidade nossa achar que estas pessoas se arrependeriam de suas ações, como se não quisessem precisamente criar todos os malefícios que criam. Ou mais ingênuo ainda seria esperar que um anjo vingador viesse finalmente nos resgatar da nossa situação, um evento especial que está agendado somente para o fim do mundo.

Embora esse apontamento das causas possa fazer a devida justiça histórica, ele não é o fim da discussão dos problemas, mas o seu começo. O entendimento tem que ir para trás, mas a ação tem que ir para frente. Nós conhecemos o passado, mas vamos viver no futuro. Enquanto não inventarem uma máquina que permita a migração no tempo, é assim que vai funcionar o negócio aqui.

Digo isso sem desejar diminuir em nada o mérito da ação justa de condenação e de guerra efetiva de muçulmanos tradicionais contra o ISIS e o terrorismo em geral. Ao contrário, nossa esperança deve ser a de que aumentem a energia dessas iniciativas e consigam vencer a guerra. Minha idéia não é fazer uma crítica petrificada, e sim incentivar a implementação de soluções reais, principalmente vindo do próprio mundo islâmico. O que quero dizer é que a mentalidade de distribuição de culpas e responsabilidades é limitada e deve ser complementada.

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Estou testando a minha capacidade de escrever em inglês. Textos de inspiração produzidos para o Pinterest:

RH – Sing me a song of goodness, so we can remember who we really are.

RH Art – The Good. As the Great Heavens disposes the natural world in somehow a chaotic fashion, because it is only an part of Itself, the discovery of goodness inside us turns our mood resistant and even immune to outside chaos delivered by the necessary shadows of natural creation. We remember our origins and feel good about it, because is a sanctuary of eternal peace.

WB – Use the colors and shapes of beauty, so we can seek for the peace of the Lord.

WB Art – The Beauty. The reality is magical as feeds in it’s deep source, and all that is necessary to see it is focus and heart opening. There is no moral  or reasonable opposition, or conflict, to what is truly beauty. We receive the strong peace and rest that is reserved to those who seek for the infinite blessing of the Creator.

JM – Tell me what you see and lead the persuit for the truth that will make all of us free.

JM Art – The Truth. Being seriously sincere and even sober is a safe path to spiritual freedom in a world of chains disguised as helpful tools. The untold wisdom that resides in the rejection of the arbitrary liberal lifestyle consists in the true liberty that bless those who seeks for the truth. What was apparently boring actually is a colorful happiness and endless joy of living in the way of the wise.

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Noticiário em polvorosa, apenas um dia após o terrível ataque na França.

O Congresso americano liberou as famigeradas “28 pages” confidenciais do Relatório 9/11. Vou ler. O que já dizem é que as impressões digitais do governo saudita estão muito evidentes. Isso poderia reforçar a idéia de Trump a respeito de uma revisão substancial das relações com este caro “aliado” americano.

Na Turquia, as notícias são de uma tentativa de golpe de estado de militares contra o governo de Erdogan. Reporte de tiroteios nas ruas e caças sobrevoando a capital Ankara.

Lembrem-se de que a Turquia não é a Síria, e nem mesmo o Iraque. É um país membro da OTAN e controla o acesso ao Mar Negro (leia-se: Rússia).

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Quando muita coisa explode no noticiário ao mesmo tempo, é conveniente observar se uma notícia não foi provocada para abafar outra mais importante, mas mais discreta.

Não é paranóia. O nome disso é prudência.

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18/07/2016

Muitas fontes relatam que o golpe contra Erdogan foi na verdade um golpe do próprio Erdogan para esmagar opositores e reprimir o sistema democrático na Turquia. A julgar pelos rápidos desdobramentos da última sexta-feira e a tão veloz “estabilização” do país, a hipótese de tudo isso ter sido um show aumentou.

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Da mesma forma o aumento da quantidade de ataques nos EUA contra civis e policiais poderia perfeitamente ensejar a instalação de um regime provisório especial que permitisse a Obama cumprir alguns itens de sua agenda que ainda não foram realizados. O maior destaque de todos obviamente é o tema do porte de armas regulamentado pela 2ª Emenda. Minha impressão é a de que os americanos não serão amedrontados, tanto quanto os ingleses não o foram. Ao contrário, sentir-se-ão mais motivados para votar em Trump como os ingleses votaram pelo Brexit. 

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Tem quem faz o que gosta, tem quem gosta do que faz, tem quem não faz o que gosta e tem quem não gosta do que faz.

Quem faz o que gosta é a pessoa mais feliz do mundo, porque quer tudo o que lhe é devido e tem tudo aquilo o que quer.

Quem gosta do que faz é a segunda pessoa mais feliz do mundo, porque satisfaz-se com aquilo o que tem, ou por ter pouca ambição, ou por gozar de um grande conformismo.

Quem não faz o que gosta é a pessoa mais infeliz do mundo, ou porque gosta do que não lhe é devido, ou porque não conseguiu alcançar o que lhe é próprio na vida, mesmo sabendo o que seja.

Quem não gosta do que faz é a segunda pessoa mais infeliz do mundo, porque não consegue satisfazer-se com o que tem, ou por ter uma ambição desmedida, ou por sofrer de um mal de inconformismo.

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Se nós pegarmos, pelo simbolismo tradicional que usamos na astrologia, as principais Partes da Vida (que chamamos de “Casas Angulares”), veremos que há embutido no entendimento do que estas Partes simbolizam as formas de obtenção de poder real no mundo, ou ainda as suas origens.

Autonomamente, cada Parte simboliza, respectivamente: a primeira, o autodomínio, ou a capacidade individual; a quarta, a estrutura familiar, hereditária e dinástica; a sétima, a sociedade privada como expansão da estrutura familiar (clãs e tribos); e a décima, a sociedade pública, como a organização das sociedades privadas numa grande estrutura de poder (a nação).

Quem ignorar as formas de relação entre estas quatro estruturas de poder não conseguirá consequentemente compreender as bases profundas de ação real nas áreas em que o abstracionismo ensinado pelas ciências sociais pretendeu substituir os fundamentos concretos da vida social pelas figuras impessoais de agentes coletivos e históricos.

Por exemplo, os liberais em geral não compreendem que por trás dos grandes agentes do mercado financeiro e dos grandes aglomerados industriais existem famílias que constituem unidades autônomas de poder, com seus próprios interesses e objetivos para além da mera participação no sistema de trocas. Quando você os lembra disso, eles entendem isso como um apelo a “teorias da conspiração”, pois parece irracional que grandes agentes econômicos pensem em objetivos não-econômicos.

Quando os poderes globalistas, seja o ocidental ONU/Governo Mundial, seja o comunista/eurasiano russo-chinês, bombardeiam de comum acordo as bases culturais das estruturas familiares de seus adversários e dos sentimentos de nacionalismo e de patriotismo, quais sejam, o poder nacional norte-americano e o israelense e toda a cultura judaico-cristã, é reconhecendo nisso o poder que há de famílias e de nações de se opor ao seu projeto de poder global.

Voltando ao simbolismo, há que se notar, ainda, que a ordem temporal das Partes é diversa da ordem das suas respectivas dignidades.

A ordem temporal das Partes é um reflexo da própria ordem biográfica do ser humano e também um reflexo da ordem da história. Lembro-me de uma citação do vilão de Star Wars, Darth Plagueis, que reflete muito bem esse ordenamento: “You must begin by gaining power over yourself; then another; then a group, an order, a world, a species, a group of speciesfinally, the galaxyitself.”

Por outro lado, a ordem de dignidade das Partes, seguindo o que informa William Lilly no Christian Astrology, é diferente, porque as Partes IV e X trocam de lugar.

Ordem de evolução temporal: I, IV, VII e X.

Ordem de dignidades: I, X, VII e IV.

Porque as ordens são diferentes?

A Parte I é não só a primeira temporalmente, mas também a de maior dignidade, porque ela simboliza aquilo que é mais necessário para o exercício de qualquer tipo de poder: a existência e a capacidade individual de agir. O poder que a família tem está concentrado no seu chefe que, enquanto tal, é um indivíduo. O poder de um casamento, de uma sociedade privada, ou mesmo de uma nação, também é representado pela posição de chefia que concentra aquele poder e o exerce a partir de sua individualidade. Quando o indivíduo é fraco, ele desaba e com ele toda estrutura de poder que o tenha como líder. Aquele que não domina a si próprio, as suas paixões e vícios, não é capaz de receber e fazer bom uso dos poderes de sua família ancestral, também não é capaz de constituir uma nova unidade de poder através de um casamento, e muito menos é capaz de governar grupos de pessoas ou mesmo uma nação inteira.

A Parte IV, embora seja a segunda na ordem temporal, é a última na ordem das dignidades, porque é a menor reunião de poder que existe. Um clã ou uma tribo pode ser mais forte e duradouro do que uma família, bem como, modernamente, vemos ocorrer com a história das empresas mais tradicionais. Embora a família seja a base e origem de tudo, ela vê o seu poder aumentar conforme se transforma em outras estruturas, que são representadas pelas outras Partes.

A Parte VII está em terceiro lugar na ordem temporal tanto quanto na ordem de dignidades.

A Parte X ocupa o último lugar na ordem temporal, mas é a segunda mais digna depois da esfera do indivíduo. Isso ocorre porque esta Parte representa a autoridade temporal do chefe de todos os indivíduos, famílias e sociedades dentro da grande família que é a nação. A origem da Lei que todos obedecem, e a autoridade que submete a todos igualmente, é o tipo mais elevado de poder e de responsabilidade que existe, excetuado o poder individual que, como já vimos, é o fundamento primordial que sustenta o próprio chefe da nação.

É mais natural e ordeiro, portanto, que os melhores indivíduos sejam os maiores recipientes dos bens familiares, que sejam os mais bem casados e férteis, que sejam líderes em seus respectivos setores de atuação na sociedade, e finalmente, para os melhores entre os melhores, é justo que ocupem intercaladamente o poder maior da nação.

Se há algo que prova a decadência de uma sociedade é a ocorrência de os piores indivíduos assumirem as posições de maior poder. Isso gera confusão e degeneração moral, corrupção e tirania.

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Só se pensa que a idéia da Caridade como força organizadora da economia e da política é de grande ingenuidade porque faz tempo que não vemos governantes que encarnem e exerçam concretamente essa força. Esse estado de coisas não libera ninguém do dever civil, pelo contrário. 

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Estou cada vez menos disposto a investir meu tempo nos Doze Temas e, ao mesmo tempo, cada vez mais disposto a investir na absorção e divulgação da sabedoria tradicional dos grandes filósofos, Doutores da Igreja, etc.

Ao fim e ao cabo, qual seria o discurso unificado dos Doze Temas numa versão atual, e que fosse a mais simples possível?

Adquire-se a sabedoria mediante três processos concomitantes: aceitação na imanência, contemplação na transcendência e libertação na obediência.”

Este é um resumo suficiente dos Doze Temas. Pergunto eu, então: há algo de novo nisso tudo? Não é essa a sabedoria que se ensina há muitos séculos?

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A única forma saudável de entender a política é a clássica e tradicional: a atividade política é intermediária de dois tipos de interesses humanos, os imanentes e os transcendentes, e ela atinge o seu objetivo quando há o governo para atingir esses objetivos, formado por homens justos sobre um povo que reconhece e aprende a viver de forma justa.

Não existem destinos coletivos e, portanto, não existe sentido algum na história dos povos, reinos e nações. O que existe é o destino individual, e o que tem sentido é a biografia de cada alma que viverá neste mundo desde o momento em que nasce o indivíduo até quando ele morre.

Todos os manuais sociológicos, antropológicos e históricos que tentam demonstrar o sentido da história da humanidade o seu destino futuro são absolutamente inúteis.

Politicamente o que deveria mover todos os entendimentos seria a apreensão do que é a virtude da Justiça e as melhores maneiras de se viver isso na prática. O resto é conversa mole.

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19/07/2016

É difícil encontrar na nossa cultura um estudo a respeito de filósofos antigos que não seja somente um resumo de suas idéias explicadas exaustivamente como produção de um determinado período histórico e como capítulo compreensível à luz da evolução da história das idéias.

Ninguém escapa, nem mesmo Platão e Aristóteles.

O curioso é que cada um dos grandes filósofos quis fazer justamente o contrário do que se supõe que queriam. Esta metodologia acadêmica herdeira do historicismo e do sociologismo arrisca sempre fazer perder o que é essencial das idéias desses grandes mestres.

Porque a melhor parte do ensinamento desses “pensadores” não é aquela que reflete os costumes e mentalidades de suas respectivas épocas, mas justamente o contrário. A parte que mais vale é a que transcende a compreensão histórica e atinge o patamar da verdade apodítica, atemporal e indestrutível.

Uma boa idéia filosófica não é resultado da condensação do pensamento típico da época em que é produzida, e nem é melhor compreendida como peça integrante de uma história superior que a abarca como se fosse um mero mecanismo. Uma boa idéia filosófica é aquela que vale para todos os homens de todos os tempos, e o bom filósofo é aquele que nos ensina sejamos nós de qualquer lugar, ou de qualquer época.

Platão e Aristóteles, retirados de seu valor real de mestres que nos levam a contemplação da verdade, são meros autores datados com uma determinada importância histórica. Eu entendo que os historiadores e sociólogos leiam os filósofos assim, mas não é assim que eles mesmos se lêem uns aos outros.

Da mesma forma hoje qualquer sujeito pode ler um mestre antigo buscando o conhecimento da expressão de uma época, ou ainda a compreensão de uma fase da história das idéias, mas não estará com isso fazendo filosofia. Faz filosofia aquele que ama a verdade, e aquele que ama a verdade estuda um mestre antigo buscando o conhecimento que ele tem e que continua perfeitamente válido ainda hoje.

Digo isto porque a minha pretensão de estudos é a de resgate da sabedoria tradicional pela atualização de sua mensagem com o maior rigor e seriedade possível, jamais o de contextualização histórica e sociológica. Vejo com clareza que a história e a sociologia, por mais méritos que tenham, são intelectualmente inferiores à filosofia em si, que busca um alvo maior e que é capaz de alimentar, por isso mesmo, todas as ciências menores com suas respectivas premissas e princípios metodológicos.

Definitivamente a minha pretensão, embora não seja nada ambiciosa no sentido da criatividade ou da originalidade –porque pretendo tão somente divulgar as idéias de grandes mestres do passado–, é elevada em comparação com o que costumeiramente se produz no ambiente acadêmico, e neste sentido sou conscientemente ambicioso.

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A minha vontade de ler e comentar as notícias do dia-a-dia diminui na razão direta com que aumenta o desejo de fazer leituras comentadas dos grandes mestres antigos.

Adicionei no índice de autores recomendados do meu site os nomes dos Doutores da Igreja, embora alguns poucos deles não sejam oficialmente reconhecidos como tais.

Os nomes são: Santo Atanásio, Santo Hilário de Poitiers, Santo Efrém da Síria, São Cirilo de Jerusalém, São Gregório de Nazianzo, São Basílio de Cesaréia, Santo Ambrósio, São Jerônimo, São João Crisóstomo, São Cirilo de Alexandria, Leão Magno, São Pedro Crisólogo, São Gregório Magno, Santo Isidoro de Sevilha, São Beda, São João Damasceno, São Gregório de Narek, São Pedro Damião, Santo Anselmo, São Bernardo de Claraval, Santa Hildegarda de Bingen, Alexandre de Hales, Santo Alberto Magno, Santo Antônio de Lisboa, Roger Bacon, Raimundo Lúlio, Santa Catarina de Sena, Nicolau de Cusa, São João de Ávila, Santa Teresa de Ávila, São Pedro Canísio, São João da Cruz, São Roberto Belarmino, São Lourenço de Brindisi, São Francisco de Sales, Santo Afonso de Ligório e Santa Teresinha do Menino Jesus.

Sinceramente, pode alguém, diante de 37 pesos-pesados como estes (fora as dezenas de outros mestres da filosofia e da literatura), ter ainda interesse pela leitura de um negócio chamado Folha de S. Paulo?

O trabalho de clipping e media watch era de outra natureza, eu sei. A idéia é passar na peneira o processo de formação da opinião pública e alertar os desavisados. Sei que este trabalho tem a sua importância, e talvez eu deva voltar a isso de algum modo na minha rotina futura.

Mas também sei que mais vale ingerir alimentos nutritivos do que remédios que curem as doenças causadas pelo consumo de alimentos tóxicos.

É melhor, por ser mais eficiente, recomendar não ler a grande mídia de jeito nenhum e ao mesmo tempo incentivar a busca pela sabedoria de grandes mestres, do que trabalhar cotidianamente na correção dos desvirtuamentos do jornalismo nacional, que é um trabalho como de um Sísifo, eternamente rolando pedras no Inferno.

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Discretamente, aqui e ali, eu reconheço os discretos olhares daqueles que se decepcionam com uma entrega total à vida intelectual, como se fosse algo nonsense ou démodé.

Satisfatoriamente recolho-me e evito uma discussão inútil, e continuo na minha humilde jornada, aguardando quem sabe o dia em que uma dessas decepções não se contenha mais e transborde para se tornar então uma crítica efetiva.

Se esse dia chegar fico tranquilamente convicto de que, se de todas as partes os argumentos forem propostos e organizados, preferencialmente por escrito, com a clareza necessária, a minha vitória seria total e absolutamente devastadora.

Talvez, na suspeita intuitiva de que o transbordamento explícito da decepção resultaria numa humilhação completa e catastrófica, os seus portadores contenham-se e limitem-se aos olhares mudos.

Quando nossas crenças são fundamentalmente fracas e nós somos covardes, prudentemente nos precavemos de expô-las à reflexão séria. Nesse instinto de autoproteção é que nos acovardamos da missão humana de buscar a verdade e, com ela, a libertação que nos foi prometida.

Tudo tem um preço na vida. O preço do conforto de viver de acordo com crenças irrefletidas é o de ficar preso a elas. Cada um sabe de si.

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Assisti ontem um documentário assustador sobre Tony Robbins, Eu não sou o seu guru.

É assustador você ver uma pessoa suicida pagar quase 5 mil dólares para se humilhar diante do popstar motivacional e de outras 2 500 pessoas, apenas para ouvir que não deve se matar porque é especial e “no fundo sabe disso”.

É assustador você ver uma pessoa pagar tanto dinheiro para ouvir algo como “ligue para o seu namorado e termine agora com ele, você sabe que o está usando”, e ver a pobre coitada da pessoa submissamente fazer isso, como se estivesse na frente de um Profeta de Deus.

Entre outras barbaridades.

Robbins é um orador profissional descrito pelos próprios colegas e clientes como se fosse uma máquina apocalíptica do otimismo absoluto, como um ciborgue cuspindo energias positivas nas caras de todos. No ritual preparatório dele parece que vemos uma mistura de Britney Spears com o Exterminador do Futuro.

É ótimo que ele motive as pessoas a buscar melhorar suas porcas vidas fazendo o básico do básico: ser honesto com seus desejos, planejar e executar. Se ele cobra muito ou pouco por isso, é um problema entre as partes.

É péssimo, porém, que ele claramente não ligue muito para o ensino de uma virtude sequer que não seja apenas o dessa sinceridade básica, que em si mesma não é propriamente uma virtude, mas apenas uma sombra do que seria a Sabedoria. Ao contrário, ele esbarra em riscos graves de estímulo ao Orgulho, que é o mais nefasto de todos os vícios. Às vezes nós vemos aqui e ali um sinal de elogio à Caridade, mas muito longe do que seria realmente necessário e justo.

De tudo que foi mostrado ele apenas não terminou muito mal porque em seu depoimento pessoal reconheceu a grande dependência da Graça em determinado evento decisivo de sua vida.

O que podemos concluir por ora é que esse é um ramo perigoso. Eu jamais me meteria com esse tipo de coisa, e se me perguntarem direi que esse tipo de coisa não deve ser feita.

E vemos também, tomando esse evento como sintoma de nossa época, como ficam perdidos os membros de uma sociedade em que a religião entrou em decadência.

Se o cristianismo não fortificar e se restabelecer culturalmente, posso dizer com segurança que nem um exército de Tony Robbins poderá resistir sequer por cinco minutos ao Islam. Será desfeito como papel usado enfiado num picador.

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20/07/2016

A cada dia que passa O Antagonista fica pior.

Não bastasse publicarem uma notícia absolutamente falsa intitulada “O GOLPE VENCEU”, a respeito do evento ocorrido na Turqua na sexta-feira passada, arrogantemente eles ainda não publicaram uma nota sequer pedindo desculpas aos seus leitores pelo erro crasso.

É assim que se joga uma reputação no lixo em cinco minutos.

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Esse negócio do Erdogan me lembra o incêndio do Reichstag. Goering entregou a Alemanha nas mãos de Hitler criando um falso caos. 

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Nós presenciamos milagres todos os dias. Não faltam sinais da presença de Deus na vida, o que falta é uma atenção consciente e realista. O que nós aprendemos com o ensino cientificista moderno não é realismo, é “toupeirismo”.

Dito isso, eu não acredito que seja necessária uma imersão numa iniciação mística ou religiosa que nos faça lembrar das coisas mais óbvias do mundo. Ninguém precisa buscar um caminho esotérico de iluminação para enxergar melhor as coisas, basta tirar a cabeça do buraco.

Ao contrário até, uma iniciação numa seita pode ser prejudicial por jogar indivíduos deslumbrados nas mãos de indivíduos manipuladores que vendem ar por perfume e se colocam como os “guardiões do portal da verdade”.

O caminho da sabedoria é a humilhação e a confissão diante de Deus, e a busca sincera pela verdade. E o Mestre dos mestres é Jesus Cristo.

O resto é papo de vendedor de carro usado.

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21/07/2016

Acredito que é impossível ouvir muito Bach e não ficar um pouco mais inteligente. A música educa os nossos sentimentos morais. Recomendo muito Bach, Beethoven, Mozart e Wagner. Se você ouvir muito desses caras e não ficar um pouquinho mais nobre, é porque você não presta mesmo.

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Ontem à noite, no caminho de volta do trabalho para a minha casa, encontrei na rua um agent provocateur que dirigia insanamente o seu possante em busca de quaisquer cinco centímetros de vantagem espacial, e que parecia não aceitar de forma alguma que eu simplesmente tivesse chegado na sua frente no trânsito. Queria reverter essa situação a todo custo. Saiu finalmente ao lado esquerdo dando buzinadas e me tirou tanto do sério que fui atrás dele quase que querendo martelar a traseira do seu carro e quebrar a sua cara. Ele me provocou tanto que parece que era isso mesmo o que ele queria.

O que é um agente provocador? É alguém que incita você a fazer algo errado visando algum benefício.

Na semana passada assisti Os Oito Odiados, do Tarantino. Não é meu tipo de filme, já posso adiantar. Mas é divertido ao seu modo. Numa determinada cena o Major Marquis provoca o General Smithers para que este o atacasse e justificasse, assim, a consumação do seu assassinato. É um exemplo. Há muitos exemplos na literatura e no cinema, tanto quanto na vida real.

O vício que nos faz cair nesse truque é evidentemente o da ira. A ira é um daqueles pecados mais pesados que não fornecem prazer físico, mas apenas uma satisfação odienta do coração. É o famoso vício que fez Aquiles amarrar o corpo de Heitor em sua biga e desfilar arrastando-o na frente dos exércitos.

Quando falamos de luxúria ou de gula, sabemos muito bem que a carne é fraca por causa do prazer. A alma simplesmente dispersa suas energias. Quando falamos de preguiça, a coisa começa a ficar um pouco diferente. Na preguiça ainda há um prazer físico, mas há já uma profundidade espiritual maior nesse erro, um entorpecimento da alma que renuncia a sua principal atividade: a animação do corpo. Quando vasculhamos os infernos mais fundos encontramos a cobiça e, mais fundo ainda, a ira. Já não é mais o corpo que vicia a alma, mas ela é que de algum modo vicia a si mesma num mal maior. E isto frequentemente não causará prazer físico, mas até o contrário.

Se você perceber-se cuidadosamente após uma explosão de ira, verá que o corpo carrega uma energia ruim que causa uma sensação de desconforto e de sufocamento. O vício pede o seu descarregamento. Agora que aquela energia nefasta foi gerada porque a alma pecou pela ira, o corpo padece e gera essa tendência maligna de causar o mal aos outros. Se isso ocorre, aumenta-se as chances de se criar as situações necessárias para que mais ira seja gerada, e consequentemente que mais violência ocorra. Fica cada vez mais difícil interromper o fluxo belicoso, ou seja, a cada novo recrudescimento é necessária maior santidade para o perdão e para a pacificação, pois cada novo ato de provocação parece ser mais inaceitável que o anterior.

A provocação inicial tem como objetivo ativar esse processo todo, que é cada vez mais difícil de ser contido conforme o ímpeto violento cresce. A cada passo dado nesta direção a racionalidade se esvanece na mente do irado, e o vício pode fazer chegar ao ponto de gerar as reações mais bestiais.

É claro que o sujeito que me provocou era apenas um idiota, provavelmente provocado antes por outras situações e mesmo por outros motoristas, etc. Serviu, não obstante, ao propósito maligno de fazer espalhar-se pelo mundo aquela ira subterrânea que habita em nós, através da provocação. E causou em mim “os instintos mais primitivos”, ou ainda, “the primordial instincts to kill”.

Olavo tem razão: sem Cristo em nós, somos somente lobos e vampiros sanguinários, torturadores de nós mesmos e dos outros.

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Por mais meticuloso que eu seja na análise e comentário de textos importantes, não farei uma análise linha por linha. Prefiro meditar linha por linha, e escrever com fluidez e liberdade sobre o que me interessa mais. Dez parágrafos de um autor relevante podem passar sem uma palavra a respeito, e de repente uma única frase merece vinte páginas de reflexões.

De que me adianta escapar das garras burocráticas do academicismo moderno se for apenas para imitar livremente a sua aridez e petrificação?

Isso é como aquilo que disse outro dia a Rita Lee sobre o casamento gay. Não faz sentido nenhum os gays lutarem a vida inteira para ter a liberdade de viver fora do esquema tradicional da família para depois querer imitar o mesmo esquema do seu jeito. É totalmente nonsense do ponto de vista libertário.

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Alcancei hoje 200 páginas em meu diário de 2016. Poderia já ser o dobro disso, se eu não estivesse ocupado com outras coisas.

Aproveito para anunciar que não desisti da minha redução de peso. Estou apenas adiando esse encontro definitivo com a frugalidade, com os jejuns, com uma vida mais virtuosa, etc.

Digo isso sendo bem sincero. Eu poderia ter vergonha de dizer algo assim, mas verdadeiramente mais vergonhoso é dar desculpas esfarrapadas, como a maioria faz.

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Eu votei favorável ao projeto [Escola Sem Partido] e pedi para que todos o fizessem. O que não nos impede de pensar mais no assunto.

Rommel dizia que não se deve lutar uma batalha se não for ganhar nada com a vitória. Me lembra um pouco esta situação, não porque o ESP não tem nada a ganhar, mas talvez seja muito pouco.

Um erro do movimento Escola Sem Partido é conceder aos seus adversários um privilégio que eles não devolvem: o do direito de dividir igualmente o espaço público de ensino e de discussão. Os comunistas não fazem isso, eles ocupam espaço e ponto final.

Neste sentido, o ESP é um movimento fraco. Forte será (se existir um dia) um movimento conservador e cristão que diga claramente, sem medo de ser feliz: “nós somos CONSERVADORES e CRISTÃOS, e gostamos de ser, muito obrigado”.

O movimento ESP pode até ganhar, mas não vai levar. Se derrotar a doutrinação e manipulação esquerdista por um lado, vai fortalecer o laicismo cientificista moderno por outro, pois o reconheceu como interlocutor e mediador favorável dentro da sua estratégia, mais ou menos como os movimentos de rua fizeram com o impeachment ao prestigiar excrescências políticas como o PSDB e o PMDB.

Não há virtude na suposta justiça laica de se ensinar igualmente todos os pontos de vista sobre um assunto, simplesmente porque esses pontos não são igualmente bons. Não existe justiça laica, essa que é a verdade.

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Provando o que acabei de dizer:

A justiça deriva da sabedoria.

O laicismo é uma ideologia.

Nenhuma ideologia cultiva a sabedoria.

O laicismo não cultiva a sabedoria.

A justiça não pode derivar do laicismo.

Não existe justiça laica.

O que existe dentro de um sistema laico é a reprodução pela via representativa dos costumes e tradições não laicos da sociedade que, estes sim, levam eventualmente a aplicação de alguma justiça verdadeira. Mas vejam que isto é apenas uma possibilidade. O laicismo existe precisamente para deixar sempre aberta a possibilidade contrária a aplicação da sabedoria tradicional e dos costumes do povo.

Dizendo de outro modo: o que faria o movimento ESP funcionar na prática não seria de jeito nenhum os seus princípios laicos, mas o uso que os conservadores fariam desses princípios a seu favor. Ou seja, a necessidade de uma ação conservadora positiva é evidente. Seriam os conservadores que iriam processar judicialmente os doutrinadores e manipuladores esquerdistas em atuação nas escolas, não é isso?

Se ficarmos apenas com os valores laicos, nada impediria que as escolas fossem mais entupidas ainda com lixo do que já são hoje, a tal ponto que já não seria mais possível fazer o menor discernimento de valor entre quaisquer idéias ensinadas, porque tudo seria diluído no caldo relativista do laicismo. Parabéns: você derrotou o comunismo e colocou no seu lugar o desconstrutivismo niilista.

Como professor eu não me imagino jamais dizendo aos meus alunos: “muito bem, aqui tem São Tomás de Aquino, e aqui tem Jean-Paul Sartre. Vou ensinar igualmente os dois e vocês escolhem o que for de sua preferência, que eu não tenho nada a ver com isso, ok?”

Prefiro ensinar os alunos a estudarem São Tomás e a jogarem Sartre no lixo, se possível, é claro, explicando brevemente os motivos. Isso, para mim, é ser um bom professor, é o papel mesmo de um professor. Que bom filho da puta eu seria deixando os alunos desorientados no meio da baderna das idéias? Um médico deixaria seus pacientes tomarem qualquer remédio, ou fazerem qualquer tratamento, em nome de uma suposta justiça da igualdade de alternativas? Quantos anos eu não perdi com Schopenhauer, por exemplo, que nem é um autor tão ruim assim, quando na verdade deveria estar estudando Platão e Aristóteles? Quem me dera ter alguém para me avisar antes que perdesse tanto tempo. Sendo justo, não foi uma perda total, mas foi uma de relativo baixo aproveitamento, fora que causou os danos naturalmente consequentes de uma filosofia, digamos, espiritualmente “desamparada”.

Leiam S. Tomás e joguem Sartre no lixo, tranquilamente. Confiem.

Não esqueçam que do outro lado da rua tem um comunista dizendo exatamente o contrário: “estudem Sartre e queimem os livros de S. Tomás”.

É meio inevitável no fim das contas que cada um vá fazer individualmente as suas escolhas pessoais a respeito desses assuntos. A obrigação de cada educador é cumprir a sua missão de transmitir aquilo que tem a ensinar. Achar que se resolvem os problemas obrigando os professores a ensinar qualquer coisa indiscriminadamente é como se querer evitar a intoxicação alimentar liberando o consumo de qualquer tipo de alimento em qualquer condição.

Não é mais correto e também mais fácil indicar apenas o alimento que é nutritivo e evitar a distribuição do que é tóxico?

E quem faz o discernimento entre o que é nutritivo e o que é tóxico na sala de aula, a distinção entre o que faz bem e o que faz mal? Não é justamente a porra do professor? Ele não está lá justamente para isso?

No mundo ideal nós teríamos plenas condições de fazer cursos e seminários inteiros para demonstrar minuciosamente e definitivamente todos problemas no pensamento de Sartre, porque já teríamos também garantido antes a transmissão segura de outras tradições filosóficas. Mas é isso o que acontece no mundo real?

É isso o que vocês esperam que aconteça?

O Robin diria: “santa ingenuidade, Batman!”

The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity.”

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Essa história do ESP me lembra, aliás, algo dito num discurso recente do Rudolph Giuliani na Convenção Republicana recente que confirmou Trump como seu candidato:

Nós não devemos ter medo de definir quem é o nosso inimigo.”

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Depois de mais de dez anos estudando filosofia, o que posso dizer é que preciso de mais uns dez para melhorar…

Quando você observa e admira os melhores é natural que suba a sua barra tanto quanto for necessário para não causar constrangimentos e decepções a si mesmo e aos seus mestres, vivos ou mortos.

Nesta jornada o elemento moral não é acessório nem circunstancial: é central e essencial. Se você não levar o negócio muito a sério, derrapa e falha vergonhosamente como um novato do kart na condução de um Formula 1.

Daí que você precisa reformar a sua vida, mil e uma vezes se isso for necessário, não para ser um especialista culto e erudito, mas para ser uma pessoa melhor e amar realmente a sabedoria.

Quis Deus que eu tivesse a fortuna de ter bons mestres e acesso a bons cursos e livros, mas que ao mesmo tempo percorresse uma longa jornada solitária para a correção da carência e da vaidade, porque quem está próximo não pode me corrigir, e quem pode me corrigir não está próximo. Esta é uma dificuldade psicologicamente colossal, um verdadeiro desafio e um teste, cuja vitória só poderá ser dada pela paciência e perseverança. Já enxerguei essa trilha, mas ainda não coloquei de fato minha carroça nela para fazer uma viagem sem volta.

É claro que farei essa viagem. Já estou arrumando os meus bagulhos e me despedindo do meu castelinho, sem querer olhar para trás.

Nem que tenha que esperar virem os meus cabelos brancos, me tornarei digno do que recebi. Não digo merecedor, mas plenamente digno.

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22/07/2016

Imposto é roubo?

Depende, qual? Quem tiver algum conhecimento da realidade tributária pode fazer uma análise um pouco menos genérica e mais concreta do assunto.

Por exemplo, os impostos sobre a renda são até certo ponto inevitáveis, e são os mais “corretos” do ponto de vista social. Podemos discutir –e devemos– os volumes e os critérios de aplicação, mas a natureza não é errada em si.

Já os impostos sobre a propriedade são, no meu entender, roubo puro e simples. Coisas como IPTU e IPVA são absurdas e não deveriam existir jamais. Se os governos municipais e estaduais têm que se financiar obrigatoriamente, que isso seja pensado sob a lógica tributária da incidência sobre a renda e, principalmente, a participação destes entes na arrecadação federal. A receita não é da federação?

Se a renda cair, a receita pública deve cair na mesma proporção. Não é admissível espoliar a propriedade privada para o custeio do governo.

Se você explicar direitinho o que é e como funciona a exploração gradativa dos impostos sobre a propriedade, pode acreditar que a população será radicalmente contrária a sua continuidade, mesmo que isso implique o inevitável custo do aumento indireto dos impostos sobre a renda.

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Não vou falar mais nada do Escola Sem Partido. Não é o meu assunto mesmo, porque eu vou encher o saco de quem está ligado nisso?

Se dependesse de mim, o movimento seria Escola Sem Sentido.

A educação moderna e universal em geral é de uma demência extraordinária, inútil, obscenamente cara, e muitas vezes até prejudicial. Seria mais fácil derrubar todo o ensino tradicional que fosse além da mera alfabetização e do ensino da matemática elementar, e criar apenas escolas técnicas profissionalizantes.

Quem quer educação de verdade vai atrás dela. A tutela do Estado sobre o assunto já é o começo do problema. Para mim não faz muito sentido querer arrumar as coisas daí para diante. É como querer se preocupar em tomar remédio para hipertensão dentro de um avião em queda livre.

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Se Deus quiser que você seja um cavador de valas e você aceitar isso no seu coração, você será o melhor e mais feliz cavador de valas do mundo.

O problema não é ir atrás de um sucesso. O problema é conhecer a vontade de Deus.

Uma vida toda não é suficiente. E por isso mesmo devemos começar o quanto antes.

É o lema já famoso: vamos devagar que estou com pressa.

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25/07/2016

Há pessoas que não admitem viver sem uma autoridade repressora que as proíba de fazer tudo o que elas gostam. Acham que levar pito vai leva-las ao céu.”

Olavo, descrevendo a neurose de alguns (muitos) brasileiros.

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Bach –alguém que ninguém pode acusar de não entender de música—disse certa vez que “a música só tem por fim louvar a Deus e recrear a alma. Quando se perde isso de vista, já não pode haver verdadeira música e não restarão senão barulhos e gritos infernais.”

O mesmo se pode dizer de todas as outras artes humanas, inclusive da filosofia. Falo a partir da essência do Primeiro Mandamento como matriz determinante da realidade, algo que ecoa no Te Deum quando cantamos “Te aeternum Patrem omnis terra veneratur”.

Quem conseguir alcançar e manter essa sabedoria no seu coração poderá viver livre tanto quanto é possível a um ser humano ser livre. Esta sabedoria é o ponto de partida, é a chave-mestra que abre todas as portas, é a Graça que transforma humildade e obediência em força, paz e felicidade.

É absolutamente inevitável, como é inevitável o resultado de qualquer cálculo aritmético. Quem não aprender isso por bem, aprenderá por mal.

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Não sei se a esta altura fará alguma diferença, mas eu adicionaria como “tema musical” representativo do primeiro Grau da busca da sabedoria, ao Non Nobis, também o Adeste Fideles, que fica muito bem neste mesmo papel. Não é o caso de se retirar o tema anterior, que é importante por suas próprias razões, mas de fazer um complemento. Junto com a serenidade da humildade há também o ato cheio de júbilo da admiração de encontro com a verdade, e tudo isso acontece de algum modo ao Aspirante realizado, ou seja, pronto a se tornar um pleno Aprendiz. 

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Parece que vão discutir mesmo a implantação de um Imposto sobre Grandes Fortunas no Brasil.

Sabe o que os nossos nobres legisladores consideram “grandes fortunas”? Um patrimônio acima de R$ 2,5 milhões.

Se essa mixaria é “grande fortuna”, imagine então como se deveria considerar o patrimônio desses mesmos gângsteres de Brasília e o de seus comparsas de setores prósperos como os da construção civil e do setor financeiro?

Quando digo “mixaria”, não digo que seja pouco dinheiro, mas que não faz sentido roubar 0,5% de quem tem R$ 2,5 milhões e pegar apenas 2,5% sobre QUAISQUER fortunas acima dos R$ 40 milhões.

Até porque nós sabemos muito bem que quem é muito rico vai distribuir o seu patrimônio em não sei quantas formas jurídicas diversas para escapar do tal IGF.

Não faz o menor sentido criar esse imposto desta maneira, o mínimo, o mais mísero sentido que seja, sob qualquer ângulo que se olhe, sob qualquer critério justo que se pense.

Com essa inteligência no Legislativo, não esperem um futuro muito próspero.

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Lembrando que a idéia é que quem tiver entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões de patrimônio tenha que pagar anualmente 1% de IGF.

Isso é mais ou menos um quarto dos juros reais, descontada a inflação, que o governo paga para esses afortunados.

Reduzir os juros que é bom nada né?

É mais fácil afastar de uma vez por todas quem segura a onda e pagas as contas. Não é o capital da classe média que sustenta a produção. Classe média no Brasil é consumo, não é poupança. A poupança começa nessa faixa aí do IGF.

Brasília reúne os espécimes com as piores características humanas num só conjunto. Não basta a sem-vergonhice e imoralidade generalizadas, tem que ter também burrice a dar com o pau também.

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Trump está vencendo Clinton nas pesquisas para a eleição americana.

Eu gostaria de saber a opinião de Caio Blinder a respeito…

Não, pensando bem não gostaria.

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Diogo Mainardi tem uma grandeza satírica e irônica da literatura, mas a literatura toda não tem a grandeza da sabedoria.

Tudo o que já se escreveu mais belamente neste mundo é a sombra de um fiapo de um remendo de imitação das vestes de Deus.

É claro, portanto, que se você ficar só com a literatura virará um pessimista rabugento, porque acha que toda a beleza e toda a verdade se resumem a esse negócio chamado “cultura humana”.

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Não sei o que Mainardi ainda faz em O Antagonista.

Alguém deste talento:

O lulismo queria que eu fosse embora do Brasil. Eu fui. O lulismo queria que eu me desinteressasse do presidente da República. Eu me desinteressei. O lulismo queria que eu renunciasse à minha coluna. Eu renunciei. Eu sou igual a um marido que, para poder se livrar da mulher amarga e rancorosa, cede todos os seus bens e vai morar num flat. Eu fui morar num flat mental. Eu fui morar numa kitchenette existencial. Eu sei que o lulismo está feliz de se separar de mim, mas garanto que eu estou incomparavelmente mais feliz de me separar dele.

Rubens Barrichello compreendeu a natureza do dilmismo. Quando lhe perguntaram o nome da presidente eleita, ele respondeu sabiamente:

— Como é que se chama a mulher?

A partir de hoje, esse é meu lema. Eu posso falar sobre Bartolomeo Bon. Eu posso falar sobre Anco Marcio. Eu posso falar sobre Cosmè Tura. Quem mais? Eu posso falar sobre Sexto Empirico. Eu posso falar sobre Pavel Chichikov. Eu posso falar sobre Pepe Le Pew. Só a presidente eleita está proibida de entrar em meu flat mental. Sobre ela, minha resposta será sempre a mesma:

— Como é que se chama a mulher?

Além de compreender a natureza do dilmismo, Rubens Barrichello compreendeu também a natureza do automobilismo. Ele demonstrou que, se é para guiar devagar, ninguém precisa de uma Ferrari. VEJA é uma Ferrari. Para poder me livrar do dilmismo, estou pronto a ceder minha vaga na escuderia. O que eu quero, neste momento, é pilotar um kart.

Renuncio à coluna, portanto, mas continuo aqui, em marcha lenta. Milan Kundera disse que quem anda devagar contempla as “janelas de Deus”. Rubens Barrichello anda devagar e contempla as janelas de Deus. Sou bem mais modesto do que ele. Para mim, basta poder contemplar as janelas da minha kitchenette existencial.”

Não é um clássico pronto, mas não é de se jogar fora, não é?

Certamente alguém assim tem mais o que fazer do que ficar tricotando as novidades de Brasília. De certo modo a situação de Diogo mostra o estado da cultura brasileira.

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A mais vasta solidão pode ser assustadora como a mais profunda das noites. Mas a Fé é como uma vela que nunca apaga se você não a assoprar. E ela estará sempre lá para fazer lembrar que não existe solidão verdadeira, só existe esquecimento.

E pensando bem, além da lembrança feliz ela até te dá algo agora mesmo, alguma luz, algum calor e conforto. Quando você vê que recebe isso de graça, fica até sem jeito de continuar reclamando.

Não digo isso a partir de algo que esteja sentindo agora, falo de memória de uns quinze anos atrás.

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Cuidado para não trocar da fala para o cuspe muito rapidamente, e vice-versa.

Você pode acabar falando com quem merecia uma cuspida, e cuspir em quem merecia a atenção de ouvinte atento.

Se for comigo fica pior ainda, porque quase nunca esqueço. Vou perdoar as mil vezes que precisar, mas não vou esquecer nenhuma delas.

Posso tentar esquecer, é claro, mas não garanto nada. Esse ainda é todo um território novo para mim. Pode ser o meu futuro, mas não é o meu presente.

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26/07/2016

Nosso querido Olavo, mestre de todos nós e grande professor do óbvio ululante, diz hoje mais uma coisa evidente: que a militância judicial deve ser precedida por um trabalho intelectual que prepare as bases sociais e garanta a superioridade no terreno da cultura.

Já falei, por mim o Projeto seria o Escola Sem Sentido: é mais fácil passar a motoniveladora e mandar todo mundo para o SENAI. Vai dar menos trabalho.

Se quiserem saber, posso falar o que penso da escola em geral. Coisas que eu até já escrevi antes.

A escola é um depósito de menores semiabandonados.

Como a mamãe é solteira ou, mesmo se é casada, vai trabalhar fora do mesmo jeito que o papai, não tem mais quem fique cuidando do estorvo em casa. Filho é como mala em aeroporto, tem sempre que ter alguém junto dando uma olhada. É um saco. Como nós queremos também que o bichinho seja futuramente competitivo no mercado de trabalho (para deixar de ser um estorvo assim que isso for possível), juntamos então a fome com a vontade de comer: enfie-se a criança na escola poupando, assim, o trabalho de ter que se cuidar dela e, ao mesmo tempo, já preparando a mesma para a dura lei da selva humana, etc.

O homeschooling não precisa de ativismo judicial para “vingar”, precisa de um negócio que se chama “família”, uma espécie hoje em extinção. Se a nossa sociedade estivesse realmente apinhada de famílias conscientes, a legislação se vergaria naturalmente depois de alguma pressão popular, porque a força da maioria é evidente. Há famílias estruturadas, é claro, especialmente no interior do país, mas nos grandes centros populosos isso está muito em falta, está quase todo mundo confuso e obcecado com suas próprias realizações individuais. Quando você acha uma família ordenada, parece que encontrou um bilhete premiado jogado no latão de lixo.

Se você acha que estou carregando nas tintas, pense novamente.

É de fato mais fácil alfabetizar as crianças, ensinar matemática elementar, e então ensinar alguma profissão. Os estudos superiores só funcionam mesmo mediante o interesse real dos alunos. Não é para todo mundo.

Se você pegar prodígios industriais, grandes competidores globais e exportadores como Alemanha ou Coréia do Sul, vai ver que é isso que funciona: escola técnica, graduação técnica, etc. Nos EUA existem milhares de estudantes pendurados no financiamento de uma graduação no ensino superior que não vale quase nada hoje, exceto em nichos tecnológicos muito específicos. Os caras em geral estão pagando a dívida do curso universitário com salário ganho no McDonald’s, é ridículo.

A formação humanista universal é um desastre total, é uma fábrica de monstros ocasionais e de muitos fracassados reclamões. Não presta para nada.

Quem quiser realmente se dedicar a essas coisas (chamemos em geral de “ciência”) vai ter que ir atrás e provar o seu interesse, dedicando a sua vida e sacrificando-a tanto quanto for necessário para atingir o seu objetivo sapiencial. E ninguém jamais poderá garantir ao cidadão que ele não vá morrer de fome, ou pelo menos passar por uns bons perrengues. É simples assim.

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Podem me perguntar: “e a ocupação de espaços, como fica?”

Não é preciso ocupar um espaço que pode ser destruído.

Pense no Rambo. Ele não perde tempo esclarecendo as mentes dos comunistas, simplesmente vai atirando com a metralhadora neles. É mais rápido, simples e barato.

Não estou dizendo para se usar de violência, é claro que não é isso. É um modelo, apenas isso. Rambo é um modelo de eficácia e de eficiência.

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Depois de mais de uma década eu aprendi a ter um pouco de mojo próprio. Em condições adequadas de temperatura e pressão consigo entregar um bom resultado, intelectualmente falando. O diabo é que eu não controlo essas condições. Lá vamos nós para mais uma década de aprendizados… 

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Mais um crime horrendo na França. Um padre nonagenário foi degolado na Normandia por um… adivinhem? Sim, terrorista, radical, islâmico, etc.

A Revolução Francesa enfim mostra seus frutos mais prósperos séculos depois.

Se você imagina que esse tipo de crime não tem nada a ver com a perseguição passada dos católicos e dos cristãos em geral, e a da monarquia, então não vou ser eu que vou te tirar do lindo mundo de fadas no qual vive. Boa sorte por aí.

E não me inclua no seu rolo mental. Mentes são como salva-vidas: não é porque você perdeu a sua que pode simplesmente pegar a minha emprestada.

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Este seria um bom momento para a Igreja rever o seu papel na Europa, se tivesse um Papa que se dignasse a isso. Seria tempo bom para os fiéis voltarem-se para sua Mater et Magistra, e para os pensadores europeus refletirem os devastadores danos da Reforma à luz da sabedoria católica da Contra-Reforma.

O que acontece no mundo de hoje, à luz de um passado nem tão remoto assim, é quase que um jogo de cartas marcadas.

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Falo dos outros, mas eu mesmo não dou conta de minhas coisas. Olhem que estou deixando o grosso do serviço para fazer a partir do ano que vem, mas tem aquilo que é mais urgente e que não tem jeito.

Algumas coisas você não vai fazer no ano que vem ou nem mesmo depois disso. Mas tem aquelas coisas mais urgentes que você não vai fazer hoje de jeito nenhum.

Documentos que estão na minha fila mais urgente de análise: as famosas “28 pages” do 9/11 Report do Congresso Americano, as “Dez Medidas Contra a Corrupção” do Ministério Público, e o “Acordo Sykes-Picot” feito entre Inglaterra e França durante a Primeira Guerra Mundial. Só engodos, rapinagens e trambiques, como se vê.

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O único ônus real de quem está para ter a sua cabeça cortada injustamente é antes disso acontecer dar um jeito cortar a cabeça de seu próprio assassino. Distinguir se o assassino é de tal ou qual grupo ou seita é absolutamente irrelevante na hora da tentativa de homicídio, porque nós já conhecemos a sua intenção.

Ou seja, o que importa mesmo é que as pessoas inocentes possam se defender legitimamente. Se você pensar bem isso vem muito antes de quaisquer considerações políticas ou ideológicas.

E levando essa regra até a sua aplicação mais ampla podemos dizer que sim, é possível até mesmo fazer uma guerra justa, desde que você saiba o que está fazendo, é claro. A justiça requer a sabedoria em qualquer caso, sempre.

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Uma coisa totalmente previsível, mas inevitavelmente irritante, é a noção comum de que a busca do conhecimento é uma atividade sofisticada, uma amostra de requinte social e de superfluidade.

Caralho, vocês não querem saber como é o mundo em que vivem?

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Já estão falando por aí:

Trump 2016, Le Pen 2017 e Bolsonaro 2018.

Devemos ter a prudência de não misturar o cu com as calças, mas eu não duvido.

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Li não sei onde algo que é verdadeiro: os franceses já não são frouxos desde hoje.

A última força considerável para lutar com verdadeiro brio que houve ali ocorreu faz cem anos e não deu mais notícias.

Na Segunda Guerra Mundial a Alemanha invadiu a França “por telefone”, como se diz. E se os americanos não tivessem entrado na guerra, os franceses provavelmente seriam garçons dos alemães até hoje.

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O possível renascimento das nações da Europa (falo em termos das suas tradições, sua história, seu legado cultural, etc.) dependerá, infelizmente, de uma fase bastante dura e até com perigo de se tornar um pouco sanguinária. Estou duvidando disso em alguns casos, como o da França. Já Inglaterra e Alemanha devem passar no teste, para não falar da Rússia.

Podemos colocar isso em parte na conta dos ditadores da Segunda Guerra, que geraram o espectro do qual a Europa fugiria para sempre desde aquele capítulo da história em diante, mas em parte também na conta das lideranças democráticas que conduziram o povo a esse estado de coisas. Da forma como evoluiu a política europeia, ser nacionalista se tornou quase que um crime de ódio.

Pensando em termos geopolíticos, o próximo passo dos globalistas diante desses ataques (quando uso o termo “globalistas” em geral, me refiro aos Ocidentais, a quem também chamamos de “Meta-capitalistas”) seria encampar uma missão de “libertação” do que eles chamariam de “opressão religiosa” contra as “liberdades civis”, ou seja, tentariam destruir o Islam como religião, ou tornar a religião tão insossa como é o cristianismo da maioria dos ocidentais. Esse projeto já existe. Apenas uma escalada estaria agora justificada pelos ataques recentes. Também seria uma oportunidade para retomar o projeto europeu, sugerindo a unidade política como forma mais segura de se defender da ameaça “fundamentalista”. Essa guerra, em parte militar e em parte cultural, política e judicial, serviria também para um avanço brutal contra o cristianismo residual na própria Europa, porque o mesmo será fatalmente identificado como “fundamentalismo religioso”, o novo inimigo número um da Europa iluminada.

Do lado russo-chinês, a oportunidade é a de servir de abrigo aos europeus aterrorizados: na Eurasia você estará seguro, porque o Estado reprime todo tipo de violência que os frouxos liberais ocidentais permitem. As nações eurasianas seriam livres para viver de acordo com seus costumes e tradições, desde que aceitem a supervisão do guarda-chuva encabeçado pela Mãe Rússia.

Do lado islâmico, os radicais tentariam de qualquer modo transformar a sua causa num motivo para uma guerra total generalizada dos povos muçulmanos contra o Ocidente decadente, etc., fazendo justamente todo tipo de provocação para serem atacados por uma “nova Cruzada”: uma invasão por terra em larga escala nos territórios muçulmanos, especialmente os sagrados. Esses bandidos são numericamente poucos, embora estejam bem financiados e armados. O que eles precisam para terminar a sua idéia de Califado universal seria essa reunião dos povos islâmicos sob a sua liderança. De todas as possibilidades esta seria a mais difícil, excetuadas condições extraordinárias.

Vejam que fiapo de esperança existe para os Europeus, que andam numa corda bamba entre a frigideira e o fogo: de um lado devem se defender, mas também resistir à provocação terrorista e não abrir uma guerra geral; de outro lado devem resistir à tentação eurasiana de proteção pela Rússia; e de um terceiro lado ainda devem resistir ao apelo pela união política europeia definitiva e a disseminação da ditadura anti-religiosa da ONU. Que forças políticas podem resistir a esse triplo assalto de inimigos?

Apenas as forças nacionalistas, justamente essas que são bombardeadas com o rótulo odioso de fascistas, nazistas, etc., porque obviamente são o único tipo de poder político que pode resistir igualmente a todos esses males. Sim, o renascimento das nações europeias consiste exatamente nisso: no renascimento de um novo nacionalismo europeu que afirme “eu existo e quero continuar existindo”.

É um fiapo de oportunidade, como se vê. E há mil e uma maneiras de isso dar errado de algum modo.

Que Deus dê amparo aos europeus, especialmente para as monarquias europeias, que podem ter um papel decisivo no andamento desta história.

Nós estamos em época de fatos extraordinários, seja para o bem ou para o mal. Eu não me surpreenderia se nos víssemos diante de um enredo fatal de fim de mundo, dados os sinais presentes.

Aos cristãos, digo a única coisa a se dizer: arrependamo-nos!

O mais é com Deus.

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Quando algum ocidental esclarecido diz, a respeito do terrorismo, que “não é um assunto fácil para se discutir”, se prepare que lá vem merda. A pessoa estará muito provavelmente se preparando para condenar a prática da religião em geral usando termos como “fanatismo”, “fundamentalismo”, etc.

Não caiam nessa. O emprego de violência contra inocentes é um assunto muito simples: não deve ocorrer e, se ocorrer, deve ser respondido com violência igual ou maior. É um assunto muito fácil de se discutir.

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Alguém poderia questionar, obviamente, a partir do que disse agora, se o emprego de violência previsto na religião islâmica (morte para os que negam a fé, apedrejamento de adúlteras, etc.) é justo ou se suas vítimas são inocentes.

O realmente correto a se fazer é uma análise caso a caso. Em geral a minha consideração, como não muçulmano que sou, é que várias dessas punições são injustas, total ou parcialmente.

Devemos ter, ainda assim, todo o cuidado para não apoiarmos a frouxidão moral ocidental especificamente engenhada pelo globalismo para destruir todas as tradições da Terra e implantar um governo global com uma fé biônica.

Se isolarmos e condenarmos especificamente a violência física de alguns costumes culturais, o assunto se torna bem mais palatável.

Mas este assunto é o moedor de almas da modernidade. Não queira colocar ordem no mundo, porque esta história não fará sentido jamais. Coloque ordem no seu coração, porque a sua vida é curta. Do mais cuida nosso próprio Deus.

A única casa segura que eu realmente conheço é a Igreja Católica. Do resto não posso dizer mais nada com segurança.

E não digo isso baseado nos nossos representantes eclesiásticos contemporâneos, evidentemente, mas sim baseado na segurança das palavras do próprio fiador da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele pode.

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27/07/2016

Toda a Sabedoria é de Deus.

A sabedoria humana, limitada e imperfeita, participa da Sabedoria divina, ilimitada e perfeita, por concessão (por Graça) e em dois modos que são complementares: a iluminação que opera como Revelação individual e a perscrutação intelectual com os meios humanamente disponíveis.

Veja que uma coisa busca a outra e requer a outra: a Sabedoria de Deus busca o homem graciosamente, dando-lhe consciência do que lhe seria impossível saber por seus próprios meios, e ao mesmo tempo o homem busca a Sabedoria de Deus usando os meios intelectuais de que dispõe. A Sabedoria revelada pela iluminação divina que encontra um ser fechado não frutifica. E a inteligência humana que busca o saber, mas não em Deus e pela Graça (uma busca que exige obrigatoriamente a humildade), não chega a lugar algum por mais que se eduque e se esforce, simplesmente porque busca algo que não existe.

Há dois tipos de avoados, portanto.

Um é o que deposita toda a sua sede de Sabedoria na espera passiva pela Providência divina, sem porém fazer o esforço de busca-la ativamente, ou seja tornando-se alheio à sua própria natureza intelectual (em seu próprio nível), e fatalmente sendo vítima da sua própria falta de discernimento entre o que é realmente a Sabedoria de Deus e o que é “sabedoria do mundo”. Para quem tudo é Providência, qualquer coisa pode parecer Providência.

Outro é o que se acha suficiente na busca da Sabedoria e dispensa totalmente a Providência. É como alguém que vive mexendo em cópias e imitações de um original que jamais será visto. Pode se tornar especialista, sofisticado e requintado tanto quanto se queira, à beira mesmo do insuportável, mas não terá mais razão do que o humilde que é ignorante de todas as coisas do mundo, mas entendeu algo das coisas de Deus.

Há uma relação necessária entre esses dois modos e não é possível viver uma vida intelectualmente sadia apostando somente em um deles. Porque eles se casam, são modos que existem para se encontrar.

Mas não estou igualando essas coisas. A inteligência que o ser humano recebeu é já um presente, é já uma Graça, que é complementada pela iluminação divina, outra Graça. Essa complementação nada mais é que o encontro dessa consciência com os objetos inteligíveis do mundo real, passíveis de abstração, “dóceis”, por assim dizer.

Deus nos dá o cinzel e a cera: o primeiro é a nossa inteligência, a segunda é a realidade inteira do universo. O mundo recebe a nossa intervenção consciente, ele nos recebe como seus contempladores. Inversamente na nossa alma vivemos a contemplação da verdade tornando-a o “cinzel” da experiência que vai marcar em cima da “cera” da nossa memória.

Meu intuito não é dizer tudo quanto se possa a respeito disso, já que mais tarde poderemos estudar Platão e Aristóteles para realmente entrar com tudo nesse assunto.

Quero apenas deixar claro algo que já disse antes, quando expus aqueles degraus de busca da sabedoria: embora a total submissão humilde seja o único e verdadeiro caminho da Sabedoria, a maneira correta de chegar lá é o trabalho ativo de quem é primeiro Aspirante, depois Aprendiz, e então Cavaleiro antes de ser Mestre. É isto o que quis dizer: há uma hierarquia clara, mas a ordem temporal de sucessão desses graus é inversa à ordem hierárquica desses níveis.

Isto não é necessariamente sempre assim, mas tende a ser.

Alguém pode aprender o caminho da maestria muito mais cedo que outros, praticamente pulando o grau de Cavaleiro, por exemplo.

Outros também podem certamente ser agraciados de tal forma pela bondade divina que são poupados mesmo de todo grau de ceticismo e de dúvida fundamental, de forma que iniciam seu caminho já como plenos Aprendizes.

Enfim, o conhecimento acontece quando o homem busca a Sabedoria, e quando a Sabedoria se deixa ser buscada pelo homem. Se só uma coisa ou outra ocorrer, não haverá “conhecimento”, haverá só masturbação mental ou arremesso de pérolas aos porcos.

Mas não se enganem, o “homem que busca a Sabedoria” não está sendo empurrado por nenhuma virtude ou capacidade que não lhe tenha sido dada antes por Deus mesmo. Aliás, quando alguém percebe isso e recebe este fato com simplicidade e humildade, é aí que ocorre a “mágica”: o conforto de um amparo infinito que é recebido por uma gratidão pura. A partir daí Deus abre o seu Livro até você dizer chega. Este é o caminho do Mestre.

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O que torna potencialmente sábios os idosos é a sua eventual humildade que geralmente é aprendida na marra, e não a sua idade em si. A idade indica apenas uma pilha grande de experiências acumuladas. O que o indivíduo faz com essa pilha é o que interessa. Se aprendeu, enfim, a ser humilde, é daí que virá a sua sabedoria. Mas virá como já poderia ter vindo antes, se a criatura tivesse aceito ser humilde antes de levar tanta porrada da vida.

Vejam bem, a sabedoria não vem da experiência acumulada em si, mas do que é feito dessa experiência. Alguém mais esperto pode ficar mais sábio antes da velhice, pois não requererá o acúmulo de tantas experiências para alcançar a virtude da humildade.

Ou seja, intelectualmente falando, os idosos que são moderadamente sábios praticamente não fizeram mais do que a sua obrigação.

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Posso estar enganado, é claro, mas imagino que no futuro meu trabalho ativo (ou “criativo”) será 80% ou 90% feito por escrito, e somente o restante será entregue verbalmente, em aulas e conferências. É mais ou menos o contrário do que eu imaginava. Mas é o que está aparecendo num horizonte entre 10 e 20 anos, se Deus me permitir viver isso.

Se for me tornar mais professor do que escritor, é algo para depois dos 50 anos de idade. E, sinceramente, para mim seria até mais confortável se fosse assim. Mas Deus é quem sabe.

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Ser obediente à luz do admirável Abraão é estar pronto para sacrificar aquilo que lhe é mais caro, tão logo lhe seja pedido.

Não se pode nem sequer cogitar uma alegação de que é “fácil” para Deus pedir isso sem Ele mesmo ter que jamais sacrificar algo que é caro a Si, não só porque é absolutamente inapropriado e ridículo fazer este tipo de comparação, mas também porque Ele já nos deu o seu único Filho, para a nossa salvação.

O que você pode fazer é pedir sinceramente para ser poupado de fazer um sacrifício.

Não nos é relatado que Abraão tenha pedido isso, mas disse ele em palavras proféticas para Isaac, quando foi questionado a caminho do local de sua prova: “Deus providenciará Ele mesmo uma ovelha para o holocausto, meu filho.”

Pense bem nestas palavras, medite com atenção. Há uma boa-nova por trás disso, e um tanto escandalosa, como é tradicional da novidade cristã neste mundo.

Quando for indubitavelmente poupado de um sacrifício seríssimo, lembre-se de elevar sua gratidão ao máximo para o Filho de Deus.

Converta-se. Arrependa-se. Reforme-se.

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Ai, ai, meu querido diário… estou muito chato? Muito carola? Na mesmice?

É que o assunto de um diário costuma ser no fim o próprio autor de alguma maneira, por mais que se queira dar a volta ao mundo e evitar esses subjetivismos excessivos. Acho até que consigo ser um pouco expansivo, considerando as minhas limitações.

A um leitor qualquer este é o meu recado, portanto: pessoalmente acho que tenho coisas muito melhores a fazer do que escrever um diariozinho de merda, sinceramente. Só que eu só consigo fazer isto agora. É este diário ou o nada. Pense em mim como um preso. Até eu terminar de cumprir a minha pena, é o que teremos.

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O Islam cresce na Europa na esteira do enfraquecimento de um povo que abandonou o cristianismo.

A história exibe isso. O que está acontecendo agora é diferente. A cultura islâmica, com a firmeza do seu código –se quiserem colocar assim– pode ser mais forte do que o laicismo ocidental –e certamente é, no fim das contas. Mas não mais forte em relação ao cristianismo. Não se pode dizer que os cristãos enfraqueceram. Na verdade a pergunta é: onde estão os cristãos?

Por isso que é prudente retornar aos temas históricos da Reforma, da Revolução Francesa, e até da revolução da canção Imagine de John Lennon, como alguém bem lembrou recentemente. Esses são os movimentos de ruptura e de efeitos anestesiantes que permitiram a proliferação do laicismo e do paganismo na Europa.

O Islam cresce em cima das ruínas culturais da civilização cristã.

Os cristãos não perderam a Europa. Eles simplesmente já sumiram de lá, ou estão no meio deste processo de desaparecimento. Poderá chegar o dia em que para ver algum sinal de cristianismo na Europa se tenha que visitar os museus. Isto se forem permitidos museus no Califado.

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28/07/2016

Há uma índole masoquista na mentalidade brasileira. Eu nunca consegui compreender, por exemplo, a preferência por carros com câmbio manual no lugar dos automáticos.

Se você vai dirigir, ou melhor, pilotar, por exemplo, uma Ferrari F40, ou um Porsche 911, eu entendo: o câmbio manual aumenta o aproveitamento da esportividade e da alta performance desses veículos e, consequentemente, o prazer de dirigi-los.  Porque esses carros foram feitos para isso.

Mas em carros populares? Num Fiat Uno? Qual é a vantagem? Não há prazer: há uma agonia cotidiana no trânsito.

Para que ter mais trabalho se já foi inventada uma tecnologia que te poupa disso?

Imagino a cena quando os primeiros carros chegaram ao Brasil: “não é necessário isso aí, vamos continuar usando os nossos cavalos, é mais divertido ter que alimentá-los, cuidar deles quando ficam doentes, etc.”

Há vários racionalismos para justificar e camuflar o masoquismo. Seria possível escrever um livro a respeito, de tão vasta que é essa criatividade. Dizem que o carro automático é mais fácil de quebrar e/ou mais difícil de consertar, que o carro consome mais combustível, etc. Tudo para não admitir: eu quero sofrer, eu gosto de sofrer.

Quer dizer, o cara entra num financiamento absolutamente irracional, compra um carro e paga dois para o banco, e quer economizar na gasolina… é como quem come um quilo de feijoada e depois pede café com adoçante, “para não engordar”.

A vida no Brasil é tragicômica. Quem nos dera ter autores que verbalizassem essas mil experiências diárias e elevassem a nossa consciência cultural.

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Falando em cultura, o Mario Sabino, de O Antagonista, disse anteontem, no dia 26, que fez piada consigo mesmo num artigo escrito em estilo irônico que não foi compreendido por um “pessoal que faz aulinha de internet com um sujeito que mora nos Estados Unidos”.

Como eu sou aluno do sujeito que mora nos Estados Unidos e era leitor de O Antagonista, posso responder por mim a este comentário infeliz: o estilo indireto e sutilmente irônico é típico dos covardes e despreparados, que querem e não querem dizer algo ao mesmo tempo, pois querem o reconhecimento da autoria, mas não querem assumir a responsabilidade por ela.

Eu já estou de saco cheio desse estilo, por sinal. E é sim marca do socialismo light esse procedimento: tornar todos os outros pensamentos “radicais” diante de um suposto realismo que na verdade não existe. É isto o que FHC faz, que Reinaldo Azevedo faz, etc., etc.

Mainardi se junta com cada tipo que eu vou te contar…

Sozinho, Diogo vale mais que Blinder, Azevedo e Sabino juntos, simplesmente porque é mais honesto e aprecia de fato a beleza da sinceridade. E isto é que é o único realismo disponível: a confissão humilde e sem vaidade da verdade que se vê.

Eis a questão. Diogo é culto, eu sei. Mas Sabino pode ser tão culto quanto ele e jamais será tão bom na sua arte, porque esta questão é de moral.

Continuarei sendo leitor de Mainardi, simplesmente porque ele vale a pena.

Quanto a O Antagonista, saiu da minha lista de leituras. Nós já conhecemos o pensamento tucano, não precisamos de mais, obrigado.

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Dizem que a HBO planeja gravar uma série para a obra The Silmarillion de Tolkien, assim que finalizar o trabalho com Game of Thrones.

Isso me desperta vários sentimentos.

Em primeiro lugar, alívio: já li mais de década atrás várias vezes O Silmarillion antes do surgimento da idéia desse empreendimento cinematográfico. E isso é um alívio porque, por exemplo, eu tenho pena de quem não leu O Hobbit antes de assistir aquela desastrosa última trilogia de Peter Jackson. Assim como tenho pena de quem conheceu primeiro o Gimli de John Rhys-Davies, antes do Gimli do próprio Tolkien. Por isto o meu conselho para quem não leu ainda O Silmarillion é: leia imediatamente!

Em segundo lugar, medo: a probabilidade de estragarem a obra é grande. E não me venham comparar Martin com Tolkien, dizendo que “já deu certo com um, vai dar com o outro”.

Em terceiro lugar, ira homicida: um dos personagens que eu guardo com mais cuidado e carinho na minha memória é Túrin Túrambar, Dagnir Glaurunga. O Senhor do Destino, a Ruína de Glaurung. A mera possibilidade de que eles façam merda com a apresentação desse caráter “desperta em mim os instintos mais primitivos”. E isto não é difícil de acontecer, porque o personagem realmente é complexo, porque não é um herói convencional e carrega um sentido simbólico profundo e amplo que eu duvido muito que possa ser transportado das palavras para a atuação sem alguma perda, qualquer que seja o ator. Teria que ser um trabalho muito inspirado.

Mas se Gibson já acertou com a história mais importante de todos os tempos ao filmar The Passion, porque não pode dar certo isto também? Veremos.

Que Deus tenha misericórdia da obra de Tolkien, porque Hollywood nós já vimos que não tem.

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Estou tramando, agora que faltam menos de seis meses para que eu saia desta cidade horrorosa que é São Paulo, lançar algumas atividades, talvez outras aulas “secretas”, como a de Introdução à Política que já fiz.

A idéia é fazer uma longa e esticada “despedida” de São Paulo. Quero dar uma noção desse trabalho aos meus amigos paulistanos, e acho que pode ser útil também aos demais interessados.

Também é, obviamente, um aquecimento para 2017, um ano em que poderei finalmente “botar a mão na massa” no meu trabalho intelectual, se Deus quiser.

Trabalharei apenas com o meu grupo secreto no Facebook, talvez chamando mais alguns convidados de confiança que não compartilhem os links para fora.

Posso continuar falando de Introdução à Filosofia Política, e talvez desenvolver também algumas outras Introduções, à Filosofia, ou ao Simbolismo Tradicional, que são assuntos mais fáceis agora tanto para mim quanto para os próprios alunos, desde que mantenhamos este nível introdutório. Vejamos se isso dá em alguma coisa boa.

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Graças a Deus energia para trabalhar nunca me faltou, quando sei o que quero fazer.

Já tracei um calendário de aulas para 2016 só para o meu grupo fechado, dos “chegados”. Vou expandir um pouco esse número com pessoas que são de confiança.

Criei os três programas de estudo. Digo “estudo”, mas não haverá bibliografia (a não ser aquela improvisada que posso passar na hora, dependendo de um assunto). Serão ocasiões de reflexão sobre os temas, à luz de alguns conhecimentos razoavelmente elementares que consigo expor com certa tranquilidade.

Com a Introdução à Política resolvi desempacotar o que já expus na primeira aula do curso. Não há nada de novo sob o céu: é Platão e Aristóteles. Mas cada coisa pode ser apresentada de uma forma mais dedicada. Serão duas aulas. Começo pelas premissas da definição dada de Política, uma Cosmologia, uma Antropologia e uma Sociologia, brevemente, é claro. Percebi que já deveria ter feito assim, mas não tem problema, agora eu faço. Depois falo da idéia de Díade Social, que já abarquei num texto em meu site. O conceito de Díade é extraído do neoplatonismo de Plotino, e será usado primeiramente para explicar a mediação da mente humana como intermediária de corpo e espírito, apenas como exemplo para solidificar a imagem. Em seguida exporei como é que a Política ideal intermedia os interesses humanos, resumidos em “econômicos” e “religiosos” (cuidado para o sentido desses termos, que empregarei de uma forma muito especial), buscando uma solução concreta que privilegie ao máximo os bens espirituais.

Na Introdução à Filosofia farei também duas aulas. A primeira se baseia fundamentalmente na História Essencial da Filosofia do Olavo, traçando os sentidos etimológico e histórico da Filosofia de acordo, respectivamente, com a tradição de Pitágoras e Sócrates. Criatividade zero para esses dois pontos, farei uma imitação do discurso de Olavo que neste ponto considero ser muito próximo do perfeito (nunca encontrei melhor). A segunda aula exporá o sentido biográfico e existencial que a Filosofia tem para mim pessoalmente, ou seja, usarei o meu próprio caso como exemplo concreto de como é que se chega neste negócio chamado “Filosofia”, e também a relação entre Eudaimonia e Revelação, passando pelas concepções de Sócrates, Platão e Santo Agostinho. Eu gostaria de usar mais Aristóteles neste ponto, mas não tenho as condições intelectuais no momento para fazer isso.

E finalmente, para a Introdução ao Simbolismo, usarei as coisas que aprendi com o grande Luiz Gonzaga, o nosso Gugu, em seus cursos de cosmologia tradicional e simbolismo astrológico. Aqui o material é mais extenso, então dividi o assunto em quatro aulas. Começo concentrando nos temas de Liberdade e Destino (meus queridos Temas V e IX, que os alunos antigos conhecem) e na precaução religiosa, explicando o motivo dela e a necessidade da devoção religiosa como prática de segurança contra a astrolatria. Depois, nas aulas seguintes, entro nos princípios simbólicos de Céu e Terra, Elementos, Qualidades, e Estações, e explicarei os símbolos das Partes da Vida e do Zodíaco, e finalizo com os Planetas, suas Dignidades e Aspectos.

Ufa! E pensar que serão apenas cinco meses…

Será um aquecimento para 2017, eu espero. Mesmo que nenhum aluno assista, comente ou faça perguntas, quero fazer de qualquer maneira.

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29/07/2016

Estava procurando uma informação técnica no Como se faz uma tese, do Umberto Eco, e tive a oportunidade de reler por um acaso a Introdução dele.

Se vocês querem ter uma idéia do que é, ou pelo menos do que foi, o amor ao conhecimento como realidade socialmente reconhecida e incentivada, por favor leiam o número 1 desta Introdução do livro de Eco.

Os brasileiros, especialmente, façam o favor de compreender que quando o autor reclama da situação contemporânea da universidade italiana, a que chama de “universidade de massa”, entendam que a situação de lá é muito melhor que a brasileira. Façam isso, por favor, para fazerem uma idéia de onde é que vocês estão.

Reencontrar esses seis simples parágrafos de Eco foi impactante e animador nesta ocasião em que ando repensando na idéia de Política como intermediária para atender aos objetivos mais nobres do homem. No mínimo percebemos claramente que não estamos falando de uma ilusão, de um sonho perdido e utópico, mas de uma realidade esquecida e perdida em noites passadas da história humana.

Se já aconteceu antes é porque pode acontecer de novo.

Não só nos é permitido pensar na Política como aquilo que ela deve ser, como é obrigatório fazer isso a partir do momento em que se toma consciência da causa final dela. Talvez nunca Platão me tenha sido tão óbvio neste ponto como foi agora.

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Um erro imperdoável das discussões políticas é o esquecimento das premissas do pensamento político, ou seja, dos princípios de Filosofia Política que norteiam e delimitam a Ciência Política. Já falei dessas coisas na primeira aula do curso de Introdução à Política, mas voltarei com mais detalhe a isso na segunda aula. Tudo dentro do meu “laboratório pedagógico”, minha pista de testes para projetos futuros.

Esse assunto rendeu mais do que eu imaginava. E se vocês pensarem bem, tudo isso saiu de uma moleza desnecessária da cachola de Reinaldo Azevedo, que fez uma confusão maluca numa resposta atravessada ao Olavo, e ensejou uma primeira observação sobre os níveis de discurso político…

A atividade política acontece num mundo que a precede existencialmente, e consiste dos atos de indivíduos humanos que primeiramente existem eles mesmos também antes de qualquer ação política concreta, e que se reúnem em sociedades que também precedem existencialmente elas próprias a atividade política consciente. Isto quer dizer nada menos que o seguinte: se você quiser falar de política ignorando os pressupostos cosmológicos, antropológicos e sociológicos que inevitavelmente permeiam os fundamentos da realidade do assunto, você estará discutindo cegamente um tema que depende dessas premissas, e provavelmente será manipulado e controlado por concepções do mundo que ignora ou que jamais criticou conscientemente em toda a sua vida.

Dito isto, o trabalho não será outro além do de informar brevemente quais são as concepções tradicionais do mundo, do homem e da sociedade, para daí trazer o que seria finalmente uma concepção tradicional da política, o que será feito propriamente na terceira aula.

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Fiz vários exames hoje para saber o que o meu corpo já me diz: que estou bem.

Pelas expressões e palavras que recebi das pessoas, está tudo bem mesmo.

Só falta confirmar isso com o médico-mor no retorno de minha consulta. É claro que mesmo que eu esteja 100% bem, ele não perderá a oportunidade de insistir que eu pare de fumar, etc. Já estou preparado para ouvir e ignorar.

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Julho está acabando. Mais um mês que começou bem e que acaba bem, graças a Deus.

Porque as Igrejas não têm, além dos confessionários, “agradecionários”?

Fica a impressão de que a culpa é sempre maior do que a gratidão no coração cristão. Como se dissessem: “confesse-se obrigatoriamente e ritualmente, mas agradeça como bem entender porque, se está tudo bem, tanto faz”.

Não sinto isso de maneira alguma. Recebi tantas graças, de baciada, que para cada uma culpa que tenho a confessar tenho outros dez agradecimentos a fazer.

Entendo que a Igreja existe principalmente para ajudar os aflitos, obviamente. Não faz sentido um padre perder tempo com alguém que está feliz da vida, enquanto tem outro fodido esperando na fila.

Mesmo assim vou pesquisar melhor depois como é na tradição da Igreja o nosso “Thanksgiving”, porque vejo que isto é da maior importância.

Não me refiro ao óbvio: se você está bem, use isso para ser uma pessoa melhor ainda, ajude quem precisa, seja mais caridoso, paciente, generoso, etc. , enfim, mais virtuoso tanto quanto possa.

Além disso ou até, eu ousaria dizer, antes disso, é preciso adorar a Deus com a gratidão sincera do coração. É disso que falo, e é evidente que o “agradecionário” está no fim das contas na Santa Missa e na Sagrada Comunhão com Deus. Afinal, se eu não me engano, o Primeiro Mandamento vem antes do Segundo.

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Um dos enganos que eu tive quando conheci colegas estudantes de filosofia nos cursos de Olavo foi achar que aquelas pessoas eram necessariamente melhores moral e intelectualmente do que a média brasileira. Me enganei tanto com isso quanto com relação ao meu próprio valor, já que me achava acima de onde realmente estava, também moral e intelectualmente.

Estou mais em paz comigo mesmo e com os outros agora, porque realmente não espero mais nada de ninguém. Rezo para Deus e me educo com Santos Doutores e com grandes filósofos da história, e principalmente com o próprio grande Olavo.

O resto é território de caridade, inclusive “colegas”.

Isso pode mudar se eu fizer novas amizades, mas até agora nada. Não tem problema. É bom se preparar para o pior, porque daí quando vem o melhor a gente fica ainda mais feliz do que já estava.

Sejam humildes!

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Sim, sejam humildes.

Como isso é simples, meu Deus do céu!

E é muito fácil de fazer, se você pensar bem e com bastante cuidado. No fundo você quer fazer isso, mesmo que não saiba. Quer voltar a ser inocente de alguma maneira, porque quer ser filho de Deus.

E daí você fica mais sábio, porque reconheceu o domínio completo de Deus. Veja bem, não é que você “se submete” a Deus, não é bem isso. Você simplesmente reconhece que sempre esteve submetido e apenas se esqueceu disso ao envelhecer, e virou uma besta cheia de pretensão, quando não de orgulho.

E isso fica melhor ainda, porque quanto mais Sabedoria nos é dada, mais forte fica o desejo de humildade.

No fim boa mesmo é aquela vidinha totalmente despretensiosa, em que você não quer controlar nem sequer o destino de uma mosca, e em que lhe basta sentar no quintal de uma casa velha no fim do mundo e olhar a paisagem como se estivesse lendo um livro sem fim. E ser um “humilde servo nas vinhas do Senhor”.

No auge do processo os sábios até pedem que Deus não lhes dê o poder de influenciar as almas e os destinos das coisas, e é por isso mesmo que Deus lhes dá o poder no fim das contas, embora isso possa ocorrer de forma muito sutil, com aquela precisão refinada e invisível que é própria do nosso grande Deus.

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Não entendeu nada?

Diga assim: “Louvado Seja! Louvado Seja! Louvado Seja!. Santo! Santo! Santo!”

Repita a operação até entender.

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O conhecimento do que eu acabei de falar resolve também o enigma, se é que realmente havia um, da relação entre Liberdade e Destino (os velhos Temas V e IX, para os alunos antigos).

Essa resolução, porém, não é plenamente intelectual, é existencial.

Intelectualmente nós articulamos mais ou menos assim: a liberdade humana de um indivíduo é limitada pela soma da liberdade dos outros homens, e este conjunto todo é externamente determinado pela liberdade de Deus. “Livre-Arbítrio” e “Determinismo” coexistem perfeitamente.

Só que se você quiser espremer com o seu alicate lógico a realidade disso, vai dar pane na sua mente.

Porque você percebe que a liberdade humana opera em dois graus: num primeiro grau ela é limitada pelas restrições reais, físicas e espirituais (já falei disso no meu Curso de Vocação), e num segundo grau é limitada pela determinação positiva da vontade divina (o lado inverso, ou positivo, das restrições espirituais do grau anterior). Só que este segundo grau é, vamos dizer assim, estranho. Porque aqui quanto menos o sujeito quer ser livre, mais livre ele fica!

É diferente do primeiro grau. No primeiro grau o desejo de liberdade explora os limites das restrições reais. E a consciência da liberdade se expande proporcionalmente à intensidade do desejo de ser livre em obediência à estrutura das restrições.

Mas no segundo grau, como que magicamente, ocorre exatamente o contrário. Aqui o desejo de ser livre obstrui a consciência da liberdade efetiva do indivíduo, como se ele estivesse lutando contra si mesmo. O indivíduo ganha liberdade de fato fazendo o movimento oposto, abrindo mão de sua “liberdade” justamente na realização dessa virtude chamada Humildade. Isto significa que a liberdade do homem no sentido mais verdadeiro e pleno é uma concessão de Deus, que acolhe a submissão do homem e lhe dá a felicidade de viver a vida que lhe é devida.

Só que isto parece extremamente contraditório com a concepção de coexistência entre “Livre-Arbítrio” e “Determinismo”. A razão disso é simples, embora possa ser difícil dependendo da capacidade abstrativa de cada um: não existe proporção determinada entre o finito e o infinito. Tanto quanto não existe razão real entre alguma coisa e o Nada.

O Livre-Arbítrio existe, sim, porém ele é infinitesimalmente ínfimo perto da Determinação da liberdade divina, como qualquer coisa que exista é tão pequena perto de Deus que é como se não existisse.

Se você quiser entender isto pelos instrumentos da Razão, você não vai conseguir, porque racionalmente é como se o Livre-Arbítrio simplesmente não existisse.

Isto significa que há um tipo de prioridade real entre o Ser e a Verdade, tanto quanto há uma relação de procedência teológica do Pai para o Filho, e consequentemente uma relação de hierarquia entre a ontologia e a lógica.

Por isto a filosofia sobre esta sabedoria é difícil se não for mesmo inviável, como aquele anjo mostrou a Santo Agostinho em seu sonho, a respeito do Tratado sobre a Trindade. Mas isso não quer dizer que a Trindade não é verdadeira.

Mas se não é possível estabilizar essa realidade na linguagem humana, não quer dizer que não dá para ver e saber o que é isso realmente. Dá sim.

Mas como eu disse no começo, a solução desta questão é existencial e não intelectual.

Como é que faz?

Sejam humildes…

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Enquanto uma pesquisa mostra que 43% do eleitorado paulistano jamais voraria em Haddad na próxima eleição, Ciro Gomes cita o petista como um nome político de grande potencial e envergadura… para se ter uma idéia de como anda o contato do cidadão com a realidade. 

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Ler um jornal como Valor hoje em dia me dá ânsia de vômito. Ainda guardo dois recentes cadernos EU & Fim de Semana, que em tese guardariam as melhores entre as piores páginas do jornal –não porque tenham coisas interessantes, mas porque têm barbaridades que não podem deixar de ser respondidas.

Num caso um especialista (ah, os especialistas…) relata como o Brexit representa um risco ao que ele chama de “projeto europeu”, como se esse risco não fosse na verdade uma boa notícia para a humanidade. É como ouvir um membro de uma gangue reclamando indignado do aumento do policiamento nas ruas.

No outro caderno um senhor (outro especialista, é claro) me diz o seguinte, a respeito do caos da segurança na Europa: “não vamos resolver esse problema fazendo guerra ao terrorismo. Temos de tratar esse problema com outra maneira de fazer diplomacia”. O que é que se faz com uma criatura que diz uma coisa dessas?

Infelizmente, para não correr o risco de ser injusto, terei que ler essas coisas detalhadamente para só então dar um parecer final. Creiam-me, não é uma coisa muito prazerosa.

Não é que eu queira mesmo ir lá ler e comentar esses tipos de idéias, eu só não consigo deixar de fazê-lo.

Essas coisas não podem passar impunes.

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30/07/2016

Louvar a Deus é a coisa mais importante, não só diretamente pela oração, mas através de tudo quanto fazemos e dizemos. A segunda mais importante é ajudar as outras pessoas a fazer a mesma coisa. Isto é a felicidade humana.

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01/08/2016

Estava demorando para aparecerem tradicionalistas e conservadores pregando contra o liberalismo como a causa de praticamente todos os males do mundo. Têm razões, mas não têm razão.

Me parece mais fácil ensinar a Caridade aos liberais e convidá-los, assim, para receber e aprender a tradição da Igreja, deixando-os com razoável liberdade para entender como a organização social pode ocorrer de acordo com a tradição, do que querer negar todo o pensamento liberal e insistir numa doutrina social e econômica completa feita por pessoas que não entendem a indústria moderna, o mercado financeiro, etc.

É uma questão simples de priorização. A Igreja é mãe a mestra das mais altas preocupações humanas. Não faz muito sentido montar um anexo de contabilidade e finanças no seu corpo. É mais razoável trazer os contadores e financistas para a luz da tradição e então dizer a eles: façam o que tiverem que fazer de acordo com esses valores, assim e assado.

Poderia dizer mais, mas fico por aqui por enquanto porque ainda preciso estudar mais sobre o que se classifica de “liberalismo” nessas críticas. Dependendo da ênfase, pode ser que as críticas sejam mais felizes do que o meu pessimismo me faz supor. Especialmente se incidirem sobre o cientificismo moderno e todas as idéias colocadas em circulação pelas engenharias globalistas.

Mas todo o cuidado é pouco. Ainda acho, modestamente, que o dever número um dos militantes pela tradição seria expulsar os comunistas da Teologia da Libertação de dentro da Igreja.

Se você mete o pau nos liberais que já não fazem questão nenhuma de fazer parte da Igreja e nem de reconhecer a sua autoridade, e ao mesmo tempo tolera a presença de comunistas intoxicando seminários e paróquias, qual é a mensagem que está realmente passando, e a quem estará realmente beneficiando no fim das contas?

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05/08/2016

Se eu não ligasse um programa de notícias no rádio hoje, nem saberia que começaram as Olimpíadas. Esse é o meu nível de entrosamento com esse mundinho.

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Não é preciso um avanço maior da tecnologia de realidade virtual para se correr o risco definitivo de transformação da humanidade num exército zumbi. O fenômeno Pokemon Go já está fazendo isso. 

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Estou cada vez menos tolerante com o discurso que condena orentismo das famosas 10 mil famílias brasileiras. Se é para se condenar um pequeno segmento social como culpado por toda a desgraça da nação, podemos certamente nos satisfazer com algumas centenas de cabeças em Brasília. Enquanto todos esses não fossem enforcados por seus respectivos crimes de traição à pátria, não se teria que tocar sequer num fio de cabelo de um rentista deste país. A vida seria bem melhor, com certeza. 

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Aliás, é um escândalo que se faça Olimpíadas num país onde 50% dos lares não têm saneamento básico.

O prestígio que a mídia e seus representantes dão a esse evento equivale a uma cumplicidade criminosa.

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Estou curto hoje.

Mais uma brevidade: a obediência aos “deveres de estado” não pode ser uma regra absoluta, e frequentemente numa sociedade desordenada é necessário muitas vezes fazer exatamente o contrário e ser desobediente. Os deveres de estado são, afinal, inferiores ao amor a Deus e ao próximo, obviamente.

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Embora eu venha aumentando minha estima pelos trabalhos escritos, não negarei jamais o valor superior da tradição oral que embalou a trinca Sócrates-Platão-Aristóteles, ou a que formou a geração que foi “a inveja dos anjos” na Idade Média.

A escrita é uma via limitada, porém garantidora. É uma espécie de seguro que o amante da sabedoria paga para disseminar conhecimento por uma via inferior, ao custo da perda da carga moral (quando não sobrenatural) da transmissão pessoal.

Um mestre completo faz tudo: forma os presentes e dá o texto aos ausentes.

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Um amigo me pediu para comparar uma passagem do Hugo de São Vítor com o simbolismo de Mercúrio, Lua e Sol.

A relação procede, com apenas um adendo.

Enquanto Mercúrio pode se relacionar com a verdade contingente dos seres transitórios submetidos à mutabilidade, e a Lua, por seu turno, pode se relacionar com a memória mais estável (porém não garantida) das idéias abstraídas da experiência mutável, é verdade que o Sol pode ser relacionado com a sabedoria plena, ou seja, a verdade imutável, e evidentemente a própria capacidade de conhecer a verdade.

Mas a sabedoria suprema não é constituída somente da verdade da identidade essencial e eterna dos seres, mas também das relações entre essas diferentes realidades espirituais. E essas relações, por sua vez e enquanto tais, são simbolizadas por Saturno.

Pois faz parte do Logos não só a verdade interna e essencial de cada ser possível (Sol), mas a coerência de cada possibilidade com as demais, através de uma estrutura de relação, proporção, razão, hierarquia, etc. (Saturno).

Saturno complementa, assim, o simbolismo do Sol, e os dois desempenham assim seus papéis como representantes da sabedoria suprema de Deus.

Se o Sol é a identidade, Saturno é a relação entre as identidades.

Se o Sol é a unidade, Saturno é a razão entre as unidades.

Se o Sol é a possibilidade de ser, Saturno é a estrutura das possibilidades.

E por aí vai.

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No próximo dia 20 vou dar uma outra aula sobre política, trazendo de volta a parafernália toda para o mundo real das evidências. Tentei fazer isso na aula anterior, mas não vi muitos frutos até agora.

Há um mundo inteiro de premissas que imperam sobre o assunto antes de se começar sequer a primeira discussão política. Esta aula servirá para esclarecer isto. Meu desejo é que nenhum aluno meu jamais se esqueça desses pressupostos básicos.

Há por exemplo toda uma correspondência óbvia entre o pessimismo e até o ceticismo político da modernidade com a “caosvisão” (como diria o Gugu) que impera sobre a sociedade.

Se não há ordem na natureza das coisas, nem há ordem no próprio ser humano, e mesmo as estruturas todas da sociedade são completamente arbitrárias, como é que se quer ter uma visão política que não seja absolutamente catastrófica?

E como evitar, dentro deste cenário de calamidade, que o vírus revolucionário prospere como um encantamento para as massas?

O humanismo gera o otimista revolucionário que diz que não acredita em mais nada, mas que continuará acreditando apenas nas suas próprias mentiras e loucuras.

Vejam bem, não é que estamos decaindo para um estado de barbarismo.

Os bárbaros eram pagãos. E os pagãos tinham cosmovisão.

O mundo para eles era ORDEM. O ser humano se encaixava dentro desta ordem, e a sociedade, consequentemente, deveria refletir de algum modo esse ordenamento.

Esses pagãos certamente adoravam outra coisa e não exatamente Deus, mas não eram tão perdidos quanto as nossas gerações contemporâneas que já não vêem ordem em absolutamente mais nada, pois foram educados justamente para ver apenas o caos e a arbitrariedade em toda parte.

Essa esperteza do ceticismo moderno gera o efeito contrário ao que se poderia supor inicialmente, porque disto veio toda uma geração crédula e idiota como nunca se viu antes.

Discutir política antes de saber qual é a concepção que se tem do mundo, dos homens e da sociedade, é como querer escrever um romance antes de ser alfabetizado. Simplesmente não dá. E mesmo assim as pessoas querem fazer, querem ter “opiniões políticas”. Espero que essa aula ajude.

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Fernando Abrucio, que escreve para aquele jornal chamado Valor, essa coisa quase inútil (não se esqueçam das palavras cruzadas), diz que o Escola sem Partido não faz sentido. Eu até concordo com algumas coisas que o cidadão diz, mas é mesmo praticamente impossível subscrever um autor de qualquer porcaria de jornal, que diz algo como “as novas gerações devem ir além do que pensam suas famílias, e construir um mundo melhor do que foi construído por seus ancestrais. Precisamos avançar no tempo e não retroceder, tanto em educação como em todo o restante de nossa agenda”.

Mais um zumbi na nossa imprensa, como se vê. Até aí, nada de novo.

Mas é pior que isso.

Que diabos ele quer dizer com “o restante de nossa agenda”?

Nossa agenda?

QUAL AGENDA?

É um descaramento.

O descaramento de um progressismo pretensamente hegemônico.

Mas já não deu certo, não é?

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08/08/2016

Aqueles que se colocarem por teimosia contra a Providência serão soterrados por ela, obviamente. Se até o fim do mundo nem as portas do inferno prevalecerão, quanto menos prevalecerão os idiotas úteis.

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Ontem me ocorreu algo como que uma visita a velhas catacumbas onde habitam antigos demônios. Eles já foram enfrentados e vencidos, mas continuam lá, porque vencer um demônio é abandoná-lo e esquecê-lo aos infernos. Se eu desço as escadas da masmorra posso revê-los, e eles permanecem sinistros, babando de ódio, como sempre. E sem dúvida só conseguem enfeitiçar e rebaixar aqueles que insistem em ignorar a sua presença.

O truque é sujo e baixo. O mal é uma possibilidade espiritual que te faz negar a vida espiritual no processo mesmo de se deixar influenciar por ela despercebidamente.

Sócrates estava certo. A ignorância é um mal fundamental.

E por isso mantenho comigo o valor do Elmo de Hador como símbolo de luta contra este mal fundamental. Não é contra a carne e o sangue que devemos lutar, mas contra os espíritos imundos espalhados pelos ares.

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O patriotismo dos brasileiros por ocasião das Olimpíadas na maior parte dos casos é ridículo, porque é falso. A existência da própria Olimpíada prova que os brasileiros não ligam a mínima para o seu país. Não ligam, mas adoram contar uma vantagem quando podem. Usurpam, por exemplo, a memória de um Santos Dumont, ou de um Ayrton Senna, como arrombadores e saqueadores de túmulos. Usam o prestígio destes indivíduos excepcionais em favor da legitimação do sentimento de pertencer com alegria a essa porcaria de país. O Brasil é uma selva onde habita um povo repleto de porcos, macacos, papagaios, jumentos, preguiças, etc. Há homens, mas estes ficam mais quietos. Os quadrúpedes são os mais barulhentos. 

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O laicismo e o ceticismo são muito piores que o paganismo mais bárbaro.

Trata-se da diferença entre ser humano, ainda que menos humano ou de uma maneira mais baixa, e não ser humano de maneira nenhuma.

Ou ainda da diferença entre se ter uma cosmovisão confusa, mas fundamentalmente realista, e se ter uma “caosvisão” niilista que leva à arbitrariedade animalesca.

Digo isto porque geralmente faz-se pouco do globalismo nos seus valores espirituais e filosóficos, mas é aí que ele é justamente mais nefasto por ser mais invisível e ardiloso.

Um bárbaro ou pagão é superior neste sentido porque ele pode ser catequizado, enquanto um laicista e cético não pode e está, portanto, na ponta mais baixa da escala humana.

Por isto coloquei como primeiro grau da busca da sabedoria, em meu esquema anteriormente apresentado, a figura do Aspirante, que é alguém que já conseguiu ao menos perceber que precisa superar essa ignorância fundamental, que é realmente o mínimo que tem que acontecer para as coisas evoluírem. Relembrando o que disse:

O Aspirante sai da figura humana mais vagante possível, desinformada mesmo da noção mais básica do que seja a sabedoria no nível elementar do imaginário. A sabedoria, para o indivíduo completamente perdido na sociedade moderna, ainda não foi seriamente cogitada sequer como simples possibilidade humana. O Aspirante é o indivíduo que resolve sair disso, e que para tanto começa a conceber a possibilidade da sabedoria como crível.”

Esse vagante pelo espaço sideral, quando resolve optar pelo credo laico e cético, toma o caminho exatamente oposto ao que descrevi no grau de Aspirante.

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Um amigo pediu que eu registrasse um comentário que fiz a respeito do moralismo.

A ocasião que me fez pensar a respeito foi uma conversa com uma pessoa que equivocadamente identificava o cristianismo com um sistema de repressões e de julgamentos. Na verdade o que a pessoa conhecia não era o próprio cristianismo, mas o moralismo cadavérico derivado da perda da tradição cristã por aqueles que deveriam representa-la. O risco que essa confusão causa é o de ignorar o valor do julgamento justo da conduta humana.

Para mostrar a diferença falei da passagem do Evangelho em que Jesus salva Maria Madalena do apedrejamento.

Jesus afasta os moralistas e salva Maria Madalena, mas também diz que ela deve seguir a sua vida e não pecar mais.

A vida da salvação não é qualquer vida indiferenciada: é a vida da santidade, que é das vocações humanas a mais nobre e elevada. Por isso, embora o moralismo deva ser repelido, o julgamento das ações é necessário para que a virtude triunfe.

O moralismo é um cadáver onde um dia havia a vida justa da busca pelo julgamento das ações em vista do Bem.

A repelência do moralismo é adequada, mas não pode levar ao abandono do julgamento da conduta humana. Infelizmente, quando a tradição religiosa está fraca, mal representada e mal ensinada, essa confusão se dissemina pela sociedade.

O moralismo na realidade amplia o mal que nominalmente pretende combater.

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Encontrei um texto esquecido e que não foi publicado em meu site. Vou transcrever aqui agora, para que não se perca.

Essa estupidez da ideologia de gênero, subitamente propagandeada por todos os lados junto com outros produtos da agenda revolucionária, nos mostra duas coisas:

1) a iniciativa social está, e faz tempo, nas mãos dos revolucionários. Não é que estes caras tenham o dinheiro, não é só isso. Eles têm antes de mais nada a iniciativa de fato, vontade, força, unidade, objetivos. etc. Nada impediria que conservadores e tradicionalistas tivessem força moral e, consequentemente, social, para promover os seus valores e, assim, juntassem dinheiro, poder, influência, etc;

2) é muito difícil, apesar de todo o poder, dinheiro, influência nas escolas, mídia, etc., o discurso revolucionário encobrir a realidade das relações humanas em geral com as suas mentiras, e especialmente a realidade das relações familiares. São décadas de engenharia social, planos e conspirações, para de um jeito ou de outro chegar a um fracasso. Um fracasso que causa os seus hediondos estragos, é claro. Mas a derrota é o destino final dessas bizarras iniciativas.

Os dois pontos acima nos levam a imaginar que se os conservadores se dedicassem à luta cultural e social com a mesma energia dos seus adversários, jogariam os revolucionários nas cordas em cinco minutos com grande facilidade. Porque teriam a força da realidade a seu favor. 

Mas a vida moderna é um convite à dispersão e ao desperdício de tempo e energia, e com miserável frequência aqueles que deveriam se unir para lutar do mesmo lado estão brigando entre si por mesquinharias, vaidades e tolices.

Por isso é tão importante ajudarmos, com todo apoio que pudermos, e de todas as formas, todas as boas iniciativas daqueles que combatem a revolução cultural e que defendem as tradições, mesmo que isso nos custe colaborar com quem temos as nossas diferenças.

E por isso também é tão importante, no nível individual, aceitar de bom coração todos os sacrifícios pessoais necessários para seguir a trilha correta da nossa missão, abrindo mão do que for preciso para fazer a coisa certa.

É difícil! Eu sei. Mas nós temos que fazer este negócio. Nós não queremos um “mundo melhor”, e nem uma atmosfera cultural monolítica irrespirável. Nós só queremos viver em paz, só isso.

Que os nossos adversários revolucionários consigam se aliar entre si com mais facilidade do que nós nos aliamos, e que consigam sacrificar-se pessoalmente com mais ardor por suas causas injustas mais do que nós nos sacrificamos pelos nossos justos valores, é algo escandaloso e inaceitável.

Não digo nada disso para cagar regras nas cabeças dos outros. Digo isso tudo em primeiro lugar para mim mesmo.

E não me diga “ah, mas the best lack all conviction…”, não me venha com essa, por favor. Esses melhores não são tão bons assim.

Não se pode confundir um diagnóstico dos tempos com uma lei metafísica. Nós somos ou não somos livres? É apenas isso que importa. E é por isso que seremos julgados. Não vai adiantar nada chegar no Juízo Final e dizer que “the best lack all conviction“, vai ser a cena mais ridícula do fim dos tempos.”

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Horacio Pagani tem razão quando diz “acreditamos que o carro possa ser uma obra de arte. Não quero banalizar a palavra ‘arte’, mas acredito que o trabalho dos meus colegas de design, dos meus colegas artesãos, de quem faz o trabalho manual, é uma autêntica expressão artística”.

Quem duvida disso deveria prestar mais atenção em um Zonda, ou um Huayra.

Apenas discordo que Christian von Koenigsegg não esteja também trabalhando na produção de arte ao modo, embora esta seja de outro tipo ou foco, e certamente de um outro estilo.

Já escrevi em defesa do automobilismo antes e no futuro pretendo fazer mais disso.

Além da conexão entre beleza e maestria técnica presente nos bólidos, há a conexão entre esses artefatos e a habilidade de um piloto que transforma tudo isso em performance, lidando com regras rígidas e improvisos ao mesmo tempo, ou seja, fazendo também a sua arte ao seu modo.

Apenas no campo da beleza há todo um universo a ser explorado, porque se você pensar bem os carros estimulam todos os nossos sentidos, com a exceção do paladar.

Francamente eu acho exageradas muitas das manifestações de autores especializados em carros. Incapazes de interpretar mais profundamente as suas experiências, falam de coisas que não existem tentando abordar uma realidade simbolicamente exigente. Daí é que saem comentários sobre a “personalidade” dos carros, etc.

É perfeitamente possível melhorar esses tipos de análises. Sem muito trabalho qualquer pessoa que entenda de simbolismo percebe, por exemplo, que o Porsche 918 é mais mercurial, e o Bugatti Veyron é mais jupiteriano. Isso é mais realista do que falar de uma suposta “personalidade” dos carros.

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Quando eu vejo textos de “críticas” de filmes e seriados nos blogs de hoje em dia, me acontece incontrolavelmente aquele sorriso de canto de boca.

Esses rapazes não sabem o que é uma crítica.

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Mas vão saber: inevitavelmente vou trabalhar analisando filmes e séries.

Já pratiquei um pouco disso desde um primeiro comentário ao filme Tróia, que escrevi há cerca de uns oito anos atrás. Essa crítica não está publicada em lugar nenhum e eu nem vou fazer isso agora, porque quando escrevi esse negócio ainda não havia lido Homero. Hoje já seria um outro texto.

De qualquer modo, era algo parrudo, umas trinta páginas.

E não tinha essa conversa mole técnica e midiática, a respeito de como é que foi feita a fotografia de um filme, ou sobre qual foi o seu “sucesso” em termos de audiência e renda financeira. São bobagens entediantes e superficiais.

O valor verdadeiro de um filme (e, portanto, o seu verdadeiro sucesso) se dá pela sua arte, e a arte de um filme está na sua forma e não na sua matéria ou na casualidade da sua recepção, seja pela crítica técnica ou pelo grande público. Precisa ser um gênio para saber isso? Não, basta conhecer um pouquinho de Aristóteles.

Mas aí é que está, os caras não conhecem! E montam sites e comunidades inteiras para falar de umas mesquinharias insuportáveis, de detalhes absolutamente desprezíveis e desinteressantes.

Vocês vão saber do que eu estou falando quando eu voltar a trabalhar com isso, se Deus me permitir.

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A redação de Veja foi abduzida por uma legião de militantes comunistas. 

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Até o Chuck Norris está preocupado com a geoengenharia. Esse assunto deveria ser debatido 24 horas por dia. Mas quantas pessoas sabem sequer que isto existe? 

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09/08/2016

Ontem eu falei da abdução da Veja pelos comunistas, hoje a Joice Hasselmann gravou um vídeo falando a respeito disso, já que a revista resolveu atacar o seu canal no Youtube e até o seu livro sobre o Sergio Moro.

Eu espero que ela fale mais, porque certamente ela sabe mais.

Que há uma orientação esquerdista na Veja, não é uma novidade. Que esta orientação engrossou nos últimos tempos, turbinada por verbas estatais, também não é novidade. Mas alguns detalhes podem surgir para aumentar a nossa compreensão do quadro, e eu espero que a Joice continue contribuindo para que essas coisas se esclareçam.

A bravura da Joice tem uma beleza bem feminina que contrasta muito com aquela feiura das feministas com pelos nos sovacos.

Você já imaginou uma Santa Joana d’Arc como uma mulher barbada de circo?

Essas coisas são evidentes quando se presta atenção.

A virtude da coragem não masculiniza uma mulher, ao contrário, a torna mais plena na sua feminilidade. Enquanto isso as mulheres que querem ser reconhecidas como mais nobres que os homens e que fazem, para isso, um mergulho em diversos vícios, se tornam feias e menos femininas do que afirmam que realmente gostariam de ser.

O feminismo é uma coisa feia. E se tem uma coisa que não combina com as mulheres, que não diz respeito à vocação delas neste mundo, é a feiúra.

Que as se dizentes porta-vozes do suposto interesse das mulheres acabem por produzir o maior prejuízo para esse mesmo grupo o qual dizem representar, não é algo muito diferente do que acontece com os movimentos racistas em suposta defesa dos negros, ou os movimentos gays que supostamente representariam os homossexuais, etc. O verdadeiro vírus aqui é o esquerdismo e, mais profundamente, a mentalidade revolucionária.

E basta que uma luz como a dessa Joice brilhe, como de fato brilha pela sua coragem, para que essas coisas fiquem evidentes quase que instantaneamente.

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É verdade que há um caminho vicioso onde o medo gera o sofrimento, e onde o sofrimento por sua vez provoca o mal. Mas de onde vem o medo, inicialmente?

Vem de um orgulhoso desejo de controle que, em última instância, é uma falta de humildade diante de Deus.

O mal primigênio é sempre o pecado original do orgulho, portanto.

Por isso que o exercício de humildade na prática se desempenha com a renúncia ao controle de coisas que realmente não estão sob a nossa tutela. É no fundo a confissão de uma realidade e nada mais que isso.

Por este caminho virtuoso ocorre o contrário daquele outro: a humildade gera a confiança em Deus, que gera a liberdade e a alegria, que por sua vez provoca o bem.

Não é tão difícil entender isso.

O difícil é querer entender isso, porque para tanto é necessário abandonar os nossos medos de estimação, que foram tão bem cuidados e nutridos ao longo de anos e anos. Aliás, quando mais tempo passa, mais difícil é fazer isso, porque os medos ficam cada vez mais crescidos, fortinhos e ameaçadores. Este é o playground do diabo.

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Embora tenha perdido muito do interesse pelo programa Roda Viva, vou assistir a entrevista com o Pondé. Ele é um cara que pela tradição filosófica está, para mim, “no meio do caminho”: embora rejeite a fé e professe um niilismo, não o faz aparentemente por militância de nenhuma espécie, mas por o que parece ser apenas uma busca imperfeita pela verdade. E, especialmente, Pondé me pareceu justo na maior parte de suas atuações. Vou assistir. Vamos ver o que sai. 

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Eis um belo jeito de começar um trabalho intelectual sério na nossa época de fim de mundo: lembrar de Mateus 5, 9-12.

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.

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Quando eu vejo a babaquice do suposto paradoxo entre Livre-Arbítrio e Determinismo, o que é apenas uma pegadinha da filosofia moderna, e me lembro das palavras do Jean-Pierre de Caussade sobre o abandono à divina Providência, percebo claramente –e creio que qualquer um o faria– o tamanho monumental e abissal da distância que há entre alguém que quer entender alguma coisa e alguém que quer apenas falar a respeito de alguma coisa.

Do ponto de vista intelectual é quase como a diferença que há entre um anjo e um verme.

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Falando em Caussade, vi que parece que ele sofreu uma denúncia de quietismo.

O quietismo, por sua vez, foi condenado como doutrina herética pela Igreja Católica, na ocasião liderada pelo Papa Inocêncio XI, mas prosperou na igreja oriental e parece que é algo praticado até hoje.

Adivinhem quem disseminou filosoficamente essas idéias de volta no Ocidente contemporâneo? Guénon e Schuon.

Ou seja, a prudência recomenda colocar uma plaquinha: “cuidado, campo minado”. Tem ouro por aí nesse território, mas ele está cercado de bombas, arame farpado e armadilhas por todos os lados.

Agora é começar a estudar como se configura toda essa parafernália…

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Um menino pulou de uma sacada e caiu de 40 metros de altura para caçar um Pokémon no Rio de Janeiro. Morreu, claro.

Como eu já disse, nem precisamos da virtual reality para o advento da mais nova onda de insanidade. A Nintendo foi mais eficiente.

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10/08/2016

Voltando a um assunto que já abordei, sobre a alternância entre passividade e atividade da alma de acordo com os respectivos simbolismos de Lua e Sol.

Estudando O Abandono à Divina Providência do Caussade, nós contemplamos facilmente o que é “ser Lua”. E isto não é quietismo justamente porque não representa a perfeição humana, que é completada pela atividade simbolizada pelo elemento solar. Mas se isto é assim por que, então, parece haver uma prevalência do elemento lunar nos exercícios comuns de santificação?

É porque a boa ação humana completa-se também pela Providência, que é a única fonte (a Graça proveniente do Amor divino) possível da conduta acertada. E a Providência é primeiramente recebida como origem de condutas passivas do ser humano, fundamentalmente humildade, obediência e gratidão.

Meus alunos mais antigos devem lembrar-se, na explicação de meus Temas I e II (Tempo e Realidade), que os discursos atualizadores das possibilidades na realidade concreta são o divino e o humano, mas também que a prevalência do discurso divino ao redor do humano é total. E não só isso: dentro mesmo do discurso humano (entendam que aqui “discurso” significa “ato”, ou “atualização”) o que há de mais perfeito é feito de acordo com a vontade do discurso divino, e o que é mais imperfeito é resultado da pura arbitrariedade humana (a origem do mal moral). Mais tarde, no Tema XI (Individuação), nós retomamos essa proximidade da perfeição humana que é tão própria quanto é concordante duplamente com a esseidade individual e com o conjunto circunstancial que cerca essa unidade. Mas, ora, novamente nós vemos aí justamente a presença de Deus como a garantidora não só da liberdade, mas da própria individualidade humana, pois de onde vieram tanto a essência anímica quanto a causa final do conjunto ordenado das acidentalidades? Tudo isso veio de Deus.

Isso quer dizer que nós “somos Sol” quando harmonizamos a nossa vontade livre com a perfeição do desígnio divino. E isto ocorre, para a maior parte de nós, por menos tempo do que o período em que “somos Lua”, simplesmente porque as potências passivas da alma são necessariamente requeridas antes dessa harmonização que conforma a nossa boa atividade (com a exceção dos casos daqueles que são tocados e designados para missões especiais, como no caso dos Patriarcas e Profetas do Antigo Testamento, e de vários Santos da Era Cristã; nesses casos tudo pode ser muito rápido e simultâneo, como Deus quiser).

Voltarei a isso mais tarde, pois é um assunto dos mais interessantes e importantes que existem. O que já posso dizer com segurança é o seguinte: nas duas situações, tanto na de “ser Lua” quanto na de “ser Sol”, a efetividade é garantida pela consciência natural proveniente da atualização de cada status.

Quer dizer: se você está confuso com relação ao que lhe é exigido no momento, se é a passividade ou a atividade, ou melhor ainda, já que nenhum desses estados é jamais pleno neste mundo, se está confuso com relação a qual é a proporção devida de passividade e de atividade a cada dado momento, é porque certamente ainda não está fazendo a coisa certa. E isso geralmente quer dizer que as etapas mais “lunares” da caminhada estão mal feitas, seja a humildade, a obediência ou a gratidão.

Mas volto a dizer, isto tudo é muito mais aprendido pelo exercício consciente, refletido e meditado, do que pela razão filosofante. Eu mesmo tinha já a linguagem e o equipamento abstrativo para tratar dessas coisas faz anos, mas só agora, por causa de um pouco de avanço na prática do assunto, é que consegui ampliar o meu entendimento.

Se você quiser um “truque” para entender esse negócio mais facilmente, o máximo que posso fazer é dar uma dica.

Você está procurando uma sabedoria que é representada pelo simbolismo de Mercúrio, que não representa só o trânsito entre Céu e Terra, mas também (quando não principalmente) o trânsito entre passividade e atividade. E eis a dica: essa sabedoria já está completa na narrativa do Evangelho, porque Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, É essa perfeição.

Então, embora talvez não saiba ainda, o que você busca é essa boa notícia, essa Revelação, e mais ainda, o que você procura é a pessoa do próprio Jesus Cristo.

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Duzentos e cinquenta páginas de diário completadas hoje.

Formatado num livro, esses textos renderiam umas 400 páginas. E estou escrevendo pouco, por falta de tempo.

Isso quer dizer que num ritmo mais normal eu poderia escrever umas 1 500 páginas de livro por ano, uns três volumes. Fácil.

É claro que isso desconsidera a qualidade. É melhor escrever 100 páginas ótimas do que 1 000 páginas de baixa qualidade, ou mesmo medíocres.

E é isto o que me interessa fazer, aumentar tanto quanto me for possível a qualidade. Se eu fosse fabricante de carros, não gostaria de fazer Fiats ou Volkswagens aos montes. Preferiria fazer Paganis e Koenigseggs, poucos carros, mas muito bons.

E isso só se faz depois de muito copiar e imitar os grandes, sempre.

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Falando em qualidade, teve um texto que eu escrevi atendendo ao que foi na época um pedido do Luciano Ayan, onde me defini como liberal-conservador politicamente (“Uma direita à brasileira”), e posso dizer que este texto, por exemplo, é de qualidade duvidosa.

Não está mal escrito, a parte material do texto em si até que é razoável, mas eu abusei de uma linguagem viciada do jargão jornalístico, e fui mais bom-moço do que deveria ter sido, digamos assim. Até mesmo politicamente correto.

Não citei, por exemplo, o valor da família como pilar do conservadorismo. Não o fiz provavelmente porque isso não estava no centro das minhas cogitações na ocasião, mas reconheço hoje que já deveria estar, porque é algo essencial. A defesa contra o Estado não se dá pelos indivíduos diretamente, mas pelos agrupamentos sociais dos quais a família é o mais importante e o mais naturalmente formado.

Já escrevi sobre isso, corrigindo essa grande omissão. Mas não vou apagar texto nenhum do passado. É melhor corrigir o que tem que ser remediado e seguir em frente. Meus textos realmente impublicáveis foram escritos há mais de dez anos atrás, e a esses nem eu mesmo tenho mais acesso. Graças a Deus, que me poupa de sentir a vergonha de relê-los.

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Ser gerente financeiro em um escritório de advocacia em uma frase é: gastar os seus nervos para usar, com mãos de cristal, uma marreta de ferro. 

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Tanto o tradicionalismo cristão quanto o islâmico concordam em parte com uma crítica que se harmoniza com os sentimentos socialistas e revolucionários em geral num aspecto: o liberalismo moderno e o progressismo submetem o homem a uma vida inferior, uma vida distanciada ou mesmo desligada das metas espirituais fundamentais.

Isto não é um mero punchline: é um sentimento que brota da observação da realidade moderna. É curiosíssimo, não obstante, observar o quanto essas correntes totalmente antagônicas no campo político (tradição e revolução) possuem um sentimento mais ou menos comum, ligado a um diagnóstico social e cultural bastante concreto.

Como é que nós resolvemos essa bucha? Porque é, evidentemente, uma bucha.

Mais do que isso, quando você vê o projeto Eurasiano surgir para congregar essas correntes antagônicas numa só síntese abrangente, fica claro que o problema não é meramente teórico, mas daquela natureza perigosa das ideologias.

Muito modestamente, eu retorno ao ponto que já abordei em textos anteriores para dizer o seguinte: a única solução é a retomada, pela Igreja, do ensino da Caridade simultaneamente à condenação total e completa à doutrina da justiça social. Digo mesmo, novamente, que a Igreja que fará isso será aquela profetizada Igreja da Consagração da Rússia.

Porque por quais outros meios se desmembrará esse enigma?

Progressismo, socialismo e liberalismo são irmãos siameses, frutos de cientificismo, racionalismo e iluminismo. Essas coisas só prosperaram porque entregaram alguma coisa para o ser humano, além de suas mentiras. O que foi que entregaram? “A warm light for all mankind to share”. Por menos que isso seja, foi entregue, e ninguém que seja menos do que santo ou algo muito próximo disso vai querer devolver esses benefícios.

E quem disse que isso é necessário?

Eu sou crente num Deus Onipotente que fornece a carestia como ferramenta de trabalho pedagógico, e não como um destino fatal para os seus filhos. Que pai, afinal, dá aos seus filhos uma pedra no lugar do pão? E sou crente num Deus que criou este mundo de forma perfeita e que, mesmo com a Queda, o chama à Sua perfeição a cada instante. Não existe “erro de projeto” para Deus, é absolutamente contraditório. E não existe um pingo, uma fresta, uma falha sequer, no Bem de Deus.

Mas uma síndrome expiatória ou até penitencial pode impedir o pessoal tradicionalista de enxergar não só o que é o melhor possível, mas o que é praticamente a única solução possível num âmbito social: tomar posse da prosperidade e até mesmo ampliá-la realmente pela pregação da Caridade como a mensagem central do amor ao próximo nesta terra. É uma obrigação e nós estamos nos fodendo por uma razão muito simples: não estamos obedecendo.

É mais fácil rir disso por malícia do que confiar nisso por uma fé ingênua, claro.

E é por isso que todo mundo se ferra e o Eurasianismo tende a completar, junto com o Globalismo ocidental, o show de horrores do fim do mundo.

Bastará para isso que os seguidores da tradição sejam finalmente seduzidos e reunidos em grande parte com os revolucionários em nome da destruição da modernidade laica representada pelo Globalismo. Finalmente as duas revoluções se encontrarão arregimentando toda a humanidade numa teratomaquia final.

E pensar que para dinamitar essa desgraça toda bastaria voltar a uma “coisinha” tão simples como a Caridade…

Por melhor e mais justa que seja qualquer tipo de Penitência, eu nunca vi nenhuma autoridade mandar trocar a Caridade por ela. Ao contrário, a Caridade é suprema no assunto dos negócios humanos e da nossa realidade social. A Caridade é a Lei.

A Penitência serve ao melhoramento do cumprimento do Primeiro Mandamento, não do Segundo.

No Segundo Mandamento a Penitência corre o risco de virar sadismo.

Penitenciar os outros ao invés de si mesmo não é justamente o castigo que os demônios praticam eternamente com os condenados do inferno?

E a Penitência adequada, para si próprio, não ajuda, inversamente, a realizar justamente o contrário e livrar-se das amarras que impedem o exercício da Caridade ao próximo?

Podem girar e girar o quanto queiram esse assunto, este me parece ser um limite final da questão, em perfeita concordância com a obediência da Lei.

Vocês têm que fugir do Eurasianismo tanto quanto do Globalismo. Voltem para a Igreja, expulsem a doutrina da justiça social de lá, e retomem o ensino da Caridade.

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Alguém poderia alegar que o comprometimento do ensino das virtudes já é tão grande na nossa época que não seria mais possível retomar o valor da Caridade nos nossos tempos, o que exigiria o uso de medidas excepcionais (Eurasianismo?) ou ainda uma simples conformidade com o fim dos tempos.

Isto seria assim se a Caridade fosse uma ideologia.

Mas se ela é uma virtude, e isso significa que o nosso problema é de falta de fé mesmo, como sempre. Não venham com essa de culpar o destino, chorando-me as lágrimas mais fatalistas do universo. Nós é que temos que nos converter antes de mais nada, e essa é a premissa deste negócio todo aqui.

Se você já não acredita em mais nada, então é tudo papo furado mesmo. Neste caso basta aguardar os senhores Dugin e Putin passarem com a bacia das almas para lhes salvar das garras do terrível mundo moderno, seus coitadinhos.

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Pensem comigo: quando rezamos e dizemos “Adveniat Regnum Tuum”, o que nós estamos querendo dizer?

Estamos pedindo um estado de iluminação individual?

Ou ainda a garantia da salvação das almas, e que se dane este mundo e o que fazemos por aqui?

O nome disto é gnosticismo.

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Aliás, o gnosticismo é um risco perpétuo da vida espiritual, assim como o panteísmo.

Andar na direção certa também é, de certo modo, andar numa corda bamba com o risco permanente de perder o equilíbrio e cair em um desses dois abismos, à esquerda ou à direita. Para não falar de outros.

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11/08/2016

O Marco Antonio Villa é quase bom naquilo que faz. Possui alguma sinceridade e alguma liberdade desinteressada, mas termina sendo precipitado em alguns juízos e esbarra na injustiça destemperada, quando não entra mesmo nela. Este é o tipo de confusão entre a agilidade dos meios e a perenidade dos fins que um profissional não deveria ter, e se tem é porque está mais interessado em determinado tipo de resultado exterior aos interesses dos temas do que no entendimento dos próprios.

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Pretendo mesmo oferecer algum tipo de serviço de consultas individuais para clientes no futuro, na esteira do que antigamente pensei como “coaching intelectual”. Serviços oferecidos: obstetrícia ideológica, desembaçamento de consciência, desentupimento de sinceridade, desenrolamento de discurso, desentranhamento de problemas, etc. 

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A vida do Santo Pio de Pietrelcina era atender aquelas filas quilométricas, de padrão INSS, no Confessionário, e celebrar a Santa Missa.

Uma vida extraordinária num serviço extraordinário. Vejam o quanto isso pode passar despercebido, o quanto isto está distante e acima daquilo que é o palco do mundo.

Ouvi dizer que a Arquidiocese de São Paulo está convidando as pessoas a caçarem Pokémons nas paróquias, contanto que façam o favor de não atrapalhar as missas. Se quiserem, no intervalo entre uma caçada e outra, esses “mestres” são convidados a assistir as celebrações.

Então esta é a situação da Igreja: quando você não tem a virtude e a santidade brilhando ali e trazendo magneticamente os fiéis, precisa pedir a ajuda dos Pokémons.

Hoje é dia de Santa Clara. Orai por nós, Santa Clara!

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Amigo é alguém que avisa que Pondé disse, no programa Roda Viva, que preferiria votar em Jean Wyllys do que em Jair Bolsonaro e que o Papa Francisco é a esperança da Igreja Católica. Isso me poupa o tempo de assistir o tal vídeo agora. Posso deixar para ver quando me sobrar tempo (o que provavelmente nunca acontecerá, pobre Pondé). 

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Para ficar claro que o que disse agora não é espezinhamento nenhum, alguns esclarecimentos.

É muito tortuoso, para dizer o mínimo, o raciocínio de um conservador que diz preferir votar no esquerdismo progressista de um PSOL, e mais ainda o de um ateu que pretende dizer qual deve ser ou não a esperança da Igreja Católica. Com essas declarações Pondé está pedindo muito da nossa credulidade, mais do que infelizmente o seu capital intelectual atualmente o permite solicitar.

Ainda tenho que ler os livros do Pondé, mas pelas suas manifestações ele próprio se declara como um “animal da academia”.

Já há todo um universo embutido nisto. Ser voluntariamente um membro e entusiasta da academia equipara-se a apreciação que um doente teria por viver internado num hospício imobilizado numa camisa-de-força.

O ensino universitário no Brasil, especialmente o de humanas, como já disse, é na verdade um tipo de sistema penitenciário misturado com clube de sadomasoquismo.

Mas poucos ainda perceberam isso, e os diplomas continuam representando uma autoridade social que na realidade não deveria ser prestigiada na maior parte dos casos da forma que é.

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12/08/2016

O Villa reclama, com razão, que um certo banqueiro deu entrevista a um certo jornal, apenas duas semanas antes da votação do impeachment, dando franco apoio e prestígio a Dilma Rousseff. Seu argumento é o de que não foram as elites que provocaram o fim do governo do PT.

Por um acaso eu sei que o banqueiro é o senhor Roberto Setúbal do Banco Itaú, e que o jornal é o Valor, porque eu li esta entrevista na ocasião e me lembro bem dela (e até vagamente da minha ânsia de vômito ao lê-la).

Villa deve estar puto porque provavelmente foi demitido da Veja após um telefonema de um banqueiro, talvez do próprio Setúbal. Foi assim que aconteceu com a Joice Hasselmann.

Mas será que são apenas os interesses puramente econômicos que fariam o banqueiro apoiar, naquela ocasião, a Dilma?

Será que os membros da elite econômica, do pessoal realmente do topo, não seriam capazes de fazer conchavos com praticamente qualquer grupo político brasileiro? Não podem negociar vantagens para si com o PMDB, ou com o PSDB.

Claro que podem. O que justificaria, então, a defesa do PT naquela época?

Apenas um alinhamento de interesses extra-econômicos que, para serem compreendidos, exigem o uso de ferramentas conceituais que estão acima da capacidade ou do interesse do senhor Villa. Simplesmente existem coisas como o Foro de São Paulo, o Diálogo Interamericano e o Clube de Roma, e os grandes banqueiros do planeta Terra fazem parte desses grupos e participam de suas resoluções.

“Teoria da conspiração” é um termo geralmente usado por quem não tem as condições intelectuais de enfrentar um tema que o amedronta, e que resolve portanto usar o infalível expediente de enfiar a cabeça num buraco e ficar ali sentindo-se seguro.

Esta semana mesmo, por exemplo, o Bernie Sanders, candidato derrotado pela Hillary Clinton nas primárias do Perdido Democrata nos EUA, mandou uma mensagem de apoio a Dilma Rousseff “contra o golpe”. Vocês acham que isso é uma declaração espontânea de um agente político que está realmente interessado na situação política brasileira? Duvido que Sanders saiba sequer qual é a capital do Brasil, ou talvez até qual idioma se fala por aqui. Não é interesse verdadeiro, não é uma manifestação legítima. É teleguiamento de estruturas políticas com interesses globais para as quais Sanders não é muito mais que um office boy.

A limitação de Villa é condicionada por um certo determinismo viciado pelas ciências sociais. Para furar isso e ampliar a visão é preciso o mínimo de iniciativa individual e de coragem para dizer o que se está vendo sem ter medo de ser chamado de doido. Um jornalista de rádio dificilmente conseguiria superar este desafio.

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O Congresso Nacional agita-se para discutir a proposta de uma Lei que regulamente a atividade do lobby e, de lambuja, conceda uma anistia aos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro relativos às doações ilícitas de empresas e bancos aos partidos políticos brasileiros.

Isto está sendo feito porque não só o PT correria o risco de extinção pela aplicação da Lei, mas também PMDB e PSDB, ou seja, praticamente todo o establishment político brasileiro.

Quem representa realmente, politicamente, um perigo potencial ao esquema criminoso de poder no Brasil? Uma candidatura como a de Bolsonaro, por exemplo. É urgente, portanto, garantir a salvação dos partidos esquerdistas,  que mantenham a hegemonia atual e impeçam uma verdadeira mudança nas estruturas de poder.

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Estou indo para a Espanha.

Meu próximo relato já deve partir de lá, se Deus quiser e o avião não cair.

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14/08/2016

O avião não caiu e eu cheguei ileso na Espanha, graças a Deus.

Estive ontem no centro velho de Toledo, lugar murado, cheio de igrejas, espadas e armaduras. Vi uma réplica da espada do Rei Théoden, vendida por 80 euros. Não levei. Se fosse ao menos Andúril… quem sabe? Uma boa réplica de Gurthang, eu levaria até por 200 euros, se isso existisse (fato que não é do meu conhecimento).

Cheguei em Granada, continuando a trajetória para dentro de Andaluzia até Cadiz.

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Quando vou aos Estados Unidos digo que o ar de lá é “livre”.

Na Europa, pelo menos até agora, posso dizer que o ar é “antigo”.

Bom para os americanos e europeus, cada um com suas qualidades.

O Brasil é o pior de dois mundos: não tem as belezas nem da liberdade e nem as da antiguidade.

Em suma, só tem belezas onde o brasileiro ainda não chegou, seja uma praia deserta, ou o interior da mata fechada no pantanal ou na amazônia. Porque, como sabemos, o pior do Brasil é o brasileiro.

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Não sou antipatriótico. Só peço que me dêem as qualidades reais da nossa nação antes de encher o meu saco por causa de meus comentários. E não me venham falar de Santos Dumont ou Ayrton Senna, por favor. Chega de necrofilia. 

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Não se deve desanimar da presença ou da existência de nenhuma beleza por nenhum aspecto, se em virtude dessa forma de conhecimento ou memória a alma se entristece por uma não-posse.

Lembrem-se de que a “posse da beleza” verdadeira é realmente um bem interior, um bem da alma, ligado a uma qualidade que abarca, transcende e excede este mundo. A posse falsa é aquela que se exerce pelos vícios, que se quer consumar ou controlar de algum modo. Só é possível cair nesses vícios por um esquecimento (ou mesmo pela completa ignorância) da nossa real participação no outro mundo de onde a beleza vem realmente, onde ela é de fato retida de forma completa, e onde ela pode ser eternamente contemplada na sua perfeição desde que nós recebamos a salvação de habitar o Paraíso.

A privação da não-posse é ilusória. Porque a alma só comunicou o corpo a respeito da presença da beleza na qual ele se deixa viciar porque antes disso, e necessariamente, ela própria percebeu a presença de uma beleza mais perfeita numa beleza concreta que dela participa imperfeitamente. Porque sentimos a privação? Porque esquecemos ou confundimos o processo real. Sentimos, como já escrevi num texto anterior (que infelizmente foi perdido), “saudades do Céu”. Nós temos, naturalmente, uma tendência a desejar a eternidade de todos os bens terrestres, instinto esse que deriva de uma antecipação da eternidade dos bens celestes dos quais os primeiros participam. Não podendo, obviamente, conter a presença imaculada dos bens deste mundo em nenhuma forma de perenidade que chegue perto do que é realmente a Eternidade, tornamo-nos potencialmente tristes desta impotência. Sentimo-nos privados pelo que é, na verdade, uma ilusão: a de querer tanto os bens deste mundo quanto deveríamos querer, na verdade, os bens do outro. Aliás, digamos o óbvio: faz parte das imperfeições das coisas deste mundo justamente tanto a escassez quanto a finitude.

Para que não se caia em risco de nenhuma espécie de gnosticismo, é preciso lembrar também que a presença desses bens imperfeitos neste mundo é um sinal positivo, alentador, dos bens do outro mundo, e serve para o repouso da alma e não para a sua aflição. Essas belezas terrestres não foram feitas como “testes de resistência”, e nem como “ilusões demoníacas”, porque nem Deus tem desejos sádicos para os seus filhos, e nem o diabo possui o poder de criar nada por si. Essas belezas concretas que presenciamos estão aí como sinais do Céu, para funcionar exatamente ao contrário do que funciona a tristeza relativa ao vício: para fazer surgir a alegria proveniente das virtudes. Como ficar feliz com a presença de bens que não podemos possuir nesta vida? Desejando a outra vida, onde esses bens estão realmente e da forma mais perfeita, meus filhos.

Este é um elemento do simbolismo de Vênus. Hoje eu sei disto, e o conhecimento deste simbolismo me ajudou a completar o entendimento sobre este tipo de situação. Mas venho pensando nisso faz anos e posso garantir que tudo isto é verdadeiro e que, com a devida concentração das nossas consciências, a percepção disto é infalível. Você fica feliz mesmo, seja na presença ou em memória desses bens. É como já começar a colocar um pé do lado de lá.

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Como ouvi falar que tinha “boi na linha” no projeto das famosas Dez Medidas Contra a Corrupção, resolvi estudar um pouco esse negócio e fazer um breve relato.

Até agora li o Nº 1 da Medida 1, “Investimento em Prevenção”. Eles trabalham com um conceito simples de accountability. Pelo que li, tanto do texto feito para a Lei quanto da sua justificativa, o meu único escândalo por enquanto é o de não entender porque isso não foi feito antes. Basicamente não há na autoridade pública, esse paquiderme sagrado chamado elegantemente de “Instituições do Estado Democrático de Direito” alguém que possa nos dizer como é que andam os processos por improbidade administrativa (que é o foco do projeto). Eis a burocracia estatal na sua real deselegância: tem um monte de gente trabalhando num negócio e ninguém sabe dizer se esse negócio todo está dando certo ou não. Basicamente é isso mesmo.

E é isso que dá aos monarquistas as saudades de um Rei. Porque um Rei é alguém que acorda um dia e diz assim: “vamos ver se esta porcaria está funcionando”. Uma República só funciona da mesma forma quando a maioria de seus membros tem um suposto “zêlo pela coisa pública”, o que no Brasil existe tanto quanto as girafas daquela piada do cara que ficava gritando na esquina.

Mais grotesco ainda é pensar que um projeto como esse ainda tenha que ser discutido, e não seja de uma necessidade óbvia e imediata para todos, ou seja, que se tenha alguma espécie de dificuldade para avançar neste negócio.

Outra coisa, que eu não sei se é uma imperfeição ou não, é que este Nº 1 não fala das punições específicas para aqueles que forem responsáveis pela procrastinação ou mesmo pelo desvio do resultado das ações por improbidade. Espero, sinceramente, que essas punições só não tenham sido mencionadas porque elas já são óbvias e estão todas especificadas em instrumentos penais já existentes. De qualquer modo, até agora não li sobre agravamento de pena em situações assim.

Vamos ver. Vou continuar o estudo.

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Acabei de ler o Nº 2 da Medida 1, o “Teste de Integridade”.

Fiquei com dois sentimentos, um de alívio e o outro de espanto.

O alívio veio de que quando num certo dia passou uma mulher me perguntando se eu já tinha assinado o pedido pelas Dez Medidas, eu menti dizendo a ela que sim, quando na verdade não havia feito isso. Vejam bem, é o cálculo do mal maior e mal menor. É um mal menor essa mentirinha para a pobre mulher que provavelmente eu nunca mais vou ver na minha vida. Mal maior seria eu ter assinado o documento sem ler, ou ainda eu ter lido e recusado a assinatura e começado uma discussão inútil com a dita cuja. Porque lhes digo, pelo menos a respeito do Nº 2, que isto é absolutamente intragável e mesmo intolerável. Daí veio o meu espanto.

Não me venham com ad auctoritas. Quem quer que tenha pedido apoio para as Dez Medidas, Sergio Moro incluso, teria a obrigação moral de esclarecer o que é o Nº 2 e quais são os seus perigos, ou simplesmente sugerir a aprovação das Medidas separadamente excluindo ao menos esse Nº (ainda tenho que ler todas as outras).

Vamos aos fatos.

O Artigo 2º diz que a Administração Pública poderá, e os órgãos de polícia deverão, “submeter os agentes públicos a testes de integridade aleatórios ou dirigidos”, cujos resultados “poderão ser usados para fins disciplinares” ou mesmo “para a instrução de ações”, cíveis ou criminais.

Ou seja, qualquer funcionário poderá sofrer tentações com a finalidade específica de se saber apenas se ele é ou não confiável.

Tem tanta coisa errada com isso que eu vou ter que ir aos poucos, pedaço a pedaço, e explicar direitinho porque este negócio é absolutamente intolerável e escandaloso.

Primeiramente que não há um único artigo mencionando sequer a possibilidade da aplicação injusta da própria Lei. Eis o positivismo jurídico: vamos sair escrevendo o que quisermos, que depois vem alguém limpar as nossas cagadas. E isto na mais branda das hipóteses. O Artigo 8º chega mesmo a dizer que o poder público “não poderá revelar o resultado da execução dos testes de integridade nem fazer menção aos agentes públicos testados”. Ok, e quando o agente é disciplinado ou mesmo indiciado por provas geradas por instrução processual oriunda do exame, como é que ele faz para mostrar exatamente o que foi feito com ele? Quais são as facilidades e os recursos com que a Lei proverá o agente que for injustamente perseguido por uma armação usando esta mesma porcaria de Lei?

Não digo “porcaria de Lei” porque eu tenha o menor sentimento de simpatia por agentes corruptos. Espero que não pensem isso de mim aqueles que me conhecem, a esta altura do campeonato. Eu apenas não sou um analfabeto político e percebo com uma clareza pornográfica o quanto essa medida pode ser usada como arma pelo próprio establishment para defender-se dos seus verdadeiros adversários. Porque se os órgãos de Corregedoria, Controladoria e Ouvidoria serão os responsáveis por estas armações (Artigo 4º), é evidente (ou deveria ser, imediatamente) que os chefes destas respectivas seções terão o poder de determinar quem deverá ser ou não capturado por esse sistema, e as respectivas medidas punitivas a serem aplicadas. Não parece o Minority Report? Os globalistas sonham com o Minority Report, mas como não existe essa vidência real a respeito de crimes que não aconteceram ainda, é preciso inventar algo que não seja fictício, como essa Lei, que bem que poderia se chamar “Lei Minority Report”, pois este é o seu espírito (by the way, eu jamais aceitaria o sistema apresentado no filme homônimo, por mais comprovadamente infalível que os alertas dos videntes fossem).

Em segundo lugar, a “justificativa” do Nº 2 é quase que uma confissão de culpa dos seus proponentes, ou no mínimo a confissão da sua absoluta inépcia e ingenuidade.

O texto mente ao dizer que “a realização do teste não parte da premissa da desconfiança sobre os servidores em geral”. No mesmo parágrafo eles justificam isso dizendo que a premissa é usada é a da “noção de que todo agente público tem um dever de transparência e accountability, sendo natural o exame da sua atividade”.

No parágrafo seguinte da justificativa dizem que “prestigia-se, sob outra vertente, o Princípio republicano, a partir do qual todos os agentes públicos devem prestar contas de sua atuação”. Espera aí, “outra vertente”? Que outra? Não é essa a mesma premissa do parágrafo anterior, do “dever de transparência”, seus analfabetos? E como é que um teste artificial pode ser ao mesmo tempo um exame da atividade do agente público? Dizer que a obrigação de transparência não é cumprida pelo Estado não autoriza de maneira alguma que se provoquem artificialmente as situações que permitam a identificação e punição de corruptos “potenciais”. Que isto não fique claro de imediato é algo insano de se pensar.

Seria apenas um caso de analfabetismo funcional, se não fosse mais do que isso: a proposital vontade de confundir os interesses e as premissas do projeto. Em suma, a justificativa apela para as idéias de transparência e de interesse republicano, mas inegavelmente a verdadeira premissa do Nº 2 é, obviamente, a de que qualquer um pode ser culpado até que se prove o contrário. É EXATAMENTE ISTO de que se trata este Nº. Estão querendo reescrever a Constituição com esse excremento de texto, bem debaixo de nossos narizes. Sinto vergonha pelos especialistas que não sentiram o mal cheiro, e sinto pena dos inocentes que assinaram sem saber o que estavam fazendo. Ou, pensando bem, não sinto tanta pena não, porque quem assina algo sem ler é idiota mesmo.

Basta analisar o que é dito na continuidade da justificativa que nós encontramos facilmente os vícios da idéia e até as impressões digitais dos seus verdadeiros interessados.

Dizem que o teste será aplicado para o agente sobre o qual “já houve algum tipo de notícia desairosa ou suspeita de prática ímproba”. Mas quem é que não sabe que a primeira coisa que um serviço de inteligência político consegue montar com facilidade é justamente um relatório sobre praticamente qualquer ser humano sobre a face da Terra contendo alguma “notícia desairosa” ou “suspeita de prática ímproba”? Para os serviços internos dos partidos políticos profissionais –digo claramente: os revolucionários– criar dossiês é a sua razão mesma de existir. Espantar-se com isso é como achar incrível uma padaria fazer pães, ou uma montadora produzir automóveis. Esse instrumento legal servirá apenas para institucionalizar completamente o que já é uma prática política usual com finalidades geralmente pouco nobres, como aconteceu com o afastamento do ícone da Lava-Jato, o nosso “japonês da Federal”. Esta aí um outro nome possível, “Lei Japonês da Federal”.

Aliás, o caso do japonês é bom porque não só ilustra o funcionamento do assassinato de reputações em si, mas ilustra mesmo como é que ele poderia ter sido afastado da Lava-Jato usando-se exatamente do expediente proposto pelo Nº 2. O que impede que os interessados políticos ordenem um teste realmente irresistível e ocultem oportunamente a irresistibilidade do mesmo (pois haverá meios para isso, continuem lendo), apenas para causar aquilo que lhes interessa, ou seja, o afastamento de tal ou qual agente público de uma determinada investigação? Quantos você precisa derrubar ou colocar sob forte suspeição com essa fabricação de ilicitudes artificiais, para fazer melar uma operação importante contra a corrupção? Uma meia dúzia? E o que é derrubar meia dúzia de peões se você é membro de uma gangue que pratica corrupção sistematicamente e bem de dentro do sistema político? É um quase nada. O Nº 2 é como um ladrão pedindo emprestado um pé-de-cabra à própria vítima do roubo.

O texto argumenta que esse negócio já foi implantado nos EUA, na Austrália, no Reino Unido e em Hong Kong, o que é um ad verecundiam cuspido e escarrado. Depois eles chegam a dizer que esse tipo de teste é recomendado “até mesmo pela ONU e pela Transparência Internacional”. Eles têm orgulho do que deveriam ter vergonha. Porque nós sabemos que o que eles chamam de “organismos internacionais” é na verdade uma camarilha a serviço do globalismo ou de quem quer que seja, menos dos interesses nacionais de cada país. A justificativa dessa Lei, que poderia também ser chamada de “Lei Big-Brother”, explicitamente nos diz para confiarmos na ONU e em uma ONG internacional, como se isso não fosse recomendar justamente a um grupo de ovelhas que confie tranquilamente numa matilha de lobos. Chegam a ser ingênuos de citar suas fontes. Eu, no seu lugar, as esconderia.

Mais adiante, como se não bastasse toda essa orgia descarada, esfregam na nossa cara que os testes de integridade já foram realizados pela rede ABC News no passado contra membros das polícias de Miami, Los Angeles e Nova Iorque. Daí, na maior cara de pau, eles tentam nos passam a seguinte conversa: “destaque-se, também, no exemplo, que, se a própria imprensa pode aplicar, de modo lícito, testes de integridade, tanto mais pode fazê-lo a Administração Pública”. Cruzes! Eu não li isso, não é possível uma coisa dessas!

Quer dizer que se alguém faz algo que não é ilegal, o poder público pode simplesmente ir lá e fazer aquilo com gosto e mais autoridade ainda? É isso mesmo o que estão me dizendo?

Existe, por acaso, algum sistema legal que seja definitivo no mundo? Não, certo? E se não existe, não é justamente porque algo errado pode ser feito antes de se tornar ilegal?

Como é possível, então, escreverem um negócio desse tamanho na justificativa do Nº 2 como se fosse um argumento a seu favor e não contra si, como o é descaradamente? Está confirmado: o texto, se não foi escrito por analfabetos funcionais, certamente foi escrito para ser lido por eles.

No finzinho da justificativa o Leviatã se faz de sensibilizado com os riscos da Lei e diz do alto da sua generosidade que “para a garantia do examinado, o teste deve ser sujeito à gravação audiovisual sempre que for possível”. Destaque-se o “sempre que for possível”. Grifei de propósito, para que fique BEM legível. Não é uma gracinha deles conosco? Estão dizendo explicitamente para nós que não é obrigatória a existência de provas materiais para a aplicação de punições àqueles que forem testados, e ainda conseguem nos dizer isso como se fosse um atenuante e não um agravante. Que lindos! Que bonitinho! O cara te enfia a faca no coração e diz que está te ajudando porque a faca está limpinha e você não tem risco de pegar tétano. É isso o que eles estão fazendo! Prestem atenção.

Qualquer católico mais ou menos habituado sabe que a tentação é tão perigosa quanto o vício, e que o diabo não é perverso porque causa o vício, mas porque causa a tentação. O vício é responsabilidade nossa, mas a oportunidade de errar sem dúvidas foi inaugurada pelo capeta. Não se deve, portanto, fazer jamais nada que possa significar um risco inequívoco de tentação a alguém ou a si mesmo, pois isto é nada menos que obedecer a uma tendência demoníaca. Aliás, esse poderia ser um outro nome para o Nº 2: “Lei do Diabo”. Porque esta é a lei dele: causar maliciosamente a culpa para poder depois acusar com razão. Para os ateus e agnósticos delicadíssimos e sensíveis que não podem ouvir falar nessas coisas, traduzo em termos laicos: é uma tendência má, perversa, cruel, sádica, etc. E ao contrário do que dizem os proponentes deste Nº 2, ao ou menos os autores da justificativa escrita, essa idéia contém sim a premissa da não-integridade. Que simbolicamente é exatamente a premissa diabólica que fez Lúcifer cair e, mais tarde, causar a Queda da nossa família. Quando eu vejo um troço desses ser sugerido como Lei, eu penso mesmo o seguinte: “o quanto avançado deve estar o projeto do fim do mundo”?

Vejam que na realidade o Nº 2 não tem absolutamente nada a ver com a publicidade dos atos públicos ou com a transparência pública, os quais seriam supostamente os motivos que a justificariam. Finge que tem para vender-se, mas tem base em outra premissa da que diz ter, e serve para outros fins do que diz servir. A transparência tem outros inimigos: a burocracia, o formalismo, o legalismo e a própria impunidade. São essas coisas que tem que ser atacadas, e não a natural inimputabilidade de quem por si não fez nada reconhecidamente reprovável ou ilegal sem ser maliciosamente provocado.

O Leviatã não está sendo atacado.

Ele está crescendo com a colaboração dos mesmos idiotas que acreditam estarem acuando-o. E isso só por uma razão: porque nós não obedecemos uma regra muito simples que nos foi dada, a de sermos “espertos como uma serpente”. Bem-feito.

Conhecei a verdade e ela vos libertará, sim. Mas vocês precisam conhecê-la primeiro, porra!

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Ainda não li as críticas às Dez Medidas, mas se essas críticas atacarem somente o Nº 2 da Medida 1 como aquilo que ele é, já me darei por satisfeito. 

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15/08/2016

Continuo a jornada pelo sul da Espanha, hoje em Granada.

Os americanos são rápidos, práticos e obedientes.

Os espanhóis são lentos, criativos e teimosos.

Tudo aqui demora mais do que deveria, mas isso não faz você se sentir necessariamente mal, porque às vezes a lentidão traz as suas vantagens. E isso se aprende com os espanhóis, que definitivamente sabem viver a vida. Às vezes, por consequência desta indisciplina, não sabem pagar as contas, mas que sabem viver bem, eles sabem.

Não comparo a raça com a dos brasileiros, porque são quase que de uma espécie diferente. Não me achem racista por isto, vejam como as coisas são por si mesmos e me digam. As coisas funcionam nos EUA, quase que perfeitamente, e funcionam também em Espanha, não tão perfeitamente, mas bem o suficiente e com o seu próprio charme. No Brasil as coisas não funcionam e ponto final.

Não se compara saúde com doença.

Você pode comparar as vidas e povos saudáveis entre si e admirar as suas respectivas qualidades, mas colocar o Brasil na equação é praticamente o mesmo que perder toda a referência de normalidade.

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O Nº 3 da Medida 1 das “Dez Medidas”, com o título “Percentuais de publicidade”, é praticamente dispensável.

Basicamente os caras propõe que você gaste obrigatoriamente um percentual da sua despesa com publicidade para “estabelecer uma cultura de intolerância à corrupção”.

O Brasil atual é inacreditavelmente dócil e até inerme diante do cientificismo moderno. Foi, de fato, uma República fundada por positivistas, e pelos frutos os conhecereis. Esses sábios acham que uma cultura pode ser fabricada por demanda contratual, exatamente como acham aqueles que produzem a engenharia social em larga escala usando televisão, rádio, internet, etc., para inculcar hábitos, preferências e finalmente opiniões e convicções nas cabeças de pessoas inocentes. Digo “inocentes” e já me arrependo, porque não é possível ter dó de imbecis que desejam ser zumbis.

Mas então é assim, você simplesmente estabelece uma cultura, como alguém pede um pastel de carne ou uma pizza de pepperoni.

Além desta idéia estar infinitamente aquém do que é necessário saber para se entender qual é a base moral e cultural real da corrupção na sociedade, ela usa uma medida errada e até corrupta ela mesma, que é essa maluquice de o poder público comprar serviços de publicidade. Entende-se que numa época moderna de comunicação de massas é conveniente investir alguma coisa com a divulgação de informações de utilidade pública. Mas é somente isto o que acontece no Brasil? Sabemos que não. E se você quer combater a porcaria da corrupção, você não tem a obrigação fundamental de saber onde é que você está pisando, ao invés de simplesmente sair legislando sobre como o mundo deveria funcionar?

Esta prudência não existe na nossa sociedade.

O texto da lei fala nos parágrafos 3, 4 e 8 do Artigo 3º sobre “código de conduta”, “links” e “cartazes”, para que as pessoas saibam quais são as regras para casos de corrupção. Mas será que tem alguém que realmente precise disto para não praticar uma ilegalidade?

Qualquer pessoa que vá a um banco hoje abrir uma conta, tomar crédito ou fazer qualquer operação financeira menos banal, por exemplo, certamente terá que assinar, por obrigatoriedade, alguns documentos dando ciência de regras que não serão lidas jamais. E isto acontece todos os dias, com milhares e milhares de situações em que as pessoas não querem simplesmente perder o seu tempo estudando como o mundo deveria ser. Isto mostra clara e facilmente a inutilidade profunda de idéias como as contidas no Nº 3.

O brasileiro não precisa de conhecimento sobre o que é corrupção. Ele precisa de punição para os que cometem crimes. Não é nem mesmo para se diminuir esses trecos que eles chamam de “percepção de corrupção” ou “sensação de corrupção”. Essas coisas são sutilezas sociológicas dos engenheiros sociais. Não é disso que precisamos, é de um Executivo que cumpra o seu papel e nada mais.

É tão simples. Cumpra-se a Lei. Basta isso. “Law and order”, qualquer americano nos diria que é isso o que nos falta.

Não adiantará nada ficar dando voltas, acrobacias e piruetas com burocracia, publicidade, etc., pois estas coisas ao contrário de resolver ou atenuar o problema apontado, certamente o agravarão.

Num determinado momento do texto da justificativa o autor diz que a “alocação de um percentual dos recursos gastos em propaganda tem, ainda, o condão de melhor especificar o destino do orçamento de publicidade, o qual, muitas vezes já é, por si só, fonte de corrupção”. Bidu. Cita até a AP 470 e o dinheiro pago para a SMP&B do nosso famoso carequinha, o Marcos Valério.

A verdade vem antes disso e é mais simples: a melhor forma de diminuir a corrupção com desvio de verbas de publicidade do governo é NÃO HAVER verbas de publicidade e DEVOLVER esse dinheiro mal usado com propagandas inúteis para o povo que paga os impostos, ao invés de torrar dinheiro com algo absolutamente inócuo e desnecessário, quando não mesmo contra-producente.

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16/08/2016

Há no Brasil não só uma cultura de idolatria do dinheiro, mas também da fama. Esta última é mais perniciosa e sutil, mas existe. Um dia vou falar disso.

Uma dica: vejam o sucesso da literatura cujo assunto é… o sucesso.

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Continuo pelo sul de Espanha, hoje em Córdoba. Mas as visitações ocorrerão amanhã. 

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A última proposta da Medida 1 das “Dez Medidas” é a Nº 4, que fala de “Sigilo da fonte”.

Não encontrei nada de errado com a idéia, a não ser também o seu atraso, ou seja, ficamos espantados de saber que os instrumentos legais para a proteção à confidencialidade da identidade de testemunhas chaves não são bons o suficiente pelo arcabouço legal de hoje.

O texto afirma, coerentemente, que ninguém poderá ser condenado com base exclusivamente no depoimento de um informante confidencial, e que o depoimento tem por finalidade a obtenção de provas materiais de atos corruptos. É claro que a preservação da identidade do acusador só é garantida quando ele não há falsa imputação de crime, o que já é evidentemente uma conduta criminosa.

Um juiz pode achar que é necessário a revelação da identidade de um informante, ao que caberá então ao MP decidir por abrir a informação ou perder o valor probatório do depoimento colhido.

Textos bem escritos, tanto o da Lei quanto o de sua justificativa. Sem ressalvas.

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A ignorância a respeito da distinção que há entre moral concreta, moral ideal e Lei divina é capaz de entortar a mente de qualquer desavisado, e com frequência nós vemos interpretações equivocadas da conduta de personagens relevantes da tradição religiosa do Ocidente por causa desta confusão.

Qualquer pessoa pode fazer algo que é proibido pelo que a tradição humana conhece e cultiva da Lei divina quando obtém uma autorização especial e inequívoca de Deus para tanto, por duas razões simples: em primeiro lugar porque a vontade de Deus É a própria Lei divina, e em segundo lugar porque a sabedoria humana jamais chegará perto de ser suficiente para compreender os meios com que Deus exerce sua Sabedoria e sua Justiça.

A Lei divina é viva, simplesmente porque o nosso Deus é vivo e possui uma Vontade que também é viva.

Eu já vi claramente, e mais de uma vez, Deus operar coisas boas através de métodos e de caminhos que seriam muito duvidosos se dependessem apenas de nosso juízo falho.

Isso não muda o fato de que geralmente as proibições e limites colocados pela Lei divina costumam se manter muito estáveis e sólidos, e que isto por si é algo BOM. E também não muda o fato de que desejar uma liberação especial de Deus por puro capricho sem consideração nem desejo algum pelo Bem maior é uma conduta muito infeliz e sinal de debilidade espiritual.

Se você quiser muito algo que é claramente errado, peça a Deus para que tire esse desejo do seu coração e conduza-se a si próprio a outros desejos mais adequados. Não é proibido pedir, sinceramente, a realização de um desejo suspeito, contanto que se peça que isso se dê de acordo com a absoluta e perfeita Vontade divina. Evidentemente, da mesma maneira que não é proibido pedir algo assim, também não é proibido a Deus negar.

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Não posso deixar de ressalvar, no entanto, o Nº 5 da Medida 2, que trata de “Enriquecimento ilícito”, pois que este esbarra em problemas sérios e é uma amostra clara de como um “Direito criativo” e “moderno” pode ser de fato danoso, conforme os seus novos instrumentos sejam usados.

Vejamos.

O crime de enriquecimento ilícito é definido como “o incremento significativo de patrimônio de um funcionário público por ingressos que não podem ser razoavelmente justificados por ele”. Parece ótimo, mas se você pensar bem o que essa definição faz é tornar criminoso todo enriquecimento que não seja juridicamente reconhecido como válido. A mera sonegação de impostos, por exemplo, quando não atrelada à lavagem de dinheiro ou a crimes financeiros em geral, poderia caracterizar o enriquecimento ilícito.

Indo além, no texto citado pela justificativa, do Relator da Comissão de Estudo da Reforma do Código Penal (se não me engano o Senador Pedro Taques), diz-se que “o crime de enriquecimento ilícito, especificamente diante da corrupção administrativa, na qual corruptor e corrupto guardam interesse recíproco no sigilo dos fatos, sinaliza política criminal hábil, buscando consequências e não primórdios (a exemplo da receptação e da lavagem de dinheiro). É criminalização secundária, perfeitamente admitida em nosso direito”. Quem sou eu para falar, sem ser nem mesmo sequer um rábula, de coisas como “política criminal hábil”, ou “criminalização secundária”? Não sou ninguém, mas ao mesmo tempo sou alguém que está sentindo um cheiro estranho no ar, o cheiro de condenação sem crimes efetivamente provados.

Vejam se não sentem isso também, ao ler um outro parágrafo da justificativa: “reforça-se que não se trata de uma inversão do ônus da prova no tocante ao caráter ilícito da renda, mas sim de acolher a única explicação para a discrepância que é encontrada em dado caso concreto, após investigados os fatos e ouvido o servidor. Essa solução é amparada na moderna teoria explanacionista da prova, que tem por foco encontrar a hipótese que melhor explica a evidência disponível”.

Fede ou não fede?

Fede a um nominalismo positivista de longe, como fede um rato morto no bueiro da esquina.

Eles negam a inversão do ônus, mas ao estabelecer que se deve “acolher a única explicação”, estão dizendo exatamente o seguinte: cabe ao investigado produzir a prova concreta de que ele não enriqueceu ilicitamente, do contrário será presumido que só restam as formas ilícitas. Novamente nós vemos aqui aquele vício de se escrever leis achando que o Direito contém o universo inteiro e todas as suas possibilidades dentro dele. Onde está o nosso velho Miguel Reale para nos defender? Aliás, onde está o Miguel Reale Filho para defender o legado do pai numa hora dessas?

Encontrar “a hipótese que melhor explica a evidência disponível” NÃO É encontrar uma PROVA de crime. Não é e jamais poderia ser. Este tipo de teoria jurídica é um verdadeiro pesadelo, um desastre.

Leiam isso: “se a acusação prova a existência de renda discrepante da fortuna acumulada e, além disso, nem uma investigação cuidadosa nem o investigado apontam a existência provável de fontes lícitas, pode-se concluir que se trata de renda ilícita”. O termo “investigação cuidadosa” está aí para atenuar o absurdo lógico de se concluir que se a acusação prova que um fato em si não-criminoso (a existência de renda discrepante com o patrimônio) não tem uma explicação não-criminosa para a sua origem, deve-se concluir que necessariamente a origem é ilícita.

Isso equivaleria mais ou menos a dizer, por exemplo, que se não se consegue provar que a única testemunha de um homicídio não o cometeu, deve-se concluir que o tenha cometido. Vocês entendem a gravidade disso?

É como se a mera circunstancialidade tivesse o mesmo efeito probatório de uma confissão.

Punir um corrupto comprovadamente culpado com vinte anos de prisão em regime fechado sem atenuantes ou redutores de qualquer espécie valeria MUITO mais do que esse tipo de lenga-lenga perigosa que se quer produzir com teorias modernas e criativas do Direito.

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Estive relendo algumas aulinhas falsas para ilustres convidados imaginários (o time do Corinthians, a família Addams, e autores do jornalismo brasileiro) que escrevi no meu site, e posso dizer que elas não estão tão ruins assim. Talvez eu possa voltar a este gênero exótico no futuro. Principalmente se não conseguir vingar aulas em cursos fechados nos próximos anos.

Eu sei que tem toda a questão da honestidade e da realidade do discurso, mas relendo o material eu francamente me achei muito sincero ali, talvez mais do que eu conseguiria ser com alunos “estranhos”. Se isto se confirmar, eis mais um ponto forte para a atividade escrita em detrimento da transmissão oral, pelo menos na próxima fase do meu trabalho.

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17/08/2016

Dia quente e bonito em Córdoba. Visitei lugares belos, inclusive a mesquita e a Catedral. A melhor paisagem que vi até agora ainda foi a de Toledo.

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18/08/2016

Já estou em Sevilha, com mais quentura do que nunca, num verdadeiro calor de rachar catedrais, como diria o nosso velho Nelson. O verão espanhol não é para os fracos.

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Tenho que comentar, já que comecei o serviço, o próximo texto das “Dez Medidas”, desta vez o Nº 6, “Corrupção como crime hediondo”, da Medida 3.

Já começou a me encher o saco esta leitura, mas missão dada é missão cumprida e eu não tenho culpa que os caras sejam extensos e criativos.

Tenho três comentários ao ponto atual de estudo.

O primeiro é que a visão de graduação e proporcionalidade da hediondez de um crime não faz sentido. Se a corrupção é hedionda, ela o é por um clipe de papel ou por uma centena de milhões de dinheiro, ou mesmo um bilhão.

Dosimetria de pena é uma coisa, tipificação penal é outra, não é? Pelo texto, se um corrupto roubar o equivalente a dez mil salários mínimos, terá punição de 12 a 25 anos de prisão, mas se dez corruptos roubarem mil salários mínimos cada um, eles terão penas individuais de 10 a 18 anos de prisão. Se a hediondez do crime é caracterizada pela consequência social, da fome dos subnutridos, etc., então o mal gerado foi o mesmo, mas as penas serão mais aliviadas porque serão divididas igualmente por diferentes corruptos. Sou de um pensamento mais simples, de se tornar a corrupção não somente crime hediondo independente de sua proporção, mas de pena máxima independentemente de volumes. Não sei se essa discussão sobre tantos anos de prisão para tantos salários-mínimos roubados faz muito sentido.

O texto acerta, porém, quando fala de atenuação da punição condicionada à restituição das vantagens obtidas pelos corruptos. É claro que esta restituição tem que ser razoável economicamente: quem roubou dez milhões há dez anos atrás não pode devolver dez milhões agora e ficar por isso mesmo.

Os autores apelam à idéia famosa de que “a corrupção mata”. Isto é uma figura de linguagem: o que querem dizer é que as consequências da corrupção causam indiretamente a morte de pessoas que precisam da assistência estatal. Até aí, passa. Não gosto muito de legislação feita com figuras de linguagem, mas nós pegamos a idéia. Só que ela é injustamente ligada a uma concepção geral limitada dos “direitos fundamentais da população”; acontece que eu entendo que um desses direitos fundamentais é o de uma tributação justa, adequada aos serviços que realmente são devidos pela atuação estatal. Usando o mesmo critério de que a corrupção mata os coitadinhos, nós podemos dizer então que os políticos, mesmo quando não são corruptos, são os maiores criminosos e assassinos em massa que existem quando conduzem a política monetária a um ciclo inflacionário ou quando tributam tão pesadamente a sociedade para gerar não só os desvios de corrupção, mas também as grandes deficiências e desperdícios da administração estatal.

Se fossem espertos, parariam com essa interpretação logo. Estão colocando as cordas em seus próprios pescoços.

A Medida 3 não é ruim, apenas escorrega na interpretação financista de uma graduação penal de acordo com uma gravidade meramente quantitativa dos crimes, e faz uma concessão indevida ao jargão revolucionário ao mencionar a corrupção que tira a comida da mesa do povo, quando na verdade o que mais faz isso são os impostos (que abastecem a própria corrupção) e a inflação, sempre.

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Só há verdadeiramente um Mestre que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Mestre dos mestres. Todos os nossos outros mestres aprendem a sabedoria com quem é a própria Verdade, e isto quer dizer que por melhor que eles sejam, são mestres por procuração; muito admiráveis e dignos conforme as suas qualidades, esforços e méritos, mas não louváveis em si mesmos pela sua natureza ou essência, que continua sendo a de comedores de feijão, como nós outros. 

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A Medida 4 das “Dez Medidas” é intitulada “Aperfeiçoamento do sistema recursal penal” e é composta dos Nºs. 7 (“Recurso manifestamente protelatório”), 8 (“Pedido de vistas nos Tribunais”), 9 (“Revisão dos recursos no CPP”, que é o mais extenso) e 10 “(Execução provisória da pena”). Os títulos sugerem que se trata de um trabalho mais técnico-jurídico. Vejamos.

O Nº 7 fala que quando um Tribunal, estimulado por ofício ou manifestação de parte, verificar que um recurso é “manifestamente protelatório” ou considere “abusivo o direito de recorrer”, poderá certificar o trânsito em julgado da decisão recorrida de imediato. E o recurso a essa decisão jamais poderá ter efeito suspensivo.

Eu não entendo, tecnicamente, porque é mais fácil fazer uma dessas coisas, e não julgar de uma vez um recurso, que é para o que foi feito o dispositivo que permite a uma parte recorrer de uma decisão. Espero que seja uma coisa de fato muito mais fácil de se fazer do que julgar, praticamente instantânea, e algo me diz que não é assim, do contrário o problema não existiria. Não é? Se muitos fossem os casos protelatórios de fácil identificação, o sistema não seria tão lento a ponto de gerar um problema por si. E se fossem poucos esses casos, mínimos seriam consequentemente os prejuízos sociais desse tipo de problema.

Por outro lado, eu sei, até mesmo na prática, que recursos são usados como instrumentos meramente protelatórios. Entendo, portanto, o motivo desse Nº 7, mas ao mesmo tempo o vejo como uma correção imperfeita de um outro problema, que é a mera incapacidade de processamento da máquina judicial pura e simples.

Que isto ocorra enquanto se injeta bilhões em uma JBS ou em uma Olimpíada, é um escândalo tipicamente brasileiro, ou seja, praticamente invisível aos seus habitantes.

Por conta de dinheiro público mal administrado que não é suficiente para atender a demanda judicial que existe e também de uma classe de funcionários em parte mal dedicada aos seus serviços, em parte sindicalizados e organizados contra tanto políticas de mérito quanto implantação de tecnologia, caberá aos recorrentes aceitar o risco de uma decisão que poderá ser injusta e causar prejuízos impossíveis de se reverter, tudo isso porque o sistema judicial não dá conta de julgar os recursos tempestivamente e a sociedade está cansada da impunidade…

Pau que bate em Chico bate em Francisco: vejam-se no papel de recorrentes antes de assanhadamente aprovar o teor desta medida. Eu sou contra. Neste caso quem precisa melhorar é o sistema judicial.

O Nº 8 fala que dado o voto do relator num processo (ou de um revisor), qualquer membro do colegiado terá no máximo o tempo de cinco sessões para apreciação antes do seu voto em pedido de vistas. Este é um caso de regra que só os próprios juízes podem dizer se é factível ou não. Cinco sessões é um número razoável? É muito? É pouco? Como eu vou saber? Os juízes devem se manifestar. Acho estranho, de toda forma, que não se faça nenhuma distinção de tempos diferentes para processos com características diferentes, especialmente volume. Mas não posso me manifestar para além desse estranhamento preliminar, pois como disse entendo que apenas os juízes poderiam responder substancialmente a essa proposta.

O Nº 9 se torna mais técnico ainda, propondo reformas no CPP (Código de Processo Penal) que eu não tenho a qualificação específica para comentar. Eu poderia adquirir esses conhecimentos, mas dada a forma da análise mais generalista das “Dez Medidas”, não farei isso. Cabem aos especialistas se manifestarem. Há críticas contundentes ao sistema recursal brasileiro. De minha parte concordo com o pensamento simples de que um excesso de recursos cabíveis extrapola o desejo de garantir a justiça e atesta de fato o contrário, a ineficiência do sistema judiciário. Se você tem que revisar muitas vezes as decisões dos juízes, é porque estas são mais ruins do que deveriam ser. Na prática é consensual que as apelações e embargos são usados com intuitos protelatórios com frequência e, neste sentido, sou totalmente favorável a uma punição severa àqueles que flagrantemente forem pegos manejando regras processuais com intuito inequivocamente errado. Chega a ser ridículo, como o texto da justificativa menciona, você ver o STF julgando “Embargos de Declaração nos Embargos de Declaração nos Embargos de Declaração no Agravo Regimental no Agravo de Instrumento”, é como Sísifo rolando pedras no inferno. A proposta também fala de mudanças no uso de habeas corpus como forma prática de anulação processual, mas, novamente, não me vejo autorizado a comentar a matéria.

Por fim, com o Nº 10 nós temos uma coerente defesa da retirada dos efeitos suspensivos de recursos ao STF. A estatística comprova que bastam duas instâncias: entre 2009 e 2010, de cinco mil e trezentos recursos encaminhados ao STF, apenas nove foram julgados e providos favoravelmente à defesa, e desses ainda apenas um constituiu-se em uma absolvição do réu. Você pode até dizer que a justiça deste um justificaria todos os efeitos suspensivos dos recursos, mas eu teria que dar uma de Spock e lhe dizer que neste caso a necessidade de muitos se sobrepõe às de um: certamente a quantidade de bandidos beneficiados pelos efeitos suspensivos, especialmente os de colarinho branco, nesse balde de 5 300 recursos, causou ao seu modo alguma injustiça, especialmente considerando-se os prazos prescricionais.

Chega das “Dez Medidas” por hoje. Finalizo a Medida 4 fazendo o alerta para que os técnicos e sábios da área possam manifestar-se sobre o que tive que me calar por impossibilidade de juízo.

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19/08/2016

Uma coisa que ficou mesmo marcada na minha memória foi a explicação que Olavo fez, em seu Curso de Metafísica (2011), a respeito dos “guardiões do portal da verdade”. Sei que já citei isso, mas volto sempre ao tema quando reaparecem fantasmas da repressão intelectual.

Simplesmente não há razão nenhuma para alguém se gabar de saber algo, e para achar que deve controlar o acesso de outros à verdade. Isso é pior do que, por exemplo, querer controlar e cobrar o ar que as pessoas respiram. Repito: é pior. Porque o ar é apenas uma das coisas que estão, junto com o ser humano, dentro da verdade. Querer controlar o acesso ao conhecimento e à sabedoria é aproveitar-se de um problema generalizado de falta de educação para tentar ser “rei em terra de cegos”. Lamentável, lastimável, um negócio hediondo mesmo.

E é uma imitação da inveja demoníaca primordial; tem raiz num ódio ancestral contra a nossa raça mimada e privilegiada que mesmo sendo formada do barro, tem acesso a esse tesouro imortal da sabedoria celeste… o diabo faz escola no planeta Terra.

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Continuando o estudo das “Dez Medidas”.

O Nº 11 da Medida 5 fala de “Procedimento para agilizar a tramitação de Ações de Improbidade Administrativa”. Em resumo, há um procedimento chamado pelo texto da justificativa de “nefasto”, “esdrúxulo” e “arcaico”, que é a fase de notificação preliminar, onde o poder judiciário se vê obrigado a fazer uma espécie de pré-citação antes da citação formal no começo do processo. A proposta é pela extinção dessa notificação preliminar, de forma que os citados o sejam desde o início para todos os fins de andamento do processo. Aparentemente o tempo que se perde com isso é inútil e é significativo. Discute-se, portanto, a correção de algo que foi criado pela MP 2225-45 de 2001 e que não deveria ter acontecido. Passaram-se quinze anos e esse troço ainda não foi reformado… esse é o Brasil. Não tenho óbices ao que foi proposto, mas também não posso dizer que é algo inteiramente justo, pois trata-se de questão de técnica processual.

O Nº 12, ainda dentro da Medida 5, trata de “Varas especializadas”. Prevê-se a criação, em 180 dias a partir da aprovação da lei, de Turmas, Câmaras e Varas especializadas no julgamento de ações de improbidade administrativa, com o intuito de agilizar o processamento das mesmas que ficam hoje esparramadas e represadas nos gargalos naturais do encanamento do sistema judiciário brasileiro. Como exemplo, a justificativa cita que ao final do ano de 2011 havia mais de 43 mil ações desta espécie aguardando processamento no sistema judiciário. Não tenho nada contra esta iniciativa em si mesma, mas tenho tudo contra um sistema burocrático ineficiente, um funcionalismo público obeso, caro e improdutivo, e contra a resistência ao uso de tecnologias que prescindam do tratamento humano. É fácil aumentar o sistema para dar conta da carga. Já melhorar o sistema é mais difícil. Entendo que esta especialização proposta pelo Nº 12 é boa, mas ainda parece estar no meio do caminho entre o simples crescimento da burocracia e a sua verdadeira melhoria. Mas a idéia, em si, não parece questionável.

O Nº 13, que é o último da Medida 5, fala de “Acordo de leniência”.

Ao que me pareceu, a providência aqui foi fechar uma lacuna jurídica no que a justificativa chama de “microssistema anticorrupção”, dando maior segurança jurídica e harmonia entre os vários instrumentos já criados (colaboração premiada na esfera criminal) e o então ausente dispositivo análogo no âmbito das ações de improbidade administrativa. Mantém-se a preocupação com a segurança do instituto através da necessidade de corroboração (confirmação do depoimento por provas, ou seja, o próprio depoimento jamais provará nada, será apenas uma ferramenta para a investigação), o que é muito justo e o mínimo necessário. Eu acharia excessivo e até suspeito, ainda assim, essa intervenção específica na área de improbidade administrativa, não fosse a seguinte explicação da justificativa: “um mesmo fato pode gerar consequências sancionadoras nas diversas instâncias, o que pode gerar um certo temor ao potencial colaborador de entregar provas em troca de benefício numa instância e se auto-incriminar em outra instância em troca de nenhum prêmio”. Faz bastante sentido a um leigo como eu. Não sou um grande fã das delações premiadas em si mesmas, porque seria preferível (e ninguém o poderia negar) que a polícia sempre pegasse todos os bandidos sem precisar da ajuda de nenhum deles. Mas, na prática do mundo real, o fato é que o combate a organizações criminosas grandes e complexas praticamente exige o uso desse tipo de instrumento para que as investigações avancem. E como nós sabemos, quando os fatos negam as idéias, pior para as idéias.

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23/08/2016

Estou ausente do diário porque estou “na correria” desde que cheguei em Cádiz. Aliás, nem estou mais lá, já cheguei na parada final de meu tour espanhol, Madrid.

Quando se fala que o Brasil é “o maior país católico do mundo”, é uma brincadeira, é uma vergonha. Não se deveria dizer isso. A maior nação católica pode ser a Espanha, Portugal, Itália ou mesmo França, mas o Brasil?

Aqui na livraria da esquina eu encontrei uma estante inteira com o título “HAGIOGRAFÍAS”, vocês imaginam encontrar algo assim em Brasil? Mal digo “em Brasil” e já sinto que o verbo espanhol está me colando nas entranhas. Dizia eu, vocês imaginam encontrar algo assim no Brasil?

Pode ser que o catolicismo europeu já seja mais museológico do que efetivo, vivo realmente no coração do povo, mas ainda é mais do que se tem nesse grande terreiro de macumba chamado Brasil.

O Brasil é uma espelunca religiosa, cheia de favelados espirituais.

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24/08/2016

Eu sei que ontem esculachei o Brasil, e alguém pode pensar que estou cuspindo no prato em que como. Não é verdade. A terra brasileira é boa, muito fértil, e me alimenta muito bem. O povo é que não presta mesmo.

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Fazendo uma reflexão rápida sobre o que engessa e inferniza tanto a vida do brasileiro, esse povo sadomasoquista que adora sofrer e causar sofrimento entre os seus, pensei no seguinte: nós agrupamos na nossa cultura contemporânea o pior de dois mundos. Explico.

O anglo-saxão é organizado, disciplinado, prudente, ordeiro, e consequentemente ele prospera e progride mais rapidamente.

O latino é criativo, bon-vivant, audaz e pacífico, e consequentemente ele aproveita mais os dias da sua vida, sem correr sempre atrás de algo além.

O anglo-saxão herdou mais da tradição racionalista; o latino, de uma tradição mais romântica.

O anglo-saxão, porém, guarda o potencial de pecar pelo seu excesso de competitividade, tornando-se bitolado e viciado em meritocracia, reconhecimento social, sucessos, vitórias, conquistas, troféus e aplausos. Torna-se, assim, cético, utilitarista e materialista.

O latino, por seu turno, guarda o potencial de exceder-se no desregramento da vida para cair nos vícios e devassidões de diversos tipos, endivida-se demasiadamente, gasta e faz o que não pode, e cai fácil na tentação da corrupção e do desejo de obter vantagens ilícitas quaisquer. Torna-se, assim, cínico, corrupto e endividado.

Vemos claramente aí que as qualidades e defeitos compensam-se mutuamente uns aos outros nos povos anglo-saxões e latinos: os primeiros compensam sua obsessão por resultados com uma capacidade real de progredir e, portanto, de atender, parcialmente ao menos, a essa obsessão pelo progresso; os segundos compensam a sua frouxidão moral com uma aceitação mais pacífica do status-quo, não progressistas e não revolucionários, com o uso de sua criatividade para viver melhor cada um de seus dias, apesar dos pesares de sua vida desorganizada.

Mas o que é o Brasil? O Brasil é um cultivador dos defeitos das duas tradições.

Nós somos ao mesmo tempo incompetentes, desorganizados, corruptos e também obcecados com o sucesso, a riqueza, a prosperidade, o brilho e o sucesso. O povo que vive num país assim estabelecido culturalmente jamais poderá viver em paz. O Brasil é uma nação latina que quer esquecer a sua memória tradicional de origem, mas que mantém não obstante os defeitos dela, esquecendo somente suas qualidades (que seria um literal laissez-faire); ao mesmo tempo, do mundo novo anglicizado que se quer imitar, copia-se apenas o que há de pior: a antropofagia corporativista, a meritocracia mais desalmada possível, a obsessão com títulos, prêmios e resultados quantitativos, etc., mesmo que o povo viva na mais verdadeira merda de que já se ouviu falar.

É quase inacreditável, mas é por aí mesmo que o nosso país funciona culturalmente, acreditem se quiser. O Brasil é um hospício gigantesco.

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Por mais que eu admire os Estados Unidos e, por trás, a cultura de uma Inglaterra ou de uma Alemanha, eu concordo com tradicionalistas brasileiros que dizem que o liberalismo é um veneno tóxico para nós. Simplesmente não dá para se cortar as raízes civilizacionais reais da nossa nação. É extremamente contraproducente.

É óbvio que isso não limita nenhuma individualidade para que possa transcender por si o arco de visão de sua comunidade, e até de visões mais amplas (como as tradições latina e anglo-saxônica, ou o romantismo e o racionalismo), desde que não coloque como condição de seu esforço o acompanhamento de toda a coletividade que está preocupada com outras coisas. Daqueles que se indagam da limitação da visão tradicionalista latinista e que não percebem rapidamente essa diferença que acabei de mencionar eu não tenho nada mais do que dó, porque não merecem nada mais do que isso.

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Exemplo simples, da área econômica, do que citei sobre o Brasil: nós temos um governo tipicamente latino (corrupto, obeso, ineficiente, etc.) sendo tocado para gerar resultados tipicamente progressistas (pontos de PIB, superávit fiscal, meta de inflação, desemprego em ordem, etc.), como se essas coisas fossem realmente governáveis por aqui. É como primeiro retirar todas as rodas de um caminhão e então gritar ao motorista: “vai logo! sai para fazer essa entrega!”.

O Brasil é um hospício.

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Alguém pode me dizer que o Plano Real é um ponto fora da curva dentro da explicação que dei acima, ao que a minha resposta será: por favor, vide os anos 2003-2015 antes de finalizar a sua reflexão.

Estabilidade monetária não é uma conquista civilizacional dos nossos políticos. É a lição de casa deles.

Esses filhos da puta já estão deixando de fazer o básico de novo, e vocês vão defendê-los porque dez anos atrás eles entregaram a tarefa em dia uma vez?

Poupem-me de vossas sinapses binárias.

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O fato de que os “resultados tipicamente progressistas” que citei são buscados em grande parte por praticamente todas as nações desenvolvidas, inclusive as latinas mais ilustres, não prova o contrário de minha tese, desde que se preste atenção na realidade dessas nações.

Uma coisa é o comprometimento nominal, outra é a realidade vivida.

O Euro está explodindo bem na ponta de vossos narizes, como uma bexiga de festa. E exatamente pela razão que disse: alemão faz conta de um jeito, italiano faz de outro; inglês vive de um jeito, francês vive de outro; etc.

Assim como John Bolton disse uma vez que “não existe essa coisa chamada de ‘nações unidas’”, posso dizer tranquilamente que não existe essa coisa chamada de “comunidade europeia”, e muito menos existirão, se Deus quiser, uns assim chamados “estados unidos da Europa”.

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Como é que se faz para expulsar o progressismo revolucionário de uma nação latina?

Fácil: criminalize brutalmente o comunismo sob todas as formas e tipos, expulse a doutrina da justiça social do ensino religioso, e crie instituições para cultivo e transmissão da tradição latina.

Isso será mil vezes mais produtivo do que atacar o liberalismo que é muito mais vago, amplo, gelatinoso e impreciso, e que será ao fim sempre um trabalho somente negativo e parcial.

É como digo no Brasil: que os tradicionalistas estejam mais ocupados em condenar um liberalismo ancestral culpado por todos os males (para não falar de suas raízes reformistas) do que com o combate à infiltração e ocupação comunista bem no seio da Igreja, já é em si mesmo um acontecimento trágico.

Essas pessoas são relativamente manipuláveis pelo Eurasianismo.

O Eurasianismo é para os tradicionalistas de todas as bandeiras e crenças como um confortável colinho da mamãe que vai protegê-los todos contra a malvada decadência do mundo moderno.

Deus nos livre de assistir isso, mas que é possível é.

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Voltando para as “Dez Medidas”.

O Nº 14 da Medida 6 fala de “Prescrição penal”. Mais uma vez o ideal aqui é que especialistas em Direito Penal se manifestem, dado o caráter eminentemente técnico da matéria. A impressão que tenho é que estas Medidas até o fim serão todas assim, como se as “Dez Medidas” servissem mesmo como uma oportunidade de microreforma da legislação penal, no bojo da luta contra a corrupção.

De qualquer modo, os argumentos parecem convincentes a um leigo. Até mesmo óbvios demais, ao ponto de nos fazer levar a mão na cabeça e pensar: “como foi que não mudaram isso antes?”.

Vejam só um exemplo bizarro. Um determinado parágrafo do texto da Lei diz que “passada em julgado a sentença condenatória, a prescrição não corre durante o tempo em que o condenado está preso por outro motivo, foragido ou evadido”. Mas como é que funciona hoje então, meu Deus? Corre a prescrição? É tão contraditório que chega a ser ridículo. Como isso pode ser real?

Mas que pode, pode. A Justiça no Brasil, não se esqueçam, é aquela que dá indulto de Dia das Mães para condenados por matricídio.

A justificativa do Nº 14 é longa, o que me leva a crer que os caras estão trabalhando nesse negócio faz tempo e só estavam esperando uma oportunidade para mandar ver. Em suma há o repúdio de uma jabuticaba chamada “prescrição retroativa”, e a sugestão de causa impeditiva da prescrição no caso que já aludi (prisão por outro crime, fuga ou evasão) e também no caso importante dos recursos especial e extraordinário.

O problema do tecnicismo é que você tem que dar votos de confiança.

Embora pareça que os caras estejam mesmo, neste caso, querendo corrigir barbeiragens legislativas e jurídicas brasileiras, quem é que pode me garantir que não estejam no mesmo ato inaugurando as suas próprias cagadas? Ninguém me garante. Eu teria que estudar tudo isso ponto a ponto e em cada detalhe. Só que eu tenho mais o que fazer, então não vai dar mesmo.

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25/08/2016

O Nº 15 da Medida 7 das “Dez Medidas” fala de “Ajustes na nulidade”.

Como o texto do Anteprojeto de Lei referente a este Nº é relativamente mais extenso do que os anteriores, vou comentá-lo inteiramente antes de entrar no texto da justificativa.

Em muitas partes é compreensível o desejo de não se querer ver mais o instituto da decretação de nulidade de provas ser usado para destruir ou para desvirtuar um processo. É notável, porém, que o esforço neste sentido invada a legislação processual e não restrinja-se ao trabalho litigante em si, obrigando-nos a observar se existem excessos nos pedidos.

Existem alguns problemas. Nos itens III e IV do § 2º do Artigo 157 do Decreto-Lei 3 689/41 (CPP), o texto diz que exclui-se a ilicitude da prova quando: (III) a prova tiver sido obtida por “boa-fé” ou por “erro escusável”, o que ocorre quando há “circunstância ou fato que levou a crer que a diligência estava legalmente amparada”; e (IV) a relação de causalidade entre a ilicitude e a prova derivada for “remota” ou tiver sido “atenuada” por ato posterior.  O problema no item III é que, salvo o prejuízo do meu porco entendimento do juridiquês, está-se querendo desconsiderar a ilegalidade objetiva de provas porque as condições subjetivas de sua obtenção são releváveis. Salvo melhor juízo, isso é uma verdadeira porcaria, uma merda textual, uma bosta escrita, um excremento verbal. Se quiserem dar poderes olímpicos ao juiz, façam explicitamente uma lei para isso. Mas se quiserem de fato corrigir a criteriologia objetiva da consideração de nulidade processual das provas, então façam isso diretamente, não inventem um truque sujo desses. O problema do item IV, menos grave, pois menos abusivo e escandaloso, embora não seja menos preocupante, é que os autores não se dão por satisfeitos simplesmente com a não-relação causal entre uma ilicitude e a prova produzida, mas avançam para pedir a desconsideração quando a relação causal for “remota” ou tiver sido “atenuada” por ato posterior, ou seja, novamente abrem as portas para a interpretação de um juízo que vai além do que é concretamente a não-relação causal inequívoca. Vocês podem achar isso tudo bobagem, mas se essa lei passar no Congresso e depois disso num belo dia qualquer um de vocês por acaso tomar um processo injusto no meio do seu rabo, e o seu advogado falar que a sua defesa depende da decretação de nulidade de provas, você vai se lembrar de mim com carinho. Especialmente se essas nulidades foram produzidas por agentes qeu o juiz considere serem de “boa-fé”, ou que tenham sido cometidas por “erro escusável”, ou ainda se a relação de causa entre o ilícito e a prova cuja anulação for pedida for considerada “remota”. Lembrem-se de mim com carinho neste dia.

Mais adiante, os caras novamente escorregam no tomate. Cagam na nossa frente e, não satisfeitos, esfregam seus produtos fétidos nos nossos rostos. O item VII do mesmo parágrafo pede nada menos que as provas comprovadamente ilegais e já efetivamente anuladas sirvam ainda assim para a acusação refutar álibis, fazer contraprova de fato deduzido pela defesa, e para demonstrar a falsidade de prova da defesa! Então é assim: prova anulada agora é e não é anulada ao mesmo tempo, entendem? A acusação tem o privilégio de usar provas anuladas para alguns servicinhos inocentes como qualquer um desses descritos acima. É um pedido no mínimo estranho. Repito o que já disse: quero que até o último dos corruptos seja punido da forma mais severa. Mas de forma justa. Se o MP não consegue trabalhar direito por inadequação de regras do CPP que tornam injustos os resultados dos processos, é legítimo que peçam a mudança dessas regras, como aliás os caras fazem em vários pontos das “Dez Medidas” com bastante eficiência. Mas o que o MP está pedindo aqui é uma licence to kill. Desculpem, camaradas, mas os fins não justificam os meios. Façam do jeito certo. E não adianta me vir com uma lista de 500 Al Capones que poderiam estar presos se a regra fosse do jeito que vocês queriam que fosse. Simplesmente É ERRADO e ponto final. Se vocês não conseguem conceder isso, estão na profissão errada, desculpem-me.

O § 1º do Artigo 564 tem uma coisa assim, digamos, excêntrica, que é a regra de que nenhum ato terá declarada a sua nulidade se esta não prejudicar a acusação ou a defesa. Tudo bem, mas se uma nulidade não prejudica efetivamente nenhuma das partes, porque é tão importante não declará-la? Será que eu posso me ferrar se eu não conseguir comprovar o prejuízo efetivo de uma nulidade que não foi declarada? Se existe essa possibilidade, porque então este parágrafo foi escrito? Cheiro ruim no ar. Mistérios insondáveis do Direito Penal…

O Artigo 567, salvo juízo melhor, está mal escrito, para começar. Vejamos: “Salvo decisão judicial em sentido contrário, conservar-se-ão os efeitos de decisão proferida pelo juízo incompetente, até que outra seja proferida, se for o caso, pelo juízo competente”. Espere aí: uma “decisão judicial em sentido contrário” não é a mesma coisa que “uma outra [que] seja proferida pelo juízo competente”? O autor foi devidamente alfabetizado, ainda que use mesóclise, ou eu é que não sei do que estou falando mesmo? Não pergunto retoricamente: é de fato uma linguagem especializada, por isso coloquei os termos entre aspas e perguntei realmente se são iguais ou não.

Mas digamos que isso passe e eu é que sou mesmo um metido a besta. O sentido do artigo mantém-se esdrúxulo. Se um juízo já foi considerado incompetente, porque raios nós precisamos ficar aqui esperando que uma decisão positiva nos diga que é preciso desconsiderar os efeitos dele? POR QUÊ? Esta é a minha pergunta. E a resposta é: para o deleite do Ministério Público. Qual outro motivo haveria?

Será que eu estou muito chato hoje?

Talvez seja uma projeção: peguei a chatice do tema dessas “Dez Medidas” –sobre as quais, assim que eu terminar esse trabalho de análise, eu nunca mais quero ouvir falar na minha vida– e resolvi ser chato com os seus autores. Me fizeram essa tortura, agora eu os torturo de volta, seja com a mais alta legitimidade ou seja com a mais singela birra. E não venham me dizer que eu fui arrumar sarna: lembrem-se de que me pediram realmente para assinar logo embaixo desse monte de papéis, assim como pediram a milhares de outras pessoas, senão milhões. Querem a minha assinatura, querem o meu nome, mas não querem a minha leitura e nem as minhas considerações a respeito? Não é justo. Quem fala o que quer ouve o que não quer. Agora aguentem.

Ainda no texto da lei (faltam as justificativas!), chamaram-me a atenção também os itens I e II do Artigo 572.

O primeiro fala que as nulidades serão consideradas resolvidas se elas não foram pedidas tempestivamente. Ok, regra processual, faz sentido. Mas não lembra aquele negócio do Banco Imobiliário, quando alguém anda as casas e passa pelo “Início” mas se esquece de pegar o dinheiro, e já começa o turno de outro, nós falamos que agora é tarde para pegar aquele dinheiro que foi esquecido. É um direito com countdown. É pegar ou largar na hora certa, como num jogo. Só não vou realmente encher muito o saco com isso porque eu sei que o MP pode vir com dez pedras nas mãos alegando, justamente, que eles também vivem sendo atropelados por prazos, prescrições, etc. Segue o jogo.

Mas o item II já é mais pestilento e ardiloso: as nulidades também podem ser resolvidas se a parte se conformar com o ato defeituoso. Parece muito razoável e até agradável, mas os caras dizem que isso pode ocorrer por  “omissão” e ainda que “tacitamente”. Isto quer dizer que se uma defesa pangaré perder de vista uma nulidade necessária, perdeu playboy: o juiz não poderá por si determinar a nulidade mesmo que esteja diante das evidências mais cabais e grosseiras do mundo. Você pode dizer até “azar dos bandidos”, claro. Mas se você for processado injustamente e for defendido por um advogado distraído, já sabe… vai se lembrar de mim com carinho. Faço uma troça, mas o negócio é grave, não é? Ora, um ato nulo é uma irregularidade concreta, é algo que efetivamente prejudica injustamente uma parte. O que este item II diz é o seguinte: se a vítima do ato anulável não perceber-se prejudicada, azar dela que além de ser uma injustiçada também é trouxa. É isso o que este item II diz. E olhem que eu não exagero, porque os caras escreveram as palavrinhas mágicas lá, e eu li elas, porra: “omissão” e “tacitamente”.

A justificativa tem errinhos gramaticais. Pois é… já é a Medida 7, né? Ninguém deve estar mais lendo, né? Pois é, eu li. Talvez milhões de pessoas tenham assinado algo que uma professora de português do ginásio não aprovaria com uma nota 10. Talvez com um 9,5 ou até menos. Mas com um 10 não passariam os excelsos autores.

Vamos ao teor. Primeiro os caras fazem uma retrospectiva desse negócio de nulidades no Direito. Falam da Suprema Corte dos EUA, da Common Law, e de como se constituíram essas regras de inadmissibilidade no direito norte-americano, as“exclusionary rules”.

Lindo. Só que em seguida num humilde único parágrafo dizem-nos os autores que quando esse sistema foi importado para o Brasil, o nosso legislador tomou distância do que seria o espírito das regras originárias, e criou um sistema que eles chamam de “disfuncional”, “extremamente subjetivo”, que produz “insegurança jurídica”, conduz a “decisões seletivas”, transforma o processo em “autêntica loteria” e por fim resulta em impunidade.

Ok, dois problemas.

Um: mais da metade dessas alegações não foram devidamente justificadas na tal da justificativa. Porque alguém escreve uma justificativa? Não é para justificar? Sim. Mas não esses autores. Eles fazem alegações quaisquer num parágrafo-bomba e depois escolhem justificar apenas o que eles acham melhor. Tudo isso num texto com o título de… JUSTIFICATIVA. A alegação de impunidade, sim, foi justificada, mas como não poderia ser no Brasil? É só dobrar a esquina que se encontram impunidades escancaradas, penduradas pelas ruas e praças das cidades, todas desimpedidas, flagrantes. Mas das alegações esta é justamente a mais fraca, porque apela ao efeito geral de um sistema integral de justiça e a uma sensação difusa na sociedade, e não aos nexos concretos entre erros e prejuízos, que é o que se pediria para embasar reformas legais.

Dois: é evidente que se o erro foi do legislador constitucional deve-se pedir uma PEC que discuta o assunto amplamente, até mesmo para defender preventivamente a sua própria tese, vejam só vocês, justamente da insegurança jurídica do peticionamento de ADINs no STF, ô meu caralho! Não venham me colocando essas regrinhas convenientes de solapo nas “Dez Medidas”, quando sabem muito bem que deveriam jogar a bola bem mais alto do que isso. Os autores gastam tinta à toa mostrando a diferença das “exclusionary rules” para o que nós fazemos aqui, sendo que desde o início eles mesmos anunciaram que o nosso Congresso arbitrou desta forma com autoridade legítima. Ou seja, cá entre nós, isso é uma choradeira. Os bandidos estão se divertindo, eu sei, e vocês querem prender os caras, eu sei, mas não queiram fazer isso dando jeitinho. No mínimo é mau-exemplo.

Do resto do texto da justificativa eu já deixei implícitas as minhas opiniões no que disse logo acima. Ressalvo apenas que achei engraçado o argumento usar como documentação da chamada “exceção de boa-fé” (quando o ilícito cometido na obtenção da prova, como diria o Chaves, “foi sem querer querendo”) amostras da justiça americana na quantia exorbitante, alarmante e avassaladora de TRÊS processos. Uau!

Acho que já enchi o saco demais com essa Medida 7.

Em resumo e por fim eu simplesmente rasgaria essa Medida em mil pedaços, ou melhor ainda, usaria o verso como papel-rascunho para salvar a floresta, etc. Se os autores insistirem na justiça da sua causa, eles que façam melhor que isso. Eu duvido que o MP não consiga fazer melhor. Essa coisa do jeito que está não dá. Se eu que sou um zé-mané, um joão-ninguém, consigo ver as rachaduras, quanto mais os especialistas?

Assim espero, ao menos. Já fiquei sabendo que recentemente o Gilmar Mendes andou metendo bronca nesse negócio. Essas coisas me fazem um pouco um señorito satisfecho, sabiam? Vou lhes confessar isso, que é uma besteirinha, mas é real. Quando vejo um Olavo, um Gugu, falando coisas relativamente novas, ao menos na forma, mas iguais ou bastante parecidas com coisas que eu escrevi ou disse privadamente antes, dias ou até meses atrás, fico como um bebê quando a gente faz cócegas na barriga dele, não consigo me controlar neste breve gozo. Até um Gilmar Mendes serve para me dar um gostinho. Não publico essas evidências da “minha sabedoria” porque ela não é minha para eu sair pedindo direitos de reintegração de posse. Que coisa mais ridícula.

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“Eu pensei primeiro! Eu pensei primeiro!”, diz um coitado a si mesmo, querendo ver no espelho uma figura com consistência mais rígida do que uma gelatina prestes a sofrer um desmoronamento irreversível.

Um mestre diz, mesmo que só consigo próprio: “Deus pensou primeiro. Louvado Seja! Santo… Santo… Santo…” e faz a melhor coisa que há no mundo: esquece-se de si mesmo.

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Ressalva importante: quando Olavo diz que “pensou primeiro”, ele não o faz por vaidade como tão comumente o acusam os seus habituais detratores, mas por uma questão de justiça, essa coisa tão escassa nas terras brasileiras. Nós só somos hoje usufrutuários do trabalho do filósofo porque durante anos ele defendeu assim, com coragem e perseverança, e sozinho, o seu legado, que sempre foi atacado por todos os lados. Jamais se esqueçam disso. 

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Acabo de saber que um navio americano abriu fogo contra uma embarcação iraniana. Vou tomar mais informações a respeito, mas é uma notícia totalmente concordante com a tese de que Obama está em sua reta final de providências a serviço de interesses estrangeiros na presidência dos EUA, antes das eleições americanas e da entrega de seu cargo. A conflagração de uma guerra está entre as hipóteses aventadas. 

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26/08/2016

A música (presumidamente boa) educa os nossos sentimentos morais.

Não só a nossa inteligência operativa aumenta, e a criatividade em geral, nas suas formas mais evidentes, mas também a base mnemónica e imaginativa, tornando até as nossas reações emocionais imediatas mais nobres, profundas e completas.

Nós simplesmente nos tornamos pessoas melhores ouvindo música.

Mas, repito, tem que ser presumidamente boa, ou seja, música de verdade.

Eu ouvia muito Bach e Beethoven quando era criança, por minha livre e espontânea vontade, e a única coisa que eu lamento foi não ter ouvido mais destes mesmos compositores, e de ter ouvido relativamente pouco de Mozart e Wagner.

Vejam que há uma diferença brutal entre o refinamento supérfluo e exterior de frequentar salões e eventos, ou de conhecer a história dos compositores ou de suas obras até os mínimos detalhes, e a simples atividade de audição quantitativamente elevada, por períodos longos e repetida com grande frequência.

Eu lamento não ter ouvido mais música, mas não ligo a mínima por não ter assistido a uma regência sequer. No máximo acho ruim não entender nada de música e ser apenas um ouvinte, mas estou muito satisfeito com as audições, posso garantir.

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Eu acho ótimo, e até delicioso, que PMDB e PT briguem de fato entre si, que arranquem os cabelos, arremessem copos, pulem de janelas, e busquem se destruir mutuamente até o último deles não restar mais vivo na política. Não tenho a mínima crença de que a paz e ordem do país dependam das instituições republicanas e muito menos da condução delas por estes partidos políticos. Que briguem e destruam-se até chegarem ao quinto dos infernos. Isso já fez bem ao país e poderá continuar fazendo. Só lamento que o PSDB seja poupado, porque também deveria haver sangue tucano sendo derramado nessa rodada da história. 

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Volto às “Dez Medidas”. Estou com alguma pressa: quero sair da Europa e redescobrir as Américas com esse assunto totalmente resolvido. Ou seja, na prática, tudo feito até amanhã.

A Medida 8 só tem o Nº 16, “Responsabilização dos partidos políticos e criminalização do ‘Caixa 2’”.

Os textos da lei e da justificativa estão em ordem e inserem-se numa lacuna mais que aberta, verdadeiramente arrombada, do nosso Direito. Criminalizar os Partidos e especificamente as operações com os famosos “recursos não-contabilizados”, um eufemismo para o velho Caixa 2 que o falecido Márcio Thomaz Bastos colocou para circular na praça em defesa dos petistas. Lembro-me bem da Ministra Carmen Lúcia ficar chocada, no julgamento da AP 470 pelo STF, com esse cinismo e dizer a merecida frase: “como assim ‘é só caixa 2?’ Caixa 2 é crime!”. Lavou nossa alma. Quando alguém ousa falar a verdade desavergonhada no STF, nós jubilamos. Pena que isso é raro, mas é daí mesmo que vem a nossa emoção quando acontece. Carmen Lúcia e os brasileiros finalmente foram respondidos na sua indignação e receberam uma resposta do MP com a proposta desta Medida 8.

Apenas, lembremos, não é algo suficiente.

Enquanto o nosso Congresso não votar uma reforma política que derrube o custo das eleições, esse assunto nunca vai realmente avançar, porque onde há muito dinheiro sempre vai ter confusão e corrupção. É preciso cortar o preço de se fazer eleições no Brasil. Só que isso é um assunto a ser tratado justamente pelos que são os presentes beneficiários das leis eleitorais atualmente vigentes que nós queremos precisamente mudar. Eis, novamente, mais uma circunstância onde falta um Rei que coloque o pinto na mesa e diga ao Parlamento: votem esta merda! Se dependermos de políticos corajosos ou de consciência popular que se transforme em comoção e movimento de massas, estamos ferrados. Precisamos de autoridade legítima, e que está mais próxima é a da Família Real, gostem vocês disso ou não.

Por outro lado, onde estava o MP quando o Congresso votou a esdrúxula regra de proibir doações empresariais de campanha? Se querem o jogo limpo propondo essa criminalização do Caixa 2 –o que é inteiramente justo–, porque não fizeram a pressão necessária para bloquear, ou causar uma comoção que forçasse o bloqueio, do voto dessa medida estúpida que certamente aumentará os ilícitos eleitorais? É quase que uma questão de aritmética: se os fatos geradores do alto custo das campanhas não cessaram e as doações de empresas que pagam esse alto custo foram proibidas, de duas uma, ou os políticos se tornarão subitamente honestos, íntegros cumpridores da Lei, e imolarão a si mesmos nas próximas eleições, ou a arrecadação ilegal vai aumentar muito mais e alcançará verdadeiros níveis recordistas, tertium non datur.

Mas, sabem como é o Brasil, né? Tem Lei que “pega” e tem Lei que “não pega”. Certamente a criatividade política e empresarial resolverá esse problema, e algo me diz que não será no estrito cumprimento da Lei.

A Medida 9 contém os Nºs. 17 e 18, respectivamente tratando de “Prisão preventiva” e de “Multa aos bancos por descumprimento de medida judicial”. Textos justos e bem colocados, bem como as suas respectivas justificativas.

Ressalto que chega a ser chocante que certas coisas ainda estejam em fase propositiva no nosso Congresso. Providências como permitir que a prisão preventiva seja decretada “para permitir a identificação e a localização do produto e proveito do crime, ou seu equivalente, e assegurar sua devolução, ou para evitar que sejam utilizados para financiar a fuga ou a defesa do investigado ou acusado” deveriam ter sido tomadas há dois séculos atrás. Ainda estão discutindo isso? A lentidão mastodôntica do sistema legislativo penal brasileiro é arquiconhecida, mas continua conseguindo nos surpreender a cada novo episódio de sua espécie.

Sobre as multas aos bancos, nada mais justo. Apenas não gostei de uma parte onde os caras propõe que os bancos tenham um departamento assim e assado com tais e quais pessoas disponíveis, etc., esse é o tipo de ingerência legislativa que mata a vida. Peçam simplesmente o que vocês querem, no formato que vocês querem, e coloquem pena pelo descumprimento, só. Deixem que os bancos se virem para cumprir como acharem melhor. Não queiram ser administradores, porque isso fode tudo neste país. Eu entendi que na prática não tem um filho da puta no banco que esteja disponível para atender uma porra de um telefone e responder a uma diligência de quebra de sigilo, eu entendi esse negócio. Mas é simples! Liguem para o banco e se ninguém quiser atender, enfiem uma multa no rabo deles, ora. Eles vão aprender rapidinho que precisa atender as diligências, si sinhô, rapidinho. É incrível como ainda não se sabe escrever leis no Brasil.

Ao invés de sinalizar claramente as punições e colocar temor no coração dos desgraçados, os caras preferem dizer como todo mundo deve viver a vida, como se estivessem brincando de casinha de bonecas. É patético este nosso jaboticabense modus legislandi, quase que um quadro de circo com palhaços trapalhões, montado para nos fazer cagar nas calças de tanto rir. Só faltou escreverem: “Você faz assim, coloca o telefone na mesa, deixa ele ligado na tomada, quando nós ligarmos você tira ele do gancho e diz: alô!”. Só faltou isso, o resto da piada está lá.

Os caras não sabem escrever. Por exemplo, o teto de 10 milhões de reais para a multa. Achei linda a cifra em si, mas isso na minha condição de brasileiro vivente no ano de 2016. Daqui a dez, ou vinte, ou cinquenta anos, 10 milhões de reais ainda será um valor bom do mesmo jeito que é hoje? É claro que não. Aliás, talvez a moeda já seja outra. Mas então porque não se coloca o teto da multa de uma forma cuja interpretação seja mais perene, como por quantidade de Salários-Mínimos, ou pelo menos com a aplicação de um reajuste automático referenciado a um determinado índice mais longevo? Parece besteirinha, mas o problema é que não existe uma só besteirinha, entendam isso. Se fosse só uma, eu ignoraria muito feliz. A legislação brasileira possui montanhas titânicas, cordilheiras inteiras, um Tártaro só seu feito somente de besteirinhas que fodem e prendem a gente pela eternidade em seus meandros. E que depois exigem necessariamente que sejam redigidas quatrocentas e setenta e nove mil emendas de leis por ano. Pensam assim, os nossos autores: “ah, é só a estipulação do teto da meta, até isso precisar ser revisto eu já não vou estar mais vivo mesmo…”. Porque é assim mesmo que os nossos legisladores pensam, e é por isso que este país está uma bosta. Os caras não querem lei e ordem para um país para os próximos dois ou três séculos, eles se satisfazem com uma ordem jurídica mínima que dure até o fim da aposentadoria deles. A necessidade de se aprender a escrever leis é urgente no Brasil, e a necessidade de se ensinar moralidade básica é mais urgente ainda. Alfabetizem os nossos parlamentares, por favor, moral e gramaticalmente.

Por fim, eu ressaltaria ainda que é sempre necessário haver moderação e prudência no assunto prisão preventiva, que eu não toco levemente de forma nenhuma. Eu mesmo gostaria de receber o benefício de não ser encarcerado junto a outros tipos de presos por uma prisão preventiva decretada no desenrolar de um processo injusto, por exemplo. Como eu não atuo nesta área específica, não posso dar todas as recomendações cabíveis aqui, mas também não posso deixar de apoiar o MP que está fazendo das tripas o coração para conseguir pegar bandidos de colarinho branco, esses fantasmas e vampiros do filme de terror que é a política brasileira. Por isso apoio esta Medida.

Se quiserem eu posso depois falar exclusivamente do sistema penitenciário brasileiro que, como já dizia o nosso velho Alborghetti, é uma merda.

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Eu diria mais, como de costume parafraseando o Agamenon Mendes Pedreira: para virar uma bosta ainda precisa melhorar muito. 

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Enquanto o Senado julga Dilma, com direito a um barraco entre Renan e Gleisi e tudo o mais, a PF indicia Lula e outros (sua esposa, Okamoto e Léo Pinheiro e um terceiro que não conheço) por conta do caso mal explicado do tríplex do Guarujá. Os crimes investigados: corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Que seja o primeiro indiciamento de muitos que virão pela frente para não só enterrar a pessoa política de Lula, mas especialmente para reformar definitivamente a memória histórica do seu legado mostrando aquilo que ele realmente foi para o país: uma desgraça. 

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A Medida 10 das “Dez Medidas” possui os Nºs. 19 (“Confisco alargado”) e 20 (“Ação de extinção de domínio”).

O primeiro é outro excremento digno de nota das “Dez Medidas”, um verdadeiro cocô de dinossauro comedor de carniça. O fedor pode ser sentido à distância e tem uma característica podridão inconfundível.

Leiam o que diz, singelamente, o texto proposto para o Artigo 91-A do Decreto-Lei 2848/40 (Código Penal), com grifo meu: “Em caso de condenação pelos crimes abaixo indicados, a sentença ensejará a perda, em favor da União, da diferença entre o valor total do patrimônio do agente e o patrimônio cuja origem possa ser demonstrada por rendimentos lícitos ou por outras fontes legítimas”. Prestem muita atenção neste texto: ele está dizendo que quando alguém for condenado por determinados crimes (e para o meu argumento realmente não importam quais sejam esses) o Estado poderá tomar posse de todo o patrimônio real (não o declarado com origem, obviamente) do condenado que não for justificado legalmente. Isto significa que dada a única premissa de uma condenação legal por determinados crimes, o Estado poderá sempre tomar o controle do patrimônio de praticamente qualquer indivíduo de grande parte da sociedade brasileira, visto que as impossibilidades de justificação patrimonial dos cidadãos de um país como o Brasil são vastíssimas. O que se dá, com esse projeto, é um autoridade tirânica de confisco ao Estado, e para que isto seja usado de forma injusta basta que uma condenação seja fraudulenta em si mesma, ou que se faça discretamente, após a aprovação deste texto da forma como está, a inclusão de crimes menos graves na lista de determinantes do “confisco alargado” (que é como chamam essa estrovenga), como a sonegação de impostos, sob a lindíssima justificativa da necessidade de justiça social, por exemplo. Pronto! Vocês DEVEM prestar atenção e compreender o tamanho da barbaridade desta proposta.

É claro que o espírito autor concentra-se nos vilões da nossa sociedade. Mas as Leis não são escritas para os vilões somente, mas para todos. E deve-se fazer, prudentemente e sempre, a reflexão clássica: como é que essas regras podem ser usadas contra um cidadão inocente? Será que essa obrigação é tão difícil e opaca para a mente dos brasileiros? Será que é preciso ter uma consciência americanizada para perceber que as Leis podem sempre servir a instituição de uma tirania, se forem mal feitas e derem ensejo para isso?

O parágrafo primeiro do dito artigo esclarece o que entende-se, para seus efeitos, como “patrimônio”, e durmam com um barulho desses: não só as posses diretas de cada pessoa, mas tudo o que é usufruído na prática ou aquilo para o qual haja poderes de domínio, ou ainda bens transferidos a terceiros gratuitamente ou por quantia módica nos últimos cinco anos anteriores a instauração da investigação, e além disso todos os demais bens e direitos recebidos nos últimos cinco anos e cujo destino não puder ser determinado. Agora façam-me o seguinte favor: imagine como qualquer uma dessas situações possam ocorrer legitimamente, num sentido moral, mas sem resguardo legal que justifique. Eis o busílis. Este negócio é intragável, e o descaramento com que propuseram esse troço é uma coisa espantosa.

Fora que, na justificativa, a coisa fica pior ainda para o lado dos proponentes do Nº 19.

Defendem, primeiramente, o conceito desse tal de “confisco alargado”, que deveria se chamar na verdade “cu arrombado”, que é o que pretendem fazer com quem for pego, justa ou injustamente. Dizem que esse tipo de dispositivo faz parte de “diretrizes de tratados dos quais o Brasil é signatário”, e não fazem sequer o favor de mencionar quais tratados sejam esses, a gente que se lixe. É, assim mesmo. Dizem, ainda, que o dispositivo adequará “o sistema jurídico pátrio a recomendações de fóruns internacionais voltados a coibir o crime organizado”, como se isso fosse um argumento favorável evidente e insofismável. Eu nem sei o que isso quer dizer. Pessoalmente, interpreto da forma oposta: tudo o que é proposto por “organismos internacionais” para mim FEDE a um negócio demoníaco chamado globalismo. Então ver alguém me dizer que segue uma recomendação de órgãos desse tipo querendo contar vantagem, é como ver alguém se gabando de estar com as calças borradas.

E fica pior, acompanhem comigo.

A persecução criminal do Estado não é, não pode e até mesmo não deve ser exaustiva. Nem todas as infrações podem ser investigadas e punidas, inclusive por força das garantias constitucionais e legais dos cidadãos”. Não entendi… os caras estão reclamando contra isso? Quem é o autor dessa parte? Satanás, é você? Que sentido faz essa afirmação na justificativa de uma proposta legal, senão declarar justamente que é preciso violar os limites da persecução? Em suma, estão reclamando que os cidadãos estão livres demais para fazer o mal.

E fica ainda pior que isso, vejam só.

Sem a possibilidade de se promover a responsabilidade criminal, o confisco clássico e o confisco por equivalente não são capazes de evitar o proveito ilícito e a utilização desse patrimônio de origem injustificada em novas atividades criminosas”. Eu não acredito que eu li isso. Não consigo acreditar. Leio de novo, para ver se é isso mesmo. E é! Como explicar para os autores desse pedaço de estrume que eles chamam de “justificativa” que SEM A POSSIBILIDADE DE SE PROMOVER A RESPONSABILIDADE CRIMINAL O ESTADO NÃO DEVE SER CAPAZ DE NADA CONTRA QUEM QUER QUE SEJA? Eu estou, sinceramente, mais que decepcionado, sentindo-me ultrajado e ofendido. Como é possível querer a assinatura de pessoas inocentes para ajudar a promover esse tipo de coisa? É revoltante. Os autores especificamente deste dispositivo deveriam ser chamados a prestar contas, talvez até judicialmente, por serem responsáveis pela indução ao erro de milhões de pessoas.

Não satisfeitos em defender o indefensável, eles continuam mais além confessando mais ainda o seu barbarismo mental, de um analfabetismo funcional misturado com maledicência que é uma verdadeira receita para a insanidade.

Como se trata de medida que atinge apenas o patrimônio de origem injustificada, sem imputar ao afetado nenhum dos tipos inerentes a uma condenação criminal pelos fatos que ensejaram a posse desses bens, o confisco alargado se harmoniza com o princípio de presunção de inocência”. Não, porca miséria! NÃO! Afirmar que um patrimônio de origem injustificada é automaticamente considerado um patrimônio de origem ilícita é EXATAMENTE O CONTRÁRIO da presunção de inocência. Isso não é mais um positivismo jurídico, é um superpositivismo tirânico, uma arbitrariedade imperial que só consegue se justificar através justamente de um analfabetismo funcional bestial e animalesco que aceite isso submissa e bovinamente. Que essas coisas fossem pensadas já seria algo assustador; que sejam efetivamente propostas como leis justas para o país, é algo de fazer arrepiar os cabelos da nuca. Quem está por trás dessas idéias grotescas do Nº 19? Recuso-me a acreditar que é apenas o MP.

Graças a Deus só falta um número, porque do jeito que a coisa anda a vontade é de arrancar minha própria cabeça fora e jogar pela janela, do que ter que continuar lendo essas torturas. Vamos seguir que falta pouco.

O pouco que falta, infelizmente, é tão apetitoso e agradável quanto a experiência de se engolir um pedaço de brasa viva temperada com um molho de vidro moído. A experiência é tão bizarra que eu realmente não vou tratar linha por linha, porque os caras simplesmente não merecem isso. Esses papéis não foram feitos para serem lidos, o máximo a que servem é para embrulhar peixe de feira ou para se limpar a bunda. Trata-se da criação de um dispositivo stalinista chamado “Ação Declaratória de Perda Civil da Propriedade ou Posse”. Por instantes eu imaginei estar lendo um documento da Coréia do Norte, ou da antiga URSS. Mas não, é uma proposta de Lei para o Brasil de hoje mesmo. Em resumo, a idéia aqui é criar um sistema geral baseado na premissa do Nº 19, como se esta já não fosse suficientemente obscena e insultuosa.

É a instauração do comunismo disfarçado de luta contra o crime. Não passa disso. Quem quer que negue essa realidade sob a alegação de uma distância muito grande entre essas coisas, ou ignora flagrantemente o que seja um sistema jurídico, ou finge ignorar. Nós, por nosso turno, não podemos nem fingir e nem ignorar de fato. Simplesmente não pode haver um dispositivo cuja função primordial, por mais nobres e justas que sejam as suas finalidades, seja explicitamente o puro confisco dos bens de pessoas. Isso não pode ser tolerado nem por um segundo. É preferível ter um Paulo Maluf como Presidente do Brasil num governo ininterrupto de vinte anos do que aprovar esse lixo, para se ter uma idéia do quanto um princípio jurídico pode ser mais devastador e perigoso do que a maior corrupção materialmente considerada.

A justificativa desta imundície chega a citar explicitamente o XXIII do Artigo 5º da CF, que fala da famigerada “função social” da propriedade, como fundamento constitucional para implantar esse sovietismo no Brasil. É uma implantação muito gradual, é claro, bem aos poucos. Você aceita esse negócio hoje, quem será de fato executado será o seu neto, ou ainda o seu bisneto. É assim que funcionam essas coisas, e a lentidão é uma vantagem nas mãos revolucionárias.

Afirmam, com ousadia compatível apenas com a mais pura psicopatia tipicamente comunista, que “o ordenamento jurídico, em última instância, autoriza, legitima e protege o exercício do direito à propriedade”. O ordenamento jurídico legitima o direito à propriedade? Que eu saiba só em Cuba, na Coréia do Norte… no Brasil também, agora?

Sim, é só assinar essa Lei.

Ao fim da leitura das “Dez Medidas” eu lamento muito que o problema que eu ouvi falar não só existe como é muito, mas muito pior do que eu imaginava. Por outro lado, conhecendo como são as coisas, não é tão surpreendente que os revolucionários tenham flanqueado e usado, como sempre usam, as circunstâncias ao seu favor para fazer avançar elementos e princípios jurídicos que lhes sejam vantajosos estrategicamente. É isso mesmo o que eles fazem sempre. O que é espantoso é o quanto a propaganda é localmente eficiente: até eu, que sou bem treinadinho nessas coisas, quase assinei a porcaria sem ler, só por causa da comoção social, etc. Mas, reparem, foi quase. Na hora certa a minha consciência venceu, e ainda bem.

Uma proposta como a das “Des Medidas” não deveria existir.

Em primeiro lugar não são dez, mas vinte medidas perfeitamente distintas e inclusive propostas com a redação de vinte textos legais totalmente independentes.

Em segundo lugar, é contrário à transparência e ao sentimento democrático enfiar vinte idéias num saco e pedir para todo mundo comprar tudo isso de uma vez em bloco, ou rejeitar tudo de uma vez e daí aguentar a impunidade. É um truque sórdido, uma chantagem indecente. É injusto, indevido, errado, safado.

Eu iria fazer um quadro resumido agora dos vinte números para fazer uma estatística classificatória separando cada um e marcando como “totalmente aprovado”, “aprovado com ressalvas” e “reprovado”.

Mas não vou me dar a esse trabalho. Os caras não merecem, realmente.

Joguem as “Dez Medidas” no lixo.

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Quem visse pela primeira vez o quarto onde dormia Filipe II da Espanha, no mosteiro El Escorial que visitei hoje, sabendo do poder que ele tinha, não acreditaria.

É algo realmente admirável.

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Agora é a hora de voltar ao Brasil, se o avião não cair no meio do caminho. 

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29/08/2016

O avião não caiu, graças a Deus. Continuo a jornada sobre a terra.

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Se prestassem atenção na maledicência e na murmuração pela sua natureza e consistência espiritual, as pessoas fofocariam muito menos e, consequentemente, falariam cerca de uns 80% menos do que falam habitualmente, no mínimo.

Existem três tipos básicos e simples de personalidades falantes: as que reclamam dos outros, as que reclamam de si mesmas, e as que falam de coisas superiores ou simplesmente não falam.

Os que reclamam dos outros são os tipos da pior qualidade que existe, altamente tóxicos e danosos para si mesmos e para os outros.

Os que reclamam de si mesmos começaram a ficar um pouco mais realistas. Mas ainda são pessoas que não chegaram ao ponto de observar que, no fundo, elas não são tão importantes assim e que estão se dando mais valor do que realmente deveriam.

Poderíamos colocar um tipo intermediário aqui, que é capaz de falar de si mesmo sem reclamar, com perspicácia objetiva, o que já é um melhoramento, mas ainda não o suficiente para constituir realmente um avanço.

Os que falam das coisas superiores conseguiram transcender realmente de alguma forma a mentalidade reclamatória (que é um psiquismo obstrusivo e nada mais que isso) e absorveram sinteticamente em suas personalidades todos aqueles problemas, conflitos e defeitos que não puderam ser resolvidos. É assim que se faz: você percebe que vai morrer um dia e que não vai dar conta de ser perfeito em praticamente nada, daí escolhe transcender e superar os detalhes inferiores da sua biografia (o que equivale, mais ou menos, ao que em teologia cristã chamamos de “carregar a sua Cruz”), para se dedicar a ser o mais perfeito possível naquilo que é mais importante, ou seja, no amor a Deus e no amor às outras pessoas. Este é o tipo de pessoa que fala de coisas superiores ou, na impossibilidade de fazer isso, simplesmente não fala de nada.

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Pude ler, com rara satisfação, no artigo “Entenda como as ’10 medidas contra a corrupção’ vão aumentar a corrupção”, publicado no Jornal Opção, que os autores Pérsio Menezes e Renato Amoedo não só conseguiram detectar aquilo que eu havia falado, como ampliaram o entendimento dessa iniciativa político-legislativa para além do que havia dito.

A verdade é que eu só fui analisar o conteúdo das “Dez Medidas” depois de saber que havia esta denúncia, mas sem conhecer ainda o seu conteúdo. Até por precaução fui ler todo o conteúdo do projeto antes de ler a crítica.

O artigo escrito por Menezes e Amoedo explora mais a fundo o componente político do projeto, fazendo a conexão da estratégia do Foro de São Paulo com o provável aparelhamento do Ministério Público.

Ontem por acaso eu estava revendo, durante a viagem de meu retorno ao Brasil, o filme The Dark Knight Rises, do qual eu gosto bastante. O filme lembra a mentira que Batman e Gordon combinaram para salvar a imagem pública de Harvey Dent e com isso legitimar o uso do Harvey Dent Act, que nada mais é que um dispositivo legal de prisão preventiva que foi usado largamente em Gotham City para combater o crime organizado. Lembrei-me da aclamação em torno da Lava-Jato. Seria o Sergio Moro o nosso Duas Caras? Por um lado, um herói nacional, por outro lado colaboracionista numa trama política de arrepiar os cabelos?

Vai saber.

O artigo não prova que o MP é aparelhado, mas dá fortes indícios neste sentido, indícios aliás facilmente coletados nas descaradas propostas das “Dez Medidas”, como já tivemos oportunidade de ver aqui. Embora não haja prova definitiva, a circunstancialidade é enorme. Dizem os autores: “seria sandice acreditar que o projeto de poder em questão, depois de ter executado um trabalho tão profundo e vasto de aparelhamento e apropriação da máquina estatal, além de uma pesada lavagem cerebral ideológica promovida através do Ministério da Educação com conivência e com colaboração de todos os órgãos de comunicação de grande alcance, tenha deixado passar incólume o Ministério Público”. De fato, seria uma sandice. E à luz dos graves abusos sugeridos na proposta das “Dez Medidas”, seria no mínimo imprudente continuar apostando na imparcialidade política, ou na inutilidade estratégica, dentro do que o MP sugere como ferramentas boas de combate a corrupção no país.

Os autores na verdade mencionam alguns agravantes a tudo aquilo que eu havia observado.

Com relação a Medida 5, eles notam que “no modelo proposto pelo MP, sem a etapa da defesa prévia, uma vez apresentada uma acusação, o acusado será automaticamente transformado em réu”. Eu não tinha me atentado a isso, embora seja uma coisa óbvia e perigosa, relevando-se especialmente o procedimento de “assassinato de reputações” denunciado pelo Romeu Tuma Jr. Neste ponto fui ludibriado pelo texto da proposta e endossei esse ponto, infelizmente. Retiro agora, em tempo.

Na Medida 8 os autores observaram, mais uma vez abrilhantando a discussão com seu conhecimento técnico, que com relação a punição aos partidos, a proposta incorre no problema de “estipular penalidade inferior a atual para partidos que se financiam com dinheiro sujo vez que a punição atual é a extinção (Lei 9096/95, Art. 28), que seria substituída por uma mera multa”. Isto é grave, pois no mínimo aumenta a insegurança jurídica numa questão importante, e tem o potencial mesmo de aumentar diretamente a impunidade que alega combater.

Em determinado momento os autores mencionam algo interessante, que em retrospectiva eu me lembro de ter escrito a respeito das prisões dos empreiteiros, no contexto da Operação Lava-Jato: “essa operação fortaleceu em grande medida o projeto de poder do Foro de São Paulo, ao enfraquecer a ‘burguesia interna’ –reduzindo a chance de empresários financiarem dissidentes e aumentando a presença do Estado (e dos apadrinhados do Foro de São Paulo) no controle da economia”. Normalmente eu diria que isto é um exagero. Mais: como entusiasta da Operação Lava-Jato que sempre fui (com direito a selfie, uma coisa muito rara para mim, tirada bem na frente da Justiça Federal do Paraná), eu diria que é pura teoria da conspiração e paranóia. Infelizmente nós temos que ceder às evidências. Não só eu me lembro de ter tocado no assunto da prisão dos empreiteiros como uma situação no mínimo oportuna para os revolucionários, como hoje, à luz da horripilante proibição do financiamento privado de campanhas que ocorreu na esteira da ojeriza pública contra a corrupção, posso dizer que se a Lava-Jato terminar somente prendendo Lula e Dilma, nomes descartáveis dentro da estrutura revolucionária, terá sido contraproducente ao fim: a proibição do financiamento privado de campanhas é algo muito mais grave do que a eventual impunidade dessas buchas-de-canhão simbólicas que são no fundo praticamente irrelevantes politicamente, e totalmente substituíveis. Isto é muito grave. E vale a pena dizer, a bem da verdade e da justiça, que o senhor Reinaldo Azevedo, por quem não tenho quase que nenhuma estima a esta altura do campeonato, alertou sobre essas coisas, enquanto era acusado de ser advogado de empreiteiros.

Enfim, este texto corrobora e amplia a minha interpretação das “Dez Medidas”. É necessário aprofundar o entendimento de duas importantes linhas de reflexão abertas pelo texto.

Primeiro, a Lava-Jato em particular e o MP em geral estão tão aparelhados quanto as demais instituições? O objetivo da Operação é estrangular qualquer possibilidade de oposição econômica efetiva ao sistema de poder vigente? Lembrando que, para a interpretação do artigo, isso não equivale ao petismo, mas a um sistema maior no qual se pode encaixar praticamente todos os partidos políticos brasileiros, entre os quais, e especialmente, o PSDB e até mesmo o PMDB.

Segundo, a maioria dos integrantes do STF é ilegitimamente usurpadora de seus cargos? Se essas autoridades foram confirmadas por um Congresso comprovadamente comprado pelo PT, essas figuras deveriam, portanto, sofrer impedimento?

De minha parte, ao primeiro ponto, respondo que eu acredito num aparelhamento ao estilo useful idiots, já que o malicioso duplipensar revolucionário já conseguiu entortar cabeças de pessoas muito bem intencionadas, ao menos aparentemente. Não tinha gente querendo votar em Marina Silva contra Dilma Rousseff? Porque o MP não pode ser, no fim, usado com a mesma idiotice típica com que são usados os diversos corporativismos contaminados pelas tentações revolucionárias?

Ao segundo ponto já respondi no passado: somente o impedimento de ao menos um ministro do STF poderia realmente ser interpretado como sinal de um mínimo de saúde das instituições brasileiras. Enquanto isso não acontecer, isso tudo é apenas uma espécie de piada macabra.

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Finalizei a leitura das famosas 28 pages do relatório do Congresso Americano a respeito dos ataques de 11 de Setembro de 2001.

Na verdade, pela minha conta do que foi liberado, são 29 páginas ao todo, e não 28. Mas tudo bem.

Vou transcrever todas as partes que considerei relevantes na minha leitura, e fazer as breves considerações que puder a respeito. Farei isso amanhã, porque a minha bateria de hoje já está no fim.

O que posso comentar por enquanto como preâmbulo é a carta de quatro páginas de 29 de Janeiro de 2003, enviada pelo Congresso (assinada por Bob Graham, Porter Goss, Richard Shelby e Nancy Pelosi) ao então diretor da CIA, George Tenet.

Não há nada de muito importante ali. É notável, apenas, o quanto se discute a integração da chamada “Intelligence Community”, mostrando mais uma vez o quanto uma República democrática pode ser ineficiente na defesa dos seus interesses mais básicos, mesmo que essa República seja a dos poderosos EUA. Monarquias ganham e também, é claro, as ditaduras modernas. Compare o que foi historicamente uma NKVD, ou uma SD/SS, com CIA, NSA ou FBI, e esses parecerão crianças inofensivas perto daqueles. Quem quiser ter uma idéia do que é a perdição da defesa nacional de um país por questões de gigantismo burocrático pode assistir ao filme Die Hard 4. No filme o policial John McClane (o qual eu considero ser na verdade um espião, no meu sistema classificatório particular) resolve sozinho um problema que todos os órgãos de segurança dos EUA combinados não conseguiram chegar nem perto de entender. É ficção, eu sei, mas… se non è vero, è ben trovato.

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30/08/2016

Repito a tese já afirmada: o brasileiro, não conseguindo nem ser bom latino de origem nem bom nortista de imitação, acaba sendo o pior nos dois aspectos.

O brasileiro não consegue viver a vida e nem ganha-la.

Resta-lhe sofrer por não aproveitar-se dos bens que tem, e por não possuir aqueles outros bens que jamais conseguirá ter.

Os simples não conseguirão deleitar-se na sua dignidade e invejarão os ambiciosos, enquanto estes se destruirão uns aos outros como membros de uma tribo de canibais insaciáveis.

E todos esses farão festa (!) pela sua suposta esperteza e felicidade, enquanto odeiam-se e matam-se uns aos outros sem clemência.

Sobretudo o brasileiro é, assim, um povo fingido.

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Entre os alunos de alguém do porte de Olavo existem basicamente dois tipos: os que diante da aparente insatisfação perpétua do mestre frustram-se e rebelam-se, e os que se jubilam. Estes reconhecem que seu orientador move-se em busca de um bem infinito cuja perfeição jamais será alcançada, enquanto aqueles lamentam por não poder jamais completar um domínio pelo qual possam ser reconhecidos e exaltados.

Entre o que busca a sabedoria por amá-la e o que finge busca-la apenas por desejo de dominar outras pessoas, há a distância incalculável de um universo inteiro.

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Tolos são todos os que querem ganhar por si o que só a humildade pode lhes dar. Teimosos, buscam o inferno mesmo que não o saibam, pois imitam a desobediência ancestral do primeiro rebelde da história. Podem dizer, a esta altura, que não foram suficientemente avisados? 

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Vejamos os trechos que destaquei das 28 pages do relatório do Congresso Americano sobre os ataques de 11 de Setembro, com breves comentários.

Página 415: “While in the United States, some of the September 11 hijackers were in contact with, and received support or assistance from, individuals who may be connected to the Saudi Government. There is information, primarily from FBI sources, that at least two of those individuals were alleged by some to be Saudi intelligence officers”…”In their testemony, neither CIA nor FBI witnesses were able to identify definetively the extent of Saudi support for terrorist activity globaly or within the United States and the extent to which such support, if it exists, is knowing or inadvertent in nature”…”In the view of the Joint Inquiry, this gap in US intelligence coverage is unacceptable, given the magnitude and immediacy of the potential risk to US national security. The Intelligence Community needs to address this area of conern as aggressively and as quickly as possible”…”Prior to September 11th., the FBI apparently did not focus investigative resources on [CENSURADO] Saudi nationals in the United States due to Saudi Arabia’s status as an American ‘ally.” Farei comentários breves, apenas introdutórios ao assunto, para que nos familiarizemos com o tema. De cara nós temos aí um documento do Congresso Americano, do ano de 2002, concluindo que é inaceitável essa lacuna no serviço de inteligência americano a respeito das relações entre a Arábia Saudita e os ataques terroristas de 11/9. Devo dizer, de minha parte, que as evidências estão longe de ser meramente elusivas, embora certamente não sejam conclusivas. Quando o documento afirma que não pode provar isto ou aquilo, tenham em vista que nós estamos lidando com uma informação oficial, do tipo que pode servir de base para se declarar guerra a um país, por exemplo. Entende-se a precaução, mas fica o sentimento  de urgência a respeito e a frustração com relação a falta de material passado de base. Complementarmente, diz-se que a falta de monitoramento da potencial ameaça saudita se deu em razão da consideração dos sauditas como “aliados” dos americanos. Eis algo que poderia ser revisto. É, por sinal, uma das pautas do candidato Donald Trump.

Página 422: “When alHazmi and al-Mihdhar moved to San Diego, al-Bayoumi provided them with considerable assistance. Before the hijackers moved in with the long-time FBI informant, they stayed at al-Bayoumi’s apartment for several days until al-Bayoumi was able to find them an apartment. Al-Bayoumi then co-signed their lease and may have paid their first month’s rent and security deposit. After al-Hazmi and al-Mihdhar moved into their own apartment, al-Bayoumi threw a party to welcome them to the San Diego community. He also tasked Modhar Abdullah, another individual from the Islamic Center of San Diego (ICSD), to help them get acclimated to the United States. Abdullah served as their translator, helped them get drivers licences, and assisted them in locating flight schools”. Começam as evidências mais sérias, já que al-Bayoumi, como se verá mais adiante, possui relações relevantes com a Arábia Saudita. Pode-se imaginar que aqueles que acolheram os terroristas no território americano, que lhes deram dinheiro e meios de sobreviver e, ainda não bastasse tudo isso, lhes dessem até mesmo as indicações de onde obter aulas de aviação, não teriam absolutamente nada a ver com os ataques terroristas? Nós teríamos que ser muito ingênuos. Não acredito que os americanos sejam exatamente ingênuos, mas certamente são muito precavidos quanto as enlações, até porque, como já disse, essas coisas têm consequência política. Imagine a revelação dessas coisas logo após a redação do relatório? Nós estamos com uma folgada distância de quase quinze anos. Podemos até dizer que a idéia de se estudar uma “história contemporânea” é sempre literalmente falsa, pois o tempo mínimo para que uma documentação realmente substancial apareça é de uns cinco anos, e as coisas começam a ficar mais claras mesmo a partir de uns vinte ou trinta anos. É necessário, no mínimo, que a geração de atores principais dos episódios passados tenham morrido e, com eles, seus interesses por sigilo, segredo, etc.

Página 424: “The FBI had received reporting from a reliable source well prior to September 11, 2001 indicating that alBayoumi might be a Saudi intelligence officer. Al-Bayoumi was known to have access to large amounts of money from Saudi Arabia, despite the fact that he did not appear to hold a job. Ono ne occasion prior to September 11, the FBI received information that al-Bayoumi had received $400,000 from Saudi Arabia to help fund a new mosque in San Diego. The FBI conducted a conterterrorism investigation on al-Bayoumi in 1998 and 1999, but closed the investigation at that point”. Eu indagaria: porque encerraram a investigação? Aqui temos, de qualquer modo, a técnica mais velha e básica de investigação do crime organizado: siga o dinheiro (“follow the money”). E financiamento de terrorismo não é outra coisa senão crime organizado.

Página 427: “The FBI is aware of contact between the hijackers and a close friend of Bassnan’s, Khaled alKayed, a commercial airline pilot and certified flight instructor living in San Diego. Al-Kayed admitted to FBI that in May 2000, al-Mihdhar and al-Hazmi contacted him about learning to fly Boeing jet aircrafts”. Mais uma ligação relevante. Bassnan é um apoiador fervoroso da causa terrorista. Nas páginas revela-se que recebeu ao menos um pagamento direto de $15,000 do Príncipe Bandar, da Arábia Saudita.

Página 428: “In the October 9, 2002 hearing FBI Executive Director D’Amuro commented: I believe that we do have money going from Bandar’s wife [Princess Haifa], $2,000 a month up to about $64,000. What the money was for we don’t know. [CENSURADO] testified: [CENSURADO] She gives money to a lot of different groups and people from around the world. We’ve been able to uncover a number of thesebut maybe if we can discover that she gives to 20 different radical groups, well, gee, maybe there’s a pattern here”…”Bassnan has made many laudatory remarks to FBI assets about Bin Ladin, referring to Bin Ladin as the official Khalifate and the ruler of the Islamic world. According to na FBI asset, Bassnan spoke of Bin Ladin ‘as if he were a god’. Bassnan also stated to na FBI asset that he heard that the US Government had stopped approving visas for foreign students. He considered such measures to be insufficient as there are already enough Muslims in the United States to destroy the US and make it an Islamic state within ten to fifteen years. According to FBI documents, Bassnan also knew Bin Ladin’s family in Saudi Arabia and speaks on his mobile telephone with members of the family who are living in the United States”. Quanto a glorificação de Bassnan a respeito de Bin Laden, nós não precisamos falar nada, mas notem que a figura do líder terrorista encaixa-se bem no perfil do que hoje nós vemos o EI promover como trato reverencial a respeito de seus chefes. A Al-Qaeda e o Isis não são tão diferentes, afinal. Sobre a alegação de que já haveria muçulmanos suficientes nos EUA para “destruir o país” por dentro, seria necessário saber o que a mente insana de um cidadão desses entende por “destruir“, e mesmo o que ele entende por muçulmano. Esse tipo de informação apenas agrava o risco de confusões e de paranóia, o que já virou um esporte nacional nos EUA. E o pior, para o povo americano, é o risco de ver surgir, como resposta a esses riscos, medidas legais que restrinjam realmente a liberdade do povo americano, especialmente os direitos vinculados à 2ª Emenda.

Página 430: “The US Government also located another Virginia number at an Usama Bin Ladin safehouse in Pakistan. The number is subscribed to by an individual named [CENSURADO] was interviewed by the FBI in June 2002. He could not explain why his number ended up at a safehouse in Pakistan, but stated that he regularly provides services to a couple who are personal assistants to Prince Bandar. This couple’s driver is na individual named [CENSURADO], who is assigned to the Saudi Embassy in Washington DC. According to [CENSURADO] regularly called [CENSURADO] business and frequently travels back and forth to Pakistan”. Mais uma ligação inequívoca: um número de telefone encontrado num esconderijo de Bin Laden no Paquistão leva a alguém que presta serviços a assistentes pessoais do Príncipe Bandar, da Arábia Saudita.

Páginas 430/431: “Several individuals on the East Cost whom the hijackers may have met may also had connections to the Saudi Government. After the terrorists attacks, the FBI discovered that, during September 2001, and individual named Saleh alHussayen stayed at the same hotel in Herndon, Virginia where al-Hazmi was staying at the time. According to FBI documents al-Hussayen is apparently a ‘Saudi Interior Ministry employee/official’. He claimed not to know the hijackers, but agentes in the FBI’s Washington Field Office believed he was being deceptive. The interview was terminated when al-Hussayen either passed out or feigned a seizure requiring medical treatment. He was released from the hospital several days later and managed to depart the United States despite law enforcement efforts to locate and re-interview him”…”Saleh al-Hussayen is the uncle of Sami Omar al-Hussayen. Sami al-Hussayen is connected to the Islamic Assembly of North America (IANA) and is the subject of an FBI conterterrorism investigation”…”According to the FBI, the IANA’s mission is actually to spread Islamic fundamentalism and Salafist doctrine throughout the United States and the world at large. The IANA solicits funds from wealthy Saudi benefactors, extremists Islamic Shaykhs, and suspect non-governmental organizations”…”FBI documents also indicate that several Saudi Naval officers were in contact with the September 11 hikackers. FBI documents state that the San Diego Field Office opened a conterterrorism investigation on an individual named Osama Nooh, a Saudi Naval officer, due to his association with Nawaf al-Hazmi and Khalid al-Mihdhar”. Começam a pulular as conexões. É notável que pela primeira vez o relatório fala da promoção da “doutrina salafista”, algo que os muçulmanos sunitas afirmam veementemente ser um abrigo para os movimentos radicais realmente terroristas. Nós veremos, mais adiante, que a Arábia Saudita (ou pessoas, ou grupos podersosos sauditas) não só fornece apoio a pessoas que por sua vez protegem, abrigam e sustentam terroristas, mas na verdade sustenta redes de financiamento de organizações que promovem a doutrinação terrorista ou filoterrorista.

Página 432: “The FBI ha salso discovered some more tenuous connections between Saudi Government personnel and the hijackers during the course of the PENTIBOM investigation. For exemple, according to the FBI, an individual named Fahad Abdullah Saleh Bakala was close friends with September 11 hijackers Ahmed alGhamdi and Hamza al-Ghamdi. Bakala previouslyworked as a pilot for the Saudi Royal family, flying Usama Bin Ladin between Afghanistan and Saudi Arabia during UBL’s exile’. In addition, an FBI source stated after September 11 that he/she was 50% sure that al-Mihdhar was a visitor at an apartment in McLean, Virginia that was occupied in July and August 2001 by Hamad Alotaibi of the Saudi Embassy Military Division. FBI documents also note that September 11 hijacker Saeed Alghamdi may have also visited the address”. Outra ligação relevante. Bakala foi piloto a serviço da família real saudita, e trabalhou inclusive levando e trazendo Osama Bin Laden durante o exílio no território afegão. O mesmo Bakala era próximo aos terroristas.

Página 435: “According to the former FBI agent in San Diego who was involved in this investigation, this scheme may allow the Saudi Government to provide al-Qa’ida with funding through covert or indirect means. In his October 9, 2002 testimony the former agent commented on the possible money laundering: My guess Saudi-it’s connected somehow with the Saudis. And knowing that probably 70-80 percent of the population of Saudi Arabia support Usama Bin Ladin, it might be na indication.”…”There are also indications of Saudi governmental support for terrorists activity through charitable organizations. The Saudi-based Umm al-Qura Islamic Charitable Foundation (UQ) is an Islamic non-governmental organization linked to terrorist support activities. According to a May 2002 Defense Intelligence Terrorism Summary, the UQ’s activities in support of terrorism include: suspicious money transfers, document forgery, providing jobs to wanted terrorist suspects, and financing travel for youths to attend jihad training. The Defense communication notes that since September 2001, UQ couriers have transported over $330,000 in cash, most of which they received from Saudi Embassies in the Far East. In January 2002, UQ administrator Yassir El-Sayid Mohammed traveled to Thailand to pick-up approximately $200,000 from the Saudi Embassy in Bangkok. In early November 2001, the personal assistant to the UQ administrator traveled to Kuala Lumpur for a meeting at the Saudi Arabian Embassy. He returned with tens of thousands of dollars, according to the Department of Defense”. Da mesma forma que nós rastreamos a fétida influência dos globalistas em assuntos locais observando de onde vem o dinheiro que inunda ONGs favoráveis a coisas como aborto, casamento gay, liberação de drogas, etc., e frequentemente conseguimos de fato detectar o fluxo de dinheiro através dessas fundações filantrópicas, é no mínimo prudente os serviços de inteligência americanos e de todo o mundo verificarem como é que funciona a distribuição de dinheiro saudita para ONGs pelo mundo todo, e o que é que essas organizações efetivamente fazem com os fundos que recebem.

Página 436: “The Treasury General Counsel testified about his agency concern about the foundation [HIF, al-Haramain Islamic Foundation]. Mr. AUFHAUSER: Second, and this is importante point, it also rises out of Rick’s testimony, on al-Haramain, the two branch officers that we took a public and joint action against, al-Haramain really does represent a significant issue for the PCC and for terrorists financing and for the United States policy. It is, or course, the largest, I think, the largest Islamic charity in the world. Its name is synonymous with charity in the Islamic world. Its direct overseers are members of the Royal Family. We don’t have a great deal of intelligence on the headquarters, about whether they are knowingly assisting people in al-Qa’ida and others; but in significant branch officers yet to be designated and under current investigation, we have ample evidence that large cash amounts are being couriered to those branch offices, the largest wire transfers are of money are being sent to those offices, that a great deal of the money is being dissipated through misspending, unaccounted for, and finally, that those offices have significant contact with extremists, Islamic extremists”. Vocês vêem como as coisas vão ficando mais claras aos poucos. Por um lado, na origem, você tem no controle dessa organização global de caridade (Al-Haraiman) nas mãos da família real saudita, e por outro lado no destino você encontra dinheiro sendo mal gasto ou não contabilizado pelas mesmas unidades que possuem contatos com extremistas islâmicos.

Páginas 437/438: “In testimony and interviews, a number of FBI agents and CIA officers complained to the Joint Inquiry about lack of Saudi cooperation in terrorism investigations both before and after the September 11 attacks. For example, a veteran New York FBI agent stated that, from his point of view, the Saudis have been useless and obstructionist for years. In this agent’s opinion, the Saudis will only act when it is in their self-interest”…”When a high-level [CENSURADO] officer was asked how the September 11 attacks might have been prevented, he cited greater Saudi cooperation, pointing to an exemple from the summer of 2001, when the US Government requested Saudi assistance, with no success”. O mais notável dessa negligência ou omissão saudita para ajudar os americanos a combater o terrorismo, é particularmente a avaliação de que com a devida cooperação saudita os ataques de 11/9 poderiam ter sido evitados. Eu não sabia disso. Poderia ter especulado a respeito, mas é diferente ler que uma autoridade de alto nível de algum serviço americano tenha dito que isso poderia ter feito a diferença. Essa informação é tão importante que não foi negligenciada do relatório do Congresso.

Página 438: “According to the former Chief of Alec Station, the unit in the DCI’s Counterterrorist Center established in 1996 to focus specifically on Usama Bin Ladin, it was clear from about 1996 that the Saudi Government would not cooperate with the United States on matters relating to Usama Bin Ladin. There is a May 1996 memo from the DCI’s Counterterrorist Center [CENSURADO] stating that the Saudis had stopped providing background information or other assistance on Bin Ladin because Bin Ladin had ‘too much information about official Saudi dealings with Islamic extremists in the 1980s for Riyadh to deliver him into US hands’. In a June 1997 memo to the DCI Alec Station reemphasized the lack of Saudi cooperation and stated that there was little prospect of future cooperation regarding Bin Ladin. The former Chief of Alec Station throught that the US Government’s hope of eventually obtaining Saudi cooperation was unrealistic because Saudi assistance to the US Government on this matter was contrary to Saudi national interests”. Vocês vejam que entre 1996 e 1997 já havia informação atestando que Bin Laden era assunto perigoso para os sauditas, que ele poderia revelar podres homéricos aos americanos se fosse entregue (e, evidentemente, também se fosse capturado), e que de algum modo o sucesso dos EUA na sua operação contra Bin Laden era um assunto contrário aos interesses nacionais sauditas. Infelizmente é necessário um ataque terrorista de proporções monumentais para fazer ver o quanto esses interesses são contraditórios (os dos EUA e os da Arábia Saudita), ou pior ainda, nem isso, de vez que estamos em pleno ano de 2016 e o máximo que temos é um candidato falando em possível rompimento da aliança com os sauditas, ou ao menos uma revisão dos termos da relação. É óbvio que precisamos estudar urgentemente quais são as forças políticas norte-americanas que sustentaram por tantos anos o apoio à Arábia Saudita no Oriente Médio, e isto fatalmente nos levará ao acordo Sykes-Picot feito ao final da Primeira Guerra. Este é o caminho do estudo, mas não posso prometer grandes evoluções por enquanto.

Página 439: “The former chief of Alec Station also cited the example of Mohammed Jamal Khalifa. Khalifa is Bin Ladin’s brotherin-law and an important figure in alQa’ida. The US Government arrested Khalifa in the United States in 1994. Khalifa had been sentenced to death in absentia by the Jordanian Government for his role in a bombing in Jordan. As a result, the US agreed to extradite him to Jordan. The Jordanians then returned him to Saudi Arabia. In the opinion of the CIA officer, the Saudis ‘bought off’ the Jordanians for the return of Khalifa. According to the CIA officer, when Khalifa subsequently arrived in Saudi Arabia, he was met by at least one important government official. Khalifa now Works for a Riyadh-based NGO and travels and operates freely”. Eu não me precipitaria em tomar esses fatos como evidência apenas das más intenções sauditas. Mesmo a condenação de Mohammed Jamal Khalifa à morte pelos jordanianos não atesta tão claramente o seu real interesse na sua punição, uma vez que o que faria isso seria a própria execução da pena enquanto o criminoso estava em sua custódia. Os sauditas podem ter enganado ou pressionado os jordanianos, mas não nos esqueçamos da verdadeira ordem dos fatos: foi a extradição à Jordânia em primeiro lugar que tirou Khalifa, cunhado de Bin Laden e membro importante da Al-Qaeda, das mãos dos americanos, e não a atuação dos sauditas. É apenas um lembrete.

Página 440: “Both the FBI and the CIA have informed the Commitees that they are treating the Saudi issue seriously. According to the November 18, 2002 FBI response, the FBI and CIA have established a working group to look into the Saudi issue. The FBI formed a squad at the Washington Field Office [CENSURADO] to investigate this issue and [LONGO TRECHO DE MEIA PÁGINA CENSURADO]”. Este é de longe o mais extenso trecho que restou censurado no relatório (razão única pela qual o citei), o que nos leva a crer, pelo contexto, que as medidas de investigação tomadas a partir do que foi informado neste documento ainda estão em andamento de alguma forma. Só podemos torcer para que isso renda bons frutos, muito embora não possamos fazer a menor idéia de quanto tempo é preciso levar para tomarmos conhecimento.

Página 442: “[CENSURADO] stated: What we find troubling about the cases that we learned from FBI, both the Los Angeles cases and some of the cases that the Washington Field Office has looked at, in which you’re seeing Saudi money going to people, is that it fits sort of a pattern that we’ve seen in terms of direct payments from the Saudis, the Saudi Government’s longstanding support for very fundamentalist Wahabi and Salafi charities and movements around the world, which in a sense you see the money is going to fundamentalists and you would be very surprised if some of it doesn’t bleed over into terrorists supportWe’ve had a lot of suspicious before September 11 which we documented in a number of different papers, and again it’s a lot of smoke and this issues that come up are who knows about the payments, on whose behalf are the payments being made, are they being made on behalf of the central government or are they being made by a local official or a person. Do the people who are making the payments know what’s happening to the money? If they do know what’s happening, why are they making the payments? Is it a form of blackmail? Do they recognize the terrorist support? There’s the issue of are they regulating themselves as well are they doing the due dilligence that they ought to”…”FBI Executive Assistant Director Pasquale D’Amuro testified at the same hearing: To date I can’t sit here and tell you that those ties go back, that we can prove that the Saudi Royal Family is sponsoring terrorism. But there’s enough smoke that we are conducting several investigations to try to determine what other information is out there”. Eis que o relatório esbarra no desconhecido e nós não conseguimos seguir adiante. Repito o que disse: a depender do que ouço falar de muçulmanos sunitas tradicionais, o wahabismo e o salafismo financiado pela Arábia Saudita são as causas material, eficiente, formal e final do terrorismo e do radicalismo islâmico em geral. Se eu que sou um zé mané da esquina recebi esta informação, que não sabem os investigadores do assunto cujo conhecimento dessas coisas é o seu próprio trabalho? Porque, então, as conclusões não são tiradas, se as pistas estão aí? Mais do que pistas, nós temos a história que remonta não só ao Sykes-Picot, mas à influência revolucionária comunista na criação desses grupos radicais no mundo islâmico. O problema, se persiste, é provavelmente devido a dois motivos fundamentais: primeiro, há sempre o risco evidente de uma facção ou grupo de interesses querer usar tais ou quais evidências (que não são provas cabais e definitivas) para causar a derrocada de seus adversários, e por isto a justiça humana é necessariamente lenta e, constantemente, insuficiente e intempestiva; segundo, na hipótese de já haver um arquicomprovado comprometimento saudita com o terrorismo num nível global, há a provável interferência de forças políticas ocidentais interessadas na manutenção da família Saud no poder. Estes interesses, por sua vez, podem ou não remontar aos interesses que traíram (alegadamente, pois preciso ainda estudar de fato a história) a monarquia Hachemita quando do acordo para terrotar os Turco-Otomanos na Primeira Guerra. Com isso não nos é permitido tirar conclusões e encerrar o assunto, e tampouco podemos abandonar o tema devido a sua opacidade ou complexidade. A busca da verdade simplesmente continua…

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31/08/2016

Como insinuações indiretas me cansam… nunca encontrei uma pessoa mais inteligente do que eu que usasse desse tipo de linguagem para comunicar alguma coisa. Logo já vou concluindo que quem vem com indiretas só o faz por uma incapacidade pura e simples de dizer o que pensa de forma clara, ou porque não pensa nada que tenha a estabilidade conceptual mínima necessária para ganhar expressão, ou porque é algo simplesmente irrelevante que não merece uma indicação direta. Conclusão prática: basta alguém vir com indiretas que eu prudentemente já vou tomando uma distância segura para não me contaminar…

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Olavo tem razão quando diz que a família de certa forma constitui uma fortaleza emocional: se você tem o amor de sua esposa/esposo e dos filhos, não precisa mendigar atenção, apoio e simpatia de mais ninguém na face da terra. Você pode literalmente mandar todo o resto do mundo pastar.

Se você não tem esposa e filhos, bem, daí repousa apenas na sua relação com Deus a oportunidade de obtenção de uma maioridade emocional verdadeira. O que pode ser mais fácil ou mais difícil, a depender do caso.

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O documento intitulado Sykes-Picot Agreement é curto e certamente só pode ser compreendido dentro de um contexto prévio que o completa. O documento refere-se a duas correspondências de Sir Edward Grey (pelo Reino Unido) para Paul Cambon (pela França), uma breve de 15 de Maio de 1916 e a outra, mais extensa, do dia seguinte, 16 de Maio de 1916.

Fora as duas importantes áreas da nação árabe que são destinadas aos respectivos controles dos ingleses (vermelho) e dos franceses (azul), o que já constituiria teoricamente por si um abuso da promessa feita ao Rei Hussein ou ao Príncipe Faisal, note-se o conteúdo dos itens 11 e 12 do documento: “The negotiations with the Arabs as to the boudaries of the Arab State or Confederation of Arab States shall be continued through the same channel as heretofore on behalf of the two Powers” e “It is agreed that measures to control the importation of arms into the Arab territories will be considered by the two Governments”. O número 11 explicita claramente que as fronteiras territoriais da nação (ou das nações) árabe continuará sendo objeto de discussão e negociação entre os dois “Poderes”, ou seja, entre o Reino Unido e a França. Não há, aí, nenhuma previsão de autonomia árabe. Se a própria extensão territorial de uma nação não é determinada pelo envolvimento de suas próprias lideranças, mas exclusivamente por autoridades estrangeiras, a própria noção de soberania é desfeita. Foi como se, junto com os turcos, também os árabes tivessem perdido a guerra e tivessem que se submeter aos desígnios dos aliados. O número 12, por sua vez, arremata a questão: se existir algum tipo de importação de armamento para os territórios árabes, esta terá que ser discutida, controlada e arbitrada também pelas duas potências. Não é preciso explicar, assim espero, como isso termina de sepultar a mínima possibilidade de uma independência árabe. Se uma nação não consegue fabricar armas modernas e nem importar armas de fora sem o controle de nações estrangeiras, ela simplesmente não tem os meios de se autodeterminar pela força, o que é a prerrogativa número um da soberania de qualquer Estado.

Confesso que tenho muito o que estudar ainda sobre o assunto, não só daí para diante, das negociações de 1916 até o fim efetivo da guerra, mas até principalmente daí para trás, para as promessas que os europeus fizeram aos árabes por ocasião de sua aliança contra os turcos. Não posso ficar apenas com a elusiva indicação de um filme como Lawrence of Arabia, ou com duas ou três conversas com pessoas mais entendidas do que eu. Temos que estudar…

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Ciro Gomes disse que Jair Bolsonaro é “parceiro” de Eduardo Cunha, e que se Bolsonaro não ficar “quietinho” num debate, se partir “para cima”, Ciro vai “arrancar a máscara” dele.

Eu gostaria que Ciro Gomes não fosse covarde de ocultar o que sabe de Jair Bolsonaro, e esclarecesse a nação a respeito, e ao mesmo tempo espero que Bolsonaro também não seja covarde e, se for honesto e íntegro como dele espera o seu eleitorado potencial, responda a essa grave acusação de Ciro Gomes.

Ciro Gomes uma hora terá que provar uma dessas coisas: ou que ele é o paladino do bem e da justiça encarnado no Brasil, ou que é um fanfarrão metido a besta, assassino de reputações, murmurador abjeto e insidioso.

Sua figura já é por si suspeita: como pode alguém conhecer tão bem os podres de toda Brasília e não fazer o favor ao país de expor essa bandalheira toda, o que seria o mínimo a se esperar que alguém que se vende como íntegro e corajoso como ele faz constantemente?

Eu não comparia um carro usado de Ciro Gomes.

Quem se presta a ser ministro de Lula invariavelmente não presta para mais nada.

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Por 61 votos a 20 o Senado Federal confirmou o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República. Vamos dar uma olhadinha nos nomes dos vinte pilantras?

Metade disso é de votos petistas. Um voto é do PCdoB, da mulher com nariz de bruxa chamada Vanessa Grazziotin, membra fiel da “bancada da chupeta”. Dois votos vieram do PTB, e eu me pergunto o que o Roberto Jefferson pensa de uma coisa dessas. Dois votos vieram do PSB, aliado comunista de costume. Dois votos vieram do PMDB: Kátia Abreu e Roberto Requião. O que eles ainda estão fazendo no PMDB? Dois votos “perdidos” vieram de partidos teoricamente alinhados com Temer, um do PP e outro do PSD. Por fim, um voto veio da Rede de Marina Silva (voto de Randolfe Rodrigues), mostrando claramente como é que se alinha a sua política “sonhática”, que está mais para errática e psicótica.

Isso não quer dizer que dos 61 votantes a favor do impedimento de Dilma todos sejam bonzinhos defensores da democracia e bons patriotas. São quase que tão imprestáveis quanto os 20 dilmistas. Apenas conseguiram, neste capítulo, ficar “do lado certo” do barco da história.

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Acaba hoje o mês de Agosto. Termina mais amargo e pesado do que Julho, que foi mais doce e leve. As pessoas têm que dar uma mijada na nossa sopa, não tem jeito. Mas não tem problema, não. Doce mesmo é o Paraíso. Até lá nós vamos caminhando nessa vida como dá. 

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Não tenho vergonha nenhuma de admitir a leitura da Wikipedia na falta de recursos mais ricos para o momento a respeito de determinado assunto. Vergonha eu sentiria de fazer efetivamente uma consulta dessas e fingir um conhecimento de fontes mais confiáveis.

Sobre o Sykes-Picot, o que o verbete da enciclopédia afirma é que este acordo em si até resguardava as garantias dadas ao Rei Hussein pelos ingleses durante a Primeira Guerra, mesmo com as limitações que indiquei. O problema veio depois: “The conflicts with Hussein-McMahon stemmed from the private post-war Anglo-French settlement of 1-4 December 1918, negotiated between British Prime Minister Lloyd George and French Prime Minister Georges Clemenceau, which rendered many of the guarantees in the Hussein-McMahon agreement invalid. The Anglo-French settlement was not parto f the Sykes-Picot Agreement.” De fato, as chamadas áreas “A” e “B” do acordo foram posteriormente violadas por novos entendimentos, terminando definitivamente com a possibilidade de uma autonomia árabe.

E vai ficando pior quando entra o elemento sionista na discussão, inserido por um novo capítulo inaugurado no ano de 1917: “The greatest source of conflict was the 1917 Balfour Declaration, a letter from the British Foreign Secretary Arthur Balfour to Walter Rothschild, 2nd. Baron of Rothschild, a leader of the British Jewish community, stating that: ‘His Majesty’s government view with favour the establishment in Palestine of a national home for the Jewish people, and will use their best endeavours to facilitate the achievement of this object”. Imaginem a repercussão da publicação disso, faltando pouco para o fim da guerra. Os árabes ajudam na guerra contra os turcos e antes mesmo do último tiro ser disparado o chanceler inglês escreve uma carta a um Rothschild dizendo que o governo acha linda a idéia de estabelecer um lar para o povo judeu na Palestina. Fica pior, vejam o que diz ainda Arthur Balfour: “The four Great Powers are commited to Zionism. And Zionism, be it right or wrong, good or bad, is rooted in age-long traditions, in present needs, in future hopes, of far profounder import than the desires and prejudices of the 700,000 Arabs who now inhabit that ancient land”. Vê-se claramente, assim, o tipo de posicionamento que desperta os ódios de todos os lados, e também, portanto, as raízes do que será o radicalismo não só árabe-islâmico (já veremos isso), mas até ocidental, europeu e norte-americano, contra conspirações judaico-sionistas, etc.

Mais tarde Lloyd George tenta fazer o que, na minha opinião, depois do documento de Balfour, parece ser apenas um ensaboamento para dar uma impressão de que não há tanta culpa dos ingleses no descumprimento da promessa feita aos árabes. Em reunião feita em Paris em 20 de Março de 1919, há um jogo de cena ou de fato uma cena patética do tipo que Chamberlain desempenharia anos mais tarde. Diz o reporte: “He [Lloyd George] asked if the French intended to occupy Damascus, as such a move would be a violation of the treaty between the British and Hussein. Stéphen Pichon replied that France had no convention with King Hussein. Lloyd George said that the whole of the Sykes-Picot Agreement was based on the McMahon-Hussein Correspondence from Sir Henry McMahon to King Hussein, on the basis of which King Hussein had helped Britain win the war against the Ottomans in World War I. Lloyd George claimed that France had for practical purposes accepted the British commitment to King Hussein by signing the Sykes-Picot agreement. If the British Government now agreed to include Damascus, Homs, Hama and Aleppo in the sphere of direct French influence, they would be breaking their word to the Arabs, and they were unwilling to do this”. Palavras, palavras e palavras… nós sabemos no que deu essa história e isso, mais até do que as declarações de Balfour, demonstram o quanto essas colocações de Lloyd George foram vazias. E mais uma vez confirmamos aquilo que eu mencionei enfaticamente na última aula sobre Política: não importam as manifestações, discursos e idéias dos agentes políticos, você tem que observar o que é que eles fazem efetivamente com o poder. A predileção pelos acordos e conchavos com franceses e com os sionistas superaram as promessas feitas ao Rei Hussein e essa é a marca real da política inglesa no período entre-guerras, digam o que quiserem.

É notável que até hoje o Sykes-Picot é mencionado, incluvise pelas lideranças do Estado Islâmico, como a traição que será vingada. O próprio Al-Baghdadi disse num discurso em 2014 que “this blessed advance will not stop until we hit the nail in the coffin of the Sykes-Picot conspiracy”. Lembro-me instantaneamente de Hitler na década de 20 do século passado denunciando a “conspiração de Versalhes”. Invariavelmente parece que os acordos feitos entre os vencedores de uma guerra servirão sempre de motivo para o começo da próxima. E a carnificina parece não ter fim jamais, porque quando chegará o dia em que uma geração simplesmente perdoará os agressores de seus pais e avós e aceitará os termos ditados por estes mesmos a respeito de como deve viver a sua vida?

Isto, por sua vez, me faz lembrar do René Girard e da teoria do bode expiatório. Esses acordos, essas verdadeiras facadas nas costas, são os bodes de cada geração, são os vórtices de culpa, angústia, ódio e medo que centralizam a atenção da comunidade como uma origem de sua identidade e coordenam o sentimento social de participação e de legitimidade.

Somente a imolação sacratíssima e definitiva do Cordeiro de Deus pode parar a carnificina. É por isso que só o cristianismo poderia, sendo vivido de fato, trazer a verdadeira paz ao mundo. Se todo o mundo se ajoelhasse na Santa Missa para receber a Deus, o mundo poderia ter paz de fato. Mas que geração vai fazer isto, a esta altura do campeonato, diante de tamanha confusão?

De resto imperará a velha lei que cobra sangue com mais sangue, onde os filhos continuarão vingando os seus pais para sempre, até que Deus acabe com o mundo.

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No seu artigo Escola sem censura, Olavo relembra os louváveis modos de trabalho da antiga universidade medieval, predominantemente os da lectio e da disputatio. Recentemente o filósofo rasgou o verbo contra a esterilidade dos uspianos que, incapazes de qualquer elaboração criativa ou inovadora ao seu modo, apenas repetiam filosofias mortas de antigamente. Isso pode parecer contraditório, enaltecer um expediente como de uma lectio, que seria nada mais que uma leitura comentada, e ao mesmo tempo condenar as leituras universitárias de idéias antigas em lugares como a USP.

Vamos destrinchar isso. Uma lectio não era jamais a leitura de textos mortos, ou seja, de idéias e concepções “do passado”. Bem ao contrário, a leitura comentada era o revivescimento das idéias antigas, era o redescobrimento de potenciais já introduzidos por obras consagradas. A diferença está na figura do professor, ou, neste caso particular, do comentador. Se este é um estéril professor universitário que não acredita em mais nada, niilista e desconstrucionista, inevitavelmente a leitura será vazia como um abismo. Se este, porém, é filósofo, ele tem a capacidade de revisitar a genialidade antiga e fazê-la atual, pois consegue compartilhar dela por participar do mesmo amor pela verdade que moveu os autores originais.

Textos em si mesmos não importam, não fazem ninguém menor ou maior de fato, e nem tampouco uma suposta escrupulosidade filológica ou técnica de qualquer natureza. O que importam são as almas e as suas respectivas reflexividades diante da verdade.

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Ainda no mesmo artigo, diz Olavo: “Há alguma coisa errada com o ‘Escola sem partido’? Há. O nome. Deveria chamar-se ‘Escola sem Censura’, porque a parte mais decisiva da dominação comunista na educação brasileira não consiste na propaganda ativa, que pode ser eficiente mesmo quando em doses mínimas, e sim na exclusão sistemática de tudo o que a contraria. A mente do estudante pode se defender do que lhe dizem, mas fica impotante quando os meios de reagir lhe permanecem totalmente desconhecidos”. Que bom ainda ter um Olavo conosco, capaz de dizer em poucas palavras o óbvio que precisa ser dito e lembrado. A primeira vez que li realmente a proposta do Escola sem partido eu pensei comigo: mas isso aqui vai me ferrar, e não aos comunistas. Porque se eu tiver que necessariamente, numa sala de aula, apresentar, sei lá, Marx e Mises em pé de igualdade, fatalmente o excesso marxista subjacente no restante da cultura vencerá a pouca difusão de Mises. Pior: quem me garante que um aluno não poderia sacar do bolso do colete as idéias de um economista do cu da Zâmbia e dizer: “professor, precisa ensinar isso aqui também!”. Aplicada na prática e com toda a sua intenção, a idéia do Escola sem partido na verdade invibializaria o ensino. Eu seria mais favorável, como já disse antes, a um Escola sem sentido, ou seja, o fim de todo ensino obrigatório que não fosse do português e da matemática básicos. De resto, até para que possam ser preservados os espaços de ensino, é preciso dar a autonomia pedagógica e intelectual aos professores. O problema não é ter uma hegemonia de professores comunistas nas escolas. O problema é não ter professores não-comunistas lá, só isso. 

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01/09/2016

Mês novo.

Hoje vou escrever algo bem mais particular do que de costume, como um diário pessoal mesmo.

Querido diário…

Existem duas áreas da minha vida que estão como Chernobyl, abandonadas à sua própria sorte por vários anos, depois de acidentes de proporções catastróficas: as áreas de “relacionamentos afetivos” e de “educação formal”.

De relacionamentos nada acrescentarei, até porque já dei notícias neste mesmo diário a respeito disso. Entre a timidez e o interesse por outros assuntos (inclusive de cunho sexual, porque eu separo esses assuntos com muita prudência; amor e sexo são diferentes, se não mesmo antagônicos nos nossos tempos de relativização moral e liberalismo desenfreado), o tempo foi passando e eu simplesmente “deixei isso para lá”. Acredito sinceramente numa espontaneidade enorme nessas coisas; só acontece o que deve acontecer mesmo no fim das contas. Ninguém encontra uma esposa com um simples ato de destreza, como um macaco escolhe uma banana. Mas também acredito que quem procura acha as coisas, e o fato é que eu parei de procurar esse tipo de coisa faz mais de década. Se alguém me aponta uma potencial “pretendente”, eu já penso em despesas, boletos e faturas de cartão de crédito. Se alguém fosse me apresentar uma pequena, eu pediria, antes mesmo de uma foto da dita cuja, a sua declaração de Imposto de Renda e também a sua ficha da polícia, buscando respectivamente uma lista grande de bens e rendas, e o “nada consta” no quesito criminal. Faço disso uma piada para mim mesmo porque não me resta outra alternativa a não ser rir do meu destino neste quesito. E faço-o, creiam-me, com o espírito muito tranquilo.

Da minha educação formal eu posso contar uma historinha para vocês agora.

Fugi da escola, que não era muito diferente de um depósito de delinquentes, com quatorze anos de idade, antes de completar o ensino fundamental. Completei essa etapa com um supletivo mais tarde.

Depois até voltei a frequentar uma escola para cursar o ensino médio, o colégio Cardeal Motta. Eu já trabalhava, e pagava inclusive as mensalidades. Não me considerava apenas aluno da escola, mas primeiramente um cliente. Nenhuma autoridade professoral poderia sem mais nem menos ultrapassar o fato de que o salário de cada um desses supostos “educadores” saía do meu bolso, e portanto dos frutos do meu trabalho. Por esta linha vocês podem imaginar que, por mais respeitoso que eu fosse, estava longe de ser um aluno muito disciplinado e obediente. Fazia as provas e conseguia as notas necessárias, e em geral comparecia às aulas, mas de vez em quando eu saia para dar uma volta e conversar com os amigos. Um dia uma professora de biologia chamada Claudia, cujo apelido entre nós alunos era “A Noiva de Chucky”, ficou inconformada com a minha ousadia de sair da sala durante a sua aula. Pois é, eu trabalho o dia inteiro para pagar o salário da bonitona, e ela fica zangada comigo porque quero sair para tomar um café. Um mísero café, que é até mesmo uma necessidade para conseguir aguentar ficar acordado a noite inteira olhando para aquela cara dela de personagem de filme de terror. Neste ano, por acaso, minhas notas não estavam tão boas, e minha cabeça foi parar no tal do “Conselho”. O que esse grupo de professores faz, basicamente, é decidir o destino dos que estão na berlinda conforme as suas preferências pessoais, que eles chamam de “quesito participativo” dos alunos, um eufemismo para justificar a mais pura e caprichosa arbitrariedade subjetiva. Não fui aprovado pelo tal do Conselho, e tenho aqui comigo até hoje a convicção que teve um dedo da Noiva de Chucky nisso. O doce e frio sabor da sua vingança me deixou sem a chance de ter um diploma. Aprendi com isso que não basta pagar os filhos da puta, é preciso agradá-los e fingir que a autoridade deles é admirável.

Já que o Cardeal Motta era, na minha ordem de prioridades, apenas mais um boleto para eu pagar todo mês, resolvi novamente abandonar os meus estudos.

A unidade deste colégio que eu frequentei inclusive faliu e hoje é apenas um prédio fantasma, porque como se sabe o mundo dá voltas. Mas antes dessa decadência definitiva eu sei que deram cursos extracurriculares ali, inclusive um de minha autoria. Que ironia, tudo o que eu dei para os ocupantes daquele prédio foi emprego e prosperidade, e tudo o que recebi de volta foi uma desgraçada de uma rejeição fria e insensível.

A vida continuou, é claro. A graça é essa, a vida sempre continua. E quem sabe ela ainda melhora?

Um amigo de projetos temerários que também foi reprovado com louvor me chamou para ir com ele fazer um supletivo para o ensino médio, na Rua dos Patriotas, não muito longe do colégio de onde saímos. Lá vamos nós. A escolinha era mantida por um casal de terceiríssima idade. O senhor era amigável: deixava-nos marcar um “P” de “presença em aula” enquanto íamos até a esquina comer um sanduíche. A senhora era a líder do esquema, e logo chamamos o estabelecimento de “Supletivo da Velha”. Frequentamos algumas aulas, fizemos as provas, que aliás eram feitas em outro colégio que ficava para lá de onde Judas perdeu as botas, mais ou menos perto de Santo Amaro. Tudo feito e terminado, saiu finalmente o meu diploma do ensino médio.

Mas nada pode ser tão simples na minha vida escolar. A escola que emitiu meu diploma foi cassada pela Secretaria de Ensino, ele o papel simplesmente perdeu o valor. Tem como receber uma notícia dessas a esta altura, e não rir? Quando, numa das duzentas vezes que experimentei o ensino superior, recebi esta recusa burocrática, sentei e refleti, ali mesmo, que era hora de abandonar esta maluquice. Algo tão simples, como atestar que eu sei tais ou quais coisas que me dão o direito de cursar um ensino superior, parece mais o 13º Trabalho de Hércules. Há, certamente, coisas mais importantes a se fazer.

E havia mesmo… mas hoje circunstâncias mais ou menos extraordinárias me levaram a revisitar as catacumbas dessa área da minha vida, essa minha Chernobyl, e ver se alguma luz acende, se alguma torneira funciona, se alguma janela se abre. Parece, mas ainda não sei ao certo, que vou ter que fazer mesmo o ENEM, como se tivesse espinhas na cara e andasse de skate pelas ruas.

E, cá entre nós, mal sei eu o que me aguarda, pois dado o meu histórico não é nada difícil que no dia da prova alguma coisa continue me impedindo de pegar a porcaria do diploma, este já quase mítico pedaço de papel, inacessível como um Santo Graal. Talvez eu tenha que passar por um poço com crocodilos famintos, um campo minado, ou ainda um túnel em chamas. Ou pode ser ainda que um terremoto de força inédita desabe o lugar inteiro e interrompa a programação da prova.

Vejam que beleza, que mesmo que tudo dê errado eu terei a consolação aliviante de contemplar a comicidade, o humor involuntário dessa saga. Pois não se enganem, o livro que estou escrevendo não quer ser um drama, quer ser uma comédia.

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Quanto mais eu vejo por dentro o funcionamento do mundo corporativo, que é todo um estilo de vida com base naquele liberalismo pragmatista e utilitarista da Reforma, mais sinto-me um estranho, um desapossado, um despertencido. O pouco brilho que vi na vitrine que é essa vida não foi de ouro algum, mas de um pedaço de lata bem lustrado, carcado de enfeites baratos, lantejoulas e luzinhas piscantes. Basta dar um pontapé e você descobre que isso aí é tudo oco.

O ouro das virtudes, porém, é bem verdadeiro, é muito maciço, do tipo que não se pode carregar daqui para lá como se fosse um enfeite. Esse ouro te obriga a visita-lo onde ele está.

Não é ele que se move para chamar a sua atenção; é você que vai atrás.

Muito diferente do brilho do latão que é esfregado na sua cara 24 horas por dia até que você desperte o mínimo sentimento que seja vagamente parecido com um desejo. E feito isto, fazem-se festas homéricas e contratos vitalícios escritos com sangue.

Este mundo faz um esforço enorme para comprar uma alma, cria um mundo só seu, de mentirinha, mas muito confortável e chamativo, um mundo garantido, cheio de seguros, planos de saúde e aposentadorias; e que frustrante e infernal deve ser ainda assim para os engenheiros da estrovenga ver, mesmo que por cinco minutos, o que é o brilho do verdadeiro ouro.

É certamente motivo de riso antecipado dos anjos, os soldados do exército vencedor.

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Há no lema do brasão da cidade de São Paulo toda uma visão de mundo que me é íntima. E o mais curioso é que não há nada de progressista nisso. Pode haver elitismo, mas progressismo não. 

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02/09/2016

Uma das coisas mais feias que existe é a implicância vingativa. Se existe um consolo é o de que não haverá implicância que restará impune, não digo ao julgamento definitivo de todas as coisas, mas ao próprio desenrolar da história. Pois nada de bom pode derivar disso.

Quem é nobre, alheio a um comportamento covarde, expõe abertamente as suas divergências e antipatias, não levando consigo para casa nenhuma trama mesquinha e desprezível de devolução de suas mágoas.

Perdoem a tudo e a todos de coração, ou se não puderem, resolvam as diferenças abertamente até que tudo esteja solucionado. O que pode ser mais intragável do que alguém que amigavelmente parece superar as dificuldades, mas no fundo conspira para a sabotagem vingativa daqueles que secretamente odeia?

Dai-nos a paciência!

Frequentemente esse joginho é feito por aqueles que estão secretamente infelizes, e quanto mais a pessoa finge para as outras, e principalmente para si mesma, que é feliz mesmo não sendo, mais insuportável fica a carga da farsa, que acaba se esvaindo nessas traminhas insuportáveis.

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Janaina Paschoal diz que Olavo de Carvalho é um grande filósofo e que leu a obra toda dele (o que eu duvido), mas que “ele abandonou o país”. Não tenho a paciência para começar a explicar o erro da moça, e muito menos para desenhar a explicação.

Janaina Paschoal, salvo engano, endossou as “Dez Medidas” e fez campanha publicamente pela sua aprovação. Esta aí outra coisa de que ela fala, mas que não deve ter lido. Ou a doutora não sabe ler, ou é incapaz de tirar as consequências de uma leitura. Porque dou o benefício da dúvida de que ela não faz parte da camarilha que tramou esse golpe jurídico lamentável.

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05/09/2016

Quando alguém nos induz ao erro propositalmente e por uma implicância gratuita nos leva a ir onde não queremos estar, a fazer o que não queremos fazer, e a dizer o que não queremos dizer, ao final do processo todo mundo ganha.

A pessoa que faz isto conosco aprende ou confirma que nós somos falíveis.

Nós, por outro lado, aprendemos que esta pessoa não é confiável.

Acho que ganhamos mais.

Que nós eramos falíveis já sabíamos, mas ainda dávamos atenção a quem não merecia.

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A qual autoridade você predominantemente responde pelas suas maiores questões de consciência?

Podemos usar as Partes da Vida do simbolismo tradicional para separar os seres humanos em sete grupos hierarquicamente distintos e classifica-los conforme o critério de responsabilidade de cada um: (1) não responde a ninguém, contenta-se com a mera existência e portanto vive das maneiras mais desintegradas possíveis; (2) responde a autoridade da família, considerando esta aquela responsável pelo desenvolvimento do indivíduo, sua nutrição, educação, socialização, etc.; (3) responde a autoridade de senhores particulares, escolhe portanto a quem prestará a vassalagem e responderá, em contrapartida aos apoios que recebe para a vida, por seus atos; (4) responde a autoridade do matrimônio considerada assim não só a figura do conjuje, mas a figura maior das famílias integradas, o pacote que geralmente é composto de pai, mãe, sogro e sogra; (5) responde a autoridade temporal, líderes e governantes em geral, ou chefes da Administração, portanto o seu serviço corresponde ao bem maior comum da sociedade, teoricamente o mais nobre tipo de ofício dentro das preocupações políticas, em tese pode até ver-se respondendo indiretamente a autoridade divina que concedeu o poder às liderenças temporais as quais responde. Os próprios líderes temporais sairão da evolução de carreira deste tipo de obediência; (6) responde a autoridade dos sábios e dos representantes da tradição cultural, aos melhores produtores de arte ou cultura de forma geral, que criaram padrões de qualidade universalmente observados, e em última análise pode ver-se respondendo a autoridade divina que é a fonte primária tanto da Sabedoria quanto da Beleza imitadas pela cultura humana; (7) responde a autoridade das melhores pessoas que já existiram, dos fundadores de Ordens monásticas e portadores da Revelação divina, Santos e Profetas de todos os tempos, e em última análise consegue ter a responsabilidade humana mais próxima da obediência direta a Deus mesmo, conforme conseguir não só seguir e imitar os melhores, mas pare-a-los de algum modo na imitação humanamente possível da Perfeição de Deus.

Na ordem dos itens (5) e (6) eu preferi inverter o que seria a representação natural das Partes IX e X/XI e seguir uma linha mais próxima da idéia hindu das castas, por isso aqueles que possuem responsabilidades mais afiliadas às atividades brâmanes estão acima daqueles que se concentram em atividades típicas dos xátrias.

O salto que há do grupo 1-4 ao 5-7 é enorme, realmente formidável, como costumamos observar que ocorre também, ao estudar o esquema das Doze Camadas da Personalidade, no salto das Camadas de 1-8 para as de 9-12.

O realismo filosófico é um âmbito não apenas intelectual, mas geral da percepção humana daqueles que se integram nas responsabilidades dos itens de 5-7, ou seja, daqueles que em última análise começam a enxergar Deus como o centro não só da narrativa cosmogônica ou da vida religiosa, mas da sua própria vida real em todos os sentidos e aspectos.

É preciso ser filósofo para praticar uma filosofia realista, mas não é preciso sê-lo para praticar o realismo filosófico, ou seja, para ter um senso de realidade ou uma cosmovisão que já refletiu a precariedade de todos os âmbitos anteriores da responsabilidade humana e os transcendeu de alguma maneira.

A famosa velhinha anônima que fica rezando sozinha no fundo da igreja num dia de semana retrata exatamente esse realismo, mostrando que a sabedoria pode ser usufruída não como resultado do esforço de um método, mas como Graça compatível com simples atos de piedade de uma pessoa que é tão somente realista. Esta velhinha em sua condição jamais poderá escrever um tratado sobre qualquer um dos assuntos que seu coração conhece, nem poderá dar uma aula para apresentar esses tesouros. Mas ela poderá ver, mesmo assim, aquilo diante do que toda a obra de São Tomás de Aquino poderia ser considerada “palha”, como o próprio Doutor Angélico já afirmou.

Não importa quem você acha que é, o valor que acha que tem, tudo isso é irrelevante, e é inclusive o tipo de irrelevância característica dos níveis mais baixos de responsabilidade. O que importa é a quem você serve.

A quem você obedece? A quem você é grato? A quem você se humilha?

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Documentos vazados mostram dinheiro da Open Society de Soros (pelo menos $650,000) entrando em grupos católicos nos Estados Unidos para promover uma agenda de “prioridades da Igreja com foco em questões de injustiça e opressão” e para influenciar a recepção ao Papa naquele país em 2015.

Não vejo nada de anormal em Soros querer instrumentalizar organizações religiosas, mas é gravíssimo por outro lado que qualquer grupo católico aceite dinheiro dessa origem e, pior, com fins específicos de defesa de uma agenda progressista.

É como a discussão no Brasil sobre a Teologia da Libertação. Que os comunistas queiram se infiltrar, corromper e dominar, não é nada surpreendente dada a sua natureza, como direi, vermicular e ínfera. Mas que católicos aceitem isso e até abram espaço, eis o escândalo asqueroso. É algo intolerável tanto quando ocorre por burrice e ignorância quanto quando por causa das trinta moedas de prata.

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08/09/2016

A vida humana, como já disse, é uma longa lição de humildade, e o exame final é a velhice.

Podemos dizer mais: a experiência humana refletida (ou, poderíamos dizer também, “filosófica”) serve para a constatação da mais absoluta, tranquila e inesgotável Onipotência divina governando toda a realidade em todos os níveis e aspectos possíveis, levando toda a Criação ao ápice da sua perfeição possível; ao mesmo tempo, serve para a observação de si mesmo e de seus semelhantes como filhos desse poder, desgarrados por alguma culpa ancestral replicada pelos séculos, mas chamados de volta, sempre e por todos os meios, ao amor pelo Criador, por si mesmos e também de uns pelos outros. Assim, louvar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo se tornam realidades evidentes como consequência de uma reflexão verdadeira, geralmente acompanhada da instrução da Tradição.

A desobediência a essa natureza profunda e, por outro lado, a obediência canina, bovina, aos hábitos liberais e progressistas (ditos assim para se dar uma idéia de  como são francamente anti-tradicionais) incutidos na cultura do trabalho, da economia, e da administração pública, pelos instrumentos da mídia e da educação de massas, transformam essa grande coroa da Criação de Deus, o ser humano, no escravo voluntário mais abjeto e desprezível que se possa imaginar, cumprindo exatamente o plano diabólico imundo e fétido de esculhambação e desmoralização do projeto divino.

O que é absolutamente impossível é você perceber essas coisas e ficar indiferente a essas realidades, como se tudo fosse indiferenciado. A morte é preferível, já que pode servir pelo menos para Deus dizer de nós, como o Rei Alfonso X disse de Sevilha, “no me ha dejado”.

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Talvez eu tenha sido um pouco injusto com os tradicionalistas quando escrevi Sobre a Igreja da Consagração da Rússia. Para que fique claro, quando digo que “liberais” e “conservadores” deveriam se dar as mãos para condenar a doutrina da justiça social e ao mesmo tempo promover a prosperidade dos povos, não só não reconheço uma suposta autoridade intelectual do liberalismo como declaro descaradamente a total predominância e majestade da CARIDADE sobre todas as considerações possíveis no âmbito da vida social. Praticamente é a Igreja que fará tudo o que precisa ser feito; o que restará aos liberais fazerem é somente confessar a sua impotência e os limites estritos da sua ciência e de seu pragmatismo, e curvar suas orgulhosas cristas progressistas à lição da virtude. E se não o fizerem, naturalmente serão denunciados pela sua iniquidade maximamente evidente, do mesmo modo que já teria ocorrido com os socialistas de todos os tipos. Todos nós queremos aviões, carros, celulares e aparelhos de ar-condicionado, contanto que essas coisas não custem as nossas almas, seus idiotas. 

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Penso numa escola de filosofia mais ou menos como num mosteiro: um lugar onde se cultura a verdade sem precisar criar desculpas.

Querer instrumentalizar os órgãos da administração progressista do Estado laico a favor do ensino tradicional da sabedoria e das virtudes é como querer usar um campo de concentração nazista como se fosse um spa. Não vai dar certo.

A técnica política da ocupação de espaços, por mais eficiente e oportuna que seja, é parasitária por natureza, refletindo o caráter parasitário dos socialistas em geral. Esses mesmos espaços são, aliás, já moldados pela configuração moderna e progressista da sociedade humana. Diante disso nos perguntamos: tem como tirar algo de bom dessa bagunça?

É não só conveniente, mas mesmo obrigatório, reconhecer que muitos desses espaços sociais foram construídos exatamente para servirem como instrumentos de aparelhamento político, ideológico e partidário. Ou seja, não são estruturas sociais naturais espontaneamente desenvolvidas pelo acumulado da experiência e das tradições humanas.

A ocupação de espaços, por mais necessária que seja num panorama tático, não diminui a consideração estratégica refletida a respeito da verdadeira conveniência social e política destes espaços tal como estão desenhados, e nem elimina a necessidade superior de outras possibilidades sociais mais adequadas para o atendimento das necessidades humanas mais elevadas.

Aliás, onde foi que eu aprendi as coisas mais importantes, foi em escolas ocupadas, em mídia ocupada, em algum raio de coisa “ocupada”? Não, foi em projetos totalmente alheios a essa organização social aparelhável.

Querer trabalhar por fora do estamento é lógico como tirar a consequência de uma premissa.

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Quinze anos atrás eu quebrava a cabeça com a falta de sentido “de tudo”.

Ultimamente eu fico muito feliz de ver um pouco de ordem e sentido em várias coisas, mas a verdade é que praticamente tudo aquilo que não tinha sentido antes continua não tendo sentido algum hoje. O que eu precisava era conhecer coisas novas e, principalmente, um olhar novo sobre as coisas velhas. Você precisa levantar o olhar e contemplar uma perspectiva mais ampla das coisas. Se eu colocar de volta a minha cabeça dentro do balde, tudo parecerá tão caótico quanto era no passado; ou até mais ainda, porque a concepção de Ordem que tenho hoje é muito mais vasta ainda do que aquela que já me fazia ficar deprimido com o dia-a-dia.

O que era antes apenas um “caos” hoje já se tornou para mim um verdadeiro inferno.

Só que o que era antes o limite das possibilidades hoje já é apenas o truque de uma falsa prisão onde só estão os que lá querem estar.

Em suma, a verdade realmente te liberta, mas antes você precisa vencer o medo de conhecer a verdade. O “prêmio”, por assim dizer, está do lado de lá dessa decisão. Não adianta querer um briefing, tem que ir atrás.

No caso o meu medo vencido foi o de encontrar de fato um caos primordial por trás das coisas. Por precaução pode-se escolher inventar uma ordem falsa, ou mais fácil ainda, acreditar numa ordem falsa previamente estabelecida, do que mergulhar no sentido verdadeiro das coisas e correr o risco de encarar um grande Nada.

Por isso posso dizer a esta altura que os niilistas são covardes.

Eles não se fazem realmente as perguntas existenciais decisivas com o espírito verdadeiramente aberto. Eles querem apenas obter, através de perguntas parciais e incompletas, a confirmação de seus preconceitos, de forma que permaneça justificada a sua birra e, pior ainda, de forma que possam permanecer orgulhosos e envaidecidos usando uma porcaria de justificativa que diante da sua baixa exigência intelectual lhes pareça razoável.

O ser humano que quer obstinadamente viver sem Deus é isso, um bicho birrento, vaidoso e orgulhoso, perigoso para si mesmo e para os outros. O niilismo não passa de uma das várias escolinhas que o diabo abriu no mundo desde a Queda para rir da nossa cara.

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Há quem, não bastando o contentamento caprichoso com a sua própria ação arbitrária e irracional, defenda a qualidade dela!

E tudo isso se passa num tom de normalidade que torna tudo mais insuportável ainda… são as famosas racionalizações, ao sabor dos frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal.

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Não conheço modo melhor de começar uma aula do que escancarando as premissas que nos colocaram dentro dela. Já usei este método várias vezes e ele é infalível. As pessoas gostam de aderência à realidade. É sempre apreciável a confissão da situação real e a sua descrição. A eficácia da transmissão de quaisquer conhecimentos mais sutis e abstratos dependerá sempre dessa ancoragem realista, que começa pela atitude pessoal confessional do professor.

É claro que este método não é universalmente necessário. Idealmente nós podemos enxergar muitas situações pedagogicamente ricas e interessantes onde estas preliminares não são necessárias, pois os alunos estão confiantes na possibilidade do conhecimento e estão portanto focados na sua obtenção.

Se tenho que voltar a esse método fundamental é somente porque a situação social de fato pede essa abertura realista, pois estão praticamente todos no grau máximo de “Aspirante” ou ainda abaixo disso.

São três passos, ou três reconhecimentos básicos.

Os três respondem a mesma pergunta: “O que nós estamos fazendo aqui?”

A primeira resposta afirma universalmente o amor pela sabedoria, premissa máxima do método: o que nós estamos fazendo aqui é buscando a verdade, pois isto é tão natural e necessário para a conservação da saúde de nossa alma quanto ao corpo são naturais e necessários os atos de comer, dormir, lavar-se, etc. para a conservação de sua saúde.

A segunda resposta afirma particularmente o que levou a mim mesmo estar ali naquele momento, o que estou buscando com esse tipo de coisa, e como os alunos vieram parar ali também, e mais ou menos o que eles podem esperar disso.

A terceira resposta, enfim, afirma finalmente a importância do objeto da aula, ou seja, o assunto que justifica e satisfaz ambas as respostas anteriores.

Numa sociedade civilizada qualquer professor pode começar a sua aula a partir da terceira resposta e entrar no assunto imediatamente.

Numa sociedade bárbara ou semibárbara é preciso ter mais paciência e cumprir todos esses passos…

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12/09/2016

Volto ao diário depois de idas e vindas, de altos e baixos; dos mais variados giros do mundo.

É bom o passar do tempo, porque ele vai diluindo aquela gordura chamativa de cada dia, e só sobra a memória justa da carne da vida, a sua substância mais nutritiva. Escrever obrigatoriamente todos os dias força o autor a falar de coisas menores, porque ainda não deu tempo de separar o mais valioso do menos. Por esta razão, mas não só por esta, a leitura cotidiana de jornais e revistas torna burro o homem que quer estar informado de tudo, porque “tudo” é um saco onde se mete as coisas de valor mais diverso, e a inteligência não está na quantidade, mas na concentração na qualidade dos melhores objetos contemplados.

Mas mal volto e já divago assim?

Vamos então à minha vidinha.

No sábado dei a minha terceira aula gravada, desta vez saindo de Política e entrando em Filosofia. Essa introdução passou pela etimologia de origem pitagórica, e pela história da fundação da filosofia ocidental com Sócrates. É o arroz com feijão, que em grande parte aprendi com Olavo há mais de dez anos. Se eu não puder dar aula nem mesmo disso, do que eu poderia?

Mas existe professor sem alunos? Ou, pelo menos, sem um aluno que seja? Não existe, não é real. E por isso arrumei duas dezenas de pessoas com algum potencial, entre amigos próximos e conhecidos, para que possam ser meus alunos se quiserem.

Já entreguei seis horas, ou ainda mais, de aulas, e até agora não recebi uma pergunta por escrito que seja, nem sequer uma pergunta. Quando isso acontece, já dizia eu quando dava minhas aulas na ETEC Rocha Mendes, é porque o professor é muito bom ou porque é muito ruim. Ou a aula é tão boa que completa perfeitamente o entendimento do assunto na mente dos alunos não restando uma vírgula de indagação a respeito, ou é tão ruim que não há nem sequer os meios práticos de se começar a verbalizar uma questão, tamanha a confusão restante.

Não pensem, com isso, que estou decepcionado ou desapontado. Não. Esses tempos já se foram. Fui curado desse pretensionismo, dessa sanha de ser visto como se eu fosse o guardião de alguma coisa. Não guardo comigo nada de valor que seja minha propriedade.

Treinei e me preparei para ser um bom professor, mas isso não retira a necessidade de uma demanda real. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A necessidade de fazer dinheiro, ou de satisfazer o ego, ou ainda uma mistura dessas coisas, pode levar alguém a vender o seu peixe do jeito mais antigo que existe: criando problemas e dificuldades terríveis. Eu poderia dizer, por exemplo, que o mundo está caindo aos pedaços porque as pessoas se esqueceram da origem da filosofia, e que a única forma de evitar essa catástrofe é fazer o meu curso a respeito. Alguém duvida de que eu conseguiria inventar um bom discurso com essa finalidade?

Mas isso não é verdadeiro, então já não me interessa. Se eu mesmo já declarei de antemão que nessa área de Introdução a Filosofia não tenho praticamente nada a acrescentar ao que aprendi com Olavo, não é mais fácil indicar para as pessoas o próprio curso dele, raios? Se existe uma catástrofe cultural no Brasil, quem está resolvendo de fato a situação é ele mesmo.

Então eu faço um serviço moderadamente complementar de comentário e explanação, mas entrego gratuitamente, e entrego por gosto de fazê-lo, sem esperar um retorno ou mesmo uma pergunta que seja que sirva de continuidade ao projeto. O que ganho? Ganho a satisfação pura de fazer aquilo que gosto, ponto final. E ganho até mesmo a oportunidade de treinar porque se um dia alunos reais aparecerem na minha frente, daqui a oportunos quinze ou vinte anos, eu estarei pronto.

No futuro breve me vejo escrevendo com rotina, pauta, método, etc. Se Deus me permitir gozarei o prazer do trabalho, esse fugitivo que eu busco a vida toda como um Indiana Jones à caça de um tesouro perdido.

Já as aulas serão dadas por demanda, quando espontaneamente alguém aparecer na minha frente e disser: “me explica isso aqui”. Antes disso, nas atuais circunstâncias que não me obrigam a mais nada, é pura vaidade e cobiça.

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Li o ensaio On the Disadvantages of Intellectual Superiority, do William Hazlitt, indicado por Olavo por ocasião da explicação da situação intelectual no Brasil.

O texto em geral é mais chato e entediante do que gostaria que fosse, embora eu tenha talvez perdido algo do humor do autor porque seu inglês é evidentemente superior ao meu, de maneira que tive dificuldade mesmo de ler algumas partes e precisei desacelerar o ritmo.

Apesar dessa sonolência, o texto fala verdades. Mas há verdades que um homem não deve gastar muito tempo a expor, especialmente quando no fim das contas não há solução alguma a ser dada ao problema, apenas a reclamação em si. Ninguém tolera um texto ricamente escrito para dizer “ai que coisa, o inverno é frio”, nós simplesmente não precisamos disso.

O autor reclama das evidentes desvantagens sociais da superioridade intelectual, algo tão velho, mas tão velho e desgastado, que realmente me espanta o trabalho do escriba para falar desse assunto miserável como se fosse algo notável e espantoso.

Tem um texto meu publicado no site e com uma inexplicável audiência, O que é formação intelectual?, que aborda, entre outras coisas, a necessidade de resistência psicológica a esse problema que o Hazlitt expõe, mas o faz como um mero passo para coisas maiores, tão maiores que este problema simplesmente desaparece depois como fumaça no ar.

Descobri que em geral eu não gosto de intelectuais, tenho quase uma alergia. A classe intelectual, tal como se identifica socialmente há mais ou menos uns dois ou três séculos, é uma das grandes responsáveis pelas maiores catástrofes que a humanidade já passou, e notavelmente pela construção da cultura de um mundo moderno desgarrado de suas tradições e que causa, por isso mesmo, esse problema social que Hazlitt expõe como se fosse uma fatalidade metafísica. Na verdade, até certo ponto, o estranhamento social é mesmo inevitável, Sócrates que o diga. Mas os intelectuais conseguem piorar muito mais este quadro.

O desprendimento histórico provocado pelos intelectuais, entre as concepções de moral e de ciência, que era justamente uma das coisas que o método de Sócrates mais trabalhava frontalmente, cria uma vasta casta cheia de pensadores pretensiosos, arrogantes, vaidosos e orgulhosos, que não toleram nada que seja menos do que uma adoração total daqueles que não são iniciados nas arcanas artes do conhecimento. Por mais simpático que eu queira ser, não é esse, no fundo, o espírito do texto de Hazlitt?

Quem quis a morte de Sócrates, afinal de contas? Foi o povão?

Ora, o povão nunca quer nada por si mesmo que não seja apenas subsistir, tocar a vida, dormir num dia para acordar no outro. O espetáculo público é sempre conduzido pelos formadores de opinião, pelas lideranças culturais e políticas, e o que o povão faz, sempre, é seguir essa condução. Quem quis a morte de Sócrates foram os “intelectuais” de sua época, orgulhosos ou invejosos tanto quanto os nossos intelectuais de hoje.

Mas Hazlitt é inteligente. Num determinado momento ele diz: “You cannot make them see with your eyes, and they must judge for themselves”. Esta poderia ser a sentença final do texto. Infelizmente não foi.

Não basta confessar a realidade do testemunho individual do conhecimento, é preciso espezinhar que há homens tolos que se recusam a gostar tanto das coisas nobres quanto o senhor Hazlitt. Lamúrias justas, mas lamúrias mesmo assim. É o jus esperneandi. É um direito irritante, mas é um direito. Pelo menos até chegar na esquina.

O autor é inteligente, mas até certo ponto. Nós conseguimos, se quisermos, ver além. A questão é verdadeiramente imprópria porque sendo o uso da razão humana condicionada pela vontade livre, seria absolutamente impossível que o mundo fosse da forma como deveria ser para que Hazlitt tivesse realmente justiça na sua reclamação. Se a superioridade intelectual obtida é uma superioridade verdadeira, raios, como é que se pode obtê-la sem que isso signifique ipso facto um distanciamento real daqueles que não a possuem? Dizer que isto é uma desvantagem é como reclamar que o número 5 é maior que o número 3, e que se você tirar do primeiro o segundo sempre restará o número 2… não há desvantagem social na superioridade intelectual senão para aqueles que não compreendem a sua natureza e por isso a julguem indevida de alguma maneira.

Esse é o texto de Hazlitt, bastante aquariano neste sentido, reclamando que este mundo não é o Céu, como se pudesse ou devesse ser.

O vício não está nos meus óculos. Está mesmo no texto que estou lendo. Leiam vocês por si: “All that you take most pride and pleasure in is lost upon the vulgar eye”.

Orgulho?

Quem disse que a superioridade intelectual é motivo de orgulho para alguém? Você pode rachar as suas costas de tanto trabalho para aprender línguas vivas e mortas, e para ler, traduzir e comentar livros, pode gastar o patrimônio de sua família para estudar com os melhores mestres, pode usar todo o tempo de sua vida para adquirir “conhecimento” e “cultura”, tudo isto não te tornará melhor nem um milímetro do que alguém que sem ter feito nada disso tenha, ainda assim, amado de fato a Sabedoria. O bem que o orgulho perde diante do “olho vulgar” não é realmente um bem, mas uma pretensão de domínio e de posse, esse maldito sentimento cultivado por muitos daqueles que se dedicaram a ser “intelectuais” visando vantagens mundanas.

Prazer?

Como é possível que o gozo real da sabedoria possa ser perdido diante do desprezo do olhar vulgar de quem quer que seja, mesmo que seja de todo o mundo? Não é o prazer de saber que é perdido, é o prazer de sentir-se superior, frustrado pela observação de que não há domínio concreto desta superioridade sobre os “inferiores”.

Hazlitt espera do mundo o que apenas Deus pode dar. Está, portanto, ainda no impasse aquariano, sem conhecer a solução pisciana e aparentemente nem fazer idéia de que ela possa sequer existir.

Leiam: “One of the miseries of intellectual pretensions is, that nine-tenths of those you come in contact with do not know whether you are an impostor or not”. É o contrário do que ele diz.

Uma das misérias das pessoas comuns que entram em contato com um intelectual é não poder saber se o cara é um impostor ou não. Hazlitt inverte o ônus. Não conhece ou não aceita, obviamente, a exigência moral inaugurada por Sócrates. Pobre e coitado do povo que pode ser ludibriado quase sempre por impostores e charlatães. O senhor Hazlitt e os que ele representa no texto é que deveriam ter vergonha na cara e assumir a responsabilidade moral de serem pessoas melhores que encarnem evidentemente e socialmente as qualidades que ostentam por artifícios.

É a inversão revolucionária em ação: a obrigação dos intelectuais se torna direito, e o direito da população se torna obrigação.

Esta sociedade profundamente abalada pelas revoluções modernas, inventadas pelos intelectuais mais envaidecidos e orgulhosos do universo, é incapaz de viver a comunhão e a paz social. Agora o que faltava mesmo é dizer que isso é culpa da falta de requinte do povo, que se fosse mais bem educado saberia engajar-se nos altos prazeres e orgulhos do conhecimento superior.

Mais adiante Hazlitt melhora seu texto com bom humor, finalmente. Não é o suficiente para resolver estes problemas que acabei de apontar, mas dá para seguir. O humor permite isso: seguir em frente e não fazer barricadas e piquetes com as birras da vida.

O autor conclui razoavelmente bem, dadas as possibilidades maiores de seu engano: “It is hardly necessary to add any illustration to prove that the most original and profound thinkers are not always the most successful or popular writers. This is not merely a temporary disadvantage; but many great philosophers have not only been scouted while they were living, but forgotten as soon as they were dead”.

Elegante e justo, mas absolutamente desnecessário para qualquer pessoa que tenha verdadeiramente escolhido realizar a vocação intelectual verdadeira, isto é, o amor pela sabedoria. A conclusão de Hazlitt é o ponto de partida de qualquer um que viva isso seriamente. Só pode ser uma novidade para quem não tenha as condições de entender o assunto (e, sendo assim, é inútil), ou talvez possa ter alguma serventia para aqueles que estejam no lusco-fusco de uma decisão a respeito. Mas para estes existem remédios e exemplos muito mais potentes e assertivos do que o documento do senhor Hazlitt.

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13/09/2016

Este texto será escrito tanto no meu diário quanto no Grupo de alunos, pois é um comentário solicitado por um amigo e aluno que pode ajudar os outros alunos a compreender o que já falei sobre Política.

Pediu que escrevesse sobre o problema da representatividade política a partir da leitura de um artigo da revista Ninguémleu (concorrente daquela outra revistinha, a Superignorante), digo, Galileu, com o título “Eles não nos representam: por que os políticos são tão diferentes de seus eleitores?”.

Isso me foi pedido na segunda-feira passada, dia 05 de Setembro, mas só agora consegui arrumar tempo para analisar.

Vou começar a leitura do artigo, de autoria de Cristine Kist e Thiago Tanji.

A chamada do artigo contém as teses da discussão, notavelmente que o povo foi às urnas “eleger seus representantes na esperança de mudar o país para melhor”, que o problema não é que o brasileiro não sabe votar, e que “no nosso sistema o poder de transformação do voto é extremamente limitado”.

Vejamos.

O texto começa com um racismo, um sexismo e um socialismo de nível de sarjeta, afirmando que na época de Sólon, mesmo com a reforma democrática, na prática “o governo continuava formado por meia dúzia de homens brancos endinheirados, exatamente como era antes”. Nós não podemos perdoar esse tipo de passagem. É obrigação de Kist e Tanji (parece nome de dupla de banda infantil) explicar porque um governo formado por meia dúzia de homens brancos endinheirados tenha sido um problema concreto, real, para os gregos da antiguidade. Desta forma tosca os autores começam seu texto com uma falácia chamada petitio principii, a famosa “petição de princípio”, dando por demonstrada uma tese que na verdade é a premissa de seu argumento.

Os autores continuam dizendo que de lá para cá muita coisa mudou no planeta Terra, mas que, com “honrosas exceções”, o governo ainda é “basicamente formado por meia dúzia de homens brancos endinheirados”. Continuam martelando a petitio principii, enquanto nós ficamos aqui nos perguntando: “e aí”? Onde está a injustiça?

Lembrem-se do que eu expliquei exaustivamente nas aulas sobre Política que tivemos até agora: o problema central da política é a justiça, ou o bem comum. Kist e Tanji parecem querer afirmar basicamente que a injustiça da política de nosso país é a presença de homens brancos e ricos no governo, como se ser homem, branco ou rico fosse demérito e, ao contrário, ser não-homem, não-branco e não-rico fossem naturalmente virtudes políticas. Não tolerem esse tipo de argumento quadrúpede, jamais.

Tampouco aceitem o argumento igualmente estúpido e absolutamente indesculpável de que a representatividade política equivale à proporcionalidade entre as características raciais, sociais e de gênero da população e daqueles que são eleitos. Raras vezes eu vi tamanha excrescência ser defendida como é neste artigo, não tão abertamente na sua teoria, é verdade, mas de forma inegável. Uma mulher não pode votar em um homem? Um negro não pode votar num branco? Um pobre não pode votar num rico? Essas pessoas não podem tomar essas decisões livremente? Por acaso para que a representatividade política seja verdadeira mulheres só votariam em mulheres, negros em negros, e pobres em pobres? É isto? A que ponto chega a demência das pessoas? Que decadência é essa que leva em conta características físicas e econômicas na consideração da representatividade política? Qual será o próximo nível? Características sexuais, ou fisiológicas? Gay só poderá votar em gay? Gordo só poderá votar em gordo? Será que nós chegaremos a esse ponto, meu Deus?

Continuando.

Os autores criticam os projetos de reforma política propostos pela gestão de Eduardo Cunha como Presidente da Câmara dos Deputados, como o “distritão” e o que eles chamam de “institucionalização de doações de empresas”, o que segundo eles “só contribui para que a ‘casa do povo’ continue como um puxadinho para construtoras, bancos e outras megacorporações”.

Sobre o chamado “distritão” não posso falar muito por desconhecer os detalhes, mas pelo pouco que me lembro a respeito realmente parecia uma proposta ruim de fato, longe de uma verdadeira solução distrital.

Sobre a formalização do lobby, a ladainha anticorporativa não passa de uma reclamação muito tardia contra a revolução burguesa de 1789: se você tira o Rei, acha mesmo que quem vai sobrar é “o povo”? Não existe figura mais fantasmagórica que “o povo”. É uma entidade vagante, ectoplasmática, usada como justificativa para tudo, mas na sua realidade concreta bovinamente passiva e sempre pronta a apenas gozar ou a sofrer os desígnios dos poderosos. Se o poder não está mais na família real, estará nas famílias da grande burguesia, naturalmente. Se isto não satisfaz a sede de “democratização” do poder político então é naturalmente necessário concentrar o poder político nas mãos de líderes revolucionários que quebrem não só a estrutura da realeza, mas também a estrutura burguesa de poder, pessoas que saiam sei lá de que bueiro fétido para derrubar todos os poderosos e colocar-se na liderança das coisas, gente boa como Hitler, Stalin, Mao, etc., e fundar consequentemente democracias realmente maduras e completas como Cuba, Coréia do Norte ou a Venezuela.

O poder é o centro da vida política de uma comunidade, e ele nunca morre sem que morra junto a própria comunidade como unidade social ordenada. Tirar o poder de uma realeza para dar “ao povo” é apenas um truque. O que você está fazendo mesmo é tirando o poder do Rei para dar aos nobres, ou aos ricos da nação. Se você quiser continuar a revolução e quiser em seguida tirar o poder também dos nobres e dos ricos, das duas uma, ou você vai dar este poder a uma autoridade política concentracionária estranha à hierarquia real da sociedade (fora da realeza, da nobreza e da burguesia) ou você vai promover a pura anarquia, o que é a mesma coisa que o fim da ordem social e consequentemente o fim da própria política. O poder abomina o vácuo, e por isso a tendência dos processos revolucionários, por mais anárquicos que sejam, é a volta do poder concentrado nas mãos daqueles que conseguem estabelecer a paz e a ordem social, exatamente como é relatada a etapa final descrita como “Normalização” por Yuri Bezmenov, dentro do processo de subversão de uma nação estrangeira.

Quando digo “autoridade política concentracionária”, refiro-me aos “novos reis”, ou seja, aqueles que terão autoridade despótica e tirânica para realizar a revolução através da concentração de poder no Partido revolucionário, particularmente nas mãos dessas lideranças individuais. Então é assim: você primeiro derruba o Rei, depois derruba a nobreza e a burguesia, e no fim de tudo fica com Napoleão Bonaparte com todo o poder em suas mãos, não um mero Rei, mas um Imperador, como um verdadeiro Imperator Romanorum da antiguidade, ou ainda pior do que isso.

Então o que Kist e Tanji estão fazendo, quando reclamam do lobby de empresas no Congresso, é a crítica de que a Revolução Francesa não lhes basta, deixando implícita aí a necessidade de romper com essa estrutura social de ordem e inaugurar uma maravilha política qualquer, provavelmente um país com “excesso de democracia”, que é como Lula descrevia a situação política da Venezuela de Chávez.

Os autores continuam sua explicação afirmando que Cunha recebeu seis milhões de reais de empresas como o Banco Safra ou o Banco BTG Pactual, Bradesco, e a Coca-Cola, para “recuperar os investimentos milionários, com medidas como a regulamentação da terceirização, que interessa a todas as grandes empresas”. Sim, é verdade. O que vocês esperavam, exatamente?

Que Cunha se dedicasse de coração somente às necessidades do povo?

Mesmo que ele tivesse esse desejo (e não é impossível que o tenha em alguma medida), como é que ele conseguiria fazer isso? Não é sendo eleito em primeiro lugar?

E para ser eleito democraticamente, o que é preciso fazer? Não é necessário tomar dinheiro dessas empresas para custear a campanha, empresas essas que farão naturalmente o seu lobby para, como os autores mesmos dizem, “recuperar os investimentos milionários”?

Então Cunha está fazendo no sistema político brasileiro o que o sistema político brasileiro espera de Cunha, nada mais e nada menos.

O texto da Ninguémleu continua explicando que o problema da democracia representativa é que a “humanidade” concluiu que valia a pena incluir trabalhadores e mulheres no processo democrático, só que daí tem muita gente e que “não dá para reunir todo mundo em um lugar só”.

Sim, este é o nível. Vamos lá.

Em primeiro lugar a “humanidade” não concluiu coisa nenhuma. Não existe figura de linguagem mais porca do que essa. Trata-se de uma elipse que subentende que esse ente abstrato chamado “humanidade” natural e necessariamente “evolui” com o tempo. Esse progresso incontrolável se desenrola como um raciocínio lógico de tal forma que o último estágio é sempre o mais evoluído e bem resolvido dentro da dialética histórica. Não sei se a dupla Kist e Tanji sabem disso, mas o inventor dessa idéia foi Hegel. Os autores estão autorizados a ter as idéias que bem entenderem, mas pede-se a gentileza da honestidade intelectual de assumir suas fontes e de lembrar aos leitores, sempre que possível, que há outras formas de se pensar a estrutura do tempo e da história. Santo Agostinho, por exemplo, com A Cidade de Deus, contestou retroativamente toda a concepção hegeliana da evolução do Espírito no tempo histórico. Kist e Tanji podem arbitrariamente decidir ignorar o Doctor Gratiae, mas não podem me obrigar a fazer o mesmo, e nem aos meus alunos. Por isso lhes digo, quando a dupla dinâmica diz que a “humanidade concluiu”, não aceitem que isto seja uma descrição rigorosa de um processo histórico, porque não é isso nem de longe.

A humanidade como entidade individual, agente e responsável, não existe, e a concepção mais próxima possível dessa comunhão humana está ironicamente justamente no lado oposto no campo das idéias: está ao lado da história da Cidade de Deus, na história da Igreja. Não deixa de ser uma ironia, e até mesmo uma ironia fatal: o que os revolucionários almejam é recriar a realidade ao seu modo, mas não com formas totalmente novas (o que é impossível), mas pela mera inversão. A Igreja se torna “a Humanidade”. O Rei se torna “L’Empereur”, “o Führer”, ou “o Primeiro Comissário do Povo”. E por aí vai.

Mas, voltando ao texto, os processos históricos e políticos reais que levaram os trabalhadores e as mulheres ao voto não podem ser resumidos com a sentença de que “a humanidade concluiu”, até porque foram e são processos distintos com origens, meios e fins diversos.

Em segundo lugar, o problema da massificação política tem muito mais a ver com a extensão territorial e a expansão do poder político em si desde as revoluções modernas do que com a inclusão democrática. Antigamente um governante tomava conta de uma cidade, ou de um amontoado de cidades. Hoje é preciso decidir o destino de um continente. Isso leva aos paradoxos da democracia representativa que o texto denuncia, mas é necessário reconhecer que a complexidade do problema é muito maior do que a que é apontada. É preciso falar da “invasão vertical dos bárbaros” (Mário Ferreira dos Santos), da “rebelião das massas” (Ortega y Gasset), e do “crescimento patológico do poder” (Bertrand de Jouvenel). Eu peço isso a vocês: esqueçam Kist e Tanji depois, e estudem o Mário Ferreira, o Ortega y Gasset e o Jouvenel. Vocês vão ganhar, eu aposto.

Os autores continuam. “O problema é que, hoje, os eleitores têm menos liberdade do que parecem ter na hora de decidir quais números vão digitar na urna eletrônica”.

Eles cagam e eu vou atrás limpando. Neste caso foi um cocozinho.

O termo “hoje” remete a um passado em que os eleitores tinham mais liberdade do que têm atualmente. Pois bem, que passado é este? A humanidade não tinha evoluído?

Citam um professor da UnB, chamado Luis Felipe Miguel: “a democracia eleitoral se baseia na presunção de que cada um tem um entendimento esclarecido de suas próprias preferências. Mas essa presunção, que até faz sentido na teoria, é pouco defensável na prática”. Sabem por que é pouco defensável? Porque concretamente as pessoas de fato mais esclarecidas para participar da política são as que foram educadas para tanto, justamente a elite, a nobreza, etc., todo o pessoal que foi derrubado da autoridade oriunda de seus privilégios. Mas os “esclarecidos” modernos, porém, podem ser os indivíduos politizados e ideologizados, os que têm “consciência política” apesar de sua marginalização social. Então é claro que o Zé Mané da esquina conhece as suas necessidades práticas, mas não vai conseguir votar de forma esclarecida porque não conhece os meandros da realpolitik. Mas quem o defenderá, então? Quem conhece essas coisas e pode defender com justiça o interesse do homem simples? Um Rei? A nobreza, a aristocracia? Não, porque para os revolucionários estes já se baseiam na injustiça inicial de seus privilégios. Os naturais representantes dos interesses do homem comum serão necessariamente os líderes de movimentos populares e sociais, que são os membros da nova aristocracia, advindos do proletariado intelectual. Esta é a conclusão a partir das deficiências do esclarecimento do homem simples e ignorante: a de que ele não deve decidir realmente nada por si, mas deve conceder o seu poder aos verdadeiramente esclarecidos, os membros da nomenklatura.

Continuam: “Basicamente, os ricos e poderosos têm mais condições de influenciar outras pessoas e fazer que seus pontos de vista prevaleçam”. E como poderia não ser assim? Só continuando mesmo a Revolução: não basta cortar a cabeça do Rei e as dos membros da nobreza, é preciso continuar cortando cabeças, primeiro as da grande burguesia, e depois até mesmo as da pequena burguesia, até que não haja diferenças sociais quaisquer nem mesmo entre o dono da lanchonete da esquina e seu ajudante. Só que para fazer isso é necessário concentrar cada vez mais poder político nas mãos dos líderes populares, aqueles que serão os responsáveis por levar o povo à sua tão sonhada libertação final. É assim que se concede poder aos psicopatas da sociedade ao ponto de transformá-los em verdadeiros tiranos genocidas. É exatamente assim.

O texto continua descendo o sarrafo no Eduardo Cunha, o que particularmente hoje (dia da cassação do mandato de Cunha na Câmara) equivale a chutar cachorro morto, então nem vou perder meu tempo com isso. A dificuldade, aliás, de se tirar alguém como Cunha do poder, longe de mostrar a solidez institucional do país depois de 13 anos do PT no poder, mostra o quanto estamos realmente mal arrumados com esses bandidos. Todo petista que reclamou da continuidade de Cunha no poder é no mínimo um hipócrita. Qual estrutura de poder que manteve o poder de Cunha é essa, senão a instalada pelo próprio petismo?

Finalmente na página 5 o texto fala de um problema mais real da política brasileira: o espetaculoso custo das campanhas. Denunciam o estratosférico custo de R$ 5 bilhões em campanhas no ano de 2014. Salvou-se um parágrafo ao menos, enfim.

Infelizmente o parágrafo seguinte detona esta lógica fazendo um ataque não ao custo das campanhas em si (que é a origem real do problema), mas ao financiamento privado delas. Erro crasso. O financiamento público não só mantém como piora o problema, pois levará apenas para a clandestinidade o financiamento privado que necessariamente continuará a funcionar, aumentando vertiginosamente o problema de Caixa 2. Por outro lado, há o problema da perpetuação no poder daqueles que já possuem o controle do governo nas mãos, pois quem controla em última análise o financiamento público senão os governantes? Isso para não falar da imoralidade de se usar dinheiro de imposto do Zé das Couves para custear santinhos e carros de som de políticos bandidos. O financiamento público é errado por quaisquer lados que se olhe a questão: é imoral em si mesmo e levará a consequências nefastas pela perpetuação no poder daqueles que lá já se encontram e que controlarão em última análise os fluxos e repasses de verbas estatais. Eu poderia falar ainda do deliberado esforço de criminalização do empresariado, pela criminalização das doações que, não obstante, continuarão ocorrendo, mas não farei isso porque poderia ser confundido com um conspiracionista. Não é necessário falar disso para desqualificar o financiamento público.

Os autores citam o deputado Henrique Fontana do PT, que afirmou que “o financiamento empresarial gera a maior distorção de representatividade, já que as campanhas poderiam gastar muito menos e isso não traria nenhum prejuízo para a circulação de idéias”. Falácia. Mais precisamente um non sequitur: de que o alto custo das campanhas prejudica a representatividade por exigir maiores recursos não se segue que o financiamento privado gera “maior distorção de representatividade”. O que gera essa distorção é o custo! É óbvio o empenho manipulador de se levar de um problema real a uma solução que não o resolve. O financiamento privado, tanto quanto o público, refletem o custo das campanhas. E o custo reflete o sistema político do país. É aí que tem que mexer.

O texto fala de vários problemas políticos que são oriundos da Constituição de 1988 e que são de difícil reforma, mas não impossível. Os autores atacam o custo do país com a manutenção dos privilégios dos parlamentares, o que é justo até certo ponto, mas definitivamente não é prioritário para as finanças da nação. Em meu exercício a respeito do Orçamento público ao longo de uma projeção de 45 anos cheguei em R$ 2,1 bilhões de economia virtual do Legislativo, enquanto o Executivo poderia chegar potencialmente em R$ 982 bilhões. São 467 vezes mais, sem contar a consequentemente brutal economia com a rolagem dos juros da dívida. É fácil reclamar do auxílio-paletó, e talvez seja mesmo algo injusto, mas é realmente o problema mais importante da administração do país?

Com razão os autores criticam o inaceitável sistema do “voto proporcional”, que é uma excrescência. Resolveram começar a acertar algumas coisinhas do meio do texto para diante.

É apontado o distanciamento e a falta de interlocução entre políticos e eleitores como um problema, mas não chegam a mostrar que a própria existência de um monstrengo chamado Brasília, a “cidade dos Jetsons”, colabora imensamente para o assim chamado “elemento elitista” da democracia representativa. Kist e Tanji acertam, porém, quando mencionam a possibilidade de recall, embora não cheguem a falar de Parlamentarismo e muito menos, evidentemente, pela linha ideológica a qual parecem se agregar, de Monarquia Parlamentarista.

O texto lamenta a demora na discussão e aprovação do PL 6316, que trata de reforma política, e o qual não comentarei pois não estudei os detalhes.

Os autores, porém, voltam a avançar no campo da teoria política. “Desde os tempos da Grécia Antiga, a democracia por definição pressupõe a igualdade política de todos os cidadãos. Mas o sistema representativo divide automaticamente a população em um pequeno grupo de tomadores de decisões e um grande conjunto de governados cuja influência sobre essas decisões é quase nula”.

O termo “igualdade política” é ambíguo, porque poder político pode significar poder eleitoral tanto quanto capacidade de influenciar e gerar capital político. Não é o sistema representativo que “divide automaticamente a população” entre poucos governantes e muitos governados, é a própria estrutura do poder político que faz isso. O governo de muitos sobre muitos, que seria teoricamente a solução para o “problema”, significaria na prática o governo de ninguém sobre ninguém: seria a anarquia total, a lei da selva.

Nós já vimos que na origem mesmo da concepção da política existe essa noção da mediação da lei da selva por uma outra lei superior, que é a justiça, a consideração do bem comum acima dos bens particulares. É absolutamente obrigatório que haja a autoridade política que concentre o poder mínimo de fazer cumprirem-se as leis da comunidade e que faça, portanto, haver justiça, paz e ordem. Isto é inevitável e a única alternativa real à organização do poder político é a lei da selva, a total anarquia.

Então não nos cabe de maneira alguma, e será sempre de uma ingenuidade gritante, supor que é possível o cumprimento de uma lei justa sem que haja a autoridade política que garanta o seu cumprimento. Por isso os anarquistas podem até ser bons de coração, porque sentem saudades do Céu onde todos vivem a Lei sem que seja preciso qualquer espécie de coerção externa, mas são ingênuos e até idiotas úteis ao confiar numa utopia social da realização terrena dessa máxima liberdade aliada a máxima obediência à justiça.

A Lei é feita para os que não a cumprem, de forma que possam ser separados, e o poder político serve para a defesa dos cumpridores da Lei contra os que a violam, ou seja, para a manutenção da paz e da ordem social. O poder é uma necessidade da realidade política do ser humano.

Não existe a opção de não dividir a população entre poucos governantes e muitos governados. Só existe a opção entre a lei e ordem e a total anarquia.

Dentro da opção pela lei e a ordem, por sua vez, existem várias opções que não farão tanta diferença na forma de exercício concreto do poder político, mas tão somente nos critérios de reconhecimento da autoridade que possuirá o poder.

Tradicionalmente, o critério é a nobreza, não em termos formais, mas em termos morais reais. O mais virtuoso pelas suas ações em defesa da comunidade contra a injustiça, o mais justo e nobre, deve ser o governante.

Se os herdeiros do governante justo são educados por ele para sucedê-lo em suas responsabilidades morais, o direito consuetudinário poderá reconhecer os privilégios legais de sua hereditariedade, exatamente como sempre ocorreu na Antiguidade e na Idade Média, e ocorre até hoje em algumas nações, sendo a tirania igualmente exposta historicamente como um mal real a ser combatido, ou seja, nunca o que é herdado por direito supera a exigência moral real do governante diante de seus governados.

Modernamente, já não é tão fácil proclamar o “Sic semper tyrannis”. E a dificuldade dependerá de qual critério de autoridade se usará para a escolha do governante, critério este que pode cair ao nível de escolha do vencedor de um reality show. Dentro de uma tirania tipicamente moderna, do tipo que nós vimos nascer com o Século XX, a burocracia estatal pode ser absolutamente infernal e impossível de ser vencida, e os líderes poderão ser quase que invencíveis em seu poder ditatorial. Um nobre pode suceder a um Rei tirano deposto justamente, mas se o Rei e os nobres foram mortos, a quem restará a possibilidade de governar? Aos ricos. Mas os burgueses também poderão ser caçados um por um, até que não reste nenhum outro poder senão o próprio poder de matar, de passar o pescoço das pessoas na guilhotina. E este será o poder do Estado totalitário moderno: o de matar sem limites, o de criar um sistema genocida. E esta é a tirania perfeita, porque onde estão os nobres ou os burgueses que tenham poder suficiente para derrubar um ditador totalitário dos tempos modernos? A última salvação possível é uma invasão externa, e mesmo esta solução não é sempre garantida, dados os projetos mundialistas do globalismo ocidental e do movimento internacional comunista.

Deixar de lado tudo isto e dizer simplesmente que o sistema representativo “divide a população” em poucos que governam e muitos que são governados não passa de uma propaganda revolucionária bem vagabunda, de nível tão primário que dá vergonha de ler. Esse é o vício central do texto de Kist e Tanji. Eles querem gerar o mal-estar contra a realidade política em sua substância permanente, ou seja, contra o próprio poder político, e infelizmente o fazem a favor de uma mentalidade que favorece o maior totalitarismo de todos, o dos esclarecidos da nomenklatura, embora não possa dizer se o fazem com consciência ou como useful idiots.

Os autores elogiam o avanço da chamada “democracia participativa”, com exemplos como o do Podemos na Espanha, e do Partido de la Red, na Argentina. Essa concepção é igualmente ingênua e perigosa.

O Zé das Couves, nosso já ilustre personagem que nos acompanhou ao longo desta análise, simplesmente não tem as condições reais para entender nem dez por cento dos problemas sérios do país. Então ou a democracia participativa dirá respeito a coisas insignificantes da vida comum, ou ela só funcionará para os assuntos relevantes mediante a atuação de agentes políticos intermediários que facilitem as escolhas para o povo mal informado. Na URSS estes eram chamados de “Comissários”.

O texto termina, mas permanece a nossa questão levantada pelo colega amigo e aluno: como lidar com o problema da representatividade política?

Em grande parte, mas não em tudo, eu creio que o problema não existe.

O que existe é a inconformidade com o conceito de autoridade política.

Esta é a raiz de toda revolução: só reconhecer a autoridade destrutiva de quem é contra todo tipo de autoridade. E é isso o que a Revolução Cultural do Século passado fez no Ocidente, não só questionando a concepção de que algumas pessoas possam ser, no campo da política, nobres e moralmente melhores do que as outras de fato e, portanto, merecedoras da autoridade e do poder, mas negando que esta superioridade exista em qualquer campo da vida humana.

A revolução começa com o líder revolucionário coletando o seu lumpenproletariat nas sarjetas, hospícios, prisões e exílios: porque devemos oprimir essas minorias, em nome de que autoridade? A mentalidade revolucionária é, portanto, fundamentalmente desordeira e moralmente anárquica; porém como o poder político não pode ser realmente extinto de forma alguma, ele acaba sendo usado como ferramenta da perpetuação dos revolucionários no poder. É a nova realeza selada não pelo direito e pela idéia de justiça, mas pela força das armas e da burocracia: é a lei da selva imperando dentro da polis, o que é o mesmo que barbarismo.

Os autores não por acaso colocaram no fim do texto a seguinte frase do professor Luis Felipe Miguel: “Só há uma lei universalmente válida que a ciência política foi capaz de estabelecer em toda a sua história: se dependermos da boa vontade de quem tem poder sobre nós, estamos lascados”.

Mas a dependência voluntária da boa vontade de quem tem o poder se chama “vontade de Justiça” e a política bem sucedida é exatamente a realização desta virtude!

O citado praticamente confessa, com sua afirmação, que a sua “ciência política” é a própria negação da política, porque é a negação da legitimidade da autoridade de quem tem o poder. E isto é obviamente a única “ciência” possível dos nossos especialistas educados pelo desconstrutivismo moderno: a negação do seu próprio objeto.

Se não existe autoridade política realmente reconhecível, ou seja, baseada em uma virtude moral real, então a política é uma atividade tão arbitrária quanto a vida anárquica na selva ou nas cavernas. A afirmação científica do professor Luis Felipe de que “estamos lascados”, no entanto, procede no seguinte aspecto: não suportando mais reconhecer a autoridade real dos portadores da virtude, nós nos submeteremos a autoridade arbitrária daqueles que nos anunciaram o fim da “boa vontade”, ou seja, os próprios anunciadores da Revolução.

Se em alguma medida existe um problema real na representatividade política, este deve ser enfrentado de forma mais prudente, a começar pelo custo estratosférico das campanhas, que é absolutamente inadmissível e constitui a própria transformação da política num show de horrores, e também pelo próprio estatismo que transforma o Governo numa espécie de Eldorado perseguido por todas as potestades do universo. O Governo não pode ser um pote de ouro sempre disponível para a tentação da cobiça; mas ele também não pode ser assistencialista e não ser um pote de ouro tentador ao mesmo tempo. A sociedade brasileira precisa saber disso.

A mínima investigação do background histórico simplesmente não nos permite avançar mais do que isso sem antes refletir nas características concretas do país em geral e da classe política em particular.

Particularmente, como já disse em outras ocasiões, a solução do problema político no longo prazo se chama “Educação”, e o problema da educação se chama “interesse pelo conhecimento” e, em última análise, “amor pela sabedoria”.

Enquanto os brasileiros em geral desprezarem a inteligência e marginalizarem quem dedica sua vida à obtenção dela, o país estará fadado ao fracasso, haja quantas reformas políticas houver. Porque estarão expulsando de seu convívio justamente aqueles que podem compreender a realidade na qual que vivem.

Enquanto as melhores pessoas, em todos os campos, forem marginalizadas e ignoradas no país, enquanto prosperar o gelatinoso prestígio grupal e corporativista nas universidades e na mídia que protege a inépcia e o ideologismo criminoso, enquanto o reconhecimento dos títulos, do prestígio, da fama e do sucesso for maior que o reconhecimento de méritos e autoridades reais, o país não só será condenado ao fracasso total, mas o merecerá.

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16/09/2016

O fato de a série Narcos ser produzida na mesma ocasião histórica em que líderes das FARC avançam para o campo político buscando ser aceitos como participantes legítimos da disputa democrática dificilmente é pura coincidência.

Que a série não seja muito mais do que a glamourização de conduta criminosa (como aquela outra que fez sucesso, Breaking Bad), não é uma novidade dado o histórico do show business ocidental, instrumentalizado pela Revolução Cultural. Mas o timing chega a ser revelador por si próprio, de uma produção que segue também uma iniciativa sincronizada com uma determinada agenda política, e não somente a agenda genérica da destruição da civilização no longo prazo.

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Não exagero quando falo da “destruição da civilização”. Apenas o completo esquecimento ou ignorância dos fundamentos da própria civilização podem fazer parecer um exagero essa denúncia. Simplesmente não se deve usar os meios de disseminação de cultura para mostrar e reverenciar os piores tipos de vida e de conduta, mas deve-se fazer justamente o contrário.

A não ser que você esteja querendo destruir uma civilização, é claro.

Aí faz todo sentido você desmoralizá-la completamente e fazê-la esquecer de todos os seus méritos e conquistas.

Este é o plano dos revolucionários, e dentro disso Breaking Bad ou Narcos atendem perfeitamente o objetivo, e o fazem até com alguma sutileza ou sofisticação, como se apresentassem dramas humanos muito autênticos e completos, não restando referência moral superior ao nível do seu entendimento.

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Além de Dilma, parece que é mesmo necessário este espetáculo da expiação desse ícone político chamado Lula, para que se complete o ritual de restabelecimento da “ordem” no país, ou seja, da manutenção do estamento burocrático no poder.

Não tenho nada contra o MP denunciar Lula, e nem mesmo contra eles fazerem isso com uma apresentação em PPT transmitida ao vivo na Globo. Tudo isso é satisfatório.

Mas eis a questão: até onde esta satisfação saciará a vontade de justiça do povo? Quem terá efetivamente o poder nas mãos neste país? Será um grupo de pessoas realmente diferente daquele que orquestrava Dilma, Lula e o próprio PT?

A nossa satisfação com a condenação do bandido Lula não pode ocultar o fato de que a satisfação do povo pode ser usada contra ele, como um amortecedor da realidade política do país.

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O Primeiro Mandamento é “primeiro” em todos os sentidos, é a perfeição da conduta humana, e o Segundo Mandamento dele deriva como uma necessidade ontológica.

Muitos males podem derivar de uma caridade falsificada, da ocultação de vícios por trás da justificativa de cumprimento do Segundo Mandamento, mas isto é absolutamente impossível de acontecer se o Primeiro Mandamento é obedecido.

A raiz da perfeição humana e a sua finalidade é o louvor a Deus acima de todas as coisas; amar o próximo é ajuda-lo a viver livremente o mesmo louvor. A menor esmola do mundo é a maior das alegrias quando aquele que a recebe diz: “graças a Deus”. E este é o fim da caridade humana: aliviar o sofrimento, ajudar os necessitados, e com isso apontar a infinita misericórdia de Deus que governa todas as coisas.

Com frequência, em nosso tempo conturbado, pode-se descobrir com espanto que por trás de intenções caridosas esconde-se a falta do amor a Deus; e que alegria vivemos quando redescobrimos a hierarquia real das coisas, e vemos acima do amor-próprio e ao próximo, a superioridade absoluta do amor ao Criador.

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Há uma pedagogia infalível no Gênesis que nos mostra a hierarquia inversa a esta que mencionei antes, dos vícios fundamentais que causam o mal no mundo. Destes vícios nós podemos remontar a duas verdadeiras tradições revolucionárias, uma que podemos chamar de luciferina, e outra que podemos chamar de cainita.

A revolução luciferina é aquela que põe o homem no lugar de Deus, é a revolução secularista, liberal, humanista, positivista, cientificista, etc. A punição pelo Orgulho é a pior de todas: perder a Graça de Deus. Equivale, simbolicamente falando, tanto à Queda de Lúcifer expulso do Céu, quanto à Queda de Adão e Eva expulsos do Paraíso. Ou seja, a pior coisa que pode acontecer é a perda da amizade com Deus e a cessação das Graças, o que corresponde ao maior de todos os erros: a negação da supremacia de Deus e a consequente desobediência. O Orgulho é a negação radical do Primeiro Mandamento.

A revolução cainita é aquela que rejeita o bem de Deus ao próximo e que se vinga contra os bem-aventurados agraciados por privilégios segundo a preferência de Deus com todos os males possíveis. Preferencialmente o homicídio, que é a forma mais total e absoluta de negação do bem ao próximo, porque a morte do invejado impede o usufruto de quaisquer outros bens (como disse o Heydrich naquele filme sobre a famosa Conferência de Wannsee, “a morte é a forma mais confiável de esterilização”). É a revolução sanguinária, comunista, nazista, socialista, etc., que objetiva a destruição do usufruto de todas as Graças e de seus bens derivados. A punição pela Inveja é a perda da comunhão, é o estado perpétuo de inimizade e de guerra entre os homens, e consequentemente o estado de miséria e de fome, porque os que não vivem em paz não podem prosperar (qualquer semelhança com a situação de muitas nações modernas não é mera coincidência). Equivale, simbolicamente falando, ao assassinato de Abel por seu irmão Caim. A perda da amizade e da comunhão dentro da grande família humana, a que pelo Advento podemos chamar de Igreja, é a punição pela Inveja (“De ora em diante, serás maldito e expulso da terra, que abriu sua boca para beber de tua mão o sangue de teu irmão. Quando a cultivares, ela te negará os seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra”). A Inveja é a negação radical do Segundo Mandamento.

Nós sabemos que individualmente os antídotos para esses males primevos são as virtudes, especialmente a Humildade e a Caridade.

Mas coletivamente é inegável a consecução histórica dessas tradições malignas nas mais variadas formas, e a sua institucionalização moderna estabelecida especialmente pela Revolução Cultural, de tal forma que não nos basta apenas a fundamental conversão individual, mas parece ser necessário o trabalho contra-revolucionário e contra-cultural que permita a identificação social da origem desses males na perda da Humildade e da Caridade, e na entronização do Orgulho e da Inveja que abastecem essas revoluções.

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Terminei de assistir ontem o documentário Holy Hell sobre o culto New Age chamado Buddhafield, liderado pelo guru chamado Michel (depois chamado de Andreas). A figura deste líder é a de alguém possuído por um demônio, de tal maneira que não é totalmente adequado chamar os seus seguidores de completos idiotas, embora eles pareçam ser isso o tempo todo.

Mas duas coisas me parecem imperdoáveis: 1) que eles tenham dado um jeito de exilar o bandido no Havaí ao invés de acusa-lo publicamente de seus crimes; 2) o sentimento de algum tipo de gratidão por experiências e aprendizados mostrado no fim do filme, o mesmo filme que acabou de mostrar a completa farsa que era aquela busca espiritual.

As pessoas que confundem os seus processos internos de busca sincera e de abertura para o aprendizado com os meios práticos de busca da sabedoria inevitavelmente atribuirão valor ao que não é devido, cedo ou tarde. A estupidez de quem mergulhou no New Age chegou a tal ponto que a mais descarada conduta criminosa não pode ser reconhecida, simplesmente porque as maiores testemunhas dela não suportam admitir que depositaram sua confiança e sua estabilidade emocional nas mãos de um manipulador inescrupuloso.

Se querem saber, essa covardia consegue ser mais impressionante do que o próprio mal. O mal é o mal, não é exatamente uma surpresa que tenha a sua natureza perversa, embora nos traumatize os feitos desta perversidade, é claro. Mas a fraqueza moral dos bons e dos inocentes é absolutamente assustadora.

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O pior é que o tal de Jaime Gomez (o verdadeiro nome do filho da puta líder do Buddhafield) atuou no sinistro O Bebê de Rosemary, dirigido pelo sinistríssimo Roman Polanski.

Belo currículo.

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O Canal Terça Livre, do Youtube, divulgou um texto do Jorge Martinez Barrera, intitulado Génesis Teórica del Estado. Ficou mais clara do que nunca, se é que me restavam ainda muitas dúvidas a respeito, as diferenças entre Governo, Nação e Estado.

A noção de Governo é elementar e inferior às demais: é a mera Administração daquilo que é público, ou seja, daquilo que não é administrado por nenhum integrante da comunicade em particular. É claro que quando falamos nos Governos das nações modernas estamos falando de instituições imensas, ricas e poderosas, mas este tamanho não muda a natureza essencial do que é o ser de um Governo, ou seja, a essência de servir a uma ordem social estabelecida.

A noção de Nação é mais ampla embora seja historicamente simples de se rastrear: é o conjunto de famílias unidas desde uma mesma tradição originária. Veja, e é importante notar, que não estamos falando de territórios, de leis, de costumes, de línguas e dialetos, e nem de características raciais. Todas essas coisas orbitam ao redor da noção de Nação, sem no entanto lhes configurar uma estrutura fixa. Uma Nação estaria mais próxima de ser um “povo” do que qualquer outra coisa, mas mesmo este termo não é sinônimo perfeito, porque uma mesma Nação poderia abrigar povos distintos, por exemplo no caso de uma Nação nova formada eminentemente por imigrantes nós reparamos isso com facilidade. Este será, ainda assim, um conjunto de famílias unidas desde alguma tradição originária, mesmo que esta tradição seja relativamente mais fraca, como a de um povoamento mais recente.

Quanto ao Estado, esta é a noção peculiar que entrou no estudo de Barrera, mas que posso citar por ora como a noção de uma entidade jurídica e abstrata que possui e exerce poder real através de seus ditos representantes históricos.

Vejamos algumas partes do documento. Em alguns casos Barrera cita autores relevantes dentro das concepções de “Estado” ou de “Soberania”, nestes casos citarei o autor.

Una república, en el sentido romano, no es un Estado, aunque tiene un estado, una condición determinada. Lo que sucede, desde el punto de vista histórico, es que esta república, o em todo caso la comunidad política, tiende a transformarse, mediante los procesos de secularización, em uma nueva institución cuya denominación ya no tiene el carácter de transitoriedad o de relativa provisoriedade que existe cuando se habla de ‘status rei publicae.” Ou seja, a provisoriedade do status da comunidade política organizada (justamente aquilo a que me referi quando falei da falta de fixidez no termo “Nação”), que bate muito bem com a noção da transitoriedade natural de tudo o que é secular –a “Cidade dos Homens”, diria um Santo Agostinho–, é gradativamente negada conforme o processo de secularização da sociedade torna a entidade nacional mais concreta juridicamente.

Uma República, portanto, pode aceitar a autoridade temporal transitória, ou seja, que o representante da Nação seja agora este e depois aquele, permitindo aliás que as formas de organização política mudem conforme esta mesma transitoriedade. O Estado moderno, porém, não poderá aceitar tão facilmente esta realidade, de vez que a regra de sua natureza é o rigor de um direito, tão mais firme quanto mais for positivo, uma situação que obrigará, por exemplo, algumas populações modernas a aceitar a sua submissão a grupos criminosos por força legal. Um déspota de antes da modernidade poderia ser tão criminoso quanto qualquer um de hoje, mas ele não tinha a seu dispor o estamento burocrático, o próprio Estado como personificação da sua tirania. Ou seja, na modernidade nós descobrimos Estados criminosos. Antigamente podia haver Governos criminosos, mas estes eram necessariamente transitórios e por trás deles sobrevivia a Nação, ou seja, o conjunto das famílias com suas tradições. A modernidade inaugurou a possibilidade horripilante de um Estado que submete a Nação, porque a engole dentro do seu ordenamento e da sua soberania.

Vejam este trecho citado de Kant em sua exposição sobre a idéia da pax perpetua: “El asunto, pues, no es el de saber cómo se puede mejorar moralmente a los hombres, sino cómo podemos servirnos del mecanismo de la naturaleza para dirigir de tal forma el antagonismo de sus disposiciones hostiles, de tal modo que todos los individuos de un mismo pueblo se obliguen entre a someterse a leyes coercitivas y establezcan en consecuencia un estado de paz donde las leyes estén em vigor”. Para a mente doentia de Immanuel Kant a paz é o resultado da coerção de um povo a leis que o obrigue ao apaziguamento de suas “disposições hostis”. A premissa antropológica de Kant é parecidíssima, senão idêntica, com a de Hobbes, sendo o ser humano um animal maligno a ser domesticado pela “Razão”. Só não é dito de onde sairá esta tal razão, já que o homem é um animal naturalmente hostil, violento, etc. E definitivamente a possibilidade racional é dada como desligada da moralidade humana, dado que Kant começa o trecho referido afirmando justamente que o problema político “não é o de saber como se pode melhorar moralmente aos homens”. Então o homem governará racionalmente sobre o homem através de uma ciência totalmente distinta da noção de melhoramento moral. É o exato inverso da concepção clássica da política, reafirmada pela sabedoria medieval, de que o fim da política é a felicidade humana e de que isso se realiza através do incentivo das virtudes e do bem comum, algo realizado evidentemente por uma autoridade que encarne o máximo possível essas qualidades (vejam, por exemplo, esta citação feita de São Tomás de Aquino, devastadora e definitiva: “es inposible alcanzar el bien común de la comunidad si los ciudadanos no son virtuosos, al menos los gobernantes; porque en cuanto a los otros, basta para lograr el bien común que sean virtuosos en lo tocante a obedecer a quien gobierna”).

Por isso o Estado moderno poderá tranquilamente violar a moral, pois não possui consideração ética de nenhuma espécie, submetendo-se apenas a legitimidade racional do seu corpo jurídico autofundante. Pode parecer estranho, mas isto nada mais é que uma DESGRAÇADA de uma macumba. Veremos isto mais adiante.

Leiam, a respeito do Estado, esta passagem citada de Max Weber: “El Estado moderno es una associación de dominación con carácter institucional que ha tratado, con éxito, de monopolizar dentro de un territorio la violencia física legitima como medio de dominación y que, a este fin, ha reunido todos los medios materiales en manos de su dirigente y ha expropiado a todos los funcionarios estamentales que antes disponian de ellos por derecho propio, sustituyéndolos por sus propias jerarquias supremas”. Ou seja, uma entidade abstrata, etérea, reuniu em nome da Lei todo o poder de firmar-se solitariamente obtendo para si todos os poderes que eram antes localizados no corpo da sociedade em autoridades diversas, os chamados agora de “funcionários”. Esta entidade fez-se somente sob uma determinação legal, uma realidade jurídica amoral, que pode ser fundada sobre virtudes heróicas tanto quanto sobre sangue, golpes e trapaças.

Vejam que a distância existe entre Nação e Estado.

A Nação é uma família real, onde o poder é diluído nas autoridades reconhecidas moralmente, todo interesse é considerado privado e portanto tudo tem dono (ou, melhor, não há nada que não tenha dono), e onde as autoridades e posses são correspondentes às suas respectivas responsabilidades.

O Estado é uma entidade jurídica ideal onde o poder é concentrado nas mãos de seus representantes, por legitimidade puramente legal, onde há portanto a coisa pública (indeterminadamente expansível, reparem) e onde é possível haver uso de poder sem a consequente responsabilidade, pois tudo ocorre por determinação legal e não por uso de autoridade.

A diferença é brutal, é como a que há entre ser criado em uma casa de família por pai e mãe e ser criado num campo de concentração nazista onde tudo ocorre por determinação de um escritório em Berlim.

Quando o autor vai falar de soberania, fica clara a desumanidade do procedimento político moderno: “Cualesquiera sean las diferencias en rango social, la soberania iguala a todos los que le están sometidos. Frente a ella, el ciudadano se despoja de su condición de amo, de jefe, o de señor”. Ou seja, todas as distinções reais entre as pessoas, distinções essas baseadas em fatos e histórias reais, são desprezadas pelo ente abstrato chamado Estado, que terá o poder real para fazê-lo, já que obteve o monopólio amparado pelas leis. O que você tem aqui é um demônio tomando conta de tudo, é isto a “soberania estatal”.

Outro trecho relevante de Barrera, rastreando a história da desgraça: “Corresponde a Thomas Hobbes, de todos modos, el merito de haber elaborado la sistematización del concepto de soberania. Todos los terminos latinos que se aproximaban al mismo son reunidos por Hobbes bajo una misma significación. Summa potestas, summum imperium, dominium, son traducidos al inglês diretamente por sovereignty”. Junto com Maquiavel (concebendo o Estado amparado por leis advindas do arbítrio do poder e não da moral), Hobbes é o grande pai da porcaria da tal da “soberania”. Neste contexto como pode a lei natural determinar as leis do Estado se ele é soberano, ou seja, não reconhece quaisquer autoridades externas ao poder legal que o determinou? Se o Estado não é fundado por uma lei escrita por uma assembléia de anjos, mas justamente de homens falíveis, isto significa que nós estamos mal arrumados nas mãos de quaisquer vagabundos que disputem o poder inescrupulosamente, ou melhor ainda, maquiavelicamente. Vejam a sabedoria da noção tradicional de Nação, que deixava na transitoriedade do poder a garantia da possibilidade de corrigir um mal caminho trilhado, sem que o mal tivesse se cristalizado em leis que legitimassem a sua perpetuação pela soberania monolítica e invencível de um Estado.

Qui bono? A quem beneficia a possibilidade de entronizar leis maléficas que permitam ao Estado institucionalizar e sistematizar o mal contra suas próprias populações?

Eis a questão. Se eu disser que é uma entidade sobrenatural, vocês vão me chamar de apelador, de anticientífico? Bom, o problema é de vocês, não é meu. Eu só estou tentando identificar a situação. É como aquele texto que escrevi faz um tempo no site do Luciano Ayan: se os próprios líderes revolucionários vivem numa paranoia total e são irremediavelmente assassinados uns pelos outros numa sucessão interminável de golpes e conspirações, QUEM está realmente ganhando com o assassinato das milhões de pessoas que vivem debaixo dessas ditaduras sanguinárias? É claro que é o demônio. É como a questão do aborto: achar que o assassinato de milhões de bebês inocentes é algo espiritualmente irrelevante é uma temeridade. Vejam que não é preciso sequer apelar para o satanismo particular dos líderes revolucionários, ou dos abortistas; porque quer estes saibam ou não, estão de fato servindo a uma agenda maligna com identidade espiritual bem definida.

Em um determinado trecho citado de Hobbes, parece que nós estamos diante do momento da assinaura do próprio pacto com o demônio: “autorizo y abandono el derecho a gobernarme a mismo, a este hombre, o a esta asemblea de hombres, con la condición de que abandones tu derecho a ello y autorices todas sus acciones de manera semejante. Hecho esto, la multitud así unida en una persona se llama REPÚBLICA (Commonwealth), en latín CIVITAS. Esta es la generación de ese gran LEVIATÁN”. É o pacto e é o próprio parto do demônio, substituindo o processo natural de reconhecimento moral da autoridade. Reparem que Hobbes e Kant unem-se na concepção de que o cidadão moderno deve reivindicar seus juízos morais para submeter-se às leis do Estado soberano. A justificativa é o fim da violência, é a paz a qualquer custo, o término das “guerras de religião”, etc.

O que nós temos que fazer hoje é a contabilidade algo mórbida dos milhões de cadáveres criados pela soberania estatal moderna e imaginar se seria possível algo assim antes do advento da laicidade, e ao mesmo tempo nos perguntar: será que pelo menos o objetivo de garantir o fim da violência e a paz perpétua se realizaram? Não! Nem isso. Ou seja, não fizeram nada do que prometeram, nada! Apenas criaram um problema a mais para nós resolvermos.

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19/09/2016

Olavo afirma que “a democracia é a arte de produzir uma ditadura sem nem perceber”. Ele tem razão, contanto que se perceba que esta “democracia” é a democracia no sentido mais moderno e radical, totalitária por assim dizer, e por mais contraditório que isso pareça, porque é a ditadura da maioria que pode ser facilmente manipulada por grupos de interesse, esses sim os beneficiários últimos dos sistemas ditatoriais. A base de comparação é a democracia que reconhece uma aristocracia ou uma elite política, onde a manipulação da maioria é repelida por uma representação política genuína baseada em autoridade de valor MORAL publicamente reconhecida.

Em suma, a democracia funciona quando a autoridade real pode ser livremente reconhecida pela maioria. Quando ela é baseada no princípio político da igualdade total, porém, os demagogos e psicopatas tomam o poder, pois usam de artifícios inescrupulosos que lhes dão vantagens na disputa, já que os agentes de qualidade moral superior evitam ou se recusam totalmente a usar destes mesmos meios.

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A Filosofia Política fornece os princípios que definem e limitam a atividade política.

A Ciência Política, por sua vez, fornece os critérios de reconhecimento das causas do poder político.

Os princípios de Filosofia Política provêem de uma Sabedoria que transcende o mundo, enquanto as leis da política concreta provêem das formas reais de obtenção e transmissão do poder dentro da transitoriedade e da acidentalidade deste mundo. Como esses dois universos vão se encontrar?

No princípio da Autoridade.

A autoridade moral é o que pode conferir a um líder político a legitimidade para o governo. Toda comunidade, no entanto, é livre para reconhecer ou não a autoridade real de um potencial representante.

Daí que alguém pode obter o poder sem ter a respectiva autoridade, e alguém pode ter a autoridade sem com isso obter necessariamente o poder.

O ensino da Filosofia Política permite o reconhecimento dos princípios e das finalidades últimas da atividade política, e consequentemente permite o reconhecimento da autoridade moral quando esta surge no seio da sociedade. A Ciência Política, por sua vez, permite o reconhecimento das causas reais da obtenção do poder por determinado indivíduo ou grupo, independentemente da questão da autoridade, ou seja, independentemente da questão moral.

Alguém poderia me dizer que essa função da Ciência Política é particularmente maquiavélica, sendo apenas uma forma moderna de estudo da realidade política, contrária até ao que se apreende da filosofia clássica e escolástica, que vai sempre coadunar o poder temporal com a ética transcendente.

Mas isto é a confusão já entre a filosofia e a ciência, confusão essa que de algum modo originará a monstruosidade do “Rei Filósofo” como possibilidade real, ou o führerprinzip no exemplo nazista. Não só é possível fazer a separação entre Filosofia e Ciência, como isto é necessário justamente para a compreensão de que Autoridade e Poder são realidades distintas.

Um governante justo é aquele que, com a autoridade moral, obteve também o poder. Mas esta é uma relação acidental. Se tratarmos esta relação como necessária, refundaremos o racionalismo humanista revolucionário. Não só é acidental que um governante justo obtenha e mantenha o seu poder, como é acidental que ele continue sendo um governante justo, de vez que o seu governo está submetido à transitoriedade do mundo.

A busca pela infalibilidade política é a raiz do mal político. Ou, como Olavo já disse várias vezes, o mundo estaria bem se não houvesse tanta gente querendo melhorá-lo.

Por que tantas pessoas são incapazes de aceitar esta realidade transitória e imperfeita do governo das coisas terrenas? Porque não aceitam a Revelação e consequentemente não aceitam a sua participação na Cidade de Deus, para usar o termo agostiniano.

A Babilônia nunca será Jerusalém.

Esqueça-se disso e logo mais você estará adorando os falsos deuses babilônicos.

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Não faz sentido nenhum pedir em oração “et ne nos inducas in tentationem” e ao mesmo tempo confessar como um mal a impotência de eliminar a tentação da vida humana. Você não pode pedir ao mesmo tempo a força de resistir a algo e a força para causar a sua eliminação. Nós pedimos força para resistir à tentação, não a força para causar o seu fim: porque eliminar a tentação é de certa forma um desejo de morte, é uma recusa do carregamento da cruz, é uma recusa da santidade de resistir ao mundo, é uma recusa da alegria de viver seguindo e obedecendo a Deus e desprezando o erro. É uma forma de angelismo, ou de gnosticismo, uma lamentação pela criação da natureza humana. É quase como um endosso da opinião de Lúcifer sobre o ser humano. Não à toa, o pedido do Pai Nosso continua e termina com “sed libera nos a malo”. Você pede para ser liberado do mal, e não da vida humana! Porque há no fundo daquilo que nos tenta um bem ou uma beleza corrompida e distorcida pelo mal, corrupção essa que recebemos espiritualmente na forma da tentação. Pedir que deixemos de ser tentados equivale a pedir, no fim das contas, que não exista aquele bem que o mal perverteu para nos tentar. É uma recusa da bondade da Criação, ou pelo menos uma recusa da realidade da Queda de Adão. Mas Deus não falhou, pois enviou seu Único Filho em Sacrifício para a Redenção de Adão e de todo o gênero humano. Eis a beleza do Evangelho, eis porque é uma boa notícia: aquela tristeza pela Queda já foi vencida, basta seguir Jesus e amá-Lo pelo que fez por todos nós. Por isso que temos que manter-nos na presença Dele, por isso que temos que louvá-Lo o tempo todo, porque ele é o único Caminho. Se eu começar a me lamentar porque continuo sendo tentado, estou me esquecendo da Redenção, estou me esquecendo da receber Deus no meu coração, estou me queixando de não ter um poder que não é meu. A solução para isto sempre será a entrega aos atos de piedade, entre os quais especialmente a oração sincera. E a prova da sinceridade cristã é uma alegria imensa, pois que raio de boa notícia seria essa se nos deixasse apenas tristes e inconsoláveis? A nossa tristeza é uma parte do processo do reconhecimento de Deus em nossas vidas, principalmente do quanto precisamos Dele, mas não é a sua finalidade, é um meio de caminho; assim como a Paixão não é o cume da Revelação, e sim a Ressurreição. 

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Só não apago meu texto Uma direita à brasileira porque ele serve no mínimo para mapear a evolução do meu aprendizado, especialmente, por contraste, do quanto pude aprender nos últimos dois anos. Renego quase todos os conceitos relacionados ao liberalismo naquele documento. Eu via as coisas pela metade: reconhecia o mal da revolução cainita, mas ainda não enxergava a amplitude da revolução luciferina.

De certa forma esses erros já foram resolvidos, especialmente no texto Sobre a Igreja da Consagração da Rússia.

Ainda assim, na época não enxergava o grau da malignidade do liberalismo.

Há em nossas mentes uma forte resistência contra a dúvida daquelas coisas que parecem nos sustentar psicologicamente, e nós só conseguimos enfrentar esse tipo de problema quando enxergamos uma estrutura maior e mais fundamental por trás, na qual estamos mais absorvidos do que na anterior. Daí fica até engraçado porque diante da simplicidade estrutural do realismo filosófico o liberalismo parece uma tagarelice sem fim, uma conversa de vendedor de carro usado.

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Uma curiosidade meio mórbida me levou a pesquisar um pouco sobre a sinistríssima figura de Albert Pike. Eis que vejo pela primeira vez, passando o olho em algumas resenhas de Moral e Dogma, que os termos “graus”, “aprendiz”, “mestre”, etc., são bastante comuns nesses assuntos maçônicos. Se eu soubesse não teria usados esses nomes para designar aquelas evoluções na busca da virtude da Sabedoria, porque a relação entre o que eu meditei e os conhecimentos maçônicos é igual a zero. E tudo o que eu não quero é ser confundido com essas maluquices.

É isso o que dá ser às vezes mais crtiativo do que estudioso. O que me consola é que eu conheço minhas intenções, e se não posso realmente me orgulhar de minha ingenuidade, ao menos não preciso me envergonhar dela.

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Leio um artigo de Paul Krugman no New York Times de 27 de Agosto chamado “No, Donald Trump, America isn’t a hellhole”, já esperando pelo pior, e fico surpreso com os primeiros dois terços do texto.

Krugman é um Nobel, e o NYT é um órgão do globalismo. Essa soma pode dar certo?

Sempre pode, porque a mentira dá trabalho e às vezes a verdade aparece sem querer. E assim eu ficava animado com a crítica de Krugman a candidatura de Trump. Com razão o autor critica a campanha do republicano pela inconstância, uma característica que se poderia até atribuir a Trump pessoalmente. Afinal, o que é um geminiano? É um vendedor, é alguém habilitado a gerar um enorme consenso no curto prazo, capaz de amanhã virar a página e dizer outra coisa completamente diferente, e ainda assim parecer coerente de alguma forma. Geminianos são ótimos argumentadores, para o bem e para o mal, ou seja, são ótimos consensualistas e são ótimos mentirosos também. Acreditam tanto no que eles mesmos falam que podem perder a noção da realidade eventualmente. São flexíveis em seu discurso e por isso agradam com facilidade dizendo o que os outros querem ouvir, porém a sua flexibilidade lhes custa a falta de convicções e, em relações de longo prazo, a falta de credibilidade. Trump não foge muito ao modelito, e as mudanças frequentes de sua campanha refletem esse seu perfil. Krugman acerta ao observar isso.

Acerta mais ainda ao avaliar que a mudança radical da retórica da campanha de Trump do problema econômico (principalmente empregos para a classe média) para o problema da criminalidade. Porque além de esta ser uma reviravolta nas prioridades da agenda política de Trump, ela estaria baseada em um problema que não existe. Krugman reconhece que a questão dos poucos empregos, que era alvo de Trump, é bastante real, especialmente os empregos do setor industrial. Mas a criminalidade simplesmente não tem as dimensões catastróficas que Trump alega em defesa do Law and Order. Mesmo a sensação de insegurança não está, estatisticamente, nos níveis alarmantes que justificariam o foco da campanha. A campanha republicana estaria, portanto, fazendo terrorismo.

É claro que isso precisa ser checado com dados concretos, mas como discurso é impecável, e cá entre nós é um belo jeito de atacar Trump sem ter que defender Hillary Clinton, algo cada vez mais difícil de ser feito.

Mas o problema é o último quarto do texto. Krugman apela a um suposto racismo de Trump como base fundamental de seu discurso, porque supostamente ele representaria menos os interesses dos não-brancos do que Obama e suas políticas. Por mais que dados pudessem também embasar parcialmente esta idéia (mas ainda sem justificar o suposto racismo, algo totalmente estranho às questões discutidas e imposto como pura arbitrariedade), Krugman mostra enfim, como é quase infalível acontecer com esquerdistas, que na verdade o racismo é dele: “today’s increasingly multiracial, multicultural society is a nightmare for people who want a white, Christian nation in which lesser breeds know their place. And those are the people Mr. Trump has brought out in the open”.

Já ouvi coisas parecidas aqui no Brasil. Ciro Gomes, por exemplo, acha que é bom o surgimento de candidatos como Jair Bolsonaro, porque isso ajudaria a desentocar os conservadores enrustidos da sociedade, essa verdadeira escória da humanidade. Tudo bem que este seja o nível de um Gomes; mas de um Krugman?

A esperteza asinina de Krugman é a de jogar no mesmo balde “brancos” e “cristãos”, uma mistura que atesta apenas a sua própria estupidez esquerdista e mais: a sua ineficácia. O que eu vi de negros cristãos nos EUA não está escrito no gibi, existem aos montes, organizados nos mais variados tipos de comunidade. E o problema fundamental da NOM não é racial (embora haja certamente saudosistas de planos duma eugenia racista entre seus líderes), mas sim religioso. Mais particularmente: o cristianismo. É difícil jogar as comunidades negras religiosas contra sua fé, mas é mais fácil grudar o rótulo de “cristãos” nos brancos e então gerar um tamanho ódio racial que faça os negros preferirem negar a sua fé do que se aliar com os branquelos cristãos liderados por tipos odiosos como Trump. Eu sei que isso parece infantil e bizarro demais, mas no fundo é isso que os caras querem mesmo, incentivar o racismo e então usá-lo como arma política. Não é uma novidade.

As pessoas que querem uma nação “branca e cristã” são evidentemente os supremacistas de organizações como KKK, White Power, etc., uma minoria demograficamente insignificante numa vasta nação de 300 milhões de habitantes como a dos EUA, e mais, uma nação do Mundo Novo, uma nação de imigrantes. Seria maravilhoso para os democratas ver Trump definitivamente encaixado neste grupo de ódio, mas ele certamente não está lá.

Krugman não faz melhor que esquerdistas brasileiros, embora pudesse. Como disse, seu artigo começou bem. Ele poderia, aliás, ser enfático nas propostas de Trump, e analisa-las em profundidade.

Mas se não faz isso talvez seja, quem sabe, porque teme que essas políticas sejam conhecidas de fato pelos seus leitores. É mais fácil usar uma argumentação bem chulé, do nível Folha de S. Paulo, e torcer para que as pessoas simplesmente acreditem nele.

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Não vou gastar o meu latim para explicar todo o luciferismo do artigo “The West’s intelectual history”, também publicado no NYT de 27 de Agosto. A crítica do livro de Steven B. Smith, Modernity and its Discontents usa aquela tosca régua cultural que zera a história do pensamento a partir de figuras como Descartes, e fala da vida baseada numa visão tradicional de mundo como “new forms of fearful rural populism and religious fundamentalism”. Sem comentários.

Os caras terminam dizendo que nós mal começamos a conhecer os desafios da modernidade e de sua radical promessa de igualiratismo e de esclarecimento universal. Quer dizer: tudo pode piorar, vocês ainda não viram nada.

Lembrando que em inglês o termo para “esclarecimento” é sinômimo também de “ilustração” e “iluminação”: “enlightment”.

Adivinha quem vem para jantar?

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Mal se pode abrir um jornal, brasileiro ou estrangeiro, que não reclame do Brexit como fenômeno que atrapalha o assim chamado “projeto europeu”.

O termo “projeto europeu” resume ao mesmo tempo o utopismo da mentalidade revolucionária e a agenda globalista que cria dificuldades para vender facilidades. Nunca os caras foram tão descarados quanto hoje. Na verdade, mais do que isso, estão ficando relaxados.

O homem comum deve cada vez mais ir às ruas e às urnas e dizer “eu não tenho projeto europeu, eu não tenho projeto nenhum, me deixem viver em paz!”.

O desafio da política moderna é como o de fazer um grande ritual de exorcismo.

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Eu não entendo a lentidão do pessoal que se diz conservador no Brasil.

Demoram duzentos anos para arriscar a afirmação de que o papel do Governo não é o de fazer a economia crescer.

E depois demoram mais duzentos anos para dizer que sem a restauração do catolicismo, o país estará irremediavelmente fodido.

Dom Bertrand, neste ponto, é mais rápido e incisivo: “ou se coloca Deus no centro de todas as coisas, ou não haverá restauração do Brasil”.

Ele está matando o assunto ao afirmar que o nosso problema não é econômico (como acredita o progressismo de todas as esquerdas), mas o do restabelecimento da autoridade moral que provém da tradição católica. É evidente que o reconhecimento público da própria autoridade monárquica depende disso.

Isso é ser conservador de fato, porque afirma claramente o que deve ser conservado.

Conservar é um verbo transitivo, porra!

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20/09/2016

Lá vem os augustos cavaleiros da inquisição montfortiana-fedélica de novo nos salvar das garras malignas do gnóstico, hegere e agora também cismático, Olavo de Carvalho.

O mais novo texto que veio para a nossa salvação se chama “A direita cismática e seu profeta Olavo de Carvalho”, assinado por Alberto Zucchi e Fernando Schlitler.

Ressalvados os erros gramaticais do texto, vamos tentar nos concentrar nas teses apresentadas.

A Montfort parece endossar a narrativa conspiratória que apresenta Olavo como um Sidi Muhammad Ibrahim que se transforma em católico anticomunista (provavelmente fingido, é claro) apenas para arregimentar seguidores para algum projeto sinistro qualquer. Esta narrativa já foi usada por todo tipo de gente, inclusive pelo vagabundo do Reinaldo Azevedo, porque afinal de contas para atacar Olavo vale tudo, inclusive apelar para os discursos acusatórios mais extravagantes e criativos. Para os membros da Montfort deve ser particularmente irritante que Deus use Olavo para levar tantas almas para a Igreja Católica, enquanto eles ficam, digamos, reduzidos à sua quase insignificância social. Vemos aqui as marcas da revolução cainita, a revolução da Inveja. E sempre em nome do bem, da doutrina verdadeira, e de tudo o que é santo no mundo, é claro.

Vamos tentar, ainda assim, nos agarrar às teses mais densas da nova acusação. De fato, algumas não poderão ser comentadas nem respondidas por mim.

Por exemplo, sobre as acusações que Olavo tenha feito contra o Cardeal Dom Odilo Scherer, eu não posso dizer nada porque não tenho o interesse suficiente de investigar.

Do mesmo modo, quando Olavo abertamente considera que Bento XVI é o Papa, e não Francisco, ele é quem tem que responder por suas considerações.

Eu sei que Olavo usa o Facebook como caderno de esboços. Ele vai escrevendo e organizando as idéias que depois saem em artigos, etc. Eu, particularmente, não sou tão fã dessa metodologia, embora confesse que tenha sido beneficiário de muitas jóias que nos foram dadas gratuitamente ali. Às vezes coisas de uma profundidade impressionante mesmo. Mas eu preferiria ler mais livros de Olavo, pessoalmente. Acho, aliás, que a horda de internet cansa e ocupa Olavo mais do que deveria, como já ocorria no True Outspeak depois do sucesso. De qualquer modo, é importante relevar essa metodologia de trabalho. Pode não ser a de nossa preferência, mas é assim que funciona porque foi a escolhida pelo próprio Olavo. É claro que se ele é uma pessoa publicamente exposta, um formador de opinião, até certo ponto ele tem que assumir a responsabilidade pelas coisas que diz, mesmo que estas sejam ditas dentro de um trabalho especulativo especialmente orientado para seus alunos. O limite desta responsabilidade é o que ele próprio afirma quando recebe essas acusações: ninguém o consulta formalmente sobre os assuntos. Neste sentido Olavo talvez seja o personagem público mais acusado e condenado in absentia na história do país, senão das galáxias. E é por isso que não há vida intelectual no Brasil: ninguém quer subir ao nível de uma verdadeira discussão, de um debate público. E olhe que isto seria relevante e todos sairiam ganhando, afinal num país com tantos católicos as considerações sobre a autoridade de Francisco fariam naturalmente parte da literatura da época em que vivemos e certamente poderiam enriquecê-la. Mas para que refletir e debater, se é possível proceder imediatamente a uma condenação sumária? Para que perder tempo com uma coisinha chamada justiça, se é possível arrogar-se uma autoridade divina que dispense a atividade do discernimento? É para isso que serve a “autoridade da Igreja”, na cabeça desses montfortianos-fedélicos?

Imagino que me responderiam que Olavo é que não aceita debate de nenhuma forma, que ele apela, insulta, etc., como tantas vezes já foi acusado; mas isto teria que ser demonstrado na discussão do assunto em questão e não dado como pressuposto para justificar esse modo de se proceder. Simplesmente não é justo usar acusações pretéritas para legitimar a imaginação da conduta presente do acusado. Será que é difícil mesmo compreender a injustiça deste procedimento?

E no fim a irrelevância dessas iniciativas beira o tédio. Quem odiava ganha apenas mais uma desculpa para odiar.

Mas é preciso, ainda assim, entrar em cada um dos miseráveis assuntos. Sobre a quesdão de D. Odilo e do suposto cisma contra o Papa Francisco, já falei que não posso falar. Não tenho opinião sobre essas coisas e não quero ter, muito obrigado.

Sobre a questão da invalidade ou não dos sacramentos realizados por padres excomungados latae sententiae, eu até me interesso, mas não tenho autoridade para falar porque não tenho conhecimento do Direito Canônico para formular uma opinião a respeito. Mas esta é de fato uma questão importante. Não sei sequer se Olavo afirmou taxativamente a invalidade de Sacramentos nestas condições, e os autores do texto não publicaram evidências neste sentido.

A coisa começa a ficar interessante quando os acusadores mencionam as condenações do documento Lamentabili sane exitu, produzido pela Inquisição Romana e referendado pelo Papa São Pio X no Motu Proprio Praestantia Scripturae. Os acusadores mencionam o documento e afirmam que Olavo apresentou frontalmente idéias que são condenadas pela Igreja conforme estes documentos que foram citados. E como agravante, Olavo fez suas afirmações em uma aula de seu Curso História Essencial da Filosofia, que foi publicada inclusive com a respectiva transcrição. Resta, evidentemente, a ressalva de que um trabalho de filosofia especulativa é um trabalho de filosofia especulativa e não uma proposta doutrinária que se propõe como explicação formal e oficial da Revelação cristã. E resta também o mesmo que foi ressalvado nas questões acima: onde está o pedido de esclarecimentos e a correspondente documentação que demonstre a explicação dos termos usados pelo próprio autor? Não há.

Então a acusação é injusta pelos meios que emprega e pelas desconsiderações circunstanciais totalmente inadmissíveis para o trato de assuntos de tamanha seriedade. Na verdade, é como se estivessem brincando. E, brincando, entram numa campanha difamatória miserável e absolutamente lamentável.

O que não nos impede de qualquer forma de avaliar a documentação e o trecho usado como comprovação do suposto erro de Olavo. Afinal, mesmo que a acusação seja injusta, o assunto em si até pode ser interessante, até mesmo para reafirmar, como parece ser o caso, a invalidade da acusação.

O documento Praestantia Scripturae de 18 de novembro de 1907 reafirma os termos dos documentos anteriores, Lamentabili sane exitu e Pascendi dominici gregis, e de fato estabelece a pena de excomunhão aos que obstinadamente permanecerem no erro e na heresia mesmo após o conhecimento dos referidos postulados.

Não li a encíclica Pascendi dominici gregis, pois a sua extensão não me permitiu fazê-lo até agora. Mas pude ler o decreto Lamentabili sane exitu, que trata do modernismo de nossa época, “com lamentáveis resultados”. Só pude ler o documento em inglês, pois não encontrei outra versão em espanhol ou português, exceto o publicado no site da Montfort, o qual eu evitei usar por razões óbvias.

Trata-se de um decreto que ao seu tempo (03 de julho de 1907) ainda não propunha a excomunhão dos proponentes do modernismo nos termos anunciados, mas afirmava que as afirmações listadas deveriam ser “condenadas e proscritas por todos”. A lista contém 65 itens, dos quais marquei quatro com maior curiosidade para uma reflexão, dentre os quais os dois apontados pela Montfort como afirmados pela obra de Olavo (particularmente os números 22 e 59). Vejamos os destacados.

O número 19 condena a seguinte afirmação: “Heterodox exegetes have expressed the true sense of the Scriptures more faithfully than Catholic exegetes”. Isso pode parecer banal e aceitável, mas tem implicações fortíssimas no campo da religião comparada. Basicamente um estudioso de religiões comparadas, se católico, deve encerrar seu estudo afirmando a superioridade real da exegese católica, ou ao menos suprimindo qualquer opinião de que uma exegese não-católica possa ter sido a mais verdadeira a respeito das Sagradas Escrituras, sob pena de excomunhão. É claro que a expressão “the true sense” remete a um sentido mais dogmático do que especulativo, de forma que penso ser mais ou menos aceitável dizer que uma determinada interpretação não-católica da Bíblia tenha sido, por exemplo, “a mais criativa”, mas nunca “a mais verdadeira” ou “a mais fiel”. Particularmente na leitura do Antigo Testamento isso se desdobra na consideração de que só a Igreja realmente compreendeu de forma completa a Revelação que os próprios judeus receberam. Eu queria entender como é possível coadunar o ecumenismo com este número 19. Na verdade, não é possível. E eu não tenho nada contra este decreto, que fique claro. Estou com São Pio X e com a Igreja. Tenho algo contra o ecumenismo, isso sim. Mas basta dizer isso para parecer um belicista, não é? Mas não é questão de perdermos a paz, não precisamos de ecumenismo para promover a paz. A questão é a da conversão.

O número 21 condena a seguinte afirmação: “Revelation, constituting the object of the Catholic faith, was not completed with the Apostles”. Eu tenho sutis dúvidas a respeito desta passagem, não no sentido bíblico da coisa, ou seja, de que a Revelação encerrou-se com o Apocalipse (que é o que eu entendo que este número tenha considerado ao ter sido escrito), mas no sentido da própria vida da Igreja e da contínua Revelação do Cristo nos seus santos e na própria Providência. Mas estas dúvidas são sanáveis, vejam. É claro que um modernista (lembremos sempre que este é o alvo do decreto) pode dizer que a Revelação não esteve completa com os Apóstolos por querer inventar alguma historinha que desminta a ordem revelada pelas Sagradas Escrituras, e neste sentido é óbvio que estará negando a autoridade legítima da Igreja como guardiã da Revelação. Mas eu poderia dizer, por exemplo, que a vida de São Francisco de Assis, ou a de São Tomás de Aquino, foram vidas que continuaram a Revelação de Cristo neste mundo. Essa continuação não implica na incompletude ou na imperfeição da Revelação das Sagradas Escrituras, dado que as mesmas demonstram a fundação da Igreja e a comunhão dos Santos que prevalecerá até o fim dos tempos. Um maledicente, porém, poderia querer me acusar se eu não explicasse esta não contradição (entre a continuidade da Revelação na história da Igreja e a completude e perfeição da Revelação Bíblica). Um malicioso poderia até usar o número 21 para justificar bizarramente a sola escriptura do protestantismo, e o fato de que este expediente seria evidentemente ridículo prova como a autoridade da Igreja não provém das Escrituras, mas ao contrário as legitima com a sua própria. O que o decreto quer mesmo é defender o direito que a Igreja tem de arbitrar sobre a interpretação da Revelação Bíblica, da qual é a legítima guardiã.

O número 22 condena a seguinte afirmação: “The dogmas the Church holds out as revealed are not truths which have fallen from heaven. They are an interpretation of religious facts which the human mind has acquired by laborious effort”. Esta é a primeira afirmação que o texto da Montfort usa para acusar Olavo. Acontece que esta é apenas uma desgraçada de uma confusão propositalmente engendrada pelos mesmos. O número 22 é claríssimo: a condenação cai sobre os que afirmam que os dogmas da Igreja são resultado de interpretação de fatos religiosos pela mente humana. Olavo em nenhum momento diz que os dogmas são resultado do esforço humano. Ele afirma que o conteúdo intelectual, doutrinal, da religião leva séculos para se expressar, o que é uma verdade histórica absolutamente inquestionável. A confusão entre “dogma” e “doutrina” não pode ser feita jamais: o dogma afirma uma Revelação com a força dos próprios fatos; a doutrina é a interpretação desses fatos como resposta às dúvidas humanas a seu respeito. A desonestidade de Zucchi e de Schlietler a esse respeito é monstruosa, dado que o que Olavo ensina é justamente o que está contido como pressuposto do número 22, ou seja, a verdade de que os fatos revelados não podem ser negados, enquanto as doutrinas por sua vez são posteriores e falíveis, não sendo possível que estas cheguem ao ponto de negar aquelas. O alvo do número 22 é o modernismo que nega a verdade dos fatos como se esta fosse produto do esforço intelectual humano e não de uma Revelação de Deus.

O número 59 condena a seguinte afirmação: “Christ did not teach a determined body of doctrine applicable to all times and all men, but rather inaugurated a religious movement adapted or to be adapted to different times and places”. Aqui o esforço maledicente dos cavaleiros augustos alcançou o seu ápice, de vez que a afirmação condenada remete expressamente à afirmação modernista de que o cristianismo é “um movimento religioso adaptado ou adaptável a diferentes tempos e lugares”. É isto o que São Pio X está condenando, seus filhos da puta! A primeira expressão (de que Cristo não ensinou um corpo de doutrina) é colada à segunda não como um elemento adicional, mas como parte constitutiva de um mesmo pensamento. Os caras não sabem ler? Não sabem o que significa “but rather” em inglês? Ou são desonestos e safados mesmo? Novamente ignora-se propositalmente que o que Olavo faz na verdade é REPETIR o sentido real do número 59. Senão vejamos: quando Olavo afirma que Jesus não ensinou uma doutrina nenhuma ele está querendo dizer é que Jesus não tem argumentos a respeito de nada, mas sim que ele É a própria Verdade encarnada, e que, portanto, o seu ensinamento é verdadeiro num sentido que transcende absolutamente todas as doutrinas humanas. Este é justamente o ensinamento de Cristo que é “applicable to all times and all men”, mas não por ser uma doutrina, mas por ser a palavra do próprio Verbo encarnado. A imutabilidade e a supremacia da Revelação cristã e do ensinamento do Cristo é portanto reafirmada como única, exatamente como crê a premissa do número 59. O que é adaptável a “different times and places” é justamente a doutrina no sentido humano, não-revelado, do termo: a pedagogia cristã, a apologética, a teologia, etc. Então o que os safados, pilantras, da Montfort fazem, é distorcer o número 59 para que pareça, pelo emprego do termo “corpo de doutrina”, que a afirmação de Olavo está condenada pelo Lamentabili sane exitu. Essa gente não tem mais o que fazer?

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22/09/2016

Quero registrar aqui um agradecimento pelo trabalho de alguns Youtubers, notadamente o Rodolpho Loreto e o Leonardo “Conde Loppeux” Olivaria, pois através do trabalho deles pude compreender de uma forma mais completa os problemas do Liberalismo, problemas esses que eu já intuía, mas não compreendia muito bem. Isto me fez até ficar mais de acordo, em minhas idéias, com o ensinamento da Igreja, o que reconheço que não é pouca coisa na minha trajetória.

Mais: a minha dívida a estes e outros que abordam o tema da autoridade dentro da filosofia política é grande. Eu sabia que havia uma ponte moral entre o Bem e a Polis, mas não tinha com clareza a noção de que esta ponte se encarna através da virtude dos governantes.

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O Liberalismo não só colabora com a Revolução Cultural socialista, como na verdade ele a funda historicamente, e tem raiz numa revolução mais profundamente equivocada até do que o próprio Socialismo, que não passa de uma resposta orquestrada aos males do Liberalismo.

É extremamente prejudicial identificar a liberdade comercial, ou seja, o costume capitalista em si, que não é ideológico, com o Liberalismo como corpo de idéias e de doutrina.

Da mesma forma é um grande engano enxergar Liberalismo e Socialismo como inimigos puros, já que não são mais do que irmãos briguentos, sócios num mesmo movimento conjunto, que podemos chamar de Movimento Revolucionário de uma forma geral.

O Liberalismo é oriundo da parte mais velha desta tradição revolucionária, e seus verdadeiros representantes e vanguardistas são os próprios fundadores e financiadores dos mitos socialistas. Eis a sociedade: o Liberalismo domina o mundo enquanto o Socialismo finge que combate esse domínio, de tal forma que todas as dissidências sejam capturadas dentro da oposição controlada pela parceria, oposição esta que parecerá múltipla pois se divide em vários partidos e seitas diferentes. Nunca fez tanto sentido para mim o termo Syndicate quanto agora; porque é realmente isso, é uma sociedade mafiosa. E a sofisticação do esquema já chegou ao ponto de gerar crises econômicas e guerras inteiras, e também subversões que sirvam de instrumento para que de tempos em tempos apareçam os verdadeiros dissidentes, de forma que possam ser mapeados, vigiados, subornados, ameaçados, etc.

Quando eu ouvia esse tipo de conversa no passado, achava que era paranóia e teoria da conspiração, mas os raios dos fatos voltam a reforçar mais e mais essa tese de compartilhamento de funções. Liberalismo e Socialismo vivem criando dificuldades e facilidades entre si, jogando com as idéias e opiniões da humanidade como se brincassem de malabares num circo.

O que há em comum nas duas revoluções, a liberal e a socialista?

O ódio destruidor contra as tradições em geral, em especial contra a Igreja Católica.

Daí que querer de fato combater todo tipo de manipulação e de engenharia social sem o abrigo da força da tradição católica é puro suicídio. E fatalmente, ao que me parece, a resistência contra a aceitação da autoridade da Igreja acabará levando pela força das circunstâncias ao fortalecimento da outra tradição que parece poder resistir aos males modernos, tanto liberais quanto socialistas: o Islam.

A pergunta é: o próprio Islam não pode ser integrado e usado na estratégia globalista? Não digo constitutivamente (e há quem diga que historicamente se pode constatar a instrumentalização do islamismo dentro da estratégia do Sindicato), mas que seja de modo operacional, política e socialmente?

É claro que os muçulmanos vão ficar muito bravos com essa especulação e vão querer me humilhar dizendo que eu tenho que ser mais cristão: “olha a trave no teu olho primeiro”; ou seja, veja a Teologia da Libertação, entre outras infiltrações insidiosas, maçônicas ou de qualquer tipo, na Santa Sé. É verdade que dentro da Igreja há uma luta, mas a vitória dentro dela está garantida pela Revelação: a Igreja prevalecerá. É uma promessa divina.

Que brincadeira é essa de duvidar de tamanha promessa?

Qual é a autoridade que justifica uma dúvida dessas?

Os que se aventuram a dialogar com os modernismos revolucionários, seja com o Liberalismo ou com o Socialismo, estão jogando cartas com o diabo.

Os que desejam resistir pelas assim chamadas “tradições” de forma genérica, pela sabedoria humana desgarrada, pelo perenialismo, ou seja por que macumba for, podem ou não estar também jogando cartas com o coisa ruim, que é ardiloso, sutil e sedutor.

Mas existe uma vida que não é uma aposta; é a confiança numa promessa divina; é a vida da Cidade de Deus; é a vida da Igreja fundada pelo Senhor.

Que ocorra essa conversão, que o Ocidente volte à Igreja Católica, que as ovelhas voltem a ouvir seu Pastor chama-las; mas que não seja por um mero capricho ou por um entusiasmo tolo, mas por uma prudência longamente meditada, fundada na Graça que derrete o coração do mais obstinado, ressentido e petrificado dos homens.

Toda a Glória ao Senhor por isso!

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Eu poderia fazer uma ressalva aos cismáticos e aos protestantes, mas pensando bem quem tem que viver fazendo ressalvas são eles. O convite é para que venham todos. Sempre foi esse o convite, a convocação mais universal que já existiu. É uma chamada escolar para a eternidade.

Quem se achar em melhores condições morais que um padre, um bispo, um cardeal, ou que o próprio Papa, que entre na Igreja e nos traga a sua virtude para colaborar na conversão de todos, uai.

Ou vocês querem ser melhores do que São Francisco de Assis?

Assim vai ficar difícil.

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Quando falo de alguma compreensão da fraternidade incestuosa entre Liberalismo e Socialismo, não me refiro a abstrações. Essas coisas são observáveis nas cenas mais banais.

Hoje conversei com um taxista chamado Eliseu. Poucas pessoas são mais recomendáveis para uma conversa para se inteirar dos assuntos da cidade do que os taxistas.

Dizia-me que o verdadeiro problema dos taxistas com o Uber não é a questão do custo do alvará. Disse que isso era praticamente “nada”. Fiquei um pouco surpreso. Disse-me que o maior problema é a competição. E os fatos demonstram: uma corrida que pela tabela me custaria trinta e oito reais ficou por vinte e oito reais após o desconto do aplicativo.

Puxa, pensei comigo, esse negócio de competição funciona mesmo! Gastei menos com o taxi por causa do Uber. Obrigado, Uber.

Eliseu não estava gostando nada dessa história. “O preço do taxi é calculado, não é feito de qualquer jeito”, ou seja, o que queria dizer mesmo é que não é um preço livre, que é regulado por um controle da oferta que sustenta determinado nível de preços, o que repercute socialmente na renda dos taxistas. Agora Eliseu ganha menos, é um fato.

É interessante que Eliseu se vê como parte de uma classe injustiçada, enquanto o Uber seria uma entidade com objetivos monopolistas. Não passou nem por um minuto na cabeça de meu motorista que eu era prejudicado, como cliente, pela reserva de mercado dos taxistas que sustentava um nível artificial de preços que todos os consumidores eram obrigados a pagar. Ou seja, um monopólio hipotético para o futuro era mais ameaçador na cabeça do taxista do que o monopólio real de sua classe sob o qual a sociedade estava submetida de fato.

Pelo contrário, de acordo com Eliseu nós estaríamos mais seguros nas mãos dos taxistas, pois estes são sabatinados e controlados por 479 regulamentos diferentes e “até se o cara assassinou alguém na esquina do Paraguai os caras pegam”, enquanto qualquer foragido da polícia pode ser motorista de Uber. Eu sei muito bem que toda a burocracia do mundo não impede que um motorista de taxi seja pior do que um motorisda de Uber. Mas Eliseu se tornou um defensor insuspeito da burocracia. Porque esta o protege da competição, evidentemente.

E piores ainda são as perspectivas para o futuro, na medida em que várias empresas (entre as quais o próprio Uber, carinhosamente chamada de “empresa maldita” por Eliseu) estudam implantar frotas de veículos autônomos, que poderão levar e trazer as pessoas sem que seja necessário um motorista.

Quem não consegue observar, por trás dessa novela, a teratomaquia moderna?

O Liberalismo acusa, com razão, a burocracia e o protecionismo como instrumentos estatais de poder, controle e impedimento para o livre comércio.

O Socialismo, por sua vez, acusa com razão a competição e o progresso sem freios de levar a sociedade ao paroxismo de uma economia sem renda, na medida em que cada vez menos pessoas conseguem participar da produção com a sua mão-de-obra.

O Liberalismo dá uma réplica dizendo, por sua vez, que é o estatismo socialista que impede o verdadeiro progresso econômico, e que de alguma forma oferta e demanda sempre vão se ajustar pela atuação de alguma “mão invisível” providencial, e que ninguém tem que se preocupar em controlar essas coisas, apenas em produzir cada vez mais com custos cada vez menores.

O Socialismo devolve uma tréplica afirmando, enfim, que enquanto se aguarda a solução providencial dos ajustes de mercado no mundo real a desigualdade cresce e milhões vivem o drama de serem jogados ao total abandono e marginalização econômica.

Percebem? Esse jogo parece não ter fim. E não tem mesmo, porque é um jogo de cartas marcadas para se tocar a humanidade como se fosse gado, de um lado para o outro: da busca da salvação pela prosperidade miraculosa para a salvação pelo assistencialismo estatal.

Mas quem pode salvar mesmo esse mundo?

Na verdade, rigorosamente falando, esse mundo não tem salvação enquanto tal. As almas é que podem ser salvas, cada uma delas chamada por seu nome próprio.

Mas algo pode, sim, aliviar o sofrimento humano, e colaborar para a bem-aventurança das almas.

A virtude da Caridade poderia fazer isso, se fosse praticada.

Mas praticada por quem, afinal?

Por todos, na proporção de suas riquezas reais.

Isto significa que os verdadeiros players deste jogo são por um lado os donos de alvarás de taxi, donos de frota, chefes de sindicatos, secretários de prefeituras, etc., e de outro lado os investidores e especuladores por trás de Uber e outras plataformas do gênero, todos eles praticantes imperfeitos da Caridade ou mesmo não-praticantes convictos seja de uma salvação liberal ou de uma salvação socialista.

Enquanto motoristas de táxi e motoristas de Uber brigam entre si, os mafiosos de todos os lados brindam por suas novas conquistas a cada dia que passa.

Enquanto uns pedem mais burocracia e regulação e outros pedem menos, os mafiosos controlam esses pedintes como se fossem fichas de cassino.

E o fazem porque não são cobrados pelo que deles é de fato moralmente exigível: que pratiquem a Caridade na proporção de suas posses.

Quero que me entendam muito bem nisso. Já expliquei várias vezes, mas convém repetir: a Caridade não é “justiça social”! A justiça social é uma monstruosidade socialista, uma perversão demoníaca da virtude da Caridade.

Quando digo “exigível”, refiro-me não a leis penais, carrascos e guilhotinas, mas à cultura moral da sociedade, e à autoridade da sabedoria e da bondade.

Nós nos tornamos peões nas mãos desses barões de ambos os lados do espectro revolucionário na medida em que nos tornamos utilitaristas, pragmatistas, materialistas, etc. Ou seja, na medida em que caímos num dos primeiros dos truques revolucionários, que é o esquecimento de quem somos nós e do que estamos fazendo aqui, e reconhecemos então como valoroso aquilo que é inferior, ao mesmo tempo em que reconhecemos como inútil o que na verdade é valioso.

Repito, portanto, uma velha tese de que gosto muito: a venalidade está sempre nas nossas almas em primeiro lugar, e é isso o que concede poder aos mafiosos. Estes são como vendedores de drogas no jardim de infância, tamanha é a ilusão e a infantilidade da massa humana que cai na esparrela revolucionária, seja liberal ou socialista.

Isto ficará tão mais evidente quanto mais a tecnologia avançar e, com ela, os ganhos de produtividade não atrelados à quantidade de mão-de-obra empregada. Isso não é uma perspectiva para o futuro: é uma realidade econômica crescente.

Com o passar do tempo ficará evidente uma das duas coisas: ou que a demografia sem controle é inviável, ou que a Caridade é uma necessidade física da vida em sociedade.

Em suma, ou vencerá a morte ou vencerá o amor.

E digo isso literalmente.

Se os vagabundos dos economistas, sociólogos e cientistas sociais estivessem realmente trabalhando pelo bem da humanidade, estariam pesquisando a solução amorosa, ao invés de gastar seu latim justificando abortos, eutanásias, casamentos homossexuais, esterilizações voluntárias e involuntárias e outros sistemas de controle de natalidade.

Talvez pareça um pouco exagerado chamar de mafiosos aqueles que lideram dos dois lados a guerrinha Taxi versus Uber. De fato, perto dos verdadeiros mafiosos, dos bandidos máximos, estes aí são quase que inocentes batedores de carteira.

Vejamos aquela famosa galeria de senhores de nomes respeitáveis como Rothschild, Rockefeller, Schiff, Morgan, Soros, etc. Se estas famílias conseguissem transmitir pelas gerações não apenas as suas respectivas fortunas, mas um Plano em comum, o que as impediria de dar as cartas no mundo moderno tal como o conhecemos? Quem teria histórico e sabedoria suficiente para contestá-los, senão justamente as tradições religiosas, em especial a tradição Católica que converteu o Ocidente em dois mil anos de história?

Derrubada a tradição, nenhum filho de famílias desgarradas poderá somar forças suficientes com seus pares igualmente desamparados para derrubar a evolução dos tempos modernos sob o comando de um Plano da elite iluminada do mundo. E afinal, mesmo que pudesse, faria isso em nome de quê?

Mas nada seria mais prudente a um grupo de anciãos tão obcecados com o controle das coisas, para a garantia do processo no longo prazo, do que o uso da dialética histórica. Hegel não foi somente mestre de Marx e dos socialistas: ele é mestre dos revolucionários em geral. Os socialismos formam um braço da dialética globalista, aquele que gruda no Estado moderno; o outro braço é formado pelos liberalismos de toda espécie, que grudam na sociedade civil e reforma os seus costumes e valores.

A concentração do capital aliada ao avanço tecnológico permite criar a maior cenoura-de-burros da história da humanidade: o progresso material moderno. Todos os revolucionários se igualam neste sentido, pois além de terem em comum o ódio contra a Igreja Católica, compartilham também de um grande interesse pela idéia de uma evolução permanente da humanidade e pelo progressismo como ideologia subentendida em todos os seus planos, sempre.

A partir do momento em que para sobreviver no mundo é necessário comprar duzentas mil bugigangas e pagar tudo com juros sem fim, a principal figura econômica que povoa a imaginação dos povos enfeitiçados é aquela do homem que vive bem sem ter que trabalhar. Já que o prêmio da vida humana são as posses e os confortos materiais, e estes exigem dinheiro, o mais feliz dos homens é aquele que consegue dinheiro trabalhando o menos possível, ou seja, aquele que consegue o prêmio com o menor custo pessoal possível. Este mito é poderosíssimo pois –desculpem-me por esta bizarra citação, mas me é inevitável– como diria o Seu Madruga, “trabalhar não é ruim; ruim é ter que trabalhar”. O que deseja o indivíduo convictamente liberal? Acumular fortuna que lhe permita viver de rendas, ou de projetos que lhê dêem na telha e sejam puramente satisfatórios. E o que deseja o invidíuo convictamente socialista? Que o Estado o ampare, junto com a humanidade, de maneira que não haja mais miséria e pobreza. De onde saem esses sonhos? Da cenoura-de-burro da modernidade: a ilusão da felicidade pelo progresso material. O homem moderno é aquele que trabalha no que não quer para comprar o que não precisa, de preferência usando crédito bancário. Então você tem aí uma massa gigantesca de gente produzindo coisas para depois ter que compra-las com ágio (renda do industrial) e juros (renda do banqueiro). Antes que me acusem de ser marxista, eu lhes peço que acompanhem esse raciocínio com atenção. Repito: o marxismo, como todo socialismo, foi fabricado justamente para explicar parcialmente este fenômeno e ganhar a adesão de militantes inconformados com a “exploração do povo”. Na prática a realidade é mais complexa.

Em primeiro lugar, os verdadeiros grandes beneficiários do esquema são praticamente invisíveis, socialmente falando, justamente porque se constituíram num longo processo histórico que não é facilmente identificável, exceto pelos que estudem minimamente o assunto. Há castas intermediárias suficientes para ocupar a atenção dos revoltadinhos de cada dia. Como já disse antes, os demônios não podem criar nada novo, então eles invertem as ordens naturais das coisas. Assim como uma aristocracia colabora no governo das coisas abaixo da realeza, a burguesia (praticamente todos os capitalistas, incluídos aqui os nossos mafiosos dos taxis e do Uber) colaborará na administração dos negócios das grandes potestades metacapitalistas.

Em segundo lugar, o discurso socialista, marxista, comunista, anarquista, etc., é institucionalizado pela criação e financiamento de grupos rebeldes com a finalidade de denunciar a exploração do povo contra a casta intermediária, ou seja, contra a burguesia. Liberalismo e Socialismo se agitam, assim, como bonecos nas mãos de seus donos. Quando é preciso acionar um processo de destruição da tradição para confundir e alucinar as multidões, o Liberalismo é acionado como um botão, para surgir aquela cenoura-de-burro irresistível que faz todo mundo querer a riqueza, a fama, o sucesso, etc., de forma que as almas fiquem iludidas e totalmente perdidas no espaço. Quando é preciso, por outro lado, aliviar e soltar a tensão causada por essa repressão espiritual terrível, usa-se o botão Socialismo para denunciar o descaso social, a desigualdade, a guerra de classes, etc., em nome de uma suposta justiça que serve apenas para a concentração do poder na mão dos revolucionários, o que permite por sua vez aos globalistas tomarem o controle remoto de governos, aprovarem legislações de seu interesse, e eliminarem de fato os burgueses que lhes estejam eventualmente incomodando.

Em terceiro lugar, é preciso lembrar que as rendas do capital industrial e financeiro não são em si mesmas boas ou más, pois por si mesmas apenas se constituem como resultados econômicos que serão por sua vez empregados de uma determinada forma. O que é bom ou mal é o uso desses recursos, ou seja, um uso que pode ser generoso e caridoso ou cobiçoso e avarento. Não podemos negar que uma economia moderna é alavancada pelo mercado de crédito. Se o crédito em si representa nada mais que a confiabilidade dos membros na sociedade humana, o que é uma coisa boa, porque a sua contrapartida financeira, os juros, seriam uma coisa ruim? Não vou entrar aqui em teologia sobre o problema da usura, até porque é evidente que alguém pode ser mais caridoso ou avarento dentro de uma gradação dos juros. O empresário tem que lucrar, sim, e o banqueiro também, apenas aplicando-se algumas ressalvas nesta última atividade, como a prevenção do monopólio.

Em quarto lugar, é preciso lembrar que se a matemática globalista já mostrou que o descontrole das populações é insustentável no longo prazo, é evidente que dando às costas para a solução da Caridade os globalistas farão planos de controle demográfico necessariamente. Este é um item importante, pois o domínio da dialética histórica, jogando com os progressismos liberal e socialista, já está em prática e funcionando bem. Isso não é mais questão de planejamento ou de implementação. Já está em execução e faz tempo. O que é preciso é avançar na agenda demográfica, e isto se pode fazer por meios que lembram aqueles quatro Cavaleiros do Apocalipse: Guerra, Fome, Peste e Morte. Nós conhecemos estas iniciativas pelos movimentos, ONGs e campanhas financiadas pelas Fundações internacionais, agendas essas que também são promovidas em painéis de oganizações criminosas como a ONU.

Podemos entender, portanto, que desde lá detrás a Revolução Burguesa de 1789 teve como intenção derrubar as monarquias, que eram, por piores que fossem na sua concretude, representantes de uma autoridade superior. E desde antes disso a Reforma já causou na Europa a ruptura e a confusão contra a autoridade da Igreja. Se o momento atual do Plano Globalista é o de intensificar o controle demográfico, objetivo esse o qual requer a mais intensa campanha desmoralizante contra as tradições e em especial contra a Igreja, as origens dessa gangue remontam ao fim da Idade Média e ao começo das várias revoluções modernizantes.

Se existe alguma coisa que nós podemos fazer para nos defender desta conspiração de séculos, em primeiro lugar é buscar abrigo na autoridade de uma instituição de milênios, fundada pelo próprio Deus: a Santa Igreja. Lembrem-se de que a Igreja não é somente esta visível diante de nossos olhos, do contrário vocês vão confundir o despreparo ou até a maldade de membros da instituição com a sua verdadeira constituição espiritual, comprovada historicamente. É apenas uma questão de estudo. Em segundo lugar e em consonância com o ensino da Igreja, nós devemos buscar a libertação de todo utopismo materialista, progressista e utilitarista da nossa época; e isso significa não só rejeitar o socialismo, mas também o liberalismo.

O Liberalismo alivia a tensão do conflito de classes e normaliza o caos social advindo da utopia socialista pela promoção do individualismo, ou seja, transforma seres humanos em sociopatas inescrupulosos. O Socialismo, por sua vez, alivia a tensão do utilitarismo materialista niilista advindo do pragmatismo liberal pela promoção do coletivismo, da justiça social, da revolução, etc. Assim as massas são levadas da mania ao desespero em repetidos ciclos de euforia e de crise, enquanto o poder global se consolida e se aglutina sistematicamente. Nós não podemos entrar nesse jogo como indivíduos, esse é o primeiro passo. Temos que resgatar a narrativa de nossas biografias e localizar de algum modo o sentido que transcende essas amarras progressistas. Ele está lá, é só procurar (nisso aconselho particularmente o trabalho do Dr. Viktor Frankl).

A proposta de que o problema político, social e econômico pode ser resolvido por políticas públicas é ilusório. Os impostos progressivos, por exemplo, não resolvem a questão, pois o Estado não pode praticar efetivamente a Caridade, e a ineficiência e a corrupção torna tremendamente improdutiva esta solução. É algo ruim nas intenções, nos meios e nas finalidades.

A solução está na Caridade e na Humildade antivenal, e estas são virtudes cultivadas pelos seres humanos individualmente.

É até possível (eu mesmo já especulei a esse respeito) pensar numa forma de incentivo e de reconhecimento social da Caridade, mas em última análise essa tem que ser uma busca e uma realização dos indivíduos, tanto maior quanto maiores forem as posses de cada um. Se você pensar bem fazer isso é simplesmente fazer o que Jesus mandou, nada mais que isso.

A Humildade é que vence particularmente a nossa venalidade moderna, pois tira do centro do mundo o sucesso material e temporal, seja dos indivíduos ou da coletividade, e lá coloca, ou melhor, reconhece, a presença única de Deus. Nós temos que nos humilhar diante de Deus e dizer: “só Tu, Senhor, podes me dar a vida; só Tu podes me salvar; faça de mim que eu seja somente para Ti e nada mais”. Isso tem um efeito devastador contra a feitiçaria progressista, e você percebe rapidamente o quanto estava se sujeitando às potestades deste mundo, fosse querendo o sucesso, o dinheiro, a fama, etc., seja querendo a justiça social, a igualdade absoluta, etc. Ou seja, percebe que era idólatra e que isso te fazia infeliz. Agora Deus te permite viver uma vida mais simples e mais feliz.

Para além disso é recomendável sempre o estudo dos processos históricos e sociais que nos levaram ao presente estado de coisas. Esses processos são muito lentos e complexos, de forma que a maior parte das pessoas não percebe nada. As poucas que sobem um pouco a cabeça para cima do nível normal são capturadas pelas ideologias Liberal e Socialista. Fica difícil superar essas concepções e continuar buscando uma visão abrangente das coisas. O seu Eliseu provavelmente nunca vai fazer isso.

Mas o que ele pode fazer, então? Seguir Jesus Cristo. E isto é exatamente o que todos devem fazer de qualquer modo. Passada toda a história a limpo, sobra a verdade mais simples e direta de todas. A pedagogia de Deus é perfeita e infalível. Nós é que nunca somos suficientemente humildes, gratos e obedientes.

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26/09/2016

O asco que me dá ao ler jornais aumenta cada vez mais. Daqui a pouco a sua única utilidade será a de conter o vômito provocado por sua própria leitura.

Outro dia me ligou uma mulher. Queria me vender assinatura da Folha de São Paulo. Eu disse que não queria e que ela não perdesse o nosso tempo com isso. (Pensem comigo: a vida não é tão curta?) Mas é claro que ela insistiu, ela está lá para isso. Deve ter recebido 59 treinamentos só para aprender a insistir da melhor forma possível. Questionou-me sobre por que eu não queria assinar a Folha. Disse-lhe que não queria porque o jornal é muito ruim. É a melhor resposta, não só por ser a mais verdadeira, mas porque não tem réplica. Como é que a mulher vai me convencer, numa linha de telefone, que a Folha presta? Ela ainda quis dar uma razão: “mudamos a nossa linha editorial, ficou sabendo?” Disse a ela que não, não sabia, e disse que também não queria saber. A esta altura finalmente eu percebi no silêncio de sua voz o tão esperado momento da desistência. É uma pequena vitória, não é? Desligar na cara do telemarketing não é vitória, é fuga. Vitória é a sua vontade prevalecer sobre a de um operador de telemarketing que precisa desesperadoramente bater metas. Isso é vitória.

Mas enfim, enquanto consigo controlar as ânsias de vômito, quando me chega algum jornal em mãos eu dou uma olhadinha, de preferência para pegar a coisa mais bizarra que eu puder. São coisas que saem todos os dias nos jornais e não servem para absolutamente nada, apenas enfiar mais merda nas cabeças já transbordantes. Gosto de fazer isso para me lembrar do quanto é alucinada a assim chamada “opinião pública”, ou seja, essa máfia de vendedores de drogas.

Topo, na edição de 01 de julho do jornal Valor, com a entrevista do sociólogo Zygmunt Bauman para a jornalista Helena Celestino a respeito do Brexit. Este é um tema aglutinador de excrementos na grande mídia, é impressionante. O título: “Confusão vai desestimular ‘eurocéticos’, diz Bauman”. Eurocéticos? É gostoso rotular, não é? Vou rotular também: GLOBALISTAS CAQUÉTICOS. Ah, que delícia. Eu não tenho um jornal para fazer isso, mas tenho a minha cabeça para pensar. Querem mais? VAMPIROS. Poderia continuar o dia inteiro. Mas vamos ao texto.

Diz-nos a dona Celestino: “Ele [Bauman] diz acreditar que a confusão pós-referendo, ao menos no início, será a melhor trama contra os eurocéticos.” Há tantos pressupostos incríveis nessa afirmação que nós temos que coletar um por um, como se fossem traços de alimento no meio das fezes de um animal doente, para ver o que há de errado. Vejamos os dois maiores problemas: o primeiro é que a razão contra o Brexit é dada como demonstrada, a famosa petitio principii; o segundo é o descaramento do velho, desejando contra o Brexit não uma determinada visão ou uma política, mas uma “trama”. São detalhes, né? Mas o diabo está neles. Os comentaristas políticos estão ficando descarados, e eu acho que quanto maior for a sua hegemonia em meios culturais e de disseminação, como a mídia, maior será o seu despreparo e arrogância. Bauman não só confessa que está pensando em tramas como demonstra desprezar completamente a opinião do povo britânico na votação, como se fossem crianças ou animais. Esta é a tutela dos globalistas, é assim que eles vêem o mundo.

Bauman é citado como um “importante pensador da modernidade”. Ui, nossa, que coisa! Vamos ver?

A primeira pergunta que o Valor faz já é desonestra ao embutir outra premissa não-fundada: “O que a União Européia pode fazer para não perder novos Estados-membros?” Uai, mas quem disse que a UE tem que fazer alguma coisa para não perder mais membros? Aliás, faz sentido questionar qual é a vontade de um bloco político a respeito de seus membros quando toda a autoridade que o bloco tem vem dos mesmos? A União Européia serve aos seus membros ou é servida por eles? Numa simples pergunta do jornal nós já encontramos toda uma visão de mundo onde a UE é tratada como uma entidade com uma soberania que não tem e, pior ainda, que o recente Brexit provou que não tem. É muita cara de pau perguntar isso desse jeito, como quem não quer nada demais, mas é claro que estão querendo agradar este importante pensador da modernidade.

Vejam agora esta parte importante: Valor: “O nacionalismo e as fronteiras estarão de volta por algum tempo na Europa?” Bauman: “Por cortesia da globalização e a decorrente separação entre poder e política, Estados estão virando pouco mais que bairros ampliados e confinados por fronteiras vagamente delineadas, porosas e fortificadas de forma ineficiente. Esses pequenos Estados guardaram ciumentamente o inalienável poder de separar ‘nós e eles’. É isso o que estamos vendo hoje.”

Eu posso ou não posso chamar o velho (90 anos) de office-boy de globalista?

Na verdade de novo a pergunta da dona Celestino foi estranhamente (ou não) pró–globalista: como assim “as fronteiras estarão de volta”? Não existem as fronteiras do Reino Unido, da França, da Espanha, da Itália, da Alemanha, etc.? Elas foram reinventadas ontem? Eu entendo a questão do nacionalismo, de vez que os europeus tremem com esse assunto depois da Segunda Guerra Mundial. Mas porque não tremem diante de um modelo global de poder? Não era internacional o projeto comunista da URSS? Os nacionalismos europeus mais extremos, como na Itália e Alemanha, por acaso não foram superados em seus crimes pelos soviéticos? E quem foi que deu comida na boca desses lobos e ursos, senão os globalistas? E mesmo que se dê por pressuposto que todo tipo de nacionalismo é maléfico (o que definitivamente não está provado), como é que isso prova que seja melhor um modelo como o da UE, ou de um Governo Mundial? O problema não é justamente o contrário, a diminuição da capacidade estatal de controlar, taxar, regulamentar, policiar, etc.? Por que os europeus não tiram as conclusões mais óbvias? Porque pessoas como a dona Celestino e o senhor Bauman, esse importante pensador da modernidade, fazem o que podem para impedir isso. Seu esforço chega até a esse jornaleco chamado Valor. Isso é poder. Mas não é o poder total, pelo menos ainda não, e é por isso que ficam putos da vida com o Brexit.

A resposta de Bauman não poderia ser mais ortodoxamente fiel ao globalismo do que foi. Bauman diz que o globalismo fez a cortesia de separar poder e política. Ou seja, o poder agora é usado por autoridades invisíveis, as que controlam o poder real, enquanto os políticos são pouco mais que palhaços nas mãos desses. Bauman ridiculariza a noção dos Estados nacionais. Eu não sou grande entusiasta do Estado moderno, aliás, tenho fortes razões para ser contrário a forma da sua instituição e ordenamento. Mas Bauman não critica apenas essa entidade jurídica, mas obviamente as diferenças entre as Nações europeias e consequentemente o direito que essas Nações têm de se autodeterminar como bem entenderem. É evidente o desrespeito pelas soberanias nacionais e pelo direito de manifestação e de decisão. Bauman, representando os globalistas, reclama das vontades dos povos como alguém reclama de pedras no rim. Afinal, a igualdade e a fraternidade foram apenas motivos passionais para a revolução que decapitou príncipes e reis, para que as potestades assumissem o poder. Ter que ainda fazer algumas deferências a esses direitos míseros equivale, para os globalistas, ao cuidado patético de se andar pelas ruas tomando o cuidado de não pisar em formigas. É assim que eles vêem e sentem o mundo, não se enganem.

Não estou fazendo caveira de ninguém. Nenhum globalista é obrigado a ficar abraçado com o capiroto. Mas algum deles quer praticar a Caridade e trabalhar para o bem comum? Eis a questão. Eles é que estão fazendo a própria caveira.

Amanhã eu continuo lendo essa porcaria.

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27/09/2016

Uma reportagem vagabunda assinada por Ludimila Honorato no UOL (tinha que ser) reclama da baixa representatividade dos jovens no Congresso Nacional, considerando os eleitos com idade abaixo de 30 anos.

Minha reclamação é diferente. Eu já acho que o Congresso deveria ser ocupado por septuagenários, todo ele, e de preferência ocupado apenas por pessoas riquíssimas que já não estivessem mais preocupadas com coisa nenhuma na vida, e pudessem pensar somente no benefício da sociedade brasileira, ao invés de sonhar com um horripilante “mundo melhor”.

A reportagem reclama que mais de 90% dos eleitos com menos de 30 anos são filhos ou netos de políticos. Quer dizer, esse povo explicitamente odeia e recrimina o costume humano que é o da transmissão de uma ocupação entre as gerações de uma mesma família.

Que gente estúpida, meu Deus!

Eu sei que é ideologia. E estou dizendo: isso estupidifica demais!

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Aliás, essa ressuscitação inesperada do mito da virtude natural da juventude é um momento bom para relermos o nosso Nelson Rodrigues: “Eu queria dizer à juventude que seja livre. Se o homem, de uma maneira geral, tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância, é enorme. Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isto é um azar, uma infelicidade. Eu já fui jovem também e não me reconheço no jovem que fui. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero um pobre diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Depois, a partir dos trinta, eu me reencontro. Por isto digo aos jovens: não permaneçam por muito tempo na juventude, que isto compromete.” 

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Danem-se os globalistas, eu não vou continuar lendo a “entrevista” de Bauman para o Valor. Pelo menos não agora. 

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Sempre me é um pouco deprimente pensar nas características de meu mapa natal, pois sou obrigado a me lembrar de vários problemas que não consigo resolver. A pedagogia da vida para nós e, ouso especular, de Deus mesmo, é a do carregamento de cruzes: cada um que coloque nas costas a sua e não encha o saco dos demais. Os problemas não são feitos para você falar deles como num drama. Não tem ninguém assistindo esse drama; pare de fazer papel de palhaço para si mesmo. Os problemas que têm solução devem ser resolvidos, e os que não têm devem ser aceitos, ponto final. Então quando se abre na minha frente o meu mapa natal, tudo o que eu vejo são as pedrinhas a serem carregadas num saco nas costas.

É engraçado que as coisas boas da vida me remetem imediatamente a Deus; o reconhecimento das Graças levam à gratidão, e esta só é justa quando se dirige ao nosso bom Deus. Os astros desaparecem da memória quando sou grato, mal me lembro deles. E que papel lhes resta então, e à leitura do mapa? O máximo que se pode fazer de bom, e digo isso ao menos no meu caso, é reconhecer os problemas insolúveis o mais rapidamente possível de maneira que eles sejam aceitos e carregados com a menor perda de tempo e energia possível. Infelizmente não recebi esta orientação tão clara de ninguém. Na verdade, a maioria das pessoas gosta de viajar na maionese; querem ver coisas que não existem, ou querem compreender mistérios que lhes são totalmente inalcançáveis. Autoconhecimento é bom quando é real, ou seja, concreto, quando lhe faz compreender algo de fato. Uma compreensão é um encerramento, é uma completude. E o que os mapas natais mais nos podem ensinar, em minha opinião, é a reconhecer humildemente o que é mais inevitável e fatal em nossas vidas. Pois se pelas coisas boas nós já podemos ser gratos a Deus, como podemos encarar o que nos oprime? Aceitação. Não é compreensão do problema em si, mas sim que ele está lá e você tem que aceitar esse negócio na sua vida.

É claro que somos livres. Somos livres justamente para aceitar ou não as maiores e mais pesadas cargas de contingenciamento que recebemos. Não é óbvio?

Isso é até um alívio. Que coisa miserável e patética é o esforço impotente de alguém que não reconhece seus limites. O reconhecimento destes limites, no entanto, é uma libertação real, é a libertação da ilusão de que a nossa liberdade pode ultrapassar aquele determinado ponto. Neste sentido, a maior utilidade da astrologia natal é, para mim, o mapeamento mais claro possível desses limites. Se esses limites são muitos ou são muito graves, longe de isso nos parecer uma má notícia, na verdade deve ser razão para uma contemplação serena, uma visão do quanto estamos liberados de lutar inutilmente contra o que não tem solução. E fazendo isso se é mais feliz naquilo que se tem alguma liberdade de fato. É uma forma de se concentrar e ganhar força onde interessa.

O Peter Drucker, que não é nenhuma besta quadrada, muito pelo contrário, já disse depois de anos de estudo e experiência profissional, que o maior desperdício que há no mundo é a tentativa de se fazer algo bom com a mediocridade, ou mesmo com a ruindade. Nossos pontos fracos são isso: fracos. Devem ser esquecidos o mais rápido possível, ou se esta palavra lhes parecer muito indecente e irracional, devem ser relativizados e marginalizados. Os pontos fortes, por sua vez, devem receber toda a nossa atenção, porque esse terreno é fértil. Investir em fraquezas é rasgar tempo, energia e recursos. Não sejam escravos de um equilibrismo ridículo e impossível. Desistam. O único Ser realmente equilibrado que já existiu foi Nosso Senhor Jesus Cristo; este é um Ser completo, ou mesmo a sua Mãe, a Virgem Maria. Você não foi feito para ser um primor de equilíbrio, mas para ser o melhor que puder ser, ou seja, o melhor nos seus pontos fortes. É óbvio que o equilíbrio é bom em múltiplos setores gerenciados por nossa razão prática, mas para além disso não há muito uso para normas e equilíbrios. Na verdade isso mais endoidece as pessoas do que as ajuda. Quem dá o padrão, quem dá a Norma? Só Jesus Cristo pode dar. E só de olhar um pouco para Jesus nós imediatamente entendemos: não vai dar para ser como ele, mas nem de longe, talvez só um pouquinho aqui ou ali. Esse pouquinho é o melhor que você pode fazer neste mundo, é o seu chamado, e isso é determinado pelos seus pontos fortes ou por uma circunstancialidade providencial fortuita, incontrolável e imprevisível.

Estou fazendo um mergulho deprimente nas observações do texto O Caráter como Forma Pura da Personalidade, escrito por vocês-sabem-quem, a respeito dos símbolos planetários nas Casas. Venham comigo, meus amigos, e eu mesmo lhes deixo imunizados de minhas tristezas ao fazer comédia de mim mesmo, o que será sempre um prazer.

Que raio de diário seria esse, se eu não entrasse de vez em quando em intimidades? Tem gente que protege sua vida a sete chaves, como se fosse assim uma grande coisa. Que piada. Eu não tenho essa falsa estima. Sei que parece um pouco contraditório, já que ser grato por Graças é ser também grato pela própria vida em si. E eu sou! Mas eu também sei que ela é uma coisinha, e estou contando com a promessa de que isso aqui não interessa muito, essa coisinha, mas sim o que nós fazemos com ela, ou seja, não o nosso tamanho diante de nós mesmos e dos outros, mas o tamanho de nossa alma diante de Deus. E é por isso que não há contradição real entre ser grato pela vida e ao mesmo tempo ansiar pela salvação e pelo outro mundo. Acho, aliás, que só pessoas pouco inteligentes se sentem muito à vontade por aqui. A morte está ali na esquina, não faz sentido querer se acomodar. É como querer morar numa estação de trem. A estação está lá para você passar por ela, não é para ficar. Aliás, quanto menos se acomodar e mais se desapegar, mais as coisas ficam fáceis espiritualmente falando. Mas ainda assim os empertigados do mimimi universal não nos deixarão jamais em paz por dizer que nossa vidinha aqui não é grande coisa. Eu digo, e fodam-se todos. Grande vida é a de Nosso Senhor, ou ainda a de Nossa Senhora. Quem vocês pensam que são? Todas as biografias de gênios não valem a biografia de um santo, e todas as hagiografias juntas não valem a profundidade de um segundo do respiro da vida do Senhor. Tenham a santa paciência e enxerguem-se.

Por isso eu não preciso me proteger de inimigos e de pessoas mal intencionadas. Para essas pessoas existe a polícia, ou os exorcistas, etc. Mais mal intencionado que o diabo ninguém vai ser, e se o plano do Coisa Ruim é me levar para o inferno, imagine se eu tenho tempo de pensar em outra coisa senão que agradar a Deus e tentar servi-lo da melhor forma? E isso não inclui proteger minha biografia como se ela fosse uma coisa sagrada, como se fosse um novo Segredo de Fátima, façam-me o favor. Que coisa ridícula! Eu fico maluco de ver gente assim. Consigo aceitar e até respeitar, mas no fundo não consigo levar a sério. Que besteira, se fazendo de virgem para o mundo mais prostituído das galáxias! Quem tem a autoridade de nos julgar, nos premiar ou nos punir? É a Este que nos desnudamos completamente com temor. Aos outros todo pudor é quase um capricho, é se fazer de difícil para cafetões, e eu na verdade acho que a honestidade entre os homens serve mais a Deus do que a FALSIDADE, e do que a MENTIRA. Tem gente que acha que não, que Deus espera de nós a astúcia ocultista de baratas no esgoto. Ou esta é uma esperteza que ainda me escapou, vai saber? Se existe um plano secreto onde faz sentido eu ocultar o testemunho da minha vida aos outros, ninguém me avisou ainda desse negócio. E se disserem que eu tenho que me cadastrar numa organização secreta para compreender esses arcanos, eu vou responder “não, muito obrigado”. Já estou cadastrado no Livro da Vida, e se Deus me permitir meu nome será homologado pela eternidade. Quem são vocês para querer me vender a dissimulação e a ocultação como se fosse a virtude da prudência? Prudente é manter-se longe de quem gosta de um segredinho obstinado. Segredo é poder. Quem te mantém longe da verdade e controla teu acesso a ela exerce sobre ti um poder. Então nós legitimamente aceitamos os segredos que pessoas melhores tenham sobre nós, como o nosso Deus que guarda a sabedoria do Dia do Juízo. Nós aceitamos naturalmente isso porque aceitamos a autoridade real. Mas um zé mané comedor de feijão não tem esse direito, ou melhor, nós temos o direito de ignorar solenemente o convívio com a sua privacidade exacerbada. Isso me lembra a revolução cainita. Quem é o homem desde o homicídio de Abel? É aquele que vive em segredo para defender-se do seu irmão que lhe quer fazer o mal. Não me chamem isso de bondade, por favor. Podem chamar de excelente o direito à privacidade, direito este que aliás é muito bom e necessário de fato. Mas não chamem os segredos entre os homens de bondade, porque não é. E não chamem um homem sincero de louco, e não invejem a sua coragem de ser aberto, pois isso é repetir o vício homicida. Sejam inocentes, seus filhos da puta! Será tão difícil assim? Prefiram ser como Abel do que como Caim, pois preferível é a bem-aventurança diante da desgraça da perda da amizade com Deus. Ai, dai-me paciência, Deus meu, e faça de mim um homem manso e tolerante, mas nunca desonesto e mentiroso. Senhor meu Deus, faça de mim astuto e esperto NAS TUAS COISAS e não nas do mundo, e deixa-me ser ingênuo e tolo diante dos homens se isto for de Teu agrado, sempre! Que esta é a única felicidade que há, agradar a Deus. O coração transborda de alegria e este mundo não tem espaço suficiente para que ela caiba.

É evidente que Deus pode nos tornar espertos diante de nossos inimigos, e entre as armas que Ele nos dá nas mãos para vencer em Seu nome podem estar muitas traquinagens e golpes. Mas nenhum desses expedientes será menos ordinário e mundano por isso, e nós reconheceremos imediatamente que a justiça está nos planos de Deus e não nos meios limitados da contingência humana. Uma coisa é esse direito supremo que Deus tem de usar as coisas do mundo como achar melhor em vistas do Bem maior; outra coisa é esse suposto direito que nós teríamos de ser sacanas e ardilosos como répteis por nós mesmos. Deus pode usar nossa malícia para o bem, nós mesmos n

Dito tudo isto como pagamento de tributo aos mais assustados com o meu aparente assanhamento, vamos aos planetas e suas teimosas posições no dia de meu nascimento.

Na verdade, só poderei começar isso amanhã, pois o tempo de hoje já não me permite fazer mais nada.

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28/09/2016

Na madrugada choro com Deus as minhas misérias. Faz parte deste processo. Todo mundo deveria fazer isso de vez em quando e ver-se como uma poeira nas mãos de Deus. É a compensação privadíssima do que eu falava ontem, pois se você deve dar testemunho da verdade para o mundo, por outro lado deve ser humilde diante de Deus. E há uma diferença essencial. Pois ser verdadeiro mesmo a respeito de dificuldades e impotências não é humilhar-se ao mundo, tanto quanto colocar-se desumanamente acima de sua condição não é ser verdadeiro; e ser humilde diante de Deus não é apenas reconhecer verdades, mas entregar-se diante de Seu poder.

As lágrimas de um choro honesto e sincero servem até para limpar de nós o próprio coitadismo; servem para se começar a inverter a lógica dos prejuízos insolúveis da vida, para o convertimento desses problemas em instrumentos de obra real no mundo, de uma vida que faz sentido. A individualidade que se funda na autoreferência parece forte mas tem vertigem de olhar cinco metros adiante de seu próprio umbigo. Já a confissão da pequena mas real capacidade de fazer o melhor agora funda a individualidade na possibilidade concreta do Bem neste mundo. A cortina de chuva se dissipa da alma e o vento forte descarrega e limpa o ar, tornando-o fresco e empolgante. Voltamos à melhor das juventudes, que é a da alma, é o de ver a vida como uma coisa que está aí à nossa disposição para fazer algo bom com ela. Boas são, portanto, as lágrimas do abandono de si mesmo, da desistência das obstinações, do desapego das cadeias da alma.

Isso tudo é menos poético, no mundo real, do que pode parecer. Só quis continuar assim o assunto de ontem para dar um tom diferente e complementar ao que já disse. Ontem estava talvez pesado demais.

Vejamos, finalmente, as tais posições planetárias de acordo com o texto já referido.

Comecemos pelo começo, Saturno na Casa I: “O indivíduo estranha sua própria aparência física, tem uma vivência de seu próprio eu aparente como uma coisa evanescente, insubstancial. Atribui aos outros rostos uma familiaridade, uma naturalidade que não percebe no seu próprio.”

Mas é batata! Não consigo assistir um vídeo meu e não sentir um estranhamento completo. Sinto uma grande decepção. Não gosto de me ver, não gosto de me ouvir, não gosto nem de lembrar que eu existo como a figura que sou. Aliás a minha tranquilidade é proporcional ao grau do esquecimento da minha figura externa.

Continuando: “Tem uma consciência aguda de que sua expressão se modifica conforme o papel que desempenha, e sente-se, por isso, um ator. O jogo das máscaras se torna de vital importância quando tem de se apresentar socialmente.”

Diagnostiquei isso relativamente cedo, e montei até toda uma teoria da falsidade inevitável das relações humanas. Errei essencialmente ao projetar uma característica individual que tenho pessoalmente em toda a coletividade que me cerca, mas acertei acidentalmente por habitar uma sociedade alucinada como a brasileira, tipicamente farsante e fingida.

Mas a parte boa da história é que comecei de algum modo a buscar a arte da sinceridade, e eu a encontrei nesses maravilhosos edifícios culturais que são as obras de literatura, filosofia e ciências, sempre orientado e guiado por pessoas que vivem a sinceridade e a transmitem em seu ensino. As criações monumentais do gênero humano dão instrumentos expressivos muito variados e ricos. E hoje, mais do que nunca antes, eu retomo o amor pelas letras como uma saída do abismo da inevitável autocontradição do meu ser sociável. É gozado que normalmente a solução pareceria, aos olhos dos incautos, o contrário desta: eu teria que mergulhar na verdade de meu ser externo, de minha autoimagem, e vencer esse terror primevo de minha alma. Mas é o contrário. Eu tenho, cada vez mais, que buscar a verdade fora de mim, aquela verdade que eu posso perceber com mais facilidade e objetividade tanto quanto mais estiver livre de obstruções doxáticas do ego. O ponto fraco se torna ponto forte: eu não tenho que me preocupar com minha autoimagem porque ela não faz diferença nenhuma! Fico livre, desde que relativamente isolado de algum contato social mais ostensivo, de ter que manter aparências.

Continuando: “Substitui a sinceridade individual pelo ‘fingimento’ (que, aprimorado, se torna uma espécie de sinceridade artística, elaborada e problemática) e aos outros parece ou ‘cara de pau’ ou excessivamente retraído, porque na construção dos esquemas adaptativos há perda da naturalidade, seu comportamento parecendo premeditado, o que cria desconfiança”.

Todo esse problema deriva da necessidade da sociabilidade, ou seja, de apresentar um eu sociável, como um cartão de visitas. Não é, realmente, uma dúvida quanto a individualidade real. Sei perfeitamente que existo, que tenho uma história, que respondo pelas minhas ações, etc. Apenas não consigo me ver como figura legítima e que possua características próprias tais e quais no encontro com as outras pessoas. Na medida em que este encontro não for tão necessário ou direto, é possível agir com grande liberdade e sem tantas inibições. Por isso a necessidade que sinto, mais e mais e cada dia, é a de trabalhar produzindo algo que os outros possam colher e aproveitar da melhor maneira possível. O melhor de mim é o que eu faço com o que eu sou e nunca eu mesmo. Ao contrário, quanto mais eu desaparecer de cena e mais aparecerem obras boas que eu conseguir fazer, melhor. De certo modo essa abordagem replica a instrução que Sertillanges dá em A Vida Intelectual, quando refere-se a uma tradição que vem desde São Tomás, que é o de resolver cada questão trabalhando mais.

Agora, é um fato que para a Astrocaracterologia a posição social das pessoas é um elemento central. Isto é parcialmente atenuado nas concepções da santidade, mas mesmo esta é mais reconhecida por determinados frutos externos do que por uma contemplatividade própria que possa ser perfeita em si mesma. Parece que até o santo tem que fazer alguma coisa no mundo para ser santo. A Astrocaracterologia parece ter, assim, uma marca levemente utilitarista ou pragmatista, mas que é atenuada por considerações transcendentais. O erro de interpretação é considerar que não existe nobreza real se não existe um poder que corresponda a esta nobreza, e achar, ao contrário, que o poder real sem a autoridade que lhe seja compatível é perfeitamente legítimo, de vez que as responsabilidades derivariam dos deveres de estado de cada um e não de uma exigência transcendente. Este erro tem que ser afastado. Do contrário consideraremos que tudo o que não encarna neste mundo parecerá estar perdido para sempre, o que é um cronocentrismo e até um antropocentrismo. O estudo dessas coisas, e da astrologia em geral, permite ganhar possibilidades novas muito interessantes, mas ao preço de se aceitar cadeias cada vez mais sólidas e imperecíveis de determinações, coisas que contestam a promessa da vida eterna e até a realidade atual da Onipotência. Por isso é preciso tomar cuidado e ser moderado com essas coisas. O que é a Astrocaracterologia à luz da simples Fé? É apenas um esquema de possibilidades, substituível ou complementável por muitos outros potenciais.

Continuo minha exposição amanhã pois, para variar, acabou o meu tempo.

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30/09/2016

Fim de Setembro, fim do terceiro trimestre, fim de um monte de coisas.

Fim, fim, fim.

Nunca foi tão gostoso assistir muitos fins acontecendo.

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Continuando a análise que parei ontem, ainda sobre Saturno na I: “O indivíduo duvida constantemente de sua autoimagem nos primeiros anos de vida, questionando-a e rejeitando-a, multiplicando os pontos de vista desde os quais se encara e, com isto, alimentando contradições que tornam esta imagem mais insustentável ainda e criando a necessidade de fixar uma autoimagem racionalmente fundamentada e justificada. Ele precisa construir uma imagem para si mesmo, a partir da reflexão e da experiência sobre as imagens e personagens possíveis”.

Eis Saturno no seu elemento: a rejeição de crenças livres e arbitrárias, a obrigação da construção de longo prazo baseada em critérios racionais, algo que necessariamente demorará muito mais tempo do que o normal.

Se fizessem um dia uma pesquisa estatística séria e com uma amostragem grande, acredito que encontraríamos um traço característica de tendências suicidas em pessoas com Saturno na I. Porque a pressão aqui vem desde o início e vem muito forte. Acredito que os primeiros quinze ou vinte anos sejam os mais críticos, e depois os próximos anos até os trinta. Se o sujeito sobreviveu aos trinta anos de idade, de duas uma: ou ele fugiu do problema e armou uma bomba relógio para si mesmo, ou começou de fato a trabalhar esta construção racional de sua personalidade.

Acho que é bem difícil para pessoas que não tenham essa posição natal entenderem de fato o tamanho do problema. Especialmente pessoas com Sol ou Júpiter na I, porque o que para estas pessoas é a coisa mais natural e espontânea da vida, para quem tem Saturno I é um verdadeiro trabalho hercúleo. Na vida exterior da pessoa parecerá estar tudo bem, até porque esta é uma posição que facilita a responsabilidade pessoal, a seriedade, etc. Então são pessoas que se comportam decentemente, que são responsáveis, etc. Mas lá dentro há uma Guerra de Tróia em andamento, acreditem.

Se a pessoa conseguir chegar aos quarenta anos de idade, eu creio que o pior já deverá ter passado (com a excessão dos casos de “bomba relógio”, de quem enfiou os problemas embaixo do tapete da consciência). E aí a coisa começa a ficar boa, porque eis que a personalidade adulta começa a ter uma coerência interna muito sólida e isso começa a estabilizar a autoimagem exterior. Saturno cobra caro, mas se o preço é pago, ele entrega como prêmio uma força invejável, uma firmeza única.

Continuando: “Sente-se inferiorizado diante de quem ele perceba como espontâneo, natural, desenvolto e autoconfiante, ou, inversamente, de quem lhe transmita a imagem de uma máscara perfeita, de um total domínio da simulação, a que ele também aspira como a uma espécie de sucedâneo da desenvoltura que lhe parece inacessível. Ele é vulnerável a quem vê o seu defeito, a imperfeição ou a incongruência de sua imagem”.

Daí que a tentação do Orgulho me parece ser maior com quem tem esta posição do que com outros tipos de pessoas. Até simbolicamente nós recebemos a tradição de que o pecado mais pesado de todos corresponde ao planeta mais distante e mais lento. Porque todo esse drama do fingimento e da incoerência pessoal torna muito difícil que a pessoa consiga transmitir socialmente o melhor que tem dentro de si. Como quaisquer boas qualidades costumam ser ignoradas pelos outros por causa deste problema grave de sociabilidade, a pessoa é tratada pelo que apresenta ao mundo, e neste sentido geralmente é mal tratada, ou porque é ridicularizada, ou porque é ignorada, etc. Essas coisas são tentações para o Orgulho, inevitavelmente, pois despertam o potencial de autodefesa do bem interior como se ele fosse próprio, já que não pode justamente ser reconhecido objetivamente por atos externos da personalidade.

Ao meu ver este é o maior perigo de todos: a pessoa crer-se num papel de vítima incompreendida e consequentemente afastar-se do próximo numa caricatura de atitude justa. Todos os demônios comemoram essa reação, pois abrem-se aí os portões da alma para todos os tipos de vícios e iniquidades que se pode imaginar. A instalação do Orgulho na alma libera o pior dentro da pessoa, inclusive aquele sentimento suicida a que me referi. Parece não haver nenhum suporte externo real para a vida, nenhum entendimento e nenhuma compreensão, e essa solidão devastadora tem funestas consequências. Quanto mais este processo se acelera, mais urgente é o aprendizado da virtude da Humildade para o indivíduo, e mais miraculosas e providenciais terão de ser as oportunidades para esta conversão.

Continuando: “A questão humana que lhe causa perplexidade e espanto é a percepção de um hiato entre o eu (sua identidade interna) e sua aparência física (percepção de si externamente), ou seja, a expressão visível, externa do ser”.

É evidente, assim, que os primeiros anos da vida –como disse, entre quinze e vinte anos– serão os piores de todos. Porque a figura externa é sempre pronta, imediata, concreta, enquanto o eu interno já começa num processo complexo de configuração, como se a pessoa já nascesse “fechada para balanço”. Muitas reflexões existenciais que são normais para as pessoas aos quarenta anos de idade ou até depois disso são vividas por quem tem Saturno na I praticamente desde que a pessoa aprende a falar a palavra “eu” com alguma consistência. Mas enquanto esse eu interior está se desenvolvendo de forma lenta e trabalhosa, o eu externo já está sempre pronto e se mostrando a todo o mundo como se fosse uma coisa pronta. Não há nada pronto, mas é impossível não projetar uma imagem concreta acabada, porque existir concretamente é necessariamente ter essa imagem pronta. Entre o que há dentro em vagaroso desenvolvimento e o que há fora pronto e acabado onde quer que apareça, trava-se uma luta titânica tendo como palco a psique do indivíduo.

Continuando: “Na medida em que o indivíduo quer ser sincero, mas ao mesmo tempo deseja parecer natural na sua sinceridade (porque uma sinceridade canhestra não seria persuasiva para os outros, e ele teme ser mal interpretado), ele premedita uma expressão de sinceridade; e na hora em que premedita já sente que não é sincero. Quanto mais natural a aparência conseguida, mais farsante ele se sente”.

Sentiram o drama?

O problema é que Saturno não admite qualquer coisa que não tenha sido racionalmente trabalhada.

Vejam, pelo simbolismo, enquanto o Sol representa a inteligência, Saturno simboliza propriamente a sabedoria. A inteligência é a intuição da verdade, é o conhecimento propriamente dito de algo que se apresenta com clareza para a consciência. A sabedoria, por seu lado, é a estrutura da Verdade, ou seja, é a arquitetura dos saberes inteligidos unitariamente que formam uma coletividade orgânica e harmoniosa. A consciência da verdade de algo é pura e instantaneamente intuída pela inteligência, enquanto a consciência da Verdade é uma contemplação do espírito, sempre necessária mas também sempre incompleta. Enquanto a inteligência se dá por uma visão imediata da verdade do que se compreende, a sabedoria requer a reflexão meditada da coerência interna de cada saber e da coerência externa dos saberes entre si dentro de uma harmonia absoluta dentro do Logos, ou filosoficamente dentro da “estrutura da possibilidade universal”, como já chamou Olavo. Isto quer dizer que a inteligência opera ou não opera, e quando opera, opera de maneira total e completa sempre, enquanto que a sabedoria sempre dá trabalho para o ser humano. Saturno simboliza o que dá trabalho de construir no decorrer do tempo. E a sabedoria, para o ser humano, é justamente esta consciência contemplativa que dá trabalho de construir ao longo do tempo.

Assim sendo, a sinceridade que quem tem Saturno na I busca é a sinceridade que reflete a sabedoria, mas esta consciência demora muito a se construir no tempo! Como é que eu faço para falar a verdade para os outros, se eu estou meditando isso dentro de mim e sei que qualquer coisa que eu apresente agora será incompleto e definitivamente não refletirá o que eu realmente estou buscando?

Apresentar-se como natural e espontâneo ao mundo será sempre um fingimento de uma convicção que simplesmente não existe dentro de mim. Ser verdadeiro de fato para as pessoas seria, portanto, não mostrar um eu tão convicto de qualquer crença específica, mas no máximo um eu convicto de sua própria busca pela sabedoria.

É claro que já estou puxando a sardinha para o meu lado, ou seja, estou buscando a coerência dessas coisas tais como elas se apresentam para mim individualmente. Não posso afirmar que todo e qualquer indivíduo que tenha Saturno na I tenha necessariamente que se conscientizar desta busca, até porque eu estaria socratizando ou aristotelizando o destino de todo esse grupo de pessoas ao afirmar a sua vocação própria para a filosofia. Admito que não posso fazer isso com os outros, mas assumo que faço isso comigo mesmo. É uma coisa muito clara para mim: só consigo ser eu mesmo com espontaneidade quando falo de minha busca; do contrário sou mais ou menos fingido só para não parecer mal educado e antisocial.

E falando em comportamento antisocial, a próxima posição planetária explica a minha pré-disposição imediata para o afastamento das pessoas.

Vejamos, Marte na Casa I: “Está sempre se mexendo para permanecer exatamente do jeito que está –este movimento externo é para evitar o movimento interno; gostaria de estar tranquilo com a sua autoimagem, e fica então sensível a qualquer ameaça nesta área”.

Preciso explicar porque a minha Casa I é nitroglicerina pura? Acabamos de ver o Saturno com suas pesadíssimas exigências de coerência racional, de construção de longo prazo, etc., e ainda vem agora Marte reagir com violência a qualquer ameaça exterior contra essa autoimagem. Eu poderia ser, se tivesse me desencaminhado na vida, um serial killer com tendências suicidas, concordam?

Se não concordam, agora vão concordar, porque há uma informação adicional importante: Saturno e Marte estão conjuntos e Marte é o dispositor de Saturno, pois está domiciliado em Escorpião. E agora, concordam?

Mas eu sou bonzinho, afinal de contas continuo sendo canceriano e domino, portanto, esses instintos mais primitivos.

O fato é que há energia para fazer o que for preciso para essa defesa do eu interior, e neste sentido os dois planetas são aliados. Saturno representa algo que deve ser defendido enquanto não fica pronto, e Marte representa o poder de defender. Mais: Saturno representa um esforço necessário de longo prazo, e Marte representa uma energia disponível para fazer este esforço. O que parecia tão maléfico não é, afinal, tão ruim assim.

Mas é fato também que o retraimento do eu interior que não consegue se mostrar de forma honesta conduz ao instinto de defesa marcial que não é, obviamente, ordeiro e pacífico. Marte significa disposição para luta, combate e violência; e isto quer dizer o seguinte, em resumo: para não apanhar, ou eu bato, ou eu fujo.

Agradeco entusiasmadamente ao Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, o nosso Gugu, por ter explicado tão bem esses elementos do simbolismo planetário; e necessariamente agradeço também ao Tales de Carvalho por sua nobre iniciativa de fundar o Instituto Lux et Sapientia, e por ter permitido assim que esses conhecimentos pudessem ser passados a mais pessoas para além de um pequeno grupo de alunos do qual eu me sinto honrado de ter participado.

Mas, voltando, é óbvio que se a força marcial é a de bater ou a de fugir para não apanhar, a minha história até aqui foi praticamente a de um fugitivo. Isto está na minha trajetória faz tempo, desde pelo menos o ano de 1998 quando, aos quatorze anos de idade, decidi fugir e abandonar a escola. A convivência com meus coleguinhas chegou ao insustentável e eu não conseguia bater neles (até pela minha índole naturalmente pacífica e ordeira, Ascendente Libra e Sol em Câncer), então eu fugi para não apanhar.

Até hoje vivo fugindo. Basta alguém marcar um happy hour ou algo do tipo e eu saio correndo na mesma hora, justamente porque não tenho um eu sincero e espontâneo para mostrar. Posso mostrar-me de forma fingida, é claro, mas eu me sinto mal com isso. Então eu saio correndo mesmo. Individualmente lido bem com as pessoas, porque consigo ser mais íntegro, embora confesse que esta foi uma arte aprendida com árduo esforço e muito nervosismo. Hoje lido bem socialmente quando tenho que lidar com uma ou no máximo duas pessoas por vez. Com grupos maiores eu só consigo conviver quando tenho algum tipo de autoridade ou poder que me permita, em caso de risco, bater ao invés de fugir. Se não tiver essa capacidade, já fujo antecipadamente. Já dizia Sun Tzu que faz parte da arte da guerra escolher quando e onde lutar, ou seja, lutar somente quando e onde você puder garantir a vitória. Caso contrário, withdraw the troops.

Continuando: “Esta atividade se exterioriza imediatamente e é visível aos outros, transparece na sua imagem. Reage exterior e fisicamente às informações que trazem novidades sobre a autoimagem, rejeitando qualquer alusão, provocação ou ofensa à ela”.

Pergunte a qualquer um que me conheça mais de perto e poderá ouvir o testemunho de que sem muitas explicações às vezes eu me fecho em copas, fico absolutamente calado, ou então saio do lugar onde estou rapidamente, sem motivo aparente. O que é isso aí? É essa reação simbolizada pelo Marte na I: uma reação física e imediata contra qualquer ameaça externa à minha autoimagem.

Não é um afrescalhamento, uma boiolice, veja bem. Se você disser as piores coisas sobre mim e elas forem verdadeiras, eu vou brindar com você e possivelmente vou complementar com acréscimos sarcásticos sobre mim mesmo. O problema não é uma hipersensibilidade genérica que eu tenho. É um ouvido atento a qualquer coisa sobre a minha pessoa que eu não reconheça como verdadeiro. E isso pode se dar das formas mais indiretas que se possa imaginar.

Vou dar um exemplo, um tira-gosto, uma confissãozinha saborosa para vocês. Um dia eu estava numa sala de aula na UNIP, numa época em que eu ainda fingia para mim mesmo que queria fazer parte deste mundinho serelepe, e era ocasião da primeira aula de Filosofia da nossa turma. Ocorreu um trotezinho típico, em que um aluno veterano assume o papel do professor e finge estar passando uma aula severíssima. Eu já suspeitei do ardil desde o início e fiquei só observando, mas ainda assim não me ri dos ingênuos que anotavam todas as coisas em seus cadernos com seus ares desesperados. Simplesmente não consigo achar graça nisso; um curso universitário simplesmente poderia ser mais barato e mais breve se não existisse esse tipo de estupidez. Aliás, não vi até hoje grade curricular universitária na área de humanas que não pudesse sofrer redução de pelo menos uns 20% ou 30% no seu conteúdo, no mínimo, embora é claro que isso iria custar muitas horas-aula para vários professores vagabundos, os pobres coitadinhos. Mas, voltando. Naquela cena eu já fazia comigo uma reflexão sincera, “mas, espera aí, o que eu realmente estou fazendo aqui?”, e em algum momento o pseudo-professor que aplicava o trote citou o nome de Hegel, que em sua pronúncia semianalfabeta saiu “RÉGUEL”. Quer dizer, nem o trote presta, entendem? Era todo um novo nível de cena deprimente para mim. Enquanto isso, na porta da sala, dois ou três outros alunos veteranos davam risadinhas. Ah, o ser humano desocupado, do que ele não é capaz, não é? Aquela cena era toda ela patética, e era toda sintomática de um certo drama da civilização, de uma falta de jeito, de uma falta de senso da realidade. E o pior de tudo? Eu fazia parte daquela cena. Ora, ciente do trote desde cedo, eu fazia mais parte ainda do que os meus colegas desavisados. E isso não podia ser tolerado porque –eis finalmente– esta é uma informação que afeta a minha autoimagem. Eu simplesmente não posso aceitar passar por esse tipo de coisa. Primeiro vem Saturno: uma reação que beira o orgulho, mas na verdade reflexe uma incompatibilidade real entre um eu em longo processo de construção e aquele eu que se deixava estar em um cenário completamente nonsense. De fato, beira o orgulho, mas é uma reação realmente legítima, ou no mínimo moralmente justificável: provavelmente eu poderia dar uma bela aula de filosofia para todos aqueles pivetes morais, arrisco-me até a dizer que poderia provavelmente dar uma aula para o próprio professor de fato, não porque eu seja grande coisa, mas é porque os professores universitários simplesmente são péssimos na média. Veja quantos botões são apertados na consciência ao mesmo tempo no meio de uma cena dessas. Por um lado não posso me achar superior só porque fui feito de besta, por mais tosca que seja a cena; por outro lado, também não posso fingir que não sei o que eu sei sobre mim mesmo, ou seja, que àquela altura eu já tinha me dedicado quase dez anos a estudar filosofia com grande interesse e comprometimento pessoal, e que isso não fazia parte de um papel social meu, mas da minha pessoa no sentido mais íntimo possível. Ao fim a brincadeira seria ainda assim perfeitamente tolerável se na  minha cabeça eu não tivesse feito uma outra conta mais ampla, ou seja, se não tivesse visto que eu mesmo ter me posto naquela posição desde o começo era uma idiotice. Foi neste momento que apertei o botão “Marte” do meu ser. Levantei-me, peguei minhas coisas e saí daquele prédio, para nunca mais voltar até a presente data. Posso dar uma aula na UNIP, se me pedirem com carinho, mas por outra razão não faria sentido voltar lá. Talvez para um honroso trabalho de faxineiro? Melhor do que como aluno, garanto. Mas o que temos aqui, afinal? Um exemplo de uma reação física de autodefesa, neste caso novamente uma fuga, como nos velhos tempos de 1998. Senti todo um ar nostálgico com essa cena. Depois de fazer um exame de consciência, percebi que passei perto de cair em Orgulho, pois a tentação era enorme, mas que no fim minha reação foi justa no limite de minhas forças e de meus interesses concretos.

Seria bom que pessoas queridas, próximas de mim, entendessem e fossem compreensivas com relação a isso: às vezes uma reação abrupta de ficar mudo ou de sair andando não diz respeito a uma ofensa que tenham realmente me feito, mas pode ser apenas uma reação física imediata, marcial, contra um dado qualquer que conflitou com essa autoimagem que trabalho lentamente dentro de mim. Aliás, uma dica: quando a ofensa é real dá para discernir imediatamente, porque eu vou embora e costumo não voltar mais, exceto por felizes circunstâncias. Quando a ofensa é real digo a Deus, “et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris”, perdôo a tudo a todos, mas não esqueço e não permito que o mal se repita simplesmente porque eu tenho que ser um cristão bonzinho. Que coisa ridícula. Ser cristão não é ser trouxa, e não é, principalmente, dar ocasião e oportunidade para que as pessoas caiam na tentação de fazer o mal conosco novamente. Perdoar uma pessoa não é o mesmo que convertê-la; ou seja, você perdoa para que você mesmo se livre de desejar e fazer o mal contra aquele que lhe ofendeu ou atacou, mas isso jamais garantirá que o outro não erre novamente contigo. Você pode rezar para que Deus ajude o próximo, mas não pode ir lá e dizer “eu te perdôo, vem de novo me bater que eu estou aqui para apanhar”, isso não é perdão, isto é prática sadomasoquista. Você perdoa a pessoa e se coloca a disposição para o bem dela; se ela quiser voltar ao mal, porém, você jamais deve servir a isto, pois estará colaborando na tentação que faz aquela pessoa sofrer.

Enfim, essa posição de Marte significa que eu tenho meios físicos de reação imediata contra qualquer ameaça de agressão a minha autoimagem, somente isso. É autodefesa pura.

Continuando: “Desenvolve esquemas defensivos com relação à sua autoimagem: incomodando os outros, ou o meio-ambiente, para não ser afetado interiormente; reagindo no sentido de manter superficial o contato com as pessoas ou mudando constantemente sua imagem externa, para não mudar a interna”.

Sempre senti este poder e, confesso, um gosto especial, um prazer quase infantil de saber que tenho essa capacidade. Basicamente é o seguinte: enquanto essa obra interna está em andamento, a segurança ao redor do terreno onde ocorre a construção é feito pela Blackwater, pela Waffen-SS, ou pelo Estado Islâmico: sem misericórdia contra invasores que perturbem a paz da obra. Sinceramente sinto que não importa o tamanho da angústia ambiental, de algum jeito vou conseguir resistir internamente e manter-me mais ou menos num rumo estável (é claro que não estou cogitando situações extremas como ir parar num Gulag, por exemplo). Infelizmente o preço deste poder é um certo desleixo social que pode prejudicar os outros e também, certamente, a mim mesmo, me privando de algum convívio que seria benéfico. Não chega a ser antisociabilidade pura, mas vejo que às vezes os efeitos são desagradáveis. Se não fossem objetivos superiores da vida que me levassem a algum nível de integração social por cima, esse Marte poderia sim representar até mesmo uma sociopatia. O que é, aliás, um perigo permanente da vida urbana de nossa época.

Continuando: “Marte e Júpiter na I revelam uma certa resistência instintiva a qualquer auto-exame; Júpiter, porque alimenta uma identificação dogmática com a imagem que deseja projetar a cada instante; Marte, porque provoca um forte sentido de incomodidade ante qualquer reflexão que possa alterar seu estado interno, e porque tende a preservar a homeostase”.

O único ajuste necessário aqui é a compreensão decorrente da conjunção Saturno-Marte, ou seja, Saturno exige a reflexão e ainda por cima não qualquer reflexão, mas a mais profunda e séria que seja possível, e enquanto isso Marte exige que o equilíbrio interno seja mantido contra qualquer reflexão que pareça alterar esse balanço. É evidente, e digo não somente pelo simbolismo mas também pelo próprio testemunho de minha experiência, que Marte no caso representa reação contra o incômodo de uma reflexão originada desde fora, ou pelo contraste social entre a imagem do eu projetada para fora e a interna de minha própria consciência. Em algum nível certamente as coisas não foram assim e eu pude me ver querendo evitar a reflexão interna, enquanto eu não compreendia bem a praticamente total independência entre o controle interno do eu sobre si mesmo e o controle da imagem projetada do eu para o mundo. Certamente o amadurecimento com a idade esfria um pouco este estresse marcial e o focaliza para se defender somente de ataques exteriores, ou seja, das idéias que os outros fazem da minha personalidade e da minha imagem.

Depois de passarmos pela medonho campo minado dos dois maléficos na I, finalmente alcançamos o primeiro refresco da jornada, com Júpiter na IV.

Vejamos: “Tende a confiar imensamente na sua capacidade de atingir a felicidade, de obter o que deseja, de criar em si mesmo seu próprio objeto de satisfação. Acredita que a Providência o ajudará a realizar seus mais íntimos desejos, que ele conseguirá se impor às circunstâncias externas que poderiam causar-lhe infelicidade. Por isso, não se deixa abater por frustrações emocionais, por desejos não realizados. Sente-se livre em relação aos próprios desejos, em decidir realiza-los ou não, mantê-los ou fazê-los cessar, num esforço de vontade. Confia na felicidade final”.

Isso remete àquela minha noção da absoluta superioridade ontológica das Graças em relação aos pecados. A Graça não é o inverso do pecado, é algo muito maior e mais decisivo, mais profundo e mais vivo. Um pecado é um erro. Uma Graça é um pedaço do Céu. Um pecado é uma fraqueza, a Graça é uma força concedida. Por isto ao lado de Humildade e Obediência, a Gratidão tem todo um lugar especial em minha alma, e eu tenho muita vontade de espalhar essa prática para todos os lados. As pessoas ficam muito concentradas nos pecados, porque elas acham que o projeto de Deus é como um sistema “defeito-zero” de fábrica: tem que sair tudo bonitinho sem falhas. Mas não é isso. O projeto humano é pegar todas essas falhas, assumi-las como nossas cruzes pessoais, e fazer ainda assim a coisa boa no mundo, que é a vontade de Deus. Deus tem uma idéia positiva, logicamente falando, a respeito do homem, a respeito do que o homem deve fazer com a sua liberdade. Ou seja, a liberdade não é univocamente a liberdade de não escolher o mal, e sim essencialmente a liberdade de escolher o bem. É escolhendo o bem que o ser humano é mais livre, e não meramente evitando o mal. A concentração na precaução contra o mal nos torna gnósticos desconfiados, e é um imperdoável esquecimento da Onipotência divina. Se o bem é um caminho certo, o que é o mal? O mal é todo o resto que não leva ao destino correto. É espiritualmente muito prejudicial, no meu modestíssimo entendimento, a concentração da atenção no mal e no pecado. Quem sou eu para dizer isso? Ninguém. Mas, cá entre nós, a Igreja não anda lá convertendo muitos corações. Deus sim, converte às pencas, todos os dias, com milagres incessantes, ou seja, através da Graça. Mas a Igreja em si, não está ela um pouco confusa e desorientada catalogando e controlando todos os “nãos” que nós temos que dizer? Mas esta lista não tem fim, pessoal. Onde vocês querem chegar afinal de contas? É mais fácil concentrar no “sim” que temos que dizer, afinal este é somente um: o sim a Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Será tão difícil focar nisso? O saber sobre o mal e o pecado se torna enciclopédico, e tem lá até a sua razão de ser como alerta aos irmãos, mas onde vai acabar esta história? Por isto a Gratidão me tem um peso tão especial. E a própria Obediência, se você pensar bem, é superior à Penitência. A Obediência é aquilo que quanto mais você pratica mais desobrigado fica depois de se penitenciar (e negar isso é enxergar sadismo em Deus, livrem-se dessa idéia urgentemente! Este não é o nosso Deus, é o demiúrgo do gnosticismo). A Penitência não é doce como a Obediência, ela é um “pedido de desculpas” espiritual e um aprendizado da alma pela dor. O alimento doce que oferecemos mais livremente a Deus é obedecê-Lo! Se a Penitência vai pela dor, a Obediência vai pelo amor. E o amor vence, fácil, fácil. Mas, posso estar enganado, sinto que muitos irmãos preferem repetir o velho caminho de Adão e Eva, ou seja, fazer a cagada por desobediência primeiro, e depois sair comendo o pão que o diabo amassou para só tentar redimir alguma coisa depois. Não é melhor fazer um negócio diferente, desobedecer a herança de Adão e Eva e ser obediente a Deus para variar um pouco esta história? Se Jesus Cristo veio para redimir a todos nós, não é isto o que Ele espera, fazer cessar a lei da dor e instaurar o seu Reino do Bem e da Verdade? O Reino Dele não é deste mundo, sim, é claro, mas ao mesmo tempo nós pedimos “adveniat Regnum Tuum”. Como é que é isso, então, pedimos da boca para fora? Ou achamos que o Reino de Deus é realmente composto de penitências?

É só um pensamento, não estou fazendo teologia. Mas acho que ser súdito do Reino do Senhor se parece mais com ser docemente Obediente do que com ser carrasco de si mesmo.

Espero não estar parecendo grosseiro a nenhum cristão por dizer estas coisas, definitivamente não é esta a minha intenção. Vejam em suas próprias almas se entendem o que é a doçura da Obediência, por um lado, e consequentemente, por outro lado, o que é a superioridade da Gratidão em relação à Penitência.

Voltando ao Júpiter na IV. A descrição é boa, pois remete ao meu sandbox pessoal: a felicidade é vivida intimamente, e a dependência do mundo exterior para vivê-la é relativizada ao ponto de que no fim das contas aquilo de que eu realmente preciso não será tanto assim e estará de um jeito ou de outro à minha disposição.

Enfim, depois daquela devastação da Casa I, a Casa IV parece ser um oásis merecido pela mera sobrevivência.

Vamos seguir em frente, subindo agora à minha Casa X superlotada.

Sol na X: “Inteligência intuitiva topológica. Mapeia de imediato a situação social. Enxerga os indivíduos em termos de sua localização na topografia das relações, isto é, percebe rapidamente quem manda e quem obedece a hierarquia e o que convém para que ele próprio possa se situar com clareza nessa hierarquia, e busca nela o lugar que julga conveniente”.

Que lugar seria este, no meu caso, o ostracismo?

Confesso que mesmo que eu tenha essa tal “inteligência intuitiva topológica”, não sei direito o que fazer com ela, já que a sociedade e eu somos espécies de gêneros bem diferentes. Aliás, nem vejo grande valor nessa tal capacidade. Qual será a dificuldade de um indivíduo mediano de entender quem manda e quem obedece? Será que é um mistério tão grande assim? Enfim. Na prática eu não consegui, até agora aos meus 32 anos de idade, por mais que buscasse, localizar na sociedade o lugar que julgasse mais conveniente para mim. Então ou esse lugar é de difícil acesso, ou ele não existe. E daí, se não existir, eu me pergunto: para que receber este equipamento, então?

Se sairmos um pouco desse imanentismo característico das notas astrocaracterológicas e pensarmos em uma inteligência abstrativa capaz de operar com facilidade o reconhecimento das hierarquias reais no estudo de história, de filosofia, etc., daí nós podemos começar a conversar. Separar, por exemplo, o que tem importância do que não tem, para mim é café com leite. Capturar o poder real exercido, por exemplo, por um filósofo, pela simples análise da consecução histórica de suas idéias dentro de uma hierarquia intelectual, também é mais ou menos fácil para mim. Esse Sol representaria, assim, o grande suporte intelectual que eu obtive aprendendo com grandes mestres. Vira e mexe eu vejo as pessoas pensando cartesianamente, hegelianamente, kantianamente, e por aí vai. E gosto até de exercícios mais ousados, como a concepção de que o nominalismo é o pecado original da filosofia, ou seja, de todos os males da história das idéias, este é o mais poderoso e duradouro, numa tradição que vai de Protágoras até Guilherme de Ockham e chega até os dias de hoje com essa patética discussão de ideologia de gênero, por exemplo.

Só que isto tudo eu estou derivando do texto, não está realmente lá. Lá diz que eu enxergo o poder na sociedade, e a minha posição dentro dela. Para o meu histórico isto é quase uma piada. Quem sou eu dentro da sociedade? Sou um ninguém. E olha, vou te dizer, sempre tive uma quedinha por ser ninguém, lembrando da efetividade que um Ulisses obteve, por exemplo, sendo ocasionalmente também um ninguém. Foi mais feliz que um grande “alguém” chamado Aquiles, por exemplo.

Continuando: “Olha as coisas de cima, como se já estivesse no topo do sistema de poder. Vendo a sociedade de maneira topográfica, como se já a conhecesse desde cima, o indivíduo tende a se impor sobre a sociedade, querendo moldá-la por si”.

Não tem nada a ver com a minha experiência de vida. Então ou é algo para o futuro, ou não é nada mesmo.

Repito: digo isto existencialmente, pois intelectualmente é outra coisa.</