Reconsiderando o Português

Eu disse em minha última entrada no diário que era preciso testar a hipótese de trabalhar apenas em inglês. Nada mais natural do que começar este teste — e em português– fazendo o elogio de minha língua materna, defendendo o seu uso e contra-argumentando sobre os sete pontos noticiados naquela apologia do inglês.

Antes de falar das contra-razões, é bom já estabelecer os motivos próprios de uso da língua de Camões, quais sejam:

  1. A providência circunstancial. Posso até parar um dia, quem sabe?, numa nação estrangeira e acabar falando inglês, ou até mesmo o espanhol. Não sei do meu futuro. Mas sei do meu passado: o fato de que fui educado dentro de uma cultura que fala o português não pode ser ignorado; e como bom crente que sou de que nada é por acaso, é preciso refletir detidamente o quanto o uso do inglês implica num rompimento com esta ordem natural das coisas, o que pode ser eventualmente até uma desobediência. Enquanto em benefício do inglês se conjeturou possibilidades, a realidade do português tem a brutalidade dos fatos;
  2. Investimento em um ponto forte. Já faz mais de cinco anos que dei aquele curso sobre vocação no colégio Rocha Mendes, mas me lembro bem de algumas passagens marcantes nos estudos feitos àquela época. Peter Drucker, a quem ninguém pode acusar de ser burro, insistia que perdia-se muito tempo e energia tentando transformar pessoas medíocres em boas, enquanto o que se deveria fazer era um investimento nas boas qualidades de uma pessoa para que esta se torne excelente no que faz. Este segundo ponto ecoa o primeiro no sentido da primazia da realidade atestada sobre as nossas projeções. É muito melhor eu usar e abusar do português, uma língua na qual já tenho alguma perícia, do que investir num inglês que dificilmente passará do medíocre. A lei mais elementar da eficiência nos indica fortemente investir onde já se tem uma força, e esquecer ou compensar os pontos fracos.

Agora vamos refutar os pontos da alegação anterior em favor do inglês:

Primeiro argumento: o desapontamento social geral pode ser causa para a atitude inversa ao peticionado. Há algo um pouco anti-social, para não falar desumano, em se virar as costas a um cenário tão carente e problemático, apenas porque “não se aguenta mais”. O que é a vida neste mundo, senão a experiência de uma série de coisas que nós “não aguentamos mais”? Mas trabalhar nisto, com isto mesmo que está aí, é o que a circunstância desafia. A diferença entre o inglês e o português pode ser a mesma que há entre quem veio ao mundo a passeio ou a trabalho, afinal, escapar da adversidade para encontrar o que é mais conveniente é exatamente a atitude utilitarista –quando não mesmo hedonista– moralmente condenável em muitos tipos intelectuais.

Segundo argumento: se não faz parte do plano falar com uma determinada quantidade de pessoas, como se postula ao fim, o segundo argumento inteiro se torna inválido automaticamente. Não é preciso perder mais tempo com isto.

Terceiro argumento: se não há interesse em falar para audiências brasileiras (toda a tese do primeiro argumento), este ponto se torna inválido, ou pelo menos muito fraco.

Quarto argumento: este ponto é mais difícil de se refutar, muito embora o mesmo pudesse ser alegado a respeito de serviços entregues a língua inglesa, o que tornaria o argumento fraco num contexto geral.

Quinto argumento: a alegação de que é “far more easy” produzir conteúdo em inglês é um pouco falsa, pois ignora que o custo desta providência para o longo prazo é a redução drástica da produtividade atual. Então “é mais fácil” produzir um conteúdo diretamente numa língua do que ter que traduzir depois, sim, com a ressalva de que essa produção é mais lenta e imperfeita do que a produção no português.

Sexto argumento: argumento dúbio, pois a beleza do discurso indubitavelmente prestigia a verdade carregada por ele, como o próprio texto alega. Deixar-se levar por um encantamento verbal literário ao invés de focar nos pontos concretamente relevantes certamente é algo negativo, mas é um risco aceitável para se poder produzir beleza aliada à verdade. Afinal, no próprio inglês este risco, embora seja de fato menor, não está completamente descartado, e seria preciso conviver também com ele nesta hipótese.

Sétimo argumento: este é o argumento mais forte de todos e praticamente imbatível. De fato, o uso do português em prestações de serviço com um público dedicado é muito razoável e compensa de certa forma o problema do desprezo pela pátria e pela circunstância nacional, ao mesmo tempo em que neutraliza o problema do desperdício de tempo e energias com públicos desinteressantes (fofocadores, críticos gratuitos, etc.).

De certo modo, o sétimo argumento é uma espécie de selo que lacra a vitória da decisão do uso do inglês. Não o digo com alívio, mas até com alguma perturbação. É um fato que a quantidade de coisas que eu quero comentar e trabalhar favoreceria muito o uso do português. Ou seja, eu terei muito mais trabalho para produzir conteúdo diretamente em inglês, mas as razões alegadas, e em especial a solução do sétimo argumento, justificam essa tomada de direção.

Isto quer dizer que embora eu ainda não tenha decidido, definitivamente o português ainda não venceu a parada. Veremos.

 

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