Olhares pactuais

§ 1. Olhares pactuais. É preciso flertar com a paisagem e fazer o coração se declarar sincero. Mas quem ainda vê uma paisagem nesses dias? Ninguém. Paisagem virou cenário de selfie. Isso me dá uma depressão abissal. Dizem que a TV matou a janela. Hoje, pior, a Internet matou a TV. E é preciso fazer a janela matar a Internet e vingar-se, para que surjam novamente os olhares pactuais.

§ 2. Qualquer dia desses um gênio, engenheiro da Apple, anuncia urbi et orbi: “a tela venceu o mundo”. Nesse dia vão construir prédios inteiros que nem janela terão, porque a tela vai ter tudo, e vão dizer, sim, que a tela tem mais do que o próprio Deus criou. No dia que criarem o prédio sem janela, Deus destruirá o mundo. Porque saberá que nunca mais haverá um olhar pactual.

§ 3. Há dois Cálices, um no Céu e o outro na Terra. O do Céu contém as orações dos santos, o da Terra contém a ira de Deus. Os transbordamentos, cá e lá, serão inevitáveis. Para danação e salvação. Tudo se realizará. E vai ser no dia que inventarem o prédio sem janelas; o Cálice da Ira entorna inevitável.

§ 4. Porque o que é que nós estamos fazendo aqui? Estamos passando. Viver na Terra é passagem. A viagem segue e a morte é o passaporte certo, absoluto, marcado. Há quem ache que tem que fazer não sei o quê, e talvez alguns tenham mesmo mandatos especiais, porque grande é o mistério. Mas fazemos o quê, nós os humildes? Amamos, olhamos e amamos, pactualmente. Eis nosso desígnio superior. Nenhum Napoleão Bonaparte jamais conseguiu entender um olhar pactual. Tudo serve para dar testemunho do amor de Deus e para declarar o nosso amor à Ele. Tudo, tudo, tudo. Você ama um filho, uma poesia, uma rolha de garrafa, só para declarar a Deus que Ele é o mais amável por trás do filho, da poesia, e da rolha de garrafa.

§ 5. Há religiosos ponderados, púdicos e equilibrados, que acreditam mais em Kant do que em Cristo. Acham que a vida espiritual é um pedaço de não sei o quê. Pode até ser o pedaço de cima, pode ser até o pedaço mais nobre, mas, porca miséria, é um pedaço de alguma coisa. Mas esses são atores representando uma utopia, que é a do espírito achatado, do espírito anão. Isso não existirá no mundo das realidades jamais. O cristão é um radical do Amor, e como o frasista dizia, a Igreja é amor, a Igreja é feita para amar. Amar como? Totalmente, absolutamente, perdidamente. Está aí, e é isso: perdidamente. Um olhar pactual é um símbolo de amor de quem se perde amando, e de quem não quer encontrar mais nada além disso, e não precisa de mais nada. Nenhuma guerra, nenhuma revolução, nem sequer um plano de saúde ou uma aposentadoria.

§ 6. Mas há quem diga: precisamos, sim, precisamos muito, e de muitas coisas, e precisamos no mínimo de plano de saúde e aposentadoria, etc., etc. A necessidade urra feroz como um filhote de urso faminto e desolado num deserto siberiano. Algum vício ancestral nos viciou a ver o mundo material, e os planos de sáude e as aposentadorias, como algo mais sólido que o espírito. As palavras mesmas viciam. Spiritus, Pneuma. “Espírito” parece um gás etéreo, vago e impreciso como uma bruma que você assopra e vai embora, como fumaça de cigarro ou vapor de sauna. Mas uma fome não vai embora, um frio não vai embora, uma dor de dentes não vai embora, por mais que você assopre. E esse paradoxo fez um dia um Kant declarar que era preciso pôr limites no Amor. Nós precisamos do Amor, sim, mas não antes dos planos de saúde e das aposentadorias estarem satisfatoriamente garantidos. Foi neste dia que começaram a pensar seriamente nos direitos universais do seru mano. Neste dia o diabo ficou feliz, sentou no sofá, abriu um saco de pipocas e tirou um dia de folga. Sim, foi no dia dos direitos universais. E eis que o escrúpulo humanista se tornou a aposentadoria do espírito.

§ 7. O segredo é que o Espírito é mais sólido que tudo o que há de material, e o Espírito engarrafa toda a matéria como se fosse uma gelatina. Mas o Espírito é Vida, e ele requer um processo alquímico para ativar suas propriedades sólidas, e um ingrediente é exigido fatalmente: o olhar pactual cheio de amor. Sem Amor não há Vida, sem Vida não há Espírito, e sem Espírito só restarão Kant, as telas de computador, os planos de saúde e as aposentadorias. No dia que o último olhar pactual se fechar ao mundo, eis a ironia, é neste mesmo dia que o próprio mundo vai se fechar, tudo vai acabar e o que parecia ser mais real para a esperteza kantiana será a maior ilusão de todas, e o que parecia ser a maior ilusão de todas para essa mesma cabeça prussiana, será a realidade mais concreta e visceral, a mais absoluta e completa de todas. A Vida do Espírito, eterna.

§ 8. As pessoas não têm tempo para meditar na vida eterna porque elas estão ocupadas lendo manchetes sobre Brasília, sobre Temer, sobre Aécio. Sabe como é, no mundo dos planos de saúde e das aposentadorias, mais vale saber o destino de Brasília do que o da alma imortal. E as pessoas dizem, sinceras: “não dá, não tenho tempo”. Elas têm que correr atrás do seu. Cá, como diria o Conde Loppeux, “com os meus botões”, eu penso que o olhar pactual é um correr atrás também, e eu diria até que mais urgente, nobre e necessário. Mas quem sou eu? Ainda me considero humano, mas não posso atropelar as pressas alheias, a pressa de ser outra coisa, a pressa de ser um übermenschen nietzschiano (com plano de saúde e aposentadoria, é claro).

§ 9. Mas um dia eu falo de Temer e de Aécio também, óbvio. Isto é assunto. No mundo que Deus criou, na época em que depositou a minha alma, Temer e Aécio viraram assunto, que posso fazer? Não escolhi. As pessoas são livres, podiam escolher diferente, mas é isto aí. A única coisa que não vou fazer é falar de Brasília antes de falar do olhar pactual. E já cumpro a minha promessa.

§ 10. Mudando de assunto, o muçulmano normal, tradicional, moderado e não explosivo no curto prazo (dizem que existem, e aos bilhões, e é uma tal massa que poderia sufocar os seus radicais apenas com a força do número, pisando neles numa única e singela passeata de fim de tarde), jamais suspeitará talvez que o Ocidente prende, julga e condena os seus próprios radicais, no que parece ser uma tática suicida de retraimento e covardia, para a sua própria sobrevivência espiritual. O problema do Ocidente, que já nasceu querendo ser melhor do que era, é mudar, mudar, mudar. Melhorar, melhorar, melhorar. O Livro do Ocidente é o Livro do Amor, porque ser perfeito como o Pai do Céu é perfeito é uma tarefa incessante e jamais completa (promessa de vida eterna). Não há tempo de explodir os outros e passar a faca neles, eu tenho que ser melhor daqui a quinze minutos. Não há tempo. O ocidental, por mais perdido que esteja, bêbado e frequentador de orgias, é um buscador abissal, e até mesmo começou a beber e passar a mão na bunda alheia por causa da sua cava depressão de não conseguir ser melhor, o que é, no fundo, o que ele ainda quer ser, e um dia até, quem sabe ele sai dessa pior e vira mesmo uma pessoa melhor? Uma coletividade fechada num projeto final e acabado parece ser uma boa idéia, mas é uma depressão mais profunda do que a de um bordel, que a de um fundo de garrafa e de um sutiã de puta: é uma depressão sangrenta e explosiva. E o explosivo crê, na sua grande audácia espiritual, que mal o sangue secará das barbas ensopadas, e mágicas ocorrerão sem número para o seu deleite eterno, e ele será VIP no Paraíso. O segredo está na fé da mágica, o diabo está na promessa da mágica. Eu acredito mais na honestidade de uma garrafa de uísque num puteiro do que na de uma barba sangrenta. Mas acreditar num indivíduo melhor não é qualquer coisa, é preciso estar perdido de amor primeiro, é preciso perder-se, perder-se, perder-se. Mil vezes perder-se no labirinto do amor, e chorar, chorar, chorar. Chorar de amor sem fim, de paixão sem fim. É preciso olhar o frequentador de puteiro com uma paixão indecorosa, obsessiva, sofrer com ele as misérias, e então fazer com ele, as lágrimas escorrendo como cachoeiras diluvianas, a promessa da vida melhor. Claro que é mais fácil acreditar em promessas mágicas, facas empapadas no sangue alheio e em barbas explosivas, do que acreditar na vida melhor, no ser melhor, e engolir então todos os seus miseráveis orgulhos um por um, como balinhas de hortelã. Eis o segredo do amor: saber aguentar as santas humilhações.

§ 11. A bondade está no olho que enxerga e busca o bem incessantemente, e não na carteirinha de clube, não importa de que clube for. Meu Deus, como eu detesto as aglomerações e coletividades. Poderíamos dizer: “é a última utopia aquariana, fazer o coletivo ser amável”. Amo o indivíduo, pode ser um asmático, prostituído e morador do lixão, desde que seja apenas ele, sozinho, desde que seja apenas um e não uma massa. Ser bom misantropo é amar o próximo e não a proximidade, é amar o homem e não a humanidade. Amar um coletivo é prostituição espiritual.

§ 12. O um amigo bate no messenger: “Você viu o Nando Moura hoje? O que acha?”. Não vi e não acho. É que não está aqui comigo o amigo, senão eu pegava a cabeça dele com as minhas duas mãos e dizia para ele olhar bem nos meus olhos, profundamente, “olhe bem”, eu diria, “eu não estou feliz?”. Ele diria, o olho rútilo: “está feliz!”. Eis: eu sou feliz sem ver o Nando Moura, e melhor ainda, sem achar nada. Por que sair deste estado de felicidade? O brasileiro está sempre a sugerir a entrada no sadomasoquismo. Não, obrigado. A felicidade é como a verdade e o casamento, depois de alcançar o problema é manter a fidelidade. Há milhões de planos de sabotagem contra a simplicidade da vida, milhões de conspirações em andamento para nós trairmos o nosso bem da forma mais vil.

§ 13. Qualquer leitor dedicado de Nelson Rodrigues pode me julgar. E me deixo ser. Assim como a música de Wagner deixou Nietzsche doente, as palavras de Nelson Rodrigues me viciaram, e é impossível deixar de imitá-lo sem sofrer com isso de um tédio avassalador, como se a vida fosse sugada por um dementador do Harry Potter.

§ 14. Eis que não consigo pensar outro jeito de escrever nestes dias. E quero escrever, bater um diário todo dia, todo dia. Sei que há uma fila de INSS inteira para me apontar o dedo no nariz e afirmar com a autoridade imperial: “você vive uma bolha, uma ilusão”. Sei que hordas sádicas me arrastariam a uma realidade vil, sem poesia, sem vida e sem amor. Deus me protege. Até quando? Ninguém tem contrato, título executivo com Deus, que vai ali na esquina e obriga a alguma coisa. É amor, amor e mais amor. Nada é garantido no amor fora dele mesmo, ou melhor, o amor é a única garantia dele mesmo. Então eu penso: vou escrever todo dia, todo dia, até cair de costas. Vai saber quando a graça vai acabar? Então tenho que escrever tanto quanto puder. Mas tenho um desejo secreto, num lado especial do coração (um porão escondido): uma esperança maluca, um não sei que anseio visceral, de que a graça não acaba jamais e não tem fim, é eterna, eterna.

§ 15. Lembrei dum colega revolucionário de tempos malucos, o N29. Conrado. Ruivo, nariz de batata. Ele não sabia mais o que fazer com os marxistas. E me falava, “o que fazemos com os marxistas?”. Eu lhe dizia: a solução está nos Mercedes-Benz, na sua beleza e na sua velocidade. Explicava (o N29 precisava sempre de mais que uma frase, era uma mente faminta alheia à síntese frasista). Explicava: hoje uns eleitos conduzem carrões e a massa vai ao coletivo público, e os marxistas diziam que mundo bom mesmo era um em o que todo mundo tinha um Fusca vazando óleo. Um Fusca para cada família, um Fusca indiferenciado, o mesmo modelo, mesma cor, mesmo tudo, até o mesmo óleo vazando. O mesmo carro para a massa (e no mundo marxista os eleitos também são massa. Não há Abel no mundo marxista, e portanto não há inveja. No mundo marxista a igualdade matou Abel, e não a inveja. Mas o morto continua, eis o fato: o cadáver ainda está aí), sem uma única diferença que faça alguém dizer um “ai”. Conrado olhava-me lânguido e interrogatório. Ainda tinha fome. Arrematei: a solução está em afirmar que todo mundo vai ter o seu Mercedes-Benz. Modelos diferentes, um mais possante que o outro, cores diferentes, tudo diferente. E não só Mercedes. Porsche, Ferrari, Lamborghini. Na época não os havia ainda (ou não eram sabidos), mas se os houvesse eu os diria também: Paganis e Koenigseggs. Mas alguém poderia dizer: “espere, eu não quero um bólido, quero uma bicicleta”. Justo, uma bicicleta. Quem negará uma bicicleta a um homem honesto e sincero? E alguém pode dizer que não quer ralar o couro, para ter uma bicicleta, do mesmo jeito que alguém rala para ter um Jaguar lustroso. Justo. Eis que cada um pode fazer como quiser. E este era o meu mundo, pensando bem não muito diferente do mundo que já está aí, onde o sol acorda todo dia de manhãzinha sem falta. Há desigualdade? Há. É a regra desde tempos ante-diluvianos, e porque tremer então em cima dos sapatos? Porque os marxistas rangem e babam o ódio visceral? A igualdade é uma lenda demoníaca, sempre haverá diferenças, sempre haverá Abel e Caim, e abéis e caims, e sempre haverá um Caim para acreditar na lenda demoníaca da igualdade. Sempre haverá um marxista invejoso com medo de dizer: “quero o meu Mercedes-Benz”. Caim foi o primeiro marxista da história.

§ 16. Há uns liberais que sabem fazer contas, mas não sabem dizer a verdade completa. São caducos e incompletos como os marxistas, estão todos na escolinha do senhor Kant. Como direi? Faz ciência quem não sabe fazer poesia. Ciência você aprende no caderno e no quadro negro, mas poesia é arte arcana, é dom, é dádiva, é bênção dada pelas musas eternas. Não há como ganhar o favor de uma musa no muque, são deusas etéreas. E uma lágrima sincera enternece mais o coração divino que não sei quantos quilos de tratados escritos. Faz ciência quem não sabe cantar. Acham, tanto liberais quanto marxistas, com uma certeza escandalosa de fazer corar o mármore de um busto, que um Aristóteles, que um Platão, e os dois juntos até, negariam os poetas e os expulsariam mil vezes da cidade. E Kant seria então um singelo seguidor da ciência tradicional, pobrezinho. Olha, isso dá uma disputa, mas não se disputa com canalhas, com ladrões. Todo materialista é um ladrão. Todo materialista tosco (eu creio no materialista não-tosco) é um ladrão do espírito. Usam Platão e Aristóteles como rótulos de manuais e não os vêem como almas cantando, gritando o amor. Esse é o erro materialista mais estúpido e criminoso: não ver as almas cantando o amor. E mais burro ainda foi um Nietzsche, que acreditou nos kantianos. Nietzsche queria cantar o amor, o triste bigode queria apenas e somente cantar o amor, e achava que Sócrates tinha inventado outra coisa. Mentira dos kantianos, Friedrich, e você foi burro de acreditar neles.

§ 17. Toda verdade canta o amor de Deus. Toda verdade, até a mais árida e espectral verdade aritmética, é um canto de amor. Mas tem que ter ouvido para ouvir, tem que ter um coração para ouvir, e eis o problema, ninguém quer mais pedir um ouvido, um coração para ouvir. Todos querem uma mente brilhante que vai fabricar e explicar tudo até o último parafuso. É uma chatice, um tédio infinito. (Outro dia no Netflix apareceu outro documentário sobre a “fórmula de tudo”, e eu tive o inevitável bocejo cavernoso na mesma hora). Nietzsche rebelou-se contra o tédio, mas não pediu um coração para ouvir o canto de amor. Ou talvez, pediu e ganhou, mas não sabia usar, porque aquele bigode era trágico e tinha que ser trágico. Ele não podia escolher algo que não fosse a tragédia total.

§ 18. Mas há abusados, sempre. Querem falar contra o espírito, contra o amor, pela exatidão árida dum deserto do Saara. Outro dia um cientista, sádico, disse que provava o anti-amor com a frase dum pórtico platônico: “não entre quem não for geômetra”. Disse isso de forma séria e decidida, completa e definitiva. Ai dos que dizem definitivamente. É melhor ser cantor, vivo, e cantar o amor vivo. Mas, decidido, proclamou com um sonoro ponto final: “Não entre quem não for geômetra”. Mas achou que geômetra era aluno da Escolinha do Professor Raimundo, e não cantor do amor. Pitágoras era um cantor homérico, hesiódico, do amor divino. Mas o cientista não sabia. Erro fatal. Risos no Céu, risos de abalar as profundezas do Ser. O universo tremeu com as risadas celestes. Deus usa os idiotas para contar piadas impossíveis, de ainda causar o espanto angélico. Involuntariamente o cientista foi motivo de alegria na comédia universal. Ao som duma cantata de Bach.

§ 19. Me lembrei duma coisa que falei ao Felipe Marques e ao Vitor José (amigos amados, têm no meu coração, cada um, todo um espaço de uma suíte presidencial): veja a crença e não a palavra. Cada um pode falar no que acredita, se for confesso sincero, mas isto é raro. Geralmente fulano diz A, mas acredita mesmo é em B. E você tem que ver o B. O que uma pessoa teme, e o que ela deseja, conta tudo sobre ela, mostra um coração vivo. Eu sou confesso, bom, vocês sabem, mais do que isso sou um obsceno, um amante do despudoramento mental, da pornografia das idéias. Confessei-lhes três medos: não quero ir ao inferno, não quero reencarnar, e não quero ser enterrado vivo. Como se vê, temo tragédias abissais. O segredo é escolher terrores abissais, que daí o resto fica mais fácil. Não confessei meus maiores desejos, mas os tenho. Cito um: que o Olavo bata um telefone e me diga: “você sabe escrever”. Isso é suficiente, podem me enterrar no dia seguinte. (Só não me enterrem vivo. Por dúvida, cortem a minha cabeça fora. Sugestão cruel? Não, é uma garantia. E facilita o velório, não precisa velar o corpo todo, pode colocar só uma caixinha com um vidro na frente, e a minha fúnebre cabeça será velada de forma inédita). Outro desejo: assim que morto Deus me diga: “você sabe amar”. E mais: “vem comigo”. Acabou, não preciso de mais nada. E é isso o que nos faz amar e odiar, rir e chorar, etc., no que acreditamos, no que tememos e desejamos intensamente. O resto é Whattsapp.

§ 20. (O Whatsapp é o papo furado, é o small talk, da nossa época. Pode-se trabalhar e fazer coisas seríssimas pelo sistema, tratados internacionais inteiros pelo Whatsapp, negociar a paz no Oriente Médio, e conduzir Concílios Ecumênicos completos, mas tudo será acompanhado sempre pelo famoso bullshit. É uma lei).

§ 21. Enquanto o terrorista de Pyongyang, a obesidade infante, dispara mísseis a torto e a direito como se fossem foguetinhos de festa junina (e por enquanto são quase tão inocentes quanto), eu fico lembrando que todo mundo teme a morte e teme não ter o controle das coisas. É sempre assim, e isso basta para que alguém provoque devastações homéricas e genocídios continentais. Mas e a tristeza, e a acídia fatal? A tristeza é a opinião tola de que algo realmente amável será um dia perdido. Engano miserável. Jesus Cristo veio aí, fez um monte (continua fazendo), e as pessoas continuam não entendendo lhufas. Nada amável será jamais perdido, jamais, jamais. Tudo que merece ser amado é absolutamente indestrutível e existirá eternamente, e será amado eternamente, inclusive e especialmente as pessoas amáveis. Vocês acham que Deus está de brincadeira?

§ 22. Mas a teimosia humana é prodigiosa, tem um passado glorioso e um futuro promissor (para imitar um outro frasista). Agora mesmo, estou relendo Juízes. Para quem não sabe, para um desavisado, é o sétimo livro da nossa Bíblia. E está lá, não sei quantas vezes, de novo e de novo, como um refrão de música: “e os israelitas recomeçaram a praticar o que era mau aos olhos de Deus”. A desobediência é a regra, é a herança do primeiro casal. Borbulha o nosso sangue, agita as nossas tripas. Por isso um certo esforço, uma certa vontade, é necessária. E por isso a Obediência não é qualquer coisa, não é um capricho, mas é uma virtude inteira, de dar gosto. E é por isso também que é lícito dizer que a acídia é pecado. Ficar triste e teimar em ficar triste é um pecado horroroso.

§ 23. Novamente estourei o meu tempo. (E uma barba acaba de estourar Manchester, assunto de amanhã, essa covardia explosiva). Que me resta? Passar a humilde sacolinha e pedir que você, leitor, se caso não tenha comprado o meu livro, dê uma passada na Amazon e compre. Baratinho. Ajude o autor. “E o luto inglês!?”, alguém me questionaria, pedindo palavras. Luto é para viver, não é para falar. Um luto falado é um contrassenso. Se bem que, no Brasil, até o minuto de silêncio é vaiado, como diria o frasista.

Esse non videri,

RS

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