Uma barba covarde explode Manchester

§ 1. Uma barba covarde explode Manchester. Isso pode acontecer mil vezes, e em todas as mil nos chocará. Como pode? Deus, quando pensou na barba, certamente não a vinculou à covardia. A barba é viril e nobre, automaticamente, mesmo que o seu possuidor tenha sangue de barata (e eis o segredo de alguns barbudos, a ocultar sua fraqueza atrás do disfarce). E aquela barba, ao invés de atacar o exército inglês, atacou um show cheio de criancinhas. Imagine comigo leitor, e se pergunte comigo, a quantas milhas se encontrava um quartel? Não era necessário a barba fazer uma jornada transatlântica para encontrar o infante inglês com o fuzil na mão, carregado de balas, treinado, e com uniforme em dia inclusive, lavado e passado. Mas a barba preferiu a covardia, e dezenove almas estão agora conversando com Deus e ainda relatando o seu espanto.

§ 2. O terror é publicitário como uma campanha de margarina. Lembra do IRA, do ETA? Aqueles deviam ser mais bêbados idealistas do que covardes, e ao menos se achavam heróis nas suas ilusões; a barba covarde de hoje em dia se acha mais popular que a Madonna, não quer nada mais e nada menos. E conseguem as suas duzentas manchetes instantaneamente. Eu tenho uma pauta, ou melhor, tinha uma pauta, para começar o meu dia hoje, e ela não incluía barbas, garanto. De repente a barba covarde explodiu também no diário e me mudou.

§ 3. Um muçulmano tradicional, não-explosivo no curto prazo, diria que a culpa é do Trump. Claro. Nisso parece um marxista, ou melhor, já um eurasiano: a culpa é sempre dos Atlantistas. O POTUS visita a Arábia Saudita, meca terrorista, e me fecha um acordo de cento e não sei quantos bilhões de dólares em contratos de defesa, ao invés de passar um pito e dar voz de prisão ao Rei. Mas o POTUS não é o Mahdi, ele é o governante daquele país do Norte. E prometeu ao povo do Norte: “eu vou fazer pagarem pela nossa proteção até o último centavo”. Acabava o policiamento gratuito e voluntário. Cruza o mar no jato presidencial e cumpre o que foi falado. Mais rápido que imediatamente o saudita escreveu e assinou o cheque, e sorriu para baterem uma foto.

§ 4. O Islam real, pacífico, seria assim vítima de uma assombrosa conspiração, de fazer chocar um Sábio de Sião: a trama ardilosa consiste em impedir o florescimento do Califado real dando dinheiro e armas para a monarquia fake controlar os lugares sagrados e inventar o terrorismo. O terrorismo seria, então, uma vasta campanha de difamação contra a ameaça do Califado real. Pessoas explodidas para sujar toda uma idéia. Começou com os ingleses. Sykes-Picot, Primeira Guerra. E de lá para cá, o terrorismo é financiado para servir de bandeja aos interesses atlantistas, ocidentais, como queira chamar. Tudo contra o Califado real. (O Isis não é o Califado, suponho que mais ou menos do jeito que a União Soviética não foi o socialismo.) Dez vezes mais muçulmanos morrem do terrorismo comandado pelo Ocidente, portanto, e as manchetes só dão as mortes europeias, só dão notícia do sangue do Norte.

§ 5. Eu sempre acredito em tudo que me contam, até ter prova em contrário, ou pelo menos uma séria suspeita. E, cá entre nós, fabricar um inimigo externo para justificar tais e quais decisões e interesses é a coisa mais velha do mundo. É crível como a sinceridade da oração de uma velhinha. E é uma coisa feita por todo mundo desde tempos imemoriais. Dá para pensar. Não cabe ao autor passar a mão na cabeleira dourada do POTUS, nem no turbante saudita, nem em cabeça nenhuma. O inocente é inocente, a vítima é vítima, aqui ou do outro lado do mundo, eis o fato. E não é isso o que importa? Não é isso o que abre o Céu? Absolver coletividades é tão impróprio quanto a condenação coletiva. Os tiranos e conspiradores são terríveis? Sim, eles são, sempre foram, sempre serão. Qual a surpresa? Mas a Espada de Deus é mais terrível ainda, e ela está chegando para esses pescoços desavisados.

§ 6. Só que a Espada de Deus não se chama Lawrence da Arábia, nem Abdullah, nem nada disso. (Assim creio.) Não tem uniforme nem bandeira, e não liga a menor bola para fazer estourar manchetes. Age infalível como um ninja numa meia-noite de lua nova. É na “hora que apavora” que cai como ladrão em cima do butim. Eis o fato: a arma divina não existe para satisfazer os sonhos humanos de justiça, mas tão somente a Justiça Divina secreta. Deus não deve satisfações nem ao mais justo dos homens (e cá entre nós, bem ao contrário). A fé deve crescer, a confiança na Harmonia e na Justiça, infalíveis, belas, perfeitas. E eis que o pavor justiceiro não combina.

§ 7. Eu acredito na paz e no acordo, e que 99% das pessoas só querem ser felizes e viver em paz, não importa onde morem, que língua falem, a cor da pele, ou o sabor da sopa que tomam antes de dormir. Só querem uma paz para chamar de sua (mesmo que não saibam, como geralmente é o caso do sadomasoquismo brasileiro). Conspirações secretas são assunto real, problema real, para pessoas que não conheceremos jamais. Chapéis e bigodes insuspeitos que você poderia encontrar para tomar um café e nem faria idéia. Um James Bond, por exemplo. Ninguém jamais vai encontrar um James Bond. O que não quer dizer que ele não esteja por aí fazendo seus estragos. E falar nisso, morreu o Roger Moore. Não está fácil para a Inglaterra esses dias. Como será que anda a Rainha? Já devem ter chamado o ilustríssimo Médico Real, por via das dúvidas.

§ 8. Tenho um amigo, daqueles que tem todo um espaço de penthouse no meu coração, que garante que a Rainha é reptiliana. O olho rútilo diz: “Ela é! Ela é!” As pessoas adoram um segredo, uma trama de Dan Brown. De Sykes-Picot nós chegamos até os reptilianos. A velha não morre, eis o fato mais poderoso, a prova mais contundente. Eu gosto de acreditar que é uma senhora bem conservada, sem escamas, sem língua bifurcada, e sem beber o sangue de virgens no canudinho todo dia. Mas quem garante?

§ 9. Ninguém garante nada. James May, um cabelo sob holofotes, diz que a Rainha é alemã e não tinha nada que se meter com os ingleses. Preferia a República. Mas será que preferia também os rios de sangue do Terror francês? E as filas duplas no estacionamento das decapitações? Correu sangue inglês também, é claro. Mas o francês sofreu e sofre ainda humilhações indizíveis, e os ingleses estão poupados de coisas impensáveis. Até Napoleão virou na boca, um dia desses, um vidrinho de veneno, para se ter uma idéia de como ser francês pode ser deprimente. Acho que com a Rainha os ingleses não fazem negócio tão mal assim, até quando se pensa em quantas são as barbas explosivas. Para cada barba que explode do lado de Dover, três ou mais explodem do lado de Calais.

§ 10. Algum idiota da objetividade poderá me dizer que eu falo de barbas que não existem, não comprovadas, não fotografadas. E é nessas horas que entendemos a superioridade semidivina de um Homero, de um Dante, e a miséria de uma época sem poesia. Veja bem, quando o Isis manda alguém fazer estragos, este alguém é uma barba automática, isso independente de ter ou não a face peluda, e até do sexo do terror. Um adolescente suíço, um rosto de bebê, depiladíssimo como uma Gisele Bündchen, é uma barba sangrenta mesmo assim, e vira uma barba no momento mesmo em que fecha em torno de si o cinto fatal e aperta a última fivela de sua vida. Não sei se me entendem. Um autor precisa de figuras, e a explosão precisa de uma barba que a faça. Se um dia a própria Gisele Bündchen acordar e disser ao espelho: “meu destino insuspeito é o martírio, é a jihad”, nesse mesmo dia Gisele, depiladíssima, será uma barba explosiva.

§ 11. Uso a barba porque foi Deus quem me deu, e Ele deve ter um plano com isso, vai saber. (E de tempos em tempos bate uma preguiça de tirar, isto também é um fato inescapável). Às vezes eu tiro, mas se deixo sou feliz com ela; foi Deus quem pensou a barba antes de mais nada. Mas o idiota da objetividade pode voltar, vingativo: “e o apêndice, Deus não fez também? Para que serve o apêndice, se não for só para dar apendicite e matar não sei quantos?”. E quem disse que a apendicite não é útil? Tolo, o seru mano cuja vista não consegue nem dobrar a esquina continua desafiando a Providência. Prefere fazer isso, na sua objetividade mesquinha e rasteira de tatu-bola, do que ter imaginação ou pelo menos ser generoso. E bastasse que um dia uma alma encontrasse outra numa sala de hospital, numa operação de apendicite, para que o apêndice fosse universalmente explicado. Imagine: o homem encontra a sua amada enfermeira, a futura mãe de seus filhos e avó de seus netos, porque o apêndice urrou dores num dia fatal. E toda uma família, toda uma descendência, deverá a sua própria existência, nua e crua, ao apêndice ancestral. Como é tosco o questionamento cego de superbia do motivo de ser das coisas. É tosco de causar um bocejo cavernoso. Se um reles autor imagina a Providência usando o apêndice, imagine o que faz com o órgão “inútil” a imaginação divina, o divino Autor? Os fisiólogos precisariam ainda um dia dissecar também a sua própria estreiteza.

§ 12. Outro dia o Diego Marques bate no Facebook para mim. Estava em Pamplona. Confessou o óbvio e perguntou o necessário: “A Espanha é linda. O que você ainda está fazendo aí?”Eis a indomável questão: o que ainda estou fazendo aqui? Já me perguntei isso tantas vezes. Vi belezas espanholas, de vários tipos, de fazer esquecer um Brasil inteiro em quinze minutos (um dia eu lhes confesso a beleza que vi em Granada). Mas estou aqui batendo o meu diário em São José dos Campos. Minha mãe diz que fui parar “beeeem looonge” dela, imaginem se estivesse em Pamplona? E a mãe, para um canceriano, é vital. Mas não é bem isso. A mãe a gente leva no coração, não precisa pegar na mão e fazer as malas juntos. Não é isso que me ancora abaixo do Equador. Estou fazendo algo que nem sei explicar direito. Talvez esteja cultivando a multidão de leitores para os convencer a comprar os meus livrinhos (um já está aí, pelo menos um já é comprável), para os convencer a me pagar o exílio em Carmona. O problema do exílio europeu é que custa em euros, não é uma vida fácil. Tenho que viciá-los a precisar dos meus parágrafos como um viciado precisa do seu mel, e este é todo um trabalho a se fazer. Mas há tempo para tudo, e quero viajar antes da mudança final, quero respirar diversos ares continentais. O Felipe Marques (não é da família do outro, mas ocupa tanto quanto o seu próprio espaço de suíte presidencial no coração) está fazendo a lista dele, e eu a minha, os ambiciosos. Cairo. Jerusalém. Atenas. Roma. Paris. Se nós conseguirmos chegar no aeroporto de Guarulhos eu já estou feliz, e já é alguma coisa.

§ 13. Poderia fazer uma campanha promocional: não sei quantos parágrafos para cada cidade visitada. Na internet se vê coisas monumentais hoje em dia. Veleiros dão voltas globais pagos por anônimos que querem sentir o sal na cara mas não suportam colocar nem o mindinho do pé num barco sem vomitar as vísceras. Podia inventar algo assim. Mas não tenho ânimo. Mal me anima publicar as palavras, os amigos sabem. Falar em amigos, o Facebook diz que tenho cento e sessenta e três deles. Publico não sei quantos parágrafos escritos com o coração na mão e dos cento e sessenta e três uns três ou quatro mostram o polegar, o que nos meus termos já é um sucesso de Broadway. Os outros estão ocupados para ler textão. Aliás, quem deu jóinha também, porque curtem rápido demais e sua velocidade os trai. Eu amo um textão. Amo ler e amo escrever textão. Nem tenho televisão em casa (minto: tenho o aparelho mas não vejo o que se chama “televisão”, assisto a arte do cinema). Quando vou na livraria e vejo um volume daqueles, um tijolaço, já tremo nos sapatos, penso em pegar na mão e ler tudo ali mesmo e até a morte, palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, até o último ponto final. Alguém escreveu alguma coisa, portanto alguém precisa ser lido. Vou lá e leio tudo. Leria lista telefônica e bula de remédio, se só restasse isso. Não importa ser lido, eis a verdade completa. Importa ler (e reler) e escrever, e isto é a vida de um autor. Ler e escrever. Ler e escrever até a morte, e se possível além dela.

§ 14. Não sou nenhum amante da cultura, mas sou amante da verdade. Então você lê um monte para ver se alguém disse um dia alguma coisa verdadeira. É sempre assim. É para isso que lemos um tijolo: no meio de tamanha massa de palavras deve ter alguma verdade esquecida. No fundo, estamos atrás do grande Autor, e do único verdadeiro Autor. Até o filósofo faz isso. Deus é o Autor que o filósofo quer ler eternamente.

§ 15. Tudo isso aí é importante, mas tem que haver outro dia para continuar. Só me resta por ora pedir para você passar ali na Amazon, se não fez isso ainda, e comprar o meu livro. Baratinho. É o que resta por hoje, passar a sacolinha humilde. Eu sei, eu sei, não falei tudo. Alguém perguntaria: “E a Lava-jato!?” Não se preocupem. Sempre haverá Lava-Jato. É o jato mais lento de todos os tempos. Amanhã haverá notícia suficiente para continuarmos a lavar eternamente o Brasil, o Brasil que não tem pressa, o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. Parece até que vou ler o último artigo de Reinaldo Azevedo na revista Veja, porque Reinaldo ist kaputt. E o Maluf foi condenado pelo STF por lavagem de dinheiro. Vivemos tempos estranhos e inéditos. Não faltará assunto jamais, jamais.

Esse non videri,

RS

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