Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem

§ 1. Dizem que o jornalista não deve jamais ser notícia. Reinaldo Azevedo, se fosse mais escriba e menos jornalista, talvez não virasse mesmo jamais uma manchete na sua vida inteira. Mas Reinaldo cresceu e desabrochou como borboleta que sai do casulo. Virou uma cabeça sem freios. Uma cabeça altamente pensante sobre muitas coisas, sobre Direito Penal, sobre as Instituições Republicanas, e um negócio chamado “O Estado Democrático de Direito”, quase uma divindade civil. Reinaldo era uma cabeça falante setenta horas por dia, blogue, revista, jornal, TV, rádio, o diabo. E eu só sentia falta do escriba.

§ 2. Eis a questão. Quando era um simples blogueiro, o que, penso eu, sempre foi seu grande e verdadeiro métier, Reinaldo era bom, e era até imperdível. Escrevia todo dia e nada mais. Fazia questão de dizer que acordava não sei que horas muito depois do galo cantar. E trabalhava somente com as palavras dentro da madrugada. Era um ser separado da mediocridade humana. E eu o invejei: que vida simples e boa era essa. Era herdeiro de toda uma tradição frasista, com o que irmanava Diogo Mainardi, seguindo os passos de um Paulo Francis, de um Nelson Rodrigues. A cultura brasileira já teve seus momentos de lucidez, e Reinaldo seguia uma tradição para contribuir e inaugurar momentos novos deste fenômeno tão raro. Mas o bom trabalho trouxe a sua fama justa, e o desafio do homem é ser maior do que a sua própria fama.

§ 3. A audiência fez do blogue um instrumento político, com ou sem disfarce. Onde há muitos olhos, os demônios se concentram para fazer o seu serviço. E de uma coisa seguiu-se a outra. Até a manchete dizer, inclemente, que o escriba bateu um telefone para a irmã do senador. Uma senhora que está presa, diga-se, e mesmo seu irmão senador já não se sente muito bem. Aécio escreveu na Folha de S. Paulo que é uma vítima. Coitado. Imagino o que seja então o povo brasileiro (mas já sei o que é o povo: um masoquista enrabado).

§ 4. Reinaldo disse na cara do Boris Casoy que não gosta de “mimimi”. Não gosta do papel de vítima. Mas disse, mesmo assim, singelo: “sou uma vítima”. A Lava-Jato tem o poder de fazer o primor de coerência se entortar em rede nacional. Nunca vi tantas vogais na boca da eloquência mais viva e erudita da nação: “eh, uh, ah, oh”. Os poucos cabelos, desgrenhados. A caneta correndo na mesa, descontrolada. Pegava no braço do Boris para receber uma palavra de apoio. Gosto de ser generoso e penso, comigo, que Reinaldo está sendo vítima principalmente de si mesmo. De sua escolha de ser alguém na vida. Nós nunca podemos cair nesse truque de querer ser alguém na vida. Talvez isso sirva para ele voltar a escrever melhor, se ele desistir do jornalismo desabrochado. A culpa pode ser da República inteira, e ele vai provar tim-tim por tim-tim que foi lesado. Mas uma credibilidade não se remonta assim. Uma credibilidade arruinada é uma vidraça quebrada em mil caquinhos que jamais serão juntados. É a pasta de dentes que não volta para o tubo. As tão elogiadas Instituições Republicanas trituraram o seu próprio paladino em cinco minutos. Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem. O Leviatã, como a vida, dá, nega e tira.

§ 5. Toda a torcida do Corinthians sabia que Reinaldo cortava para o lado tucano da política brasileira, mas faltava o telefonema fatal. Reinaldo ist kaputt. (Ou não. Sua luta agora é falar das garantias constitucionais como se o conteúdo do telefonema não existisse, e esquecer o mais rápido possível o assunto. Certamente ele contará com a memória fraca dos outros. Novamente é preciso repisar: não há problema algum num Reinaldo super-empregado em duzentos lugares diferentes, trabalhando sem descanso como um Robocop. Eu gostaria que ele continuasse na Veja, etc. O problema é o Reinaldo tucano. E esse sempre foi o problema.) Seremos beneficiados se ele escolher como exílio um blogue, e voltar ao seu métier, à sua excelência. Já disse não sei quantas vezes que só espero o melhor dele. Nós temos que esperar o melhor de todo mundo o tempo todo. E até um São Bernardo escreveu um dia uma carta ao diabo, contando as suas decepções. E eis o desafio. O melhor que Reinaldo pode fazer é ser humilde. Daí ele será alguma coisa sem uma Veja, sem uma Folha, sem uma Jovem Pan. Porque hoje, sem estes papéis, Reinaldo virou um quase nada, virou uma caneta rolando na mesa, um cabelo desgrenhado, e vogais inconsoláveis.

§ 6. Tenho mil assuntos mas meu tempo foi mais curto hoje. E Reinaldo, como a barba explosiva do dia anterior, me roubou a pauta. Só me resta passar a conhecida e humilde sacolinha e pedir para quem não comprou ainda o meu livro na Amazon que o faça, que é baratinho e ajuda o autor. “E o quebra pau em Brasília!?”, alguém exigiria. Brasília terá certamente quebra paus homéricos no futuro, vocês não se preocupem com isso. A baixeza e a vilania já têm garantido todo um futuro promissor em nossa terra.

Esse non videri,

RS

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