O Brasil é um deserto moral vastíssimo

§ 1. Terminei a releitura de Juízes e vou entrar em Rute logo mais. Mas não sem antes reler o meu Diário de 2016. Já que estou pedindo para as pessoas comprarem, não custa nada rever a humilhação a que estou me expondo. Nada muito grave, pelo que vi até agora. O começo tem uns erros menores, e a coisa começa a ficar boa em Junho, Julho, daí para diante. Mesmo assim, extenso demais. Não sabia, ainda, que queria fazer algum tipo de literatura. E a literatura é a arte de dizer mais com menos, cada vez mais com cada vez menos. Espremer cada idéia para caber em menos palavras, até o limite. Por isso o frasista é um gênio a ser imitado: diz todo um tratado ou todo um romance com uma frase. E o gênio está em fazer as idéias ficarem atléticas e saudáveis, para caber em frases cada vez mais curtas, como se espreme uma top model num vestido apertado. E a beleza entubada e comprimida sai então desfilando e encantando.

§ 2. Mesmo um Jeremy Clarkson, o rosto vertical de três andares, confessou um dia com voz rouca a razão de James May: até a boa TV é escrita. Seu gênio é escrever e pensar e repensar cada palavra até a exaustão. Clarkson me lembra fisicamente um empresário já falecido que me perguntou um dia, assustado: “mas você quer ser padre?” Na verdade, a primeira pergunta foi: “você vai estudar o quê?” Eu vivia, então, aquela fase em que uma pessoa mais velha está automaticamente credenciada, apenas pela sua data de nascimento, a lhe cobrar o seu destino em cada esquina e sem cerimônia, como rotina de polícia pedindo documentos. Respondi, educado, bom moço: “Filosofia.” Daí é que veio, o olho rútilo de espanto, a pergunta fatal e um tanto indignada: “mas você quer ser padre?” Não era o caso, expliquei. Mas queria estudar Filosofia. E ele tinha pensado que para querer estudar filosofia, só podia querer ser padre. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ocupar um lugar na sociedade. Demorou, mas entendi depois. E entendi que jamais alguém compreenderia o quanto sempre me senti um desapossado, um despertencido, feliz até, de não ter lugar definido na sociedade. Na verdade o nome disso é liberdade, mas não espalhe o meu segredo. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 3. Mas pedir para um empresário brasileiro ter alguma sensibilidade é como querer que um rinoceronte voe. Outro dia também, outro empresário me perguntava, espantado, vendo uma pilha enorme de livros: “mas você vai ler tudo isso?” Eram livros de Administração, que por acaso era a área do cidadão. E era um espanto me interrogando: “mas você precisa ler tudo isso?” Disse eu que sim, pretendia ler tudo isso, sim. Ele fez uma expressão paciente e engraçada e voltou-se aos seus negócios. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ganhar alguma coisa com isso. Demorou, mas entendi depois. Como não via que eu ganharia fortunas lendo uma pilha de livros, não me entendeu. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 4. Eis que durante anos e anos estudei porque só queria saber alguma coisa, e hoje sou uma represa inteira, uma Três Gargantas da China, de conhecimentos classificáveis mais ou menos como “inúteis” pela assim chamada sabedoria popular e pragmática, e foi preciso todo um amor sincero e incondicional (todo amor verdadeiro é incondicional) para ser capaz de fazer isso durante anos e anos sem ligar para as aparências. Vale a pena fazer este esforço.

§ 5. Ontem quem fez esforço foi o Papa Francisco, para tirar a cara emburrada e esboçar um sorriso ao receber a família Trump no Vaticano. Dizem que Melania e Ivanka foram as responsáveis por derreter, finalmente, aquele bloco sólido, aquele Iceberg papal. É que o Papa tinha que fazer um pouco de cena para a plateia liberal, e também para a plateia moral, e para a Teologia da Libertação, e para o George Soros. Não é fácil ser um Papa diante das câmeras e dos distintos públicos, como se vê. Não se pode cair assim numa conversa amável com um Trump sem mais nem menos, tem que disfarçar um pouco.

§ 6. E o Brasil? O Brasil vive a sua adolescência mimada e birrenta, explosiva e rebelde, e isso estaria bem se enquanto isso nós não tivéssemos que viver dentro dele. Os Batista deram um nó em Brasília e as Excelências ainda estão anotando a chapa do caminhão. Quem são os Batista? São os donos da proteína animal, são os caras que estão, literalmente, por cima da carne seca. Eles fizeram isso com dinheiro do BNDES, e Roberto Campos, na cova, deve estar de novo arrependido de sua criação (já se arrependeu mil vezes). O brasileiro, em sua maioria uma massa masoquista, financia seus próprios tiranos e vota com gosto a cada quatro anos para reforçar a decisão. E num sistema bem bolado, a indignação possível já está devidamente canalizada, e é para isso que serve todo movimento popular. A elite bandida pensa: antes que o povo se rebele, criemos nós mesmos a rebelião controlada. Isso funciona faz séculos e o povo ainda não entendeu lhufas. E nem povo e nem empresário. Como já provei, o empresário não sabe o que é entender alguma coisa fora da sua estrita obrigação de se dar bem na vida. E eis que Brasília surge no deserto como a Capital dos que querem se dar bem, e quem não quer no país que atire a primeira indignação.

§ 7. Por isso não me dá tanto gosto falar de Brasil. É um jogo de cartas marcadas. Por mais caótico que seja, já está tudo mais ou menos arrumado. Por pior que seja o caos, e por mais inocente que a população se entenda diante da roubalheira e do cinismo político, todo brasileiro tem dentro de si, desperto ou ainda só potencial, um ladrãozinho e um cínico pronto a desabrochar, pronto a querer única e exclusivamente se dar bem na vida. O Brasil não é um grande mistério. É um país rico onde as pessoas não se organizam em vistas ao bem comum. Se fizessem isso ficariam muito ricas e muito rapidamente. Mas são burras, estúpidas e animalescas. Preferem correr cada um atrás do seu e atropelar uns aos outros, e o país se torna assim um enorme puteiro a céu aberto, uma algazarra criminosa sem fim. Esse tipo de baderna sempre vai acabar num modelo mais ou menos autoritário, porque a barbárie da cultura e da moral popular exige isso, um controle forte por cima. O povo brasileiro é o delinquente sadomasoquista que precisa de uma Febem.

§ 8. Não tenho a menor dó de dizer isso, mas nem a mínima mesmo, zero. Eu já testemunhei suficientes vezes o desprezo do brasileiro pela Sabedoria para saber que ele é isso e ponto final: um delinquente sadomasoquista. Se quiserem me dar esperança, terão que fazer acontecer coisas enormes, prodígios impossíveis. Por exemplo, se um dia o brasileiro desligar a televisão. Se ele fizer isso um dia, será um prodígio e o começo de uma esperança. Se no outro dia o brasileiro jogar fora todas as revistas e jornais, essa coleção diária de mentiras e manipulações, nesse dia tudo fica melhor ainda. E se no outro dia, ainda, o brasileiro fechar a Universidade, daí já é um quase orgasmo. A solução é destruir todas as Universidades e mandar todo mundo para o SENAI. Já disse isso não sei quantas vezes mas o pessoal não me ouve, ou acham que estou brincando.

§ 9. Não há recuo na estupidez, na audácia do erro. Não há nem sombra de uma remota chance de um arrependimento, de uma voz sincera. Não há nada, nada. O Brasil é um deserto moral vastíssimo. Sem oásis, sem descanso, é uma aridez completa de fazer o Saara sentir vergonha. Não há recolhimento meditativo, não há apelo da consciência. Essas coisas não existem no Brasil. É um moedor de almas que nunca para, incessante, de triturar suas vítimas voluntárias na máquina da insanidade perpétua. E para provar o meu ponto, o Reinaldo Azevedo já inventou um novo programa e foi ser colega do João Kléber na Rede TV. Quer dizer, tomou uma pancada num dia, e no outro já inaugurou um novo palco onde subiu para dizer, literalmente: “não peço perdão”, “não peço desculpas”, etc., etc.

§ 10. O Brasil é uma escuridão e uma desolação solitária. É um pós-apocalipse antes mesmo do fim do mundo. Mas há outro Brasil? Há. Há o Brasil das velhinhas que rezam, das famílias que se amam, dos anônimos que fazem milhões coisas boas, há, enfim, um país com gente de verdade, com gente que quer viver em paz uma vida boa e simples, um Brasil que não é o país da TV, do jornal, e das Universidades. Mas é, como nos EUA, “the silent majority”. E quanto mais extenso e continental for um país, maior será a desproporção entre a maioria silenciosa e sua elite ilustrada. Não há solução política. Mas há solução espiritual, há Jesus Cristo: “conhecei a verdade, e a verdade vos libertará”. E até um desapossado, um despertencido como eu, viro de repente e insuspeitamente um afortunado. Há um deserto inteiro, mas eu tenho meus camelos, minha água, e minha jornada. Não fui abandonado. E não quero abandonar meu Mestre, quero abraçar os seus joelhos e pedir que tenha misericórdia. Kyrie Eleison, Christe Eleison. Meu sonho é imitar São João e um dia ver Deus dizer de mim como Alfonso X disse de Sevilha: “no me ha dejado”.

§ 11. Por hoje é isto. Não posso deixar de passar, como sempre, a minha humilde sacolinha e pedir que você compre (caso não tenha feito isso ainda) o meu livro na Amazon, bem baratinho. Ajude o autor. “E o Temer, como fica?”, alguém pergunta. Eu não sei. Cai, não cai. Mas de hoje para amanhã não deve acontecer nada demais, haverá mais tempo para falar do primeiro Presidente-Mordomo do Brasil (senão do mundo).

Esse non videri,

RS

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