O Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas

§ 1. Além de Aristóteles, também Felipe II da Macedônia ensinou seu filho Alexandre. E o futuro do menino tinha que ser mesmo grandioso. Aprendeu a arte que lhe daria vitórias contra as hordas asiáticas: a falange é a bigorna, e a cavalaria é o martelo. Antes que existisse a primeira legião romana, portanto, a infantaria macedônia já mostrou ao mundo o poder da coesão e da disciplina, o poder de transformar colunas humanas em aço resistente. Mas a pergunta fatal é a seguinte: por que diabos acordei hoje lembrando das falanges macedônias em Gaugamela?

§ 2. Não sei explicar, mas deve haver uma razão. Essas histórias nos inspiram pela sua antiguidade; você pensar que há tantos séculos lá no fim do mundo alguém já elaborava sofisticadas doutrinas militares, sei lá, isso é motivador de alguma forma. Como um César cruzando o Rubicão (um dia eu conto o episódio em que eu tive coragem lembrando daquela travessia do rio). Porque aqui, agora, o que temos? Abro a internet e vejo a Carmen Lúcia, no seu já tradicional cosplay de Bento Carneiro (o Vampiro Brasileiro), dizer: “ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas”. O topete ameaçador, que atualmente preside o STF, explicava então a sua profunda meditação à uma plateia de Senadores. “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E eu fico pensando que as Excelências estejam talvez se apoiando numa bóia muito efêmera. Quando se é náufrago, depois de saber nadar, o mais importante é escolher o socorro certo. Sou eu próprio, pessoalmente, mais velho que a Constituição de 1988, assim como boa parte do próprio Brasil real. Mas a jovem resma de papéis é a salvação, sim, de acordo com o Supremo Topete Federal. Prefiro um Dom Bertrand: “ou nós colocamos Deus no centro, ou não haverá restauração no Brasil”. Mas o pensamento brasileiro quer ser moderníssimo, e então vai arrancando de si todas as antiguidades, uma por uma, como se fossem verrugas e carrapatos. Tradição cristã? Corta. Tradição latina, ibérica? Corta. Tradição monárquica? Corta. Corta, corta, corta. E no fim nós pensamos, o que vai sobrar dessa depenagem? O que é o Brasil sem a sua história, sem a sua origem? É o Bonde do Tigrão, é o Black-Block, é Karnal, Cortella e Barros, é a Valesca Popozuda, o Reinaldo Azevedo e o João Kléber.

§ 3. Então eu prefiro a companhia de Alexandre num deserto persa, não sei se me entendem. Todos os juízes do STF não substituem o realismo de um chefe de falange naquele deserto sem fim. Que é um juiz dos nossos tempos? É um especialista (ah, os especialistas…) E o que é um especialista? É um ser lesado, cortado de sua pessoa inteira, incapaz de dizer uma palavra de alma completa. O especialista é isto: um incapaz de dizer alguma coisa de verdade e com todo o coração. Fala como um papel, como uma peça, como um pedaço de não sei o quê. Fico me lembrando, para falar de antiguidades, de Sansão. Reli recentemente Juízes (quem não lê a Bíblia não sabe o que perde). Sansão é o último Juiz de renome em Israel, antes da monarquia. E mesmo em seu fim um tanto trágico, você vê do que foi capaz um Juiz cego que era servo de Deus: derrubou com sua musculatura providencial todo o edifício em cima da cabeça dos filisteus, usando apenas as próprias mãos. Gritou, na cena fatal: “Morra eu com os filisteus!” E o templo desmoronou em cima dos príncipes na mesma hora. Sansão não era um papel de juiz, era um juiz de fato. E o que diz o nosso papel de juiz, a nossa juíza-mor de hoje, o nosso cosplay de Bento Carneiro? “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E diz isso com uma cara seríssima, com um topete assustador.

§ 4. O segredo é ser grato. A Gratidão, como a Obediência, guarda seus mistérios maravilhosos, aguardando apenas que um incauto perdido a descubra e a desvele. Um Sansão, mesmo trágico, cego e humilhado, lembra de Deus, lhe é grato e lhe pede a última ajuda, o último favor, a última Graça. E é atendido fielmente e imediatamente; porque a Gratidão repercute num Amor fidelíssimo e infalível. Mas se você é um papel de alguma coisa, a quem lhe resta ser grato? Ao subscritor do papel, aos seus amigos e a si mesmo pelos seus méritos de seru mano. E eis o problema de uma gratidão que não sai da Terra: não recebe nada além da Terra, ou seja, a lei da necessidade, da força e da fatalidade, que é o que a Terra tem a oferecer por si. Para que as Graças sejam recebidas é preciso gente que seja grata ao Céu. E o topete supremo só pode ser grato a si mesmo e aos seus amigos, no que confessará os limites deprimentes e macabros de sua intercessão: “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.

§ 5. O segredo, repito, é saber a quem se é grato e a quem se é obediente. Em suma, diante de quem se é humilde de coração. E daí você descobre um monte de coisas e se descobre também. O que parecia miséria é um enredo harmonioso e nós encaixamos na trama. Me descubro, de repente, e sinto que quero ser mãe do Supremo Topete Federal. Explico. O canceriano descobre o mistério do Ser sendo e querendo ser mãe de todo mundo, e aprende uma sabedoria de maternidade que é segredo para todos os filhos da mãe. Há uma sabedoria própria de ser mãe de um ser desprotegido, indefeso, necessitado. Só uma mãe conhece a necessidade miserável de seu filho. E como toda sabedoria transcendente, abarca até os seres mais improváveis, e até os supremos topetes federais. Sim, até mesmo o cosplay de Bento Carneiro é, quem diria, também ele um ser desprotegido, indefeso, necessitado.

§ 6. E requer intercessão. Vocês imaginem a paciência de um São Bento. Os intercessores, pacientemente, pedem a Deus por aqueles incapazes de pedir, por aqueles perdidos da fé, mudos de coração, analfabetos do espírito, por todos os favelados espirituais do universo (e no Brasil há muitos: o Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas). O intercessor pede, pacientemente, que o espírito rebelde seja perdoado e redimido. Imagine a paciência. “Mas e o São Bento?”, alguém me perguntaria. Pois bem, São Bento é o campeão da paciência, porque é o padroeiro dos intercessores. Imagine o tamanho cósmico desta santa paciência: o homem intercede pelos que intercedem por nós. Não é pouca coisa.

§ 7. E daí ser mãe ajuda, porque a mãe olha a miséria do filho com compaixão infinita, e daria a sua vida para que aquela miséria pudesse viver e ser feliz. Mutatis mutandis, a intercessão máxima é a da Santíssima Virgem, obviamente. Quem pode receber de Deus a missão de se apiedar mais dos miseráveis da Terra, senão a Mãe de Deus? E quem poderá tocar com ternura e despertar a compaixão do Sagrado Coração mais que o próprio Imaculado Coração? Ninguém na Terra poderá.

§ 8. E há quem trema nos sapatos com a obviedade celeste. Não aceitam o título, não aceitam Theotokos. Birrentos, não querem uma mãe piedosa, mas ela os quer ainda assim, certamente, porque faz parte da miséria deles recusar que a misericórdia possa vir por um pedido tão humilde de um coração meramente humano. A humildade escandalizou até o diabo no começo dos tempos, e o fez cair abissalmente e eternamente. A recusa do amor humilde, a recusa do escândalo sublime, causa ainda hoje quedas fatais.

§ 9. E recusam, e contrariam, e blasfemam. Testam a infinita misericórdia, mas até estes são inocentes. Ouviram falar um dia, sim, do próprio Arcanjo, que Maria era “cheia das Graças”, e ouviram do próprio Crucificado: “eis aí a tua mãe”. Mas sua teologia de seru manu quer ser mais esperta que o Verbo anunciado e que o próprio Verbo Encarnado. Trabalho. Muito trabalho. Um dia Deus disse, Bendito seja eternamente: “fiat Sanctus Benedictus de Nursia!” E aquela alma paciente foi feita na mesma hora. E até hoje o homem trabalha, e trabalha, e trabalha…

§ 10. Que me resta? Passar a humilde sacolinha. Se você não comprou ainda, dê uma passadinha na Amazon e compre o meu livro. Baratinho. Ajude o autor. “E a PM na Cracolândia!?”, perguntariam, fatalmente. Olha, não sei. Acho que a renúncia da Maria Silvia Bastos Marques do BNDES é um assunto um tanto mais relevante, pensando no macro. Mas tudo isso, BNDES e Cracolândia, continuará sendo assunto por muito tempo, porque todo vício tem futuro garantido no Brasil. Do menor miserável ao maior Batista, todos os viciados perseveram nesta terra.

Esse non videri,

RS

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