“Aqui você vai estudar”

§ 1. Já contei a escatologia da minha educação formal. Se vivesse na Antiguidade, mereceria talvez a narrativa de um Eurípides, de um Sófocles. Simplesmente há todo um complô olímpico contra a minha educação formal. Ciumentos de minha desdenha, os diplomas me fogem e aprendi a viver muito bem sem eles, como se fôssemos mesmo seres de universos distintos.

§ 2. Mas a narrativa prossegue, recusa-se a ser uma não-história. O amigo me bate um telefone certo dia: “você tem que resolver isso”. Digo que só resolvo se gastar o mínimo de tempo, de esforço e de recursos. O amigo topa. Me leva enfim numa Delegacia de Ensino. Desde o início sabia que não seria um passeio no bosque. Para se ter uma idéia, o agendamento para marcar o dia da entrega de documentos (!) só pode ser feito pessoalmente (!), não serve telefone. E-mail? O que é isso? Não. Tem que ir lá, mais ou menos depois da Casa do Chapéu Velho (um amigo recentemente me confessou: não conhecia a Casa do Chapéu Velho), pessoalmente, ao vivo e à cores, em carne e osso, apenas para dizer “Fulano de Tal”. É isto: você diz o seu nome e ele é anotado num caderno. No Brasil a menor das tarefas requer o máximo dos esforços, e por isso somos um povo perpetuamente cansado e nervoso. E descontamos uns nos outros, claro. Não se esqueçam que vivemos num gigantesco clube de sadomasoquismo a céu aberto.

§ 3. Agendei, enfim, a fatídica data para entregar meus documentos. O plano é simples: pedir com muita gentileza e educação que o Estado me dê a chance de provar minha capacidade intelectual através de uma prova, de forma que atestem urbi et orbi que sou alfabetizado. Chega a data e lá vou eu.

§ 4. É uma aventura, como se sabe, ser atendido pelos serviços públicos de nossa nação. É sempre uma aventura com um final desconhecido. Sempre. Quer dizer, a coisa que deveria ser mais previsível que horário de trem bala japonês, é todo um sistema arcano e caótico, com direito a possibilidade de greves, desacato à autoridade, corrupção passiva, etc., etc. Embarquei nessa aventura.

§ 5. De imediato descubro uma fila. É claro. A fila, para o brasileiro, é uma necessidade metafísica. E se não houvesse fila alguma, um herói nacional teria que inaugurá-la e decretar, assim, a salvação da pátria. Descubro de imediato a fila. Mas a fila é para o quê? Nunca se sabe ao certo. A aventura é instantânea, o mistério é imediato: “para que serve esta fila?” E há um funcionário perguntando: “Quem veio para a palestra? Quem veio para a palestra?” E agora? Será que eu vim para a palestra? Em tese, não. Rigorosamente, estou aqui para entregar meus documentos e me matricular. Portanto, na teoria não tem nada comigo, mas nunca se sabe. É bom ficar esperto. Encosto no funcionário e pergunto: “é para fazer matrícula?” Ele diz que não, que tem outra fila atrás, que é para fazer matrícula. Ok. Ótimo. A jornada tem andamento.

§ 6. Dirijo-me animado para a fila da matrícula. Mas será que é esta fila mesmo? Você tem que se perguntar reiteradas vezes, eis a questão. Se Descartes nascesse no Brasil, teria descoberto o método da dúvida total já na adolescência. Porque viver no Brasil é viver a própria dúvida total desde a mais tenra e ingênua infância. E um Descartes brasileiro já diria no maternal: cogito ergo sum, seguramente, solidamente. Pergunto, então, a um dos participantes da fila que parecia disposto a esclarecimentos. Pois eis a misericórdia: sempre há o esclarecido da fila. Ele anuncia as regras e os sistemas, e direciona os transeuntes como um guarda de trânsito. Às vezes falha, é verdade. Mas a intenção nobre, ao menos, sempre está lá. E o iluminado me esclareceu: “Você já pegou seu número? Se não pegou, então tem que primeiro ir nessa outra fila aqui do lado, para pegar o número antes. Depois você fica nesta fila aqui.” O conhecimento absoluto me inundou até o fundo da alma, e a cada passo eu aprendia mais e mais nesta jornada.

§ 7. É todo um método de descoberta empírica e de eliminação indutiva. Eis que há a fila da palestra misteriosa, e há a fila da entrega de documentos para a matrícula, mas há uma terceira ainda, para pegar um número de chamada para, aí sim, pegar a fila da matrícula. É uma organização de fazer inveja a um alemão da mais estrita observância, como se vê. E finalmente sinto aquele conforto, aquele calorzinho abaixo do abdômem: “estou no meu lugar certo, finalmente!” Você estar, no Brasil, no lugar certo, na fila certa, já é uma vitória. Veja bem, nada mais precisa acontecer. E se tudo o mais der errado, algo já deu certo. Já há um êxito, já há um sucesso, quanto você descobre o seu lugar dentro de um órgão público. Me senti apossado, pertencido.

§ 8. Pacientemente, bovinamente (porque a dificuldade torna o homem feliz com pouco), espero meu momento feliz de pegar o número. Número 8. Minha mãe me batizou Rodrigo. Do germânico antigo: “soberano famoso”, “poderosamente famoso”, “famoso pela sua glória” ou “governante poderoso”. Não é pouca porcaria, como se vê. Mas a partir dali eu era um número. Um singelo número oito, nada mais e nada menos. E a quantidade oito virou, ali, um nome, um novo batizado. Feliz, saio da fila dos números para, finalmente! Alegria!, a fila da matrícula. A segurança sobre o futuro começa a aumentar aos poucos. E ela é necessária. Veja bem, é preciso ter alguma confiança, porque há uma série de documentos a ser apresentados. E você nunca sabe se você está exatamente com o que é preciso. Uma pessoa experiente, no Brasil, leva todos os documentos cuja existência consegue conceber, e tira a maior quantidade de fotocópias possível. Meio calejado de outros rodeios, senti-me finalmente um pouco encorajado a acreditar que, talvez, aquilo poderia quem sabe dar certo.

§ 9. Vão chamando os números. Tudo isso, até agora, aconteceu na portaria do prédio. Ninguém entrou realmente em lugar nenhum oficialmente. Somos como indigentes à beira dum castelo soberaníssimo. E o número fatal permite, como um passaporte diplomático, a ultrapassagem das grades para dentro da Tróia burocrática. Vão chamando de dois em dois. Leva um tempo, e a gente espera a primeira dupla voltar para que a nova dupla seja chamada. Tudo isso de pé, claro. Tolo e ingênuo é o homem que conta com uma fila sentada: você pode sonhar com isso, mas não pode contar. Não há cadeiras, então ficamos de pé. E, lembrando detalhes, debaixo duma garoinha. Há um toldo que obviamente não consegue abrigar todas as cabeças. E alguns de nós aguardávamos, de pé, não só uma chance de matrícula, mas quem sabe uma chance de pneumonia, uma gripe, ou ao menos um resfriado.

§ 10. Finalmente, chamam os números 8 e 9. Reconheci meu mais recente nome imediatamente. Nesta hora sempre bate um suspense. É a hora da verdade. A quantidade de riscos que corremos é inabarcável, e as chances de fracasso são uma legião. A confiança anterior se transforma numa sutil mas permanente sensação de agonia, um apertozinho lá mesmo, naquela parte baixa do abdômen. Vou entrando, ainda assim, confiante de enfrentar o meu destino.

§ 11. Ia acompanhado por um amigo. E evidentemente o amigo foi barrado. Eis a fatalidade: ele não era um número, era só um nome qualquer. “Você vai fazer o quê?”, perguntam para ele. E ele diz, singelo e humilde, que estava me acompanhando. Veja, um amigo pode acompanhar o outro nas cenas mais vitais da vida: à formatura, ao casamento, à maternidade, e finalmente ao velório. Mas o amigo não podia entrar naquele espaço. Era um local além de todo sagrado e além de todo mistério, inacessível às mais íntimas e sinceras amizades. Eis a dureza da realidade da nossa terra: nem todos os espaços públicos são realmente públicos. Há grades, crachás e vigias para proteger o espaço público do próprio público. E o amigo ficou de fora.

§ 12. Desbravei sozinho a aventura a partir daí. Sou levado a uma salinha junto com o outro número chamado. E embora eu estivesse, como diriam nos tribunais americanos, beyond any reasonable doubt, na fila da matrícula, o meu atendente, um homem racional como qualquer outro, me pergunta subitamente: “você veio fazer o quê aqui?” De repente me lembrei de uma piada e pensei em responder que queria um quilo e meio de alcatra. Mas você não pode contar piadas em situações de vida e morte como essas. Respondi com a educação majestática de um lorde inglês: “estou aqui para me matricular e agendar prova para o Ensino Médio.”

§ 13. O respeito não foi suficiente. Um funcionário público é um ser infinitamente sensível e caprichoso, como uma fada de conto infantil. E a resposta veio, brutal e gélida: “Agendar prova? Não é assim. Não é nada do jeito que você está pensando.” O frio da barriga derrama-se em si mesmo e se espalha pelo corpo. De repente descubro a cruel face do mundo real: não é nada do jeito que eu estou pensando. Ainda mal recuperado do golpe anterior, recebo então a próxima notícia sem clemência: “aqui você vai estudar.”

§ 14. Esta fala provocou em mim todo um processo regressivo. Foi como o ribombar numa noite escura e espectral, que te desperta de um sono agitado. Como um Fortimbras vagando ameaçadoramente sobre a cabeça dum Hamlet. “Aqui você vai estudar.” Isso poderia ser interpretado de tantas formas, que foi preciso uma feroz disciplina mental de minha parte. Vejamos. Por um lado, a fala tinha sido pronunciada num tom que parecia claramente ser o de uma ameaça. Isto é fato: aquilo foi uma ameaça direta. “Aqui você vai estudar.” Por outro lado, meditando o sentido mais verdadeiro possível das palavras, isto parecia ser não um destino trágico, mas bem ao contrário, paradisíaco.

§ 15. Eis que descubro as palavras que eu sempre quis ouvir mas que jamais me foram ditas seriamente: “Aqui você vai estudar.” E o processo regressivo se fez automaticamente, que também sou dado a ser um memorialista. Primeiro me veio um colega, meu xará, numa longínqua cena de intervalo de aulas numa manhã de inverno. Mostrava-me equações. Tínhamos algo entre dez e doze anos. E ele estava animadíssimo. Entraríamos finalmente numa fase mais substantiva dos estudos. Até ali tudo era simulação, sem notícia do mundo real, e até as matemáticas pareciam ser falsas. Mas havia um mundo de equações surgindo adiante, e o amigo tremia em cima dos sapatos para conhecer tudo aquilo. A equação que tinha em mãos lhe foi sorrateiramente contrabandeada pelo irmão mais velho, que já tinha estudado nas classes mais evoluídas. Era, ao seu modo, uma esperança para nós dois, aquela conta estranha.

§ 16. Nunca fui grande fã das matemáticas, mas a História já me cortejava como musa celeste. E tudo o que eu queria era estudar história. Depois de anos num ermo existencial, a escola finalmente faria algum sentido. Quando cheguei finalmente no primeiro ano em que a classe estudaria História, fiquei encantado como um Harry Potter entrando em Hogwarts. A professora era uma senhora loira de olhos bem azuis e um busto farto, uma Angela Merkel ao seu modo. E a primeira matéria seria Egito Antigo. Egito Antigo! Eu não entendia lhufas de Egito Antigo, mas descobri instantaneamente que queria saber tudo a respeito. E busquei minha felicidade na aula da Angela Merkel sobre Egito Antigo.

§ 17. Mas as decepções são inevitáveis numa vida humana, e quanto antes ocorrerem, antes a maturidade colherá a alma e lhe oferecerá dignidades nunca imaginadas. A realidade mostrou suas presas sangrentas: havia uma só aula de história com a Angela Merkel por semana, cinquenta minutos. Mas fica pior, fica pior. Essa amazona teutônica tinha necessariamente que gastar no mínimo trinta minutos dos cinquenta para colocar a classe em ordem e fazer a chamada. (A verdade é que só eu queria saber do Egito Antigo, talvez, quem sabe?, até mais que a própria professora.) Os vinte minutos restantes evaporavam-se numa bruma estranha que nem vagamente lembrava uma aula. E o resultado é que até hoje esse tal de Egito Antigo não me foi bem apresentado.

§ 18. “Aqui você vai estudar.” Finalmente? É isso? Será que o Egito Antigo será enfim vingado? Mas a face do homem racional que me dizia aquelas palavras indicava algo diverso da minha imaginação. A face exibe o ânimo, e os olhos espelham a alma. O que o homem racional estava querendo realmente me dizer é que eu não poderia fazer prova nenhuma sem antes marcar presença em não sei quantas aulas naquela escola. E dizia isso com alguma satisfação que me fez lembrar logo do pacto. Lembrem-se do pacto, do grande pacto brasileiro: o sadomasoquismo. E o homem racional mostrava-se logo, portanto, como parte da privilegiada casta dos sádicos nacionais.

§ 19. Ousei explicar a minha situação. Numa repartição, quando o seu caso está indo para o vinagre, sempre há o recurso final, a apelação suplicante, que é explicar a sua situação concreta. Um funcionário não conhece situações concretas e não quer tomar conhecimento, muito obrigado. Seu modelo é o computador, exato, preciso e infalível. Ignorante de tons súplices e vozes embargadas. E mal suspeita talvez que, caminhando assim, talvez um dia o computador lhe dê um golpe e roube a cadeira. Mas há seguranças, garantias, sindicalismos e estabilidades para o funcionário público brasileiro, e ele está poderosamente instalado, insuspeito, dentro dum corporativismo de fazer inveja numa Schutzstaffel nazista.

§ 20. O homem racional, sem saber, me provocava. Eu poderia lhe dizer: “Sim senhor, vamos estudar; mas nós vamos estudar AGORA. Imediatamente. Tome nota. Proponho alguma reflexões, como o fato econômico de que o quilo do arroz é mais caro porque o Estado precisa recolher para pagar o seu salário, ou então podemos meditar na transição do prestígio e privilégio da antiga aristocracia para a nova burocracia estatal das nações modernas, como essa da qual o senhor faz parte… que tal?” A proposta, é claro, jamais foi feita. Manda quem pode, e obedece quem tem juízo. Quem sou eu? Ninguém. Gosto disso, até. Sou um Ninguém, mas até um Ulisses, um Odisseu de Ítaca, diante do Polifemo terrível, era um Ninguém. E eis que ser Ninguém, Nemo, Outis, já é alguma coisa. E eu preferi, diante do homem racional, ser um Ninguém e dizer amém.

§ 21. Eu poderia dizer tantas coisas mais! Mas o tempo já me aperta. Poderia detalhar, por exemplo, o sequestro de meu documento de identidade. Sim. Pelo próprio homem racional, em pessoa. Agitava ele o meu RG no ar, dizendo assim: “olha, até o fim do ano isto aqui não vale mais nada, ok?” A elegância me informava que o documento ia perder validade. Só me esqueceu, no fim das contas, de devolver o RG. Isso para não falar dos outros documentos que a autoridade avaliou. Mexia e remexia e dizia depois, numa projeção pornográfica, que eu tinha feito uma bagunça. E gostava de dizer que tais e quais documentos eram muito velhos e que já não valiam mais nada, pelo menos uns dois ou três. Num determinado momento me olhou, enquanto pedia os papéis, e perguntou irônico: “trouxe tudo mesmo, seu dotô?” O “dotô” era todo constituído de um simbolismo invulgar. Como, apesar do tradicional frio abdominal que sentimos diante da SS, eu não estava particularmente temeroso e abalado, sentiu o homem racional em mim, como uma fera diante de uma presa, alguma oposição, alguma resistência. E a suposição do que seria a minha empáfia diante de tão absoluta e incontestável autoridade imperial resumiu-se no breve mas direto tratamento: “Dotô”. Neste dia de aventuras, como se vê, já fui de Rodrigo até Número 8, e de Ninguém até Seu Dotô. Toda a leitura dum épico antigo não renderia tamanhas profundidades existenciais.

§ 22. Mas já me estendo muito além do devido. Fui matriculado. Eis que a vitória final compensou toda uma série de santas humilhações. Apenas sequestraram involuntariamente (penso assim, porque o dever do homem é ser generoso com o próximo) o meu RG. Mas o acaso mostrou-se favorável. Quando resgatei meu documento descobri no mesmo local, por uma gentil alma, que poderia sim fazer diretamente as provas se me achasse preparado para tanto. E entendo finalmente a temeridade da minha presença anterior diante do homem racional: eu ousei me achar preparado. E a soberba alheia escandalizou aquela alma sensível.

§ 23. É isto! Chega. Nem mais uma palavra que não seja o pedido para que comprem o meu livro na Amazon. Comprem, por favor, ajudem o autor. Sei que ontem não passei a humilde sacolinha. Fui, ríspido, falar de nossas intransigências um com o outro, querido leitor. E citei até o vilaníssimo Thanos, quem diria, o soberbo dos soberbos. Dizia de si próprio o titã louco: “Thanos é Supremo, Supremo…” E ficava assim a contemplar perdidamente sua a própria superioridade. Um dia eu lhes conto como conheci Thanos e a história das jóias espirituais. Tem até uma cena de colégio envolvida. Mas há tempo para isso. Não hoje. Hoje já deu dor nas costas de tanto escrever.

Esse non videri,

RS

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