São Bernardo com café e pão na chapa

§ 1. Fui enviado caçula e canceriano para ser mimado e sofrer santas e incompreensíveis humilhações, para poder aprender um pouco da Lei do Amor, regra total e infinita de Deus. Não sei se me entendem. Nenhum pai quer estragar o filho mimando, mas quer ao mesmo tempo amar de fato, e isto quer dizer gratuitamente. Não há razão de medida entre amor e rigor, o amor vence sempre e vence fácil, porque até o bom rigor é amoroso, e o rigor justo está dentro do amor como uma gaveta dentro dum armário. O amor é completo, total e absoluto. Você imagina de que é capaz, então, um amor infinito! Todos os pais e mães são convidados a essa reflexão, porque se são capazes de matar e morrer por seus remelentos e imperfeitos pimpolhos, imagine então o que o Deus do Céu é capaz de fazer? E eis que Ele foi capaz de nos dar o Seu Único Filho no seu Amor total e escandaloso por todos nós.

§ 2. Há quem não aceite, claro. Aliás o Crucificado mesmo, amante total e absoluto, já teve sua sentença proferida contra o escândalo de sua entrega, de seu amor. O ser humano já se pronunciou, já julgou e condenou. Simplesmente não é aceitável, e não parece decente e respeitoso um amor tão grande e tão nu, tão nobre e tão humilde, tão rico e tão simples. Desde Adão e Caim até os dias de hoje a não aceitação do amor é uma prerrogativa humana inalienável. É uma conquista dos direitos do homem, é uma conquista do seru mano: não aceitar o amor. Há quem prefira uma Lei forte que ensine pelo domínio do poder e da dor, e estes serão os eternos participantes do sadomasoquismo. (Pense bem no inferno de chamas eternas: não é um clube sadomasoquista? E não estarão lá eternamente aqueles que amam, acima de tudo, o sofrimento seu ou do outro? E não é, portanto, o inferno um fruto do amor também ele? Surpreendentemente o fogo do inferno, até ele, é um fogo de um ardente amor, o amor pela recusa do próprio amor, o escândalo do escândalo.) Sempre há quem prefira a força e a dor. E assim já o velho Israel, esse povo de “cerviz dura”, gélido como uma Turandot de Puccini, de tempos em tempos se prostituía com deuses que não eram o Deus do Amor, e eis que ganhavam tantas vezes quantas eram precisas as durezas com que tanto ansiavam. Quem ama apanhar pede para apanhar, e que amor recusará o sofrimento a um masoquista sincero? Há sempre quem prefira o poder da dor contra o amor. E, como dizem os americanos, se o sapato entra no pé você deve calçá-lo: se para ser filho de Deus você quer tomar porrada, se esta é a sua escolha, então seja feita a tua vontade e a tua felicidade mais plena.

§ 3. (Ser feliz, mesmo, para valer, e até o fim, é ser amado sem merecer. É a situação real do ser humano, ao fim e ao cabo; e mesmo a mais alta crista, se um dia quiser se humilhar, entenderá isto. E o próprio São João chorava porque sabia que o Senhor morria também por ele. O amor ao obediente é menos completo que o amor ao desobediente, porque este tem perdão junto, tem um bônus. O amor ao fraco aumenta a compaixão, enquanto o forte se isola em si. E o obediente se espuma de ódio e morde a fronha, porque é menos amado, no seu rigor, que o mimado desobediente que recebe um amor gratuito. Pensa: comprei, com custo para mim, o que podia receber de graça. Mas quem mandou querer merecer alguma coisa em primeiro lugar? Quem disse para fazer comércio espiritual? Quem mandou se inscrever no infernal clube de sadomasoquismo? Quem lhe ensinou estas coisas?)

§ 4. Sempre há quem não aceita o amor. E se você não aceita o mimo para si, eis a fatalidade, provavelmente não aceitará o mimo para o outro. Se, ao invés do mimo amante dos privilégios, prefere ganhar o direito da Lei, você nunca tolerará o vizinho que é amado sem merecer. E esse amor lhe ofenderá profundamente, de forma abissal. E assim o diabo desde o início invejou o amor que Deus deu ao homem, “caiu do Céu como um raio”, e se tornou inimigo desse ser mimado e privilegiado. Sim! Um ser amado é um ser detentor de privilégios imerecidos, sempre, sempre. Em seguida Deus amou, mimou e privilegiou Abel (porque Deus é Amor e Ele ama incessantemente cada geração remelenta), e eis que Caim, antes de pedir e descobrir um mimo todo seu, vem dar a sua marretada no amor alheio, e o sangue do amado começou a escorrer já ali e não parou até hoje. Caim queria ser amado também? Será que queria mesmo? Ou queria a liberdade de amar ou não amar, de amar menos ou amar mais, enfim, queria a liberdade de ser simplesmente Caim, assim como Lúcifer queria apenas a liberdade de ser Lúcifer? Há quem só queira ser quem é, sem obedecer a Lei do Amor. O ódio odeia, por excelência, o amor que ama. E o mimo escandaliza e tortura eternamente a crueldade.

§ 5. “Ou vocês vivem pela Lei, ou morrem pela Lei”, disse alguém importante um certo dia. Só que a Lei era Amor, já era isso e nada mais, mas o povo de cerviz dura não aceitaria jamais esse mimo. Não aceitam até hoje, aliás. E o Filho de Deus veio, como Ele mesmo disse, levar a Lei à sua Perfeição. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça. Mas haverá sempre, e até no Inferno eterno, quem odeie o amor mimado de privilégios inaceitáveis, e prefira queimar para sempre no amor rebelde do seu próprio coração.

§ 6. Até um São Pedro foi, livremente e perfeitamente, um São Pedro, e não um São João. E cada um será amado e servido dos mimos a que tiver condições de receber sem que se corrompa. Nesta sutileza da Justiça poucos conseguem meditar e refletir. E é a mediocridade espiritual que costuma, ironicamente, querer mandar e desmandar no mundo, julgar e classificar tudo quanto há, e afirmar o que pode e o que não pode fazer o Poderoso com o seu Amor. É um analfabetismo espiritual humilhante, mas que chega a um cúmulo cômico. É um abuso hilário que provoca risos celestes, e a corte dos anjos se ri eternamente ao som de cantatas de Bach.

§ 7. Fui gerado mimado e canceriano, e fui santamente humilhado e desprezado, para aprender toda essa teologia. Ao que sou imensamente grato, por óbvio. A divina comédia, o Livro da Vida, poderia se chamar, também, “Pais e Filhos”. Tudo isso saiu de um café com pão na chapa na padaria da esquina. E eu só acredito numa teologia simples que pode ser pensada tomando café com pão na chapa na padaria da esquina. Qualquer coisa mais sofisticada pode ser mais perigosa; porque o seru mano é perigoso quando se leva a sério demais nas suas capacidades, nos seus méritos e direitos humanos.

§ 8. Ontem mesmo falava de São Bernardo e Pedro Abelardo com o amigo. São Bernardo matou a charada quando já sentiu, de longe, o fedor da sofisticação. Deus lhe deu olfato místico e o santo sentiu o mal cheiro instantaneamente. Escreveu Os graus da humildade e da soberba, e passou até um pito no próprio diabo. E eu imagino que São Bernardo passaria o seu pito do mesmo jeito, e escreveria o mesmo tratado, mesmo se estivesse no balcão da padaria da esquina, tomando o seu santo café com pão na chapa.

Esse non videri,

RS

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