Diarista real-time

§ 15. Na época das redes sociais me descubro um tipo novo, uma espécie de diarista real-time. Como se sabe, a época dos blogs é essa em que nunca tanta gente com tão pouco a dizer falou tanta coisa para tão poucas pessoas ao mesmo tempo. Os antigos já sabiam, e muito bem, que a capacidade de falar não torna ninguém inteligente, mas tem gente que não entendeu isso ainda até hoje. Palavras, para mim, são como pincel e tinta nas mãos dum pintor: é para fazer arte, e não qualquer porcaria, mas uma arte feliz que cante a Glória. Não é qualquer porcaria mesmo. E eis que vale a pena ser um diarista real-time. O negócio não é ser lido, o negócio é dizer o que precisa ser dito. Os bons frasistas estão conversando com Deus, quer a platéia perceba isso ou não, aliás, quer exista ou não uma plateia.

§ 16. Mas é difícil acalmar os corações dos inquietos apaixonados pelo sucesso. Ninguém quer falar “só” com Deus, parece muito pouco para os ambiciosos. Querem falar ao mundo, querem falar urbi et orbi. Não querem só dizer algo bom de ser dito, querem uma carreira, querem uma posição, querem pertencer a algum raio de coisa neste mundo. E então talentos inteiros, grandes biografias potenciais, artífices escolhidos pelo Espírito, fazem filinha em evento de coaching, lêem livros de auto-ajuda, desenvolvem seu “network”, colecionam diplomas e entram numa Universidade para escrever teses homéricas que jamais serão lidas. Consomem toda uma indústria de dicas, especialmente aquelas listas de “5 coisas para deixar de ser trouxa”, “10 meios de ser mais produtivo”, “como despertar o seu eu criativo em 7 passos”, etc., etc. A estrovenga não tem fim. Chesterton já sabia (logo mais falo dele). E tudo o que eu queria é que dissessem algo bom de ser dito, verdades inegáveis. E só isso. Já é muito! E custa muito? Custa apenas o desligamento das efemeridades e aparências, custa mijar na fogueira das vaidades. Mas aí é como se diz, o que é remédio para um é veneno para outro, e o amor que salva este é o mesmo que condena aquele. Para quem tem paixão por pertencimento a simplicidade de uma beleza ou de uma verdade é insuportável.

§ 17. Falei de ambição, mas o nome técnico do negócio é cobiça. Irmã da avareza, para quem não sabe. Porque o desejo de ter vira depois, naturalmente, o desejo de manter. Essa dupla dinâmica é maníaco-depressiva em sua essência, mais ou menos como os dragões de castelos de contos de fadas: conquistam, coléricos, vastos tesouros para depois deitar em cima de sua coleção numa profunda melancolia. E ai daquele que se mete na frente para catar uma moedinha.

§ 18. Isso sempre existiu, é verdade, mas os tempos inauguraram bestialidades inéditas dentro do gênero, porque o seru mano é criativo, como se sabe, e não pode deixar de se emporcalhar mais um pouco a cada nova geração. Dizia eu que Chesterton já tinha tomado notas a respeito do assunto, e isto foi quando escreveu The fallacy of success. Mostra os tolos de sua época perseguindo o fantasma do sucesso. E ainda foi bonzinho, porque G.K. era um sujeito generoso, um coração imenso. Mas ele ficaria chocado com nossos dias atuais, com a nossa época idolátrica e narcisística ao extremo, e chocado principalmente com a tristeza da coisa toda. Todo mundo quer um sucesso para chamar de seu, porque não basta ser amado por Deus, isto parece muito pouco. E assim caminha a passos largos a História da Queda.

§ 19. Há sempre o idiota da objetividade, como diria o frasista, que explicaria a tese de Chesterton pelo seu catolicismo anti-progressista, pelo seu medievalismo ultrapassado, etc. Responder a este tipo de colocação exige a renovação constante da nossa paciência, e por isso é uma coisa santa e boa de se fazer. Até um quadrúpede, se questiona algo sinceramente, merece uma resposta. Digamos, para sermos bastante simples, que Deus se alegrou de Davi e de Salomão em suas riquezas, posses e prazeres, e não foram estas coisas que geraram a corrupção, porque não é o mundo que toca o coração, é o coração que toca o mundo. Todas as alegrias eram santas até não serem mais vividas por causa de Deus, mas pelo homem separado. Eis a questão. Todos os sucessos davídicos e salomônicos eram coisas boas aos olhos de Deus, já que eram em primeiro lugar dons dados por Ele mesmo. Porque para quem não sabe –ou para quem ainda não entendeu– a felicidade do homem canta a Glória de Deus. Não é o progresso do homem que o arruína, é a separação de Deus, é o adultério. É não assumir que todas as coisas que nos fazem bem vêm da bondade de Deus, é ser desobediente, é ser ingrato. O problema não é ser bem sucedido, o problema é esquecer de quem veio o sucesso, em suma, é ser adúltero. Quem com Ele não junta, separa. E era disso, ao seu modo, que Chesterton falava, embora aplicando a sabedoria cristã apenas ao caso local dos vendedores de sucesso.

§ 20. O problema é que o crítico da nossa época, esse sujeito que pensa com o fígado, quer encher o saco e não quer entender nada. Não é que não lê direito o Chesterton apenas. Se fosse isso ainda estaria bom. Mas ele não quer saber de nada. Não lê os livros da Palavra, não lê os livros de Samuel, nem os livros de Reis. Pensa consigo: “para quê, se já nasci tão depois, tão mais pronto e acabado?” Simplesmente não há tempo para ler a Palavra de Deus. Deus que espere e não amole muito. Há sempre um compromisso, uma urgência, uma fadiga ou uma enxaqueca. O que nos consola é que essas pessoas são suficientemente avisadas do que lhes sobrevirá, quando cumprimos o nosso papel de pedir que reflitam, que pensem bem.

§ 21. O sujeito que não quer entender nada e quer saber de tudo é como o amante de imitações, de quem Platão tanto falava. Platão é um também que não é lido ou é lido muito mal e porcamente. Há os catadores de miudezas e acidentalidades que deixam o elefante passar bem na frente dos seus narizes e não fazem nem idéia porque estão olhando para baixo, como se diz, com os dois pés no chão e as duas mãos também. Uma imitação é uma coisa boa quanto mais aparece nela a bondade do que é imitado, e naturalmente a imitação vai sumindo dentro do imitado, mais ou menos como o “transforma-se o amador na coisa amada” de Camões. Era disso que Platão falava quando falava de idéias. E este era o objetivo de sua filosofia: fazer as pessoas tirarem o focinho do chão e olharem para cima um pouquinho. Uma missão quase impossível, porque o seru mano tem a cerviz dura. Quando Deus veio em Pessoa, apanhou, foi xingado, condenado, torturado e crucificado. A maioria não quis –e parece que ainda não quer, infelizmente– uma vida simples e boa. E essa conversa mole de sucesso para cá e para lá é mais uma prova disso.

§ 22. Porque o sucesso a ser conquistado é uma imitação, e não passa disso, do sucesso verdadeiro que é concedido pela Graça. Tanto é uma imitação que os honestos, mesmo dentro dessa atmosfera tão plastificada, assumem o papel decisivo da fortuna, que nada mais é que a prima pagã e ignorante da Graça. Outro dia até o Tony Robbins, esse titã da indústria motivacional que é como uma mistura de Robocop com Britney Spears, assumiu que era um sujeito afortunado e grato sem merecimento. E lá no fundo mesmo ele deve saber que esta é a verdadeira razão de felicidade: ser amado sem merecer, por amor gratuito de fato. Pena que poucos agraciados testemunhem isso com a franqueza que deveriam, para honrar o Nome do seu Benfeitor acima de tudo. Mas vejam vocês, mesmo nesse ponto estou falando de algo distante da mente comum, que traduz a imitação do sucesso em termos quantitativos bastante vulgares, isto é, em termos financeiros. Precisamos falar disso também.

§ 23. Porque esta é a imitação mais crua e tosca que existe. O dinheiro representa o poder de possuir um bem qualquer (que já é por si uma imitação parcial de um bem superior), mas ele mesmo por si não tem nome, não tem antecedentes nem consequentes definidos. É um quase nada perseguido como se fosse o tudo da vida. É uma espécie de pegadinha espiritual. E o segredo para não ser capturado é tão óbvio quanto desconhecido de uma multidão: é buscar os bens finais da existência por amor a eles e não os meios de conquistá-los como objetos do domínio humano. É obeceder a hierarquia e a ordem natural da realidade. Pois o nosso problema, como sempre, é que amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Nosso Mestre já explicou tudo. E continuamos amando as imitações, e as imitações de imitações… onde vai parar esse negócio?

§ 24. Vai parar no Reino do Fruto da Separação e na “Dialética Histórica”, esta entendida num sentido muito particular, como tentarei explicar. Separados da Graça por orgulho masoquista os homens são liberados a perseguir as suas ambições mais loucas; cada um quer ser um novo Gordon Gekko, sem esses reles freios morais usados para botar medo em pessoas ingênuas e covardes, etc. A soma das ações impremeditadas, amorais e imorais de uma quantidade substancial da população causa tamanho malefício na ordem social que gera necessariamente uma contrapartida de desejo de normalização e de justiça, desejo esse que também é canalizado de forma orgulhosa em propostas revolucionárias. Isso é um processo mais ou menos normal, e é, digamos assim, o videogame do diabo. Primeiro o Tinhoso é um Liberal. E não se enganem, o Liberalismo é revolucionário até a medula, é luciferino até dizer chega. Pois bem, esse Liberal propõe que se tirem todos os grilhões morais da sociedade. E de fato há sempre um peso e um engessamento desmedido por causa do legalismo moralista dos fariseus sempre presentes como representantes da moral concreta, e por isso a proposta pega. Só que isso trará necessariamente desordem, caos e anarquia social, em suma a lei da selva dentro da sociedade humana, os mais fortes batendo e escravizando os mais fracos. Ao que é necessária uma resposta rígida de ordenamento e normalização com base na justiça social que impeça que uns sejam tiranos sobre os outros. E esta será a revolução socialista, comunista, etc. Troca-se uma tirania por outra, e o ciclo nunca termina porque há sempre mais gente para sofrer e para morrer. Por isso é muito natural que os grandes tiranos criem eles próprios as suas revoluções para controlar de antemão uma oposição fabricada e para canalizar todos os espíritos verdadeiramente antagonistas dentro da sua dinâmica. Essa porcaria toda já está muito bem explicada faz tempo, mas não adianta, o povo continua: “sou liberal”, “sou socialista”, “sou de direita”, “sou de esquerda”, “sou conservador”, “sou progressista”, etc., etc. Hegel ri, onde quer que esteja.

§ 25. Enquanto isso o humilde glorifica de pé o Deus Vivo. Porque quem é humilde não tem tempo a perder sendo importante, já que está suficientemente ocupado sendo feliz amando a Deus e sendo amado por Ele. O desafio do coração do homem é deixar de ser besta, de querer ser alguém; e aí finalmente o sujeito se abre para ser alguém de fato, porque será alguém diante Daquele que É. Tudo isto é de uma simplicidade quase obscena, e ao mesmo tempo de uma sutileza muito dócil e delicada que o olhar duro e malicioso simplesmente não consegue enxergar com sua crueldade brutal. Por isso se diz que Ele é Bendito eternamente por ocultar isso dos grandes e revelar aos pequenos.

Esse non videri,

RS

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