Banalize e não se preocupe

§ 26. Recebo uma ligação imaginária. É Eberhard: “preciso que você me ajude a ser um idealista”. Eu peço que me explique a sua situação. Não é assim que funciona; você não liga para alguém pedindo ajuda para ser idealista sem mais nem menos. Especialmente num sábado de manhã, quando escolhemos propositalmente aquela gostosa e rara lentidão descompromissada. Esse tipo de telefonema estraga tudo. Ele me explica que está estudando a apostila O abandono dos ideais, de Você-Sabe-Quem, e pergunta se eu conheço. Digo: “sim, conheço sim, mas qual é o seu problema? Não está já tudo muito bem explicado?” E entao o amigo revela as suas abissais preocupações. Confessa, enfim, que teme não escapar da Banalização.

§ 27. Tento dar apoio como posso: “amigo, não tema, você é um cara suficientemente idealista para mim, não vejo maiores problemas…” Mas ele me corta quase aos prantos e explica a convulsão de sua consciência: “Não é o suficiente! Não é! Eu não sou ambicioso, sonhador, não tenho propostas para dar conta de um Ideal de verdade! E quando tento insistir nisso, eis a minha desgraça, caio na Exaltação Imaginativa! Me ensine a ser um idealista verdadeiro, esse ser equilibrado, maduro, temperado, consciente. Você tem que fazer isso por mim.” Daí questionei a razão de ele achar que eu seria capacitado para tal coisa, sendo que eu mesmo não me considerava um primor de idealismo. Disse ele que confiava em mim, e achava que eu tinha escapado da armadilha, que não tinha nem banalizado e nem exaltado. Na minha cabeça tenho pronta uma resposta indizível: “não, Eberhard, eu só tenho mesmo é mais o que fazer com a minha vida.” Mas isso ficou comigo enquanto pensava no que seria verbalizável.

§ 28. O mais rápido que pude organizei os pensamentos e montei uma resposta: “amigo, nos seus termos eu fico um pouco travado. Porque tenho comigo que já não se trata de ser idealista, mas sim realista, porque o cristão realista recebeu uma promessa de vida já tão fantástica que é de fazer qualquer Ideal humano corar de vergonha e humilhação. Salto por salto, se você quer mudar eu sugiro matar o homem velho e escolher o escândalo do amor cristão. Se tem algo que eu posso testemunhar é este amor escandaloso de Cristo por nós. Aceita isso e largue o resto, por que não?” Ele demorou do outro lado da linha. Por um momento achei até que tinha desligado. Mas estava lá ainda, e finalmente respondeu: “eu sei, mas este é um outro problema, não é uma questão espiritual, é uma questão de vocação de vida, desta vida aqui. Isso que você está falando não resolve o meu problema.” Neste ponto, confesso-lhes, comecei a ficar irritado. Mas me contive. Tenho que achar uma saída.

§ 29. Essas são as horas delicadas. Porque para levar o cidadão aos pés de Jesus parece ser necessário, inevitavelmente, humilhá-lo um pouco, dar um tipo de choque qualquer. Pensei no tempo, curador universal das obsessões, e na saída mais fácil. Disse-lhe: “olha, eu não sei o que te dizer por ora, mas tenho certeza que essa crise aí vai passar, você não precisa ficar assim. Arrume uma distração, vai passear que o sábado está lindo, e quando você ver, tudo já passou. A alegria da vida afasta esses encostos.” Pensei que ele ficaria feliz com a sugestão, mas a minha tentativa gerou o efeito inverso ao pretendido. Sentiu-se até ofendido comigo: “de todas as pessoas eu liguei para você, porque de todos eu sabia que você era alguém que não me viraria as costas e me entenderia. Talvez eu estivesse errado…” Se, por um lado, esse tipo de drama não tem o menor efeito em mim pelo lado emocional, por outro lado a realidade é que eu tinha um amigo que precisava de mim. De súbito me veio então uma idéia, e eu disse: “quer saber, Eberhard? Banaliza. Faz isso, banaliza mesmo. Banalize e não se preocupe.” Ele ficou chocado. Mas insisti e ainda completei: “Banaliza e qualquer coisa eu assumo a responsabilidade.”

§ 30. Ele não podia acreditar. Não que estivesse triste com a sugestão, pelo contrário: “olha, eu até estava querendo fazer isso mesmo, mas fiquei com medo de ser como a raposa de Esopo…” Desta vez eu que cortei: “esquece esse negócio, pode banalizar e se algo te ocorrer de mal por causa disso, eu assumo a responsabilidade.” Ele estava aliviadíssimo e logo me agradeceu com bastante entusiasmo. Estava, finalmente, pronto a viver um sábado maravilhoso, e eu fiquei feliz por ele (e por mim também, cá entre nós, que daqui a pouco já estou atrasado para ir dar uma aula, não-imaginária inclusive). Mas lhe ocorreu, fatalmente, a pergunta final: “posso pelo menos saber como você assume assim tranquilo essa barra?” Disse-lhe que podia saber sim, e que era muito simples.

§ 31. Expliquei: “meu caro Eberhard, entendendo os seus termos eu me vi na sua pele e pensei a coisa mais óbvia do mundo, quero dizer, que eu próprio já banalizei faz tempo, e graças a Deus. Em termos do que se chama por aí de ‘vida intelectual’ sou banalizadíssimo, não estou realmente valendo mais nada, e estou mais propenso a acreditar na honestidade de um vendedor de carro usado do que na de um intelectual idealista. Neste campo sou muito sem-vergonha, e um inimigo declarado do que podemos chamar de Humanismo de Atenas, a soberba da razão humana que só leva à ruína. Procure o Mestre dos mestres, Aquele que veio por nós sem idealismos, mas com o todo o Poder e Autoridade. Ele é o Caminho. O resto, não se preocupe, é superbia.” Ele pareceu ainda inseguro: “tem certeza? Fora de Jesus é tudo superbia?” Sim, respondi que podia ficar tranquilo: “tudo superbia, Eberhard, tudo superbia.”

Esse non videri,

RS

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