Filosofia e Psicologia

INTRODUÇÃO

Nosso objetivo neste breve curso será indicar as contribuições que a Filosofia pode trazer para a área da Psicologia. No tempo que teremos não será possível fazer muito mais do que isso, mas talvez seja o suficiente para sugerir meditações futuras que continuem frutificando.

Esta já é, aliás, uma primeira característica determinante dos estudos superiores: o potencial de crescimento indefinido. O ensino técnico ou profissional visa um fim temporalmente realizável, ou seja, o aluno aprende a fazer alguma coisa num dado prazo. A educação superior (não necessariamente a universitária, que sofreu grande decadência) não visa formar pessoas capazes de fazer alguma coisa, mas capazes de serem pessoas melhores. E não há término definido para “ser melhor”, isto não tem fim conhecido no tempo. Se a pessoa “pega” o esquema do seu próprio potencial intelectual, portanto, ela de certa forma aprende a ser uma aprendiz para sempre.

Não é possível, porém, abrir essa possibilidade de crescimento sem causar alguns abalos na estrutura atual de crenças. Por isso a Filosofia costuma parecer, inicialmente, uma atividade meio irritante e talvez até insuportável. Isto é a premissa de qualquer aprendizado: você só pode aprender uma estrutura de possibilidades nova se você aceitar que a estrutura atual na qual você crê é insuficiente, incompleta ou até mesmo equivocada. Isso não é doloroso para quem está acostumado a açoitar impiedosamente suas próprias crenças com frequência, que é o caso de um Filósofo, mas para a maioria de nós a experiência é no mínimo desconfortável. Este processo só se torna mais tolerável quando tomamos gosto pelo método da confutação, afinal, quanto mais descrentes ficamos das coisas inseguras e transitórias, mais aptos nos tornamos a inteligir o que é conhecimento seguro e firme das coisas eternas, principalmente as necessidades metafísicas, que são a coroa da atividade filosófica.

ORIGENS

Iniciemos nosso rápido passeio pelas origens da Filosofia. Não se pode dizer que antes da Filosofia ser historicamente estabelecida não havia conhecimento. O que observamos é o início de uma atividade mais ou menos formalizada, registrada em discursos que foram resgatados pela pesquisa histórica, mas certamente antes disso o ser humano conheceu muitas coisas e em vários níveis, pois ser humano é ser capaz de conhecer.

O que ficou registrado na antiga civilização grega foi a conquista de certos patamares intelectuais que foram marcantes e determinaram toda a evolução intelectual do Ocidente.

O primeiro marco, que é pré-filosófico, veio da antiga religião grega. Trata-se do conceito de Cosmos. Não se pode dizer que não havia isso nas civilizações mesopotâmicas ou na egípcia (chamadas, por sinal, por Eric Voegelin de “civilizações cosmológicas”) , mas o marco histórico, para nós, veio principalmente dos gregos, e isto influenciou fortemente as origens da Filosofia.

Do que se trata a idéia de Cosmos? É a crença de que há uma ordem na realidade, seja na natureza exterior ou seja dentro do próprio homem. Isso ainda não quer dizer explicitamente causalidade, o que será desenvolvido plenamente apenas por Aristóteles, mas é a semente da idéia de causalidade. Se nós habitamos no Cosmos, isto quer dizer que não habitamos no Caos, e portanto há algum sentido na relação entre as coisas. Isto pode parecer básico –e na verdade é–, mas se você questionar a crença comum das pessoas no mundo de hoje, por exemplo, você observará que mesmo esta noção básica e tão antiga não está clara na consciência de todos. Sobretudo a variedade de experiências e informações e a dispersão da atenção vivida nos nossos tempos costuma, ao contrário, sugerir mais a idéia de Caos.

O homem de hoje poderia facilmente reconstituir a experiência dos gregos antigos se fizessem o que eles fizeram, principalmente observar a natureza. Foi da observação da natureza que o homem captou a idéia de ordem, pela simples razão que a realidade natural está cheia de ciclos e repetições, seja a separação do dia e da noite, seja o comportamento das marés, seja a mudança na vida da vegetação com a passagem das estações, etc. Principalmente a regularidade dos movimentos celestes, depois de bem observados, deixou claríssimo para os antigos que neste universo há ordem, e esta ordem é o que os gregos chamavam de Cosmos.

Isto é um patamar intelectual porque é uma conquista que permite avançar o conhecimento daí para diante. Ou seja, em tese, cada nova geração não precisará mais refazer a contemplação da natureza para chegar na idéia de ordem, isto já foi dado pelas primeiras gerações para que pudessem futuramente seguir daí para frente.

Pois bem, os primeiros filósofos gregos, também chamados de Pré-Socráticos, partirão da idéia de ordem do Cosmos, para a busca do seu princípio, ou seja, a origem da própria ordem. Se toda a realidade é ordenada, deve haver um princípio de ordem, uma potência original que explica o ordenamento de todo o resto.

Um dos mais antigos destes investigadores foi Tales de Mileto, cuja tese básica, reconstituída pelos registros remanescentes de sua atividade, era a de que o princípio de todas as coisas era a água. Quando Tales propõe a água como princípio de tudo, ele certamente não está fazendo isto no sentido de um materialismo grosseiro, ou seja, ele não está dizendo que de uma matéria chamada “água” surgiram todas as outras matérias. Nenhum Filósofo vê as coisas deste modo, talvez nem mesmo Demócrito. A água seria a origem de tudo por possuir um primeiro tipo de ordenamento, ou de fórmula, a partir do qual tudo receberia uma ordem própria. Ou seja, a água é o ser mais básico e fundamental; a ordem que estrutura o ser da água é, de certo modo, a ordem básica que estrutura depois todo o resto em formas mais complexas. É difícil precisar o pensamento de Tales, bem como de todos os outros Pré-Socráticos, porque há pouca documentação dessa época. A quantidade de lacunas é tão grande que surge a perigosa tentação de se querer “completar” os sentidos das investigações pré-socráticas com nossos próprios entendimentos a respeito, nossos simbolismos e imaginações, o que virou uma certa mania moderna que mais atrapalha do que ajuda.

O que podemos afirmar é que houve já, nesse período, uma série de fortes intuições intelectuais, que foram sementes importantes para o surgimento da Filosofia. Assim como Tales sugeriu como princípio de ordem a água, outros como Empédocles, ou Anaxímenes, sugeriram outros elementos, como o fogo e o ar, respectivamente.

Essa noção intelectual de princípio de ordem foi se sofisticando mais com o pensamento de figuras como Anaximandro, por exemplo, que já sugeria como princípio de ordem não um elemento conhecido, mas um elemento primordial indeterminado que ele chamava de Ápeiron, ou “O Ilimitado”. Embora aqui ainda estejamos longe da avançada teologia judaico-cristã, é espantoso notar como essa especulação pré-socrática já conseguia vislumbrar vagamente as características necessárias a um Ser transcendente originário de toda a realidade.

Outros pré-socráticos avançaram mais ainda na investigação do princípio de ordem, e propuseram soluções bastante interessantes. Pitágoras propôs que a origem de todas as coisas era o “número” (não mera quantidade, mas princípio formal, ou sistema de proporcionalidades e relações). Parmênides e Heráclito, espantosamente, propuseram princípios que são já quase sinônimos do Deus da teologia futura: o Ser e o Logos, respectivamente.

Todas estas propostas foram se acumulando e gerando um ambiente intelectualmente rico, embora de fato a atividade de filósofo sempre fosse mais ou menos marginalizada, como ainda é de certa forma até hoje. É coisa de “gente esquisita”. O Filósofo se separa de certo modo da sociedade, para enxergar as coisas de fora (porque precisa criticar as crenças que baseiam a vida social), e isto gera no mínimo estranhamento, e talvez alguma hostilidade.

Os Filósofos, por serem questionadores mais ou menos subversivos para os padrões sociais, e por serem investigadores incapazes de fornecer muitas certezas para guiar a ação humana, sempre ficaram à parte da formação do consenso cultural de cada época. Isto pode parecer espantoso, mas de fato é o que há de mais normal. Os sábios de cada época não podem ser Filósofos, e vice-versa, porque quem é sábio já sabe alguma coisa, e quem é Filósofo ama uma sabedoria que não é sua, mas que busca o tempo todo.

É atribuída a Pitágoras a origem da palavra “Filosofia”, que quer dizer literalmente “amor pela sabedoria”. O elemento constitutivo desse amor é o desejo sem fim de uma sabedoria que está sempre para além do seu amante. Os sábios, por outro lado, não são enquanto tais buscadores, mas ao contrário representam uma sabedoria que já foi conquistada e aplicada à realidade humana. Eram os chamados Sofistas.

Não devemos cair no erro comum da historiografia de condenar os Sofistas por não serem Filósofos. Cada qual tem o seu papel. Um sábio é, em resumo, um especialista num determinado conhecimento, reconhecido socialmente como tal, e tomado como fonte de conselho para qualquer questão que envolva a sua especialidade. Sobretudo os sábios se caracterizaram desde a origem por serem capazes de gerar um discurso socialmente convincente e por constituírem uma autoridade social especializada.

Ora, a Filosofia nunca pode, em nenhum tempo, compactuar com o esquema da sabedoria socialmente estabelecida, justamente porque a Filosofia é o questionamento permanente e a expansão da possibilidade de inteligibilidade da sociedade presente.

Isto ficou claro pela primeira vez com Sócrates, que é considerado o pai fundador da Filosofia ocidental.

Qual é a atividade de Sócrates? É o questionamento da verdade proposta pelos especialistas. Sócrates mostra que é possível um modelo intelectual superior que responde o que é o Bem melhor que um sacerdote, o que é a Justiça melhor que um juiz, o que é a Coragem melhor que um militar, e assim por diante. Que modelo é esse? É a própria presunção de ignorância: se eu não achar que eu sei o que eu na verdade não sei, talvez eu consiga de fato saber alguma coisa; ou seja, se eu não presumir que sei o que não sei, o conhecimento da verdade se tornará mais claro e evidente para mim quando estiver de fato presente.

A mudança que essa concepção intelectual causou na civilização foi absolutamente devastadora.

Até Sócrates, o que o homem considerava “sabedoria” era aquilo que a sociedade, representada pelos seus sábios especialistas, acreditava saber e confirmava saber na sua prática social. À partir de Sócrates a Sabedoria é reconhecida como transcendente ao homem e à sociedade, ou seja, ela não é possuída, ela é buscada, e o homem não é um sábio ou um representante da sabedoria, ele é um ignorante que deve buscar o que está para além de si.

É claro que isso seria inaceitável para a sociedade da época (e se pensarmos bem, é inaceitável até hoje para a nossa sociedade), e de fato Sócrates é condenado à morte por “corrupção da juventude” e “negação dos deuses”.

O que Sócrates inaugurou, porém, não foi perdido com sua morte, pelo contrário até, foi selado e garantido por ela, por seu exemplo pessoal de coragem em defesa da verdade. Sobretudo o ensino de Sócrates demonstrou a necessidade da responsabilidade pessoal pelo conhecimento: se eu sei alguma coisa, sou responsável pelo que sei, e sou responsável individualmente, quer dizer, só eu sei que sei o que sei. Um Filósofo não pode, portanto, se sustentar em crenças coletivamente afirmadas, ele deve tomar posse intelectual pessoal de tudo o que meditar, e se responsabilizar pessoalmente. Não se pode mais culpar “os outros” por enganos e mentiras.

Isto é uma apologia da consciência individual, e não por acaso Sócrates identificou a felicidade, eudaimonia, com a “vida refletida”, ou seja, ser feliz é ser consciente. E só o homem consciente pode dar testemunho fiel da verdade. A Filosofia nasce, portanto, como Filosofia Moral, e todos os grandes Filósofos antigos sempre acreditaram nisso: para conhecer a verdade é preciso ser bom, e para ser bom é preciso conhecer a verdade.

Um homem mau não conhece a verdade, pois não possui a integridade de consciência necessária para discernir entre o que sabe e o que não sabe, especialmente para assumir humildemente que é ignorante.

À partir desse fundamento socrático, a Filosofia avançou por todos os domínios do saber humano, dando seu maior salto com as duas gerações seguintes à de Sócrates, nas figuras de Platão e Aristóteles.

O projeto filosófico destes –que de certa forma continua até hoje nas gerações que acreditam suceder esse projeto originário– é o de tornar o amor à Sabedoria a razão de sua existência, e possibilitar com isso os avanços e conquistas que forem possíveis e permitidos para o restante da sociedade. Todas as ciências partem deste de algum modo deste esforço originário, inclusive a Psicologia.

FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS E PSICOLOGIA

A relação entre a Filosofia e as ciências é a que existe entre uma matriz de inteligibilidade e aplicações concretas.

Qualquer ciência se determina pela busca do entendimento das relações de causas e efeitos dentro de um tipo de fenômeno definido.

A Física, por exemplo, vai estudar as causas e efeitos dos fenômenos definidos como “físicos”. A Química vai estudar as causas e efeitos dos fenômenos definidos como “químicos”. A Psicologia vai estudar as causas e efeitos dos fenômenos definidos como “psicológicos”. E assim por diante.

Percebam que toda ciência requer como pressuposto uma definição fenomenológica que servirá como princípio daquela ciência, ou seja, uma premissa que não fará parte do estudo da própria ciência. Portanto, a Psicologia requer uma definição de “Psique” que sirva de princípio para todos os seus estudos posteriores. Mas se a Psicologia vai estudar quais são os fenômenos psicológicos, de onde ela tira a definição do que é e do que não é psicológico? Obviamente essa definição em si mesma não pode partir da própria ciência que é por ela definida!

É a Filosofia que define os fenômenos estudados pelas ciências. Isto quer dizer que a Filosofia é o único modo de saber humano que não está constrangido a um determinado campo de fenômenos. A Filosofia não busca entender um tipo ou outro tipo de realidade, mas sim a realidade enquanto tal, ou seja, o lugar onde ocorrem todos os tipos de fenômenos.

Um psicólogo, por exemplo, que esteja trabalhando numa pesquisa na definição de “Psique” e classificando o que são e o que não são fenômenos psíquicos, não está praticando Psicologia, está fazendo Filosofia. Porque ele precisa entender o que não é psicológico para limitar o que é psicológico.

As ferramentas filosóficas que auxiliam esse tipo de investigação são as fornecidas pelos principais ramos de estudo filosófico:

  • Metafísica: estudo da possibilidade
  • Ontologia: estudo do ser
  • Epistemologia: estudo do conhecer

Ou seja, o Filósofo trabalha principalmente conhecendo os princípios da estrutura de possibilidades (o que é ser necessário, possível, compossível e impossível), da estrutura do ser, e da estrutura do conhecimento.

Um único ser ou fenômeno concreto que justifique ser estudado deve, portanto, possuir essas três características: ser possível, ser existente e ser conhecível.

A existência da Psique, ou “Mente”, é atestada e documentada desde a antiguidade nos primórdios da Antropologia. Aliás, sem ao menos um rudimento de Antropologia não é possível existir uma Psicologia, porque o fenômeno psíquico só existe porque existe o fenômeno humano.

Alguns colocam a mente numa relação dual com o corpo, outros, mais frequentemente, articulam três níveis de realidades, corporal, mental, e espiritual. O simbolismo também retrata esses níveis com diferentes partes do ser humano, assim os cinco sentidos representam o corpo, a cabeça representa a mente, e o coração representa o espírito.

Fatalmente essa concepção antropológica do homem (como ser corporal-mental, ou corporal-mental-espiritual) modificará a concepção dos fenômenos psíquicos e, portanto, toda a Psicologia. Se não existe, por exemplo, Espírito (Nôus ou Pneuma), tudo o que seria considerado fenômeno espiritual se torna psicológico.

FILOSOFIA E PSICOLOGIA MODERNAS

Desde Descartes, e principalmente com Kant, a Filosofia moderna mais consagrada e famosa decidiu restringir sua atividade e bloquear os conhecimentos de tipo Metafísico. Isso se deu para atender a certas exigências da Epistemologia moderna (em resumo: a apoteose da ciência moderna com Bacon, Newton, Galileu, etc., sugeriu aos filósofos que só considerassem, em imitação às ciências naturais, conhecimentos logicamente  ou experimentalmente demonstráveis). Com isto instalou-se um novo tipo de cosmovisão, que seria a cosmovisão da dúvida ou do ceticismo.

Isso inverteu de certo modo o ímpeto antigo. Os primeiros filósofos, os pré-socráticos, fundaram suas investigações na sólida observação do ordenamento e na regularidade da realidade natural. Tais concepções geraram um grande entusiasmo e confiança na capacidade humana de conhecer a verdade. Com Sócrates, Platão e Aristóteles estabeleceu-se definitivamente a possibilidade do ser humano amar a verdade com plena confiança não só na existência de uma sabedoria transcendente, mas também com plena confiança na capacidade humana de conhecê-la.

Os Filósofos modernos mais conhecidos, porém, seguiram o caminho da dúvida e do ceticismo, principalmente após Descartes. Kant coroa esse processo declarando que o ser como ele realmente é não pode ser conhecido, mas apenas a sua aparência para nós. Ou seja, existe a coisa-em-si, e existe o aspecto fenomênico, e nós só podemos afirmar a verdade das aparências das coisas e das próprias estruturas de percepção e de razão da mente humana.

Estou dizendo tudo isso apenas para contextualizar o surgimento da Psicologia moderna. Ela surge neste tipo de ambiente intelectual, como resposta (o que era muito comum na época) ao problema kantiano da ignorância da coisa-em-si. Cada novo estudioso propunha uma solução. De certo modo é um retorno ao problema pré-socrático da busca do princípio oculto de ordem, mas ignorando completamente as conquistas da Metafísica desde Platão e Aristóteles até a Escolástica. Isto atesta, é claro, o quanto o ser humano recusa se conformar à ignorância das coisas, especialmente da origem fundamental da realidade, mas também atesta o quanto o homem pode se perder por não reconstituir corretamente a história das idéias.

Cada estudioso, depois de Kant, vai tentar identificar finalmente o que é a coisa-em-si e, resolvendo o enigma, permitir assim o bom andamento das investigações científicas. Antes mesmo de Freud, o alemão Arthur Schopenhauer identificava o que ele chamava de “Vontade irracional” como a a coisa-em-si. Nietzsche identificava como a “Vontade de poder”. Freud, já no campo psicológico, identificou como o “Inconsciente”. Jung com o “Arquétipo”. Depois, nas ciências sociais, o sistema também se reproduz na busca do “segredo da realidade”, chegando até Marx que identifica o princípio da realidade com a “Luta de classes”. E por aí vai. Até hoje entramos numa livraria qualquer encontramos dúzias de livros que prometem revelar finalmente o “segredo de tudo”. É claro que cada um dos investigadores tem razão até certo ponto, mas há obviamente um vício cultural em se descobrir grandes razões da existência que estariam supostamente escondidos até ontem.

O fato é que qualquer estudioso de Platão e Aristóteles pode constatar, e rapidamente, que vivemos uma época culturalmente decadente (e consequentemente moralmente decadente), pois filosoficamente não há progresso sem absorção e continuidade dos patamares antigamente conquistados (como aliás ocorre com qualquer ciência ordinária), só há retrocesso à questões e problemas que já foram resolvidos antes à custa de muito esforço e sofrimento.

O NOSSO PROBLEMA HOJE

Isso nos leva a pensar sobre a nossa situação de hoje, que afeta tanto Filósofos quando Psicólogos ou qualquer tipo de estudioso em qualquer campo do conhecimento.

Do lado da Filosofia o problema é resgatar o que foi jogado fora pelas gerações de Descartes e Kant, e que se tornou o vício dos estudos modernos. Ou seja, tornar respirável novamente os altos ares da Metafísica que se tornaram insuportáveis no ápice da Escolástica, tentando evidentemente evitar os erros dos filósofos escolásticos que geraram (ou no mínimo permitiram) toda a decadência posterior.

Do lado da Psicologia, o problema é reconstituir os limites da ciência com maior solidez, e inserir a Psicologia numa concepção cosmológica e antropológica mais rica. Neste sentido, e para encerrar, pensei em algumas sugestões:

  1. Manter uma atividade crítica contra a ilusão de suficiência. Ou seja, nunca o Psicólogo (como qualquer outra pessoa em qualquer ocupação, aliás) deve supor-se pronto e acabado para lidar com os problemas em seu trabalho. Isto não quer dizer simploriamente que deve manter-se “atualizado”, etc. Quer dizer que deve manter-se aberto para a realidade da sua própria ignorância. Os benefícios da Humildade são muito vastos e rapidamente observáveis. Ser humano é assumir viver sempre um mistério e tatear a vida como um ignorante descobrindo novidades a todo momento. A experiência elementar é o que Aristóteles chamava de “Espanto”, a capacidade de se admirar diante das coisas. Se isto se perde, perde-se a capacidade de aprender. É o que teologicamente se chama “Temor”. Este é o princípio da Sabedoria: viver num mundo com significado em aberto, que nós não controlamos e jamais vamos controlar.
  2. Defender a unidade e a integridade da individualidade humana. O outro com quem nos relacionamos, mesmo que nos relacionemos ao modo de uma prática profissional e com objetivos definidos, continua sendo um ser humano integral que não pode ser reduzido ao aspecto enfatizado tecnicamente ou profissionalmente. Não existe separação, no indivíduo, das partes de seu ser. Se eu lido com uma pessoa, eu lido com ela inteira. A ênfase segmentada num aspecto do ser –por exemplo, o seu aspecto psicológico– nunca pode sobrepor-se ao sentido superior da existência daquele indivíduo, que o integra numa unidade biográfica sem separações. A especialização serve para melhorar as possibilidades de relação com um indivíduo, e não para alienar a própria relação a um aspecto separado. Isto quer dizer que um Psicólogo atendendo um paciente é, na perspectiva mais ampla, uma alma encontrando a outra, e a técnica especializada é, do ponto de vista filosófico ou teológico, quase que uma desculpa para essas almas fazerem o bem uma para a outra. É preciso ser capaz de alcançar esse grau de consciência.
  3. Aceitar e acolher a possibilidade de outros modos de tratamento e de cura. Toda especialização mal refletida pode viciar a visão de mundo. Como se diz no ditado, “para um martelo tudo é prego”. O tratamento e a cura do sofrimento psicológico não pode ser restrito aos meios psicológicos de tratar e curar. É preciso manter a mente aberta para que a busca do bem do outro não se torne a busca da confirmação de que esta ou aquela solução é a melhor. Quando se trata do bem do próximo não é preciso justificar este ou aquele meio de benefício em detrimento de outros, do contrário o meio se torna o próprio fim. Academicamente se defende o que é chamado de “interdisciplinaridade”, o que para mim é uma coisa engraçada, é como o Jack o Estripador querendo remendar as pessoas de volta ao que eram antes. Não é mais fácil não estripar os outros em primeiro lugar? Não é preciso reunir o que não foi separado antes, por isso o problema da “interdisciplinaridade” só é um problema para quem “disciplinarizou” as coisas. Basta que não se segmente a visão da realidade e o problema desaparece instantaneamente. Mas para fazer isso é preciso assumir categorias superiores de entendimento, como por exemplo as de Bem, Verdade, Justiça, etc., justamente as coisas que foram descartadas pela modernidade. Aplicando isso à Psicologia, por exemplo, é natural que o ser humano seja ignorante, mas não é comum ele assumir a sua ignorância. Isto significa que tem muita gente sofrendo simplesmente porque não sabe que não precisa saber de tudo! A pressão psíquica da pretensão de conhecimento é enorme, como se a ignorância fosse imoral e não a natureza humana. Da mesma forma o desejo de controle da vida e da morte gera um sofrimento enorme, o qual pode ser grandemente aliviado com a aceitação da impotência que é natural do ser humano. Sobretudo (e aqui me lembro inevitavelmente de Frankl), é preciso ter a humildade de aceitar que as soluções psíquicas talvez sejam parciais e incompletas em alguns casos de problemas existenciais, e que a verdadeira resposta se encontra numa solução pneumática.

Espero não ter me estendido demais, era isso o que eu queria colocar para esse breve curso. Terei prazer em atender todas as dúvidas. Obrigado.

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