O homem não foi feito para os astros, mas os astros para o homem

“Todo o bem da alma está em ter oração. E mesmo assim há muito poucos que a têm. Esta foi a queixa que meu Rei e Senhor me fez numa ocasião. Disse-me que eram muito poucos os que buscavam a comunicação com Sua Majestade. Que é isso, Senhor meu? Acaso essa comunicação é de alguma criatura que cause enfado? É acaso relação em que se pode perder algo, para que lhe queiram tão poucos? Não, por certo; antes, desta convivência nos há de vir todo bem. É amizade com o grande Rei e poderoso Senhor de tudo, com o que aos pecadores perdoa, aos ignorantes ilumina, aos amigos regala e aos justos premia: tem ele o poder e o querer, ama e enriquece. Pois, a quem há que não chegue? Que seja tão pouca nossa luz que não vejamos isso e não busquemos tanto bem! Aqui acharemos descanso nos trabalhos, alívio nas enfermidades, remédio para nossas chagas e asas para que o espírito voe para seu Criador. Oh, que males nos podem vir de não ir a esta fonte, e que bens se com ânsia o buscamos!” — Maria de Jesus de Ágreda

Amigos, resolvi escrever o presente documento em resposta ao pedido de ajuda do nosso amigo Rodolfo, pois entendi que o assunto requeria um tratamento mais extenso por várias razões. Inicialmente queria gravar um vídeo, mas por problemas técnicos tive que consignar as idéias por escrito. Meu intuito final já o declarei de algum modo na citação de abertura do presente, ou seja, o de valorizar a oração na nossa relação com Deus acima de todo o resto.

I – Do problema do desentendimento pontual

Sobre o problema pontual de desentendimento com a referida amiga do Rodolfo, só posso fazer as recomendações mais elementares, isto é, de não ceder às diferenças e de passar um pano e esquecer, especialmente numa relação de amizade verdadeira. Dou como exemplo recente uma provocação do meu amigo Diego, que manifestou inclusive no nosso grupo que determinadas posições eram por “dor de cotovelo”, etc.; quem me conhece sabe que eu não tenho nenhuma dificuldade de responder com grosseria e violência, ou simplesmente de fechar o próprio grupo para não ter que aguentar esse tipo de aporrinhação. Mas eu conheço esse mala faz mais de quinze anos, então respondi com sinceridade e elegância: “Vou ignorar porque gosto de você.”

Tratando da questão objetiva do desentendimento, é pressuposto da manutenção da tranquilidade da alma que uma reação irada se dá por algum desequilíbrio nosso por vontade de impor nossa opinião ou por insegurança de nossa própria certeza, desde que se a outra parte duma discussão não tem razão só nos resta aceitar pacientemente a arbitrariedade alheia, e se há razão no que disse a outra parte, resta-nos a correção de nosso ponto de vista. A nossa irascibilidade diz respeito à nossa fraqueza e não a do outro. Se numa discussão qualquer eu entro com o intuito do amor à verdade, num espírito dialético ou científico, é impossível que eu me irrite com a cegueira alheia ou com a insuficiência de minha própria posição. Se, no entanto, eu entro numa disputa com espírito de competição, de retórica ou sofística, daí abro mão da tranquilidade da alma em troca do desejo de superioridade.

Por tudo isto não vale a pena avançar em nenhuma discussão que exalte os ânimos para além do razoável.

II – Dos problemas da leitura do céu como “vontade divina”

Talvez haja, no entanto, alguma razão na crítica contra o uso das interpretações técnicas da leitura astrológica com a finalidade de entendimento ou antecipação de uma experiência futura (no caso as entrevistas de emprego).

Primeiramente, é necessário dizer ainda no âmbito da pura prática astrológica, que a astrologia falha, e falha especialmente quando o interesse particular do consulente se sobrepõe ao seu interesse contemplativo. Por exemplo, se numa questão horária o consulente pergunta que time vai ganhar uma determinada disputa de futebol, e o faça porque secretamente tenha o desejo de apostar dinheiro no provável vencedor, mesmo que o astrólogo não conheça o interesse financeiro do consulente, é quase certo que a sua interpretação falhará, porque não agrada a Deus que os meios de contemplação e de busca da sabedoria sejam usados para interesses alheios à vida espiritual (interesses pragmáticos, temporais, materiais, etc.), razão pela qual o astrólogo é confundido, mesmo que seja uma pessoa muito experiente e sábia.

Em segundo lugar, e em adição ao primeiro ponto, é necessário relembrar a recomendação da vivência da vida espiritual sobre a prática da técnica astrológica, de forma que nunca se esqueça de que a representação da simbólica celeste é apenas um meio de buscar a sabedoria dentro de uma relação mais plena e completa da vida espiritual. Consequentemente é importante recordar o valor da proibição da prática astrológica pela Igreja: simplesmente é muito mais provável a prática astrológica piorar a vida espiritual de uma pessoa do que o contrário, porque a técnica astrológica (como toda técnica, por sinal) possui na sua linguagem própria a capacidade de “capturar” e prender a atenção da alma e aliená-la da sua experiência integral. Isto quer dizer que somente as experiências intelectuais superiores da Literatura, da Filosofia e da Religião possuem uma linguagem integral suficientemente rica e aberta para não limitar a consciência da realidade, limitação essa que é naturalmente condicionada pelo uso de qualquer linguagem técnica especializada. A especialização, e especialmente a racionalista, é a criadora de mundos de fantasia perigosos pela riqueza do seu ilusionismo, riqueza esta produzida justamente pela alta sensação de controle e de ordenamento gerada pela própria psique. Viver no mundo real (o mundo da experiência cotidiana, que é o mesmo mundo da Literatura, da Filosofia e da Religião) é viver num mundo aberto, desconhecido, misterioso e incontrolável. Exato oposto de um mundo perfeitamente mapeado e “controlado” do simbolismo astrológico.

Em terceiro lugar, é necessário relembrar que a incapacidade de captar o juízo transcendente de Deus não é violada pela astrologia. Ou seja, a sabedoria de Deus sempre escapará a qualquer entendimento humano, inclusive o condicionado pela interpretação astrológica. O exemplo mais comum desta limitação diz respeito às experiências consideradas ruins ou desagradáveis desde o ponto de vista astrológico, mas que são experiências espiritualmente enriquecedoras e necessárias. Quando se chama o planeta Saturno, por exemplo, de “o grande maléfico”, isso diz respeito à visão terrestre de limitação e negação daquilo que o planeta representa na nossa vida, porém essa mesma realidade do ponto de vista espiritual pode significar a abertura da alma para as virtudes da Obediência e da Humildade, o que inverte completamente o significado de Saturno e o torna “o grande benéfico” do ponto de vista da vida espiritual. Uma certa leitura pode dizer que um determinado emprego será uma experiência desagradável para você, mas o que a leitura não diz é que Deus pode estar justamente querendo que você passe por esta experiência desagradável para que Ele ensine algo que só poderá ser transmitido através deste tipo de experiência. Os juízos divinos são absolutamente inefáveis e misteriosos. Interpretações astrológicas não podem ser usadas como chaves de compressão dos juízos de Deus, jamais, nunca! Viver para Deus é viver em aberto, ou seja, sem garantias, sem controle e sem certezas nas coisas transitórias (como uma relação de emprego, por exemplo). Se você deseja obter coisas seguras e certas, não busque a astrologia, busque a Metafísica e a Teologia.

Em quarto lugar, é preciso recordar que nosso Deus não é um relojoeiro: ou seja, Ele não está ausente de nossas vidas a ponto de que só possamos conhecê-lo pelos efeitos presentes no mundo criado. Nosso Deus é Vivo. Digo isto como um apelo contra a mecanização da vida espiritual, ou seja, contra o iluminismo racionalista que está inevitavelmente presente em concepções como a da ampliação do sentido e do valor da astrologia para além de seu perímetro. Não por um acaso grandes promotores do período auge do iluminismo eram racionalistas e ao mesmo tempo grandes conhecedores das ciências tradicionais, como a alquimia e a astrologia. Isto tudo tomou uma direção muito nefasta, o que culminou com a frequente estupidez das ciências modernas. O conhecimento não foi feito para separar o homem de Deus, mas o contrário! Mas o entendimento das “leis divinas” causa ao homem moderno aquilo que já havia causado aos judeus na época de Cristo, justamente o distanciamento, pois quem já “dominou” a vontade divina não precisa se relacionar com o Deus Vivo. Afastem-se disso.

III – Da importância relativa dos astros para o ser humano

Dito isto que foi posto acima, é preciso reafirmar que a interpretação da linguagem dos sinais celestes está abaixo dos Dons do Espírito Santo e os requer previamente. Ou seja, a astrologia só funciona, quando funciona, porque há o funcionamento prévio de recursos intelectuais sustentados pela Graça. O enfoque na prática técnica sem a consciência do valor dos recursos intelectuais empregados nela distorce a proporção real das coisas. Os astros são relativamente menos importantes para o ser humano do que a sua própria capacidade intelectual e volitiva. Em especial, quando se medita nos Dons mais elevados do Espírito Santo, como o Entendimento e a própria Sabedoria, a superioridade da vida espiritual e contemplativa em relação à prática da técnica astrológica é absolutamente devastadora. Diante de tamanhas Graças divinas a astrologia tem o valor como que dos espelhinhos que os portugueses trocavam por ouro com os índios na época do Descobrimento.

O ser humano alcança alturas impossíveis aos próprios astros por serem feitos à imagem e semelhança divina. Possuir intelecto e vontade, razão e liberdade, é algo que transcende e de muito todas as alturas das esferas planetárias. Mais ainda: na parte mais alta de nossa vida contemplativa, quando louvamos a Deus, alcançamos a altura espiritual das mais altas hierarquias angélicas e cantamos junto com querubins e serafins a eterna felicidade e glória divinas.

Concluirei, portanto, conforme o prometido: enaltecendo a vida de oração.

IV – Da vida de oração

[Palavra do Senhor] “Que vos faço eu na oração? Não vos ouço? Não vos regalo? Não vos ilumino? Não vos enterneço? Não vos perdôo? Não inflamo vossas vontades? Não regalo vossas memórias? Não adoço vossas almas? Não purifico vossas consciências? Pois então, por que fugis? Por que não me tratais? Eia, tratai-me, que sou como a flor, que quanto mais se trata e manuseia, exala mais fragrância. Se quereis sentir meus perfumes, tratai-me, não me deixeis à mão, e vereis como caminhais ao perfume dessas fragrâncias, como o fazem as esposas. Orai, que se são maus, vos farei bons; se tíbios, vos porei fervorosos; se imperfeitos, encontrareis perfeição. Orai e descobrirão o que eu sou para vocês.” — Francisco de Posadas

O simbolismo astrológico pode ser usado como ferramenta para a contemplação de Deus, certamente. Eu mesmo obtive, graças a Deus, um entendimento muito salutar da necessidade da admissão de nossa limitação diante de Deus para sermos verdadeiramente felizes, e fiz isso através da meditação do simbolismo de Saturno. Mas este tipo de meditação não tem nada a ver com a técnica astrológica para fins pragmáticos e temporais, muito pelo contrário: neste caso o símbolo foi usado para uma meditação que está integralmente dentro da vida contemplativa.

Dizendo isto, é conveniente esclarecer que vida interior, vida contemplativa ou vida espiritual são praticamente sinônimos. Não digo “vida religiosa”, porque este termo não é unívoco, e pode significar muitas coisas em muitas situações diferentes. Em geral, a vida religiosa se destina a ser uma vida interior, contemplativa e espiritual, ou seja, uma vida de Fé que é uma vida vivida diante de Deus. Como escrevi no meu livro, para isto descobrimos com o auxílio de Deus e de seus santos a praticar a prece do coração, que é a oração perfeita. A prece corporal, que envolve manifestações como as genuflexões e a expressão vocal, são sinais externos da prece interior. Interiormente, a prece mental mesma ainda é apenas um sinal psíquico que pode corresponder ou não à prece puramente espiritual, que é a prece do coração. Quando se vive diante de Deus independentemente de atos corporais ou de atividade mental, num estado de paz e de alegria por estar diante Dele, aí se começa a compreender o que é a prece do coração.

De certo modo isto se torna uma prática constante e tende a perpetuidade, porque não há comparativamente nada mais maravilhoso do que viver diante de Deus. Mas eu digo tudo isto para ficar claro o quanto essa riqueza espiritual está distante de relações analógicas e representativas da sabedoria divina, ou seja, se até os judeus usaram a Lei mosaica para se afastar e finalmente recusar o próprio Deus na Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quanto mais fácil ainda seria nos afastarmos da santa presença Dele apelando às leituras astrológicas como meios de “entender” a vontade divina.

Em suma: nada substitui a vida de oração. Nada, nada, nada.

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