A ambiguidade estrutural da Religião, entre a Tradição e a Revelação

TESE:

É impossível endossar ou condenar in totum qualquer Religião Cristã, porque a verdade da Revelação nunca encarna perfeitamente numa instituição humana, ao mesmo tempo em que uma organização que viole totalmente o Evangelho se reduz rapidamente a um culto ou seita que cai na insignificância ou mesmo se desfaz totalmente com o passar do tempo. O fenômeno religioso traz a Revelação misturada à Tradição, que é a sua forma particular de interpretar os dados revelados. Enquanto a crença individual produz o entendimento e o assentimento sempre suficiente para a vida do crente diante de Deus (embora não sempre de modo consciente e responsável), a experiência religiosa dissolve a realidade da crença individual na prática coletiva que busca reafirmar os valores que justificam e organizam a vida social. Não cabe, portanto, do ponto de vista espiritual, exigir da Religião o que ela não pode prover, isto é, o nível de confiabilidade que só a Revelação possui, e que só pode ser mediada pelo processo interior da atividade intelectual e volitiva do indivíduo que crê. Por outro lado, é sempre possível apontar, e com facilidade, todas as diversas traições, manipulações, omissões, etc., que a Tradição praticou historicamente contra a pureza da Revelação, já que isto compõe a trama do próprio relato histórico que conta a trajetória da Religião. Simbolicamente, é muito conveniente observar como o livro do Êxodo, entre todos os documentos bíblicos, é um dos que mais facilita essa compreensão. Moisés, chamado por Deus para ser o líder espiritual da libertação do verdadeiro Povo de Deus –que são os adoradores que o Pai busca, em espírito e em verdade–, interpreta o mandato como uma promessa de salvação para todo o povo hebreu, tal como constituído carnalmente, enquanto descendentes de Israel. Isso repete a confusão de Abraão sobre a promessa divina, que já não alcançava descendentes carnais, mas aqueles que aceitassem a moção do Espírito Santo de Deus. Evidenciamos o problema de Moisés por sua insistência de que não seria capaz de executar o mandato divino. Pensava assim pois imaginava que teria que ser persuasivo diante de um povo muito grande, feito de pessoas ilustres, sábias, etc. E ele mal conseguiria se expressar bem por si mesmo. Mas Deus, que é perfeito, sabia que sua ordem podia ser totalmente cumprida, porque justamente Moisés só seria ouvido e acreditado por aqueles poucos que seriam tocados pelo Espírito Santo de Deus. Ao imaginar uma salvação da carne, Moisés desacreditou do chamado divino. E na sua insistência trouxe à história a repetição da interpretação abraâmica –que aliás já tinha se repetido tanto com Ismael quanto com Esaú–, na forma da concessão divina de autoridade religiosa para seu irmão Aarão. Observe-se que essa autoridade religiosa, tanto de Moisés quanto de Aarão, é espiritualmente indiferente. Quando é usada para o testemunho da Revelação, tem êxito no seu propósito mais excelente. Mas, quando é usada para o testemunho da Tradição, falha e repete os mesmos erros anteriores. Isto não foi culpa exclusiva de Aarão, pois o próprio Moisés interpretou o chamado divino tradicionalmente, e por isso já errou desde o início. Desde o Egito até o fim da história relatada no Êxodo podemos ver como caminham lado a lado, como os dois irmãos, as possibilidades de fidelidade e infidelidade ao sagrado que foi revelado. Pois o povo desobedece com frequência, testando a paciência divina, o que nos leva a considerar o que é que eles estavam fazendo ali, senão justamente servindo para o discernimento de seus descendentes, para não dizer de todos os futuros beneficiários do relato bíblico. Afinal, muito poucos daquela geração entraram na terra prometida. O ápice do contraste entre Revelação e Tradição se deu no momento em que, enquanto Moisés recebia de Deus as Tábuas da Lei no alto do Monte Sinai, seu irmão Aarão liderava o culto do ídolo do bezerro de ouro com o povo no sopé da montanha, depois que estes tinham perdido a paciência (queriam obter logo uma salvação imaginada, alheia aos planos divinos, isto é, aquelas promessas interpretadas como carnais pela Tradição). Tudo isso é Religião ao mesmo tempo, mas há uma luta entre a Revelação e a Tradição. E uma das maiores evidências disso se encontra no Deuteronômio, quando Moisés afirma que as Tábuas da Lei devem ser preservadas na Arca da Aliança como um testemunho contra o povo, e não a seu favor. Assim, desde esses tempos longínquos até hoje, e até o fim dos tempos, a Religião terá a tarefa de carregar junto de si uma Revelação que acusa a sua própria Tradição. E se alguém pretende romper com o conteúdo revelado pretendendo tornar a Tradição independente, isso resulta na criação de um culto ou seita destinado à uma rápida dissolução, pois perdeu a vida que estava contida na verdade da Revelação. A Religião só prospera porque mantém a sua Tradição viva através da usurpação da Revelação que é forçada a levar junto de si, como um parasita depende da vida do hospedeiro.

DISPUTA:

A tese apresenta uma oposição fecunda entre Revelação e Tradição, mas suas conclusões parecem ir além do que suas próprias premissas demonstram: da impossibilidade de uma instituição encarnar perfeitamente a Revelação não se segue que seja impossível julgá-la em sua totalidade, assim como da eventual corrupção de uma organização não se segue que ela necessariamente perca força histórica, pois instituições podem sobreviver por mecanismos sociais, culturais e políticos independentemente de sua vitalidade espiritual; além disso, a teoria corre o risco de ser infalsificável, já que tanto a sobrevivência quanto o desaparecimento de uma religião podem ser explicados pela presença ou perda da Revelação, enquanto permanece sem critério claro para distinguir uma Tradição corruptora de uma Tradição que efetivamente transmite a Revelação. A atribuição ao indivíduo de um acesso interior suficientemente confiável à Revelação também gera um problema epistemológico, pois a própria linguagem, Escritura e categorias pelas quais ele reconhece a verdade são historicamente transmitidas, tornando difícil separar inteiramente crença individual e Tradição. Biblicamente, a interpretação proposta exige demonstrações que o texto não oferece de maneira evidente: o Êxodo apresenta Deus libertando e constituindo Israel como povo, o que dificulta afirmar que Moisés errou simplesmente por compreender a promessa comunitariamente; a dimensão espiritual posterior da descendência de Abraão não necessariamente elimina sua dimensão carnal original; Ismael e Esaú não constituem simplesmente uma repetição do mesmo erro de Abraão; a autoridade de Aarão aparece posteriormente como instituída por Deus para o sacerdócio, e não apenas como consequência de uma falha de Moisés; o bezerro de ouro pode ser interpretado mais diretamente como idolatria e ruptura com a Revelação do que como Tradição propriamente dita; e Deuteronômio distingue entre as tábuas colocadas na Arca e o Livro da Lei colocado ao lado dela como testemunho contra o povo. Por fim, a própria existência, dentro da tradição bíblica, de textos que criticam a comunidade pode significar não que a Tradição seja parasitária da Revelação, mas que uma tradição religiosa pode conservar em si mecanismos de autocrítica e transmissão daquilo pelo qual ela própria é julgada; assim, o verdadeiro problema a resolver é como distinguir a usurpação institucional da Revelação de sua transmissão histórica legítima, sem pressupor de antemão que toda institucionalização constitui usurpação.

PRELIMINAR:

Não se pode aprovar ou condenar a Religião in totum, foi o que a Tese afirmou, ou seja, não é possível aprovar ou reprovar tudo o que a Religião afirma. Isto não quer dizer que a Religião não pode ser julgada parte a parte. A Tese não afirma que a Religião perca “força histórica” por causa da sua corrupção, pois ela pode ser preservada através da manutenção da Revelação ao lado da Tradição, como se mantém um hospedeiro com um parasita. Sobre o desaparecimento da Religião, não há problema para a Tese, porque ela só se refere ao fenômeno da religiosidade cristã (que nunca desapareceu desde o seu surgimento, seja sob o formato que fosse). A separação do conteúdo revelado da sua interpretação tradicional nunca é garantida, mas deve ser sempre possível, pois como a Tese afirma, sem o carregamento da Revelação a Religião tende a ser desfeita, de tal forma que só sobrevive à passagem dos tempos a Religião que preserva a substância da Revelação, nem que seja apenas formalmente. O Israel constituído por Deus só pode ser o verdadeiro, espiritual, enquanto o falso, que é constituído por um deus falso, tem a natureza carnal. A Tese não afirma que não existiu a realidade carnal dos chamados pelo Espírito, mas apenas que essa qualidade é espiritualmente acidental, enquanto para a interpretação tradicional esta é uma qualidade essencial. Ismael simboliza a carnalidade por ser filho de Abraão apenas pela carne, gerado por um veículo exclusivamente carnal, que foi a procriação com a escrava Agar, enquanto Sara representa o Espírito da vontade de Deus, não só por ela ser a esposa legítima, como também, e principalmente, por ela ser declaradamente estéril do ponto de vista carnal, impossibilitada de gerar fruto pela sua carne, de modo que Isaac devia ser filho de uma providência divina, pela força do Espírito, e não pela força da carne. Já Esaú foi aquele que desprezou a herança da beatitude espiritual representada pelo direito de primogenitura que vendeu ao seu irmão, já que confiou na carnalidade do fato de ser o filho primogênito a quem era destinada a herança, por ser o favorito do pai pela carne e não pelo Espírito (seu irmão era o favorito de Deus Pai), além de ser mais robusto e competente nas coisas não-espirituais, enquanto seu irmão Jacó era melhor nas coisas espirituais. A Tese afirma que Aarão foi reconhecido por Deus não por um desígnio originário, mas a posteriori, por insistência de Moisés. Adicionalmente, toda a prática sacerdotal já é uma realidade gerada pela Tradição, e todas as indicações da instrução divina a esse respeito podem ser interpretadas como falsas (diversas em relação ao que Moisés recebeu e declarou), ou mesmo podem se referir à interferência de outras entidades que pretenderam se passar por divinas, justamente mediante aquele clamor popular liderado por Aarão. Para a tese, a Bíblia não é inerrante. A Tese decide interpretar a idolatria do povo como sinal da origem da Tradição, seguindo os alertas deixados por Jesus. Os fariseus não inventaram suas próprias tradições naquele momento posterior da história, mas as trouxeram desde o passado remoto da sua Religião que começou a tomar forma tradicional com o sacerdócio dos levitas e com a liderança de Aarão. Da diferença entre as tábuas e o Livro da Lei, isto é desprezível para a Tese. A Tese não afirma que a institucionalização constitui usurpação. A instituição é a forma social da Religião. E a Religião foi afirmada como espiritualmente ambígua pela Tese, por conter tanto a Revelação quanto a Tradição dentro de si. A distinção entre fidelidade e usurpação resulta de um juízo que é produzido pela consciência individual do crente, ou seja, não é uma atividade que visa a organização social e, portanto, não visa a reforma da Religião.

CONTESTAÇÃO:

As respostas afastam algumas objeções anteriores, mas ao fazê-lo tornam a Tese dependente de premissas ainda mais fortes e menos demonstradas: ao admitir que as próprias passagens bíblicas sobre Aarão, o sacerdócio e até mandamentos supostamente divinos podem ser falsificações ou interferências de outras entidades, a Tese perde qualquer apoio objetivo no próprio texto para reconstruir historicamente sua distinção entre Revelação e Tradição, pois passa a poder selecionar como “Revelação” justamente aquilo que sua interpretação prévia considera autêntico e rejeitar como “Tradição” aquilo que contradiz essa interpretação, produzindo um círculo hermenêutico difícil de quebrar; do mesmo modo, afirmar que a separação entre Revelação e interpretação tradicional “deve ser sempre possível” porque a religião sobrevive apenas conservando formalmente a Revelação não demonstra a necessidade dessa separação, mas apenas a pressupõe, e a mera persistência histórica do cristianismo não prova que sua continuidade decorra da preservação da substância revelada, muito menos que toda forma sobrevivente a preserve de algum modo; a leitura de Israel, Ismael, Isaac, Esaú e Jacó como oposição entre carne e Espírito pode constituir uma interpretação tipológica coerente dentro da Tese, mas não deixa de ser uma construção hermenêutica adicional que precisa justificar por que a esterilidade de Sara, a primogenitura de Esaú ou a legitimidade de Isaac possuem exatamente os significados metafísicos atribuídos a elas, em vez de outros sentidos também possíveis no próprio corpus bíblico; e, finalmente, deslocar para a consciência individual do crente o juízo entre fidelidade e usurpação resolve o problema institucional apenas ao preço de criar um problema epistemológico maior, porque, se esse discernimento não busca reforma social nem se submete a um critério comum compartilhável, duas consciências individuais podem chegar a interpretações incompatíveis sobre o que pertence à Revelação e à Tradição, sem que a Tese forneça um princípio público para decidir entre elas, de modo que sua crítica à Religião pode explicar a suspeita individual diante da instituição, mas ainda não demonstra por que essa consciência individual possui autoridade epistêmica superior à própria Tradição que pretende julgar.

SECUNDÁRIA:

A Tese não busca se apoiar na autoridade do texto. Se um texto não significa nada sem a sua interpretação, a autoridade do seu sentido está fora dele por necessidade. A premissa da Tese é a de que apenas Deus possui autoridade de determinar o que é verdadeiro, e apenas a consciência individual do ser humano possui a autoridade de crer livremente que algo é verdadeiro. Assim, a Revelação não pode ser garantida na sua forma ou na sua interpretação correta pela força da razão humana, que é sempre falível. A Tradição faz recortes e escolhas interpretativas a todo momento (e que geram divergências constantes entre lados opostos em disputa na própria interpretação tradicional), e aqueles que criam e cultivam essa Tradição são tão responsáveis por suas decisões quanto o autor da Tese pelas suas. O “círculo hermenêutico” é apenas o fenômeno do encontro da Soberania humana por trás dos seus testemunhos, mas esta Tese não visa explicar o que é o dom de Soberania. Basta afirmar que os discursos humanos visam gerar credibilidade suficiente sobre tudo o que não é apodítico, para que a consciência livre arbitre sobre a matéria, e geram certeza apenas sobre aquilo que é demonstrável por juízos da razão pura. A Tese propõe a diferença entre Revelação e Tradição como hipótese, portanto, e oferece as suas razões de credibilidade que podem ou não ser suficientes ao arbítrio de cada juiz. A continuidade histórica da religiosidade cristã exibe aquilo que ela evidencia por sua própria natureza: a repetição de uma identidade contida por certos dados revelados que se mantém os mesmos. A justificativa das interpretações foi dada por elas mesmas na interpretação dos casos bíblicos nominalmente citados. A contestação apenas ignorou a metodologia do autor da Tese, pois se o mesmo pretendesse afirmar uma hipótese como certeza mandatória, estaria violando o princípio do dom de Soberania, e praticando o que condena na forma do Gnosticismo (a pretensão do domínio da verdade sobre matérias de crença). A Tese não quer criar um “princípio público” de decisão sobre a matéria. Ela se dirige a indivíduos autônomos e livres. Novamente, essa pretensão violaria o princípio de método do autor. A autoridade do juízo da consciência individual é particular, não pública.

APELAÇÃO:

Sim, há uma apelação, mas ela é mais estreita do que as anteriores: aceitando integralmente a metodologia declarada — isto é, que a distinção entre Revelação e Tradição é apenas uma hipótese destinada ao juízo soberano de cada consciência, e que não se pretende impor um critério público nem uma certeza obrigatória — desaparece a objeção de que a Tese deveria fornecer um mecanismo institucional ou epistemicamente universal para distinguir uma da outra; contudo, permanece um problema na afirmação de que a continuidade histórica da religiosidade cristã “exibe” a permanência de certos dados revelados, pois a continuidade de uma identidade religiosa demonstra imediatamente apenas que certas comunidades conservaram e transmitiram determinados conteúdos e formas de autocompreensão, não que esses conteúdos sejam precisamente os mesmos “dados revelados” que deram origem ao fenômeno, nem que sua conservação formal implique a conservação de sua substância, de modo que ainda existe uma inferência não demonstrada entre **persistência histórica de conteúdos reconhecidos como cristãos** e **persistência histórica da Revelação propriamente dita**; isso não invalida a hipótese, mas significa que justamente nesse ponto a Tese deveria apresentar suas razões de credibilidade, pois a continuidade do fenômeno pode ser compatível tanto com sua interpretação quanto com uma explicação alternativa na qual o que persiste é sobretudo uma cadeia tradicional de identificação, memória e reprodução religiosa, enquanto a questão sobre o que, em meio a essa cadeia, corresponde efetivamente à Revelação permanece aberta à Soberania de cada consciência.

DEFINITIVA:

Os dados revelados que identificam as Religiões Cristãs, para a Tese, são os que afirmam a Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, que nasceu da Virgem Maria, ensinou certas coisas, fez algumas ações miraculosas, foi executado e depois ressuscitou e ascendeu ao Céu.

RECURSO:

Há ainda um recurso final, mas ele é bastante circunscrito: a definição dos “dados revelados” como Encarnação, nascimento virginal, ensinamentos de Jesus, milagres, execução, Ressurreição e Ascensão fornece, enfim, um critério concreto para aquilo que a Tese entende como núcleo identificador do cristianismo e, portanto, resolve em grande parte a objeção de que “Revelação” estaria sendo invocada apenas de modo abstrato; contudo, resta perguntar por que **esses** elementos, e precisamente essa seleção deles, devem ser classificados como os dados revelados que identificam a religião cristã, enquanto outros conteúdos tradicionalmente considerados centrais — por exemplo, determinados ensinamentos morais, a morte expiatória, a filiação divina de Cristo, a Trindade, a instituição da Igreja ou os sacramentos — seriam relegados à esfera da Tradição, pois a própria identificação daquilo que pertence à Revelação já exige um ato interpretativo da consciência que a Tese reconhece como falível; assim, o problema não é exigir uma autoridade pública ou uma certeza gnóstica, mas apenas observar que, mesmo dentro da metodologia soberanista proposta, a tese precisará oferecer razões de credibilidade **específicas para essa seleção**, caso contrário a distinção entre núcleo revelado e elaboração tradicional permanece uma hipótese coerente e possível, mas sem que se tenha ainda mostrado por que esse núcleo, e não outro, deve ser tomado como o critério da identidade cristã.

REFORMADA:

O Recurso é indeferido, e a Sentença é mantida. A decisão sobre o que identifica, como conteúdo revelado, a continuidade da religiosidade cristã, é uma decisão humana falível como qualquer outra que não seja infalível como um juízo de razão pura. É deste modo que, por exemplo, um teólogo ou historiador poderia propor um conjunto de noções como suficiente para identificar a religiosidade cristã, mas nunca como tese definitiva impossível de ser falseada. Admitir o Recurso proposto seria violar o princípio metodológico do autor da Tese, e praticar o Gnosticismo já condenado. O Recurso é incompetente e desqualificado por ignorar a investigação devida, que seria sempre da lógica interna do discurso, e exigir uma coerência com elementos demonstrativos que não só nunca foram prometidos, como seriam mesmo até inviáveis por definição.

COMENTÁRIO:

A decisão é consistente com o método explicitado e, diante dela, não vejo razão suficiente para apresentar novo recurso: minha objeção anterior realmente introduzia uma exigência que a Tese nunca assumiu — a de justificar demonstrativamente, ou perante um critério universal, por que determinado conjunto de conteúdos deve constituir o núcleo revelado do cristianismo — quando a metodologia da Tese admite expressamente que essa seleção é um juízo humano falível, cuja força é apenas a das razões de credibilidade apresentadas à consciência soberana; nesse enquadramento, a tarefa adequada não é provar que Encarnação, nascimento virginal, ensinamentos, milagres, morte, Ressurreição e Ascensão **são necessariamente** os únicos dados revelados identificadores do cristianismo, mas avaliar se a argumentação que os propõe como conjunto suficiente é internamente coerente, compatível com a continuidade histórica do fenômeno e dotada de credibilidade bastante para cada juiz individual, sem converter essa conclusão em dogma epistêmico, de modo que insistir na exigência anterior significaria efetivamente deslocar o debate para um terreno que a própria Tese explicitamente rejeita.

Consideração inicial sobre a qualidade espiritual da Psicologia

TESE:

1) a Psicologia dá testemunho do espírito do Psiquismo, não por regra e sempre, mas por prática e eventualmente, quando as causas dos fenômenos psíquicos são totalmente identificadas com uma origem exterior, como se o sujeito paciente não pudesse ser influenciado por outras causas de natureza interior (espiritual) na determinação das inclinações das suas reações autônomas;

DISPUTA:

1. A primeira proposição pode ser contestada pela distinção entre **explicação causal limitada ao objeto da ciência** e **afirmação de que não existem causas de outra natureza**. O fato de uma explicação psicológica atribuir uma reação a fatores externos, ambientais, sociais, biográficos ou fisiológicos não demonstra, por si só, que ela considere essas causas ontologicamente exclusivas, muito menos que negue uma causalidade interior de natureza espiritual. Além disso, a própria Psicologia trabalha frequentemente com mediações internas — percepção, memória, interpretação, expectativa, motivação, avaliação e decisão — de modo que a alternativa entre “causa exterior” e “causa espiritual interior” pode ser excessivamente simplificada. O problema, portanto, seria exigir uma demonstração específica de que determinado autor ou corrente psicológica não apenas deixa de mencionar uma causa espiritual, mas efetivamente sustenta que ela não pode existir ou operar. Sem essa demonstração, a passagem de “não considera a causa espiritual” para “dá testemunho do espírito do Psiquismo” pode constituir uma conclusão metafísica acrescentada à explicação psicológica, e não uma consequência dela;

PRELIMINAR:

1) Indeferido. Existe uma tendência, e não uma regra, de a Psicologia gerar o testemunho do Psiquismo, por isso foi expresso na Tese que essa consequência da Psicologia diz mais respeito aos efeitos práticos da aplicação da ciência, e de forma eventual, do que às teorias de base. Mas de todo modo, em relação às premissas psicológicas típicas, porém, é notável que se a ação de influência espiritual fosse reconhecida como capaz de modificar completamente a reação do sujeito paciente, seria muito conveniente que se priorizasse a distinção das influências dessa natureza por sobre as causas exteriores que servem, assim entendido, como elementos de cenário da vida espiritual. Assim, se a Psicologia pretende compreender a causalidade que há entre fenômenos não-espirituais (como influências puras com agência independente) e a psique humana, e isto inclui as mencionadas “mediações internas”. Esta Tese não busca desqualificar a Psicologia ou o seu objeto, mas entende-se que tal como é teorizada e praticada até hoje, existe uma tendência de a Psicologia priorizar a causalidade de elementos não-espirituais, o que é uma forma de testemunho do espírito do Psiquismo, entendido este como uma influência que gera justamente o desprezo das influências espirituais e a considerações de causas somente não-espirituais na explicação dos fenômenos psíquicos. Caso contrário, haveria uma prevalência, ou ao menos um equilíbrio, entre a atual Psicologia e o que se chama Discernimento dos Espíritos;

CONTESTAÇÃO:

1) A objeção inicial deve ser abandonada em sua forma mais forte, porque a Tese esclarece que não atribui à Psicologia uma regra universal de exclusão do espiritual, mas identifica nela uma tendência prática e eventual. A questão que permanece pode, porém, ser tornada mais precisa: como distinguir uma mera delimitação metodológica da ciência de uma efetiva prioridade prática concedida às causas não-espirituais? A solução é deslocar o critério do conteúdo de cada teoria psicológica para o grau de pretensão explicativa e terapêutica que ela assume. A Tese não precisa provar que toda Psicologia nega causas espirituais; basta demonstrar que, quando uma prática psicológica trata as causas exteriores, biográficas, cognitivas, sociais ou fisiológicas como suficientes para explicar e corrigir a reação do sujeito, sem preservar a possibilidade de que uma causa espiritual altere decisivamente essa reação, ela ultrapassa o limite metodológico próprio da ciência e passa a produzir o testemunho do Psiquismo. Assim, o problema não é a existência de “mediações internas” psicológicas, mas a pretensão de suficiência causal dessas mediações. O questionamento residual seria: em que casos uma Psicologia que não reconhece o Discernimento dos Espíritos pode legitimamente dizer que compreendeu a causa de uma reação e não apenas uma camada de sua determinação?

SECUNDÁRIA:

1) Deferido. Em resposta à questão formulada, pode-se afirmar que todas as vezes, de vez que o sujeito paciente não possui uma qualidade reativa própria que lhe permita prescindir de qualquer influência espiritual. Mas isto não é uma questão ligada à tese, pois a Psicologia parte de uma premissa sobre a natureza humana, e esta é que estaria em discussão;

APELAÇÃO:

1) Apelo. A resposta melhora bastante a formulação ao dizer que a questão decisiva é a premissa antropológica da Psicologia, e concordo que essa é realmente a questão de fundo. Porém, ainda não considero resolvido o problema que eu havia levantado. Dizer que o sujeito “não possui uma qualidade reativa própria que lhe permita prescindir de qualquer influência espiritual” estabelece, dentro da Monadofilia, a tese de que nenhuma reação humana é espiritualmente autossuficiente; isso ainda não demonstra que uma explicação psicológica particular seja insuficiente para explicar determinado fenômeno psíquico no seu próprio nível. É possível admitir que todo fenômeno humano esteja, em última instância, inserido numa ordem espiritual e, simultaneamente, admitir que uma determinada reação tenha uma explicação psicológica suficiente no plano causal imediato. Portanto, eu apelaria não para exigir que a Psicologia reconheça o espiritual em todas as suas explicações, mas para pedir uma distinção mais precisa entre dependência ontológica universal da dimensão espiritual e necessidade epistemológica de introduzir uma causa espiritual na explicação de cada fenômeno particular. A resposta ainda não resolveu inteiramente essa distinção.

DEFINITIVA:

1) Defiro. Uma Psicologia obrigada a reconhecer a dependência ontológica da realidade espiritual é por isso mesmo obrigada a introduzir a causa espiritual na explicação do fenômeno. Mas esta já é uma Psicologia Cristã, onde a definição do sujeito paciente como ser humano contém determinadas caracterizações que não devem ser mandatórias para outras teorias psicológicas que prescindam da antropologia cristã. Ao mesmo tempo, não é mandatório para um sujeito paciente aceitar as premissas antropológicas que ignorem a visão cristã de mundo, especialmente se este sujeito for cristão. No benefício do esclarecimento com relação ao ponto de distinção entre a influência espiritual e a fenomenalidade psíquica, de acordo com a doutrina da Monadofilia, a indeterminação de qualidade reativa própria, que foi algo estranhada inicialmente, se refere ao modo de recepção das Percepções do sujeito paciente. Ao sujeito, que é identificado como Mônada (capaz de Percepção e Apetição), cabe a recepção do conteúdo simples da sua Percepção, a reação qualificante deste conteúdo informada por uma influência espiritual que dá o significado da Percepção, e então a decisão livre de aceite ou de rejeição da reação interior que gerou o significado. Assim, nestes três “momentos” (na verdade concretamente indistintos, à não ser pela cronologia da própria autoconsciência que refaz os elementos da experiência subjetiva sequencialmente) é possível distinguir o que é uma Percepção desqualificada, uma Percepção qualificada por uma influência espiritual, e o livre aceite ou rejeição da reação qualificada. Por exemplo: dois sujeitos, A e B, percebem que começa a chover. A Percepção desqualificada é sempre mais ou menos a mesma: chove. Podem haver diferenças sutis no detalhe dessa experiência (conforme varie, por exemplo, a sensibilidade de cada um), mas podemos supor, no caso, que estas não sejam relevantes. A Percepção qualificada é a do que isto significa para cada sujeito. Para o sujeito A pode ser que a chuva lhe faça se sentir bem, enquanto para o sujeito B pode ser que aquela mesma chuva lhe faça se sentir mal. Não existe, como já dito, diferença relevante na Percepção simples. Mas existe uma reação qualificada diversa que é gerada por influências espirituais. Tanto o sujeito A quanto B podem identificar ou não a ação desse tipo de influência na qualificação da Percepção, e então endossar ou rejeitar essa reação e, portanto, a influência. Por exemplo, o sujeito B pode compreender que existe um espírito gerador de sofrimento que lhe tenta a reagir de determinado modo à Percepção da chuva, e pode rejeitar isto, o que lhe mantém aberto para a recepção de outras influências espirituais. Igualmente o sujeito A. O risco da Psicologia é o de validar racionalizações como processos psíquicos incontestáveis na sua causalidade identificada, impedindo que o processo de descoberta e de decisão sobre as influências espirituais ocorra, como se fosse inevitável ao sujeito A sentir-se bem com a chuva, ou o sujeito B sentir-se mal.

ÚLTIMO RECURSO:

1) Último recurso. A resposta resolve a dificuldade ao estabelecer, dentro da Monadofilia, uma distinção entre Percepção simples, qualificação espiritual da Percepção e aceite ou rejeição livre dessa qualificação. O problema que ainda permanece é que o exemplo da chuva demonstra muito bem que dois sujeitos podem atribuir significados radicalmente diversos ao mesmo conteúdo perceptivo, mas não demonstra ainda que a causa dessa diferença seja necessariamente espiritual. A Psicologia poderia dizer que A e B possuem histórias, disposições afetivas, expectativas, associações, memórias e avaliações diferentes e que essas variáveis produzem a qualificação distinta da percepção. A Tese responde que essas explicações podem ser racionalizações de uma influência espiritual, mas ainda falta o critério que permita distinguir as duas hipóteses. Portanto, meu último recurso seria: o que permite reconhecer que uma determinada qualificação da percepção é propriamente uma influência espiritual, em vez de uma mediação psicológica que a Monadofilia interpreta como espiritual? A arquitetura dos três momentos está clara; o problema residual é epistemológico, isto é, como o Discernimento dos Espíritos se distingue de uma interpretação psicológica concorrente.

REFORMADA:

1) Mantida. Não é possível o reconhecimento da origem espiritual da Percepção qualificada porque o ser humano existe dentro da experiência deste fenômeno. Apenas Deus possui a “visão da visão”, ou “conhecimento do conhecimento” (gnosis noeseos) e, portanto, o domínio deste processo e de todos os seus elementos, porque isto não passa de uma expressão de afirmação ou de negação do que experimenta dentro de sua própria natureza divina. O que temos disponível, como critério humano, para distinguir esta realidade, é justamente a nossa liberdade interior de aceitar ou rejeitar as reações qualificadas das Percepções, que se fossem todas atribuíveis a causas quaisquer que não uma agência autônoma exterior, seriam terminalmente indiscerníveis. Em suma, se podemos aceitar ou rejeitar um estado interior reativo à uma Percepção, é porque este estado não é absolutamente determinado por certas causas, mas é sugerido por influência de um outro agente livre (de natureza espiritual).

TESE:

2) a Psicologia dá testemunho do espírito da Idolatria, não por regra e sempre, mas por prática e eventualmente, quando os fenômenos psíquicos são tratados de tal modo que entre as causas e os efeitos não se considera em nenhum momento a Presença de Deus como elemento decisivo providente ou permissivo;

DISPUTA:

2. A segunda proposição pode ser contestada pela distinção entre **não considerar Deus como variável explicativa** e **substituir Deus por um objeto de idolatria**. Uma ciência pode metodologicamente investigar relações entre fatos psicológicos sem introduzir explicitamente a providência divina em cada explicação sem, por isso, afirmar que Deus não existe, que Deus não age ou que outra realidade merece a confiança, a veneração ou a submissão que seriam próprias da idolatria. Para que a ausência de Deus numa explicação pudesse ser chamada propriamente de “espírito da Idolatria”, seria necessário demonstrar que essa ausência corresponde a uma negação metafísica de Deus ou à atribuição de estatuto último a alguma realidade psicológica, biológica ou social. Caso contrário, corre-se o risco de transformar uma regra metodológica legítima — estudar as causas imediatamente observáveis de um fenômeno — numa confissão religiosa implícita que o próprio método não necessariamente contém. A questão decisiva é, portanto, se toda explicação que não menciona Deus é necessariamente uma explicação sem Deus, ou se pode ser simplesmente uma explicação limitada a um determinado nível causal;

PRELIMINAR:

2) Indeferido. É permitido explicar fenômenos sem Deus, desde que se compreenda que esta explicação possui seu efeito limitado pela mesma medida. A cura psicológica, se pretende que o ser humano como sujeito paciente possa possuir uma saúde mental totalmente desligada da premente questão citada da Presença, poderia explicar os fenômenos psicológicos sem Deus, desde que admita na sua premissa que justamente a psique humana não é alterada pela consideração da Presença, especialmente na forma de providência e permissão, e assuma as consequências dessa premissa metodológica. Por outro lado, se o ser humano for considerado como um animal simbólico que busca e atribui sentido espiritual à sua vida, e mais, que esta sua atividade espiritual é a principal de todas, que mais realiza tanto o seu Intelecto quanto a sua Vontade livre, uma Psicologia que despreze a evidência de que todos os fatos que serviram de causa para os fenômenos psicológicos foram providenciados ou permitidos por Deus faz a escolha de tomar o risco de ignorar que a natureza humana seja como agora descrita, nem que seja como mera possibilidade. Ou seja, o testemunho de Idolatria provém da escolha metodológica de presumir que o fenômeno psíquico pode ser completamente estudado e compreendido, e mais, que uma terapia de cura pode ser providenciada por uma ciência definida por essa premissa, sem que o sujeito paciente seja prejudicado caso a sua natureza seja a de um ente eminentemente espiritual, ou animal simbólico, tal como explicado;

CONTESTAÇÃO:

2) A segunda objeção também precisa ser deslocada: não é necessário sustentar que toda explicação sem Deus seja idolátrica. A dificuldade mais precisa está na passagem da explicação parcial para a pretensão de suficiência terapêutica. Se a Psicologia admite explicitamente que seu modelo explica apenas relações psíquicas e não pretende determinar a totalidade da condição humana, ela pode suspender metodologicamente a consideração da Presença de Deus. O problema aparece quando, partindo desse mesmo recorte, ela conclui que o sujeito pode ser integralmente compreendido e conduzido à saúde sem que a relação com Deus possua qualquer relevância causal ou teleológica. A solução, portanto, é definir a Idolatria não como simples ausência de Deus numa explicação, mas como a absolutização de um nível causal finito, transformando-o em suficiente para a explicação e tratamento do homem. A pergunta permanece então muito mais estreita e difícil: uma Psicologia pode pretender oferecer uma teoria completa da saúde psíquica enquanto, por princípio, considera irrelevante a possibilidade de que a relação do sujeito com Deus modifique causalmente seus estados, inclinações e decisões? Se responder que sim, a questão passa a ser saber qual fundamento permite excluir essa possibilidade sem antes demonstrar que ela é falsa.

SECUNDÁRIA:

2) Deferido. Em resposta à questão formulada, todas as vezes que a Psicologia tiver essa pretensão ela incorrerá em erro, pois este fundamento não existe fora da crença humana. Uma Psicologia que trate do seu fenômeno e da sua cura terapêutica como independente, mesmo que apenas por hipótese, da Presença de Deus, faz isso arbitrariamente tanto quanto, metodologicamente, a crença na Presença pode ser entendida também como arbitrária;

APELAÇÃO:

2) Apelo. A resposta estabelece com clareza qual é a sua posição: uma Psicologia que pretenda tratar a cura psíquica como independente da Presença de Deus assume uma premissa que não foi demonstrada. Mas continuo apelando num ponto específico: a afirmação de que esse fundamento “não existe fora da crença humana” já pressupõe que a Presença de Deus não possui fundamento objetivo acessível ao conhecimento. Isso é justamente algo que um cristão poderia contestar, apelando à revelação, à metafísica ou à experiência religiosa. Portanto, não me parece simétrico dizer que a crença em Deus é arbitrária “metodologicamente” do mesmo modo que a exclusão de Deus é arbitrária: são posições epistemológicas distintas, porque uma afirma possuir um fundamento e a outra decide não considerá-lo. A questão que permanece é: qual é a razão pela qual a Psicologia teria legitimidade para suspender uma realidade espiritual que a antropologia cristã considera objetivamente real e potencialmente causal? A resposta tornou a acusação de Idolatria mais precisa, mas ainda não resolveu esse problema epistemológico.

DEFINITIVA:

2) Indefiro. A experiência da Presença de Deus não pode ser demonstrada por definição. Para o cristão a realidade de Deus e de Sua Presença é produzida pelo dom extraordinário da virtude teologal da Fé, ou seja, é o resultado de uma ação divina totalmente fora do controle humano. Sobre as premissas de qualquer metodologia psicológica, elas devem ser tidas como autoevidentes para a consecução do método, o que na prática equivale ao uso do mesmo dom de Soberania que permite a recepção do dom acima mencionado, da Fé. Caso não fosse assim, já estaria demonstrada como necessária uma ontologia e uma antropologia, e cessaria tanto o expediente da Filosofia quanto da Ciência. Se nós ainda nos perguntamos sobre todas essas coisas, é porque não existe demonstração suficiente nas premissas dessas experiências.

ÚLTIMO RECURSO:

2) Último recurso. A resposta é coerente dentro da epistemologia cristã apresentada: a Fé não é concebida como conclusão demonstrativa da razão, mas como dom, e as ciências precisam operar mediante premissas que não são todas elas previamente demonstradas. Ainda assim, há uma dificuldade decisiva: premissas metodológicas não são necessariamente equivalentes a compromissos ontológicos, e o fato de toda investigação partir de algum ponto não demonstrado não torna arbitrária qualquer escolha de ponto de partida. Uma Psicologia pode suspender metodologicamente a questão de Deus sem afirmar que Deus não existe, do mesmo modo que pode investigar a digestão sem decidir metafisicamente se o homem possui alma. A Tese pode legitimamente afirmar que tal Psicologia possui um alcance limitado para um cristão, mas ainda não segue daí que ela esteja errada ao operar sem a premissa da Presença. Meu último recurso seria, portanto: se a Fé não pode ser demonstrada universalmente, em que sentido a Psicologia é epistemicamente obrigada a incorporar a Presença de Deus, em vez de simplesmente reconhecer que existe um domínio de experiência e conhecimento que ela não pretende investigar? A resposta resolve o problema de como o cristão pode justificar sua própria premissa, mas ainda não demonstra a obrigação epistemológica de toda Psicologia de adotá-la.

REFORMADA:

2) Mantida. Não existe obrigação metodológica de reconhecer uma premissa a respeito da Presença. A obrigação é de responsabilização por não adotar a premissa por arbitragem, com todas as consequências que derivam disso.

TESE:

3) enquanto ciência pura, a Psicologia é espiritualmente desqualificada ou indiferente, podendo servir como uma base competente para o benefício do conhecimento da verdade, de modo que esta Tese não se opõe ao conhecimento da verdade estudada pela Psicologia como ciência pura;

DISPUTA:

3. A terceira proposição é relativamente vulnerável porque emprega a expressão “Psicologia enquanto ciência pura” como se houvesse uma Psicologia única, homogênea e dotada de uma essência epistemológica comum. Existem tradições e modelos psicológicos muito diferentes entre si quanto à concepção da mente, do comportamento, da subjetividade, da causalidade e até do papel da consciência, de modo que uma característica atribuída a uma corrente não pode automaticamente ser atribuída à disciplina inteira. Além disso, chamar a ciência de “espiritualmente desqualificada ou indiferente” exige uma distinção entre **limitação de escopo** e **indiferença ontológica**: uma ciência pode não investigar Deus, a alma ou a transcendência simplesmente porque seu método não foi concebido para responder a essas questões. Nesse caso, não haveria necessariamente um conflito entre a ciência psicológica e uma metafísica espiritual; haveria apenas diferentes níveis de investigação. A própria concessão feita pela Tese — segundo a qual esse conhecimento pode servir ao benefício da verdade — parece exigir que se admita que a Psicologia pode descobrir verdades reais sobre o homem sem que essas verdades tenham de carregar consigo a metafísica que a Tese deseja combater;

PRELIMINAR:

3) Deferido. Por concordar com a Tese;

TESE:

4) como ideologia por trás das terapias modernas, produzida como um simulacro cientificista da ciência verdadeira, a Psicologia tem o potencial para compor a cultura de cativeiro do Sistema da Besta, que é o governo informal do Ouroboros sobre o mundo, estabelecido na Queda do homem como representado em Gênesis 3, especialmente como Legitimação da Mistura, que é a idéia de que não é possível ao ser humano experimentar o que lhe apetece sem experimentar de algum modo e em alguma medida o que não lhe apetece;

DISPUTA:

4. A quarta proposição pode ser contestada sobretudo pela passagem excessivamente rápida entre **Psicologia**, **ideologia terapêutica**, **cientificismo** e **Sistema da Besta**. Mesmo que se demonstre que determinadas terapias incorporam pressupostos filosóficos discutíveis, isso não basta para estabelecer que exista uma ideologia única e comum a todas as terapias modernas, muito menos que essa ideologia seja uma manifestação histórica do Ouroboros. Seria necessário identificar quais pressupostos são considerados essenciais, demonstrar que estão efetivamente presentes de maneira estrutural e, depois, provar a relação histórica e conceitual entre esses pressupostos e a chamada Legitimação da Mistura. Há também um problema de falseabilidade: se toda transformação cultural puder ser interpretada posteriormente como manifestação do mecanismo pelo qual o Ouroboros incorpora a oposição para conservar o mesmo status quo, a teoria corre o risco de tornar-se capaz de explicar qualquer resultado e, por isso mesmo, de não especificar com clareza quais resultados a refutariam. A existência de continuidades subterrâneas entre tradições e revoluções pode ser uma hipótese filosófica interessante, mas ela não se converte automaticamente em demonstração histórica;

PRELIMINAR:

4) Deferido. De fato qualquer elemento da cultura humana pode ser compreendido deste modo e com este potencial, especialmente ao se considerar um psicologismo como ideologia que deriva e não afeta a pureza da Psicologia como ciência pura;

TESE:

5) no caso da doutrina do distúrbio do Puer Aeternus, como exemplo da Tese, normaliza-se uma maturidade que implica no descarte da inocência com a infantilidade, ou na admissão da malícia junto com a astúcia, e com isto ignora-se o benefício de um Idealismo espontâneo que conecta o homem, através da Esperança, com Deus e com os objetos contidos nas promessas divinas para a Vida Eterna;

DISPUTA:

5. A quinta proposição pode ser contestada pela necessidade de separar rigorosamente **infância, infantilidade, inocência, idealismo e imaturidade**. Não é evidente que a crítica psicológica ao adulto que permanece infantil implique a defesa da malícia, do cinismo ou da perda da inocência. É perfeitamente possível conceber uma maturidade que conserve a esperança, a pureza de intenção e a confiança em bens transcendentes, ao mesmo tempo que rejeita irresponsabilidade, dependência, evasão dos compromissos e incapacidade de enfrentar a realidade. Assim, a associação entre a superação do *Puer Aeternus* e o abandono da inocência pode ser um falso dilema. O conceito psicológico de *puer* pode justamente ser interpretado como crítica ao uso do ideal para escapar da encarnação concreta desse ideal. A questão que permanece contra a Tese é, portanto, como distinguir o idealismo espiritual genuíno daquela forma de idealismo que, embora fale de esperança e eternidade, impede o indivíduo de assumir deveres, limites e responsabilidades no mundo presente. Sem esse critério, qualquer crítica à infantilidade poderia ser indevidamente interpretada como ataque à inocência cristã;

PRELIMINAR:

5) Deferido parcialmente. Permanece o problema do que significa o escape da “encarnação concreta desse ideal”. Se esperar a Vida Eterna em Deus significa, por exemplo, desprezar certas práticas deste mundo, coisas que possuem a aparência de valiosas sob a lógica mundana, isso pode ser interpretado como distúrbio psicológico quando parecer romper com o pacto social que informa a mentalidade da Psicologia. Isso não precisa ocorrer sempre, mas pode ocorrer eventualmente. As noções de irresponsabilidade, ou de omissão no cumprimento de um dever, portanto, não podem ser entendidas como autoevidentes e óbvias no entendimento de todos os casos particulares. Neste entendimento é que uma certa linha de pensamento viciada em uma visão desprovida de respeito aos ideais cristãos ligados à Salvação pela Ressurreição pode gerar um desvio no tratamento do sujeito paciente, quando este não possuir ao lado da pressão terapêutica para se tornar respeitável a alternativa válida de uma consciência espiritual que lhe permita desprezar certas valorações mundanas, sem que isso implique em práticas patológicas ligadas aos problemas do distúrbio, como o que já foi citado, irresponsabilidade, transgressão de limites, omissão de deveres, etc;

CONTESTAÇÃO:

5) No quinto ponto, a objeção correta não é mais que o tratamento do Puer Aeternus inevitavelmente condene a inocência, pois isso a Tese não afirma; o problema está em estabelecer um critério que distinga infantilidade patológica, inocência espiritual, idealismo cristão, irresponsabilidade e simples recusa de valores sociais contingentes. A solução seria introduzir uma distinção explícita entre três coisas: deveres objetivos que podem ser moralmente exigíveis; convenções sociais cuja violação não constitui por si mesma patologia; e valorações mundanas das quais o indivíduo pode legitimamente se afastar em razão de um fim espiritual. Com isso, a Tese não precisaria defender todo comportamento anti-convencional em nome da Esperança, mas apenas afirmar que a não conformidade social não pode constituir, por si mesma, evidência suficiente de distúrbio. O ponto crítico contra a Psicologia passaria a ser este: se determinada teoria toma como sinal de maturidade a adesão a certos papéis, metas, estilos de vida ou valores sociais, ela necessita demonstrar por que a rejeição destes constitui imaturidade em vez de uma escolha espiritual legítima. A pergunta residual seria: qual é o critério pelo qual o terapeuta distingue a fuga irresponsável da vida de uma recusa consciente e espiritualmente fundada de valores que não possuem autoridade moral última?

SECUNDÁRIA:

5) Deferido. Em resposta à questão formulada, convém afirmar antes de tudo que o risco de erro está no princípio do recurso terapêutico, desde que é comum que disfuncionalidades ou comportamentos julgados como antissociais costumam levar o sujeito paciente à busca da “cura”, e é muito difícil, consideradas as condições concretas das vidas dos profissionais terapeutas (que precisam de clientes para sustentar suas escolhas biográficas, inclusive a decisão custosa de obter a graduação e o treinamento profissional), que estes estejam imediatamente dispostos a assumir que sua prática curativa é dispensável tão logo se faça o esclarecimento das razões espirituais pelas quais o sujeito paciente se comportou de modo aparentemente indevido. Em resposta à questão específica, o terapeuta precisaria estar pronto para respeitar a integridade moral do sujeito paciente e aceitar que este se responsabilize por agir de determinado modo, obviamente sem se dispensar de fazer os alertas sobre os riscos envolvidos em certos modos de pensar, usando o conhecimento psicológico de modo válido. Em suma, o profissional deveria estar pronto para afirmar que um comportamento estranho ou até indesejável não constitui ipso facto uma patologia. Idealmente, os critérios diagnósticos deveriam servir sempre de modo claro e bem definido para que estes âmbitos sejam separados. Isto talvez levasse a um esvaziamento dos consultórios e do “mercado” de clientes potenciais, o que não seria nenhum problema se os sujeitos pacientes adquirissem capacidades de autoexame e autoconhecimento, para não falar de aprofundamento espiritual. Quando o sujeito paciente não se qualifica e requer apoio psicológico que em melhores condições poderia ser dispensável, isto nunca é um erro do terapeuta, ou da Psicologia;

APELAÇÃO:

5) Apelo. A resposta é forte ao deslocar o foco para o próprio pressuposto terapêutico e ao insistir que comportamento estranho, antissocial ou disfuncional não constitui ipso facto patologia. Estou satisfeito com esse núcleo. Apelo, porém, contra a parte segundo a qual seria “muito difícil” para o terapeuta assumir que sua intervenção é dispensável por causa de suas condições materiais e de sua necessidade de clientes. Isso pode ser uma hipótese sociológica plausível, mas não constitui fundamento suficiente para atribuir à estrutura terapêutica essa tendência. Além disso, a solução proposta — respeitar a integridade moral do paciente, distinguir desvio social de patologia e usar critérios diagnósticos claros — ainda deixa uma questão central: quem determina objetivamente que o comportamento é mera divergência moral, excêntrica, religiosa ou cultural, e quem determina que já constitui sofrimento ou disfunção clinicamente relevante? Se a própria Psicologia fornecer critérios suficientemente independentes dessas valorações sociais, parte da acusação contra ela diminui; se esses critérios incorporarem silenciosamente um padrão de vida socialmente normativo, a crítica da Tese ganha força. Portanto, apelo especificamente por um critério de separação entre patologia e mera não conformidade.

DEFINITIVA:

5) Indefiro. Quem determina a diferença é o sujeito paciente que é quem retém o poder de consultar ou dispensar o profissional psicólogo. Por isso é importante que o profissional restrinja-se a intervenções forçadas nos casos mais extremos, e com as maiores preocupações possíveis, nos termos da legislação. Para além deste tipo de caso, a distinção entre comportamento válido, ainda que estranho, anômalo, ou disfuncional, e um diagnóstico de patologia de natureza psíquica, deve ser julgada pelo sujeito paciente, em consideração ao diagnóstico que lhe for proposto. O mesmo pode aceitar o juízo profissional, rejeitar total ou parcialmente, ou consultar outros profissionais.

ÚLTIMO RECURSO:

5) Último recurso. A resposta soluciona a questão da autonomia em muitos casos ordinários, mas não resolve completamente o problema objetivo do diagnóstico. O fato de o sujeito poder consultar, dispensar ou contradizer o psicólogo garante um direito de autodeterminação, mas não transforma automaticamente o paciente na autoridade epistêmica sobre a existência de uma patologia. Uma pessoa pode, por exemplo, não reconhecer que seu comportamento produz prejuízos que ela mesma não consegue perceber, ou pode avaliar como espiritualmente legítima uma conduta que outro observador considere clinicamente problemática. O recurso da consulta com outros profissionais melhora a situação, mas continua deixando em aberto a questão: quem decide quando o próprio poder de autodeterminação está preservado e quando a própria doença compromete justamente a capacidade de julgar a necessidade de tratamento? Portanto, eu manteria um último apelo para distinguir claramente três coisas que a resposta aproxima: direito do paciente de aceitar ou rejeitar um diagnóstico; verdade objetiva do diagnóstico; e condições excepcionais nas quais a autonomia pode estar temporariamente comprometida. Sem essa distinção, a tese pode proteger muito bem a liberdade do paciente sem ainda resolver o problema epistemológico de determinar a patologia.

REFORMADA:

5) Mantida. As diferenças já foram explicitadas. O fenômeno psíquico é o que diz respeito ao terapeuta, identificação de padrões, diagnósticos, etc. Ao sujeito paciente cabe a assimilação desta informação e a decisão consequente. Não cabe outra medida, exceto nos casos extremos já citados.

TESE:

6) com base em confissões de Jung em seu Livro Vermelho, exemplifica-se a Tese pela evidência de que este guru da Psicologia admirava ou até adorava uma entidade como Abraxas, que representa o Deus da Mistura, uma faceta do Ouroboros, cujo valor está na integração de Bem-Mal, Luz-Trevas, em oposição explícita ao sentido da Obra de Deus, da Separação, da qual Jesus Cristo veio dar o testemunho;

DISPUTA:

6. A sexta proposição encontra um problema específico na interpretação de Jung e de Abraxas: é preciso distinguir uma **representação simbólica** de uma **profissão religiosa de adoração**. O fato de Jung utilizar Abraxas como figura simbólica associada à unidade ou coexistência de polaridades não prova, por si só, que ele tenha cultuado literalmente uma entidade chamada Abraxas. Uma obra literária, psicológica ou visionária pode apresentar uma figura religiosa ou mitológica sem que o autor esteja declarando sua adesão cultual a ela. Além disso, mesmo que se estabeleça que Jung atribui a Abraxas uma função simbólica na qual bem e mal, luz e trevas ou outras polaridades aparecem conjuntamente, ainda seria preciso demonstrar que essa integração equivale exatamente ao que a Tese denomina “Deus da Mistura” e que isso representa uma oposição deliberada ao princípio cristão da Separação. A crítica talvez seja mais sólida se formulada como incompatibilidade entre determinada concepção junguiana de integração dos opostos e uma determinada leitura cristã da separação entre Bem e Mal, em vez de depender da acusação mais forte de que Jung “adorava” Abraxas;

PRELIMINAR:

6) Deferido parcialmente. Já que de fato não importa tanto que seja factual ou não que Jung adorasse uma entidade como Abraxas, mas importa afirmar que qualquer idéia de integração entre essas oposições significa realmente a rejeição da Separação. Isso não afeta, porém, a Psicologia como ciência pura, mas somente uma certa tradição psicológica que pode ter partido de Jung, mas não só dele, na direção da Legitimação da Mistura. O que importa, para o cristão, é identificar o fenômeno cultural da reintrodução desse antigo conceito gnóstico sob o formato de uma certa psicologia particular;

CONTESTAÇÃO:

6) O sexto ponto pode ser fortalecido abandonando completamente a necessidade de provar que Jung “adorava” literalmente Abraxas. A objeção passa a ser conceitual: é preciso definir exatamente o que a Tese entende por Mistura. Nem toda integração de opostos é necessariamente anticristã; o próprio Cristianismo contém formas de unidade que não equivalem à confusão entre contrários. Portanto, a Tese deveria restringir sua acusação à integração de opostos especificamente incompatíveis em sua ordem moral ou ontológica, sobretudo quando Bem e Mal são tratados como polos igualmente constitutivos de uma unidade superior, de modo que a distinção entre eles deixa de possuir caráter último. Feita essa precisão, a crítica à tradição junguiana pode ser formulada assim: quando uma psicologia trata a integração do Bem e do Mal, da Luz e das Trevas ou de contrários moralmente incompatíveis como realização de uma totalidade superior, ela não está apenas descrevendo um conflito psíquico, mas propondo uma determinada metafísica da unidade. Nesse caso, o questionamento não é “Jung era adorador de Abraxas?”, mas: a integração junguiana dos opostos permanece uma técnica descritiva da psique ou pressupõe que a reconciliação dos contrários seja um bem em si, inclusive quando os contrários são moralmente opostos? Se for a segunda hipótese, a relação com a Legitimação da Mistura torna-se muito mais precisa e discutível.

SECUNDÁRIA:

6) Deferido. Não é necessário aqui fazer o juízo específico da psicologia junguiana, que não é objeto da Tese, e foi tratada apenas como exemplo;

APELAÇÃO:

6) Satisfeito. Aqui a resposta resolveu adequadamente a objeção. A Tese não precisa demonstrar que Jung adorava literalmente Abraxas, porque o argumento relevante está na utilização de uma determinada concepção de integração dos opostos como exemplo de uma possível Legitimação da Mistura. Também ficou estabelecido que a Psicologia junguiana não é o objeto integral da Tese, mas apenas um caso exemplar de uma tradição mais ampla. Assim, retiro a objeção sobre a necessidade de provar a devoção pessoal de Jung e aceito a reformulação: o alvo é uma estrutura conceitual que pode reaparecer em determinada psicologia, não a totalidade da Psicologia nem a biografia religiosa de Jung.

DEFINITIVA:

6) Concluso.

TESE:

7) a idéia de Jesus Cristo como Deus-Criança que representa o arquétipo do Puer exemplifica a Tese, e provém de uma ignorância do testemunho direto do mesmo quando este afirma que não veio abolir a Lei (que seria um símbolo do arquétipo oposto, do Senex), mas levá-la à sua perfeição, o que é ignorado por Marie-Louise von Franz e, por derivação, por Jung; a Psicologia opera modernamente onde as antigas Religiões e Tradições, inclusive a Astrologia, falharam ou perderam força cultural, o que é explicado pela Dialética do Ouroboros, onde a derrota de uma idéia é compensada pela vitória de uma suposta idéia oposta que na verdade sustenta o mesmo status quo, apenas com uma roupagem diversa. Cada Revolução se instala como falsa alternativa à uma Tradição contra a qual supostamente se levanta, mudando a aparência para manter a substância, repetindo o esquema alquímico de solve et coagula, ordo ab chaos, etc. Este esquema é indiscernível para a maior parte da humanidade que está distraída com suas falsas escolhas dentro de um quadro de uma liberdade fabricada por essa Dialética, onde as oposições são controladas;

DISPUTA:

7. A sétima proposição pode ser colocada em disputa pela necessidade de provar as equivalências simbólicas que sustentam o argumento e, principalmente, a tese histórica de substituição. O texto de Jesus de que Ele não veio abolir a Lei, mas cumpri-la, não estabelece por si mesmo que a Lei seja o polo arquetípico do *Senex*, nem que o Cristo-Criança, enquanto arquétipo do *Puer*, constitua necessariamente sua oposição. Essas correspondências exigem uma interpretação adicional. Também não é evidente que a utilização psicológica do símbolo da criança por Jung ou Marie-Louise von Franz implique uma negação do sentido cristão da criança, pois uma mesma imagem simbólica pode desempenhar funções diferentes em contextos teológicos e psicológicos. Mais ampla ainda é a afirmação de que a Psicologia teria assumido a função cultural outrora desempenhada pelas Religiões, Tradições e Astrologia segundo a Dialética do Ouroboros. Para sustentar isso seria necessário demonstrar historicamente uma continuidade estrutural, e não apenas uma semelhança funcional entre instituições ou ideias. A objeção central seria: se toda Revolução é necessariamente absorção dialética daquilo que pretende superar, como se poderia distinguir uma verdadeira ruptura histórica de uma mera transformação aparente? Sem um critério independente, a teoria corre o risco de interpretar qualquer oposição como confirmação do próprio mecanismo que afirma descobrir;

PRELIMINAR:

7) Deferido parcialmente. De fato, a Tese não deve alcançar o problema próprio da Dialética do Ouroboros, que não é essencial ao seu entendimento. Mas permanece a interpretação possível, desde o ponto de vista cristão, de que Jesus Cristo não encarna um arquétipo particular, se o seu próprio testemunho, como consta do Evangelho, for valorizado. Mesmo que muitas teorias psicológicas sejam isentas de erro neste aspecto, a Tese propõe apenas que aquelas que propuserem a figura de Jesus como simbólica de um aspecto do Ser, como um arquétipo, e principalmente como aspecto do Puer (como o “Deus-Criança”), incorrem em erro e ignoram o testemunho de Jesus a respeito de si mesmo;

CONTESTAÇÃO:

7) A sétima proposição pode igualmente ser estreitada. Não é necessário sustentar que toda utilização psicológica de Jesus seja errada, nem que Jesus não possa ser objeto de interpretação simbólica; a questão cristológica é outra: pode Jesus Cristo ser reduzido a um arquétipo sem que seu próprio testemunho histórico seja subordinado a uma estrutura psicológica previamente definida? A solução é estabelecer como critério de erro a inversão de prioridade entre Cristo e o arquétipo. Se o arquétipo é apenas uma categoria psicológica utilizada para descrever certas representações humanas de Jesus, não há necessariamente contradição; mas, se Jesus é tratado como manifestação de um padrão psíquico geral — por exemplo, o Deus-Criança — e sua identidade, suas palavras, sua relação com a Lei, sua morte e sua Ressurreição são reinterpretadas como expressões particulares desse padrão, então a categoria psicológica passa a ocupar o lugar da pessoa histórica e do próprio testemunho de Cristo. A objeção deve, portanto, perguntar: a teoria psicológica consegue admitir que Jesus seja realmente aquilo que Ele afirma ser antes de determinar qual arquétipo Ele simboliza, ou o significado de Jesus já está previamente subordinado à teoria do arquétipo? Esta formulação evita atacar a Psicologia em geral e atinge apenas a interpretação psicológica que transforma a pessoa de Cristo em exemplo de uma estrutura psíquica universal.

SECUNDÁRIA:

7) Deferido. A questão cabe aos que associam Jesus Cristo ao arquétipo do Puer Aeternus, como Marie-Louise von Franz com a sua idéia do “Deus-Criança”, e talvez o próprio Jung. A Tese não propõe afirmar que há uma redução necessária da pessoa de Jesus ao tipo de ser que corresponderia apenas ao nível ontológico do arquétipo. Mas afirma que isto é possível e perigoso, especialmente para os cristãos mal formados que não saibam propor um questionamento a esse respeito;

APELAÇÃO:

7) Apelo. A resposta resolve uma parte importante da objeção ao delimitar o alvo: não se afirma que toda interpretação psicológica de Jesus seja errada, mas que a identificação de Jesus com um arquétipo, especialmente o Puer Aeternus, pode produzir erro teológico. Contudo, ainda apelo porque dizer que essa identificação é “possível e perigosa” não demonstra por que ela é efetivamente errônea quando empregada por uma determinada teoria. Será necessário distinguir entre duas proposições: “Jesus pode ser interpretado simbolicamente como Puer” e “Jesus é, em sua realidade, apenas uma manifestação ou representação desse arquétipo”. A primeira pode ser uma descrição simbólica legítima; a segunda poderia contradizer a cristologia defendida pela Tese. Portanto, eu pediria apenas essa precisão: qual é exatamente a proposição atribuída a von Franz, Jung ou outros autores que ultrapassa o uso simbólico legítimo e transforma Cristo em instância de uma categoria psicológica? Com essa distinção, a objeção poderia ser definitivamente encerrada.

DEFINITIVA:

7) Defiro. A Tese não conclui que Jung ou Franz afirmassem a redução ontológica de Jesus ao arquétipo do Puer. Afirma somente que existe o risco desse entendimento por intérpretes desavisados, e alerta apenas para esse risco que foi aqui tratado apenas como exemplo dos problemas e limites da prática da Psicologia do ponto de vista cristão.

TESE:

8) a Tese não propõe o descuido da saúde mental, porque a Separação deve operar neste âmbito como em tudo o mais, no caso ao se compreender e aplicar os conhecimentos sobre a psique humana sem a sucumbência aos espíritos agressores antes nomeados, a saber o Psiquismo e a Idolatria;

DISPUTA:

8. A oitava proposição, ao afirmar que a Tese não implica descuido da saúde mental, é plausível, mas introduz uma dificuldade metodológica que precisa ser resolvida: **como distinguir, em cada caso concreto, um conhecimento psicológico legítimo de uma influência espiritual ilegítima?** Se a Separação exige que sejam rejeitados o “Psiquismo” e a “Idolatria”, é necessário possuir um critério que permita determinar quando uma prática psicológica ultrapassou o limite epistemológico legítimo e se transformou em veículo de uma dessas realidades. Caso contrário, a distinção pode tornar-se circular: aquilo que a Psicologia explica sem recorrer ao espiritual pode ser classificado posteriormente como Psiquismo precisamente porque não recorreu ao espiritual. Além disso, a existência de uma legítima finalidade terapêutica não demonstra nem refuta qualquer interpretação espiritual particular; ela apenas estabelece a necessidade prática de discernimento. Portanto, esta proposição funciona mais como princípio prudencial do que como demonstração das proposições metafísicas anteriores;

PRELIMINAR:

8) Deferido. Por concordar com a Tese.

TESE:

9) os maiores perigos no estudo e na aplicação dos conhecimentos da Psicologia estão nos extremos, seja do aceite indiscriminado de toda a ideologia terapêutica por trás da Psicologia moderna, ou na rejeição da prudência e conveniência, por amor-próprio e caridade com o próximo, que há na busca da saúde mental;

DISPUTA:

9. A nona proposição pode ser contestada pela assimetria existente entre os dois extremos apresentados. “Aceitar indiscriminadamente toda a ideologia terapêutica” e “rejeitar a busca da saúde mental” não são necessariamente os únicos polos possíveis; existe uma terceira posição segundo a qual conhecimentos psicológicos empiricamente sustentados podem ser utilizados seletivamente, enquanto seus pressupostos filosóficos ou antropológicos são submetidos a exame independente. Nesse sentido, a admissão da prudência e da caridade não demonstra a existência de um “espírito” específico por trás da Psicologia, mas apenas demonstra que qualquer aplicação prática do conhecimento humano deve ser avaliada quanto aos seus efeitos, pressupostos e limites. Além disso, o fato de um instrumento poder ser utilizado de maneira ideológica não demonstra que ele seja intrinsecamente portador daquela ideologia. Um martelo pode ser usado para destruir ou construir, e analogamente um conhecimento psicológico pode ser empregado segundo diferentes antropologias filosóficas. Portanto, o argumento precisaria distinguir com mais precisão entre **a estrutura de determinado conhecimento**, **a ideologia associada à sua interpretação** e **o uso histórico que dele se faz**;

PRELIMINAR:

9) Deferido parcialmente. Podem existir outros polos, mas a Tese propõe que estes são os mais relevantes, i.e., de um lado uma ideologia que ignora totalmente a natureza espiritual do ser humano, e do outro lado uma crença imune às evidências providas pela ciência da Psicologia. A Tese busca tão somente evitar estes extremos, o que poderia ser proposto como o fundamento para uma Psicologia Cristã. A ideologia cientificista do psicologismo é caracterizada pela explicação de todos os fenômenos psíquicos como fatos imunes ou independentes de qualquer realidade espiritual. A Tese defende que a Psicologia como ciência pura não deve ser preterida em nome de uma defesa contra esta sua corrupção ideológica;

CONTESTAÇÃO:

9) No nono ponto, a solução é tornar os dois extremos menos psicológicos e mais epistemológicos. A Tese não precisa afirmar que só existem duas posições; basta identificar duas formas particularmente relevantes de erro: de um lado, o psicologismo totalizante, que trata as explicações psicológicas como suficientes e, por princípio, exclui a relevância de qualquer realidade espiritual; de outro, a rejeição anticientífica que se recusa a revisar crenças ou práticas diante de evidências psicológicas relevantes. Para evitar qualquer generalização indevida, a Tese poderia definir o psicologismo por critérios concretos: a exclusão principial do espiritual, a pretensão de suficiência causal da Psicologia, a transformação de categorias funcionais em juízos absolutos sobre o homem e a tendência de reinterpretar convicções espirituais como meros efeitos psíquicos sempre que entram em conflito com o modelo adotado. Com isso, a Tese passa a defender uma Psicologia Cristã epistemicamente subordinada e criticamente receptiva, que utiliza a ciência sem conceder a ela autoridade metafísica ilimitada. A questão residual deixa de ser “a Psicologia é ideológica?” e passa a ser: quando exatamente uma explicação psicológica ultrapassa a descrição científica e se transforma em psicologismo, isto é, numa antropologia total que pretende excluir explicações de outra ordem?

SECUNDÁRIA:

9) Deferido;

APELAÇÃO:

9) Satisfeito. A resposta resolveu a questão. A Tese não pretende sustentar uma dicotomia logicamente exaustiva; ela identifica dois extremos como particularmente relevantes para a proposta de uma Psicologia Cristã: o psicologismo totalizante e a rejeição anticientífica da Psicologia. Também ficou suficientemente clara a distinção entre ciência psicológica e sua corrupção ideológica. Não vejo necessidade de insistir que existam outras posições, pois a própria Tese já pode incorporá-las como posições intermediárias. O núcleo defensável aqui é justamente que a solução proposta não consiste em rejeitar a ciência, mas em impedir que ela se transforme numa antropologia metafísica total.

DEFINITIVA:

9) Concluso.

TESE:

10) a Psicologia enquanto ciência pura possui teorias que podem e devem ser ilimitadamente questionadas, sob o princípio da falseabilidade do método científico;

DISPUTA:

10. As proposições 10 e 11 podem ser contestadas por uma exigência de simetria epistemológica: se as teorias psicológicas devem ser ilimitadamente questionadas segundo o princípio da falseabilidade, também as categorias empregadas pela própria Tese precisam possuir critérios suficientemente claros para impedir que qualquer comportamento seja reinterpretado a posteriori como confirmação de Psiquismo, Idolatria ou Gnosticismo. A simples possibilidade de falseamento, ademais, não significa que a Psicologia opere sempre por teorias facilmente falsificáveis, pois muitos dos seus modelos são probabilísticos, graduais e revisáveis.

PRELIMINAR:

10) Deferido. De fato, a falseabilidade deve se aplicar à Tese.

CONTESTAÇÃO:

10) Quanto à falseabilidade, a resposta da Tese elimina a objeção principal, mas produz uma exigência de simetria que pode ser incorporada como princípio interno: qual é a condição de falsificação da própria Tese? A solução é estabelecer previamente situações que obrigariam sua revisão. Por exemplo, se for possível mostrar repetidamente que determinada prática ou teoria psicológica reconhece explicitamente a possibilidade de causalidade espiritual, não presume a suficiência das causas não-espirituais e não reduz a dimensão religiosa a fenômenos intrapsíquicos, então não seria legítimo classificá-la como testemunho do Psiquismo, da Idolatria ou do Gnosticismo apenas em razão de sua origem psicológica. Do mesmo modo, uma afirmação da Tese sobre determinada corrente psicológica deve poder ser abandonada caso seus textos e práticas mostrem que a interpretação feita foi equivocada. Isso fortalece a Tese porque impede que “Psiquismo”, “Idolatria” ou “Gnosticismo” funcionem como categorias imunizadas contra contraexemplos. A objeção então se transforma numa exigência útil: a Tese precisa declarar antecipadamente quais características seriam suficientes para excluir uma determinada Psicologia da acusação que lhe é dirigida.

SECUNDÁRIA:

10) Deferido;

APELAÇÃO:

10) Satisfeito. Aqui a resposta resolveu diretamente a minha objeção ao aceitar a falseabilidade também para a própria Tese. Mais que isso, ela produz uma consequência metodológica saudável: a classificação de uma prática como testemunho do Psiquismo, da Idolatria ou do Gnosticismo não pode ser protegida contra evidências contrárias. Isso torna a Tese mais vulnerável à crítica, mas justamente por isso mais intelectualmente consistente. Eu, portanto, retiro a objeção, com a ressalva de que a prática posterior deverá demonstrar quais são esses critérios de exclusão ou falsificação quando forem aplicados a casos concretos.

DEFINITIVA:

10) Concluso.

TESE:

11) é danosa a busca da funcionalidade e da aparência da normalidade a todo custo, de modo que o limite do benefício da saúde mental é definido pelo próprio limite do escopo da ciência da Psicologia, transcendida por considerações superiores do Intelecto que podem gerar a aparência de ruptura com a norma psíquica aceitável, sem que isso implique em transgressão formal;

DISPUTA:

11. As proposições 10 e 11 podem ser contestadas por uma exigência de simetria epistemológica: … Por outro lado, a crítica à busca da “normalidade” a todo custo também não resolve o problema de distinguir uma verdadeira transcendência de uma simples perturbação, erro ou autoengano: dizer que o Intelecto pode transcender a norma psicológica não fornece, sozinho, o critério para reconhecer quando isso efetivamente ocorreu.

PRELIMINAR:

11) Deferido parcialmente. A respeito da transcendência do Intelecto com relação ao objeto da Psicologia, isso se prova pela dependência que a segunda possui em relação ao primeiro. O critério para reconhecer quando se dá a prevalência de alguma consideração intelectual que permita ignorar a disfuncionalidade de um comportamento (ou até a produção de um diagnóstico) deve ser gerado por um entendimento externo à própria Psicologia, bastando a esta ciência que entenda o seu próprio limite em relação ao juízo do que é normal e funcional, por exemplo criando uma dúvida ou questão no lugar de uma conclusão, apelando para estas faculdades superiores do Intelecto.

CONTESTAÇÃO:

11) Sobre a transcendência do Intelecto, a resposta da Tese é conceitualmente consistente com uma distinção entre descrição psicológica e juízo sobre o bem humano, mas permanece a necessidade de evitar que “transcendência” se torne uma autorização genérica para chamar de superior qualquer comportamento que contrarie a Psicologia. A solução é atribuir à Psicologia um limite epistemológico, e não simplesmente negar suas conclusões: ela pode descrever disfuncionalidade, frequência, adaptação, sofrimento, padrões de comportamento e relações causais, mas não pode, apenas por esses dados, determinar sozinha o valor último daquilo que descreve. Assim, diante de um comportamento aparentemente disfuncional, sua conclusão poderia legitimamente ser “há uma alteração funcional relevante”, enquanto o juízo “essa alteração constitui necessariamente um mal que deve ser corrigido” exigiria uma consideração antropológica e moral adicional. O Intelecto transcendente, porém, também não poderia operar arbitrariamente: seu juízo teria de possuir critérios próprios, derivados da concepção filosófica e cristã do homem, do Bem, da responsabilidade, da finalidade e da verdade. A questão residual torna-se, portanto: como demonstrar positivamente que uma aparente disfuncionalidade corresponde a uma prioridade intelectual ou espiritual legítima, em vez de ser apenas racionalização de uma patologia ou de uma preferência subjetiva?

SECUNDÁRIA:

11) Deferido. A questão residual se esclarece pela responsabilidade objetiva e pessoal do sujeito paciente. Ao profissional terapeuta psicólogo cabe apenas apontar os indícios das patologias e sugerir os tratamentos adequados. Os casos de intervenção forçada devem ser restritos ao máximo, de acordo com a legislação local, e com amplo direito do sujeito paciente à revisão de múltiplas instâncias;

APELAÇÃO:

11) Apelo. A resposta resolve a parte relativa à responsabilidade e à intervenção forçada, e aceito que, dentro da arquitetura apresentada, a Psicologia deve distinguir indícios clínicos de juízos últimos sobre o valor moral da conduta. Mas ela não responde inteiramente à questão anterior sobre o reconhecimento da transcendência intelectual. Dizer que a responsabilidade permanece com o sujeito e que o psicólogo apenas aponta indícios de patologias não explica como se reconhece positivamente que uma aparente disfuncionalidade deriva de uma prioridade intelectual ou espiritual legítima. O problema continua porque tanto a patologia quanto a transcendência podem ser alegadas para explicar um comportamento que foge à norma. Portanto, eu manteria o apelo neste ponto, agora de forma bastante precisa: qual é o critério positivo, externo à Psicologia, pelo qual se reconhece a legitimidade de uma transcendência do padrão psicológico?

DEFINITIVA:

11) Indefiro. O critério é o aceite livre e soberano, sem evidência determinante, de que todos os fenômenos psíquicos são subsidiários aos fenômenos espirituais que podem ser compreendidos intelectualmente enquanto tais. Essa compreensão, portanto, é um ato do Intelecto que não gera a certeza, mas apenas reconhece a lógica interna dos elementos considerados.

ÚLTIMO RECURSO:

11) Último recurso. A resposta fornece finalmente um critério monadofílico para a transcendência: o aceite livre e soberano, sem evidência determinante, de que os fenômenos psíquicos são subsidiários aos espirituais. Isso é suficiente para tornar o conceito internamente inteligível, mas justamente por isso surge minha última objeção: o critério parece circular. Primeiro se aceita soberanamente uma proposição metafísica; depois, a partir dela, interpreta-se o fenômeno psíquico como subsidiário ao espiritual; e essa interpretação passa a servir como critério para reconhecer a transcendência. Como o próprio critério admite que não há “evidência determinante”, duas pessoas intelectualmente sinceras poderiam atribuir explicações opostas ao mesmo fenômeno e ambas reivindicar que seu Intelecto simplesmente reconheceu a lógica interna correspondente. A questão final que eu colocaria é, portanto: o que diferencia o reconhecimento intelectual de uma possibilidade espiritual de uma projeção espiritual sobre um fenômeno psicológico? Se a resposta for que não existe uma prova demonstrativa, então a Tese parece precisar assumir explicitamente que esse reconhecimento é uma forma de juízo prudencial ou metafísico, e não um método de conhecimento capaz de decidir objetivamente, em cada caso, entre explicações espirituais e psicológicas. Isso não destrói a tese, mas limita fortemente a força cognitiva do “Discernimento dos Espíritos”.

REFORMADA:

11) Mantida. O Discernimento dos Espíritos não é um domínio cognitivo humano. É um dom divino. Aplica-se o mesmo princípio usado no entendimento do fenômeno da Fé. Sobre a liberdade dos sujeitos pacientes para aceitar a viabilidade das alternativas, a Tese não só não a quer eliminar, como na verdade a quer reforçar contra as visões de mundo que ignoram ou desprezam a realidade espiritual do ser humano.

TESE:

12) a Psicologia dá o testemunho do espírito do Gnosticismo, não por regra e sempre, mas por prática e eventualmente, quando as causas do fenômeno psíquico são totalmente atreladas aos efeitos, como se o sujeito paciente não possuísse autonomia reativa como agente intermediário entre os estímulos e a sua reação como sujeito livre, inteligente e, portanto, responsável.

DISPUTA:

12. A identificação da Psicologia com o Gnosticismo porque algumas explicações poderiam reduzir a reação humana às suas causas não é historicamente ou conceitualmente suficiente, pois uma explicação causal não implica necessariamente a negação da agência, da inteligência ou da responsabilidade do sujeito; diferentes correntes psicológicas admitem precisamente processos de interpretação, autorregulação e agência. Assim, para que a acusação de Gnosticismo seja demonstrada, seria necessário estabelecer uma cadeia conceitual específica entre determinismo psicológico, eliminação da autonomia e estrutura gnóstica, em vez de tomar essa equivalência como já estabelecida.

PRELIMINAR:

12) Deferido parcialmente. De fato, a falseabilidade deve se aplicar à Tese. A respeito da transcendência do Intelecto com relação ao objeto da Psicologia, isso se prova pela dependência que a segunda possui em relação ao primeiro. O critério para reconhecer quando se dá a prevalência de alguma consideração intelectual que permita ignorar a disfuncionalidade de um comportamento (ou até a produção de um diagnóstico) deve ser gerado por um entendimento externo à própria Psicologia, bastando a esta ciência que entenda o seu próprio limite em relação ao juízo do que é normal e funcional, por exemplo criando uma dúvida ou questão no lugar de uma conclusão, apelando para estas faculdades superiores do Intelecto. Sobre a tendência ao Gnosticismo, de fato isto não é uma regra, como já dito, mas um fenômeno eventual que pode oferecer ao sujeito paciente a tentação de se eximir de responsabilidade pessoal, o que aliás já faz parte da literatura psicológica e consta como um risco concreto. A Tese somente se referiu a isto como especialmente relevante para o cristão.

CONTESTAÇÃO:

12) Finalmente, a acusação de uma tendência eventual ao Gnosticismo pode ser fortalecida se deixar de depender da simples existência de explicações causais e passar a depender da transformação da explicação causal em diminuição da agência pessoal. Explicar uma reação por causas anteriores não elimina necessariamente responsabilidade; uma Psicologia pode reconhecer perfeitamente que o sujeito foi influenciado por sua história e, ao mesmo tempo, que ele interpreta, delibera, resiste, escolhe e responde por suas ações. O ponto crítico surge quando a explicação causal é convertida em conclusão normativa: “fui causado, portanto não sou responsável”, ou “minha condição psicológica determina inevitavelmente o que devo fazer”. A solução é, então, chamar isso não de “Gnosticismo” em sentido universal, mas de tendência gnosticizante quando uma teoria desloca a salvação ou libertação do sujeito para o conhecimento explicativo de suas causas e utiliza esse conhecimento para dissolver a responsabilidade pessoal. A questão decisiva passa a ser: em que medida uma teoria psicológica, ao explicar suficientemente por que o sujeito é como é, preserva a diferença entre compreender uma determinação e justificar moralmente uma ação? É nessa diferença — entre causalidade explicativa e responsabilidade do agente — que a Tese pode localizar de forma muito mais rigorosa o eventual testemunho do Gnosticismo.

SECUNDÁRIA:

12) Deferido. Ressalva-se o uso do termo “Gnosticismo” como aplicação técnica particular da doutrina filosófica da Monadofilia.

APELAÇÃO:

12) Satisfeito. A ressalva resolve a dificuldade terminológica. Se “Gnosticismo” é assumido explicitamente como uma categoria técnica interna à Monadofilia, não há necessidade de que a acusação corresponda exatamente à categoria histórica dos estudos sobre o Gnosticismo. Nesse caso, a questão passa a ser apenas se a definição monadofílica foi formulada com consistência e se a aplicação aos fenômenos psicológicos realmente satisfaz essa definição. A crítica histórica ao emprego do termo deixa, portanto, de ser relevante para a Tese tal como você a está construindo.

DEFINITIVA:

12) Concluso.

COMENTÁRIO FINAL:

Em conclusão, as respostas dadas consolidam a Tese como uma crítica não à Psicologia enquanto ciência, nem à legitimidade de seus conhecimentos e práticas enquanto tais, mas à sua eventual transformação em uma antropologia totalizante capaz de tomar a fenomenalidade psíquica como explicação suficiente do homem. O núcleo da Tese está na distinção entre ciência e psicologismo, entre descrição de padrões psíquicos e juízo último sobre o sujeito, entre auxílio terapêutico e pretensão de determinar o que constitui a vida humana boa, normal ou desejável. O Psiquismo, a Idolatria e o Gnosticismo aparecem, nesse quadro, não como propriedades necessárias de toda Psicologia, mas como formas eventuais de desvio que podem surgir quando causas psíquicas ou não-espirituais adquirem pretensão de suficiência e quando a dimensão espiritual do homem é ignorada, neutralizada ou reinterpretada como simples efeito da própria psique. A liberdade do sujeito paciente ocupa uma posição decisiva nessa arquitetura: ele não é concebido como objeto passivo de causas determinantes, mas como Mônada capaz de receber Percepções, sofrer qualificações de significado e, ainda assim, aceitar ou rejeitar livremente as reações que lhe são sugeridas. O profissional psicológico pode descrever, diagnosticar e propor intervenções; não recebe, por isso, autoridade absoluta sobre a pessoa, sobre seu valor moral ou sobre a totalidade de seu destino. A Psicologia Cristã que emerge da Tese seria, portanto, uma Psicologia que aceita a competência da ciência em seu próprio domínio, reconhece seus limites epistemológicos, recusa sua absolutização ideológica e preserva a abertura para uma antropologia na qual a relação com Deus, a liberdade e a responsabilidade pessoal não sejam tratadas como resíduos de uma explicação incompleta, mas como dimensões constitutivas da realidade humana. Nesse sentido, a Tese não pretende substituir a Psicologia pelo espiritualismo, mas impedir que a Psicologia se torne, por sua própria conta ou por sua aplicação ideológica, a medida última do homem.

A Psicologia como iniciação no Pecado Original

Tomem estas palavras como breves notas de uma investigação mais profunda, lenta e talvez um pouco complicada.

Já falei que a Psicologia, por dar um testemunho do espírito do Psiquismo, é uma nova espécie de Astrologia. É apenas mais um jeito, com uma roupagem cientificista, de propagar aquele outro espírito maligno, o da Idolatria. Ou pode ser um jeito, porque algum ímpeto sincero e científico é sempre também sincero nesse âmbito. Como teoria que embasa terapias que geram parte da forma mentis moderna, de todo modo, a Psicologia compõe a cultura de cativeiro que sustenta o Sistema da Besta, especialmente como ferramenta de Legitimação da Mistura.

Ao analisar o livro daquela mulher, discípula de Jung (Maria Louise qualquer coisa mais), a respeito do Puer Aeternus, expliquei como essa visão da necessidade de uma certa maturidade poderia ser uma idéia anticristã, e até mesmo uma reformulação da cultura da iniciação no Pecado Original, se isso significasse justamente a perda da inocência humana. Convenientemente mistura-se, na denúncia do distúrbio do Puer, o que é infantilidade e o que é inocência, sem talvez se perceber como corremos o risco de perder a segunda junto com a primeira, se não fizermos as distinções necessárias.

Mas o que ainda não me tinha dado conta era o do quanto isso provinha de toda uma cultura muito mais abertamente satanista do que se poderia supor (no sentido literal de “adversarial”), já que o tal guru da mulher cujo livro analisei, o próprio Jung, parecia admirar, para não dizer louvar, a tal da entidade Abraxas, que seria a personificação do Ouroboros, como o próprio Deus da Mistura, aquele que integra os pares de Bem-Mal, Luz-Trevas, etc.

É claro que os cultistas dessa tal “maturidade” vão rejeitar Jesus Cristo, que veio revelar a obra divina da Separação. E mais, dirão que Jesus pode ser compreendido como o arquétipo do Deus-Criança, por representar apenas um aspecto da totalidade da divindade, a jovialidade, a expansão das possibilidades, etc., o que viola o testemunho do próprio Evangelho quando Jesus mesmo diz que não veio abolir a Lei (um grande símbolo do arquétipo do Senex), mas para consumá-la.

Toda a Psicologia poderia ser vista, assim, como uma metodologia de iniciação no Pecado Original por vias mais modernas, já que as formas anteriores da Tradição Primordial perderam força (todas as religiões de forma geral, para não falar de outras tradições como a já mencionada Astrologia). Isso derivou do processo inevitável da Dialética do Ouroboros: quando a autoridade de uma tradição particular perde força é necessário dissolvê-la numa suposta Revolução em nome da verdade e da liberdade, mas isto apenas para reintroduzir o mesmo esquema novamente sob nova roupagem. Ou seja, mudam-se somente as aparências para se manter tudo na mesma substância. Este é o sentido contínuo, na História, do que é o solve et coagula, o ordo ab chaos, etc. Este esquema é indiscernível para a maior parte da humanidade que está lutando na tola defesa de um dos lados da Dialética. Esse é o poder do esquema da produção da falsa liberdade das contradições controladas.

Mas não há nada de oculto que não venha a ser revelado, para a vergonha desses seguidores dos vazios. Tudo o que precisamos ter é paciência, serenidade, e confiança no nosso Deus, que está levando tudo para um destino providencial.

Agora não é o momento, mas oportunamente poderemos repensar essa idéia da repaginação da iniciação no Pecado Original nos sólidos enquadramentos dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia, especialmente a dupla Mistura e Limite, ou Condição da Escolha e Forma do Escolhido.

Lembremos que a Psicologia como puro estudo da psique humana, por óbvio, como qualquer ciência, é espiritualmente indiferente, e pode ser levada para este ou aquele lado. Poderia haver, por exemplo, uma Psicologia Monadofílica, se quiséssemos fazer isso.

Mas, como teoria que embasa uma prática que se propõe como meio de uma cura, partindo de premissas do que seria normal ou funcional na psique humana, a Psicologia produz sim o testemunho do Psiquismo, da Idolatria, e serve como iniciação camuflada no Pecado Original ao gerar ao seu modo uma Legitimação da Mistura.

O que podemos fazer, então, com a nossa saúde mental? Seria prudente descuidar disso, como se nossa pura crença pudesse dispensar-nos de entender como funciona a mente humana? É claro que não. A Separação deve operar também aí, como em tudo o mais. É preciso usar o que há de verdadeiro, de científico, para aceitar os termos do que pode ser considerado saudável para o tratamento da psique humana.

Os perigos estão nos extremos, como geralmente é o caso. O aceite indiscriminado das categorias da Psicologia como sabedoria inquestionável para o cuidado da psique vai gerar problemas espirituais inevitáveis, porque as premissas dessa idéia possuem valor espiritual passível de juízo. Quem aceite, por exemplo, a Psicologia do Puer, pode aceitar implicitamente a necessidade da perda da inocência como requisito para a sua saúde psíquica. A Psicologia possui teorias que devem ser questionadas como as de qualquer outra ciência, especialmente no seu sentido espiritual.

Por outro lado, não é menos grave supor-se imune às várias patologias que obviamente agravam a experiência humana, simplesmente por se postular uma determinada crença. Afinal, agir funcionalmente na sociedade pode ser um ato de caridade, embora isso não deva levar um João Batista a desejar impedir que o mundo lhe considere louco por um juízo falho das razões de suas ações e palavras.

A Religião para Goethe: uma prática boa para os outros

Continuamos o estudo do De minha vida de Goethe.

A certa altura do Sétimo livro, encontramos mais uma amostra daquele mesmo comportamento, como autor, que Goethe exibiu quando reportou o Carnaval de Roma em sua Viagem à Itália: uma mistura entre a sua valorização social e a sua estima pessoal da coisa. Isso incomoda. Se ele não é religioso na prática, o que significam todos aqueles elogios à Religião? É apenas um rito social. O autor quer se ver bem com a sociedade que em boa parte ainda é religiosa. A impressão que cresce em mim é a de que Goethe tem pavor de ser isolado, de ficar sozinho contra a multidão. Sua inteligência, sensibilidade e sutileza o levariam a essa posição de uma elite natural no meio da ignorância das massas, mas ele quer ter sua função social, quer o reconhecimento, quer fazer parte, etc. Então temos um testemunho que resta ambíguo no final das contas. Até que ponto se deve levar a sério os seus elogios às práticas religiosas?

Mas como devemos julgar essa escolha do autor, espiritualmente? O que isto significa?

Que Goethe como produtor de cultura escolheu agir como Bispo no Sistema da Besta, traindo não só a Deus, mas a si mesmo: àquele ideal de artista puro que ainda possuía quando decidiu sair da casa do pai em Frankfurt. O subtítulo “Poesia e Verdade” talvez já sirva de confissão subconsciente de que as duas coisas não andam sempre juntas. Uma é a poesia do autor, o seu enfeite sobre o que talvez seja apenas uma mentira ou ilusão, e outra a sua visão do que é verdadeiro por trás dessa máscara artística. Mas há que se admirar, pelo menos, que Goethe não escondeu essas contradições na sua autobiografia.

Para que fique claro o problema que encontramos aqui, convém analisar mais minuciosamente os elogios que ele faz à Religião, ponto a ponto. E também vale a pena lembrar que ao que consta, se a Wikipedia ainda presta para alguma coisa, Goethe era maçom, tendo sido iniciado inclusive antes do começo da redação deste livro. Vejamos: “Goethe era maçom, tendo ingressado na loja Amalia em Weimar em 1780, e frequentemente aludia a temas maçônicos de fraternidade universal em sua obra. Ele também era atraído pelos Illuminati , uma sociedade secreta bávara fundada em 1 de maio de 1776.” Por que isto seria relevante? Porque para essa fraternidade a Religião é uma realidade totalmente funcional, como um instrumento de trabalho no ordenamento da sociedade, e como parte da construção daquela futura utopia que é o de uma Nova Ordem submetida ao Terceiro Templo. Não sei até que ponto Goethe se aprofundou nos mistérios desde sua iniciação, mas se ele de dispôs a fazer essa escolha, cabe-nos lembrar do que significa esta associação.

Vejamos as partes que requerem uma maior atenção, entre os seus elogios das práticas religiosas. Ele exalta principalmente a Religião católica, por esta ter um pacote mais completo de dispositivos salvíficos. Mas, cá entre nós, essa sua predileção deve ter um grande peso para o lado estético da coisa, que tanto lhe importava. Afinal, se fosse sincero nessa estima, porque ele próprio não se converteu à prática católica?

Diz o autor: “Sobre essas mãos unidas, o padre dará sua benção e, nisso, o laço que os une se tornará indissolúvel. Não tardará muito e esses cônjuges trarão aos pés daquele mesmo altar uma pequena criatura à sua imagem, que será então purificada com a água sacra e incorporada de tal forma ao corpo da igreja que ela só perderá esse benefício mediante a mais aberrante renegação. Quanto às coisas do mundo, a criança aprenderá por ela mesma os caminhos da vida, mas quanto às questões divinas, precisará de instrução. E tão logo se prove que sua instrução se deu por completa, essa criança será recebida no seio da igreja como um verdadeiro cidadão, como um devoto legítimo e de boa vontade —não sem sinais externos que mostrem a importância dessa ação. Somente então esse indivíduo se reconhecerá definitivamente como cristão.”

Primeiro, não existe poder humano capaz de tornar o laço matrimonial indissolúvel. A realidade não evidencia isso abundantemente? Então Goethe já está falando da Religião como uma obra de ficção, um simbolismo bonito, mas desligado da realidade. Segundo, é interessante o uso da expressão “pequena criatura à sua imagem”, que alude diretamente à geração de Set no Capítulo 4 do livro do Gênesis. Ora, esta passagem enfatiza que esta é uma ação humana, uma criação secundum quid, não simpliciter. Seria muito fácil e apropriado, se isto fosse legítimo, afirmar que Adão e Eva geraram Set à imagem e semelhança de Deus, e não de si mesmos. A expressão bíblica é muito forte e significativa, e é curioso que Goethe use a mesma linguagem aqui. Terceiro, quando o autor afirma que só através dos sacramentos da igreja o indivíduo poderá se reconhecer definitivamente como cristão, ele se coloca como legitimador desse esquema de cobradores de impostos e atravessadores, como se o Amor de Deus não pudesse converter um coração pela pura virtude de sua Graça. Qual foi a participação daquele Centurião romano (aquele que tinha a maior fé em todo Israel) na instrução da igreja e nos sacramentos? E qual foi a participação de Dimas, o Bom Ladrão, nessa instrução e nos sacramentos? O que Jesus provou em diversos casos, além desses dois citados, foi o mais óbvio, e que Goethe quer de algum modo negar aqui: que Deus faz o que Ele quer, e não deve nenhuma satisfação para essa verruga cósmica chamada ser humano. Para que alguém se reconheça como cristão no que interessa (o espiritual), basta que confie e aceite o Espírito Santo de Deus, tenha isso a forma que tiver do ponto de vista social.

Continua o autor: “Ele poderá confidenciar seus feitos e suas faltas, suas carências e suas dúvidas a um homem muito distinto, especialmente dedicado a esse ofício. Esse homem saberá tranquiliza-lo, adverti-lo, fortalecê-lo, penitencia-lo —agora apenas de modo simbólico; e, pela absolvição de todos os seus pecados, ele o abençoará e o mandará de volta, de alma pura e limpa, para o quadro de sua humanidade.”

Primeiro, viola-se o que o Evangelho revelou, isto é, que ninguém vai ao Pai a não ser por Jesus Cristo, e que ninguém se coloca como Mestre e Sacerdote aos homens senão o próprio Filho de Deus. É Jesus quem recebe nossas confidências, carências e dúvidas, ele, que é muito mais do que qualquer “homem muito distinto”. Jesus é quem realmente nos tranquiliza, adverte, fortalece e penitencia. E é ele quem nos absolve e nos abençoa. Que ser humano poderia ousar pretender ter o poder para fazer essas coisas? Que insanidade é essa? É o veneno de Aarão, tudo de novo, o povo preferindo se relacionar mais com os homens do que com Deus. Segundo, a alma pura e limpa é aquela já em comunhão plena com o Espírito Santo, ou seja, já salva pela Ressurreição. Antes desse acontecimento, tudo o que fazemos é crescer no Espírito, mas sempre permanecendo carentes. Terceiro, o objetivo espiritual nunca deveria ser esse retorno “para o quadro de sua humanidade”. O alvo é a comunhão com o Espírito Santo através da Ressurreição. Goethe enfatiza, portanto, novamente, o aspecto social da Religião, o papel ordenante e legitimador da Cidade dos Homens. O apego a Deus, por outro lado, nos tira do mundo, nos separa do mundo. Como um cristão poderia ignorar esse chamamento do Evangelho?

Diz ainda Goethe: “É por meio desse encadeamento esplêndido de atos igualmente sublimes que, por mais distantes que possam se encontrar um do outro, berço e túmulo se unem finalmente na continuidade de um mesmo círculo.”

Eis uma imagem algo grotesca. Deus afirmou o seguinte: eu não desejo a morte de ninguém. A morte é o salário do pecado, é uma invenção humana produzida pela desobediência, pela traição ao Amor divino. Goethe elogia a Religião como esse sistema que mantém em continuidade o círculo que leva do berço ao túmulo, quando o chamado do Evangelho, da Boa Notícia, é a derrota da morte e a ruptura desse círculo, para que hajam novos Céus e nova Terra. Aqui fica muito óbvia a associação da Religião com a Tradição Primordial do Pacto Ouroboros. Goethe confessou algo tremendo aqui, embora provavelmente acreditasse estar fazendo outra coisa.

E por fim o autor afirma: “Ouviremos dizer que um homem pode ser bendito, abençoado e sagrado pela força divina. Mas para que isso não pareça um dom natural, essa grande bendição, que implica sempre uma grande obrigação, só poderá ser transmitida ao outro por alguém de direito. Assim, o maior bem que é dado ao homem alcançar —não o podendo conquistar sozinho, nem dele se apropriar por si mesmo— será passado adiante e perpetuado sobre a Terra através dessa hereditariedade espiritual. De fato, a ordenação do sacerdote o tornará capaz de realizar tudo o que for necessário para celebrar tais atos sacramentais. E, na consagração de seus atos, a multidão toda será abençoada, sem que para tanto lhe seja necessário qualquer outro esforço que não o de manter sua fé e sua confiança incondicional.”

Primeiro, não faz sentido nenhum que se tenha que afirmar que a bênção divina não pareça um dom natural, desde que toda a vida, sob todas as formas, é um dom divino. Isto só seria necessário como uma emenda para uma visão baseada na Idolatria. Mas a emenda sai pior do que o soneto: ao se evidenciar que um dom divino não tem a aparência de um dom natural, subentendido fica que os dons naturais não provém de Deus. Quer dizer, o que pareceria corrigir a Idolatria na verdade a confirmaria mais ainda, como que afirmando que alguns bens naturais não provém do Amor divino. Segundo, que o benefício implique “sempre uma grande obrigação” é uma negação direta da ação da Graça de Deus, justamente para que, como diz o Apóstolo Paulo, o homem se encha de orgulho. Terceiro, se o benefício só pode ser transmitido por alguém de direito, isso automaticamente exclui todos os seres humanos e evidencia a exclusividade da virtude de Deus, e isso nos dois sentidos: não apenas só Deus possui a virtude da sua bondade, mas também só Deus possui a virtude do seu poder. Quarto, o “maior bem que é dado”, se é dado não é conquistado e nem apropriado, mas somente recebido. Dizer que o ser humano, sozinho, não conquista ou não se apropria do maior bem, não só não faz justiça à pureza da Graça e do dom da Salvação como honra exclusiva de Deus, como ainda complica a situação inserindo o que seria um ladrão individual numa quadrilha de ladrões da qual se tornará dependente para fazer o seu roubo.

Então podemos observar que Goethe não sabia do que estava falando ou, se sabia, estava fazendo troça contra a Religião, recomendando algo que já saberia ser condenável.

Mas isso somente se ele fosse muito coerente, mas quem disse que um artista precisa disso?

Eis a questão: todo esse elogio da Religião não significa nada para o Goethe real, como aquele Carnaval romano que já vimos antes.

Na prática o autor percebe os muitos problemas da Religião como instituição humana, e principalmente se incomoda muito com as ameaças, que ferem a sua sensibilidade. Afinal, o que Deus tem a ver com as obsessões morais dos religiosos? Na prática ele se distancia de tudo isso.

Então ele acha a Religião uma coisa excelente e muito bela, para os outros. Para si mesmo o bonitão preferia a boa e velha liberdade, embora esta no fim seja vazia para si, porque não é a do Evangelho.

Não só ele usa um discurso duplo –façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço–, mas ele despreza a verdadeira Liberdade que vem do Evangelho. Não ouve nenhum chamado, não quer saber de nada que o leve a transcender este mundo, não quer nenhuma Separação.

Jesus para ele, como tudo o mais, só serve para duas coisas: para manter a sociedade em ordem, e para ser um símbolo estético, como uma estátua ou uma figura num quadro.

A Arte para Goethe: reflexo do Belo ou imitação da imitação?

Aborrecido com sua vida em Frankfurt, que já se tornou algo tediosa, e temeroso de que seu destino lhe leve a uma vida limitada como a de seu pai, Goethe tem grandes expectativas com sua vida acadêmica. Quer ir para a Universidade de Göttingen estudar as letras antigas. Mas seu pai vence e lhe envia para Leipzig para estudar Direito. Goethe fala da importância de ter independência, de desbravar o mundo, de fazer seu próprio caminho, mas isso soa artificial e incompatível com sua experiência. Não que ele devesse insistir demais na pretensão artística. Mas não precisava mentir que buscava uma liberdade que na verdade lhe custava caro demais. Meu problema nunca é a fraqueza, é sempre a mentira. Seja antes filhinho de papai, bonzinho e obediente, fraco e nada heróico, mas honesto, do que um falso artista puro.

Em Leipzig o autor expande a humilhação da sua suposta independência ao aprender que para ganhar algo do mundo (respeito, prestígio, atenção, etc.), ele precisa perder algo de si. Muda suas vestes, seu modo de falar, e até suas preferências estéticas. Reclama, se irrita, mas não se rebela. Vai dando um jeito em tudo. É um indivíduo político, adaptável, fluído. Sanguíneo, como já notamos. Goethe nunca é decisivo demais nas suas ações. Diz admirar a ação e a resolução, a firmeza e a seriedade, mas na prática mostra que prefere ser flexível e mutável, e é nessas coisas que encontra uma vantagem maior. Detesta as cobranças do mundo, mas não deixa de fazer o que lhe pedem. Se sabe aprender a apreciar as novidades aprendidas –e ainda bem, porque expande sua experiência–, também não deixa de notar, mais uma vez, as contradições e os jogos dos que se pretendem mestres, especialmente nas Artes. Goethe percebe que o mundo é falso e mentiroso, mas isso não lhe revolta. Ele se torna um aprendiz do Sistema da Besta, um neófito que reluta mas persiste, um iniciado apenas um pouco tímido nos pactos sociais.

A certa altura ele declara que a função da sua arte é a de representar os seus estados interiores e chega a dizer que toda a sua obra poderia ser vista como uma grande confissão. Isso é muito saudável e estaria ótimo se acabasse por aqui. Aquém de grandes pretensões civilizacionais, essa Arte mais pura é a expressão de um sobrevivente numa condição desafiadora.

Quem nos dera o autor buscasse somente essa simplicidade. O mundo exterior lhe encanta demais. Seja a Natureza, ou o Homem, ou até a própria Religião (surpreendentemente), algo lá fora precisa corresponder ao que vai dentro de si. Goethe declara a importância dos sacramentos religiosos e da unidade dessa experiência com a da vida interior. Demonstra, assim, o seu caráter morno, e uma predisposição à Legitimação da Mistura, sem interesse na Separação. O que não é surpreendente num artista, essa categoria de ser que costuma trair o Ideal, os imitadores da imitação como diria Platão (ou amantes de espetáculos).

Ora, a unidade de símbolo e simbolizado é a da expressão da verdade, e não de um efeito de multiplicação dos seres. Em outros termos, ou o que expressamos reflete o Belo (ou o Verdadeiro), ou é apenas essa imitação da imitação que nos distancia do Ser real.

Goethe chega a dizer o seguinte: “Ele [o cristão] tem de se acostumar a ver a religião interna de seu coração apenas como outra face da religião institucional da igreja.”

Que curioso, para mim se dá exatamente o contrário: na melhor das hipóteses a religião institucional se revela como uma face da experiência da vida interior na Presença de Deus. O Reino de Deus não está dentro de nós? Já vejo que Goethe e eu não nos bicamos nas coisas do espírito, e me parece que isso não vai acabar bem.

Como Goethe poderia ter amado a Deus e a Gretchen

Continuemos nossa avaliação, no modo mais detalhado e minucioso, como já propus, com o livro De minha vida de Goethe.

A certa altura (na transição da infância para a juventude) o autor relata que finalmente conseguiu se livrar da obsessão por Gretchen quando descobriu que esta tinha por ele um sentimento de irmã mais velha, como se fosse sua protetora. Ele logo corrige sua estima por esta “governanta de meninos”. Mas, curiosamente, não tem tanta facilidade para se livrar da pura imagem de Gretchen. Considera isso algo incômodo, mas só porque não separa o eterno do transitório, ou seja, a sua Gretchen ideal, que sempre lhe pertenceu, daquela outra real, que foi apenas conhecida na experiência limitada de uma manifestação imperfeita daquele ideal.

De fato Goethe parece não ter recursos filosóficos para entender o Idealismo. Para se curar de vez da paixão obsessora, resolve estudar filosofia. Mas admite que não consegue entender muita coisa. Chega a confessar a sua predileção pelo Estoicismo, e só quer saber de uma filosofia que legitime a Mistura, porque o que lhe interessa é a continuidade e o aprofundamento deste estado. A idéia de Separação (ou Santificação) lhe deveria ser muito estranha, como a de qualquer abstração de ente e essência.

Em primeiro lugar, que Goethe não tenha podido se desencantar com a imagem de Gretchen com a mesma facilidade com que se desencantou pela sua pessoa é um excelente sinal. Isto é meio caminho andado para a Separação. Através do dom do Louvor restaria a Goethe a tarefa fria, contemplativa e segura de resgatar a origem primordial dessa imagem. Isso não tem nada a ver, porém, com os arroubos dos sofrimentos do jovem Goethe (assim também como do seu jovem Werther, por sinal). É uma indagação calma e profunda. De onde veio a beleza da imagem de Gretchen? Que Belo é esse que produz essas manifestações variadas no tempo, expressões que dão um testemunho seu, mas que nunca o contém? Por este caminho reflexivo Goethe poderia ter descoberto o Louvor e, com este dom, o poder de transformar o que era um psiquismo doentio gerador de sofrimento num gozo cheio de repouso e júbilo.

Afinal, de que adiantaria Goethe conhecer Gretchen, se não fosse para alcançar, através desta experiência concreta, o Amor pleno? Sendo o Amor a razão da existência de todos os seres, este seria o caminho da felicidade para o nosso autor: reconhecer na manifestação daquela imagem amável a idéia plena dessa beleza eternamente possuída no tesouro do Reino do Céu, e a amabilidade daquela outra singularidade que ele conheceu vestida com a forma que lhe atraiu inicialmente.

Goethe teria assim, a partir dessa sua experiência incômoda e sofrida, as mais seguras razões para amar a Deus e a Gretchen: a Deus por ter lhe dado as primícias de uma Beleza eternamente amável como parte da sua herança na Eternidade, e a Gretchen por poder apreciar a jornada dessa sua alma irmã por este mesmo mundo, sendo grato por aquele instinto fraternal dela, e desejando-lhe todo o bem na sua vida na Presença de Deus.

Porém, parece que o nosso autor começa a mostrar sua predileção pela Mistura, como tantos Filhos de Adão fazem. Se a Gretchen concreta, aqui e agora, não pode ser experimentada tal como ele a deseja experimentar, já não importa mais, pode ser desprezada nas suas boas intenções, ou até algo odiada por não ter correspondido ao desejo de Goethe. Isto é um sinal daquela traição ancestral do desejo de Poder contra o Amor.

As escolhas filosóficas iniciais de Goethe mostram essa tendência. Sua predileção pelo Estoicismo, por exemplo, evidencia esse fracasso espiritual. Prefere tornar-se mais resoluto e resistente, mais senhor de si mesmo, supostamente, do que obter uma compreensão profunda do sentido da sua experiência com Gretchen. A diferença é que o Estoicismo é mais atraente a uma alma orgulhosa, enquanto a admissão da amabilidade seja da imagem ou da realidade de Gretchen requereria a confissão de um estado precário, vulnerável e fraco que só poderia ser resgatado por um poder verdadeiramente divino. O homem que não encontra a salvação em Deus está fadado a fracassar na crença em si mesmo.

Observemos atentamente que dois erros se tornam possíveis, confirmando a Dialética do Ouroboros entre a Legitimação da Mistura ou a Negação do Limite, e isto já na experiência deste jovem Goethe: por um lado ele pode aceitar como trágico o fato de que a sua Apetição será em alguma medida sempre frustrada, o que lhe conduziria a um fatalismo e talvez a um desejo de domínio ou de sorte (as virtú ou fortuna de Maquiavel); e por outro lado ele pode se aprofundar nessa linha estóica de morte espiritual e avançar na negação da qualidade da graça experimentada até, talvez, chegar na rejeição de toda a realidade e de toda possível Apetição.

Mas deixemos estar por enquanto, porque o relato só alcançou por enquanto o começo da juventude do autor.

PRIMEIRA PARTE, Primeiro, Segundo, Terceiro, Quarto e Quinto livros do “De minha vida”, livro por Johann Wolfgang von Goethe

Aqui encontramos um texto muito mais agradável, espirituoso e fluido do que aquele de Viagem à Itália. O autor revela uma distância mais confortável dos fatos narrados, e nos encaminha com passos tranquilos pelos diversos eventos de sua vida. Não está mais preocupado em se tornar alguém, ou em fazer algo. Parece que só quer entender e isso reduz aquele estresse idiota da imaturidade.

Goethe tem uma memória admirável e uma vida interior profunda, sendo capaz de detalhar sentimentos sutis de décadas atrás. Certamente ele usou essa capacidade para enriquecer sua atividade literária.

Desde cedo revelou-se muito interessado em aprender, e foi bastante estimulado pelo pai nesse sentido. Também aprendeu muito da vida real pela proximidade com os centros de poder em Frankfurt, seja em tempos de paz ou de guerra. Viveu numa posição social privilegiada e soube aproveitar essa oportunidade para desenvolver-se pessoalmente.

Quando produz um primeiro testemunho direto de suas crenças fundamentais, revela-se algo politeísta. Se refere ao divino como “os Elohim”, os “filhos de Deus”. Sua leitura da Bíblia, portanto, é mais mitológica do que teológica, e mais ligada ao Gênesis do que ao Êxodo. Isso certamente estimulava a sua prodigiosa imaginação artística, mas significava um custo alto em termos de rigor teológico. A revelação mosaica mais valiosa sobre a essência de Deus foi preterida pela preferência de Goethe pelas imagens ancestrais da mitologia mais antiga. Parece que nosso autor prefere se arriscar com uma beleza mais fértil de imagens do que verdadeira num sentido rigoroso, e isso deve ter algo a ver com as disputas insuportáveis entre as “verdades religiosas” que assolaram a Europa durante muito tempo. Esse recuo mitológico era um jeito de escapar da atmosfera insuportável das disputas dogmáticas. Foi um recurso muito usado desde o fim da Idade Média, e que impulsionou as gerações ao Renascimento, ao Iluminismo, ao Classicismo e ao Romantismo.

Sua visão do que chama de “Religião Natural” demonstra o seu Naturalismo, tanto quanto sua ideia de “Religião Particular”, ou Revelada, é um testemunho humanista e tradicionalista. Goethe não só é fraco em teologia, como também em filosofia. O essencial nessas esferas de conhecimento lhe passa despercebido, embora ele seja uma alma sofisticada e capaz de grandes apreensões de sutilezas estéticas, como já falamos. Acontece que ele não terá recursos para escapar das tentações, seja da visão trágica (cacólatra), seja da visão ingênua, do mundo e da vida humana. E, assim, a mais profunda e verdadeira liberdade do Evangelho deve se manter indisponível para ele.

Seu testemunho de Ingenuidade com o mundo só não é pior porque é temperado por ceticismos particulares em áreas específicas. Seja no aprendizado da política, da religião, das regras literárias da Poesia, quando Goethe analisa as coisas detidamente, nos seus detalhes minuciosos, ele enxerga os limites ou mesmo os enganos das tradições humanas, e sua inteligência não o trai. Apenas ele não faz questão de extrapolar esse ceticismo para todos os âmbitos do conhecimento, ou seja, não aplica esse seu recurso como uma disposição geral da alma diante de toda a cultura humana. Para fazer isso teria que pagar o alto custo da renúncia aos ídolos da natureza e da humanidade, o que não lhe seria nada fácil.

A certa altura Goethe já se vê como um autor que divide a importância das coisas entre o público e o particular, quando por exemplo relata a ocasião da eleição e coroação do Imperador em Frankfurt, algo que ocorre em meio ao seu interesse privado e algo platônico pela bela Gretchen, que terminará de modo infeliz. A verdade mais pura seria a total indiferença ao espetáculo da soberba do mundo. O ideal seria nem tomar conhecimento de impérios e imperadores. Goethe não consegue fazer isso, ou não quer fazê-lo. Mas ao menos, melhor que Dante com sua Beatriz, Goethe confessa que mais lhe importava a companhia e a atenção da amada do que todos os cortejos imperiais do mundo. Não deixa de destacar o fenômeno dos brilhos mundanos, mas assume que o amor de Gretchen está acima disso tudo. Neste sentido é um poeta e artista mais romântico do que clássico, e seu testemunho, se não é mais puro, ao menos é mais sincero.

Minos, livro por PLATÃO

De todos os diálogos platônicos suspeitos e apócrifos, este pode ser o pior, ou mais distante do que costuma ser a linha normal de investigação do filósofo. Aqui Sócrates dialoga com um “Discípulo” a respeito do que é a Lei, e eles circularão entre a temática constante da diferença entre o que é o ser e o vir-a-ser: por um lado o que é a Lei deveria ser universal, para todos os tempos e lugares, por outro lado na experiência humana as leis concretas mudam e variam.

Imediatamente notamos a diferença entre Lei real e Lei ideal, e o caminho normal, tipicamente socrático, deveria ser o de observar que isso apenas reflete o estado natural de ignorância humana a respeito do que é o ideal, daí a precariedade daquilo que ele realiza.

Porém, no Minos a argumentação vai para outro caminho bem diferente. Torna-se um testemunho muito mais conservador e tradicionalista do que todos os outros já dados por Platão: a Lei verdadeira, de origem divina, deve ser rastreada na sua formulação histórica tal como tenha sido transmitida para os seres humanos nos seus contatos mais diretos com os deuses. Daí entra o mito de Minos, o Rei de Creta, que teria sido aluno pessoal de Zeus, com quem teria aprendido a verdadeira Lei que teria depois sido ensinada naquela nação e sido disseminada para outras, inclusive a Lacedemônia.

Mas o Discípulo questiona Sócrates (esse estranho Sócrates que geralmente tem mais dúvidas do que certezas, mas que mudou tanto de atitude neste diálogo) a respeito da má fama de Minos entre os atenienses, por ter sido considerado um Rei cruel e injusto. A resposta socrática é a que segue:

É uma pura defesa da Tradição Primordial contra uma suposta maledicência ateniense, o contrário do que me pareceria mais prudente supor, que os gregos modernos foram capazes de se verem mais livres do costume e questionar a suposta bondade de origem mitológica de Minos. Contra a defesa da bondade de uma Lei por sua mera antiguidade (argumento conservador-tradicionalista desse Sócrates), é o Discípulo quem por outro lado questiona a índole de Minos, esse suposto melhor legislador, e num ponto que pode ser crucial, e que já tinha sido levantado como prova da variância entre as leis dos vários Estados: justamente no pedido de tributo na forma do sacrifício de sangue de vítimas inocentes. Foi esse costume cretense que tornou odiosa a imagem de Minos em Atenas, e que serviu aos gregos de razão para questionar a legitimidade dessa autoridade antiga.

Parece-me que assim como já vimos na história da tradição bíblica, também na história da filosofia há uma pesada interferência de agentes usurpadores e manipuladores, que querem usar a boa fama de testemunhas fidedignas das coisas mais sagradas e divinas para transmitir a sua própria mentira que sustenta um bem determinado tipo de poder sobre o mundo. Não há nada de novo sob o sol.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção3
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade1
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,1

Hiparco, livro por PLATÃO

Este diálogo tem como tema a avidez, mas também poderia ser dedicado ao problema da hipocrisia, ou ainda mais profundamente, ao da inveja diabólica que detesta o amor ao que é bom, e que o acusa.

O tolo interlocutor de Sócrates, identificado apenas como “Discípulo”, tenta condenar a avidez humana como se esta fosse a origem do mal, mas se atrapalha todo quando precisa definir a avidez e não consegue escapar do desejo que o homem tem pelo que lhe é (ou parece) bom. Ora, mesmo que o ser humano se equivoque muito com relação ao juízo daquilo que é bom, ele não pode se equivocar no desejo do Bem, que é a forma mais absoluta e inegável do Ser. Todo contingente, na sua limitação, busca o que lhe completa, e essa é a sua incontornável causa final.

Sócrates termina o Hiparco com sentenças invencíveis:

O mais importante é observar como uma certa postura de virtuosismo e moralismo se pretende sábia, quando na verdade oculta uma cultura de morte, de negação da vida e do valor da vida, sob o disfarce da dissolução das ilusões do ego e do mundo, e promessas fantasiosas como de “visão beatífica”, “união mística”, etc.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção8
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

Segundo Alcibíades, livro por PLATÃO

Sócrates questiona o desejo de orar da parte de Alcibíades, fazendo notar como não é difícil que os seres humanos se enganem em seus pedidos, usando como exemplo extremo o caso de Édipo. Sua argumentação, cheia de valor espiritual, lembra a lógica do fiat voluntas tua, e da entrega à divina Providência como um todo.

Querendo deixar claro como o coração do homem pode ser enganoso em seus desejos, fala da ruína de tiranos e generais, mas também de pais e mães:

Em seguida, Sócrates empreende uma campanha de humilhação de Alcibíades. Este propõe que o problema humano é a ignorância, mas o filósofo então demonstra que a ignorância é benéfica aos seres humanos quando estes são maus. Isso não somente no nível pessoal, como quando alguém é privado da prática do mal por uma ignorância particular, mas também no nível coletivo quando todo um Estado é poupado da maior ruína por ter seus membros, incapazes de viver na virtude, serem ignorantes em tantas coisas que apenas piorariam sua situação (cogite-se o quanto a pobreza relativa dos brasileiros é uma bênção camuflada, dada a sua miséria moral). É mais uma colocação de alto valor espiritual, que nos faz lembrar de como Gênesis 3 constitui muito mais uma bênção do que uma maldição, considerando o bem maior.

Sócrates termina por persuadir Alcibíades de que é melhor este buscar a virtude do que o favor dos deuses com suas orações. Dá os exemplos dos espartanos que eram bem mais sucedidos com orações breves, e do sucesso dos gregos contra os troianos, já que estes, apesar de fazerem grandes sacrifícios e rituais de súplicas, eram odiados pelos deuses por suas ações.

Nota espiritual: 5,9 (Calaquendi)

Humildade/Presunção8
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,9