Hokutoumi

“Não andeis mais como andam os demais gentios, na futilidade dos seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da vida de Deus pela sua ignorância e pela dureza dos seus corações. Tendo-se tornado insensíveis, entregaram-se à dissolução.”

É notável que, ao contrário do que se presume pela pirotecnia religiosa, não existe unção mágica que funcione como hocus pocus cristão, e transforme subitamente o ser humano em outra coisa. O humano é caracterizado pela sua eminente liberdade de escolha. Não existe unção transformista. O pentecostes é um espírito de consciência e de libertação, não de alquimia. Se não fosse assim, qual seria a necessidade dos apóstolos pregarem para os batizados, exortando-os para manterem-se firmes na fé? Qual seria o sentido de Paulo confessar-se pecador pela carne, mas liberto pelo espírito? E mais, qual seria o sentido do apelo de Jesus pela perseverança da Igreja de Filadélfia, para que se mantivesse fiel até o fim? Ora, os apóstolos não precisariam exortar os ungidos, Paulo estaria livre do pecado na carne, e Filadélfia estaria salva de uma vez para sempre.

Mas não é assim. O cristão permanece tão livre quanto era antes de qualquer ritual que se possa imaginar. Sua conversão indica o ato interior de desejar a salvação pela fé em Jesus Cristo. É uma meta, um alvo, um objetivo. A salvação é uma esperança que se concretiza cada dia um pouco mais. Não é uma consumação num único instante; é uma realização contínua, como a namorada que se apaixona, e a noiva que se entrega e mantém-se na espera, até que se consuma o matrimônio. É no exercício da mesma liberdade que foi ocasião de perdição e traição de Deus que se confessa, se arrepende e se decide caminhar fielmente com o Criador em seu projeto.

É não só um contrassenso, como é até mesmo grotesco, imaginar que a comunhão espiritual com Deus tornaria o ser humano menos livre, como que robotizado, automatizado por uma programação espiritual que lhe retirou a liberdade. Isso significaria que a vida espiritual não seria a realização do ser humano na sua liberdade, mas a sua diminuição a uma categoria de animal. O Espírito Santo, ao contrário, aumenta a consciência de nossa liberdade, e nos estimula para que a mesma seja usada para a escolha do bem. Esta é a razão de estarmos aqui: para aceitarmos que não possuímos nem dominamos o bem, mas que podemos escolhê-lo livremente por fé no amor de Deus através de Jesus Cristo.

Dito isto, justifica-se a cultura cristã bíblica, e qualquer cultura adjacente de pregação da mesma, separada e alheia da cultura mundana, como o lembrete permanente e o estímulo para a conversão constante do homem que não só permanece livre, mas que se torna cada vez mais ciente de sua liberdade conforme se aproxima espiritualmente do Criador. É sem mentira e sem truques que se realiza a salvação. Ao mundo a conversão parece loucura e obscurantismo, mas a sabedoria se justifica a si mesma. Não é pela arte argumentativa que se convence o fiel, da mesma forma que não é irracionalmente que se confia na justiça da salvação. A sabedoria divina, aceita e recebida livremente, aplaina a psique humana, retirando a sujeira remanescente do humanismo antropocentrista, e faz sua própria construção em rocha firme, limpa, cristalina, inabalável.

A crença fatalista e determinista parece ser uma preferência diabólica. Daí as predileções por astrologia e artes divinatórias em geral. Inúmeras vezes se precisou condenar a ocultação da essência humana, a liberdade, origem do sagrado sacrifício de comunhão, a confissão diante de Deus e o arrependimento. Deus repreendeu aqueles que se diziam de raça boa, e mesmo contra os que declarou serem de malícia congênita deu até a última chance de arrependimento, fiel ao seu projeto. O ímpio que se confessa no último momento é absolvido, e o frequentador da piedade que adultera no último instante está condenado. Porque temos dois ladrões, e chamamos a um “bom ladrão” e ao outro “mau”, senão para reconhecer esse último grito da liberdade humana reconhecido e apreciado por Deus?

O convertido precisa ser lembrado de que não deve mais andar como andam os não convertidos. Batizado, ungido, virado de pernas para o ar, ou pendurado num lustre, seja o que for, o cristão permanece livre. Aliás, por ser cristão ele se tornou mais livre pela graça de Deus. Deve usar conscientemente sua liberdade para aceitar a inevitável separação que o amor a Deus requer. Deve separar-se do desastre humano, da congregação do Titanic espiritual que é a humanidade.

Os seres humanos espiritualmente separados de Deus andam na futilidade dos seus pensamentos. Essa pode não ser a natureza íntima do homem, mas é o seu hábito de nascido em cativeiro. A conversão mais profunda e emocionante não muda nem sequer o penteado do vizinho. Ele continuará a dizer barbaridades que poderão ser habitualmente aceitas e conformadas, bem ao modo do “cristão de domingo”. A tentação é a de não separar a mentalidade e o olhar sobre a própria vida, mas permanecer habituado à mistura e a fazer uma separação teatral em papéis sociais. A psique moderna que já tende a fragmentação apenas se dispersa ainda mais no cristão cheio de respeito humano: dá a cada um e a cada momento o que convém de acordo com um padrão de normalidade e decência social. Deus? Deus pode esperar. A salvação está “resolvida” para o ungido de carteirinha. Não é preciso ser inconveniente, não é preciso isolar-se, não é preciso calar-se, não é preciso passar por desajustado ou incompreendido. Isso é de tipos exóticos e meio amalucados como João Batista. O cristão humanista sabe separar as coisas na sua cabecinha de acordo com a mais rigorosa etiqueta social.

Todo esse malabarismo psíquico e essa farsa tendem à superficialidade espiritual e às acomodações mais corruptas. Nasce o cristão morno de Laodicéia, que está prestes a ser vomitado da boca de Deus.

Os pensamentos humanos, separados de Deus, são tolos e fúteis. São inúteis porque não alcançam a majestade divina no esplendor de seu amor. São pensamentos limitados kantianamente ao que é dominável pelo psiquismo humano, e portanto frustram a verdadeira vocação do homem. Pecar é errar o alvo: o objetivo era o amor, mas a pretensão humana antropocêntrica, travestida de modéstia, só alcança alvos mais baixos. A obsessão pelo mais útil e prático torna a vida humana como um todo inútil. Desconhecido o amor de Deus, origem e destino, fundamento e objetivo máximo, causa primeira e final de todo o ser, toda a utilidade das causas intermediárias do ser se torna vazia. Saúde, dinheiro, sucesso, fama, prestígio, reconhecimento, respeitabilidade social… tudo isso é, como sabemos, vazio e correr atrás do vento. Sem o amor, nada fica de pé. E com o amor, nada mais é necessário.

O amor é essa simplicidade divina irresistível e invencível que vai dobrar todo joelho no fim dos tempos. Mas como é mais fácil aceitar tudo antes! Que alegria Deus sente, que festa os anjos fazem, quando alguém aceita o amor no tempo de noivado e decide ser fiel.

O convertido deve olhar para o lado e observar claramente a futilidade do pensamento humano ao seu redor. Desde os assuntos mais prosaicos até as questões supostamente mais elevadas, tudo que não considera Deus é terminantemente fútil. O cristão sabe usar do mundo sem ser do mundo. Deve saber, portanto, diferenciar o pensamento prudente e obediente à contingência da vida, do pensamento fútil dos enclausurados do espírito. Papo de prisioneiros, conversa de cativos, tudo futilidade. Nenhuma palavra de humildade diante do Senhor, nenhuma palavra de agradecimento, nenhuma exortação de obediência, nem uma declaração de fé, nem uma defesa da esperança, nenhum louvor do amor. Nada, nada. Só futilidade. E quanto mais sofisticada e profunda, mais fútil é a mentalidade humana. Os homens endeusam a si mesmos e ao mundo, mas são incapazes de dirigir um segundo de respeito ao Criador de todas as coisas.

Ninguém vai perguntar se isso convém ou não. Jamais. A violência da estupidez humana não pede licença. Avança com confiança olímpica, propondo pautas, levantando preocupações, escolhendo suas tolas prioridades. Não adianta protestar. Não adianta pedir o direito de não ouvir, de não saber. A prostituta é feroz, e transforma os seus seduzidos numa horda violenta e incontrolável. A única resposta é a separação. O amor separa com seu santo ciúme, o seu direito à exclusividade.

Mas quem sai do mundo tem que ver se o mundo saiu de si. Os hábitos, grilhões invisíveis a que se foi acostumando desde a infância, são confortáveis ainda. Um descuido, um relaxamento, e a futilidade da vida sem Deus volta como que por mágica. Quanto mais sutil, maior é a batalha espiritual pela alma.

Em tempos modernos mal se pode calcular o quanto avançou o espírito do anticristo em suas redes de cadeias e pactos. É tão largo o caminho da perdição que se torna legítimo pensar que estamos a uns quinze minutos do fim. Mas Deus retém o desdobramento do mal até que se realize todo o seu plano. Neste tempo podemos, ainda que com alto custo social e psicológico, fazer nosso esforço de separação do mundo sem que com isso percamos o amor ao próximo e a sanidade.

O entendimento entenebrecido do mundo é múltiplo. Só existe um caminho verdadeiro, mas são infindáveis os errados. Isso sempre foi assim de algum modo, mas hoje é pior do que nunca. Múltiplas camadas de mentiras soterram o pobre coitado que não usa a proteção do Espírito Santo, aquele que retém poderosamente o espírito do anticristo. Não é possível desfazer o véu da mentira do mundo: só Jesus vai, pessoalmente, destruir o reinado da mentira.

Nosso único cuidado possível é o da fidelidade que não se confunde. Principalmente, não confunde amor ao próximo com simpatias e respeito humano. A vocação humana natural é para a escolha do bem e do amor, mas a vocação do hábito é a mentira. E mentem melhor aqueles que primeiro mentem para si mesmos. Fazendo um esforço medonho para encontrar razão num mundo caótico, alcançam a salvação do autoengano e se tornam, assim, possantes máquinas de mentir e enganar os outros. A maioria não faz por maldade, mas por ignorância. Mas ignorante ou não, a maldade é má e causa dano real. Nossa frágil psique, sem a robusta proteção da couraça da fé, é vítima indefesa diante das artes de engano ensinadas por essa velha sedutora, a grande prostituta. Quem poderá, por seus recursos, resistir a tamanho engano?

A rebelião de ingênuos os leva ao cativeiro mais profundo. O que começa como alienação da vida de Deus pela ignorância se torna malícia, dureza de coração. Não adianta: a vocação humana é espiritual. A livre escolha é inevitável, e aquilo a que escolhe amar o ser humano diviniza inevitavelmente. Crente da falta de ordem transcendental, o homem se entroniza, coloca-se no centro da realidade, substituindo sua própria consciência de liberdade pelo seu psiquismo, tornando seu arbítrio uma lei incontestável, limitando sua reflexão às dimensões da sua psique, rejeitando qualquer realidade espiritual que o ultrapasse. Com um tal coração petrificado, o doloroso caminho vai se desenhando: o caminho do adiamento da inevitável humilhação diante de Deus, que será ao fim cobrada com juros honestos.

Os insensíveis a Deus entregam-se à dissolução. Os elementos da criação, espiritualmente desconectados do seu fundamento e da sua justiça –isto é, do amor de Deus– se tornam forças dispersivas. O homem que busca o caos encontra o caos, tamanho é o poder de sua liberdade, e tamanho é o respeito de Deus por esse presente magnífico e ao mesmo tempo terrível.

Ironicamente, aqueles que buscaram originalmente escapar do arbítrio divino recusando a fé se tornam prisioneiros de seu próprio arbítrio impotente, se tornam os carrascos de sua própria condenação. Que doentia, a visão do masoquismo humano! Mas é preciso ter coragem de ver, de enxergar esse apego ao sofrimento e ao mal. Sim, a insensatez humana abraça o mal e o sofrimento como sua justiça pessoal, porque prefere crer nas trevas, no mal, na destruição e na morte. O apego voluntário e desnecessário ao sofrimento e ao mal deve ser encarado diretamente, para que o cristão possa enxergar claramente como é horrível separar-se do Criador, e como é sinistro o caminho da perdição que se inicia com convites despretensiosos.

Que não haja enganos. O caminho que começa sem Deus termina sem Deus. Quem dorme com uma prostituta, acorda com uma prostituta. Não se deve conceder nem o mínimo respiro de atenção à tolice das divagações humanas, da futilidade do pensar mundano.

O deserto com Deus é um oásis; todos os palácios do mundo inteiro, sem Deus, são o próprio inferno. De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder a sua vida?

Deus primeiro, Deus acima, Deus no centro, Deus em tudo, Deus por tudo. O amor é sempre suficiente. Que pode ofertar o mundo com suas distrações de circo e suas alturas de vôo de galinha, em comparação com a tenda de delícias que o Senhor nos oferece se nos sujeitamos a andar com ele?

E um mistério se estende pela eternidade: com Deus, de quem mais precisaremos? No fim todo amor será gratuito, porque é pura graça. Acabará toda a servidão, toda a mentira, todo o engodo. Seremos livres de nós mesmos, e só assim poderemos conhecer o amor verdadeiro.

Mas já podemos pedir ao Pai, em nome do Filho: livra-nos do cativeiro, e livra de nós os nossos cativos.

Liberdade!

Wakatakakage

“Como um jovem conservará puro o seu caminho? Observando a tua palavra. Eu te busco de todo o coração, não me deixes afastar dos teus mandamentos. Conservei tuas promessas no meu coração para não pecar contra ti. Bendito sejas, Senhor, ensina-me teus estatutos.”

A fórmula se inicia com o questionamento da conservação da pureza do caminho. Não existe pureza inata, ou garantida, na criatura. Ser criatura é possuir limitações que necessariamente a desqualificam infinitamente perante o ser de Deus. Se existe pureza, esta qualidade é perfeita no Criador, e imperfeita na criatura. A criatura possuirá uma vivência, ou experiência, a que chamamos “caminho”, e que poderá ter maior ou menor pureza. Isto decorre do contato entre as criaturas. Se só existisse uma criatura individualizada, esta seria sempre e perfeitamente completada pelo Criador, porque a criatura só conheceria o Criador e não seria submetida a qualquer possível erro de confusão com outras criaturas. As criaturas, em suas relações umas com as outras, porém, constituem a mistura de que se trata a experiência neste mundo, uma vivência que não necessariamente leva ao Criador (o que é a ilusão panteísta), e nem necessariamente o separa Dele (o que é a ilusão gnóstica). Existe, no entanto, uma predisposição à pureza, desde que se fala em conservação e não em conquista de pureza, e nem mesmo em aumento. Desde uma situação inicial de pureza ou inocência, é possível que essa qualidade seja mantida ou perdida. Mas, se não existe pureza inata na criatura, como se pode partir de uma pureza inicial? Esta certamente é dada, é dom de Deus. Portanto, desde um dom de pureza recebido do Criador, a criatura experimentará este mundo de mistura, em contato com outras criaturas com as quais poderá se relacionar indefinidamente, e com isso manter seu caminho puro ou impuro.

Quem é o jovem que poderá ou não manter seu caminho puro? É a criatura especificamente humana ainda não excessivamente cristalizada pela idade. É o ser humano jovem que exerce com mais largueza a sua liberdade de escolha. Não é impossível ao adulto ou mesmo ao idoso o exercício da liberdade, desde que, se é humano, é livre; mas é natural uma fossilização espiritual com o tempo, em decorrência da necessidade crescente de manter certa coerência com crenças passadas contra o risco da desmoralização e humilhação pessoal cada vez mais cara quanto mais for tardia (culminando na maior das humilhações, a conversão ao amor de Jesus somente na Segunda Ressurreição).

O jovem recebe o dom da pureza, ou inocência, podendo por seu livre exercício conservá-lo no decorrer de sua experiência neste mundo de mistura, ou deixar-se contaminar com a impureza do mundo. Este mundo existe exatamente para que esta escolha seja feita. Que necessidade tem o Criador de um mundo onde luz e trevas, bem e mal, se misturam, senão justamente a necessidade de que o bom seja separado do mau através do exercício da liberdade em meio à mistura? A criatura livre, ápice da criação, só poderá conhecer o amor eterno de Deus se o escolher livremente. Se lhe fosse dada exclusivamente a opção do bem e do amor, a criatura angélica ou humana não seria mais livre, ou seja, não seria o que é, pois teria a natureza inferior das criaturas não-livres. Deus, em sua magnânima sabedoria, preferiu uma criação onde a máxima felicidade fosse possível. Esta requer seres sofisticados em sua sensibilidade e subjetividade, requinte esse coroado pelo dom de liberdade que aumenta exponencialmente o desfrute da bondade e da beleza divina. A maior felicidade na criação comportará, assim, a existência de seres livres para conhecer e escolher o bem. Estas são as criaturas que mais conhecerão o amor de Deus, porque são as que mais podem recebê-lo. É com vistas ao maior amor possível que o Criador desejou a existência de seres livres para o rejeitarem, de modo que um mal e um sofrimento limitados sejam infinitamente compensados pelo amor eterno dos justificados em Jesus (anjos que o obedeceram, e humanos que nele creram, ou finalmente o aceitaram passada sua ignorância).

A mistura do mundo oferta às criaturas o espetáculo dispersivo da própria criação. Na relação das criaturas entre si, perdida qualquer referência ao Criador que as transcende, a consciência tende ao obscurecimento, à idolatria. O ser contingente, restrito a contemplação apenas do próprio ser contingente, será levado inevitavelmente ao absurdo da existência, e sua tendência será para a aniquilação. A criação sem o Criador equivale ao Nada, não se sustenta, não se justifica, não se completa, não se mantém. É na guerra da ignorância de Deus que as almas são disputadas para a sua destruição, de vez que já condenados ao nada eles mesmos, aos anjos caídos que recusaram Deus só restou a tarefa miserável de tentar o ser humano para que faça a mesma escolha tenebrosa.

Se não fosse o dom de uma certa pureza inicial, concedido generosamente a cada nova geração, a decadência e a putrefação espiritual contínuas seriam inevitáveis. Fiel às suas promessas e ao seu amor, Deus concede reiteradamente o dom de pureza como vocação elementar a cada nova geração. Curiosamente, não é o chamado pecado original que caracteriza a juventude com vocação fatal para a decadência, mas são os dons de pureza que marcam o potencial da vida, sendo o exercício de livre escolha pelo mal, pela mistura com o mundo, pela opção pelos ídolos e o afastamento de Deus, a recusa em manter aquela pureza que se não fosse originariamente conhecida, jamais poderia ter sido recusada.

Muita confusão já se produziu com idéias erradas a respeito do que é o homem em relação ao mal, e de qual é a origem do mal. Não há como sustentar nem que a natureza humana seja naturalmente perversa, nem que seja naturalmente boa. A natureza humana é constituída essencialmente pela liberdade. Deus dá o conhecimento da pureza através do coração, e o mundo dá o conhecimento da impureza através da mistura, mas é o homem que escolhe crer no bem ou no mal. O batismo como purificação de um pecado original involuntário faz tão pouco sentido quanto a antropologia que defende a pureza inata do ser humano. O pecado de separação de Deus é sempre voluntário, e só é possível porque os dois caminhos foram abertos: o da vida e o da morte, o do bem e o do mal. Não existe natureza humana inatamente pura ou impura, boa ou má; existe natureza humana livre para crer no bem ou no mal, no Criador ou na criatura.

A criatura não é perversa em si mesma, mas sozinha tende à perversão e ao aniquilamento. É o dom de Deus que sustenta o ser criado, que o mantém, que o purifica, e que o justifica no ato máximo do amor de Deus, o sacrifício de Jesus.

Como pode então o jovem manter puro o seu caminho? Observando a palavra de Deus. A liberdade é de buscar a sabedoria do mundo e dos homens, ou a sabedoria de Deus. O amor separa: o amor ao mundo e a sabedoria humana separa de Deus, e o amor a Deus e a sua palavra separa do mundo. O amor é ciumento, é justo, sem mentira e sem qualquer poluição. O amor a Deus é a fidelidade à promessa divina, vida de noivado, expectativa casta pelas núpcias. O amor ao mundo é a prostituição contra Deus, traição contra os votos de amor do Criador.

A palavra do mundo dos homens é morta, caduca, mentirosa, falsa, vazia, espetáculo doentio, miserável, horrível, louvor das trevas e do nada. A palavra de Deus é viva e vivifica, mantém-se firme para sempre, dá o testemunho verdadeiro e conduz ao bem imortal de Deus. Quando o homem pode lançar uma palavra verdadeira? Quando sua palavra é fiel à palavra de Deus, quando a aponta e recomenda, quando a elogia e louva.

A palavra de Deus é testemunhada pelas sagradas escrituras, mas obviamente a elas não está circunscrita: a palavra de Deus é viva porque Ele vive e reina para sempre. É a palavra viva do Deus vivo que decifra o testemunho verídico que se encontra na Bíblia. Sem a criptografia espiritual concedida por Deus, o testemunho bíblico permanece lacrado, confundido por toda sorte de misturas e confusões. Sem a tradução do Espírito Santo no coração do homem, o testemunho das escrituras morre como palavra humana, secreção religiosa, documento datado e vencido.

Observar a palavra de Deus é preferi-la ao testemunho dos homens. É fazer a escolha do amor que separa. E esta escolha é inevitável. Horroriza aos céus e às profundezas da terra que a vasta maioria dos seres humanos parece sempre viver errante, longe da palavra de Deus. Disso dão testemunho as gerações continuamente obstinadas com sua prostituição, proclamando repetidamente as falsas doutrinas humanas, religiosas e filosóficas, artísticas e científicas, seus costumes estúpidos e tradições hediondas, que declaram tudo menos a supremacia e suficiência da sabedoria do único Deus.

Quem decide não decidir já decidiu contra Deus. O que são o ceticismo, a neutralidade, o pragmatismo, o agnosticismo, etc., senão doutrinas humanas? O amor não falha. O homem foi feito para amar, e mais ama aquilo no que escolhe crer em seu coração. O desprezo de Deus é decisão espiritual. A dúvida fundamental, sobre a bondade do ser, é a antítese da fé. Contra o dom de Deus, a recusa da fé é o arbítrio humano do amor à dúvida, como se lhe coubesse contestar e trair a promessa que seu coração mais ardentemente deseja: a promessa do amor e do bem. O homem cheio de dúvidas é um traidor de si mesmo, sabotador de seu próprio coração. Tímido diante do mal, prefere confiar na malícia do que no amor. De seu coração emanam trevas; de sua boca, loucura e tolice.

O coração tímido é estulto. Ignora em sua estupidez que nenhum mal lhe seria evidente, nenhuma falha em toda a criação de Deus, se não lhe fosse natural o desejo do bem. Que acidente teria então criado tão maravilhosa criatura, que não só conseguisse proclamar o caos do ser, mas o fizesse a partir de uma expectativa de bem oriunda do mesmo caos original? A obstinação em recusar o Criador é cega para a própria origem de seu sentimento: a frustração da espera de um bem que jamais poderia ser concebido se não fosse uma promessa absolutamente natural que clama aos céus e perpassa toda a realidade. O amor é o fundamento de toda a criação, é a razão de nossa origem e o objetivo de nosso destino. O acolher das trevas é o abraço do vazio, ignorante da própria luz que projeta a miséria amada e que sem ela jamais poderia existir.

Como conservará puro seu caminho um jovem? Observando a palavra de Deus. Buscando-o com todo o coração. A iniciativa é humana: a busca é humana. A liberdade não conhece ociosidade, e a sede de sentido e ordem move a busca humana pelo nexo que lhe satisfará. Há um rombo enorme em todo ser humano: é o vazio destinado ao Espírito Santo de Deus. Quanto maior é o vazio em mim, maior é a promessa de que Deus habitará em mim. O ser mais completo é o mais fechado. E o ser mais vazio é o mais aberto. A força e a riqueza da criatura afastam o Criador, dispensam a completude divina, enquanto a fraqueza e a pobreza o atraem, como a esposa que corteja o seu marido. Mas toda potência da criatura é dom de Deus, de modo que a riqueza e a força são ilusões de suficiência, produtos da raiz daninha do orgulho. Não existe força nem riqueza diante de Deus. Quem, em toda a criação, poderá proclamar a dispensa do Criador? Somente aquele inflamado de orgulho, inchado com o fermento da soberba, que se vê muito mal e erra mortalmente.

Não foi por nenhum acaso que foi o mais alto anjo que se ensoberbou. Cheio de si, não teve olhares amorosos para Aquele que em tudo lhe superava infinitamente. Colocou sua riqueza entre si mesmo e o Criador, criou uma distância insuperável pela sua estupidez, opondo à gratidão do dom a ilusão da suficiência. O grande mal serviu de sinal a toda a criação: toda força afasta Deus, porque é mentirosa; é na fraqueza da criatura que se revela toda a verdade do amor divino e a razão profunda do ser.

A busca humana depende da sinceridade de coração, da verdadeira humildade. Sem a aceitação do vazio interior, sem a confissão de fraqueza, o homem imita a abominação luciferina. É com a recusa de todas as mentiras do mundo que se faz a confissão da necessidade de Deus, que se lhe clama verdadeiramente, abrindo o caminho do amor. A humildade é a chave do coração, o coração é a chave do amor, e o amor é a chave da vida. É ao derrotado, ao quebrantado, humilhado, rejeitado, ao separado do mundo, que Deus se revela e proclama seu amor eterno.

A busca de todo o coração não permite timidez. Não há dubiedade possível, divisão do coração, na procura de Deus. Ao mundo se vai com prudência, cuidando de separar o que é conveniente do que não é no meio da mistura e da confusão. Mas a Deus se vai com a confiança de filho nos braços paternos, sem reservas, sem intenções divididas. Ciumento, o Criador exige o que lhe é devido, a proclamação e reconhecimento de seu nome: o único que é. No meio da diversidade da criação, a criatura se confunde. Tenta medir o Criador pelas criaturas, pensa em colocar-lhe um limite, uma origem ou um fim, e na grande guerra da ignorância permite a instalação da dúvida fatal em seu coração.

A maldição gnóstica consiste em acreditar em tudo o que for necessário para não acreditar que só Deus é Deus. Mas a dúvida é um poço sem fundo, um abismo que se devora a si mesmo. Aquele que duvida crê na justiça da sua causa, cego de que requer para aceitar o Deus verdadeiro o impossível: que consiga enquanto criatura limitada apreender o Eterno que lhe transcende infinitamente. A dúvida é o oposto soberbo da humildade que aceita o mistério de Deus e não lhe recusa a fé. O profundo mistério do ser de Deus devora os corações tímidos e obstinados, e recompensa os corações que se rendem ao amor. O mistério é o mistério do amor, indecifrável. O amor nunca é vencido, ele vence. Nunca é dominado, domina todas as coisas.

O Altíssimo busca desde seu trono quem se renda ao amor, única chave da vida. Proclamou a soberania do amor para todo o sempre, e criou desafio tamanho que só o Filho de Deus mesmo, Jesus Cristo em pessoa, foi encontrado em toda a criação digno de abrir os sete selos do livro da vida. A criação está justificada para todo o sempre. Os amantes se rendem, aceitam, clamam e louvam. Os tímidos, obstinados em sua recusa, habitam nas trevas.

Como se mantém puro em seu caminho o jovem? Observando a palavra de Deus. Buscando-o de todo o coração, pedindo para que nunca esteja longe dos mandamentos divinos. O mundo prostituído, empesteado com toda sorte de idolatrias, é cheio de palavras de ordem e comandos. Regras de vida, filosofias, doutrinas, e todo tipo de pactos e acordos cobrem a face da terra. Quanto maior é o afastamento de Deus, tanto maior é a ousadia da proclamação da mentira. A pureza do caminho depende de que não se fique longe demais do comando de Deus. Deus, nunca violento, clamando com cuidado até na disciplina dos sofrimentos, oferece seus mandamentos vivos aos que não lhe recusam a fé. No vai-e-vem mundano, sem que Deus nos resgate constantemente de nossos desvios, nos perdemos irremediavelmente. É também dom divino que recuperemos a audição espiritual, que possamos ouvir o chamado do pastor que nos atrai para longe do abismo, para suas seguras pastagens. O mundo não deve ser só ignorado, mas deve mesmo ser desobedecido tão logo fique claro o seu desvio abominável da fidelidade a Deus.

O mandamento divino é vivo. Nada tem a ver com as tradições religiosas dos homens, que são a corrupção mesma da relação viva com o Deus vivo. O mandamento divino, em uma palavra, é o amor. O amor se desdobra em temor e humildade diante do Criador, e em justiça diante da criatura. Quem precisará de um livro de regras e costumes humanos, ou de uma contabilidade de pecados, se o primeiro amor a Deus não foi recusado? Quem precisará, cheio de temor, enquanto se banqueteia no amor divino, do lembrete peçonhento das víboras humanas? A Lei existe somente para os que a desobedecem, para o conhecimento do mal. O amor é repleto de graça, de cura, de abundância, de perdão. A pretensão religiosa é ridícula e motivo de riso alegre dos livres em Deus: suficientemente amados, nada lhes falta. Cheios de contentamento, os fiéis verdadeiros só aguardam o dia de uma vingança que não é deles: a vingança sagrada do Todo-Poderoso em sua reta e limpa fúria.

O jovem mantém puro o seu caminho observando a palavra de Deus, buscando-o de todo o coração e permanecendo perto de seus mandamentos. O justo conserva as promessas de Deus em seu coração para não pecar contra Ele. A prostituta oferece todos os dias a chance de substituir, em sua ilusão, os amores divinos. Sua lei é a força e a injustiça, a mentira e o ultraje, em suma, sua regra é a abominação de viver sem Deus. Nosso vazio interior aponta claramente para uma vida que nos falta. Enquanto o Senhor nos promete a eternidade de alegrias e nos sustenta com poderosos presentes de noivado, a prostituta nos vende a sua mentira ao preço da traição ignominiosa ao Criador.

A esperança irmana a gratidão e a completa. Todo o contentamento é justo, mas ao presente bem é somada a espera de um bem incalculável que se nos avizinha. Todo dia se pode observar as primícias do amor divino, sinais inconfundíveis de seu poder, de sua bondade, e de sua beleza. Quão pouco falta para a consumação do amor, as núpcias e o abrir das portas da eternidade de paz, felicidade e alegria eternas… e ainda assim há quem venda sua promessa de amor eterno por um prato de lentilhas. O segredo dos fiéis, porém, é que em seu coração a recompensa da fidelidade já se realiza com a candura e doçura de Deus. Que consolação maravilhosa, que regalo tremendo!

Quem faz comércio com a prostituta se torna ladrão. Seu negócio nunca vale a pena. Nunca consegue se esbaldar, sempre lhe falta e lhe escapa o que precisa. Nunca satisfeito, do comércio obscuro parte para o roubo e a violência. Acostuma-se com a mentira, rodeia-se de zombadores e espertalhões, e termina parte de uma quadrilha sanguinária e implacável, conhecendo a muda tristeza inconsolável do poder humano. O começo de seu erro foi não pedir. Não confiou na graça, não confiou no amor. Sem poder pedir o bem, preferiu conquista-lo. Trabalha, incansável, o pobre miserável, e quanto mais rico fica, mais se empobrece. Amou tudo o que há sobre a face da terra, mas nunca dignou-se a reconhecer o Criador de todas essas coisas e nunca dobrou sua nuca. Quer ter seu valor, quer ser honrado e digno, mas a única coisa de que se torna digno é de pena: porque exaltou todas as forças do universo, mas ignorou o amor. O amor, sozinho, sustenta a vida, é sua origem, razão, fundamento e destino. No meio do caminho se perderam os obstinados, e prosperam sem limites em seu masoquismo espiritual.

Só quem aceita receber o dom da esperança consegue dar as costas ao pecado. Não há figura mais direta para o amor do que o casamento: a noiva confia e espera o noivo, que lhe pagou o dote caríssimo e lhe sustenta com presentes que só começaram a anunciar o amor eterno.

Conserva o jovem a pureza de seu caminho observando a palavra de Deus, buscando com todo o coração, permanecendo sempre perto dos mandamentos, conservando as promessas do amor para não pecar contra seu Criador. E o Senhor é bendito, é clamado para ensinar seus estatutos. Estes não precisariam ser ensinados por Deus se dependessem da ação humana. Deus não nos dispersa na confusão do mundo. Como poderíamos mantermo-nos fiéis, se tivéssemos que aprender de homens como é que se agrada ao Criador? Com os homens se aprende a obedecer e louvar os próprios homens. É apenas o testemunho verdadeiro, que enaltece o Criador e convida as criaturas a experiência direta de seu amor, que justifica a palavra humana.

É o Senhor mesmo quem ensinará a cada um que não lhe recusa a fé o devido cumprimento de seus desejos, seus estatutos vivos, na simplicidade e poder do Espírito Santo. De nossa parte, damos apenas o testemunho aos outros dessa tremenda sabedoria, desse tremendo poder. E desse tremendo amor. Nem ousamos explicar realmente nada, só apontamos e clamamos: vejam, esse é o Senhor.