SINOPSE: O Livro de Mórmon narra a história de duas grandes migrações ao continente americano: a família do profeta Leí, que deixa Jerusalém em 600 a.C. e estabelece-se nas Américas, dividindo-se posteriormente em duas nações rivais, os nefitas (justos) e os lamanitas (rebeldes); e uma civilização ainda mais antiga chamada jaredita. A narrativa concentra-se nos ciclos repetidos de retidão, prosperidade, orgulho, apostasia e destruição experimentados pelos nefitas ao longo de mil anos, culminando na visita pessoal de Jesus Cristo ressuscitado aos sobreviventes de grandes catástrofes ocorridas na época de sua crucifixão em Jerusalém, quando ele estabelece sua igreja entre eles, prega o evangelho e realiza milagres. Após séculos de alternância entre períodos de paz e guerra, os nefitas finalmente sucumbem à iniquidade e são aniquilados pelos lamanitas em batalhas finais por volta de 421 d.C., restando apenas Morôni, que compila e sela os registros de seu povo em placas de ouro posteriormente entregues a Joseph Smith em 1827 para tradução. A obra apresenta-se como testemunho adicional de Jesus Cristo, escritura complementar à Bíblia que restaura verdades perdidas, estabelece as Américas como terra de promissão central no plano divino e profetiza a restauração do evangelho nos últimos dias através de um jovem vidente que traria à luz estes registros antigos como preparação para a segunda vinda de Cristo.
Vamos deixar claro desde o início que a historicidade de relatos religiosos nunca teve muita importância no meu sistema, nem na minha visão de mundo. A verdade do sentido da vida humana deve ser tão universal que o seu entendimento possa prescindir da fatualidade de qualquer relato particular. Como já disse, Jesus Cristo poderia ter descido de uma nave espacial vinda do planeta Marte. Isso não muda a veracidade do Evangelho que é a sua essência espiritual que revela a verdade sobre o Ser, especificamente o Amor divino como causa final de todas as coisas. Dito isso, não me interessa saber o que o Livro de Mórmon diz a respeito de supostos acontecimentos. Só quero saber qual é a moral de história. O que já repugno de imediato é essa noção de povos justos e rebeldes. Isso já viola a Soberania da consciência humana, e a vida do indivíduo diante de Deus. É um testemunho do bolchevismo espiritual, e de Idolatria. Mas vamos deixar estar por enquanto e ver onde isto chega.
ANÁLISE: A obra apresentada ao mundo por Joseph Smith em 1830 como tradução de placas de ouro encontradas no estado de Nova York constitui um dos documentos fundacionais mais singulares da tradição religiosa norte-americana, estabelecendo simultaneamente uma narrativa histórica paralela às escrituras canônicas cristãs e uma teologia radicalmente nova sobre o destino do continente americano no plano divino. O Livro de Mórmon, que Smith afirmou ter traduzido mediante instrumentos divinatórios e poder revelador, propõe-se como testemunho adicional de Jesus Cristo, ampliando a geografia sagrada para além do Oriente Médio e inscrevendo as Américas no coração mesmo da história da salvação. Ao fazê-lo, a obra não apenas complementa a narrativa bíblica, mas reorienta o próprio sentido da revelação cristã, situando o Novo Mundo como cenário de manifestações divinas tão significativas quanto aquelas registradas nos evangelhos canônicos.
Não existe geografia sagrada. Que Jesus tenha nascido na Palestina e morrido na cidade de Jerusalém, é uma escolha que tem significado histórico e profético apenas num contexto maior da Revelação do Evangelho, especialmente o confronto com a tradição judaica. Em outros termos: o Evangelho não é judaico, nem oriental, ele é tão universal que valeria até para os ETs da galáxia de Andrômeda, ou pessoas que vivem em outras dimensões ou universos paralelos. Se não for isso, então não tem valor maior que o resto, e daí tanto faz a porcaria em que cada um quiser acreditar, pois o conteúdo se torna indiferente à essência das coisas.
A estrutura narrativa do livro apresenta-se como crônica de civilizações antigas que teriam habitado as Américas entre aproximadamente 600 a.C. e 421 d.C., organizando-se em torno de múltiplos registros genealógicos e proféticos compilados por sucessivas gerações de escribas-profetas. A narrativa principal concentra-se na migração de Leí, profeta hebreu contemporâneo de Jeremias, que teria deixado Jerusalém pouco antes de sua destruição pelos babilônios, conduzindo sua família através do oceano até alcançar o continente americano por direção divina. Desta genealogia original derivam-se duas nações rivais: os nefitas, descendentes do filho obediente Néfi, e os lamanitas, descendentes do rebelde Lamã, cujo antagonismo constitui o eixo dramático e teológico central de toda a obra. Essa divisão não é meramente étnica ou política, mas representa a manifestação histórica da eterna tensão entre obediência e rebeldia, fé e apostasia, luz e trevas, organizando o tempo histórico segundo uma lógica rigidamente providencial onde cada ascensão ou queda civilizacional reflete diretamente a fidelidade ou desvio do povo em relação aos mandamentos divinos.
Ou seja, o Livro de Mórmon segue o que há de pior na Bíblia, que é essa tradição fetichista, idólatra e racista que vem de uma das interpretações possíveis do relato bíblico. A consciência humana, fenômeno excepcional que reflete a criação humana como feita à imagem e semelhança de Deus, é uma realidade individual. Tanto assim, que na minha filosofia cristã eu uso o conceito da Mônada para explicar não só o ser humano, mas o próprio ser divino. Nós respondemos perante Deus através da nossa consciência individual. Foi essa responsabilidade que Jesus Cristo nos trouxe com o Evangelho. Não adianta participar de um grupo de “salvos”. Isso é uma fantasia, uma farsa, e é o desprezo do verdadeiro sagrado que é a vida de cada um na Presença de Deus.
O que distingue teologicamente o Livro de Mórmon das escrituras tradicionais cristãs é sua insistência na manifestação pessoal e corpórea de Cristo ressuscitado aos povos americanos, evento narrado como clímax absoluto da obra e justificação última de toda a narrativa precedente. Segundo o relato, após sua ressurreição em Jerusalém e ascensão aos céus, Jesus Cristo teria aparecido aos nefitas reunidos no templo, permitindo que tocassem as marcas dos cravos em suas mãos e pés, estabelecendo entre eles uma igreja organizada segundo o modelo apostólico, ministrando sacramentos e pregando doutrinas que ecoam e por vezes expandem os ensinamentos registrados nos evangelhos sinóticos. Esta aparição transforma radicalmente a compreensão do alcance da missão crística, sugerindo que a expiação não conhece limites geográficos e que o Cristo ressurreto não pertence exclusivamente à tradição mediterrânea, mas manifesta-se onde quer que existam “outras ovelhas” não pertencentes ao rebanho de Israel. A implicação teológica é profunda: a revelação cristã não se encerra nos limites do mundo conhecido pela tradição europeia, mas estende-se a toda a humanidade dispersa, antecipando uma eclesiologia verdadeiramente universal que somente na modernidade restauracionista poderia ser plenamente compreendida.
Claude está puxando o saco dos mórmons, ou pelo menos evitando uma análise crítica. A Salvação jamais foi restrita a um espaço geográfico. Se os povos norte-americanos, ou segmentos seus, pensaram que precisavam de uma reiteração territorial de uma Revelação divina para que eles se sentissem atrelados a ela, isso só revela a sua pequenez e mesquinhez de pensamento. Sobre o Evangelho não estar restrito às ovelhas da casa de Israel, isso Jesus mesmo, e outros Apóstolos, deixa muitíssimo claro, acima de qualquer dúvida, no Evangelho que já conhecemos. A respeito da liberdade com relação às tradições como a judaica ou a católica romana, isso é viável independentemente dessa narrativa sobre a visita de Jesus ao território da América, como muitas interpretações evangélicas deixam notar claramente. Então não há motivo para se ter que produzir esse tipo de testemunho, a não ser que fosse uma Revelação de fato, o que teria que se justificar por razões espirituais, e não históricas, como já expliquei (como ocorre aliás quaisquer apócrifos). Então ainda estou esperando para entender qual é a divergência espiritual.
A dimensão profética do Livro de Mórmon articula-se em dois níveis temporais simultâneos: as profecias internas ao próprio texto, pronunciadas por personagens antigos sobre eventos futuros de sua própria linha temporal, e as profecias sobre os últimos dias, que apontam precisamente para a época em que o próprio livro viria à luz através de Joseph Smith. Esta estrutura profética autovalidante é essencial para a reivindicação de autenticidade da obra, pois figuras como Néfi, Jacó e Mórmon não apenas prenunciam a vinda de Cristo às Américas, mas também predizem com notável especificidade o aparecimento de um jovem vidente nos últimos dias que restauraria o evangelho perdido, traduziria registros antigos e prepararia o caminho para a segunda vinda do Salvador. A profecia torna-se assim mecanismo de autenticação: o Livro de Mórmon contém profecias sobre sua própria descoberta e tradução, criando um círculo hermenêutico onde a existência do livro confirma as profecias nele contidas, e as profecias justificam a necessidade de sua preservação e revelação no momento historicamente determinado. Esta lógica temporal complexa reflete uma concepção de história como desdobramento progressivo de um plano divino onde passado, presente e futuro entrelaçam-se numa trama providencial cuidadosamente orquestrada.
Novamente, não encontramos nada que importa aqui. Apenas motivos para a suposta validade histórica do relato, que não me interessa, como já expliquei.
O conceito de apostasia e restauração permeia todo o tecido teológico da obra, estabelecendo um padrão cíclico que se repete tanto nas civilizações antigas descritas quanto na história do cristianismo posterior aos apóstolos. Os nefitas experimentam repetidamente períodos de justiça seguidos por prosperidade, orgulho, iniquidade e consequente destruição ou cativeiro, apenas para arrependerem-se e iniciarem novo ciclo ascendente. Este padrão não é mera observação sociológica, mas constitui lei espiritual fundamental: a apostasia conduz inevitavelmente à perda de conhecimento revelado, à corrupção doutrinária e à eventual destruição temporal e espiritual. A narrativa sugere que o mesmo processo ocorreu com o cristianismo primitivo após a morte dos apóstolos, quando ordenanças essenciais foram alteradas, doutrinas corrompidas e a autoridade sacerdotal perdida, necessitando uma restauração integral nos últimos dias através de nova revelação. Joseph Smith emerge nesta economia salvífica como restaurador divinamente comissionado, não mero reformador que ajusta estruturas existentes, mas profeta através de quem toda a plenitude do evangelho, incluindo autoridade, ordenanças e conhecimento celestial, é novamente estabelecida sobre a terra.
Ok, mas qual é o conteúdo dessa doutrina supostamente restaurada? Ainda ficamos na mesma situação, por enquanto…
A concepção escriturística que o Livro de Mórmon promove desafia radicalmente o princípio protestante de sola scriptura, não por rejeitá-lo, mas por expandir indefinidamente o que constitui escritura legítima. A obra apresenta-se explicitamente como complemento necessário à Bíblia, suprindo doutrinas que teriam sido removidas ou corrompidas ao longo da transmissão textual, esclarecendo ambiguidades e restaurando “coisas claras e preciosas” perdidas. Mais significativamente, estabelece o princípio de que Deus não cessa de falar, que a revelação não se encerrou com o Apocalipse de João, e que novas escrituras podem e devem surgir conforme a humanidade progride e novas dispensações são inauguradas. Esta abertura revelacional fundamenta toda a estrutura da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, justificando não apenas o Livro de Mórmon, mas também revelações subsequentes recebidas por Smith e sucessores, além de possibilitar a contínua expansão do cânone sagrado. A escritura torna-se assim não arquivo fechado do passado, mas processo dinâmico através do qual a vontade divina se manifesta continuamente à humanidade conforme esta se torna capaz de receber e suportar maior luz e conhecimento.
A idéia de que a Revelação não é interrompida com o cânone bíblico não é uma novidade. Na verdade, é a doutrina da própria Igreja Católica que assume o papel de revelar ao mundo o que Deus lhe ordena conforme a sua autoridade baseada na sucessão apostólica. E a noção mesma de que a Palavra de Deus estaria contida exclusivamente no texto bíblico é bastante tosca. O que o conceito reformista da sola scriptura trouxe foi o contraste entre a autoridade do relato bíblico, e o da tradição da Igreja Católica. Isto era necessário, e nesse contexto o conceito funcionou bem. Mas ninguém pode impedir que Deus se revela e quem quiser, do jeito que quiser, inclusive ao Sr. Smith. Eu não teria problemas com isso, por mais maluca que me pareça essa história. Mas, de novo, qual é a doutrina? Isto é o que me interessa, até para atestar o valor da suposta Revelação. Porque Jesus nos ensinou que pelos frutos conhecereis a árvore. Preciso dos frutos para julgar a qualidade do testemunho.
A questão da historicidade do Livro de Mórmon permanece central tanto para defensores quanto para críticos da obra, pois Smith apresentou-a inequivocamente como registro histórico autêntico e não como alegoria teológica ou ficção edificante. A reivindicação de que civilizações complexas, algumas com milhões de habitantes, guerrearam em territórios americanos deixando registros escritos em “egípcio reformado” exige evidências arqueológicas, linguísticas e genéticas que estudiosos críticos consideram ausentes ou contraditórias. A defesa apologética mobiliza interpretações arqueológicas alternativas, estudos de quiasmo e estruturas poéticas hebraicas supostamente presentes no texto, análises de nomes próprios e topônimos, além de argumentos sobre as limitações da arqueologia americana. Contudo, a questão transcende mera verificação empírica, pois toca o próprio estatuto epistemológico da revelação religiosa: pode o testemunho espiritual validar reivindicações históricas independentemente de confirmação externa? A tradição mórmon tradicionalmente responde afirmativamente, sustentando que a confirmação espiritual através do Espírito Santo constitui conhecimento superior e mais confiável que evidências materiais sempre sujeitas a reinterpretação. Esta posição reflete epistemologia revelacional onde a fé não se opõe ao conhecimento, mas representa forma superior de cognição, acesso direto à verdade divina não mediado por processos racionais ou empíricos falíveis.
A validade que o Espírito Santo confere à doutrina depende de um juízo que prescinde da historicidade. Se este é o caso, então porque Smith teve que se dar ao trabalho de justificar a validade histórica da origem do relato? Por exemplo, pela da validação espiritual o autor poderia ter dito que tal e qual doutrina lhe foi anunciada diretamente, sem precisar apelar para toda essa história. Quer dizer, parece que há oferta de coisas diferentes para públicos diferentes, seja para quem quer conferir a veracidade histórica, seja para quem quer conferir a veracidade espiritual. Pois bem, sou do segundo tipo, cadê a minha doutrina?
O destino final dos nefitas, aniquilados pelos lamanitas em batalhas apocalípticas que teriam culminado aproximadamente em 421 d.C., serve como advertência escatológica e confirmação teológica do padrão apostasia-destruição que permeia toda a narrativa. Mórmon, general e profeta que teria compilado os registros de seu povo nas vésperas de sua extinção, e seu filho Morôni, último sobrevivente que teria selado as placas e as escondido no monte Cumora, emergem como figuras trágicas cuja missão transcende sua própria época. Morôni, retornando como ser ressurreto para entregar as placas a Joseph Smith quatorze séculos depois, conecta o passado antigo com os últimos dias, estabelecendo continuidade entre dispensações e confirmando que o plano divino opera através de longas extensões temporais incompreensíveis para perspectivas humanas limitadas. A destruição dos nefitas não representa fracasso divino, mas demonstração pedagógica dos custos inevitáveis da apostasia, advertência solene para os gentios dos últimos dias que, ao receberem o Livro de Mórmon, recebem também responsabilidade proporcional ao conhecimento adquirido.
E qual é esse conhecimento, meu Deus do Céu?
A dimensão nacionalista americana presente implicitamente na teologia do Livro de Mórmon não pode ser ignorada, pois a obra sacraliza o território americano como terra de promissão, escolhida desde a fundação do mundo para sediar eventos cruciais da história da salvação. As profecias sobre gentios que viriam à terra prometida, estabeleceriam nação livre e poderosa, e através da qual o evangelho seria restaurado e levado a todas as nações, ressoam inequivocamente com a narrativa do excepcionalismo americano e do destino manifesto. Esta convergência entre teologia revelada e identidade nacional emergente no século XIX americano sugere que o Livro de Mórmon articula, em linguagem religiosa, ansiedades e aspirações de uma jovem nação buscando legitimação histórica e significado transcendente. Ao postular raízes antigas e divinas para a ocupação europeia das Américas, ao apresentar indígenas como descendentes degenerados de civilização outrora próspera e ao centralizar os Estados Unidos na economia escatológica global, a obra opera simultaneamente como texto religioso e como mito fundacional nacional, oferecendo aos americanos papel protagonista no drama cósmico dos últimos dias.
Ainda não li o que eu queria ler, mas já dá para tirar outras conclusões desabonadoras pelo que foi dito neste segmento. Primeiro, se o livro é de 1830 e os indígenas são apresentados como “descendentes degenerados”, isso poderia servir para justificar alguma ação político-militar no seu contexto histórico. Afinal, como supostos cristãos poderiam praticar genocídio se não fossem autorizados por Deus, como uma repetição da ordem divina contra Amalek? Bem suspeito, mas isso teria que ser verificado historicamente. Segundo, se os Estados Unidos têm um papel crucial nos tempos escatológicos, é provavelmente mais como nação governada por maçons comprometidos com o projeto da reconstrução do Templo de Salomão em Jerusalém, onde deve ser entronizado o Anticristo. Nada para se orgulhar muito, portanto. O evangelismo exportado dos EUA não é de todo ruim, mas a maior parte me parece ser vinculada a essa agenda, entre outras mais banais, como do enriquecimento dos pastores às custas das ovelhas, por exemplo.
As implicações soteriológicas do Livro de Mórmon expandem-se muito além do que aparece em sua narrativa superficial, pois a obra estabelece fundamentos doutrinários posteriormente desenvolvidos em revelações adicionais de Smith, particularmente concernentes à natureza da expiação, o destino pós-mortal da humanidade e as condições para salvação. A ênfase em ordenanças como batismo, imposição de mãos para recebimento do Espírito Santo e participação sacramental não representa mero ritualismo, mas reflete compreensão de salvação como processo que exige tanto graça divina quanto participação humana ativa através de convênios formais. A doutrina da expiação apresentada, especialmente nos sermões atribuídos a Cristo durante sua visita americana e nos discursos de profetas nefitas, enfatiza simultaneamente a absoluta necessidade do sacrifício vicário de Cristo e a responsabilidade individual de arrepender-se, ser batizado e perseverar em obediência, evitando tanto o legalismo quanto a noção de graça barata que dispensa obras. Esta tensão produtiva entre graça e obras, fé e obediência, dom divino e esforço humano caracteriza a soteriologia mórmon e distingue-a tanto do calvinismo quanto do pelagianismo, propondo síntese onde salvação é conquista cooperativa entre divindade e humanidade.
Isso é uma ofensa à Graça que salva de modo exclusivo. Nossa parte é a aceitação com todas as implicações decorrentes disto, de modo que existem dois tipos de Obras humanas: aquelas ligadas à Humildade, à rendição perante a Graça, e abstenção de participação na maldade do mundo (o comércio do Amor pelo Poder); e aquelas ligadas à Presença, que é a atividade consciente de em tudo na vida colocar Deus em primeiro lugar, e o próximo em equivalência ao nosso próprio interesse. Essa é a obra humana: ser humilde e viver na Presença. A parte ritualística da religiosidade é uma excrescência, uma secreção supersticiosa, fetichista e idólatra, ou, na melhor hipótese, uma prática sentimental que satisfaz as emoções de piedade, etc.
O Livro de Mórmon conclui com promessa solene de que qualquer pessoa sincera que leia a obra, pondere sobre ela no coração e pergunte a Deus com fé genuína receberá testemunho espiritual de sua veracidade através do poder do Espírito Santo. Esta promessa de Morôni transfere a autoridade epistemológica final da verificação externa para a experiência espiritual individual, democratizando o acesso à verdade religiosa e posicionando cada leitor como potencial testemunha imediata da autenticidade do livro. Milhões de adeptos ao longo de quase dois séculos testemunharam ter recebido tal confirmação espiritual, experiência que para eles valida definitivamente a obra independentemente de objeções históricas, linguísticas ou arqueológicas. Esta epistemologia revelacional, onde conhecimento espiritual direto supera argumentação racional, caracteriza fundamentalmente a tradição mórmon e explica tanto sua notável capacidade de conversão quanto a incompreensibilidade mútua frequente entre crentes e críticos, operando como operam em registros epistemológicos radicalmente distintos e em grande medida incomensuráveis.
Não é Morôni que transfere a autoridade da verificação para o indivíduo, é o Espírito Santo de Deus que nos dá o dom da Soberania. A responsabilidade é sempre nossa, como sempre foi e sempre será. Cada religioso responde diante de Deus por crer no que acredita. Se os mórmons precisam lembrar a sua clientela disso, é apenas porque a sua autoridade não pode se basear numa tradição histórica mais antiga. Porém, acabamos sem um conteúdo doutrinário mais explícito, o que torna quase impossível fazer uma análise do livro. Vou perguntar o seguinte ao Claude: “1) além de todo o relato histórico do livro, existe alguma exposição doutrinal mais detalhada a respeito do que foi dito acima (“a obra estabelece fundamentos doutriná-rios posteriormente desenvolvidos em re-velações adicionais de Smith, particular-mente concernentes à natureza da expia-ção, o destino pós-mortal da humanidade e as condições para salvação”)? 2) Se sim, qual é essa doutrina?” Vejamos.
Sim, o Livro de Mórmon contém exposições doutrinais explícitas e sistemáticas que vão muito além da mera narrativa histórica, apresentadas principalmente através de sermões extensos pronunciados por profetas-teólogos como Néfi, Jacó, o rei Benjamim, Abinádi, Alma e o próprio Cristo durante sua manifestação americana. Estas passagens doutrinais não são digressões ocasionais, mas constituem núcleos teológicos densos onde questões fundamentais sobre salvação, expiação, fé, arrependimento, batismo, ressurreição e julgamento final são tratadas com rigor conceitual considerável. O segundo livro de Néfi, por exemplo, contém extensas reflexões sobre livre-arbítrio, a necessidade da queda de Adão para que a humanidade pudesse existir e progredir, e a relação entre lei, graça e justiça divina. O discurso do rei Benjamim em Mosiah articula uma das exposições mais completas sobre a expiação de Cristo encontradas em toda a obra, enfatizando a condição caída natural do homem e a absoluta dependência da graça divina para salvação, enquanto simultaneamente exige mudança de coração e renascimento espiritual como evidência de fé genuína.
Muito bem, já temos duas aberrações espirituais para analisar aqui. Para começar, se a Queda de Adão é necessária, então ele não tem culpa de nada, pois não poderia agir diferente do que agiu, e se não tem culpa então a punição estabelecida nos Decretos de Gênesis Capítulo 3 são vazios, um teatrinho, uma palhaçada, e não uma reação legítima de Deus diante da vontade livre do homem. Em segundo lugar, o que significa que a humanidade devesse “progredir”. O que é esse conceito teológico de progresso? Me parece uma reinserção retroativa da doutrina dos Filhos de Adão, descendentes da Traição ancestral, na forma de mandamentos divinos. Quando Deus fala que o homem deve ir dominar a Terra, esta já é uma profecia considerando a ação humana, obviamente, porque Deus é Eterno, Ele não precisa mandar fazer uma coisa para então descobrir que faremos outra. Já sobre a condição “caída natural”, é ambígua. Trata-se de uma natureza decaída, ou de que a Queda é natural, como reflexo de uma vontade divina? Não ficou claro, mas pela bobagem que se falou a respeito de Adão, é possível que seja a interpretação do segundo tipo.
Quanto à doutrina específica, o Livro de Mórmon estabelece vários princípios teológicos distintivos. Primeiro, a expiação de Cristo é apresentada como infinita e eterna, aplicável retroativamente a todos que viveram antes de sua encarnação e prospectivamente a todos que viverão depois, operando através da fé antecipada ou retrospectiva em seu sacrifício vicário. A obra enfatiza que Cristo sofreu não apenas pelos pecados da humanidade, mas também por todas as dores, enfermidades e aflições humanas, capacitando-o a socorrer perfeitamente aqueles que sofrem porque ele mesmo experimentou tudo. Segundo, o livro articula claramente a doutrina da ressurreição universal e corpórea de toda a humanidade, independentemente de mérito, como dom incondicional da expiação que restaura corpo e espírito em estado imortal perfeito. Terceiro, estabelece distinção crucial entre salvação (ressurreição universal) e exaltação (vida eterna na presença de Deus), sendo esta última condicional à fé, arrependimento, batismo, recebimento do Espírito Santo e perseverança em obediência até o fim.
Vamos por partes. Sobre a expiação de Cristo ter validade para todos os tempos, essa não é uma doutrina mórmon, é uma idéia bem antiga compartilhada por várias igrejas cristãs. Mas é claro que aqui se considera, tanto quanto que Adão tinha que pecar, que Jesus tinha que morrer, então os mórmons se incluem nas religiões pagãs que cultuam através do sacrifício de sangue. Sobre a ressurreição da humanidade como um todo, isto também é parte da interpretação das religiões cristãs na sua maioria, pois o Evangelho menciona explicitamente uma Segunda Ressurreição da qual ninguém ficaria de fora. Não está claro, porém, qual é o destino daqueles que ressuscitam, mas não “exaltam” a Deus, ou seja, que não participam da religião mórmon. Seria o Inferno? Veremos se isto é mencionado, para completar o bingo das traições religiosas contra o Evangelho.
A obra desenvolve extensamente a doutrina do livre-arbítrio como princípio fundamental da existência mortal, argumentando que a oposição entre bem e mal, luz e trevas, é necessária para que exista genuína agência moral, e que a mortalidade constitui estado probatório onde escolhas livres determinam destino eterno. O profeta Leí ensina explicitamente que os homens são livres para escolher liberdade e vida eterna através de Cristo ou cativeiro e morte através do diabo, e que esta liberdade de escolha é essencial ao plano divino. Relacionado a isso, o Livro de Mórmon rejeita predestinação absoluta, afirmando que Deus conhece antecipadamente todas as escolhas humanas sem que isso elimine a genuína liberdade dessas escolhas, posição que antecipa o arminianismo presente na teologia mórmon posterior.
Aqui não tenho nada a obstar. Se isto foi ensinado pelo tal profeta Leí ou não, de qualquer modo me parece a doutrina divina.
Sobre o destino pós-mortal, a obra apresenta geografia espiritual detalhada do mundo após a morte. Ensina que todos os espíritos, ao deixarem o corpo mortal, vão para um mundo espiritual dividido entre paraíso (para os justos) e prisão espiritual (para os iníquos), onde aguardam a ressurreição. Este estado intermediário não é final, mas temporário, e mesmo os espíritos aprisionados podem arrepender-se e progredir se aceitarem o evangelho pregado a eles no mundo espiritual, doutrina que estabelece fundamento para a posterior prática mórmon do batismo vicário pelos mortos. Após a ressurreição, ocorre julgamento final onde as pessoas são designadas a diferentes graus de glória conforme suas obras e desejos, embora o Livro de Mórmon não detalhe os três reinos de glória (celestial, terrestre e teleste) que Joseph Smith posteriormente revelaria em Doutrina e Convênios.
Parece que os mórmons acreditam em algo análogo ao Purgatório católico. Isto não é necessário para que haja uso suficiente da Liberdade, na Segunda Ressurreição, para escolher o Bem. Talvez não exista para os mórmons um Inferno, caso a pessoa fique o tempo necessário para se converter no estado de permanência no “mundo espiritual” antes de ressuscitar.
A doutrina das ordenanças salvíficas é central no Livro de Mórmon, apresentando batismo por imersão como mandamento absoluto e não opcional para entrada no reino de Deus, administrado por alguém com autoridade sacerdotal legítima. A obra enfatiza que o batismo deve ser precedido por fé genuína em Cristo e arrependimento sincero, e seguido por recebimento do Espírito Santo através de imposição de mãos, estabelecendo assim sequência ordenada de “primeiros princípios e ordenanças do evangelho“. O sacramento (equivalente à eucaristia cristã) é instituído por Cristo durante sua visita, com instruções específicas sobre como administrá-lo em memória de seu corpo e sangue, estabelecendo padrão litúrgico que a Igreja mórmon seguiria posteriormente.
Basta para a Salvação que a Graça de Deus opere, e que não seja recusada pelo beneficiário. Como Religião organizada, é óbvio que os mórmons precisam instituir a necessidade dos rituais para a Salvação, como se Deus precisasse disso para nos amar, ou nós precisássemos fazer isso para aceitar o seu Amor. Nesse ponto, nenhuma novidade fora da decepção comum com a religiosidade humana em geral.
Particularmente significativa é a doutrina da mudança de coração e do novo nascimento espiritual, articulada especialmente nos sermões de Alma. Não basta crer intelectualmente em Cristo; é necessário experimentar transformação interior radical onde a própria natureza da pessoa é alterada pelo poder do Espírito Santo, de modo que seus desejos, motivações e inclinações naturais são substituídos por disposições santas. Esta conversão profunda não é evento único, mas processo contínuo de “despojar-se do homem natural” e tornar-se santo através da expiação, submissão humilde à vontade divina e exercício constante de fé. Alma questiona retoricamente se seus ouvintes experimentaram esta mudança de coração, se receberam a imagem de Cristo em seus semblantes, e se poderiam imaginar-se diante de Deus com consciência culpada, estabelecendo padrão de autoexame espiritual rigoroso.
Isto está bem, desde que justamente pela veracidade da mudança originada pela ação do Espírito Santo essa alteração não possa todas as vezes ser verificada por sinais exteriores, mas só eventualmente. Do contrário caímos nos dois problemas típicos, de que Deus não poderia dar um dom ao qual não pudesse corresponder um sinal identificável pela comunidade religiosa, e que os sinais exteriores da posse do dom divino poderiam ser imitados indiscriminadamente pelos hipócritas. Como sempre a Religião serve no máximo para organizar a sociedade, como as Leis civis, mas para a mediação da relação com Deus é um péssimo recurso, isso quando não atrapalha diretamente com doutrinas anticristãs.
A questão da fé versus obras é tratada com nuance considerável, evitando tanto o legalismo quanto a presunção da graça incondicional. A obra ensina que salvação vem unicamente através da graça de Cristo após tudo quanto o homem possa fazer, fórmula que sintetiza a cooperação necessária entre dom divino e esforço humano. Não se pode ganhar salvação por mérito próprio, pois todos são absolutamente dependentes da misericórdia divina; mas simultaneamente, fé autêntica manifesta-se necessariamente em obras de justiça, de modo que fé sem obras é morta. O arrependimento não é mero remorso emocional, mas mudança comportamental concreta que abandona o pecado e restitui o mal causado quando possível, processo que deve ser mantido continuamente ao longo da vida mortal.
Sobre o espírito de Arrependimento, não há o que dizer. Já sobre a fé sem obras ser morta, isto é ensinado pelo Apóstolo Tiago, e geralmente é confundido pela Religião, como sempre. O que a passagem ensina é que se você acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que o seu chamado é para viver na Eternidade depois da morte deste corpo, a sua vida vai mudar obrigatoriamente. A Fé, como dom sobrenatural, gerará sinais da Obra de Deus na sua vida. Mas isso não serve para a Religião fiscalizar esses sinais, pois isso, como já dito, só serve para criar um sistema de fingimento hipócrita, o legalismo que Jesus mesmo condenou. Então serve para quê? Para o autoexame do cristão. Ele deve verificar em si essa ação da Obra de Deus pelas consequências da conversão.
Finalmente, o Livro de Mórmon estabelece fundamentos para a eclesiologia mórmon ao descrever a organização da igreja de Cristo entre os nefitas, incluindo chamado de doze discípulos (equivalentes aos apóstolos), ordenação ao sacerdócio, estabelecimento de congregações locais, prática de todas as ordenanças essenciais e manutenção de disciplina eclesiástica. A obra enfatiza que a igreja verdadeira deve ser chamada pelo nome de Cristo, deve pregar sua doutrina sem acréscimos ou diminuições, deve estar fundamentada sobre a rocha da revelação contínua, e deve manifestar os frutos do Espírito em seus membros. Esta visão de igreja restaurada segundo padrão apostólico original, livre de corrupções acumuladas através dos séculos, forneceu justificação teológica para que Joseph Smith estabelecesse nova organização eclesiástica reivindicando autoridade divina direta ao invés de mera continuidade institucional com tradições cristãs existentes.
E é claro que Joseph Smith era o chefe do esquema todo. Por que isto não nos surpreende? Em resumo, em boa parte de sua doutrina, ao menos conforme exposta neste livro, o mormonismo é mais do mesmo, uma reciclagem e reformulação de dogmas religiosos de sempre. O componente exótico é a doutrina desse nacionalismo americanista que só vai deixar as pessoas mais confusas e perdidas do que elas já estão, é claro. Já ouvi falar de doutrinas mais doidas da parte dos mórmons, mas nesta análise me limitei ao escopo do livro em pauta.
Nota espiritual: 2,7 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 0 |
| Presença/Idolatria | 2 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 1 |
| Vigilância/Ingenuidade | 1 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 2,7 |