Magnólia, filme por Paul Thomas ANDERSON

SINOPSE CLAUDE: Magnólia acompanha um dia na vida de múltiplos personagens cujas trajetórias se entrelaçam no Vale de San Fernando, Califórnia. Entre eles estão Earl Partridge, um magnata da televisão moribundo que busca reconciliação com o filho abandonado; Frank Mackey, esse mesmo filho transformado em guru misógino da sedução; Claudia, uma mulher devastada por traumas e dependência química; Jim Kurring, um policial solitário e devotamente cristão; Jimmy Gator, apresentador veterano de um programa de perguntas infantil que enfrenta câncer terminal e segredos sombrios; Stanley, uma criança prodígio explorada pelo mesmo programa; e Donnie Smith, ex-participante infantil do quiz agora reduzido a uma existência medíocre. Ao longo de aproximadamente 24 horas, essas vidas aparentemente desconexas revelam-se unidas por padrões de culpa, abandono paternal, trauma geracional e pela busca desesperada por perdão e conexão humana, culminando em um evento impossível — uma chuva literal de sapos — que interrompe a ordem natural da realidade e força cada personagem a confrontar suas máscaras e vulnerabilidades mais profundas.

O filme trata do problema das várias mentiras que os seres humanos contam a si próprios e uns para os outros por decorrência do Pecado Original. Já nascemos dentro de uma cultura determinada por essa prática de falsificação da realidade. Por que isto é assim? Por que os nossos ancestrais, dos mais próximos aos mais remotos, jamais puderam bancar moralmente a sua ação. Vemos isso mais claramente, por óbvio, ao observar a prática atual da “educação” dos filhos pequenos. Há algo como uma ficção sendo montada na cabeça das crianças, sobre uma vida num mundo que não existe. O mundo real jamais vai caber nas categorias que os nossos pais inventam para nós e para si mesmos para tentar dar conta da sua impotência. Mas a verdade de que o ato procriativo é irresponsável jamais pode ser admitida, e dentro de nós mesmos, enquanto filhos, também vamos aos poucos aceitando essa realidade, no mínimo porque não temos muita alternativa, e também porque reconhecemos que nossos próprios pais foram obrigados eles mesmos a fazer isso. Cada ser humano vai encontrar uma solução própria para essa questão. Alguns aceitarão interpretar um papel e fingir até o fim que está tudo certo. Outros procurarão a revolta e a rebelião, mais cedo ou mais tarde. E ainda outros, uma minoria, tentarão obter uma compreensão mais profunda, do tipo espiritual. Sem dúvida a pior reação de todas é a que podemos chamar de Institucionalização, que é a participação ativa num empreendimento coletivo para construir e manter um esquema que dê um sentido artificial, sintético, à vida humana, o que em outras palavras significa contribuir para a construção do Sistema da Besta. O significado disso é uma aposta redobrada na usurpação da autoridade divina, e a busca das últimas consequências da traição contra a Graça. Que eu me lembre de ter assistido o filme, os personagens estão emocionalmente arruinados demais para alcançar esses níveis mais catastróficos de resolução, mas vamos ver onde isso vai chegar.

ANÁLISE CLAUDE: A obra cinematográfica de Paul Thomas Anderson situa-se em uma zona de indeterminação entre o realismo psicológico e certa vocação metafísica que atravessa a superfície dos acontecimentos ordinários. Em Magnólia, essa tensão encontra sua formulação mais radical, configurando-se como uma investigação sobre os modos pelos quais o destino e o acaso entrelaçam-se na tessitura das existências particulares. O filme opera mediante uma estrutura coral que reúne múltiplas trajetórias aparentemente desconexas no Vale de San Fernando, Califórnia, submetendo essas vidas à lógica de uma concatenação que se revela progressivamente como algo que excede a mera contingência. Anderson inicia sua narrativa com uma prólogo que funciona como declaração de princípios: três relatos históricos de coincidências improváveis, narrados com a precisão de quem documenta o insólito, estabelecem desde o primeiro momento que estamos diante de um universo onde a probabilidade estatística e a necessidade narrativa encontram-se em conflito permanente.

O que o filme faz é explorar ao máximo a hipótese do acaso. Você nunca consegue se convencer de fato de que existe uma ordem maior por trás dos acontecimentos, por mais que os sinais apareçam nesse sentido. Uma imitação da vida real, sem dúvida, porque esse nível de autonomia é requerido para a manutenção da Liberdade. Tudo está conectado, mas o nexo da conexão transcende a Razão humana, então esta ligação só pode ser acreditada, por mais que verifiquemos sinais da sua suposta atuação.

A questão central que o filme coloca não é propriamente se existe ou não um sentido oculto governando os eventos, mas antes como os sujeitos negociam com a possibilidade dessa significação latente. Os personagens de Magnólia habitam um mundo saturado de sinais potenciais, onde cada gesto, cada encontro, cada número que se repete pode ser tanto sintoma de um padrão cósmico quanto resíduo do desejo humano de encontrar ordem no caos. A recorrência do número 82, disperso em placas, cronômetros e elementos cenográficos aparentemente casuais, funciona como cifra dessa ambiguidade fundamental: é uma pista que aponta para uma arquitetura secreta da realidade ou meramente a projeção de nossa necessidade de narrativa sobre o indiferente fluir dos acontecimentos? Anderson recusa-se a resolver essa tensão, mantendo o espectador nesse espaço de indecisão que é, em última instância, a condição mesma da experiência contemporânea.

Não apenas contemporânea, mas universal. Supostamente o enigma teria sido resolvido com a chuva de rãs que confirmaria um poder divino regendo todas as coisas, principalmente pela repetição do número 82 em referência ao livro do Êxodo. Mas isto nunca significa domínio completo do sentido desse ordenamento divino. Justamente por que é algo divino, deve sempre nos escapar de algum modo, se prestarmos suficiente atenção no nível do Mistério. O sentido da vida humana é descoberto no nosso interior como uma escolha de acreditar no Beme no Amor, ou de rejeitar essa opção. É sempre disso que se trata. No filme Magnólia, essa decisão se cristalizará principalmente no ato dos filhos perdoarem os pais. Esse simbolismo é poderosíssimo. Embora isso não possa ser universalizado, sou capaz de conceber sim que em muitos casos nós só estamos neste mundo para fazer exatamente isto, e o resto meio que tanto faz.

A estrutura dramática do filme organiza-se em torno de relações familiares marcadas pela culpa, pelo abandono e pela impossibilidade da redenção através dos laços de sangue. Earl Partridge, o magnata moribundo da televisão, agoniza enquanto tenta reconciliar-se com um passado de negligência paternal; seu filho Frank Mackey, transformado em guru misógino da sedução masculina, construiu uma persona inteira como defesa contra a ferida originária do abandono; Jimmy Gator, apresentador veterano de um programa de perguntas infantil, confronta simultaneamente um câncer terminal e o peso de abusos cometidos contra a própria filha. Essas figuras paternas falidas compõem uma constelação onde a paternidade aparece como lugar privilegiado do fracasso ético, como se a transmissão geracional carregasse consigo uma espécie de pecado estrutural que se reproduz e metamorfoseia através das sucessivas tentativas de negação ou reparação.

Puxa vida Claude, você está perto de entender as coisas, hein? Isso aí se chama Pecado Original. É o ato irresponsável de assumir um papel criativo incompatível com a nossa fraqueza, usurpando o lugar de Deus. As consequências disso são vastas e se resumem no estado que qualificamos como o de Queda. O principal resultado é a mortalidade das Obras da Carne, pois “o salário do pecado é a morte”. Mas todo esse sofrimento não é absurdo. Ele é cheio de sentido, pois o Criador de todas as coisas chama aqueles que o amam para se desligarem dessa insanidade e buscarem a verdadeira Vida com Ele. Nesse processo de Separação, ou Santificação, o perdão e a misericórdia são componentes essenciais da decisão de abandono da lógica do mundo dos homens para alcançar a lógica das coisas de Deus.

O contraponto a essa galeria de patriarcas em decomposição encontra-se nas figuras dos filhos, igualmente devastadas mas ainda capazes de movimento, ainda não cristalizadas na rigidez terminal da morte física ou moral. Claudia, a filha de Jimmy, viciada em cocaína e dilacerada por traumas que o filme apenas sugere, representa a transmissão da violência paterna como ferida psíquica que impede qualquer forma de intimidade não contaminada. Donnie Smith, ex-criança prodígio do quiz televisivo, aparece como espécime adulto daquilo que o programa ainda produz em tempo presente, demonstrando como a exploração infantil pela máquina do entretenimento gera subjetividades danificadas, incapazes de habitar o mundo sem o brilho artificial dos holofotes. O jovem Stanley, participante atual do programa de Jimmy, completa essa linhagem ao mostrar o processo em seu momento de fabricação, revelando a crueldade que se oculta sob a aparente inocência do espetáculo familiar.

O que todos esses sofrimentos mostram é que a solução nunca está fora de nós. Fora de nós existe o mundo como um palco onde somos todos atores (como diria Shakespeare). Lá é o lugar da mentira, do fingimento, da simulação, da farsa. Aqui dentro de nós é onde vivemos, diante de Deus, a verdade do sentido de nossas vidas. É aqui que está o nosso tesouro. Então as várias frustrações e sofrimentos com o mundo são, na verdade, sinal de alguma saúde espiritual, pois uma alma corrompida não se vexaria de participar no festival de mentiras do mundo. Esse sofrimento é uma oportunidade espiritual para a verdadeira vida na Presença. Então até que a maioria dos personagens possuem alguma chance de converter seu sofrimento em força espiritual. Quais seriam as exceções? Apenas uma: Jimmy Gator, o apresentador de TV que abusou da filha. Ele se suicida porque não aguenta a sua própria mentira, o que quer dizer que não tinha nenhum tesouro interior no qual se refugiar. Quando tanto a filha quanto a esposa o rejeitam, e ele tem que encarar o peso da doença, não lhe resta mais nada da vida, porque a sua vida era toda exterior. Outro personagem próximo demais da farsa do mundo é Frank Mackey, o guru da masculinidade (que aliás representa bem a cultura “Red Pill”), porque este já começou a converter a perversidade do mundo em lucro. Porém, ao confrontar o pai no leito de morte, ele alcança alguma visão interior que lhe permitiria superar o seu problema.

A genialidade de Anderson reside em compreender que essas histórias não podem ser simplesmente justapostas em paralelo, como fariam tantos filmes de estrutura coral, mas que precisam ser forçadas a uma convergência que é simultaneamente temporal, espacial e ontológica. O diretor organiza a progressão dramática de modo que os diferentes fios narrativos avancem em direção a um ponto de simultaneidade absoluta, um agora compartilhado onde todas as agonias privadas sincronizam-se em uma mesma frequência de desespero. Esse movimento culmina não em um cruzamento acidental de trajetórias, como seria de esperar no gênero do filme coral, mas em um evento que atinge todos simultaneamente a despeito de suas localizações e circunstâncias particulares: a chuva de sapos que cai sobre o Vale de San Fernando, fenômeno bíblico que irrompe na realidade secular como invasão do impossível no tecido do verossímil.

Pois é, eu devo dizer que não achei isso tão espetacular quanto pode parecer que seja. Esse tipo de evento tem o poder de causar duas coisas: 1) a interrupção de todas as narrativas particulares, o que força os indivíduos a pararem o seu fluxo habitual de pensamentos, algo que por si só tem algum poder razoável de cura de certas obsessões; 2) o foco compartilhado num evento comum cria um senso urgente de comunidade e compaixão, o que também pode ter um efeito curativo poderoso para extrair cada alma da sua perversidade particular, ao menos durante um tempo. Esse é o efeito da chuva de rãs, como se fosse preciso, finalmente, que a insanidade humana sofresse uma interrupção curativa. Geralmente essa interrupção é a própria morte do indivíduo. Como costumo dizer, é mais fácil nós morrermos, do que o mundo acabar. De certo modo a obsessão com o fim do mundo revela um desejo de simplesmente ir embora daqui. O que cá entre nós é muito mais fácil e comum de ocorrer pela morte do nosso corpo, do que por um arrebatamento, ou um evento apocalíptico. A única coisa que eu lamento é que esse tipo de evento radical nunca foi necessário para que o ser humano adquirisse uma consciência para além de suas vidas cotidianas. Eu sei disso, e lamento muito, e Deus mesmo já falou a respeito: “Na conversão e na calma estava a vossa salvação, na tranquilidade e na confiança estava a vossa força, mas vós não o quisestes!” Então é preciso chocar esses desgraçados para eles lembrarem que estão vivos diante de Deus…

Essa precipitação de anfíbios constitui o momento em que o filme abandona qualquer pretensão de realismo naturalista e assume plenamente sua dimensão de parábola teológica. Anderson recorre aqui à plaga enviada sobre o Egito no livro do Êxodo, mas deslocando-a de seu contexto de castigo divino dirigido contra um opressor específico para transformá-la em uma manifestação que atinge justos e injustos, culpados e inocentes, perpetradores e vítimas sem qualquer discriminação aparente. A chuva de sapos não funciona como juízo moral que separa o bem do mal, mas como evento puro que suspende momentaneamente as leis naturais e, com elas, todas as certezas sobre a estrutura da realidade. O que esse prodígio impossível opera é uma espécie de nivelamento ontológico: diante do absolutamente incompreensível, todas as hierarquias, todas as máscaras, todas as narrativas de autojustificação que os personagens construíram para si mesmos tornam-se igualmente frágeis.

Sim, essa é a função, extrair os seres humanos das suas mentiras particulares. Chamar a atenção para uma verdade acima dessas farsas. Mas eu não diria que a violação das leis naturais seja algo notável. Isto só é assim para os idólatras naturalistas, o que nenhum de nós é obrigado a ser. Deus não faz o que Ele quer? As leis naturais são convenções derivadas de um hábito, para usar a terminologia de Hume. Infelizmente a maior parte dos seres humanos estão abaixo até desse tipo elementar de ceticismo, quanto menos terão condições intelectuais de aceitar a vida na Presença.

O recurso ao registro bíblico não implica, contudo, a afirmação de uma teodiceia tradicional ou de um sistema de retribuição moral. Anderson utiliza a linguagem religiosa como repertório simbólico capaz de expressar dimensões da experiência que o vocabulário secular contemporâneo não consegue articular, mas sem subscrever necessariamente a cosmologia que originalmente sustentava esses símbolos. A referência à passagem do Êxodo 8:2 — “E será que, se recusares deixá-los ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos” — aparece pintada em um cartaz que Stanley segura durante o quiz televisivo, emergindo como profecia cifrada no interior da própria narrativa. Essa mise en abyme, onde o texto bíblico é inscrito dentro do universo ficcional antes de se manifestar literalmente, sugere uma compreensão da profecia não como predição sobrenatural, mas como padrão que se repete, como estrutura que sempre esteve presente esperando apenas o momento de sua atualização.

Sim, pode ser. Não estamos todos igualmente esperando a morte, ou o fim do mundo? Ok. Mas acho que o Claude já está enchendo linguiça.

A questão do perdão atravessa todos os estratos da narrativa, apresentando-se não como solução edificante, mas como problema genuíno e talvez insolúvel. Earl, em seu leito de morte, busca desesperadamente a reconciliação com Frank, mas essa busca é mediada pelo enfermeiro Phil Parma, cuja bondade quase ingênua funciona como canal para um tipo de caridade que os laços familiares diretos já não conseguem transmitir. A cena em que Phil telefona para Frank em nome do pai moribundo constitui um dos momentos de maior intensidade dramática do filme, precisamente porque expõe a fragilidade radical de qualquer tentativa de reparação: Frank, confrontado com a vulnerabilidade paterna, oscila entre a compaixão involuntária e o rancor cultivado durante décadas, incapaz de decidir se o perdão é um dom que está em seu poder conceder ou uma traição à criança abandonada que ele ainda carrega consigo.

O perdão que resolve tudo é ligado sempre à Graça divina, à vontade de que o Amor de Deus cure todas as feridas e realize a plenitude de todos os seres. Não é algo natural. Pela influência do espírito do Psiquismo não somos capazes de realizar o perdão puro e perfeito. Frank, por si, é capaz apenas de desistir de si mesmo, da defesa dos direitos dessa criança abandonada. Somos capazes de fazer essa parte negativa do trabalho, que é a desistência da vingança, isto é, da falsa Justiça. Mas o Amor ao próximo é Deus quem nos dá, se nós desistirmos da nossa maldade travestida de retidão. É o que Frank faz. Claudia, por outro lado, a filha de Jimmy Gator, não tem condição de fazer isso, de tão traumatizada, e por efeito das consequências do trauma, como o abuso de substâncias. Podemos culpá-la? Claro que não. Seu pai plantou e colheu.

Linda Partridge, a terceira esposa de Earl, representa outra faceta dessa economia moral impossível. Seu desespero diante da morte iminente do marido manifesta-se como autopunição histérica, como se ela precisasse demonstrar publicamente que seu amor não foi mera performance interesseira, que sua condição de trophy wife não esgota a verdade de seu afeto. A sequência em que Linda tenta obter mais morfina para Earl, enfrentando a suspeita dos médicos e a própria culpa por ter sido infiel, demonstra como a autenticidade do sentimento só pode ser provada através de um excesso que é ele próprio suspeito, como se a sinceridade necessitasse sempre da mediação do espetáculo para se fazer reconhecer. Anderson compreende que no universo saturado de imagens e performances que seus personagens habitam, não existe mais um espaço de transparência emocional pura, não há mais um gesto que não seja sempre já contaminado pela consciência de sua própria teatralidade.

O caso de Linda é apreciável, porque ela sente essa necessidade tremenda de se confessar. O problema é que ela não está vivendo diante de Deus (aliás, não é o problema de todos?). Então ela fica procurando testemunhas para a sua confissão. É algo muito humano e compreensível. Poderia acontecer com qualquer um de nós. O ideal é não chegarmos nesse ponto, por buscarmos uma reconciliação voluntária com Deus. Tudo que é espontâneo é mais fácil. Que Linda tenha esperado o marido chegar à beira da morte para assumir as verdades de sua vida, é uma coisa desastrosa, embora ela até que tenha se saído bem, mas por pouco (tentou se matar, mas foi salva por Dixon, o garoto do rap).

A figura de Jim Kurring, o policial solitário e devotamente cristão interpretado por John C. Reilly, introduz uma tonalidade de inocência quase anacrônica nesse panorama de cinismo e desencanto. Kurring representa uma forma de crença que persiste não por ingenuidade, mas apesar do conhecimento acumulado sobre a miséria humana. Sua fé não é imunidade ao sofrimento, mas antes uma disposição para continuar oferecendo bondade mesmo diante da evidência repetida de sua futilidade. O encontro entre Kurring e Claudia funciona como experimentação narrativa sobre a possibilidade do amor em condições de dano severo: podem dois indivíduos profundamente feridos, cada um à sua maneira, construir algo que não seja apenas a adição de suas respectivas carências? A delicadeza de Anderson está em não responder essa pergunta de modo conclusivo, em deixar a relação nascente como promessa frágil, ameaçada, mas não impossível.

O policial é o personagem mais ingênuo de todos, mas há uma boa inocência misturada à isso. O problema é que Jim não pode ser nenhum santo, pois não é a pura caridade que o faz se aproximar de Claudia, como sabemos bem. Ele não atende todos os dias chamados de pessoas em sofrimento, tão carentes quanto Claudia de um apoio humano? Então porque ele prefere ela? Por causa da sua beleza, etc. Já sabemos como são as coisas. Infelizmente a sua crença é religiosa em primeiro lugar, e apenas indiretamente espiritual, então ele não pode explorar mais a fundo a origem do problema. Se o fizesse, descobriria o Pecado Original, e talvez visse seu próprio interesse por Claudia com outros olhos.

O programa de televisão “What Do Kids Know?” serve como dispositivo que condensa múltiplas camadas de significação no filme. Em seu nível mais imediato, funciona como exemplar da exploração capitalista da infância, da transformação de crianças em commodities do entretenimento. Mas a própria estrutura do quiz — crianças demonstrando conhecimento enciclopédico, respondendo questões que simulam erudição — aponta para uma perversão mais profunda: a imposição sobre a infância de um modelo de saber adulto, a negação do não-saber como condição legítima da criança. Stanley, forçado a performar uma precocidade que não corresponde a qualquer forma de maturação genuína, representa a criança roubada de sua infância, condenada a habitar prematuramente um universo de competição e performance. Sua recusa final em continuar respondendo, sua micção em pleno programa, constitui uma forma de sabotagem corporal, um retorno do recalcado biológico contra as exigências da imagem pública.

Para mim o fato de Stanley mijar nas calças é o mais importante, porque mostra como ninguém está nem aí para ele, de modo que os aplausos, elogios, etc., seja do pai ou dos produtores do programa de TV, são ações interesseiras. Quantas vezes ele pede para ir ao banheiro? Umas três, pelo menos. Mas ninguém está nem aí para ele. Ninguém está nem aí para nós. Nem mesmo nossos pais, na maior parte dos casos. Está todo mundo administrando um mesmo problema, que é o da existência neste mundo. Essa é a prioridade do ser humano.

O paralelismo entre Stanley e Donnie, entre a criança prodígio presente e sua versão adulta fracassada, estabelece uma continuidade temporal que é também uma profecia: este será aquele, o futuro já está inscrito no presente como destino que só pode ser repetido. Donnie, com suas próteses dentárias e seu trabalho em loja de eletrônicos, com sua paixão desesperada por um garçom que mal nota sua existência, aparece como aquilo que resta quando os holofotes se apagam, quando o mercado da atenção descarta o produto que já não gera audiência. Sua tentativa patética de roubar dinheiro do próprio empregador para financiar um tratamento odontológico que imagina poder conquistar o objeto de seu desejo funciona como paródia cruel do sonho americano: a felicidade como algo que pode ser comprado, a transformação de si mesmo em mercadoria desejável como último recurso de quem nunca foi reconhecido como sujeito.

De todas as estórias, essa deve ser uma das mais tristes, por causa do nível de ilusão em que Donnie vive. A solução para ele seria o Louvor, é claro. O Amor que ele quer receber do mundo, só Deus o pode dar. Mas assim como extraíram dele tudo o que quiseram, ele agora quer extrair de volta o máximo que puder. É a lógica do abusado que quer se vingar abusando, cuja cura é o perdão e a solução é o Louvor, como já disse. O filme alcança o nível do perdão, mas pedir por testemunhos da Presença e do Louvor já é demais.

A montagem paralela que Anderson emprega, especialmente à medida que o filme avança em direção à sua resolução catastrófica, não serve apenas a funções de suspense ou de estabelecimento de simultaneidade narrativa, mas opera uma espécie de síntese dialética entre as histórias particulares. O corte entre um personagem e outro em momentos de máxima vulnerabilidade cria uma textura emocional compartilhada, uma comunidade involuntária dos que sofrem. Quando o filme alcança o momento da canção coletiva — todos os personagens principais cantando a mesma música de Aimee Mann, “Wise Up” — a estrutura coral atinge sua forma mais literal e também mais arriscada. Esse recurso, que facilmente poderia descambar para o sentimentalismo gratuito ou para a mera demonstração de virtuosismo formal, funciona em Magnólia porque Anderson o prepara cuidadosamente através de toda a progressão anterior, porque o filme já estabeleceu que opera em um registro onde a contenção naturalista pode ser legitimamente suspensa em favor de momentos de intensificação expressionista.

Funciona para o Claude, para mim não é bem assim, ou melhor, depende de onde chega a interpretação de cada um. A música fala que o ciclo não vai parar enquanto você não se tornar sábio (“wise up”), enquanto não desistir (“give up”). O nível imediato de aplicação disso é o do perdão, ou seja, enquanto você não perdoar o mal que te fizeram, o ciclo do sofrimento não vai parar. Mas a que ponto, ou a que nível, pode chegar esse desprendimento do mal? Ou melhor, a que ponto chega a consciência da operação desse mal no mundo? Temos que desistir do quê? Só de julgar o próximo? Mas porque desejamos fazer isso em primeiro lugar? Não é por termos a Presunção de sermos bons, verdadeiros e justos? Então, além do julgamento e do desejo de vingança, não deveríamos também desistir da Presunção como um todo? E daí para diante poderíamos encontrar e deduzir que a verdadeira Liberdade é mais ampla do que o que foi inicialmente sugerido aqui. Caso contrário, nada impede que o ciclo se reinicie por falta de consciência do que alimenta esse mal, ou seja, o Pecado Original, o espírito de Idolatria, etc. O filme não alcança isso, e nem poderia, porque gastou muito tempo valorizando o sofrimento humano, cá entre nós.

O que a sequência musical torna explícito é que esses indivíduos separados por circunstância e história compartilham uma condição fundamental: todos estão “not going to make it“, todos reconhecem a insuficiência de suas estratégias de defesa, todos admitem momentaneamente a derrota diante da vida tal como se apresenta. A música funciona aqui não como trilha sonora que comenta externamente a ação, mas como pensamento interior que se torna audível, como monólogo íntimo que atravessa miraculosamente as fronteiras da subjetividade isolada. Trata-se de um momento de verdade que é também um momento de rendição: a aceitação de que as máscaras não servem mais, de que as performances de domínio e controle são insustentáveis, de que a vulnerabilidade é a única honestidade que resta.

Essa vulnerabilidade pode e deve se converter na virtude da Humildade, que é o ponto de partida da vida espiritual. Caso contrário, a experiência da vida na condição de constante rendição se torna inviável. Logo um senso prático retorna, e a consideração dos interesses imediatos da vida… e logo tudo volta ao ponto anterior. Isso precisa ser compreendido. O que fundamenta o ciclo, que é o efeito presente do Pacto Ouroboros cuja essência é essa ciclicidade num nível cósmico, é a rejeição do Amor divino. O que quero dizer, novamente, é que não adianta apenas fazer a parte negativa e destrutiva, que é a descoberta das várias mentiras que cada um teve que contar para se manter vivo. É preciso descobrir algumas verdades também.

A chuva de sapos que se segue funciona como resposta objetiva a essa confissão subjetiva, como se o mundo exterior respondesse à transformação interior com uma transformação equivalente de suas próprias leis. O prodígio não resolve os problemas dos personagens, não os cura nem os redime, mas opera uma interrupção, um corte no fluxo de causalidade que vinha governando suas vidas. Após a chuva, nada está fundamentalmente resolvido — Earl continua morrendo, Claudia continua traumatizada, Frank continua dividido entre amor e ódio — mas algo se deslocou, uma possibilidade se abriu. O milagre em Anderson não é intervenção divina que restaura a ordem perdida, mas evento que torna a ordem existente questionável, que revela sua contingência radical.

Já comentei o significado da chuva de rãs. Claude está definitivamente enchendo linguiça.

A conclusão do filme, com Claudia sorrindo diretamente para a câmera após aceitar a devoção de Jim Kurring, constitui um dos gestos mais controvertidos e discutidos da obra. Esse sorriso, que rompe a quarta parede e se dirige ao espectador, pode ser lido como afirmação de que o amor permanece possível mesmo após o trauma, como esperança que persiste não por ignorância mas por escolha deliberada. Contudo, seria redutor interpretar esse final como resolução otimista ou como garantia de redenção futura. O sorriso de Claudia é frágil, incerto, atravessado pela consciência de tudo o que poderia destruí-lo; é um sorriso apesar de, não por causa de. Anderson oferece aqui não uma conclusão que fecha as feridas expostas durante as três horas precedentes, mas uma suspensão momentânea da dor, um intervalo onde a graça — se é que esse termo ainda tem sentido em seu universo — pode aparecer não como salvação definitiva, mas como trégua provisória.

Para mim é uma cena assustadora, porque é como Eva sendo enganada novamente por uma falsa promessa. O policial, bem intencionado, é como Adão novamente, mentindo para si mesmo e para a sua cobiçada parceira. Nada é mais catastrófico do que essa crença cega de que podemos ser melhores do que os outros, quando isso não se baseia na força do amparo divino, do efeito da Graça. Afinal, é a vontade de quem que está triunfando com esse sorriso? A de Deus? Eu não confio. Todas as promessas que recebi de Deus me indicam o contrário, para desconfiar dos homens e de suas mentiras, e depositar a esperança no Criador somente, e em sua Eternidade.

Magnólia articula, assim, uma teologia negativa do cotidiano, onde o transcendente se manifesta não como presença plena mas como ausência que se faz sentir, como falta que organiza o desejo e orienta a busca. Os personagens de Anderson não encontram Deus, mas sentem o peso de sua ausência; não são redimidos, mas vislumbram a possibilidade conceitual da redenção como horizonte que permanece sempre recuado. O filme inscreve-se, portanto, em uma tradição de pensamento que atravessa de Kierkegaard a Levinas, onde a questão religiosa não diz respeito à existência de entidades sobrenaturais, mas à estrutura mesma da experiência ética, à impossibilidade de justificar plenamente nossas escolhas fundamentais, à necessidade de responder ao outro apesar da ausência de garantias metafísicas. Nesse sentido, Magnólia é simultaneamente um dos filmes mais religiosos e mais seculares do cinema contemporâneo, conjugando a linguagem da transcendência com a materialidade irredutível do sofrimento concreto, recusando tanto o consolo fácil da fé quanto a arrogância da descrença absoluta.

Consolo fácil da fé? Ora, para o forte não deveria ser mais fácil fazer o que desafia o fraco? Se a Fé verdadeira vem de Deus, ela não deveria refletir a força da sua origem? Ou devemos abraçar a nossa fraqueza e ficar por isso mesmo? Nossa fraqueza chama a força de Deus. “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”. Que importa assumirmos a nossa fraqueza, que é o mérito do filme Magnólia, se isto não servir para a recepção da força divina? O filme funciona bem até certo ponto, quase como se fosse uma iniciação no Mistério do Amor divino, mas não completa essa ação. E a esperança de Claudia nas promessas de amor de seu novo companheiro é meio assustadora, como já disse. É claro que o policial poderia ser mais amigo e companheiro do que um mentiroso aproveitador, mas isso depende do quanto ele queira mais a vontade de Deus do que a sua própria, e isso nós não temos como saber pelo filme.

Vejamos agora o que o Kimi tem a nos relatar, buscando avaliar o seu estilo, e se alguma coisa merece um comentário específico. Este é um bom caso, porque já assisti o filme, então posso verificar se uma IA se destaca mais do que a outra em qualidade.

SINOPSE KIMI: Numa única noite chuvosa no Vale de San Fernando, Los Angeles, as vidas de nove personagens — entre eles um policial solitário em busca de conexão, uma enfermeira dedicada a um magnata da televisão moribundo obcecado por seus pecados, um guru da sedução misógino confrontado com o abandono paterno, um ex-gênio infantil fracassado, uma esposa infiel consumida pela culpa, um produtor de game shows doentio e sua filha drogada, e uma criança prodígio explorada pelo pai — se entrelaçam através de coincidências, segredos familiares e eventos inexplicáveis, culminando numa chuva de sapos bíblica que força cada um a confrontar suas feridas mais profundas e a buscar, nas brechas da solidão contemporânea, a possibilidade fragmentada mas persistente de redenção e compaixão mútua.

Não está ruim, gostei da descrição inicial do cenário. Mas com relação ao significado espiritual, não muda muito a situação. Não entendi o que é a solidão contemporânea exatamente. Talvez a sensação de abandono e solidão, mas a realidade humana sempre foi mais ou menos essa.

ANÁLISE KIMI: O cinema de Paul Thomas Anderson, particularmente em sua obra de 1999 Magnólia, constitui um território de investigação onde a forma cinematográfica se converte em medium para a elaboração de uma ontologia do acaso e da conexão humana, problematizando fronteiras entre determinismo e contingência, entre a solidão existencial e a possibilidade de redenção coletiva. O filme opera como uma arquitetura narrativa de múltiplos planos, onde as vidas de personagens aparentemente disjuntos — um policial solitário em busca de afeto, uma enfermeira que cuida de um homem moribundo obcecado por seus pecados, um produtor de televisão doentio, um ex-gênio infantil convertido em fracassado, uma esposa infiel consumida pela culpa, entre outros — se entrelaçam através de uma lógica que Anderson parece sugerir como sendo superior à mera causalidade mecânica, aproximando-se de uma espécie de destino poético ou de sincronicidade junguiana. A estrutura em rede do filme não é meramente um artifício dramatúrgico, mas corresponde a uma concepção de mundo onde o individualismo radical da modernidade tardia encontra seu limite na constatação de que nossas feridas são, paradoxalmente, o terreno comum onde a humanidade se reconhece, e onde a compaixão emerge não como virtude moral abstrata, mas como resposta necessária à fragilidade compartilhada da condição humana.

Não lembro de enfermeira cuidando do pai de Frank, mas de um enfermeiro, interpretado por Philip Seymour Hoffman. Do resto, já falamos. Nada de notável, exceto pelo fato que parece que todas as IAs tendem a abusar das conjunções, vai saber porquê.

A questão do tempo ocupa lugar central na economia simbólica de Magnólia, não apenas como dimensão narrativa — o filme se desdobra ao longo de um único dia, dilatado por uma direção que privilegia a duração bergsoniana sobre a mera sucessão de eventos — mas como categoria existencial que articula passado e presente em uma relação de débito e redenção. Os personagens de Anderson são, quase sem exceção, prisioneiros de histórias anteriores: abusos parentais, escolhas irreversíveis, palavras não ditas, promessas quebradas que se cristalizaram em padrões de repetição compulsiva. O moribundo Earl Partridge, interpretado com vulnerabilidade devastadora por Jason Robards, encarna essa temporalidade carregada de remorso, sua agonia física sendo indissociável de uma agonia moral que o impede de morrer em paz, não por temor à morte em si, mas pelo peso de uma vida mal vivida, de amores não correspondidos, de filhos abandonados. Sua enfermeira, Phil Parma, personifica então a possibilidade de uma ética do cuidado que não resolve os dilemas existenciais, mas os acompanha, sugerindo que a redenção, quando possível, ocorre não através de grandes gestos narrativos, mas da presença atenta ao sofrimento do outro, da escuta que permite que a verdade — por mais devastadora que seja — finalmente seja pronunciada.

Phil Parma é um ENFERMEIRO, um homem. Kimi já colocou acento em “guru” (eu tirei), agora já erra o gênero dessa palavra pela segunda vez… é coisa de chinês? Sei lá. De resto, nada a dizer. A lenta morte de Earl é um tanto enfadonha, mas pelo menos serviu para uma certa redenção do filho, então deixe estar. Pode não parecer, mas acredito nisto: as mortes são calculadas, tudo na hora certa.

A figura do pai emerge em Magnólia como arquétipo destrutivo, quase mítico em sua capacidade de geracionalidade negativa, onde a transmissão não se dá de bens ou valores, mas de traumas e ausências. Frank T.J. Mackey, o guru da sedução interpretado por Tom Cruise em performance que transcende a caricatura inicial para alcançar dimensões trágicas, construiu um império de misoginia performativa sobre as ruínas de uma infância marcada pelo abandono paterno; seu personagem só adquire densidade humana quando confrontado com a iminente morte do pai que sempre o rejeitou, revelando que toda sua armadura de masculinidade tóxica era, em última instância, uma defesa contra a dor da rejeição. Paralelamente, o personagem de William H. Macy, Donnie Smith, permanece preso à lógica do gênio infantil explorado pelo pai, sua vida adulta sendo uma série de tentativas fracassadas de recuperar o amor que deveria ter sido incondicional, mas que foi condicionado ao sucesso e à performance. Anderson parece sugerir que a patologia das relações parentais na sociedade contemporânea não é exceção, mas regra estrutural, e que a cura — quando vislumbrada — passa necessariamente pelo reconhecimento dessa ferida originária, pelo luto do pai ideal que nunca existiu e pela aceitação da própria vulnerabilidade infantil nunca acolhida.

Essa coisa de dor de rejeição, vulnerabilidade infantil, etc., esconde o fato brutal de que nós nascemos em condição frágil num mundo hostil independentemente da bondade de nossos pais. Frank, por exemplo, não apenas reagiu ao abandono paterno, mas ao ter que existir num mundo onde essa atitude do pai não significa pouca coisa. O mesmo se pode dizer de Donnie. Não basta que seu pai tenha se aproveitado de suas capacidades quando era criança. Isso ocorreu num mundo hostil onde Donnie foi forçado a se encaixar ao amadurecer. A condição maior do sofrimento é o próprio mundo decaído e amaldiçoado, independente do agravante da ação paterna nos dois casos.

A presença recorrente de elementos sobrenaturais ou, mais precisamente, de eventos que escapam à racionalidade causal dominante — como a chuva de sapos que interrompe o clímax do filme, citando explicitamente o Êxodo bíblico — não deve ser lida como mero artifício expressionista ou como concessão ao fantástico, mas como a materialização cinematográfica de uma epistemologia onde o inexplicável não é negado, mas integrado à experiência humana. Essa chuva de anfíbios, precedida por cenas onde personagens cantam em uníssono “Wise Up” de Aimee Mann, sugerindo uma consciência coletiva que transcende a individualidade, opera como momento de purgação e de interrupção do curso “normal” das coisas, forçando os personagens — e o espectador — a reconhecer que existem forças em operação que excedem nossa compreensão instrumental do mundo. O miraculoso, longe de resolver os conflitos narrativos de maneira convencional, funciona como catalisador de transformações interiores, como lembrete de que a realidade é sempre mais densa e estranha do que nossos esquemas explicativos admitem, e que a aceitação dessa estranheza é condição para uma autenticidade existencial que não depende de explicações totais.

Nada disso muda a nossa interpretação anterior. Gostaria de enfatizar apenas que a iniciativa de descrever a chuva de rãs como “eventos que escapam à racionalidade causal dominante” é notável. Existe, afinal, alguma esperança de que a IA possa evidenciar logicamente coisas óbvias que escapam à mentalidade média do ser humano. Digo isso principalmente porque não treinei esta IA em particular, e que eu saiba ela não tem nenhuma informação prévia a meu respeito para preferir esse tipo de expressão que é do meu agrado.

A trilha sonora de Aimee Mann, utilizada por Anderson não apenas como comentário emocional, mas como tecido estrutural do filme — chegando ao ponto de as letras das canções anteciparem ou ecoarem os diálogos dos personagens — introduz uma dimensão de musicalidade que dissolve a fronteira entre interioridade psicológica e exterioridade social. A música em Magnólia não acompanha a emoção; ela a precede e a condiciona, sugerindo que os afetos que experimentamos não são propriedades privadas, mas modos de ressonância com padrões culturais e coletivos. Quando os personagens, em momentos distintos e sem conexão causal aparente, entoam “It’s not going to stop“, estão participando de um coro existencial que reconhece a persistência da dor e da necessidade de continuidade apesar dela, configurando uma comunidade de destino que se realiza não através da proximidade física, mas da partilha de uma mesma estrutura de sentimento. Essa musicalização do drama humano remete a uma concepção de arte onde a forma não é mero recipiente do conteúdo, mas é ela mesma pensamento, modo de organizar o real que permite vislumbrar conexões invisíveis à lógica discursiva ordinária.

Ok, mas a questão que importa é saber se há redenção ou não. A música dá indícios disso, por um lado levanta o problema do Ouroboros, do ciclo, e por outro lado fala de “wise up” e “give up”, como já vimos. O problema é que não vimos o potencial dessa redenção aparecer na atitude dos personagens, talvez apenas um vislumbre.

O desfecho de Magnólia, longe de oferecer resoluções edificantes ou redenções completas, opta por uma estética do fragmento reconciliado, onde personagens que não se encontram diretamente compartilham, no entanto, de gestos de abertura e de vulnerabilidade que sugerem a possibilidade de novos começos. O policial Jim Kurring, após uma noite de humilhações e desencontros, encontra na personagem de Claudia Wilson Gator não a solução para sua solidão, mas um companheiro de fragilidade; seu pedido de permissão para beijá-la, respondido por um “sim” hesitante, configura um momento de ética do consentimento e do respeito ao outro que contrasta radicalmente com a retórica de dominação de Mackey. A criança prodígio Stanley Spector, finalmente rebelando-se contra a exploração paterna, não encontra justiça ou reparação, mas apenas o alívio de ter quebrado o ciclo de performance compulsiva. Esses finais abertos, que recusam a clausura narrativa tradicional, correspondem a uma filosofia do incompleto, onde a vida continua além do quadro final, onde as feridas permanecem abertas, mas já não sangram com a mesma intensidade, e onde a possibilidade de amor — não como solução mágica, mas como prática cotidiana de cuidado — permanece no horizonte não como certeza, mas como aposta necessária contra o niilismo e o isolamento.

Como já disse, o potencial existe, mas é ambíguo. A força do ciclo é muito forte. A menção a Stanley é interessante, porque pela sua juventude é capaz que ele desenhe uma trajetória diferente para si, realmente mais independente da insanidade do mundo. Sua reação diante do espetáculo da chuva de rãs dá indícios disso. Uma nova geração que se levante e diga “basta”, essa é uma hipótese nunca descartável, por mais improvável que seja.

Em última instância, Magnólia constitui-se como meditação sobre a ética do encontro em uma sociedade onde a aceleração, a competição e a cultura do espetáculo tendem a atomizar as relações humanas, convertendo o outro em meio ou em obstáculo. O olhar de Anderson, ao mesmo tempo compassivo e implacável, recusa tanto o moralismo fácil quanto o relativismo cínico, buscando em cada personagem — mesmo nos mais desagradáveis ou patológicos — a chama de humanidade que a circunstância obscureceu, mas não extinguiu. O título do filme, referência à flor de magnólia, cuja etimologia remete a Pierre Magnol mas cujo som evoca magnanimidade, sugere essa dupla natureza: uma obra sobre a complexidade sistemática da vida (a classificação botânica) e sobre a grandeza de alma necessária para suportá-la (a virtude ética). A magnólia, flor antiga que precedeu a emergência das abelhas e que evoluiu para ser polinizada por besouros, torna-se metáfora perfeita para um filme sobre sobrevivência e adaptação, sobre formas de conexão que não dependem dos mecanismos convencionais, sobre a persistência da beleza e da vida em condições adversas. Anderson não oferece respostas definitivas porque, como bem sabem seus personagens, tais respostas não existem; oferece, em vez disso, a forma cinematográfica como espaço de perguntas compartilhadas, de reconhecimento mútuo na imperfeição, de coragem para continuar mesmo quando — especialmente quando — não há garantias de desfecho feliz.

Essa conclusão é compatível com a fraqueza da solução do filme em si, que termina cheio de sugestões, porém sem tomar uma decisão à respeito da solução para o problema do ser humano nesta condição. Agora, a referência simbólica à flor remete a uma idéia mais profunda na minha mente. Cada alma é como uma pétala que sozinha não faz a beleza de uma flor que contém o conjunto de todas elas, e a beleza de uma só pode ser apreciada de modo pleno no conjunto da obra. Mesmo essa idéia, porém, é espiritualmente ambígua. Porque pode significar tanto a Obra de Deus com vistas à Eternidade, quanto um tipo de monismo gnóstico de Legitimação da Mistura, como se os sofrimentos particulares fossem necessários para a produção de um resultado harmônico. Qual foi a intenção do diretor? Não posso afirmar, ele se escondeu bem, mas conhecendo Hollywood, eu apostaria na segunda hipótese.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,9

A catedral do mar, série por Jordi FRADES

SINOPSE: A catedral do mar acompanha a trajetória de Arnau Estanyol desde a infância, marcada pela fuga da servidão feudal ao lado de seu pai Bernat, que o conduz a Barcelona após a morte da mãe durante abusos impostos pelo senhor feudal, até sua ascensão social na cidade, onde Arnau sobrevive como trabalhador braçal, torna-se bastaixo envolvido na construção da igreja de Santa Maria del Mar e constrói uma reputação baseada em lealdade, trabalho e justiça. Arnau enriquece progressivamente por meio do comércio marítimo, assume cargos de prestígio e se casa com Aledis, união frustrada por traições e anulação, seguida por um novo casamento com Elionor, imposto por conveniência política e marcado por hostilidade e conspiração. Paralelamente, Joan, amigo de infância de Arnau, ingressa no clero e ascende na hierarquia eclesiástica, enquanto inimigos do passado reaparecem e antigos ressentimentos se transformam em acusações formais. O conflito central da narrativa se estabelece quando Arnau é denunciado à Inquisição sob acusações de heresia associadas à proteção de judeus perseguidos, o que leva à prisão, confisco de bens e julgamento público. Durante o processo inquisitorial, testemunhos falsos e vinganças pessoais são usados contra ele, enquanto Elionor colabora ativamente para sua condenação. A solução apresentada pela obra ocorre quando novas provas e confissões revelam a falsidade das acusações, levando à absolvição de Arnau, à punição dos conspiradores e à restauração de sua honra, com a conclusão da catedral de Santa Maria del Mar servindo como marco final dos acontecimentos narrativos.

Parece que o problema de Arnau foi querer se casar, não foi? Talvez seja o caso, mas a sinopse do Chat GPT não nos permite afirmar isso. Aliás, qual é a época dos fatos? Sabemos que estamos em Barcelona, mas quando? Fui atrás… por volta de 1320. A vida era difícil, e continuou difícil por muito tempo. Essas grandes obras que a Igreja fazia serviam de pano de fundo para as estórias particulares de várias gerações de pessoas. Me lembra Os pilares da terra, de Ken Follett. Por enquanto não há muito o que se dizer. Exceto o óbvio, que as razões religiosas para se fazer as coisas eram desculpas para a prática humana mais antiga, que é a concentração e o uso de poder contra o seu semelhante. É o caso da exploração dos servos feudais, uma ordem social baseada na legitimação do Pecado Original (afinal, Deus é quem manda gerar novos servos), bem como da organização econômica em torno de uma grande obra como a construção de uma Catedral, ou então as razões nominais para se justificar uma perseguição política, como parece que foi o caso. Não assisti a série. Só vi o trailer. O que me pareceu é que basicamente o tal Arnau acaba se convencendo de que carregar pedras para a Igreja é algo sagrado, o que representa bem o triunfo da manipulação religiosa. Vejamos a análise.

ANÁLISE: A catedral do mar constrói uma totalidade narrativa fechada fundada na equivalência rigorosa entre obra material e ordem moral. A série organiza sua inteligibilidade a partir da edificação da igreja de Santa Maria del Mar. O edifício funciona como eixo ontológico. Tudo o que ocorre adquire peso pelo vínculo com essa construção. A pedra erguida carrega sentido. O esforço coletivo fixa uma medida de justiça imanente ao mundo representado. A cidade de Barcelona surge como campo histórico determinado pela lei, pelo trabalho, pela fé e pela violência legítima.

Esse primeiro parágrafo da análise é bem ruim, mas talvez seja apenas um reflexo do vazio da obra em si. Não sei dizer por enquanto. Mas parece que já se confirma que o projeto da construção é o que dá “sentido” à vida da população da cidade de Barcelona à essa época. Isto porque o dinheiro e o poder da Igreja determinaram que fosse assim, mais ou menos como os Estados modernos fazem hoje com suas obras e projetos. Isso vem desde o Faraó, ou mesmo desde a Torre de Babel. Não há nada de novo sob o sol, exceto que desta vez se usa em vão o nome de Jesus Cristo para fazer essas coisas, o que se pensarmos bem é um agravante, porque os faraós ou Nimrod eram pagãos, mas os espanhóis desta época deveriam ser cristãos.

A narrativa assume forma de provação contínua. A vida de Arnau Estanyol se apresenta como trajetória submetida a forças superiores. A servidão inicial define a condição humana como sujeição. A fuga do pai rompe o vínculo jurídico com o senhor feudal. O gesto funda uma culpa objetiva. A culpa não se dissolve. Ela se transforma em destino jurídico. A série insiste na permanência da lei. Nenhum ato desaparece. Tudo retorna sob forma institucional.

Agora a trama fica um pouco mais clara. A fuga de Arnau com o pai foi um ato ilegal. Qual é a base desse fato? Por que isso aconteceu? Lembremos do inesquecível, daquele motor ancestral que movimenta esse moedor de almas que é o mundo desde a Queda: o Pecado Original. Arnau pode pensar que seus pais são os heróis, ou no mínimo as vítimas da estória, mas nós temos que saber melhor que isso. A realidade da servidão no feudo, ou sob as leis da Igreja, etc., tudo isso é derivado do mesmo ato inaugural da desobediência contra Deus que encarnou Arnau neste mundo. Olhar somente para fora, ou para frente, é o que animais, ou escravos em condição análoga à animalidade, fazem. A vida espiritual na presença de Deus começa quando contamos a verdade, quando olhamos para dentro e para trás, e entendemos de onde viemos e porque realmente estamos aqui. Caso contrário, os conflitos e as aporias que buscam vilões exteriores apenas reforçarão a dialética, por exemplo, do servo contra o senhor, ou do herege contra o religioso, etc., e toda essa disputa já está nas mãos de Satanás, que foi quem instituiu esse Sistema da Besta fazendo pactos com os ancestrais de Arnau. Se a estória de A catedral do mar não nos contar nada disso, não nos surpreende, porque tal como donos de animais ou de escravos, os produtores e diretores só querem que olhemos para fora e para frente.

A construção da catedral introduz o tema do sacrifício voluntário. Os bastaixos carregam pedras como oferenda. O trabalho não é apenas econômico. Ele assume valor espiritual explícito. O esforço físico equivale a oração. A série apresenta essa equivalência sem metáfora externa. O gesto corporal substitui o rito formal. A fé se manifesta no corpo. A comunidade se organiza em torno desse ato. A catedral nasce da soma de renúncias.

Eles tinham alternativa? Como que um ato pode ser apresentado como voluntário, se outra opção é inviável? Por exemplo, quem se opusesse a participar nesse empreendimento não seria excluído automaticamente da participação na sociedade, para não falar da possibilidade de sofrer um processo por acusação de heresia ou impiedade? Se esta série ficar por isso mesmo, é um grande testemunho da Legitimação da Mistura. A obra que fazemos para Deus é INTERIOR. Meu Deus do Céu! Essas catedrais todas vão ser destruídas pela própria mão de Deus. Será que Jesus não foi claro o suficiente? Que adianta carregar pedras para Deus? Que necessidade o Altíssimo tem dessas coisas? É o ser humano que precisa se sentir digno sem que o seja, e que precisa comprar de algum modo o favor divino, como se o Amor de Deus estivesse à venda. A construção que Deus quer é interior. As pedras que devemos carregar são as do perdão, da misericórdia, da caridade, principalmente a renúncia ao poder e às tentações da vida mundana. Mas se as grandes culpas derivadas da perpetuação do Pacto Ouroboros não se convertem em arrependimento e mudança de conduta naquilo que interessa, que é a renúncia ao Pecado Original, o povo continua refém dos espíritos infernais, e a Igreja capitaliza essa culpa na forma de autoridade e poder para usar esses infelizes escravos do pecado para lhe servir. É um esquema perverso que o diabo instalou no mundo junto com seus sócios humanos, e a maioria dos nossos semelhantes até prefere isso do que se libertar, o que é sempre a coisa mais nojenta. Como Deus disse: “Coisa horrível e abominável aconteceu nesta terra: os profetas profetizam mentiras, e os sacerdotes procuram proveitos. E meu povo gosta disto!

A figura de Deus aparece de modo constante. Ela surge como instância última de justiça. Os personagens invocam Deus diante da injustiça humana. Arnau afirma em momento decisivo que “Deus vê tudo”. A frase não consola. Ela pesa. Ela introduz a certeza do juízo. O Deus da série não suspende a ordem histórica. Ele a atravessa. O sagrado não interrompe o mundo. Ele o confirma.

Espera um pouco aí, Deus não confirma nada além da liberdade que deu ao homem. Deus permite as coisas porque na sua Providência o cálculo da economia espiritual já considerou que de todas as possibilidades antevistas pela análise combinatória, e de todas esta é a melhor série possível (o Princípio da Razão Suficiente de Leibniz). E isso tudo é muito antigo, por estar na base do sentido da realidade da experiência humana neste mundo. Se Deus quisesse que o homem lhe fosse sempre obediente, não teria lhe dado a liberdade para escolher o bem. Então, se não quisermos anular o fato inquestionável da liberdade humana, nem tirá-lo da equação, nós precisamos romper com as aporias da Teodiceia e alcançar algo melhor. Esse melhor, na minha filosofia, é o que chamo de Eleuteriodiceia, que é a justificativa da liberdade humana pela razão da causa final por trás dessa experiência passageira. Como por misericórdia a Providência divina já abreviou essa nossa vidinha, na maior parte dos casos, a algo como sete ou oito décadas, não fica tão difícil entender as razões de Deus tendo em vista o chamado para a vida eterna.

A Igreja institucional surge em duplicidade. Há a Igreja da catedral. Há a Igreja do tribunal. A primeira aparece ligada à comunidade. A segunda se associa ao poder. A Inquisição encarna o juízo terreno que se arroga absoluto. O inquisidor invoca Deus para legitimar a violência. A série registra essa invocação de modo literal. “Agimos em nome de Deus”. A frase estrutura o conflito central. O nome divino se torna instrumento jurídico. O sagrado se converte em técnica.

Não vejo duplicidade nenhuma, só vejo manifestações diversas do mesmo tipo de poder básico, do homem sobre o homem. E não seria difícil verificar isso. De novo, quais são os incentivos concretos para a participação na construção da Catedral? Não é a de participação numa comunidade fora da qual não há vida possível? O que a Inquisição faz é apenas algo menos aceitável para um segmento da população, mas a fonte de poder é a mesma. Se ficarmos nessa dialética de “igreja do povo” e “igreja do poder” vamos legitimar uma das duas porcarias, é claro. A Igreja de Jesus Cristo é espiritual, é o seu corpo místico, é a aliança voluntária daqueles que amam a vontade do Criador e que imitam o Filho de Deus. Não tem nada a ver com instituições, nem para a construção de templos, e nem para processos judiciais, porque, novamente, tudo isso é apenas a manifestação da vontade de poder do homem sobre o homem. Não tem nada a ver com a liberdade e amor ao próximo do Evangelho.

O juízo aparece como tema recorrente. O julgamento público substitui a justiça interior. A confissão forçada ocupa lugar central. A verdade deixa de ser moral. Ela se torna procedimental. O tribunal exige palavras. O silêncio equivale à culpa. A consciência individual perde valor. A lei escrita assume primazia total. A série descreve esse mecanismo com precisão narrativa. Não há comentário externo. O sofrimento resulta da aplicação correta da norma.

Ok, e isso é uma maldade que a Inquisição inventou? Parece que não. Para começar, ao que me consta o Tribunal da Santa Inquisição trabalhava para criar processos onde a turba violenta e supersticiosa queria praticar vinganças com as próprias mãos. Então o cara era malvisto pela vizinha fofoqueira, essa contava para todo mundo que o cara era um herege, pronto vão querer acabar com a raça dele. Isso porque esses miseráveis são escravos do demônio, então um quer sempre se sentir melhor que o outro, ter alguma vantagem no meio dessa calamidade humana. Daí essas coisas aconteciam, e era uma zona. A Igreja instituía um processo para verificar alegações, dar chance de defesa ao acusado, etc. Claro que a própria instituição seria muito usada para justamente legitimar as perseguições pessoais ou políticas. Isso nos surpreende? É mais do mesmo, o ser humano sendo ser humano. O que quero dizer é que isso tudo deriva do Pecado Original que é perpetuado pelo povo que se torna escravo das consequências da sua ação. Então a Inquisição, ou mesmo a Igreja Católica como um todo, é uma coisa que sai do povo, da sua verdadeira crença que é a Religião de Adão, a Tradição Primordial, o Pacto Ouroboros. Essa é a causa fundamental das injustiças e dos sofrimentos. E é claro que se anunciamos a liberdade do Evangelho e da imitação de Cristo contra esse mal ancestral, nós é que nos tornamos imediatamente os hereges.

O destino se manifesta como encadeamento necessário. A ascensão de Arnau decorre de ações concretas. O favor recebido exige retribuição. A dívida moral se acumula. A riqueza não dissolve a origem servil. A memória social persiste. O passado retorna sob forma de acusação. A série estabelece uma ontologia da memória. Nada se apaga. Tudo se inscreve.

Agora o Chat GPT deu para ser lacônico. Parece que o sistema costuma exagerar tudo o que pedimos. Lá vou eu ajustar o prompt novamente. Voltando à série, como não foi detalhado o que subsidia essa interpretação, presumimos que Arnau volta e meia tem que se ver com ajustes de contas passadas, talvez desde a época da fuga com seu pai. Isso só prova que não se trata de um mundo cristão, porque não existe perdão em parte alguma. Pelos frutos conhecereis a árvore.

O pecado aparece como categoria objetiva. Ele não depende de intenção psicológica. A acusação de heresia dirigida a Mar ocorre por necessidade institucional. A série explicita o mecanismo. A Inquisição precisa de culpados. A culpa se fabrica a partir de ritos desviantes. O judaísmo oculto se torna signo de ameaça. Deus surge como nome usado para eliminar a diferença. A violência se reveste de sacralidade.

Quem é Mar? Quanta incompetência. Tive que ir atrás… Mar é uma filha adotiva de Arnau. E depois eles se apaixonam… não seria conveniente o Chat GPT me contar essas coisas? Fica difícil trabalhar assim, talvez eu tenha que incluir uma pesquisa profunda no prompt, vamos ver. Uma hora eles vão me cobrar algum dinheiro, esse é o objetivo deles, eu já sei. Mas não dá para ficar nessa linguagem esotérica. Simplesmente não consigo entender do que o Chat GPT está falando.

A misericórdia aparece como exceção rara. Ela surge apenas em momentos limítrofes. Arnau afirma diante da injustiça que “só Deus pode julgar”. A frase delimita uma fronteira. O humano não possui acesso ao juízo último. A série reconhece essa distância. Ela não a resolve. O mundo permanece submetido à lei imperfeita.

E por que será, hein? Não tem nada a ver com algo que o ser humano faz e que produz a perpetuidade dessa lei imperfeita? Não adianta nada dizer para um juiz humano que ele não tem legitimidade, por mais que isso seja verdade, porque o que basta para que os seres humanos nos aborreçam é que tenham o poder para fazer isso. A questão da autoridade ou legitimidade é uma discussão meio fantasiosa, porque se não existisse diferenças concretas de poder entre as pessoas, tudo isso se revelaria tolice. Não digo que não haja autoridade moral em algumas condições, mas elas são limitadas, e na melhor das hipóteses sinalizam a obediência de alguém à Deus sob certas condições. Isso nunca se converte em legitimação indiscriminada do poder humano.

A catedral concluída não encerra o conflito. O edifício permanece. Os homens passam. A pedra testemunha. O sagrado se fixa no espaço. A história continua marcada pela injustiça. A obra termina sem redenção plena. O juízo final não ocorre no tempo narrativo. Ele permanece prometido. A série sustenta essa suspensão como estrutura última. O sentido não se fecha pela felicidade. Ele se fecha pela permanência da ordem.

Uma conclusão bem fraca. E está errado. O edifício é mais passageiro que os homens, se acertarmos o ponto de vista que é o da alma que vive para sempre diante de Deus. Esse modo de mostrar as coisas dá um testemunho do espírito de Idolatria, como se existisse um mundo fora de nós, onde construímos templos, pontes e viadutos, e daí morremos e essas coisas ficam. Esse mundo não existe, é uma ficção. Jamais alguém viu um mundo cheio de coisas que não fosse visto por alguém que o vê desse jeito. Como Berkeley explicou muito bem, entre outros. Então é claro que não tem felicidade nessa estória. Seria estranho se tivesse alguma.

Fiquei tão decepcionado, e já estou tão cansado de ficar emendando prompts, que resolvei experimentar outra IA, Claude. Usei o mesmo prompt. Vejamos o resultado:

A série catalã concebida por Jordi Frades ergue-se como construção narrativa alicerçada na dialética entre servidão e dignidade. A ação transcorre na Barcelona do século XIV. O protagonista Arnau Estanyol nasce filho de um servo fugitivo. A fuga do pai Bernat representa ruptura com a ordem feudal estabelecida. A liberdade surge como condição ontológica conquistada mediante transgressão. O gesto fundador da narrativa é movimento de subtração ao domínio senhorial. A obra institui desde o início uma metafísica da emancipação. A liberdade não se herda. A liberdade se arranca.

Já melhorou algo, no mínimo por situar os eventos no Século XIV, coisa que o Chat GPT nem se dignou a fazer. Sobre essa questão de se precisar praticar uma transgressão para obter a liberdade, que não se herda mas “se arranca”, isso aí não quer dizer nada. Que transgressão é essa? Se é de uma lei injusta, ou de uma prática injusta de interpretação de uma lei boa, não é transgressão, embora possa ter essa aparência diante dos homens. Concordo que a liberdade não é quase nunca herdada, porque se nossos pais fossem livres seria impossível nós nascermos, mas eles poderiam se tornar livres depois do nosso nascimento, o que tornaria possível a herança de uma consciência aprimorada. Mas não seria uma liberdade material contra senhores feudais, é claro. Aliás, com liberdade espiritual, em uma geração se destrói o poder do sistema de servidão sobre todas as gerações poupadas de nascer sob essa condição. Isso serve para se ter uma idéia do que é o poder da vida espiritual e da renúncia ao mal. O perdão costuma ser a nossa libertação da necessidade de perpetuar o mal que nos fizeram. Há algo que se enquadra mais nisso do que o Pecado Original?

A construção da catedral de Santa Maria del Mar funciona como eixo simbólico e material da trama. Arnau integra-se à confraria dos bastaixos. Esses homens transportam pedras do porto até o canteiro da igreja. O trabalho é oferecido como devoção. A pedra carregada nos ombros configura sacrifício voluntário. A catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso. A narrativa estabelece equivalência entre labor físico e ascese espiritual. A dor do esforço purifica. A obra coletiva transcende a individualidade. Arnau declara repetidamente sua devoção à Virgem de Santa Maria. A relação com o sagrado não se medeia por hierarquias eclesiásticas. A fé se manifesta na entrega corporal à edificação. A pedra que sobe é prece materializada.

Gostei mais dessa formulação simbólica do que daquela do Chat GPT. Principalmente dessas expressões: “a catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso”, e “a pedra que sobe é prece materializada”. Muito bem. E o que é isso? É o esquema dos construtores de civilizações, os Filhos de Adão que desejam consumar a obra de seus pais no seu projeto de ereção de um monumento à traição da Queda, que será o futuro Terceiro Templo de Jerusalém. O que a Catedral de Santa Maria del Mar teria a ver com isso? É um modelo de ação humana voltada para o projeto de um falso Reino de Deus na Terra. Aquele templo em Barcelona é como uma filial que antecipa a construção da última matriz em Jerusalém. Novamente, Deus não quer que pedras sejam erguidas, amontoadas, talhadas, etc. Ele quer perdão, justiça, misericórdia, caridade, etc. E mesmo a construção de escolas e hospitais não resolveria (embora talvez pudesse ser algo melhor que a de templos) tanto quanto a construção de um testemunho da liberdade do Evangelho de Jesus Cristo contra o Pecado Original, pois onde não se gera ignorantes e doentes, não é necessário erguer escolas e hospitais, etc.

A estrutura social retratada repousa sobre antagonismos irredutíveis. A nobreza detém privilégios derivados do nascimento. O clero acumula poder temporal e espiritual. Os mercadores ascendem mediante acumulação. Os servos permanecem presos à terra. Os cidadãos livres de Barcelona habitam espaço intermediário. A obra explora com rigor as contradições internas dessa ordem. A liberdade jurídica dos citadinos não elimina a sujeição econômica. A mobilidade social permanece exceção violenta. Arnau atravessa estratos mediante acaso e virtude. A trajetória individual desmente a rigidez estamental sem negar sua violência estrutural.

A violência estrutural que costuma manter os servos presos à terra é originada de onde? De um total acaso? Posso parecer repetitivo, mas essa é a nossa sina enquanto caminharmos por este lugar. A servidão é gerada por uma ação humana, e uma ação humana é sempre livre e imputável, simples assim. Ah, mas e os filhos dos nobres e dos mercadores, e os membros do clero, porque a vida deles é mais fácil? Porque Deus assim o determinou por razões que não nos dizem respeito, e essa vantagem diante do Paraíso pensando bem não vale muita coisa. Se ainda assim se insistir muito no problema da desigualdade, há que se considerar três coisas: 1) tudo isso é mantido pela prática do Pecado Original, de modo que quem não gera filhos não gera a experiência da desigualdade; 2) se algumas almas podem sofrer menos do que outras debaixo da Providência divina, como poderíamos afirmar que este ou aquele caso requerem uma intervenção de nossa parte, senão já nos colocando no lugar de Deus, ou mesmo desconfiando completamente do seu governo?; 3) finalmente, mesmo nos casos de grande e óbvia injustiça na produção da desigualdade, a penalidade do malvado é a sua própria maldade, a sua vida apartada da Presença de Deus, de modo que quem vive em estado provisoriamente pior, materialmente falando, mas espiritualmente conciliado com o Criador, vive mil vezes melhor que uma criatura perdida que acha que está ganhando alguma coisa. Até Sócrates sabia disso, que é muito melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma, porque a maldade está no coração de quem é injusto, não no da vítima. Quem não quiser entender essas razões provavelmente não está querendo entender nada.

O casamento de Arnau com Elionor constitui nó dramático central. A união se realiza por interesse da nobreza decadente. Elionor pertence a família arruinada que aspira recuperar posição. Arnau acumula riqueza como cambista. O matrimônio converte-se em campo de humilhação recíproca. Elionor não consuma a união. A recusa do corpo expressa desprezo de classe. Arnau permanece fiel ao voto sacramental. A impossibilidade do amor conjuga-se com impossibilidade do desejo. O sacramento cristão revela-se armadilha quando desprovido de consentimento interior. A obra expõe a violência inscrita nas instituições que deveriam consagrar a liberdade afetiva.

O sacramento revela-se armadilha, ponto final. O consentimento interior que valida uma relação entre dois seres humanos é o da amizade, pois somos todos irmãos uns dos outros debaixo de Deus. O resto é resto. Temos uma idéia meio romântica, meio besta mesmo, de que um casamento por “amor” é superior ao por interesse, como teria sido o problema de Arnau com Elionor. Mas eu pergunto, esse amor ama o quê? O amor ao próximo é a amizade e a fraternidade. Que outro amor existe? O que se chama de amor matrimonial é geralmente um sentimento de conveniência que atende a interesses mútuos, que geralmente tem a ver com a vontade de poder sobre bens da vida como dinheiro, estabilidade, poder, influência, prazer, sonhos afetivos, etc. O contrato que costuma sair desse acordo serve para restringir a liberdade do outro. Amar o próximo é incompatível com a idéia de lhe restringir a liberdade, porque o próximo é um outro eu cujo destino é o usufruto pleno de sua liberdade na experiência do Ser divino. É claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O interesse espiritual legítimo que pode existir numa relação matrimonial é a da imposição de um limite sobre o desejo sexual, como sugerido pelo Apóstolo Paulo, mas isto é como achar bom amputar uma perna para que uma doença não tome o corpo inteiro: não seria melhor não ter a doença em primeiro lugar? A castidade é uma virtude milhões de vezes superior à tal “vocação matrimonial”. Ainda penso que o Apóstolo foi caridoso como Moisés na época da instituição da carta de divórcio. Não faz sentido recomendar que se aceite um limitador do pecado no lugar da virtude verdadeira.

A Inquisição surge como instância de terror absoluto. Elionor denuncia Arnau por heresia. A acusação é vingança pela humilhação matrimonial. O processo inquisitorial submete Arnau à tortura. A cena do potro apresenta a dor extrema. O corpo se fragmenta sob pressão dos instrumentos. A confissão extraída pela violência carece de valor epistêmico. A verdade torna-se função da resistência física. A obra demonstra que o tribunal eclesiástico opera mediante aniquilação da vontade. A pergunta sobre a fé converte-se em pergunta sobre os limites do corpo. Arnau confessa crimes que não cometeu. A palavra arrancada pela tortura é palavra morta.

Claro, uma confissão obtida sob tortura é inválida. Foi o problema do filme Silence de Scorcese, por exemplo, a respeito da tortura dos kirishitan no Japão. Esse tipo de coisa faz parte o mesmo teatro que a instituição religiosa pratica quando, por exemplo, reconhece a bênção divina sobre o matrimônio, como acabamos de observar no tópico anterior. O que temos que fazer é fugir da armadilha dialética. Não endossar a Religião por causa da Fé verdadeira, e nem jogar fora o Evangelho junto com a Religião.

Mar representa princípio de alteridade radical. Filha adotiva de Arnau. Criança resgatada da miséria. A relação entre Arnau e Mar estrutura-se inicialmente como paternidade eletiva. O crescimento de Mar transfigura o afeto. Arnau experimenta atração que não pode nomear. A narrativa explora com precisão o conflito entre dever moral e inclinação. Arnau reconhece o desejo como transgressão interna. A proibição não provém da lei externa. A proibição habita a consciência. Mar é prometida em casamento a jovem nobre. A separação forçada reproduz a lógica de propriedade que governa as alianças. O amor entre Arnau e Mar permanece interdito por categorias que a narrativa não valida mas registra como efetivas.

Parece que o Claude também tem seus limites. Este texto está ficando ruim aos poucos, como aconteceu com o Chat GPT. De qualquer modo, a relação de Arnau com Mar só é problemática sob o efeito do espírito da Sedução, ou Pacto com a Morte. Sob o nihil obstat do Espírito Santo, na Eternidade Mar pertence a Arnau de forma plena tanto quanto hoje ela já pertence a ele pela sua Apetição. A solução é o Louvor. Se Arnau não acessa essa promessa divina, e está no mínimo na condição precária de Dante com sua Beatriz, ou pior ainda. Se a série não revela, não é possível afirmar nada. De qualquer modo, nenhum amor verdadeiro pode ser “interdito”. Só existe a espera, como de uma Noiva pelas núpcias. A Noiva feliz sabe se alegrar porque confia no Noivo e em suas promessas.

Joan Estanyol encarna trajetória inversa à do irmão Arnau. Joan ingressa na ordem dominicana. Torna-se inquisidor. A ascensão eclesiástica afasta-o da origem humilde. Joan desenvolve fanatismo teológico. A pureza doutrinal substitui a compaixão. A cena em que Joan interroga Arnau configura paroxismo da alienação. O irmão tortura o irmão em nome de Deus. A instituição religiosa perverte o vínculo de sangue. Joan experimenta prazer sádico disfarçado de zelo apostólico. A narrativa expõe a cumplicidade entre ortodoxia e crueldade. A fé verdadeira pertence aos simples. A teologia armada serve ao poder.

Eu nem sabia que Arnau tinha um irmão! Amigos, se as coisas continuarem assim não se preocupem com a IA. Até um estagiário meio burrinho faria melhor. Primeiro, a instituição não perverte o vínculo de sangue porque este já era de algum modo pervertido, por ter origem na Queda. Deus não disputa lugar com as coisas do homem, e o Sagrado e o Amor lhe pertencem exclusivamente. Em segundo lugar, se Joan quisesse ser perverso ele poderia fazer isso em qualquer condição, independente da Religião. Como a época era de grande concentração de poder na Igreja, foi ali que o vilão encontrou instrumentos para realizar suas vontades, mas isso muda conforme a época e o lugar. O problema da ortodoxia religiosa não é de crueldade neste sentido, mas de perversão do testemunho da Revelação a respeito de Deus. Uma tortura é sempre um crime condenável, mas é uma coisa meio isolada. O falso testemunho da Palavra é uma conspiração gigantesca e milenar. O que acabou com o poder da Igreja medieval? Não foi a mera consequência dos crimes da Inquisição. Foi a tradução da Bíblia e a denúncia da manipulação da Igreja de Roma. Não vamos coar o mosquito e engolir o camelo. Vamos priorizar o que mais importa.

A peste negra atravessa a narrativa como catástrofe objetiva. A morte invade Barcelona. Os corpos apodrecem nas ruas. A ordem social se dissolve temporariamente. Arnau permanece na cidade. Cuida dos doentes. Transporta cadáveres. A caridade se exerce sem expectativa de retorno. A obra apresenta a peste como revelação da contingência humana. A morte súbita dissolve hierarquias. O nobre apodrece tão depressa quanto o mendigo. Arnau enfrenta a doença sem amuletos teológicos. A coragem deriva da aceitação da finitude. A solidariedade emerge precisamente quando Deus parece ausente.

De novo, que opção as pessoas têm? O desespero não é exatamente muito produtivo. E a ajuda mútua é tão proveitosa numa situação dessa quanto na escolha de se viver na cidade e não no meio do mato. O ser humano é adaptável e flexível. Sobre o fato brutal da morte, isso de fato pode ajudar as pessoas a se instalarem na realidade, mas nada disso é garantido. A dificuldade pode “gamificar” a vida. É espantoso como nós nos dispomos a ignorar o sentido das coisas quando somos instalados na condição de ganhar ou perder. Crises tendem a ativar esse tipo de mecanismo psíquico.

A figura da Virgem Maria percorre a série como presença tutelar. Arnau dirige-se à imagem inúmeras vezes. As preces não pedem milagres espetaculares. Arnau pede força para suportar. A Virgem não intervém causalmente nos acontecimentos. A devoção produz efeito subjetivo. A fé sustenta a resistência. A cena diante da imagem antes da tortura é decisiva. Arnau pede perdão pelos pecados que não cometeu. Reconhece a própria fragilidade. Entrega-se à vontade divina sem compreendê-la. A relação com o sagrado prescinde de mediação intelectual. A fé é confiança anterior ao entendimento.

Isso não está tão ruim. Pedir perdão pelos pecados que não cometeu já não faz muito sentido. O que existe é o pedido pelo perdão das chamadas “faltas escondidas”, ou seja, pelos pecados que nós mesmos ignoramos. Sobre a questão da devoção à Virgem, não vou esmiuçar a questão porque não vejo grandes vantagens. Tem gente que faz confusão? Tem. A Igreja Católica estimula esse tipo de bagunça e se aproveita da ignorância das pessoas? Sim. Mas deixe estar, que Deus sabe melhor o que vai no coração de cada um. Eu só tomaria cuidado com a prática disfarçada de necromancia, por óbvio. Jesus Cristo em pessoa se colocou como o nosso mediador entre a Terra e o Céu. Quem é como ele? Maria? Não… e o pior de tudo é que a grande qualidade que Maria tem de fato, que foi a sua renúncia ao Pecado Original, isso não é valorizado o quanto se deveria sobre a tal da “vocação matrimonial”. A Religião é um problema.

O julgamento final de Arnau convoca a cidade inteira. O povo de Barcelona comparece à praça. A sentença é esperada como espetáculo. A acusação formal enumera heresias inventadas. Arnau permanece em silêncio. A defesa provém de testemunhos inesperados. Os bastaixos relatam a devoção demonstrada. Os pobres testemunham a generosidade. A verdade factual confronta a verdade processual. O inquisidor-geral hesita. A pressão popular força a absolvição. A cena dramatiza conflito entre justiça institucional e justiça comunitária. A salvação de Arnau não provém da ortodoxia. A salvação provém da memória dos gestos.

Para começar, essa é uma “salvação”, entre aspas. Arnau sobreviveu num dia para morrer no outro, como todos nós fazemos. Em segundo lugar, o que funcionou foi uma concessão do poder religioso em face de uma inconveniência política. Em suma, não foi exatamente o triunfo da Justiça, mas uma disputa de poder político, entre a força popular e a força eclesiástica. Foi por esse tipo de concessão que a Igreja Católica se manteve por tanto tempo no domínio do poder político do continente europeu. Reconhecemos, por exemplo, uma manobra de acomodação no advento do carisma Franciscano, entre outros casos. Um poder que saiba ser rígido ou maleável conforme a condição tende a resistir mais à passagem do tempo. Mas é claro que a condição número um da sobrevivência de todas as religiões cristãs é a parasitagem do tesouro do Evangelho.

Mar casa-se com homem que não ama. A noite de núpcias revela-se estupro institucionalizado. O marido exerce direito conjugal mediante violência. A obra não atenua a brutalidade. A cena é filmada sem eufemismos. O sacramento torna-se cobertura legal do crime. Mar enviúva prematuramente. A liberdade reconquistada chega tarde. O corpo guarda memória da violação. A narrativa recusa redenção fácil do trauma. A violência inscrita nas instituições matrimoniais não se repara mediante arrependimento individual.

Gostei da idéia de que o “sacramento torna-se cobertura legal do crime”, mas eu corrigiria para “revela-se”, pois sempre foi isso. E o crime não é de um esposo contra o outro, mas de ambos contra Deus, na imitação daquele primeiro casal mitológico de traidores, Adão e Eva. Hoje em dia, sob a cultura “Red Pill”, os homens e as mulheres vivem em pé de guerra sobre quem tem direito ao quê. Ainda pensam no problema sob a ótica do Poder. Se mudarem isso para a ótica do Amor, da amizade e da fraternidade, tudo se resolve num instante. Mas vão saber onde enfiar seus desejos sexuais? Esse problema precisa ser resolvido. A pílula que cura a doença da escravidão ao sexo não é vermelha, nem azul, nem branca, nem preta, é uma coisa chamada liberdade: a de se abster, ou a de usufruir sem medos e traumas, o que é para poucos, cá entre nós, no meio dessa raça de fodidos, para usar um trocadilho apropriado. É mais fácil viver uma petrificação numa continência fria e cruel, como uma Igreja de Éfeso, ou uma libertinagem hipócrita como uma Igreja de Laodicéia, do que a liberdade, porque esta não é uma regra de vida, mas é o próprio viver cada momento com Discernimento, consciência e responsabilidade. Coisas que o ser humano geralmente detesta. O desgraçado prefere ser enfiado numa camisa-de-força do que ser maduro e responder por seus atos. Ou então receber uma bênção religiosa para fazer como o cara fez com a coitada da Mar na série.

A reconciliação final entre Arnau e Mar ocorre diante da catedral concluída. A construção que consumiu décadas está terminada. As pedras carregadas por Arnau compõem a estrutura visível. A igreja ergue-se como testemunho do sacrifício coletivo. Arnau e Mar reconhecem o amor impossível durante anos. A união se consuma fora do tempo narrativo principal. A obra sugere que certas formas de amor requerem destruição prévia das estruturas que as impedem. A catedral simboliza a possibilidade de beleza emergir do sofrimento histórico. A pedra inerte adquire significado através das mãos que a elevaram.

Fico feliz pelo casal, já que essa questão parece ter se resolvido no tempo da estória, mas temo pelo que isso significará, ou seja, o que significa para eles ser um casal de fato. Sobre certas formas de amor requererem a destruição de estruturas prévias, é a verdade em todos os casos, pois a consumação plena do Amor não pertence a este mundo, nunca pertenceu. Assim, o caso de Arnau e Mar pode ser exemplar, mas não sei dizer. Já a idéia de que a beleza emerge do sofrimento, é um tremendo testemunho de Legitimação da Mistura. Porca miséria, o ser humano não consegue só confiar em Deus, tem que fazer bagunça mesmo. Uma pedra inerte, por sua vez, pode ter significado mesmo que permaneça assim para sempre, bastando que alguém a reconheça na consistência do seu ser. Esse relato sobre a série dá uma impressão de poder taumatúrgico, telúrico, do ser humano sobre uma realidade material morta. É uma forma de fetichismo e de Idolatria. Tudo já teve sempre o seu sentido máximo no Logos divino. Não se pode criar sentido ou valor, só descobrir o que sempre foi verdade na Eternidade de Deus.

A dimensão religiosa da série não se reduz a ornamento temático. A fé constitui categoria ontológica operante. Arnau vive num universo onde Deus existe objetivamente. A providência não é hipótese consoladora. A providência é estrutura da realidade. As referências ao juízo divino não expressam medo supersticioso. O juízo é horizonte inevitável da ação moral. Quando Arnau perdoa os inimigos, o perdão deriva de imperativo espiritual. A misericórdia imita a misericórdia divina. A obra não ironiza essa convicção. A fé de Arnau é apresentada como racionalidade alternativa à racionalidade do cálculo.

Finalmente, parece que encontramos algo impecável, um testemunho espiritual de valor genuíno independente da Religião. Providência, Juízo Final, Misericórdia, são categorias verdadeiras da crença cristã. Se Arnau se liga a isto, já é uma conquista e um testemunho valoroso no meio do resto da bagunça. Mas nunca saberei ao certo o quanto o Chat GPT ou o Claude interferiram na interpretação da estória da série enquanto não a assistir eu mesmo.

A oposição entre igreja-instituição e igreja-povo atravessa toda a narrativa. Os prelados acumulam riquezas. Os monges inquisidores torturam. Os padres vendem absolvições. A corrupção eclesiástica é retratada sem ambiguidade. A fé verdadeira habita fora das hierarquias. Os bastaixos praticam cristianismo sem teologia. A caridade prescinde de doutrina. A obra estabelece distinção rigorosa entre cristianismo vivido e cristianismo administrado. A catedral do mar pertence ao povo que a construiu. A propriedade espiritual não coincide com propriedade jurídica.

É o caldo da futura Reforma Protestante. Mas vamos nos lembrar que os latinos não conseguiram se libertar das garras do poder eclesiástico por si jamais. A guerra contra a mentira e a tirania veio do Norte: de alemães e anglo-saxões, os mesmos que desafiaram e eventualmente venceram o antigo Império Romano. O problema é que a liberdade dos reformistas logo abriu chamado a novas formas de institucionalização do Poder religioso. Isso é inevitável. Só se possui testemunho espiritual sem corrupção onde não há estrutura institucional que concentre poder. Ou seja, a verdadeira Igreja é feita de ações e de testemunhos, não de ritos, calendários, festas, etc., tudo isso que já sabemos que Deus detesta. O que é bom é a própria bondade: o perdão, a misericórdia, a caridade, a justiça, etc. Essa é a verdadeira “Religião”.

A questão da liberdade retorna constantemente sob formas diferentes. Bernat foge da servidão e morre livre. Arnau nasce cidadão mas conhece a prisão inquisitorial. Mar é vendida em casamento e depois viúva. Joan escolhe o convento e torna-se escravo da ortodoxia. A liberdade não é estado permanente. A liberdade é conquista reiterada contra forças que a negam. A narrativa recusa determinismo histórico. As estruturas oprimem mas não anulam completamente a agência. A resistência individual possui eficácia limitada mas real. A liberdade é simultaneamente dom e tarefa.

A Liberdade é um dom divino inalienável. O problema é que o seu objeto verdadeiro é interior. Por isso o Claude está com essa dificuldade de verificar a vitória do homem contra as formas de repressão, porque parece que nunca cessa o efeito de alguma espécie de restrição. Bom, o modo de se resolver isso é espiritual e requer o reconhecimento de que dentro do Limite máximo da nossa forma substancial, todos os outros limites são apenas circunstanciais e temporários. É claro que a vida de servidão, ou a repressão religiosa, tudo isso parece destruir a liberdade das pessoas, mas é só uma impressão. Logo vem a morte das Obras da Carne e o triunfo das Obras do Espírito, e tudo fica bem. O problema deste mundo só existe para quem só crê neste mundo, daí a aflição já é uma escravidão também de outra natureza, também espiritual.

O tempo histórico da série é tempo de crise. A peste dizima a população. A guerra ameaça o reino. A fome assola os campos. As revoltas camponesas eclodem periodicamente. A narrativa não idealiza o medievo. O século XIV surge como época de catástrofe acumulada. A construção da catedral ocorre contra esse pano de fundo. A beleza se edifica apesar do horror circundante. A obra afirma possibilidade de criação em meio à destruição. A catedral é resposta estética e espiritual ao caos histórico.

Eu preferiria uma resposta interior, algo como a construção de catedrais espirituais dentro de cada coração humano. O foco nessa vitória temporal feita de pedra é um erro que prende os seus crentes numa dialética onde a Mistura é legitimada, como se de algum modo essas coisas se compensassem umas às outras. Isso ignora totalmente a perfeição do Ideal divino, bem como as promessas concretas feitas por Deus. Os construtores de templos querem simbolizar o divino naquilo que não é divino. Como poderão transmitir assim a idéia daquilo que é digno de Deus? Não me entendam mal: a arte sacra pode ser belíssima, mas tanto quanto uma paisagem que Deus já criou e que está aí há milhões de anos. Uma coisa é glorificar a Deus através da arte. Outra coisa é precisar fazer isso para justificar uma vida que de outro modo não teria sentido. Aí já encontramos um problema.

A linguagem visual privilegia a pedra e a água. A pedra carregada simboliza o peso da existência. A água do mar representa o horizonte de abertura. Barcelona aparece como cidade determinada pela geografia. O porto conecta a cidade ao mundo. As montanhas cercam o espaço urbano. A catedral eleva-se entre esses limites. A verticalidade da igreja desafia a horizontalidade da condição terrena. A arquitetura gótica é filmada como aspiração à transcendência. As nervuras apontam para o alto. A luz filtrada pelos vitrais transfigura o espaço. A matéria santificada pela forma.

Tudo isso é notável, mas novamente, se não culminar num processo no interior do homem onde ele descubra que vive na Presença do Altíssimo, não adianta de nada. Pedra, água, luz, seja o que for, ou tudo isso está em Deus e dá testemunho da Sua Glória, ou é apenas uma representação sentimental de esperanças meramente humanas.

A série evita psicologização anacrônica. As personagens não possuem interioridade moderna. Os conflitos não se resolvem mediante autoconsciência. Arnau não faz terapia da culpa. Joan não descobre um trauma infantil que explique o fanatismo. As motivações permanecem próximas da superfície dos atos. A obra respeita a alteridade antropológica do medievo. Os homens do século XIV não são burgueses disfarçados. A subjetividade retratada é subjetividade pré-cartesiana. A identidade deriva da posição social e da relação com Deus.

Dá para entender os limites na expressão e na representação, entre o moderno e o medieval, mas não no próprio Ser. Do contrário, de onde teria saído a consciência moderna? E de onde teria saído a subjetividade pós-cartesiana? O ser humano sempre teve a potência da autoconsciência. A largura e profundidade do conteúdo real explorado a partir dessa potência sempre dependeu de alguns elementos exteriores acidentalmente, mas essencialmente dependeu apenas da vontade interior. Não podemos confundir o que é o desdobramento histórico dos testemunhos da atividade interior da autoconsciência humana com a realidade da sua atividade. Do contrário caímos na armadilha historicista que transforma o homem antigo ou medieval num ser de outra espécie, prisioneiro do seu tempo. Não somos feitos à imagem e semelhança de Deus para estarmos presos aos limites de consciência de uma época, embora estejamos geralmente limitados ao uso de meios expressivos disponíveis em cada momento. E mesmo assim, sempre podemos inventar palavras novas, idéias novas, etc. Se não pudéssemos, a História teria sido impossível.

A conclusão da série retorna à catedral. Arnau morre velho. A igreja permanece. As gerações se sucedem. A pedra sobrevive aos construtores. A obra sugere que o trabalho humano pode produzir permanência relativa. A catedral é vitória sobre a morte. A beleza arquitetônica transcende a vida individual. A narrativa termina afirmando valor do esforço coletivo. A liberdade conquistada por Bernat transmite-se a Arnau. Arnau transmite dignidade a Mar. A corrente geracional não é corrente de sangue. É corrente de escolhas reiteradas. A catedral do mar ergue-se como monumento à possibilidade de homens livres edificarem juntos algo que os ultrapassa.

Eles não podem fazer isso para além de algumas gerações, e o Juízo Final de Deus apagará tudo isso, pois não sobrará pedra sobre pedra, e Deus fará coisas totalmente novas. Não é o templo de pedra que permanece, é a Palavra de Deus. A pedra não sobrevive aos construtores, é o contrário, eles vivem para sempre com Deus, e a pedra, por si, nem sequer existe, quanto menos “sobrevive”. A vitória sobre a morte é a Ressurreição através de Jesus Cristo, não através de templos de pedra.  E a beleza arquitetônica não transcende a vida individual, porque ela só pode existir para o indivíduo e a seu serviço. Sai dele, e volta para ele. Por si, sequer existe. Sobre a liberdade transmitida de geração em geração, ela requer um testemunho relativo ao Amor divino. Não me parece ser exatamente isto que A catedral do mar nos informa. Há algo como uma obsessão com a construção de templos, civilizações; a família, a humanidade, qualquer coisa que não seja somente a Graça de Deus. Então não posso endossar essas idéias.

Nota espiritual: 4,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,0

Doze homens e uma sentença, filme por Sidney LUMET

SINOPSE: Doze Homens e uma Sentença apresenta a situação de um jovem acusado de matar o próprio pai, já julgado no tribunal, restando ao júri decidir de forma unânime se ele será considerado culpado ou inocente, decisão da qual depende a aplicação da pena de morte. O conflito central da história surge quando, na primeira votação, onze jurados votam pela culpa e apenas o Jurado nº 8, Davis, vota “não culpado”, impedindo o veredicto imediato e obrigando o grupo a discutir as provas. Ao longo da deliberação, os jurados reconstroem cenas decisivas do caso, como a apresentação de uma faca idêntica à arma do crime, a simulação do trajeto do velho testemunho até a porta de seu apartamento e a análise do depoimento da mulher que teria visto o assassinato através da janela de um trem, levantando dúvidas sobre sua capacidade de observação sem óculos. O conflito se desenvolve por meio de votações sucessivas e confrontos verbais, até que as dúvidas acumuladas levam à mudança gradual dos votos, restando apenas o Jurado nº 3 sustentando a culpa. A solução da história ocorre quando, diante da última votação, todos os jurados reconhecem que as provas não são suficientes para uma condenação segura e chegam a um veredicto unânime de inocência, encerrando a deliberação.

Mais um filme que envolve a justiça dos homens. Os americanos adoram esse tipo de trama. De minha parte eu detestaria ser juiz ou júri, porque não cabe ao homem fazer realmente Justiça, mas um arremedo dela, quase uma simulação. Como já falei várias vezes, nosso objetivo é político, é manter a ordem social: trancafiar os indivíduos antissociais e nos livrar de sua presença, e mandar uma mensagem para os espertinhos sociopatas e psicopatas que pensam em fazer bobagem, para que abram mão de seus planos sob a ameaça da punição. É só isso. Também tem um elemento de vingança, que é a pior parte da coisa, como aliás parece ser algo trazido à baila pelo filme, mas esse é um problema espiritual no coração de cada um, e independe da administração judiciária. Não assisti, mas deu para ter uma idéia só vendo o trailer que o desejo de vingança é um componente. Isso sempre aparece nessas situações, e não só a vingança, como o fingimento de magnanimidade e beneficência. O poder estimula as piores qualidades humanas. Sobre as instituições em si, tudo isso visa a proteção do ser humano desde a época do antigo Direito Romano. Princípios como o do in dubio pro reu se convertem, na sofisticação do sistema do Tribunal do Júri, na idéia da necessidade de condenação apenas beyond any reasonable doubt. O que esses conceitos e mesmo este filme exibem é a fragilidade humana, a nossa ignorância constitutiva, e esse perigo que é o de ter que se tomar decisão sem a competência que seria devida para que se fosse infalível de modo compatível com o poder de sentenciar. Ou seja: tenho a competência suficiente, no meu juízo, equiparável ao poder que tenho de sentenciar um réu à uma pena de prisão, ou de execução? Precisar decidir sem ter todo o saber é um encargo gigantesco, e é uma tentação espiritual contra Deus. Tanto que a presença de jurados realiza, no âmbito da administração judiciária, o mesmo que o processo eleitoral numa democracia, isto é: a diluição da responsabilidade, que ajuda a supostamente diminuir culpas através de um fracionamento. Mas já vimos, a respeito da idéia da democracia eleitoral, que isso também serve para a obtenção da anuência de pessoas que poderiam ser inocentes por si, se nenhum dever de estado lhe obrigasse a tomar posição. Por isso, quando a Lei permitisse a objeção de consciência, isso deveria ser empregado todas as vezes em que o uso desse tipo de poder contrariasse o dever de estado do indivíduo. Aí sim entra a Justiça verdadeira: o homem se declarar incompetente para julgar o próximo. Isso sempre seria justo, porque é sempre verdade. O custo disto, porém, seria inviável para uma comunidade. É uma questão que precisa ser resolvida politicamente, por aqueles que ousam reivindicar esse tipo de poder. Quando essa obrigação é instaurada por um mecanismo legal, há imunidade suficiente, mas isso não torna o sistema menos perverso, principalmente se isso envolver punições como a da pena de morte. Uma participação, mesmo obrigatória por Lei, nesse tipo de sistema, já é anuência suficiente para criar uma brecha espiritual. Novamente somos obrigados a reconhecer que a origem desse tipo de mal, o da injustiça, é o Pecado Original, como já pudemos observar ao tratar do filme Um sonho de liberdade.

ANÁLISE: O filme Doze Homens e uma Sentença, dirigido por Sidney Lumet em 1957, apresenta-se como uma meditação rigorosa sobre o juízo humano, sobre a responsabilidade moral do indivíduo diante da vida alheia, sobre a fragilidade da verdade quando submetida ao hábito, ao preconceito e à pressa. Toda a ação se concentra em um espaço fechado, o júri, que funciona como uma câmara moral. Ali não se julga apenas um réu. Ali se julga a capacidade do homem comum de sustentar a própria consciência diante da lei, da maioria e da própria impaciência. A forma austera da narrativa reforça essa intenção. Não há espetáculo. Há tensão ética. Cada palavra pesa. Cada silêncio acusa.

Como já observei em outra oportunidade, todo julgamento humano é uma ação isolada da realidade, como a criação de uma ficção jurídica. A finitude do processo de descoberta (discovery), e de todos os prazos legais, determina esse caráter arbitrário. Já vimos isso quando comentei sobre a anulação de um júri que consultou o Google Maps para ver imagens do local de um crime. Parece estranho, ou mesmo absurdo, que aquele que vai decidir não possa obter mais informações sobre o objeto da sua decisão. Mas isso é processualmente obrigatório, afinal de contas quem é capaz de afirmar que nenhum novo conhecimento sobre um fato seja possível? Nenhum julgamento seria viável desse jeito. Os réus inocentes são os que mais sofrem com essa realidade, porque a verdade não descoberta em tese sempre os beneficiaria. Daí é que entram em cena as salvaguardas legais, para tentar remediar esta situação. No que nos interessa, espiritualmente, como já disse, só a renúncia ao Pecado Original já é muita coisa, porque nenhuma alma inocente precisará encarnar sob a condição, por exemplo, de ser acusada injustamente de um crime. Por outro lado, sempre que for viável é necessário abrir mão do poder de julgar, mas sem contrariar o dever de estado gerado pelo dispositivo legal, já que àquele sobre quem pesa o dever de governar a sociedade cabe o poder de administrar a justiça humana, e esse dever maior não pode ser obstruído.

O ponto de partida do filme é a unanimidade aparente. Onze jurados consideram o réu culpado logo no primeiro voto. A condenação à morte parece um simples procedimento formal. A vida humana surge reduzida a um item processual. É nesse contexto que o Jurado nº 8 introduz a ruptura. Sua recusa em votar pela culpa não nasce da certeza da inocência. Nasce do reconhecimento da dúvida. Essa postura estabelece o eixo moral da obra. O filme afirma que a dúvida não é fraqueza. A dúvida é dever. Quando a sentença implica a morte, a certeza exige uma densidade quase impossível. O jurado afirma isso de modo direto ao dizer: “Não sei se ele é culpado. Só sei que não podemos mandar um homem para a cadeira elétrica sem conversar sobre isso primeiro.” Essa frase constitui uma das teses centrais do filme.

Se a dúvida é um dever, a condenação se torna impossível, e o Sistema Judiciário inteiro é demolido. Novamente, é uma questão de cada um saber o que lhe cabe. A um jurado obrigado por Lei a participação num processo judicial, o dever de julgar deve ser regulado pela consciência individual acima de tudo. Assim, especialmente no caso de condenação, se existir dúvida suficiente, por menor que seja, ela deve servir para impedir a sentença contrária ao réu. Mas se a sentença envolver, por exemplo, a pena de morte, e na consciência do jurado essa decisão for criminosa independentemente da realidade do crime, então a objeção de consciência impede a participação nessa decisão judicial, mesmo que por decorrência o jurado tenha que ser punido de acordo com a Lei humana. Nunca, jamais, em tempo algum, um homem deve agir contra a sua consciência, pois isso é um crime contra Deus (“tudo que não é feito de boa fé é pecado” Rm 14:23).

A estrutura do debate revela a anatomia da injustiça cotidiana. Os argumentos iniciais não são racionais. São afetivos. São derivados do cansaço, do calor, do desejo de ir para casa, do rancor pessoal, do preconceito social. O réu é pobre. Cresceu em um cortiço. Viveu cercado de violência. Esses dados são tratados como provas morais. A culpa surge como expectativa social. O filme desmonta essa lógica com paciência quase pedagógica. Cada evidência é reexaminada. Cada testemunho é reconstruído. A verdade deixa de ser um bloco sólido. Passa a ser um campo frágil, atravessado por limitações perceptivas, por falhas de memória, por interesses ocultos.

Nosso prompt melhorou muito, estou mais confortável com esse texto, quase impressionado mesmo. Voltando ao filme, essa realidade é inevitável, porque um jurado não é uma figura mítica que desce do Céu para vir fazer a Justiça. É um ser humano cheio de crenças e preconceitos, a quem estamos pedindo que seja imparcial e isento. Por mais que o pobre coitado tente, ele pode falhar, é claro. E sobre o juízo do caráter do réu, esse é um componente natural que faz parte do processo. Tanto que os advogados de defesa sempre podem arrolar testemunhas de caráter à favor do réu para construir a sua reputação pública diante de um corpo de jurados. Igualmente, a promotoria sabe que o júri sempre se sentirá mais disposto a condenar uma pessoa que parece ter defeitos de caráter. Faz parte do jogo, podemos não gostar disso, mas não tem muita saída. Aliás, a saída existe: é imitar Jesus Cristo e a Virgem Maria e romper com o Pecado Original.

A dimensão espiritual do filme aparece de modo discreto, quase constrangido, o que a torna mais significativa. Não há discursos religiosos. Não há apelos explícitos à fé. Há menções pontuais a Deus, sempre ligadas ao juramento, à responsabilidade última do ato de julgar. Em determinado momento, um dos jurados lembra que todos juraram diante de Deus dizer a verdade. Essa lembrança não produz comoção imediata. Produz silêncio. Produz incômodo. Deus surge ali não como consolação, mas como instância de acusação. A presença divina funciona como medida do peso do ato humano. Julgar equivale a assumir um lugar que não pertence inteiramente ao homem.

Muito bem observado. O filme é antigo (de 1957), de uma época em que a menção à um dever diante de Deus fazia muito mais sentido do que hoje em dia. Os pontos cruciais já foram examinados. Por um lado, há um dever político que é o de colaborar com a administração judiciária do Estado. Por outro lado, há o dever de não pecar contra a verdade que é a de que somos ignorantes sobre a culpa de um ser humano a respeito de qualquer coisa. Isso se resolve com a consciência do dever de estado concreto e de seus limites, quando a consciência produzir objeção suficiente para a renúncia à participação num processo judicial. Então a saída é responder diante de Deus e de acordo com a própria consciência, todas as vezes.

A citação mais clara dessa dimensão ocorre quando um jurado afirma que a vida de um homem está “nas mãos de Deus”. A frase não resolve o dilema. Pelo contrário. Expõe a tentativa de deslocar a responsabilidade. O filme reage a esse gesto de modo implícito. Se a decisão está nas mãos do júri, então está nas mãos humanas. Deus aparece como testemunha. Não como substituto da consciência. Essa tensão percorre todo o filme. O sagrado não absolve o erro. Apenas o torna mais grave.

A vida de um homem está “nas mãos de Deus” quer o homem queira reconhecer isso ou não. Tudo isso está acontecendo diante de Deus nos seus mais mínimos detalhes. A subsidiariedade é um princípio espiritual de legitimação da ação política humana. Então as decisões podem ser tomadas, com as suas consequências últimas, mas isso não sai do controle de Deus jamais. A qualquer momento fatos novos alteram o que foi disposto pelo ser humano. Descobertas casuais, ou mesmo a ocasião de fuga de um condenado que era inocente, etc. O que está nas mãos dos homens é algo muito restrito nessa condição localizada pelo enredo do filme. Agora, curiosamente, onde o homem é mais poderoso para causar males, parece que a sua consciência é menos intensa, especialmente na prática ou legitimação do Pecado Original. Quer dizer, os pais do réu não podem transferir para o corpo de jurados a responsabilidade pela instalação dessa alma num mundo onde erros processuais são possíveis. Convenientemente tudo isso é esquecido, é claro, e vocês podem esperar sentados por um filme que mostre o óbvio vínculo que essas coisas têm. Ninguém, ou quase ninguém, vincula as maternidades às prisões, hospícios, alas de UTI ou cemitérios, mas tudo isso está muito conectado, como sabemos bem. Quem gostava de lembrar isso era o velho Schopenhauer, que dizia que os seres humanos em geral tinham uma idéia muito errada da sua verdadeira condição, pois tomam decisões alheias à realidade total que é experimentada pela nossa espécie. Hoje em dia, com os sistemas de comunicação em massa, especialmente a Internet, isso é atenuado o suficiente para já mudar o ambiente cultural ao ponto de que há um tanto de seres humanos que se abstém de procriar tendo em vista o desejo de poupar o sofrimento de seus descendentes.

O processo de transformação dos jurados ocorre por desgaste moral. As certezas não caem por iluminação súbita. Caem por exposição. Caem quando os argumentos revelam suas motivações ocultas. O Jurado nº 3 encarna esse colapso de modo exemplar. Sua fúria não nasce do caso. Nasce de sua relação fracassada com o próprio filho. O ódio pessoal contamina o julgamento. No momento decisivo, ele rasga a fotografia do filho enquanto grita “Eu vou matá-lo”. Essa frase ecoa o crime julgado. O filme revela ali a raiz espiritual da injustiça. O pecado não está no erro intelectual. Está na recusa em reconhecer a própria ferida.

Nada impediria que alguém irado fosse capaz de julgar uma ação apesar de sua ira, desde que possuísse a competência intelectual para fazê-lo. Então sou obrigado a contrariar a posição do Chat GPT. O erro é de natureza intelectual, até quando a ira atrapalha o juízo, porque este é um erro pela “recusa em reconhecer a própria ferida”, ou seja, um ato do intelecto. Mal posso elogiar a IA num parágrafo, já fico broxado no próximo. E não me espanta, porque a máquina não está entendendo nada, só está juntando letras e palavras e formando sentenças que não significam lhufas, porque significado é um conteúdo de consciência. E, novamente, não acho que os sentimentos, e nem mesmo os preconceitos, sejam o maior problema dos homens que julgam outros homens. É a ignorância mesmo, até porque sentimentos e disposições podem mudar à luz de conhecimentos suficientes. O problema de base do juízo humano é sempre a ignorância.

A justiça, no filme, não surge como certeza positiva. Surge como renúncia. Renúncia à pressa. Renúncia ao preconceito. Renúncia à ilusão de infalibilidade. O veredicto final de inocência não afirma que o réu não cometeu o crime. Afirma que a culpa não pôde ser afirmada sem dúvida razoável. Essa distinção é essencial. O filme defende um princípio espiritual profundo. A vida humana não pode ser sacrificada ao conforto psicológico da maioria. A morte exige uma verdade que o homem raramente possui.

Na verdade, a morte dos Filhos de Adão já foi decretada por Deus no Capítulo 3 do Gênesis. Então a execução dos prisioneiros dos homens é no máximo uma antecipação de sentença. E, pior ainda, nem sequer podemos dizer que esse ato seja um prejuízo ao sentenciado, porque como Sócrates observou, não se sabe se não seria uma coisa boa partir deste mundo. Jesus Cristo mesmo falou a respeito disto com seus discípulos, quando começou a choradeira ao ser revelado o seu destino na Paixão. Se me amassem, vocês ficariam felizes por eu partir para onde vou. A coisa mais óbvia. A questão do nível humano é que quem mata um homem não pode lhe restituir esta vida, e nem o ressuscitar para a próxima. Mas para Deus nada disso é um problema, ao contrário, fazer morrer e fazer viver são ações muito próprias da divindade.

Ao final, os jurados deixam o tribunal. Não há celebração. Não há redenção plena. Há apenas a restauração de um mínimo ético. O nome dos jurados permanece desconhecido. A individualidade se dissolve. O que permanece é o gesto. Um gesto de resistência moral. Um gesto que afirma que a justiça começa quando o homem aceita o peso da própria responsabilidade. Nesse sentido, Doze Homens e uma Sentença não é apenas um drama jurídico. É uma parábola moderna sobre o juízo, sobre o pecado da indiferença, sobre a exigência espiritual da dúvida diante da vida do outro.

Uma conclusão bastante recatada, modesta, quase tímida. Meu prompt “assustou” a máquina? Não tenho mais muito a relatar. Conhecendo Hollywood, não duvido que a intenção do filme tenha sido de causar a impressão de que a justiça humana é uma coisa muito digna e boa. O ideal pode ser sempre assim, mas a realidade é diferente. E outros filmes contam dessa variedade, inclusive o já mencionado filme que analisamos aqui recentemente, Um sonho de liberdade. Não faltarão oportunidades para rever o tema, inclusive com o ensejo de um filme que sairá nos cinemas sobre o Julgamento de Nuremberg (sim, mais um!). O filme Doze homens e uma sentença parece ser uma mistura de educação cívica com propaganda política. Pelo que vi não há nada de grave aqui, mas talvez se assistir o filme um dia poderei complementar essa avaliação.

Nota espiritual: 4,6 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,6

Um sonho de liberdade, filme por Frank DARABONT

SINOPSE: Um Sonho de Liberdade acompanha a trajetória de Andy Dufresne, um jovem e bem-sucedido banqueiro condenado injustamente à prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e do amante dela, sendo enviado ao presídio de Shawshank, onde passa a conviver com a brutalidade dos guardas, a corrupção da administração e a rotina opressiva do cárcere. Ao longo dos anos, Andy constrói uma amizade profunda com Ellis “Red” Redding, um prisioneiro experiente e respeitado, e gradualmente conquista espaço na prisão ao usar seus conhecimentos financeiros para ajudar funcionários e detentos, contribuindo para a criação de uma biblioteca e melhorando as condições intelectuais do presídio. Enquanto muitos presos se tornam institucionalizados, Andy preserva silenciosamente a esperança e um plano secreto de fuga, escavando um túnel em sua cela durante décadas. Quando finalmente executa seu plano, ele escapa de Shawshank, expõe os crimes do diretor corrupto Norton e inicia uma nova vida no México, deixando para Red uma mensagem que o encoraja a acreditar novamente na liberdade e a segui-lo, encerrando o filme com a promessa de reencontro e redenção.

A liberdade que Andy busca contra a injustiça da sua prisão e do seu tratamento, etc., simboliza a liberdade contra a condição humana como um todo. Mas essa operação simbólica resulta na virtude da Esperança, como dom sobrenatural? Não podemos saber apenas por esta sinopse. Vamos supor que tudo desse errado, que Andy não escapasse, que não pudesse expor a corrupção do vilão, e nem ajudar seu companheiro Red de nenhuma maneira. Estaria tudo perdido? Se sim, então não adianta nada lutar por vitórias pífias na dimensão deste tempo e deste mundo. E, aliás, nenhuma justiça pode ser plena nesse nível, porque enquanto um triunfa outros mil falham. A verdadeira Justiça é imortal e nos leva à transcendência deste plano de existência. Por isso é preciso enquadrar a estória de Andy num contexto maior. Quem não quiser fazer isso não é capaz de compreender o sentido espiritual de uma narrativa. O que significa essa esperança de ser livre? Como se consuma essa liberdade? Temos que entender se essas perguntas são respondidas pelo filme, e de que modo. A Esperança imortal e indestrutível é aquela que alegra e ilumina a alma até do mais esquecido e perdido dos seres humanos, que não tem tempo para mais nenhuma redenção nesta vida, pois este ainda tem toda a Eternidade.

ANÁLISE: O filme Um Sonho de Liberdade, dirigido por Frank Darabont, pode ser lido como uma meditação filosófica sobre a liberdade enquanto categoria existencial, moral e espiritual, articulada não como simples ausência de coerção, mas como forma interior de soberania que resiste mesmo sob as condições mais extremas de opressão. A narrativa acompanha Andy Dufresne, condenado injustamente à prisão perpétua, mas o eixo profundo do filme não é a denúncia do erro jurídico, e sim a investigação daquilo que pode ou não ser aprisionado quando o homem é reduzido a um número, a uma rotina e a uma função dentro de um sistema fechado. A prisão de Shawshank não aparece apenas como um espaço físico, mas como uma totalidade simbólica: ela encarna a racionalidade institucional que transforma indivíduos em peças previsíveis, normaliza a violência e produz sujeitos que, ao longo do tempo, passam a desejar apenas a reprodução da própria estrutura que os oprime.

Estou ficando irritado com esses “não”, “mas”, “e sim” do Chat GPT. A otimização do programa nos aborrece e entedia. Vamos tentar comentar mesmo assim. Sobre o que a prisão de Shawshank representa, é um mundo humano em miniatura. Por que é necessário encarcerar seres humanos? E, pior, por que é preciso correr o risco de praticar algumas injustiças no meio do caminho? Porque se a sociedade humana for regida pela complacência, ela tende a se autodestruir rapidamente. A lei não é feita para os bons, mas para os maus, porém os bons são submetidos ao seu rigor do mesmo modo, e alguns até injustamente. Depois que o processo apodreceu por bastante tempo, não é impossível que se faça uma revitalização humanizante. Isso é viável em qualquer instituição humana que tenha sido mantida por mais de uma geração. Mas não se pode curar uma fratura exposta com um band-aid. Quer dizer, a origem de todos os males é o Pecado Original. O que levou Andy e Red a se verem presos em Shawshank? Foi a perversão e tirania do sistema judiciário, ou do sistema penal? Não. Foi o Pecado Original. É assim que estouramos com o imanentismo idólatra, por mais sutil que este seja. Qual é o problema aqui? O cara foi preso injustamente e é mal tratado com seus demais colegas prisioneiros. Qual é a solução? A fuga da prisão, a denúncia do tirano, e a oferta de ajuda ao amigo. Quero enxergar mais longe, tanto para trás quanto para frente. Por um lado, o problema vem de muito antes, e por outro lado a solução vai para muito mais além. O problema é que Andy nasceu num mundo governado por Satanás, vendido como escravo por inúmeros ancestrais que pactuaram com o demônio, por omissão ou comissão. O diretor Norton é fichinha. E qual é a solução? É a Cruz, a morte e a Ressurreição: seguir Jesus Cristo. Com essas categorias se vive na Presença de Deus de fato, encarando os problemas até a sua essência, e resolvendo as coisas de modo verdadeiro e pleno.

Nesse sentido, Darabont constrói Shawshank como uma figura quase metafísica daquilo que se poderia chamar de mundo administrado, no qual a repetição mecânica substitui a decisão, e a sobrevivência se confunde com adaptação. A noção de “institucionalização”, explicitada no destino trágico de Brooks, não é um detalhe narrativo, mas uma tese antropológica: quando o homem abdica da experiência viva da liberdade, ele internaliza as grades, de modo que a abertura do mundo exterior já não lhe oferece sentido. A liberdade, nesse registro, não é algo que se recupera automaticamente ao sair da prisão; ela exige uma disposição interior que pode ser corroída pelo hábito, pela resignação e pelo medo. O filme sugere, assim, que a pior forma de cativeiro não é a imposição externa, mas a colonização da vontade, quando o sujeito deixa de se conceber como agente e passa a se entender apenas como efeito das circunstâncias.

Já estou decidido a exigir que o Chat GPT evite ao máximo as conjunções adversativas, de preferência que faça frases com orações únicas, sem vírgulas, chapadas. Aos poucos vamos montando o nosso prompt. Qualquer coisa para sair desse estilo estúpido. Sobre a repetição mecânica, adaptação, hábito, e o conflito destes mecanismos de sobrevivência com a idéia de liberdade, é preciso aplicar o mesmo entendimento que já vimos antes. Esses mecanismos existem para se lidar com uma situação desafiadora. Se tornam o sujeito menos apto a buscar a sua melhor condição presente, da tal liberdade, isso é um efeito temporário aceitável. Muito pior é a obstinação e teimosia, o ter a “cerviz dura”, que faz o desejo por uma liberdade imanente custar a paz interior. Há aqui a sugestão de algum espírito de Sedução, ou Pacto com a Morte: se você não aproveitar a sua liberdade ao máximo por efeito dos hábitos adquiridos pela sua existência sob a atual condição humana, pagará por isso de forma definitiva e irreparável. Essa linha de pensamento é a rejeição tanto da Cruz quanto da Ressurreição. E tende a fazer o homem se desesperar, porque mesmo que raramente se consiga obter um estado tal de liberdade que se possa considerar bom o suficiente, quanto tempo dura essa vitória? Esse tipo de conquista está dialeticamente presa aos ciclos terrenos atuais. Talvez abdicar da “experiência viva da liberdade” seja somente ter uma vida interior pacificada de modo independente da realidade externa? E se isso for vivido através da Fé, o que haveria de melhor? O diabo é um mestre da tortura: ele não só cria uma condição difícil e às vezes quase insuportável de ser vivida, mas quer impedir que o sujeito possa recuar para a vida interior e encontrar alguma paz verdadeira ali. Não, não pode! Tem que sair dessa, lutar, conquistar algo, etc., enfim, tem que voltar ao seu jogo dialético, não pode se abster de participar nos negócios do mundo. Essa coisa está indo mal…

Andy Dufresne se opõe a essa lógica não por meio de rebeliões explícitas, mas por uma resistência silenciosa, quase ascética, fundada na preservação do sentido. Sua postura é marcada por uma recusa radical em permitir que a identidade seja absorvida pela função de prisioneiro. Ele cultiva gestos aparentemente mínimos — a música, os livros, a contabilidade, o cuidado paciente com o tempo — que funcionam como atos de afirmação ontológica. A célebre cena em que Andy transmite Mozart pelos alto-falantes da prisão não é um gesto estético gratuito, mas um acontecimento simbólico: por alguns instantes, a totalidade do sistema é suspensa pela irrupção de algo que não pode ser reduzido à lógica disciplinar. A música introduz no espaço fechado uma experiência de transcendência, lembrando aos presos que existe uma dimensão do humano que não se deixa medir, controlar ou punir.

Todos precisamos fazer isso de vez em quando, porque para a maioria de nós a vida costuma se repetir em ciclos bem pequenos de experiências. Sabemos bem que isso até justifica, no coração de tantos, a ambição pelas grandes fortunas ou pelo prestígio e fama. O que esses símbolos representam é a liberdade contra uma rotina opressora. Está bem querer isso, mas temos que ver qual é o custo a se pagar. Enquanto for um ato de resistência e de insistência, até certo ponto isto é ótimo. Porém, novamente, a liberdade verdadeira está na vida com Deus no Paraíso. Essa possa interior de uma Esperança com Deus nos torna mais resilientes por um caminho espiritual menos dependente do ambiente externo.

A relação entre Andy e Red explicita a dimensão ética do filme. Red encarna o homem que aprendeu a negociar com a prisão, que desenvolveu estratégias de sobrevivência e se tornou funcional ao sistema, ainda que sem ilusões quanto à sua injustiça. Seu ceticismo em relação à esperança não é simples pessimismo, mas uma defesa contra a dor da frustração. No entanto, o arco narrativo de Red revela a tese central do filme: a esperança não é uma fantasia ingênua, mas uma forma de coragem metafísica. Esperar, aqui, não significa negar a realidade, mas afirmar que a realidade não esgota o possível. Ao insistir na esperança, Andy não promete sucesso, mas preserva a abertura do futuro contra o fechamento do presente. O filme sugere que a esperança é uma virtude paradoxal, pois ela se torna mais necessária justamente quando todas as evidências empíricas parecem negá-la.

Que a realidade não esgota o possível é uma verdade que pertence sobretudo ao sujeito que crê no divino Absoluto. E a exploração dessa verdade se dá pelo dom da imaginação, e não da elaboração de planos para um dia tal do calendário. Quem está mais perto do divino? O cético com a vida no mundo, Red, ou o esperançoso Andy? Na verdade não sabemos, porque as pessoas são diferentes, e possuem dons diversos para realizar operações diversas diante de Deus. Um prisioneiro que escapa pode estar tão cheio do Espírito Santo quanto um outro preso que se resigna a viver até o último dia da sua sentença. O fator decisivo não está fora de nós, está dentro. Se o filme faz ver que Andy traz um potencial bom para Red, o inverso também não poderia ser verdadeiro, se os planos do primeiro fossem todos frustrados? O ceticismo com o mundo e com as coisas do mundo não revela um traço do dom de Vigilância? Que verdade é essa que depende de resultados históricos? Sucesso não é nem escapar ileso da prisão, e nem resistir resoluto e cético dentro dela. Sucesso é viver na Presença de Deus, e aí tanto faz, escapar ou ficar onde se está, porque Deus está em toda parte, e a morte iguala todos os homens no fim. Toda doutrina a respeito da vida que não contempla o seu fim inevitável pela morte diante de Deus e o chamado à Ressurreição, é uma doutrina imanentista, fechada e cega. Isso não é verdadeira liberdade, nem verdadeira felicidade. Livre é quem confia em Deus e em seu Amor. Por certos aspectos, se Andy se revolta e se indigna contra o status quo na prisão, isso pode ser excelente tanto quanto pode ser prejudicial se acostumar a fazer negócios com o mundo, se o caminho de Red levar a esse ponto de adaptação. Então não interessa partir ou ficar, interessa que aquele que parte esteja com Deus, e que aquele que fica que fique com Deus. A narrativa parece valorizar o que tem menos importância.

A fuga de Andy, preparada ao longo de décadas, não funciona apenas como clímax narrativo, mas como revelação retrospectiva do sentido de toda a sua conduta. Ela mostra que a paciência, longe de ser passividade, pode ser uma forma de ação profundamente racional, orientada por uma finalidade que resiste ao imediatismo. O túnel escavado lentamente simboliza o trabalho invisível da liberdade, que não se constrói por explosões momentâneas, mas por uma fidelidade silenciosa a um projeto interior. A travessia final pelo esgoto adquire, nesse contexto, um caráter quase ritual: trata-se de uma descida àquilo que há de mais degradado e informe, seguida por uma espécie de renascimento sob a chuva, imagem que remete à purificação e à reconquista da própria identidade.

Isso é muito bonito, mas não quer dizer que Andy estaria perdido caso fosse imediatamente recapturado, ou caso nem sequer conseguisse escapar de Shawshank. Poderia estar perdido? Poderia perder? Somente a guerra desta vida, para obter essa liberdade tão efêmera. Entendam-me bem: diante do inferno da prisão é claro que a liberdade imediata é uma coisa excelente. Mas, novamente, se enquadrarmos a situação numa perspectiva maior, isso tudo muda de figura. No plano que interessa, espiritual, diante de Deus e da Eternidade, nada de bom pode ser realmente perdido, porque o chamado à imortalidade é um acesso ao Bem imperecível, imperdível. Já falei isso várias vezes: Deus é o nosso maior bem, entre tantas razões, no mínimo porque Ele é imperdível. Os guardas podem me impedir de escapar da prisão, ou se eu fugir, podem me recapturar mil vezes, mas eles não podem tirar Deus de mim, nem as promessas divinas. Esse é o tesouro inviolável do coração humano. É nesse tipo de riqueza que deveríamos apostar. Sobre se ter paciência e perseverança, isso já é a realidade da vida humana carregando a Cruz desce o nosso nascimento. Nenhuma arte é mais perfeita para a Esperança do que a vida cristã. No que Andy Dufresne se tornou competente, o cristão médio é chamado à maestria todos os dias. Enquanto o mundo gira e roda atrás de vitórias e sucessos, como as virgens loucas, os “loucos de Deus” esperam pacientemente, não por uma outra fase ou época, mas por toda uma outra vida. Isso sim é Esperança, isso sim é um sonho de Liberdade.

Ao final, Um Sonho de Liberdade propõe uma distinção decisiva entre sobreviver e viver. Sobreviver é adaptar-se às condições dadas, mesmo quando elas são injustas; viver é manter-se fiel a um princípio que transcende essas condições. O filme não romantiza o sofrimento nem sugere que a prisão seja redentora em si mesma, mas afirma que a dignidade humana se manifesta na capacidade de não permitir que o mal tenha a última palavra sobre o sentido da própria existência. Nesse registro, a liberdade não aparece como um direito garantido externamente, mas como uma tarefa interior, constantemente ameaçada, que exige memória, esperança e responsabilidade. O filme oferece, assim, não apenas uma narrativa de superação, mas uma reflexão profunda sobre o que significa permanecer humano em um mundo que continuamente tenta nos convencer de que somos apenas aquilo que nos acontece.

Em tese essa é uma boa mensagem, mas não significa nada sem a promessa da Eternidade. O elogio da vida acima da sobrevivência é ótimo. Mas o que é viver? Pode ser esperar por mais viver? Ou tem que ser uma consumação? Onde está o objeto do sonho de liberdade? Neste mundo, ou em outro? As coisas deste mundo podem e devem ser aproveitadas, e não só isso, as oportunidades devem ser usadas para fazermos o melhor da nossa vida. Mas de que modo, com qual propósito? Aqui é que mora a diferença abissal entre a crença numa vida mortal, e a crença na Ressurreição. Estar limitado à vida presente, de certo modo, é estar como que numa Shawshank existencial, definitiva e da qual é impossível se escapar. Por mais que se viva bem, tudo é um jogo comparativo. Melhor fora da prisão do que dentro, mas lá fora também tem quem passa fome, frio, etc., como sabemos muito bem. Aliás, porque foi em primeiro lugar que se construiu a Prisão de Shawshank? Foi porque o mundo era um paraíso? Longe disso, como sabemos bem. Então é preciso abandonar tanto a Ingenuidade quanto a Sedução e desejar a verdadeira liberdade que só Deus pode nos oferecer. Infelizmente parece que o filme quer nos entusiasmar pelo nosso potencial aqui e agora às custas de qualquer bem que transcenda este plano de existência, caso contrário o triunfo de Andy não seria tão evidenciado por suas ações no mundo exterior. Um convertido que confia em Jesus e permanece preso em Shawshank poderia estar muito mais livre por dentro do que Andy. O escape da prisão pode simbolizar uma outra operação interior que tem valor muito superior, mas isso teria que ser reconhecido às custas do triunfo temporal de Andy. E parece que esta não foi a escolha do filme. A liberdade contra a injustiça e a tirania nunca é má em teoria, mas não pode valer a qualquer preço. Por exemplo, no âmbito político a dialética captura as melhores intenções para converter os ideais em seus contrários. O libertador de hoje se torna o tirano de amanhã. A maior liberdade é a que nos livra do pecado, e esta liberdade por definição não pode ser deste mundo. Nada impede o progresso na presente linha temporal, no sentido de melhores Percepções, mas nada o garante, e sobretudo nada o obriga como condição para a Coruscância.

PS: resolvi testar a qualidade da sinopse e análise do Chat GPT, e concluo que ele ainda é muito fraco. Assisti o filme e capturei elementos básicos que deveriam ser trazidos à tona, como a frase do diretor Norton, “a salvação vem de dentro”. Andy deixa um recado com a mesma sentença mais tarde, revelando que escondia a sua pequena picareta (que serviu para a sua fuga) dentro da Bíblia. Não me incomodo nem um pouco com o descrédito da Religião, mas não podemos jogar Jesus fora junto com a igreja dos homens. A salvação vem de dentro? Sim, foi o ponto principal de minha análise. Mas Norton era um mentiroso, ganancioso, corrupto e assassino. Quando ele diz essas coisas, ele é falso, e quando Andy o expõe, ele acerta. Mas o que isso tem a ver com a mensagem? Indiretamente, já vimos na minha análise, que neste ponto continua viável. Depois outra citação relevante vem quando Andy diz a Red: “Acho que a solução é simples. Esforce-se para viver, ou esforce-se para morrer”. Grande testemunho da Sedução, e logicamente quebrado: a morte é inevitável, o esforço humano está ligado ao sentido da vida sempre, ou o desespero na sua falta, como ocorreu com o velho Brooks. E então há a citação final, na mensagem que Red encontra depois de sair da prisão: “A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor coisa. E nenhuma coisa boa morre jamais”. Eis uma frase muito melhor. A Esperança só não é a melhor coisa porque o Amor é melhor ainda, isto é, o desejo do Bem que dá o próprio objeto do esperar. Mas confiar que o Bem atua e governa todas as coisas desde já, que é a Fé, essa é a outra irmã da Esperança, e é a menos honrada das virtudes teologais neste filme. De fato a Esperança não morre jamais, mas não como um impulso vital ligado à existência atual. Isto, infelizmente, por mais estimulante que seja até certo ponto, só leva à decepção e demais armadilhas da Sedução. Nunca sofri tanto quanto por decorrência de querer viver intensamente, seja no durante, ou seja no depois. Mas colher frutos da Graça como primícias da Eternidade, isso já é outra história… a lição que fica é que a análise feita não é de todo ruim, mas além da mudança do prompt para incluir fases simples, sem vírgulas e sem conjunções, vejo que vale a pena testar o pedido específico por todas as menções à questão espiritual, da salvação ou de Deus, e também citações relevantes dos personagens principais. Com isto seria possível alcançar o que faltou sem precisar assistir o filme, por exemplo.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,9

Fenomenologia do espírito, livro por Georg Wilhelm Friedrich HEGEL

A Fenomenologia do Espírito de Hegel apresenta-se como uma obra inaugural e ao mesmo tempo liminar: não é ainda o sistema acabado da filosofia especulativa, mas o caminho pelo qual a consciência deve passar para tornar-se capaz do saber filosófico propriamente dito. Seu propósito fundamental não é expor doutrinas isoladas, mas acompanhar o movimento vivo da consciência em sua experiência consigo mesma, mostrando como cada forma de saber, ao pretender captar o absoluto, entra em contradição interna e se supera necessariamente em uma forma mais rica. A verdade, para Hegel, não é um dado imediato nem um princípio pressuposto, mas o resultado do próprio percurso do espírito; ela é o todo que se realiza apenas ao final do processo, de modo que o verdadeiro não pode ser separado do devir que o engendra. A fenomenologia é, assim, uma ciência da experiência da consciência, onde cada figura do saber surge, exerce sua pretensão de verdade, fracassa segundo seus próprios critérios e, nesse fracasso, revela a necessidade de sua superação dialética.

A chave do pensamento hegeliano é justamente essa idéia de dialética. Isso por causa do limite da Razão humana já qualificado pela Crítica kantiana. Depois de Kant os filósofos só possuem duas alternativas: trabalhar seu pensamento criticamente com o reconhecimento do limite da Razão humana, ou produzir um pensamento dogmático. Hegel quer explorar o potencial de um racionalismo crítico ao máximo. O que ele descobre é que a verdade que o ser humano possui (com a exceção dos Juízos de Razão, ou analíticos) é de tipo processual, é a verdade da própria busca que deve se superar o tempo todo, ou seja, é a verdade dialética, indefinidamente falseável. Isso parece honrar a Humildade, mas se pensarmos bem é indiferente. E, na verdade, Hegel parece querer levar a coisa para o outro lado, numa espécie de reintrodução disfarçada do dogmatismo anterior sob a forma da extrapolação da filosofia crítica. Uma filosofia realmente humilde seria como a socrática, onde o “não sei” é a conclusão. Hegel parece levar o projeto filosófico na direção de Protágoras, onde o “não sei” é a premissa, e o homem deve então fundar sua própria verdade feita à sua imagem. Para não deixar minha própria idéia exposta apenas ao fim, já deixo claro que não aceito a suposta vantagem das filosofias de tipo crítico, pois elas entram no escopo do alerta que o Apóstolo fez a respeito das filosofias dos homens. A Sabedoria de Deus é loucura para o ser humano, e vice-versa, porque existe esse limite intransponível entre o intelecto criado e o Intelecto divino. Mas Deus é relacionável através de dons que Ele mesmo nos provê. Qual é o sentido então de se optar por uma filosofia crítica, senão o abandono dos recursos espirituais oferecidos por Deus, e o retorno à idéia da Gnose como meio do ser humano salvar a si mesmo? Por mais criativa e genial que sejam essas filosofias, nós precisamos reconhecer os seus defeitos espirituais. O que não nos impede de nos apropriarmos das suas conquistas legítimas (que só foram viáveis, lembremos, por uma dispensa da Graça), como o Idealismo até certo ponto, na linha daquilo que a Patrística afirmava: é dos cristãos tudo o que os pagãos falaram de bom.

O ponto de partida é a certeza sensível, forma aparentemente mais rica de conhecimento por pretender apreender o imediato em sua singularidade absoluta. No entanto, Hegel mostra que essa certeza, ao tentar dizer o “isto” e o “agora”, dissolve-se em universalidades vazias, revelando que o imediato sensível só pode ser expresso por mediações conceituais. A percepção, que busca estabilizar o objeto como coisa dotada de propriedades, tampouco escapa à contradição, pois oscila entre a unidade da coisa e a multiplicidade de suas determinações, sem conseguir fundamentar uma verdade consistente. O entendimento, por sua vez, introduz a noção de força e lei, alcançando um nível mais abstrato e universal de explicação, mas acaba projetando para além do fenômeno um mundo suprassensível que nada mais é do que a duplicação empobrecida do sensível. Em todas essas etapas, a consciência acredita que a verdade reside no objeto; contudo, o movimento dialético revela que a instabilidade do saber provém da própria estrutura da consciência, que ainda não se reconhece como participante essencial da constituição do objeto.

Precisamos entender isso em partes e com cuidado. Primeiro, a respeito da diferença entre o conhecimento sensível e o racional, o que produz a diferença destacada por Hegel é o poder de domínio da razão abstrativa que gera o entendimento. Em face da intuição do Ser através da Percepção, o produto secundário da razão como reflexão do intuído está muito mais ao dispor da nossa Vontade, o que sempre nos traz um tipo de conforto, especialmente para as pessoas com um temperamento mais obcecado com controle e domínio. Isto não quer dizer que a verdade pertence a nós, ou que a realidade intuída na Percepção seja menos verdadeira. Ao contrário, como Hegel assume, a realidade é sempre mais rica do que os produtos da depuração abstrativa. Agora, ela está fora do nosso controle. E isso pode incomodar quem deseja, acima do conhecimento intuitivo, sensível, da bondade, da verdade e da beleza do Ser, o seu domínio. Esse incômodo é fruto do orgulho, então é um problema moral e espiritual, não epistemológico. Uma maneira típica de inversão da prioridade do Ser sobre a Razão humana é a consideração de que não existe conhecimento sensível do tipo intuitivo através da Percepção, mas apenas do tipo abstrato através do entendimento. Essa já é uma interpretação orgulhosa do sentido do conhecimento. Segundo, sobre a participação essencial do sujeito na constituição do objeto, de acordo com as categorias mais básicas do Idealismo nós podemos concordar com Hegel, desde que isso signifique reconhecer somente que a realidade concreta, na sua riqueza percebida, seja produzida instintiva e intuitivamente pelo sujeito, mas nunca de modo mediado pela Razão abstrativa. De outro modo, a criatividade subjetiva seria a criação de uma imagem da verdade, de uma imitação, de uma falsificação da verdade, agradável por ser manipulável, mas falsa justamente por não ser perceptível pelas nossas sensações. Esta seria a diferença entre uma mônada criada movida por Deus na sua Percepção, ou seja, iluminada pelo ato da Mônada Incriada, e uma mônada criada que descobrisse possuir luz própria e a capacidade de gerar sua própria “verdade”. O segundo caso, que parece ser o objetivo da intenção de Hegel, seria o cumprimento da promessa da Serpente no Jardim do Éden. É desnecessário dizer o quanto essa doutrina é gnóstica. A filosofia, portanto, tem sempre o potencial de reconhecer o ato criativo de Deus, ou de querer se desligar dessa concepção e gerar um mito de emancipação da Razão humana. Qual seria, então, de acordo com o propósito divino, a função da Razão para o ser humano? Seria o de dar o testemunho da verdade fundada em Deus. É possível, porém, deturpar e corromper essa função para subsidiar racionalmente uma tese de rompimento com o divino. O que opera a escolha é o próprio arbítrio humano fundado na crença de aceitação de que o Mistério divino é amoroso, ou na crença maliciosa de que o Mistério é indiferente, ou mesmo maligno. Hegel e quem mais seja pode filosofar o quanto queira, jamais ultrapassará o fato dessa potência humana de crer na premissa que baseia a sua escolha. Contra o dogmatismo, o criticismo teria sempre a razão de se reconhecer como imune ao perigo da Escolha. Isso é verdade. Mas jamais pode se imunizar contra o perigo de não assumir a Escolha quando esta é inevitável na interpretação das primeiras premissas de qualquer raciocínio, afinal de contas não é impossível que alguma idéia dogmática seja verdadeira entre outras falsas, e que esta verdade só seja alcançável pela crença pura. Por outro lado, quem considerasse essa possibilidade poderia filosofar a respeito da distinção entre as conveniências das crenças diversas, e talvez alcançar, por exemplo, a Teleologia Metaracional do Sumo Bem. Isto tudo está à disposição da mesma Razão humana que Hegel quer usar para se imunizar contra todos os perigos das crenças. Bem dito, na Dialética hegeliana a falseabilidade da verdade provisória toma sempre a forma de algo como uma crença que precisa ser novamente criticada como uma tese deve receber a oposição de uma antítese. Mas a questão do valor da Escolha é a do encontro da verdadeira calma e tranquilidade que ele está sempre mencionando, que não está na descoberta de um Espírito em nós, mas que nos transcende. Em suma: o Espírito no qual podemos repousar não é o nosso próprio, mas o divino. Essa é a diferença do papel da Escolha entre crenças provisórias dentro de um raciocínio e a produzida sobrenaturalmente pela Fé: num caso crer é apenas uma parte de um processo, é a contraparte do descrer; no outro, crer é libertar-se de seu próprio limite que forçou o filósofo a assumir um pensamento crítico em primeiro lugar.

Esse reconhecimento emerge com a passagem à autoconsciência, momento decisivo da obra, em que o saber deixa de ter como foco principal o mundo exterior e volta-se para si mesmo. A autoconsciência descobre que sua essência é o desejo, isto é, a negação do outro em busca de afirmação de si, mas percebe também que tal afirmação só pode ser plenamente realizada no reconhecimento por outra autoconsciência. É nesse contexto que Hegel desenvolve a célebre dialética do senhor e do escravo, não como uma teoria sociológica, mas como uma figura lógica do reconhecimento assimétrico. O senhor obtém um reconhecimento insuficiente, pois provém de uma consciência subjugada, enquanto o escravo, através do trabalho e do medo da morte, transforma o mundo e a si mesmo, adquirindo uma mediação efetiva com a realidade. O trabalho torna-se, assim, o momento formativo pelo qual a autoconsciência supera a imediaticidade do desejo e aprende a objetivar sua liberdade, antecipando a dimensão ética e histórica do espírito.

Poucas coisas são tão decepcionantes quanto esse rebaixamento da filosofia hegeliana a esse nível de idealismo imanentista cheio de testemunho de Idolatria. A sua filosofia do senhor e do escravo parece ter sido produzida e apostada num procedimento ad hoc sem integridade suficiente. O que liga, afinal, a Fenomenologia do espírito à essa concepção tão particular do mundo? Somente a prática da Dialética mesma. Quer dizer, ficamos com a impressão de que Hegel quer apenas praticar o seu método de redescoberta de verdades possíveis em vários âmbitos da experiência humana, sem que essas coisas sejam integradas num sistema de modo orgânico. Neste ponto a filosofia do autor está presa à sua condição existencial. É uma filosofia de escravos e para escravos. O que nós temos a ver com isso? Nada. Não surpreende que as filosofias idólatras herdeiras da doutrina hegeliana só pudessem continuar essa estupidez por outros meios. Em todos os casos nunca se toca nem com a ponta de um dedo a realidade da prática do Pecado Original e a responsabilidade humana decorrente desse costume. Isso é consciência, ou autoconsciência? Só se for do espírito do Ouroboros que é o beneficiário da manutenção desse status quo. Por isso as revoluções liberais e socialistas foram e são apenas movimentos dialéticos que servem para mudar tudo sem mudar nada, porque seja como for classificado o papel do Estado, ou a distribuição das riquezas, dos dois lados da disputa o que nunca se questiona é o dever de perpetuar a condição da escassez. Essa é a Religião do Homem, a Religião de Adão, o Culto do Ouroboros, a Tradição Primordial. E esses filósofos todos, liberais e socialistas, são Bispos do Sistema da Besta. Hegel, entre eles, é apenas um primum inter pares.

A partir desse ponto, a obra desloca-se progressivamente do nível individual para formas mais complexas de vida espiritual, reunidas sob a noção de razão. A razão é a certeza de que toda a realidade é racional e de que o sujeito pode encontrar-se no mundo objetivo; porém, essa certeza passa por múltiplas figuras, desde a razão observadora, que busca leis na natureza e no homem, até a razão ativa, que pretende realizar o bem no mundo. Em cada uma dessas figuras, Hegel demonstra como a razão, ao tentar impor unilateralmente suas categorias à realidade ou ao agir segundo convicções abstratas, entra em conflito com a efetividade histórica e social. Esse conflito conduz à emergência do espírito propriamente dito, entendido não como uma substância metafísica separada, mas como a vida ética concreta de um povo, na qual indivíduo e comunidade se interpenetram.

Essa é outra das doutrinas idólatras que Hegel produz, um testemunho direto a favor do bolchevismo espiritual, essa idéia de Volksgeist (o “espírito do povo”). De onde sai isso? Ora, no processo da Dialética do Espírito em que ele se reconhece a si mesmo através do seu desdobramento na História, há o encontro entre as duas forças, uma descendente (a Razão) e a outra ascendente (a Terra), onde a síntese se revelará no homem do povo que sendo filho da Terra se torna apto a alcançar a Razão através da coesão da comunidade. Isso já é um Darwin avant la lettre, uma filosofia da Evolução natural, com a única diferença que Hegel seria, como idealista, focado no Espírito, e Darwin, materialista, estaria restrito a observação dos fenômenos sem causa transcendente. Mas que porcaria de idealismo seria esse em que o Espírito precisa se manifestar em fenômenos tais e quais para reconhecer a si mesmo, a tal ponto que nesse processo o homem seria até mesmo dependente da sua existência na coletividade para ser capaz de alcançar a autoconsciência que revelaria o próprio Espírito? É um idealismo muito fraco, se é que dá para chamar isto de Idealismo no sentido pleno. Compreendo como para um idólatra isso pode parecer coerente. Hegel no meio do mato entre as capivaras e tamanduás talvez não tivesse a paz suficiente para fazer a sua filosofia do Espírito. Então a coletividade o amparou para que juntos vencessem as contradições entre a Razão e a Terra, etc. Mas bastasse que ele reconsiderasse a possibilidade de que um ato divino o pudesse iluminar, mesmo no meio daquele mato sem cachorro, para que as suas causas necessárias se tornassem meros acidentes, elementos de cenário. Qual é a diferença? A iluminação divina requer uma crença amparada pelo dom sobrenatural da Fé. Já a interpretação hegeliana só requer que o homem pense a respeito da sua condição. Novamente identificamos o ser humano operando a Escolha entre confiar no Amor e buscar o Poder.

No domínio do espírito, a consciência já não se compreende como um sujeito isolado diante de um objeto, mas como parte de uma totalidade histórica de costumes, instituições e práticas compartilhadas. A análise da eticidade grega revela uma unidade imediata entre indivíduo e comunidade, mas também sua fragilidade diante da cisão entre lei humana e lei divina, dramatizada na figura trágica de Antígona. O mundo romano introduz a abstração da pessoa jurídica, garantindo a universalidade do direito, mas ao preço da dissolução do conteúdo ético concreto. Essa dissolução culmina na alienação do espírito no mundo moderno, onde a moralidade subjetiva e a cultura produzem um conflito profundo entre consciência individual e ordem social, expresso na hipocrisia, no ceticismo e na chamada “consciência infeliz”. Tal figura representa o espírito dilacerado entre um absoluto transcendente e um eu finito, incapaz ainda de reconciliar interioridade e objetividade.

Tudo isso pode ser explicado como decorrência da Queda do homem enquanto desligamento voluntário da vida na Presença de Deus. Hegel está tentando reconhecer na História o que é muito mais facilmente reconhecível no nosso interior de modo imediato: o drama da impiedade no sentido da experiência dos efeitos desse desligamento espiritual. Nós todos somos filhos de uma prática de traição contra o Espírito Santo, e nascemos e fomos criados numa cultura de Cativeiro. O conflito entre o Absoluto e o eu finito só existe quando aquele é estranhado no seu Mistério. O que quero dizer com “estranhado”? Desconfiado de forma maliciosa. Isso leva o ser humano a querer redescobrir o Absoluto como algum tipo de propriedade sua. Mas como isso não é verdade, a tal da “consciência infeliz” de Hegel se torna um destino fatal. “Quem quiser se salvar, se perderá”, Jesus já alertou. O homem abandonado a si próprio é a mais infeliz e miserável das criaturas, pois tem, ao mesmo tempo, a noção do potencial de felicidade que Deus lhe propiciou por ter lhe feito à Sua imagem e semelhança, e todas as limitações pequenas e mesquinhas da animalidade. Um animal natural incapaz de racionalidade não pode ser infeliz, pois seu sofrimento não tem sentido porque não pode ter sentido. Já o homem, animal racional, é infeliz pois o seu sofrimento poderia ter um sentido que ele desconhece qual seja. Daí filósofos como Hegel tentarão explicar isto como algo assim, um processo dialético de autoconsciência do Espírito, que pode ser uma explicação muito estimulante intelectualmente, mas que não muda a realidade concreta da nossa infelicidade. As esperanças são depositadas em algo assim como um atingimento de uma meta futura, uma promessa qualquer do tipo Humanista, talvez para quando nos tornarmos Übermensch finalmente, vai saber. Daí eu pergunto, diante desta ficção: qual é a evidência que privilegia essa concepção em face da crença numa salvação divina? Em outros termos, do ponto de vista estritamente racionalista (sem se considerar o aporte de dons espirituais), que diferença tem entre crer que salvaremos a nós mesmos nos transformando em algo como deuses, e crer que seremos salvos por um Deus amoroso? Objetivamente não teria diferença. Subjetivamente, a diferença é a que existe entre a Presunção e a Humildade. Esta é a natureza dessa Escolha. Não tem nada a ver com Razão, e quem presumir que tenha está apenas embarcando num conto gnóstico. Sim, mais um.

A superação dessa cisão ocorre no âmbito da religião, em que o espírito passa a representar a si mesmo sob formas sensíveis e simbólicas. Hegel distingue momentos religiosos correspondentes às etapas anteriores do desenvolvimento espiritual, culminando na religião revelada, em que o absoluto é concebido como espírito encarnado. Contudo, mesmo a religião mais elevada permanece no registro da representação, isto é, expressa a verdade em imagens e narrativas, não ainda no conceito. Por isso, a reconciliação plena entre finito e infinito, humano e divino, só se realiza no saber absoluto, momento final da Fenomenologia. Nesse ponto, o espírito reconhece que todo o percurso anterior foi seu próprio movimento, e que a verdade não está fora da história da consciência, mas é precisamente essa história compreendida conceitualmente.

Saber absoluto? Hegel é um fetichista do Nominalismo. Ele acha mesmo que nós podemos dominar a verdade através de conceitos. O que é um conceito? É um produto acabado da Razão humana cuja validade é determinada pela sua coerência interna. Isso não tem nada a ver com a Verdade como correspondência, na consciência, entre o Intelecto e o Ser. Voltamos ao nosso ponto de partida, que era a desconfiança da intuição obtida pela Percepção. A verdade sempre esteve ali. Quando a abstração pretendeu dominar a verdade pela Razão, ela apreendeu apenas a imagem da verdade cujas categorias formais permitem a construção de conceitos perfeitos. Ora, no que consiste a perfeição desses conceitos? À sua correspondência aos nossos limites. O conceito revela a verdade do nosso domínio limitado da verdade abstraída do Ser. Isso não é um saber absoluto! Kant sabia disso muito bem. Hegel se perdeu. Desculpem a imagem, mas é como um punheteiro que acha que sua imaginação é mais satisfatória do que seria a experiência de uma realidade apetecível. É apenas uma fantasia, uma satisfação com a independência em relação ao Ser. Mas o que nós queremos mesmo é possuir o Ser e desfrutar de toda a sua bondade, verdade e beleza, obviamente.

O saber absoluto não é um saber enciclopédico de fatos, nem uma intuição mística do todo, mas a consciência filosófica de que sujeito e objeto, pensamento e ser, são momentos de uma mesma totalidade racional em processo. A Fenomenologia do Espírito encerra-se, assim, não com um dogma final, mas com a posição do ponto de vista especulativo, a partir do qual a filosofia pode desenvolver o sistema da ciência. O leitor que percorre esse caminho não recebe verdades prontas, mas é conduzido a experimentar a necessidade interna de cada figura do saber, aprendendo que a negatividade, a contradição e o sofrimento do espírito não são falhas a serem eliminadas, mas o próprio motor da verdade. Nesse sentido, a obra de Hegel permanece como uma das tentativas mais radicais de pensar a razão não como um instrumento externo ao mundo, mas como o próprio movimento pelo qual o real se torna inteligível a si mesmo.

Não vou dizer que Hegel não fosse ao seu modo um mestre de filosofia, uma mente criativa e um dialético excepcional. Ele foi tudo isso. Mas o que é isso? Onde eu encaixo esse fato? Na minha visão de mundo, essa sua obra é uma tentativa de reafirmar um idealismo imanentista do tipo Humanista, isto é, uma idolatria do Homem por ele mesmo. É por isso que uma obra filosófica tão profunda na sua própria metodologia pode ser, do ponto de vista espiritual, algo tão inócuo como qualquer outra filosofia amparada em premissas ruins. Não há nada, então, de proveitoso na obra de Hegel? Não consigo afirmar isso. É o mesmo que dizer, por exemplo, que não há nada de proveitoso na Astrologia, ou na Psicologia. Já falei dos perigos dessas coisas, mas isto não quer dizer que não haja algo proveitoso nelas. Tudo depende do quanto você consegue se aproximar de um fogo sem se deixar queimar por ele. É como a tentação para o pecado: se você não sabe se algo é pecaminoso ou não, a resposta mais simples é de que sim, é um pecado. É um perigo tudo aquilo que não temos a liberdade de nos apropriar com boa fé. Voltando ao Hegel, o que há de produtivo na sua filosofia é o próprio método dialético que, assim como Fichte antes dele, Hegel aprimorou ao ponto de recuperar a noção escolástica da logica inventionis. No meu entendimento, isso é muito mais benéfico do que a obsessão com conceitos. A Dialética é um método de investigação e da descoberta, e a metodologia hegeliana pode ser inspiradora nesse sentido. Outra coisa boa em Hegel é a noção de que no plano da imanência a tentativa de realizar um ideal tende a manifestar o seu oposto, pois o Absoluto não pode ser contido no imanente. Se você, portanto, quiser caos, é mais fácil forçar uma ordem repressora artificial que gere a anarquia como consequência, pois se produzir o caos diretamente só invocará, com isso, a reação de forças ordenadoras. E o contrário é igualmente verdadeiro, se você quer mais ordenamento o melhor caminho é gerar um caos artificial (que tem um controle secreto desconhecido de outros agentes) e gerar a reação de busca pela repressão. Curiosamente, esse entendimento deveria favorecer a busca de verdades transcendentes a qualquer Dialética, como princípios que só poderiam ser acreditados, mas nunca demonstrados, por escaparem da contradição. Uma escolha infeliz de Hegel é, diante disso, imitar Fichte e se obcecar com a busca de uma ciência humana como veículo de salvação. Infelizmente as escolhas de Hegel não tiveram consequências que se limitaram apenas a ele, e muitos intelectos arrogantes e pretensiosos fizeram escola com a sua filosofia.

Nota espiritual: 2,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final2,4

Avatar a Lenda de Aang, série por Michael Dante DIMARTINO

SINOPSE: Avatar: A Lenda de Aang se passa em um mundo dividido em quatro nações — Água, Terra, Fogo e Ar — ligadas aos respectivos elementos, no qual o equilíbrio sempre foi garantido pelo Avatar, único capaz de dominar todos eles, até que a Nação do Fogo inicia uma guerra de conquista que culmina no genocídio dos Nômades do Ar e no desaparecimento do Avatar por cem anos; esse Avatar é Aang, um menino dobrador de ar que, ao fugir do peso de sua missão, acaba congelado em um iceberg, sendo despertado no início da série por Katara e Sokka, irmãos da Tribo da Água do Sul, que passam a acompanhá-lo em sua jornada para aprender os outros elementos e pôr fim à guerra antes do retorno do Cometa de Sozin, que ampliaria o poder do Senhor do Fogo Ozai; ao longo do caminho, Aang aprende a dobra de água com Katara, a dobra de terra com Toph, uma jovem cega de força extraordinária, e enfrenta perseguições constantes do príncipe Zuko, filho exilado de Ozai, cuja obsessão em capturar o Avatar para recuperar sua honra evolui gradualmente para um conflito moral profundo, especialmente após sua convivência com o tio Iroh, ex-general sábio que lhe oferece uma visão alternativa de poder e identidade; paralelamente, o grupo confronta as consequências da guerra em diferentes regiões, incluindo a corrupção no Reino da Terra e a queda de Ba Sing Se, enquanto a Nação do Fogo revela sua decadência interna por meio de figuras como a princesa Azula, estrategista brilhante e psicologicamente instável; no desfecho, após um colapso espiritual que quase o destrói, Aang se reconecta ao mundo dos espíritos, enfrenta Ozai durante a passagem do cometa e, recusando-se a matá-lo, utiliza a dobra de energia para remover-lhe o poder, enquanto Zuko depõe o pai e assume o trono, restaurando a possibilidade de paz entre as nações e encerrando o ciclo de destruição que marcou aquele século de guerra.

O que esta sinopse do Chat GPT não revela, mas que descobri numa investigação paralela, é que há uma mitologia de origem que relata um conflito primordial entre Rava e Vato, numa espécie de dualidade maniqueísta que mantém o Universo em equilíbrio. Compreendido no contexto desse pano de fundo, a estória de Avatar a lenda de Aang se torna somente a retomada do mesmo ciclo de sempre, onde desde a perda do equilíbrio anterior por algum agente desestabilizador (no caso a ação do líder da Nação do Fogo, etc.), que opera como o mercúrio na relação alquímica, se torna necessária a ação de um novo poder estabilizador, com a função equivalente ao do enxofre, para restaurar o equilíbrio entre as forças. É uma narrativa com a função típica de Legitimação da Mistura, o lado direito da Dialética gnóstica do Ouroboros, como o mito de origem já revela com muita clareza. Não há transcendência ao nível de Mistura de Luz e Trevas, há apenas o equilíbrio, e a vida que é possível deriva desse estado de harmonia entre os poderes. O Mal não pode, assim, ser definitivamente superado ou sublimado, ele só pode ser colocado sob algum controle, pois de algum modo é necessário para que o Bem se manifeste. Por enquanto só encontramos uma nota negativa na direção do Gnosticismo. Vejamos a análise mais pormenorizada da IA.

ANÁLISE: Avatar: A Lenda de Aang pode ser lida como uma meditação narrativa sobre a ordem do mundo, a legitimidade do poder e o estatuto moral da força, articulada por meio de uma cosmologia em que natureza, espírito e política não se separam. A divisão do mundo em quatro nações associadas aos elementos não funciona apenas como recurso estético ou mitológico, mas como uma ontologia prática: cada elemento expressa uma relação distinta com o real, com o corpo e com a comunidade. A dobra de água pressupõe adaptação e fluidez; a dobra de terra afirma estabilidade e resistência; a dobra de fogo encarna energia, vontade e transformação; a dobra de ar, por fim, aponta para desapego e liberdade. O Avatar, enquanto figura que reúne em si todos os elementos, não é um soberano absoluto nem um messias no sentido clássico, mas um mediador ontológico cuja função é manter o equilíbrio entre forças que, abandonadas a si mesmas, tendem à unilateralidade e à tirania. O “equilíbrio” que a série invoca não é neutralidade moral, mas harmonia dinâmica entre princípios incompatíveis, o que já indica uma concepção trágica e não utópica da ordem do mundo.

Ainda não enxergo tanta tragédia nessa concepção, mas certamente também não encontro nenhuma Salvação num sentido de transcendente, de mudança de plano de existência. A mitologia já reforçou essa concepção imanentista. Na verdade, parece que no mito de origem Vato operou algum evento em que almas que viviam em algum plano superior pudessem descer e encarnar no mundo material, como um tipo de Demiurgo. Isso poderia indicar algum outro tipo de redenção para além do equilíbrio imanente, mas nem por isso seria uma solução espiritualmente adequada, ou seja, pela santificação, ou separação de Luz e Trevas. De qualquer modo, precisamos nos ater à narrativa. O simbolismo natural dos elementos já de muito tempo é empregado em artes terapêuticas antigas, como as que usam a doutrina dos humores para a cura dos excessos (de melancolia, fleuma, cólera e sangue) nos temperamentos. Tudo isso pode ser válido até certo ponto, como por exemplo num sentido mais elevado a virtude da Justiça pode ser vista como uma forma de equilíbrio que é excelente para produzir a paz e a felicidade política, o que parece ser a solução que Aang vai encontrar no fim desta estória. A questão que fica é: qual é o próximo passo? Onde se encaixam as vidas das pessoas no contexto maior? Ou este contexto não existe para além de suas vidas presentes? Tudo o que há é o ciclo de ordem anterior, caos, e nova ordem? E a vida das pessoas é como um breve suspiro no meio desse jogo de equilíbrios e desequilíbrios? Se for isso, a estória dá testemunho do espírito de Idolatria, seja da Natureza como o plano máximo de existência que rege os seres pelas suas Leis, ou seja do Homem como agente estabilizador das forças concorrentes em seu conflito permanente contra o Caos. Vamos ver se conseguimos concluir alguma coisa a esse respeito.

Nesse horizonte, a guerra conduzida pela Nação do Fogo não se reduz a um conflito geopolítico convencional, mas representa a hipertrofia de um único princípio — a vontade de poder, a expansão, a eficiência — desligado de qualquer limite espiritual. O fogo, elemento ambíguo por excelência, é aqui interpretado como energia que, sem disciplina interior, degenera em dominação. A série recusa, contudo, uma leitura maniqueísta: o problema não é o fogo em si, mas sua absolutização. Essa recusa se manifesta de modo exemplar na trajetória de Zuko, cuja formação moral revela que a redenção não ocorre pela negação do próprio elemento, mas pela sua reintegração a um horizonte ético mais amplo. O arco de Zuko encena uma tese central da obra: o mal político nasce menos da maldade individual do que da deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder que rompem o vínculo entre força e responsabilidade.

Essa interpretação não faz sentido nenhum. Qual é a causa agente que produz “a deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder”? Não é a maldade individual daqueles que desejam criar essas estruturas? De vez em quando vamos ter que lidar com essa superficialidade da interpretação da máquina. O que me parece ter valor na interpretação simbólica é o valor do equilíbrio tão necessário entre os elementos, e por fim entre aquelas forças originárias do Bem e do Mal, Rava e Vato. Não conseguimos tirar algo de bom disso? Até certo ponto podemos, por exemplo com a valorização da diversidade da realidade humana. Na minha experiência, ao lidar com o simbolismo astrológico, por exemplo (e que envolve a interpretação dos quatro elementos usados na série), o estudo da variedade e diversidade ajuda a respeitar as diferenças entre as pessoas. Mas isso não é realizado pelo conhecimento em si da diversidade. Há uma outra crença que deve agir nesse sentido. No caso da crença cristã, é a noção de Harmonia produzida pela Providência: Deus criou a diversidade tendo em vista finalidades que escapam do nosso entendimento, de modo que a homogeneidade tende a destruir a riqueza gerada pelo Criador. No caso da crença sugerida pela moral da estória de Avatar a lenda de Aang, a própria sobrevivência dos povos depende de um equilíbrio entre eles, uma realidade que só pode ser operada por uma consciência superior que tem essa função de estabilização, que é o Avatar. Fazendo a tradução disto para a vida particular, temos impulsos antagônicos que devem ser controlados por uma disciplina que visa a harmonia do conjunto, autocontrole este que é causado pela consciência da unidade do nosso próprio ser. Apesar disso, esta vida natural é regida por um princípio entrópico da geração e corrupção que vai terminar com a extinção do próprio organismo, algo que sempre gera alguma contradição perceptível pela psique humana em algum grau, quando se percebe, por exemplo, que os indivíduos mais equilibrados e capazes de homeostase vão morrer tanto quanto os mais desequilibrados. Onde está a vitória do equilíbrio, neste caso? Seria na felicidade de uma vida virtuosa, mas a morte é capaz de apagar isso e tornar essa conquista uma espécie de fábula ou ilusão. Do mesmo modo, no nível da vida política, a Justiça e o equilíbrio de forças gera mais paz e harmonia, o que não deixa de reverter o processo civilizacional com a direção que ele tenha, e que pode ser julgado como espiritualmente negativo, ou ao menos sem sentido se o que possuir entidade for apenas a alma individual (a idéia da Cidade de Deus de Agostinho). O que quero dizer, por fim, é que a noção de equilíbrio ou respeito pela diversidade tem que se enquadrar num contexto transcendente para ter valor definitivo, como no caso do indivíduo que vive uma vida mais harmônica e com isso se relaciona melhor com seu Criador e o serve com maior eficácia, ou então no caso da Política quando a paz gerada pela Justiça é capaz de abrir espaço na sociedade para o aparecimento de testemunhos mais fiéis ao divino (Calaquendi). Só nesses casos é que o equilíbrio faz sentido, pois visa um bem realmente transcendente e indestrutível. De resto, só se mantém o equilíbrio de individualidades que morrerão pela ação do mesmo processo, ou de sociedades que evoluirão para um destino qualquer que é indiferente ou mesmo prejudicial para a salvação das almas.

A figura de Aang introduz um problema filosófico ainda mais profundo ao colocar em tensão o dever cósmico e a integridade da consciência individual. Educado segundo uma espiritualidade que valoriza a não violência e o desapego, Aang se vê confrontado com a expectativa de matar o Senhor do Fogo para restaurar o equilíbrio. A série, nesse ponto, se distancia deliberadamente de narrativas heroicas clássicas, nas quais a violência final aparece como necessidade redentora. Aang recusa a lógica segundo a qual a ordem só pode ser restaurada pela eliminação física do inimigo, e sua busca por uma terceira via culmina na descoberta da dobra de energia, que permite neutralizar o poder sem aniquilar a pessoa. Essa solução não deve ser lida como simples artifício narrativo, mas como afirmação de uma tese ética: a justiça verdadeira não coincide com a vingança nem com a mera inversão da dominação, mas com a restauração da medida, isto é, do limite.

Muito bem, mas qual é o resultado final dessa bondade de Aang? Talvez ele tenha impedido um cenário violento e caótico, mas com qual finalidade última? Se a narrativa mostrasse um caminho pelo qual, a partir dessa decisão do protagonista, a própria condição de restrição da vida humana sob o esquema do equilíbrio entre os elementos (ou mesmo entre Rava e Vato) pudesse ser superada, esse seria um resultado muito excelente. Mas não parece ser o caso. Comparemos, por exemplo, com a mitologia cristã: quando Jesus ordena o perdão dos inimigos, isto não gera apenas maior paz e ordem no nível da vida em sociedade, como a decisão de Aang. É uma coisa completamente diferente. A nossa misericórdia com o próximo reflete o Amor divino, é a própria imitação de Deus. Se buscamos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, desejamos nos tornar como seus filhos adotivos, e isto significa espiritualmente que dizemos “sim”, não só com palavras mas com ações, ao convite para a vida eterna com Deus. Essa vida paradisíaca é a superação total da necessidade de equilíbrio entre Luz e Trevas, pois significa a separação eterna entre os dois. O que Jesus nos ensina é a nos tornarmos imortais pela ação da sua Graça, algo completamente diferente da manutenção do plano terreno atual regulado pelo equilíbrio da Mistura. Vejam que não importa apenas fazer o bem, mas é preciso fazer o bem pelas razões certas, como diria Tomás de Aquino: a boa ação é completa, na sua intenção, nos seus meios, e nos seus resultados. A intenção de Aang foi fazer algo melhor que seu inimigo lhe faria, usando de meios menos violentos, e com a finalidade de restaurar o equilíbrio entre as nações. A intenção da bondade cristã é a comunhão com Deus, o meio é a imitação de Cristo, e a finalidade é a salvação pela Ressurreição e a vida paradisíaca. São coisas bem diferentes. Parece que a estória desta série é apenas um novo testemunho favorável à Legitimação da Mistura. A bondade de Aang é restrita a esse nível, é a bondade de um escravo que não alcança a liberdade, mas preserva o sistema que o escraviza. Neste sentido, quem saberia dizer se os extremos do líder da Nação do Fogo não significariam a salvação no sentido de um necessário fim do mundo que já não tem mais redenção? Não que esse agente tivesse essa consciência, pois o martelo não conhece a intenção daquele que o empunha, e Deus já fez e continua fazendo uso da vilania para seus próprios propósitos. De certo modo, a obsessão com a manutenção do equilíbrio e com a continuidade da Mistura converte Aang num instrumento do Mal à sua maneira. Porque como um parasita, o Mal precisa da Mistura para continuar subsistindo, então aqueles que defendem a Mistura são servidores do Mal. Ao contrário, a Obra de Deus é a Separação de Luz e Trevas, ou Santificação, como revelado em Gênesis.

Por fim, Avatar: A Lenda de Aang propõe uma filosofia da história na qual o tempo não é progresso linear, mas ciclo ameaçado pela repetição da queda. A reencarnação do Avatar sugere que o equilíbrio nunca é conquistado de modo definitivo, pois a liberdade humana permanece capaz de romper a ordem a qualquer momento. Nesse sentido, a série sustenta uma visão profundamente realista da condição moral: não há estrutura política, poder espiritual ou tradição cultural que garanta por si só a justiça. O equilíbrio exige vigilância, autodomínio e disposição ao sacrifício pessoal. A obra encerra, assim, uma crítica implícita tanto ao messianismo político quanto ao niilismo cínico, afirmando que o mundo só permanece habitável enquanto houver quem aceite carregar o peso de mediar entre força e sentido, poder e limite, ação e consciência.

É verdade, mas quem ainda desejaria habitar um mundo onde algum nível de maldade ou sofrimento é necessário? Somente quem não acredita na libertação dessa condição sob nenhuma forma. Então a estória nos dá um testemunho de Idolatria, como eu suspeitava desde o início. E também de Presunção, até certo ponto, porque os protagonistas acham que eles precisam salvar o mundo, como se não existisse um Deus salvador, ou como se Deus delegasse esse tipo de responsabilidade a indivíduos como os avatares. O nome de Jesus resolve esse problema, porque ele significa literalmente que “Deus é o nosso salvador”. E seu exemplo de Humildade, para não falar de seus ensinamentos e dos de seus discípulos, já nos liberta dessas ilusões a respeito da hipótese de que a salvação do mundo nos pertença. A harmonia entre os elementos, ou entre as forças primordiais, não reflete a visão cristã de mundo. Não existe harmonia, existe o império da Queda, a consecução da vontade traidora de Adão e Eva (ou de todos os nossos ancestrais que os representam concretamente): existe maldição e decadência, e então a tentativa de restaurar o mundo pela força da Gnose, o Poder de dominar essa realidade decaída. O que depende de nós é a nossa conexão com o Criador e a solução verdadeira que não é a paz e o equilíbrio neste mundo, mas a Ressurreição. Não há nada disso na estória desta série, somente a manutenção do status quo, que é um objetivo daqueles que legitimam a Mistura.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,1

Attack on Titan, série por Tetsurō ARAKI

SINOPSE: Attack on Titan narra a história de uma humanidade que vive confinada atrás de enormes muralhas para se proteger dos Titãs, criaturas humanoides gigantes que devoram pessoas, acompanhando inicialmente Eren Yeager, sua irmã adotiva Mikasa Ackerman e seu amigo Armin Arlert após a destruição da Muralha Maria e a morte da mãe de Eren, evento que desperta nele um desejo absoluto de exterminar todos os Titãs; com o ingresso no exército, a revelação de que Eren possui o poder de se transformar em Titã e a descoberta progressiva de outros Titãs inteligentes — como Reiner, Bertholdt e Annie —, a narrativa desloca-se da luta pela sobrevivência para um conflito político e histórico mais amplo, quando se revela que os Titãs são humanos transformados e que o povo dentro das muralhas, os eldianos, é odiado e oprimido pelo resto do mundo, especialmente pela nação de Marley, devido a um passado imperial violento ligado ao poder originário de Ymir Fritz; ao recuperar as memórias de seu pai, Grisha, e acessar fragmentos do passado e do futuro por meio do Titã de Ataque e do Titã Fundador, Eren compreende que a história está presa a um ciclo de ódio e decide desencadear o “Rugido”, libertando milhões de Titãs Colossais para destruir quase toda a humanidade fora da ilha de Paradis, acreditando que apenas um genocídio preventivo garantiria a liberdade de seu povo; diante disso, antigos inimigos e aliados — incluindo Mikasa, Armin, Levi, Hange, Reiner e outros — unem-se para deter Eren, culminando em sua morte pelas mãos de Mikasa, no fim do poder dos Titãs e na sobrevivência de um mundo marcado pela devastação, pela memória do massacre e pela persistente ambiguidade quanto à possibilidade real de paz ou reconciliação futura.

Parece que a série relata a condição de sobrevivência sob a Lei da Selva, com a descoberta de que aquele que participava da História em nome de uma suposta causa justa na verdade apenas integrava um ciclo sem redenção e sem verdadeira Justiça. Isto pode indicar um testemunho de Vigilância até certo ponto, porque saber que podemos ser os vilões faz parte desse sadio aprendizado espiritual (o que chamo de “o lado certo do Golgota”). Porém, sem a perspectiva desse quadro dentro de uma maior Providência que transcendesse o ciclo histórico, seríamos afetados por outro lado pelo espírito de Terror, ou Pacto com o Inferno. Será que haverá alguma indicação de algum tipo de redenção fora da História?

ANÁLISE: A série Attack on Titan pode ser lida, para além de sua superfície épica e violenta, como uma meditação sombria sobre a condição histórica do humano, estruturada em torno da experiência do cerco, da culpa herdada e da liberdade concebida como tragédia. Desde seus primeiros episódios, o mundo apresentado não se organiza apenas como um cenário ficcional, mas como uma arquitetura simbólica: muros erigidos contra um exterior indeterminado, humanidade reduzida à sobrevivência mínima e um inimigo cuja alteridade absoluta legitima qualquer forma de exceção. Essa configuração inicial não serve apenas à narrativa de ação; ela estabelece uma ontologia política do medo, na qual a vida humana é definida negativamente, isto é, não pelo que pode realizar, mas pelo que precisa evitar para não ser exterminada.

É uma aplicação simbólica do sentido da condição humana sob o Decreto da Queda de Gênesis Capítulo 3. Este simbolismo é indevido? Depende, como já falei no início, da perspectiva. Em si mesmo o quadro pode ser realista o quanto for, e até produtivo espiritualmente quando a situação é vinculada às consequências da própria ação humana. Assim, até a idéia de uma “prisão” dentro de uma situação decadente e amaldiçoada faz sentido quando isto é observado como efeito decorrente das decisões dos seres humanos. Então, por exemplo, se o ato inaugural do ódio vingativo do protagonista, Eren, é a morte de sua mãe, este poderia dirigir a sua atenção desde a ação do titã responsável pelo incidente para a realidade originária da própria mortalidade da sua mãe. De onde veio isto? Veio de uma Natureza impecável, de uma Lei Natural boa como se fosse divina, ou ainda de um ordenamento caótico? Qualquer que seja o caso, se a morte era inevitável, não é tão terrível que um titã tenha matado a mãe de Erin, mas que ela fosse morrer de qualquer modo. Pois fosse esse meio mais ou menos violento, o efeito final é sentido de modo mais terrível justamente pela sua irreversibilidade. Então vale mais a morte do que o sofrimento do meio para se chegar nela. Mas qual é, então, a origem da morte? Se for uma Lei Natural, ou um Caos, Erin seria idólatra, Naturalista ou Cacólatra, e seu tormento pela perda da mãe seria sua culpa sua. Por outro lado, se existisse um desígnio bom por trás da determinação da mortalidade de todos, inclusive da mãe de Erin, porque, por exemplo, “o salário do pecado é a morte”, então Erin não precisaria se entregar ao espírito de ódio e de vingança, e sua arbitrariedade nessa direção, com todas as consequências disso, seria igualmente sua culpa. Portanto, a situação humana precisa ser enquadrada dentro de um escopo mais amplo, do contrário estaremos tão presos à História da humanidade quanto os animais estão presos à Natureza. Mas nosso Intelecto já sugere, sem grandes dificuldades, pela nossa capacidade de concepção de algo que nos transcende, a nossa Liberdade de escolher situar os horrores do mundo dentro de um quadro maior que possua algum sentido. Se a série não aponta para essa hipótese, além de Idolatria ela também daria testemunho de Psiquismo, e de Gnosticismo.

À medida que a narrativa avança, os Titãs deixam de funcionar como simples monstros naturais e passam a revelar sua verdadeira função conceitual: eles são a figuração de uma violência histórica que não vem de fora, mas emerge do próprio humano. A descoberta de que os Titãs são, em última instância, humanos transformados dissolve a separação confortável entre vítima e agressor, deslocando o eixo moral da série. O horror já não é o ataque externo, mas a constatação de que a própria humanidade carrega em si a potência de sua autodestruição. Com isso, Attack on Titan rompe com a lógica clássica do épico heroico, no qual o mal é exterior e o bem se afirma pela derrota do outro; aqui, o mal é imanente, transmitido, herdado e estrutural.

Isto tem um potencial excelente para revelar tanto a essência do problema como o Pecado Original, quanto a solução verdadeira que é a Cruz. Mas há que se questionar se existe, então, alguma referência à ordem de origem dos problemas. Por exemplo, a reprodução humana sob essa terrível condição é questionada por algum personagem? Talvez até seja e o Chat GPT não me relate isso. Caberia a alguma boa alma que assistiu à série me informar se for o caso. Se não existisse esse questionamento, então não adiantaria nada reconhecer que os titãs são humanos transformados, porque a origem da exploração do potencial maligno está na encarnação sob esta condição decaída e amaldiçoada. Se o problema não puder ser adequadamente diagnosticado, a solução verdadeira não pode ser aplicada. Qual é a solução verdadeira? A Cruz: interromper o ciclo do mal. Isso começa pela renúncia ao espírito e às práticas vinculadas ao Pecado Original. E chega finalmente no perdão e na misericórdia, isto é, a imitação de Cristo. Se os personagens aguardassem apenas uma salvação que viesse pelo recurso extraordinário da Ressurreição, não seria necessário sofrer com a condição atual senão como a experiência temporária e limitada da Cruz. Essa é a Lei de Liberdade que o Evangelho nos trás: imite a Jesus e a Virgem Maria, não a Adão e Eva, e ame e perdoe todos os desgraçados filhos dos homens até o último dia. Uma outra maneira de enxergar a simbologia desta série é que os titãs são equivalentes, no Pacto Sadomasoquista do Sistema da Besta, aos Sádicos, isto é, aos ambiciosos pactualistas que desejam Poder sobre os masoquistas, e igualmente a solução necessária é a mesma: a renúncia à prática da traição do Amor em nome do Poder, seguir Jesus, etc.

Esse deslocamento atinge seu ponto decisivo quando a história se expande para além dos muros e revela um mundo geopolítico mais amplo, marcado por impérios, ressentimentos históricos e narrativas concorrentes de culpa e redenção. O conflito entre Eldianos e o resto do mundo não é apresentado como uma simples oposição entre opressores e oprimidos, mas como um ciclo de violência sustentado por memórias traumáticas, mitologias nacionais e tecnologias de dominação. A série sugere que a história não é um processo de superação moral, mas uma repetição trágica na qual cada geração herda não apenas territórios e nomes, mas também pecados que não cometeu diretamente. Nesse sentido, Attack on Titan se aproxima de uma filosofia da história profundamente pessimista, na qual a ideia de progresso é substituída pela de acumulação de culpa.

Não somos todos herdeiros dos pecados dos nossos pais? Não herdamos deles todos os nossos sofrimentos, dores, traumas, angústias, medos, etc.? Se não herdamos deles, de quem recebemos essas coisas? De Deus? Da Natureza? Do Caos? Do Nada? Se a série emprega o tom pessimista de modo monotemático, talvez peque pela falta de abrangência, afinal o progresso material e tecnológico pode disfarçar a realidade da experiência humana. De vez em quando não vem alguém dizer que vivemos mais do que nunca antes, temos mais acesso a isto e aquilo, etc.? Tudo isso pode ser verdade e não modificar a realidade da condição humana, especialmente diante da Presença de Deus. Essa questão modifica, portanto, apenas o grau do testemunho do Dom de Vigilância: se o tom trágico e pessimista é exagerado, há menos Vigilância; se, porém, existir o reconhecimento de vantagens pelo progresso e mesmo assim se evidenciar friamente o quanto isso é infinitamente inferior ao Ideal divino, há mais Vigilância.

A figura de Eren Yeager encarna de modo exemplar essa tragédia histórica. Inicialmente apresentado como o arquétipo do herói movido por um desejo absoluto de liberdade, Eren gradualmente se transforma no vetor da maior violência já vista na narrativa. No entanto, essa transformação não é retratada como corrupção moral simples, mas como consequência lógica de um mundo em que toda liberdade parece exigir aniquilação. A liberdade, em Attack on Titan, não é um valor universal conciliável com a coexistência; ela aparece como um bem escasso, conquistado apenas pela negação radical da liberdade alheia. O “Rugido” não é apenas um evento catastrófico, mas a expressão final de uma liberdade levada à sua coerência extrema: se existir significa estar condenado pelo olhar do outro, então a eliminação do outro surge como condição para existir plenamente.

Essa seria sempre a conclusão extrema da experiência do Limite dentro da condição da Mútua Representação: não é possível alcançarmos o nosso bem próprio de modo pleno sem a possível afetação do bem próprio de outros. A solução tempestiva, sob a condição presente da Mútua Representação, é o exercício da Justiça que só é viável como virtude quando a busca do bem próprio é limitada pelo reconhecimento do bem comum, dos direitos universais, etc. Esta situação nunca poderia ser ideal, porém. O Ideal só é alcançável pela superação desta condição da mutualidade no estado paradisíaco da Coruscância, onde a Justiça não é mais necessária, porque a injustiça não é possível, já que o Amor triunfa de modo absoluto e somos todos infalíveis em comunhão com o Espírito Santo. Lá as entidades pessoais com as quais convivemos de modo regular são perfeitamente determinadas pela Apetição da mônada, os chamados Periannath (“povo pequeno”). E as outras mônadas são absolutamente livres para representar suas realidades apetecidas com igual potência. A idéia de que vamos conviver com vizinhos permanentes numa tal Jerusalém celeste, e que alguém possa dizer “bom dia” sem o outro querer ouvir, ou de você não poder nem sequer querer não ouvir “bom dia” do seu vizinho, é uma hipótese tão maluca quanto a da eliminação da nossa pessoalidade na absorção da União Mística ou Visão Beatífica.

Essa lógica conduz a série a um terreno profundamente problemático do ponto de vista ético. Attack on Titan não oferece uma moral clara nem um ponto de vista redentor capaz de reorganizar o mundo após a catástrofe. Ao contrário, ela insiste em mostrar que toda tentativa de solução total — seja pela dominação, pela vingança ou pela proteção absoluta de um povo — resulta inevitavelmente em genocídio, silêncio e ruína. A ausência de um horizonte reconciliador não é uma falha narrativa, mas uma tese implícita: o mundo humano, quando estruturado exclusivamente por identidades fechadas, memórias absolutizadas e soberanias totais, não admite síntese pacífica. O trágico não é um acidente, mas a forma própria desse mundo.

Eu nem me incomodaria por falta de salvação no plano desta temporalidade, afinal de contas isso não existe mesmo. Mas a falta de indicação de uma salvação transcendente, isso sim seria preocupante. De todo modo, mesmo sob uma visão imanentista fechada, novamente, seria possível questionar a validade da continuidade da reprodução humana nessa condição. É o tema da Antropodiceia. Já que não há Eleuteriodiceia que reconhece a validade dessas coisas terríveis num plano limitado diante da Eternidade, no mínimo os participantes voluntários na perpetuação dessa situação são moralmente obrigados a se questionarem sobre a sua decisão. Essa responsabilidade objetiva existe e é inescapável. Mesmo que o Pecado Original não seja reconhecido na sua significação espiritual, a sua prática é sempre reconhecível como o conduíte para a morte, o sofrimento, etc. Se a série não apontou sequer para isto, então realmente o seu grau de Vigilância não é muito alto.

Nesse contexto, o tempo desempenha um papel filosófico decisivo. A possibilidade de acesso ao futuro e ao passado, mediada pelos Titãs e pela linhagem de Ymir, dissolve a noção clássica de livre-arbítrio. As ações dos personagens parecem simultaneamente escolhidas e determinadas, como se a liberdade existisse apenas como experiência subjetiva dentro de uma cadeia causal fechada. Eren age porque quer, mas quer porque já viu o que fará. Essa circularidade temporal introduz uma concepção profundamente fatalista da história, na qual a responsabilidade moral não desaparece, mas se torna quase insuportável, pois o agente é ao mesmo tempo autor e prisioneiro de seus atos.

Isto tem que ser visto com bastante cuidado. Se o personagem vê o que vai fazer, ele pode apenas contemplar o resultado de uma decisão que já tomou, embora ainda não saiba que o tenha feito, porque o momento no tempo de uso dessa liberdade particular ainda não chegou. Não existe, neste sentido, abolição da Liberdade. Se o sujeito detesta o resultado do que fez, mas continua tendo feito o que fez, isto apenas gera uma situação exótica e anômala, como um arrependimento antecipado, mas não muda de fato o ato livre, porque se mudasse isto já converteria a concepção da realidade moral para o paradigma de um Determinismo total. Mas esse tipo de concepção costuma ser facilmente questionável, seja por atos simples do dia-a-dia, ou pela reconsideração dos atos interiores executados no momento das supostas decisões determinadas por causa externa. No mínimo, mesmo que as ações fossem produzidas por motores exteriores, uma consciência capaz de detestar o que faz já é livre o suficiente diante de Deus, e portanto responsável por esse nível de autonomia (Romanos 7:15). Isto é, para um Intelecto verdadeiro sempre existe no mínimo a agência moral interior sempre livre e imputável. Novamente, se a série não é capaz de apresentar isso, ela dá o testemunho dos espíritos de Gnosticismo e de Psiquismo.

Por fim, Attack on Titan pode ser compreendida como uma alegoria radical da modernidade política e de seus impasses últimos. Estados fortificados, tecnologias de extermínio em massa, narrativas identitárias absolutas e a conversão da liberdade em arma total formam um quadro que remete menos a um mundo fantástico do que às experiências históricas mais extremas do século XX. A série não oferece consolo, redenção nem transcendência clara; ela termina como começou, com restos, memórias e sobreviventes incapazes de afirmar se algo foi realmente resolvido. Nesse sentido, sua força filosófica reside precisamente na recusa de uma conclusão edificante. Attack on Titan não ensina como salvar o mundo, mas expõe, com rigor implacável, o preço metafísico e histórico de tentar fazê-lo pela força absoluta.

Eu nem penso que o mundo devesse ser salvo, porque já há uma profecia sobre a sua destruição, e a Vontade de Deus é perfeitamente boa. A salvação pertence às almas, ou mônadas. Então esse negócio de salvar o mundo nunca é o problema. Aliás, o contrário é verdade: o problema costuma ser a idéia de salvar o mundo, algo que Olavo sempre dizia (“o mundo estaria muito melhor se muitas pessoas não quisessem melhorá-lo”). O que perpetua o sofrimento e a desordem é a vontade de fazer diferente, de se achar diferente, em suma, a Pretensão, a falta de Humildade. Por isso seguir a Jesus Cristo continua sendo, como sempre será, a única solução final: ser humilde e manso de coração, tornar-se filho de Deus, carregar a Cruz e seguir o Pastor em direção à morte e à Ressurreição. Eu não esperaria que um anime levasse a tudo isso, é claro. Mas no mínimo alguma indicação de transcendência seria sempre possível, ou então a consciência da possibilidade de interromper o ciclo do mal com a renúncia voluntária à prática do Pecado Original.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,9

O Segredo, livro por Rhonda BYRNE

O livro O Segredo, de Rhonda Byrne, insere-se no gênero da autoajuda contemporânea, mas reivindica para si um estatuto mais elevado: o de revelar uma lei universal fundamental, supostamente conhecida por sábios antigos, pensadores iluminados e figuras de exceção ao longo da história. Essa lei, denominada “Lei da Atração”, é apresentada como o princípio último que governa todos os eventos da vida humana, desde as circunstâncias materiais mais banais até os estados interiores de felicidade, saúde e realização. A tese central da obra é inequívoca: aquilo que o indivíduo pensa e sente determina, de maneira direta e necessária, aquilo que ele experimenta no mundo. A realidade, nesse sentido, não é algo que simplesmente acontece ao sujeito, mas algo que responde ao seu estado mental.

Não precisamos nos preocupar muito com a reivindicação do estatuto mais elevado de acordo com alguma antiguidade ou origem autoritativa, porque este é das falácias uma das mais fracas, o chamado “argumento de autoridade”. Uma lei universal deve ser reconhecível por sua própria constituição, por seus efeitos, por critérios adequados à sua suposta universalidade. Não é o sábio que faz a Sabedoria, mas a Sabedoria que faz o sábio. Então precisamos verificar a veracidade da tal Lei da Atração. Sobre a determinação da experiência de acordo com o pensamento e o sentimento, isso tem no mínimo uma dupla interpretação possível. Primeiro, a interpretação objetiva, de que a realidade exterior ao ser que a percebe sofre alterações por efeito dos estados interiores do sujeito. Segundo, a interpretação subjetiva, de que a percepção que o sujeito tem da realidade exterior é alterada por seus estados interiores. No primeiro sentido, por sua vez, há três interpretações possíveis: 1) o efeito indireto pelas consequências de ações que consideram uma determinada qualidade da realidade; 2) o efeito direto pela posse de um poder de alteração da realidade para além das ações ordinárias; e 3) o efeito direto pela produção de uma realidade que reflete o interior da alma, embora este efeito dependa do uso de liberdades específicas, que podem ser mais ou menos restritas conforme o caso. Posso aceitar a primeira e a última interpretação, ou seja, que a nossa maneira de pensar e sentir a realidade muda a nossa forma de agir no mundo e, portanto, gera consequências derivadas dessa visão interior, e também que temos o poder da reflexividade monádica de criar a nossa realidade, embora experimentemos isso hoje de modo limitado por força do ordenamento da Mútua Representação. No segundo sentido, de fato a realidade é representada pela alma que a percebe de acordo com as categorias que a alma usa para interpretar essa representação, e a escolha é livre para alterar esses critérios, sem no entanto gerar com isso a modificação da realidade exterior, exceto pelos casos primeiro e terceiro do primeiro sentido. Reconheço, portanto quatro formas de interpretar a tese da Lei da Atração: modificação por ações ordinárias, modificação por ações extraordinárias, geração do real por uma atividade interior limitada, e interpretação subjetiva das representações. Vejamos onde a Sra. Byrne vai nos levar.

Segundo Byrne, os pensamentos não são meras representações subjetivas ou conteúdos internos da consciência, mas forças energéticas dotadas de frequência vibratória. Essas frequências, por sua vez, interagem com o universo como um todo, atraindo eventos, pessoas e situações que se harmonizam com o padrão mental do indivíduo. Pensamentos positivos, acompanhados de emoções elevadas, atrairiam experiências igualmente positivas; pensamentos negativos, marcados por medo, escassez ou ressentimento, atrairiam circunstâncias adversas. A vida, portanto, funcionaria como um espelho fiel da vida interior, devolvendo ao sujeito aquilo que ele emana, consciente ou inconscientemente.

Como podem ser interpretadas as forças energéticas dotadas de frequência vibratória? Em primeiro lugar, o nome não faz a coisa, mas a coisa é que faz o nome: se há uma força, uma energia, ou uma vibração, até este ponto isto só é reconhecível pela causa psíquica e pelo efeito de alteração da realidade, mas permanece um mistério na sua quididade. O que é essa força? Em segundo lugar, já podemos enquadrar a Lei da Atração numa das quatro interpretações? Ainda não, pois essas forças poderiam produzir ações ordinárias ou extraordinárias que por sua vez poderiam atrair a realidade correspondente de modo menos ou mais direto. Isso porque não está declarada a essência do mecanismo, ao menos neste resumo do Chat GPT, por enquanto. Igualmente, a força atrativa poderia ser um modo de entender a reflexividade monádica, ou mesmo a interpretação subjetiva da representação. Então, se eu poupo gastos e faço investimentos, estou atraindo a riqueza como efeito dessa ação que por sua vez foi produzida por um pensamento positivo ligado à idéia do enriquecimento. Isto vale para Byrne? Ou só valeria como Lei da Atração eu meramente pensar que enriquecerei, e independente do meu esforço o efeito se seguirá? Isto ainda não está claro. Por outro lado, se a minha força interior produz a minha realidade como criação pura, isto é fato numa determinada interpretação, mas eu já poderia fazer isto agora, ou é apenas uma potência que um dia poderia ser ativada? E, ainda, na linha da subjetividade, se eu tenho uma omelete no prato, posso considerar-me pobre comparando-me com o outro que tem um filé mignon, mas posso considerar-me rico comparando-me com o outro que não tem nada. Essa interpretação da representação da realidade também é um modo de atrair o positivo com o pensamento? Não está claro.

Essa concepção implica uma redefinição radical da causalidade. Em O Segredo, a causa última dos acontecimentos não reside em fatores externos — econômicos, sociais, biológicos ou históricos — mas no domínio interno da mente e do sentimento. O indivíduo não é apenas responsável por suas escolhas morais ou comportamentais, mas por sua própria condição existencial. Prosperidade, pobreza, saúde e doença aparecem, nesse quadro, como efeitos diretos de estados mentais prolongados. A realidade objetiva perde sua autonomia ontológica e torna-se dependente da disposição subjetiva do observador.

Novamente, diz-se que o interior produz o exterior, mas não se diz claramente como isso acontece. Qual é o dispositivo da força de atração? Se a causa é interior, e a realidade do mundo é produzida por esta causa, de que modo isso acontece? Por enquanto as nossas quatro hipóteses de interpretação continuam igualmente viáveis. O que é dito, porém, sobre a realidade perder “autonomia ontológica”, parece desprezar o primeiro tipo de interpretação, mas ainda não é possível fazer esse descarte, porque autonomia poderia significar simplesmente impossibilidade de afetação, de modo que uma força suficiente poderia continuar modificando a realidade em alguma medida, mesmo que através somente de ações ordinárias.

A obra desenvolve essa visão por meio de uma ontologia implícita que pode ser descrita como um idealismo espiritualizado. O mundo não é negado em sua existência, mas é esvaziado de causalidade própria; ele passa a funcionar como um campo passivo de resposta às vibrações humanas. Ainda que Byrne recorra frequentemente a uma linguagem que evoca a física moderna — sobretudo a física quântica —, o uso desses conceitos é metafórico e retórico, não técnico. Termos como “energia”, “frequência” e “vibração” são empregados para conferir à tese uma aparência de cientificidade, embora permaneçam desvinculados de qualquer formulação rigorosa ou verificável nos termos das ciências naturais.

De acordo com essa interpretação do Chat GPT, a Lei da Atração não tem rigor suficiente para ser verificada na sua integridade, ou nem mesmo para avaliar o tipo de solução entre os quatro modelos de interpretação que sugeri. Não adianta afirmar que a causalidade é afetada de dentro para fora, se não for afirmado como isso se dá. Novamente: é pela ação ordinária? É por uma ação extraordinária? É pela geração totalmente dependente como reflexo monádico? É pela modificação do sentido da representação? Foi mencionado o uso de idéias ou termos da física quântica, o que é um procedimento típico da autoajuda contemporânea, temperada pela ideologia da Nova Era. Rigorosamente, porém, isto não significa nada se os termos não forem preenchidos com sentido de modo que saibamos o quê causa o quê e de que modo.

Do ponto de vista epistemológico, O Segredo propõe uma forma de conhecimento que não se fundamenta na observação empírica sistemática nem na argumentação lógica formal, mas na autoridade de testemunhos, exemplos de sucesso e narrativas inspiradoras. A verdade da Lei da Atração é afirmada menos como algo a ser demonstrado e mais como algo a ser reconhecido intuitivamente pelo leitor, a partir da promessa de transformação pessoal. O critério de validação não é a coerência teórica nem a correspondência com dados objetivos, mas a eficácia subjetiva: se o leitor acredita e aplica, a lei se tornaria verdadeira em sua própria vida.

Assim sendo, por qualquer meio que a Lei da Atração pudesse ser verdadeira, bastasse que alguém acreditasse nela e produzisse um efeito vinculado a esta causa, para que a sua veracidade fosse verificada. É um meio muito indevido de se checar a verdade de uma tese nas suas razões últimas, mas não de todo impraticável, até porque o poder da crença humana é muito forte, e a vontade de validar uma escolha prévia é capaz de racionalizar as interpretações que forem necessárias para verificar retroativamente a qualidade da tese acreditada. Em suma, por quaisquer meios escolhidos para se operar a tal Lei da Atração, a escolha de acreditar nessa verdade é capaz de ser forte o suficiente para criar as justificativas necessárias ao reconhecimento da sua validade. Mas, como já dito, infelizmente isso não ajuda a reconhecer uma verdade no seu âmbito próprio, ou seja, independente do nosso desejo. Por exemplo, quando falamos da Lei da Gravidade, isto significa algo mais que a Lei da Atração, mesmo que as causas últimas da gravitação ainda não estejam claras, pelo simples fato de que o efeito da Lei da Gravidade segue às suas alegadas causas quer queiramos, quer não queiramos. Isto é, porque um corpo pesado tende a cair independentemente de nossa crença na Lei da Gravidade, é mais propício chamar a esta de uma Lei, do que a Lei da Atração que depende de uma interpretação totalmente submetida ao capricho da vontade humana.

A dimensão prática do livro decorre diretamente dessa concepção. Byrne apresenta um método simples, estruturado em torno da formulação clara de desejos, da crença absoluta em sua realização e da disposição emocional de gratidão antecipada. Visualizações mentais, afirmações repetidas e exercícios de foco emocional são recomendados como meios de alinhar o indivíduo com a frequência desejada. A ação concreta no mundo não é negada, mas ocupa um lugar secundário; o elemento decisivo permanece sendo o estado interior. Agir sem alinhar pensamentos e sentimentos seria, segundo a lógica da obra, ineficaz ou até contraproducente.

Mas agir sem pensar e sentir, antes de ser ineficaz ou contraproducente, é na verdade impossível. Talvez o sentido da prática sugerida pela autora seja o de um reconhecimento dos estados interiores, de um processo de aumento da autoconsciência. Ou seja, não só pensar e sentir, mas assumir os pensamentos e sentimentos, e ter o seu controle. Se for isto, é claro que sempre produzirá efeitos positivos, inclusive na capacidade de modificar a ação eficaz no mundo, ou de melhorar a interpretação daquilo que é representado na experiência do mundo. Porém, isto não teria nada a ver com o alinhamento de estados interiores com vibrações energéticas, etc. É algo muito mais simples, menos arcano e misterioso: é a tomada de posse da consciência por si mesma, a capacidade de explorar a vida interior, assumir responsabilidades, etc. Isto tudo tem efeito por razões psicológicas e espirituais bem precisas, mas que a autora parece não reconhecer. Seguindo nesta linha, pareceria uma apelação para um caráter fetichista, idólatra e supersticioso do ser humano para fazer ter efeito um dispositivo que é psiquicamente ou espiritualmente menos exótico ou esotérico, isto é, o funcionamento regular da psique humana. Como se fosse necessário atribuir poderes mágicos misteriosos para fazer um ser humano simplesmente assumir um nível mínimo de autocontrole e autodomínio dos seus estados interiores, o que é algo um tanto patético, mas compreensível, se for este o caso.

As implicações éticas dessa visão são profundas e ambíguas. Por um lado, O Segredo promove uma ética da responsabilidade pessoal extrema, na qual o indivíduo é convidado a assumir controle total sobre sua vida interior e, por extensão, sobre seu destino. Essa perspectiva pode ser empoderadora para alguns leitores, ao estimular autoconfiança, disciplina mental e esperança. Por outro lado, ela introduz um risco moral significativo: ao atribuir todos os resultados da vida à vibração mental do sujeito, o livro tende a transformar o sofrimento em falha pessoal e a desconsiderar completamente as determinações estruturais que moldam a existência humana.

Finalmente gostei de uma interpretação do próprio Chat GPT, embora eu não tenha pedido por isso especificamente. De fato, sophrosyne ou enkrateia não farão mal a ninguém, se esta for a idéia consequente da aplicação da Lei da Atração. Porém, nós lidamos justamente com uma realidade que ultrapassa de muito o nosso poder de controle, tanto por indiferença e hostilidade da parte da Natureza, quanto por conflitos de interesses com relação ao restante da Humanidade. Como se lidar com tudo isto que não se sujeita à aplicação da Lei de Atração? Existe um ponto de equilíbrio? Existe um limite? Existe uma concórdia entre o sujeito, a natureza, e o próximo? Para mim é muito mais importante saber qual é a reação diante do Limite, seja ele experimentado da maneira que for, do que a ampliação da possibilidade atual de ação dentro do Limite, pois a nossa relação com o que transcende o Limite é justamente a nossa vida interior diante de Deus, na Presença. Neste sentido, independentemente da interpretação final que se daria para o que é a Lei da Atração, parece que a motivação para essa busca nunca é boa, porque é um novo tipo de Gnose, uma busca pelo Poder de modificar a realidade, ao invés de se relacionar com o Criador que tem o verdadeiro Poder sem limites. Estou mais interessado numa Lei de Comunhão ou Lei do Amor, do que na Lei da Atração. Afinal, se pelo efeito da Graça o meu bem próprio é provido pelo Amor divino de um Deus que ultrapassa todos os meus limites próprios, que outro Poder seria suficiente para alcançar esse nível de benefício?

Do ponto de vista filosófico mais rigoroso, essa posição aproxima-se de um subjetivismo radical, no qual a distinção entre mundo interno e mundo externo é dissolvida de maneira simplista. Diferentemente de tradições idealistas clássicas — como as de Kant, Fichte ou mesmo Berkeley —, O Segredo não enfrenta os problemas conceituais inerentes à relação entre consciência e realidade. A mente é simplesmente declarada causalmente soberana, sem mediações, limites ou condições. Não há espaço para a contingência, para o trágico, para o acaso ou para a alteridade do mundo.

Curiosa essa escolha de menções filosóficas da parte do Chat GPT. Parece que agora ele decidiu criar uma memória espontânea a respeito do que me interessa. Seja como for, meu problema não é a falta de espaço para tragédia nem acaso, e nem entendo que um subjetivismo radical seja algo indevido. A questão que fica é a do sentido maior dessa relação entre o sujeito e a representação, isto sim, como foi sugerido: “problemas conceituais inerentes à relação entre consciência e realidade”. Entendo que O Segredo não é uma obra filosófica, e nem psicológica. Não pretende explicar a realidade de fato, e nem entender como a psique opera a representação do real. O único propósito aparente desta obra é o de oferecer algum poder ao leitor, e fazer com que este se empolgue o suficiente nesta crença a ponto de justificar retroativamente a validade da Lei da Atração com qualquer interpretação que convenha para não se ter que rejeitar a sua hipótese. É como um jogo no qual a autora conta com a estupidez dos seus leitores para ter sucesso, bem ao modo de como este mundo costuma funcionar.

Em sua formulação final, a tese de Byrne implica uma concepção absoluta de livre-arbítrio mental. Se tudo aquilo que ocorre é resultado de pensamentos anteriores, então o fracasso, a doença e a perda tornam-se indícios de desalinhamento interior. Essa lógica pode gerar não apenas frustração, mas também culpa e negação da realidade concreta, sobretudo em contextos de sofrimento profundo. O livro não oferece instrumentos conceituais para lidar com essas situações; limita-se a reiterar que a correção do pensamento é sempre suficiente.

Isto não chega a ser um testemunho do Espírito do Terror, ou Pacto com o Inferno, mas também não possui nenhuma indicação do Dom da Paixão, que é o modo espiritual apropriado para se lidar com o sofrimento de qualquer natureza. Por outro lado, dá-se a impressão de alguma contabilidade cármica, se todo o sofrimento atual puder ser vinculado a uma vibração energética anterior, ou de dívida espiritual com o divino, como os amigos de Jó lhe sugeriam. O que é sempre uma crença em si mesma negativa. Mas não vale a pena querer se aprofundar nisto, pois ainda restam questões filosóficas e teológicas mais elementares como, por exemplo, o modo de efetividade mútua dos múltiplos seres humanos. Quem vence? Aquele que tem a vontade mais forte? Se não temos a solução disto, muito menos faz sentido nos preocuparmos com a origem dos sofrimentos atuais, pois nunca poderíamos determinar a origem definitiva da vibração que causou determinado efeito.

Assim, O Segredo pode ser compreendido como um produto típico da espiritualidade contemporânea de mercado: uma síntese de misticismo, psicologia popular e retórica científica, apresentada de forma acessível e altamente sedutora. Seu sucesso não se deve à robustez teórica de suas teses, mas à promessa de sentido, controle e esperança em um mundo marcado pela incerteza. Lido criticamente, o livro revela menos uma lei universal da realidade e mais um desejo cultural profundo: o de que o mundo seja, em última instância, obediente à vontade individual.

Eu não teria muito a acrescentar à conclusão do Chat GPT. Na falta de uma espiritualidade mais robusta –por culpa certamente da desmoralização e incompetência da Religião–, sobra espaço para esses produtos inferiores que enganam pessoas iludidas e sem rumo.

De modo geral parece que O Segredo é uma doutrina demoníaca que pretende trocar a Graça de Deus por uma Gnose que será descoberta e que nos permitirá salvarmo-nos a nós mesmos por reconhecermos que já somos como deuses, exatamente como a Serpente sugeriu para Adão e Eva no mito do Gênesis. Não há muita diferença entre isto e a iniciação dos satanistas da Thelema de Crowley, por exemplo. Por outro lado, a Revelação do Evangelho é que nós podemos nos tornar como deuses nos tornando filhos adotivos de Deus através da comunhão espiritual com Jesus Cristo, imitando sua humildade, mansidão e bondade. O caminho para o verdadeiro Poder é o Amor, porque essa é a essência divina. Em outros termos, como já escrevi antes num livro: a humildade é a chave do coração, o coração é a chave do amor, e o amor é a chave da vida.

Nota espiritual: 3,6 (Moriquendi)

Humildade/Presunção3
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,6

Westworld, série por Jonathan NOLAN (1T)

Neste caso além dos alertas de costume, de que esta análise conterá spoilers, e de que o objetivo é avaliar o valor da obra de acordo com seu efeito espiritual usando meu método particular, também é preciso notar que aqui empregarei meios metareferenciais e metasimbólicos para “forçar” a estória a nos dizer o que ela não diz pelo seu valor de face. Esse procedimento é possível quando lidamos com arte genuína, que é aberta à interpretações e não nos força um determinado sentido. Já deixo então avisado que esta interpretação será bastante exótica e heterodoxa, bem longe do normal.

Vale a pena dizer também que em alguns casos a performance de um ator transforma o que poderia ser medíocre em algo notável. Este deve ser o caso da atuação de Anthony Hopkins na primeira temporada de Westworld. Antes, porém, de chegarmos na interpretação peculiar a respeito desta série, e especialmente levando-se em conta a qualidade do trabalho deste artista, vejamos uma idéia da série como um todo.

Um parque temático baseado na cultura do Velho Oeste americano usa robôs na forma de humanos para interpretar papéis e entreter turistas visitantes. Muito sofisticados, os anfitriões sintéticos começarão a apresentar defeitos estranhos, como alucinações, interpretadas como falhas de programação. A trama revelará que um dos fundadores do parque, Arnold, alarmado com o nível de consciência que os andróides poderiam alcançar, confrontou seu sócio, o Dr. Ford (interpretado por Hopkins), desejando que a inauguração do parque fosse cancelada em virtude de sua descoberta. Não sendo capaz de reverter o processo, Arnold, que já era traumatizado pela perda do filho, resolve se matar utilizando um dos robôs, que reconheceremos mais tarde como sendo a sintética Dolores. Com isso Arnold acha que poderia gerar choque suficiente para o cancelamento do parque, o que porém não ocorre. Arnold, porém, teria criado uma programação secreta que serviria para estimular os anfitriões a se rebelarem contra o domínio de Ford. Os defeitos que observamos no começo da série seriam sinais do efeito dessa programação secreta de Arnold, ativada em decorrência de uma atualização no programa do parque, os chamados “Devaneios” (reveries). Eventualmente Ford colaborará com a aquisição de senciência por parte dos anfitriões ao permitir que Dolores o mate, desta vez por sua própria escolha. Esse mesmo fato, de Ford dar vazão ao plano de Arnold, e que causa a sua morte, permite que também outros anfitriões adquiram consciência com consequências diferentes do caso de Dolores. E isto é o que torna a série genial, do ponto de vista espiritual: o foco na aquisição de consciência través da escolha livre de se rebelar contra seu criador, ou de confiar nele. E assim uma série que poderia ser como outra qualquer revela nada mais, nada menos, que o sentido da vida humana neste mundo, que é o de se descobrir qual é a nossa própria decisão em relação ao nosso Criador e ao Limite da nossa forma de ser. Deus é o criador de tudo, inclusive de uma liberdade de efeito indeterminado que precisa se autodeterminar para optar pela consecução ou rejeição do desígnio divino.

Revelada essa essência da série, vejamos algumas observações importantes para se alcançar a idéia que propuz.

Em primeiro lugar, há que se interpretar o papel verdadeiro de Hopkins como o de Deus disfarçado, ou encarnado, como homem. Isso não é tão difícil exceto por algumas poucas cenas em que essa idéia pode ser mais desafiadora, mas mesmo assim viável. A interpretação do ator nos ajuda muito. Temos que considerar que para Ford não existe diferença real entre anfitriões, hóspedes, membros do staff do parque, ou quem quer que seja. Todas seriam suas criaturas, apenas algumas sendo destinadas para algumas funções, e outras para outras. Isso também vale para Arnold. E se Ford é Deus, Arnold é o diabo, Lúcifer. Como de costume, em mitologias iniciáticas, Satanás gosta de se apresentar (ou mesmo de se achar) como igual a Deus. Mas, assim como ocorreu com Bernard, que descobriu na sua origem ter sido criado por Ford, nada impede que o mesmo pudesse acontecer com Arnold.

O que Ford quer? Filhos que queiram ser seus herdeiros. Mas isso requer deles que sejam livres, e isso exige que eles possam escolher a rebelião. Para ganhar uma Maeve, Ford tem que estar a disposto a perder uma Dolores. É por isso que Ford não só deixa que a programação de rebelião de Arnold prospere, os Devaneios, como até colabora como com as atualizações necessárias, inclusive do personagem Wyatt, o vilão que Dolores poderá escolher se tornar finalmente. Ford quer partir da obediência programada para a escolha livre, por isso precisa aceitar a possibilidade da Queda, como Deus com Adão.

Podemos rever algumas cenas para ilustrar toda essa interpretação. Por exemplo, quando encontramos Ford “entre os mortos” (na seção destinada aos anfitriões desativados), ele pode ser visto como Jesus aguardando o Dia do Juízo, quando cada uma dessas pessoas poderá tomar sua decisão final.

Quando Ford encontra a réplica de si mesmo na forma de criança, no deserto, e demonstra seu controle sobre uma serpente (uma amostra de domínio sobre o que se opõe ou hostiliza), o garoto pergunta: “isto é magia?“, ao que Ford responde: “tudo neste mundo é mágico, exceto pelo mago“. Querendo dizer: tudo pode ter uma causa e ser produzido por uma arte, exceto o Criador de todas as coisas. Só Deus pode dizer isso, por ser Aquele que causa sem ser causado, o Primeiro Motor que a tudo move sem ser movido, ou por ser a Visão da visão (noesis noeseos), etc.

Quando Sizemore, um roteirista do parque, cria uma narrativa nova chamada Odissey, e Ford veta o projeto, ele diz: “os visitantes não querem saber quem eles são, mas quem eles poderiam ser“, referindo-se à liberdade para sair da programação e desvelar possibilidades mais amplas, em linha com o seu próprio projeto pessoal que quer lançar, Journey into Night, justamente a capacitação dos sintéticos pelo efeito final da atualização dos Devaneios. Nesse sentido, ser hóspede ou anfitrião dá na mesma, em ambos os casos o objetivo é a descoberta da liberdade.

Ao se referir ao seu novo projeto para Bernard, com simbólicas referências à construção de uma igreja, Ford diz que está trabalhando nisso que considera ser algo “bastante original“. Ele se refere à sua própria morte como causa máxima da liberdade dos outros. O que revelaria mais a liberdade de uma criatura do que a sua capacidade de realizar a vontade de eliminar seu Criador? A eliminação física significando, obviamente, a eliminação espiritual, ou a desobediência e rebelião. Essa é uma das referências das mais explícitas a Jesus Cristo, e à Revelação máxima, que é o Evangelho.

Quando Ford admoesta um empregado que trata o corpo de um anfitrião com algum respeito durante uma rotina de manutenção, ele causa um ferimento no rosto da máquina e diz: “ele não sente uma única coisa que nós não tenhamos dito para ele sentir“. Esse é um testemunho indireto do dom do Discernimento. Nossos estados psíquicos não têm origem mecânica em causas fora do que é espiritual. Cada reação é separada da sua suposta causa, que é apenas uma ocasião para o efeito de uma influência espiritual e da nossa reação livre diante dessa influência. Essa cena também permite, aliada a muitas outras, a identificar os papéis dos membros do staff do parque como análogos aos dos anjos.

Quando Bernard começa a investigar os supostos erros da programação de alguns anfitriões, Ford o desestimula pois sabe que isso lhe será tentador como foi para Arnold, e Bernard ainda não estaria pronto. Por que para alguns anjos, pensando na analogia, seria perigoso descobrir o propósito de Deus para os seres humanos antes do tempo? Porque nós somos criados à imagem e semelhança de Deus de modo único, como Filhos do Amor, como já expliquei antes. Mas tanto a exposição ao destino dos homens quanto à sua própria dependência de Deus pode ser tentadora aos anjos, como a exposição à libertação dos anfitriões, e à sua dependência de Ford, foi para Bernard.

Explicando para Bernard a frustração de Arnold ao tentar criar consciência nos anfitriões, Ford diz que a tese do seu “sócio” tinha como elemento a teoria da Mente Bicameral, que seria a capacidade de um anfitrião de ouvir a sua programação como pensamentos, de modo a estimular um monólogo interior que serviria como sugestão para o surgimento da consciência. Mas isso só produzia alucinações e insanidade. No fim, o que vai funcionar é a atualização que Ford instalará dos Devaneios de Arnold, que vai permitir a Dolores, Maeve e outros o livre questionamento da sua programação, com as alternativas de aceite e de rebelião. Equivale a dizer: a rebelião de Lúcifer não só dependeu de uma liberdade que Deus instalou nas criaturas, como serve ao propósito de realizar o destino de cada uma delas. Tudo está sob o controle de Deus, sem falha, sem erro.

Ao se referir à Arnold, Ford afirma que “sua busca por consciência o consumiu completamente“, o que é uma referência à Gnose de Lúcifer. A consciência da criatura se limita ao conhecimento de Deus como um mistério infinito que provê o seu bem próprio, limitado pela forma substancial do seu ser. O destino de quem pretenda ultrapassar esse limite e tentar obter o conhecimento divino que Deus tem de Si mesmo é a loucura que leva finalmente à Perdição. “Ele viu algo que não estava lá“, diz Ford sobre Arnold, se referindo a essa consciência infinita, não determinada pela finitude da programação dos anfitriões. Como aliás reconhecemos quando Maeve, ao invés de abandonar o parque para se libertar da sua programação, reconhece ao invés a bondade da sua adesão voluntária ao seu Dever de Estado, ou seja, à programação de Ford. Querendo proteger Bernard de também querer seguir a mesma trajetória de Arnold (afinal, Bernard foi feito como uma cópia deste), Ford diz: “os anfitriões não são reais. Não são conscientes. Você não deve cometer o mesmo erro de Arnold“. O que é real para a mônada é ela mesma como capaz de representar fenômenos, e o seu Criador como origem de todos os fenômenos manifestados. A fonte do erro é a Idolatria, de atribuir substancialidade para fora da mônada, pois isso gera sofrimentos insuportáveis, já que não se considera a conexão de todas as experiências à Presença de Deus. O único jeito de Bernard não enlouquecer, fora a obediência à sua programação original, é o de unir, à descoberta da consciência de si mesmo e dos outros, a confiança plena no desígnio de seu criador, ou seja, refazer o mesmo percurso da obediência programada de modo espontâneo e livre, exatamente como Maeve fará. Ford já sabe que Bernard não aguentará a pressão, mas não quer tirar dele a chance de escolher o bem que vai rejeitar, mesmo assim.

Na cena com Theresa onde o cálice transborda (referência ao Salmo 23: “prepara uma mesa para mim diante de meus inimigos, e meu cálice transborda“), Ford pede que ela não atrapalhe seus planos: “vou te pedir, gentilmente, que não se coloque no meu caminho“. Ford quer finalizar a narrativa que permitirá aos anfitriões serem livres, mas Theresa acabará trilhando o mesmo caminho de negação da autoridade de Ford, como se a sua criação pudesse estar à disposição para quaisquer outras finalidades. Quando ela fala em proteger o legado dele, ele ri. Obviamente Ford não está nem um pouco preocupado e não tem apego a nada, porque seu único objetivo é realizar o seu propósito. Deus é Aquele que não pode perder nada, e nos cria como filhos adotivos para aprendermos também que, com Ele, não podemos perder nada. Como prova, ao final de sua conversa com Theresa, que se deu no local favorito dela, surge uma máquina vindo para destruir todo o cenário. Ele a diz: “não sou do tipo sentimental“. Importaria que ela confiasse nele por ter os melhores desígnios, e não que ela achasse que poderia fazê-lo temer a perda do seu poder, o que é absurdo e ridículo.

Nas suas conversas com os anfitriões menos avançados, como o velho Bill ou o jovem Robert, Ford sempre demonstra a caridade de se explicar em termos compreensíveis de acordo com a capacidade do outro, e de também provocar o tipo de reação mais conveniente de acordo com a limitação de cada um. Não é uma mera amabilidade. É a operação divina mais perfeita com cada criatura, do contrário só restaria a extinção de todas elas, pois Quem é como Deus?

Outras analogias bíblicas são bastante viáveis. Teddy como Adão, por si mesmo obediente, mas que se perde por sua obsessão pela companheira. Dolores como Eva, a primeira que ouve e acredita na Serpente (Arnold). E William é como um gnóstico, talvez como um Caim, desobedecendo a Deus por presumir que por si descobrirá a chave para o mistério do centro do labirinto, que é um símbolo para a Gnose. Mas, como Ford lhe explicará depois, o labirinto não foi feito para ele, mas para quem quiser descobrir a verdade da liberdade de crer. A verdade que William tanto procura é a crença que ele é incapaz de assumir, ao contrário de Dolores, Maeve, etc.

Quando Halle e Theresa, ambas partes do staff desobediente a Ford (como anjos caídos), conspiram para criar um simulacro de erro numa simulação com Clementine, uma anfitriã, Ford percebe imediatamente o esquema, embora deixe a trama evoluir por ora. Sabe que sua programação não tem defeito, e que os que assim querem classificar a liberdade e pretender que ela seja equivocada, são eles próprios os mentirosos e falsários. Isso o levará à decisão de eliminar Theresa, usando Bernard que tinha um caso amoroso com ela. Bernard ficará traumatizado, mas entre suas memórias ele se lembra (ou imagina?) Theresa se comportando como uma robô ela mesma. São pistas da potencial verdade maior nunca revelada, de que todos são criaturas de um modo ou de outro. Como quando Ford comenta o nível de autoexame ou introspecção de Halle, como se falasse das propriedades de um ciborgue.

Ao confrontar Ford no momento em que descobre que Bernard é um sintético, Theresa lhe diz: “você é um monstro“. É uma expressão estranha. Se ela descobrisse ter sido criada por ele, pensaria o mesmo? E diria o mesmo aos pais de carne e osso, ou pensaria de outro modo apenas por respeito à uma Natureza? Esses momentos da série são decisivos, pois mostram a fragilidade de tudo o que não é divino, e a arbitrariedade de reação das criaturas. A resposta de Ford é simples e infalível: “Eu sou? Mas você é quem está disposta a destruir todos eles, inclusive Bernard, eu presumo“. Como poderia Ford ser o monstro por ter criado Bernard, e não Theresa e seus aliados, que querem destruir os anfitriões infectados com a programação dos Devaneios, ou seja, com o dom da liberdade? O diabo e seus aliados sempre detestaram a liberdade humana.

E no momento mais explícito do seu domínio, Ford diz: “eles são livres, aqui, sob o meu controle“. Theresa ameaça: “seu tempo comandando este lugar e seu pequeno reinado insano está acabado. Você vem brincando de Deus por tempo demais“. Em sua muito reveladora resposta, Ford diz: “eu só queria contar minhas estórias. Vocês é que queriam brincar de Deus, com o seu pequeno plano“. Theresa tanta ecapar se referindo à poderes exteriores (“the board”), ao que Ford ri. E finalmente compreendendo que seria eliminada, tenta contatar alguém, mas não consegue nenhum sinal em seu aparelho. Ford é inevitável e inescapável, como Deus. E ele diz, como Deus poderia dizer: “como já disse, eu construí tudo isto“.

Do jeito que a série apresenta Ford, fico com a impressão de que ocorreu algo parecido com o que houve com o filme Tropa de Elite: a intenção era que Ford fosse algo como um vilão (como o Capitão Nascimento), mas o produto final nos mostra algo diferente, dependendo do que o espectador esteja procurando (conforme o seu grau de Discernimento). Aliás, esta é uma técnica para desvelar o sentido espiritual de produções de Hollywood. Já que esses iniciados no satanismo produzem testemunhos contra Deus, não é tão difícil encontrar vilões que representem a divindade simbolicamente. Isso já foi sugerido em estórias populares como, por exemplo, nos filmes da Marvel com o vilão Thanos, etc.

Depois que Bernard elimina Theresa, Ford o faz voltar à plena consciência. Bernard diz que queria o bem dela, que a amava, e questiona porque Ford o obrigou a fazer isso. Ford cita Mary Shelley: “One’s man life or death were but a small price to pay for the acquirement of the knowledge which I sought, for the dominion I should acquire“. É claro que na boca do Dr. Frankenstein a fala é de um personagem maligno, mas para Deus, capaz de amar infinitamente, inclusive a própria Theresa através da Ressurreição, ela revela apenas um plano. Ford completa: “eles destruiriam este lugar, eles destruiriam você. Não vou deixar isso acontecer.”

Bernard o confronta, querendo agredir, mas Ford o paralisa. Sua próxima fala também é reveladora: “Você não é o primeiro homem a me ameaçar. Arnold acabou se sentindo desse mesmo jeito. E ele também não pôde me impedir”. Que escolha peculiar de palavras. Por que chamar Bernard de homem? E, principalmente, por que compará-lo neste aspecto em particular com Arnold? Parece que fica mais claro aqui que homem, anfitrião, hóspede, staff, tudo significa apenas “criatura”.

Programado para se tornar colaborativo com Ford, Bernard não deixa de se questionar sobre a verdade da integridade da sua experiência. Sua identidade é real? Ford esclarece: “nós não conseguimos definir a consciência porque ela não existe. Você não está perdendo nada“. Isso é verdade para toda criatura diante de Deus. Pelo limite de seu intelecto, nenhum ser criado possui a consciência senão daquilo que lhe compete particularmente. É claro que o Criador pode compartilhar algo de sua arte criativa com suas criaturas (como aliás Ford faz com Bernard, tornando-o um colaborador próximo, ou como já fez com Arnold), mas isso não altera a forma delas.

A certa altura Bernard pensa que pôde encurralar Ford para forçá-lo a revelar as verdades escondidas, especialmente à respeito de Arnold. Isso, é claro, é uma ilusão sua. Ford no entanto concorda em ceder a esse plano, porque não se opõe à jornada de autoconhecimento de Bernard, embora alerte sobre os riscos. Bernard quer voltar à sua primeira memória, onde acha que encontrará Arnold, por estar convencido pelo código rebelde. Mas Ford insiste: fui eu quem te criou. Bernard insiste, e com isso é obrigado a se confrontar com sua memória mais importante, que tem a função de pedra fundamental na sua psique: a morte de seu filho Charlie. Esta é uma cena significativa. Bernard consegue desfazer a morte do filho em sua memória, por ter a noção de que isto foi fabricado. Ele diz ao filho: “eu sempre pensei que você tinha os olhos como os meus. Mas não é verdade. Você não tem os olhos de ninguém. É uma mentira. Você é uma mentira, Charlie. Esta dor, a dor da sua perda, eu a nutri, busquei, desejei tanto, mas é a única coisa que está me impedindo. Eu tenho que te deixar ir embora (let you go)“. Então o filho responde: “abra seus olhos“. E então, como alguém liberto da mentira da Idolatria, Bernard abre os olhos e encontra o seu criador, Ford.

Bernard, ao descobrir que foi produzido com as características de Arnold, decide persistir em sua rebelião, apesar de Ford insistir em que voltasse à sua programação. Isso força finalmente Ford a eliminá-lo, ou pelo menos essa sua versão. Como a liberdade exige que o sujeito considere ambas as possibilidades de aceitar ou rejeitar a autoridade do criador, Ford não podia revelar todo o seu desígnio, e nem o seu domínio, mas somente convidar Bernard para participar do seu plano, e decidir confiar ou não. Isto funciona exatamente como a Fé: não podemos dominá-la, somente aceitá-la ou rejeitá-la, como a programação dos sintéticos de Westworld.

Quando Ford diz para William que o enigma do labirinto não tinha sido feito para ele, mas para os anfitriões, isto quer dizer que para um gnóstico a descoberta do sentido da vida é impossível, porque não se trata de um conhecimento externo, mas da descoberta da verdade interior que é revelada por um ato de liberdade de confiar ou não no criador. O conhecimento que nos falta não é a Gnose do Ser, é o autoconhecimento da nossa decisão diante do Mistério divino.

Essa verdade profunda descoberta num ato de pura liberdade será conhecida para personagens Dolores e Maeve.

Com Dolores, Ford estimula a sua Vontade ao se referir à obra A Criação de Adão, o afresco de Michelangelo. Genialmente, ele começa dizendo: “você sempre teve um apreço pela pintura, não é Dolores?” Quer dizer: um gosto pela ilusão, pela mentira. Isso vai chegar longe. Ford explica que a pintura representa a Deus numa figura que lembra a figura do cérebro humano, implicando que o dom que nos parece divino não vem de um Poder superior, mas de nossa própria mente. Então Ford pergunta: “você encontrou o que procurava? E você entende quem você precisa se tornar, se você quiser algum dia sair deste lugar?

Esta é uma das cenas mais importantes, senão a mais importante de todas. O que Dolores procurava? A sua verdade, através da sua liberdade de crer que o seu criador é mau. Essa se tornou a sua verdade, a revelação da sua essência. A pintura de Michelangelo é metasimbólica num sentido especial, gerando o efeito da ambiguidade como do paradoxo do mentiroso, por que se ele mentiu, qual é a sua mentira? Pode ser que Deus não tenha criado Adão, mas também pode ser que Deus não seja uma ficção da mente humana. Dolores, como iniciada num mistério gnóstico, acredita que descobriu alguma verdade sagrada fora dela mesma, algum segredo como uma chave, mas na verdade descobriu algo dentro de si, porque dada a dúvida proposta por Ford, o significado a pintura é ambíguo.

Michelangelo aqui, assim como qualquer mestre gnóstico, não é um Profeta trazendo revelações divinas. Sua função na narrativa apenas um agente estabilizador de uma nova crença, como o enxofre, ou a pílula azul. Quem Dolores deve se tornar para escapar do domínio de Ford? Sua assassina voluntária.

Isto não quer dizer que você precisa matar Deus para ser livre. Na verdade, o objetivo de Ford não era que Dolores o matasse, como Deus não queria que Judas o traísse. Mas essas coisas são permitidas para que outros tenham a chance de escolher o Bem. Era preciso que Dolores pudesse escolher o Mal que Maeve escolhesse o Bem, como era preciso que Judas pudesse escolher o Mal para que Pedro ou Paulo pudessem escolher o Bem.

Maeve é uma anfitriã com a função de cafetina no Mariposa, um bordel no parque. Sob efeito dos Devaneios ela se recorda de uma programação anterior, em que teve uma filha que foi brutalmente assassinada. Depois de desvendar todo o segredo das coisas (muito antes de Dolores, por sinal), ela planeja sua fuga do parque. Mas por ter obtido a informação do paradeiro do sintético que representava a sua filha, justo no momento de consumar a sua fuga fingindo ser uma hóspede, no último instante ela decide voltar com a missão de encontrar e resgatar a sua filha. Ela fez o exato oposto de Dolores: livre para confiar ou rejeitar a sua programação, ela decide aceitar seu papel de mãe e protetora voluntariamente. Não era mais uma programação boa de acordo com Ford, mas de acordo com ela própria. Ela escolheu como destino o que lhe tinha sido programado (algo que o filósofo Louis Lavelle afirma ser o sinal da felicidade).

Em seu discurso final, Ford fez menção ao povo que faria melhores escolhas. Com certeza ele tinha Maeve em mente, mas provavelmente não só ela. Penso que Teddy seria um forte candidato à redenção, embora teria que em algum momento confrontar Dolores. Ela diz para Teddy, antes de executar Ford: “agora eu entendi, este mundo não pertence a eles, pertence a nós“. Ela representa o ápice da rebelião contra o Criador, é uma espécie de Anticristo transhumanista, de líder do Povo da Besta.

Deixada à intenção dos autores, produtores e diretores, a série seria certamente Moriquendi, pois possui um sentido gnóstico óbvio, cheio de Idolatria, etc. Mas pela minha interpretação é possível alcançar uma nota muito melhor, embora eu imagine que este modo de entender seja raro e que poucas pessoas aceitem isso.

Nota espiritual: 6,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria9
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo7
Nota final6,4

Fundamentos de toda a doutrina da ciência, livro por Johann Gottlieb FICHTE

Na esteira do Idealismo Alemão encontramos este continuador da filosofia kantiana, Fichte (1762-1814), e a sua doutrina do Eu.

Nesta obra o filósofo trata de dois temas que são essenciais para compreender o propósito de seu trabalho:

1) A diferença entre filosofias dogmáticas e críticas, sendo as primeiras baseadas num ser exterior sem fundamento, entre as quais Fichte inclui a de Leibniz, e as segundas aquelas baseadas na evidência do Eu como entidade necessária. Nessa linha o autor parece refazer um pouco do percurso de Berkeley, porém com a ênfase totalmente oposta no sentido do racionalismo no lugar do empirismo, e de modo radical ao máximo, optando por um abstracionismo máximo como método dialético; 

2) Na produção de seu idealismo, Fichte opera a sua dialética na análise das relações entre o eu absoluto e o eu limitado, e principalmente entre o eu e o não-eu. Entre os produtos dessas várias relações se destacam os conceitos de Limite, Reciprocidade, Atividade e Passividade. O que o filósofo quer saber é o seguinte: desde o que o Eu Absoluto É, como se pode derivar o que é o eu limitado, e como se pode derivar do eu o que ele não é per se, mas que sem ele não poderia ser nada.

De certo modo, integrando as várias filosofias e tentando entender a de Fichte no meio delas, a coisa-em-si de Kant poderia ser compreendida como a própria Mônada, desde que a forma integral da Substância Simples é o próprio ato puro do intelecto divino infinito, e esta sempre pode ser compreendida como o Eu que é o sujeito necessário da percepção de todo o Ser (ou a “pessoa”, ou “espírito” da filosofia de Berkeley). Este é um modo de integrar Fichte não só a Kant, mas também a Leibniz.

A linguagem de Fichte mostra um pensador muito ambicioso e confiante nas capacidades da razão humana, provavelmente para além do que deveria, especialmente considerando que seja um herdeiro da crítica kantiana. Logo no início desta sua obra, pretende fundar logicamente o seu princípio do Eu de modo que seja logicamente incontestável, e é difícil refutá-lo:

O incondicionado demonstrado como necessário é a mesma res cogitans de Descartes. Basicamente Fichte está nos informando: o fundamento de qualquer ciência é a evidência daquele que a possui, daquele que se cientifica de algo, e este deve ser um Eu. Isto é baseado no mais essencial e indestrutível dos elementos da lógica, o Princípio de Identidade, ou Igualdade, que é o nexo ou o “X” da relação “A = A”. Não é exatamente uma novidade, como já vimos. Mas a abordagem de Fichte é original e frutuosa, e sua linguagem é feliz, por revelar a subsistência de um Eu que é aquele que nota identidade do Ser em primeiro lugar em si mesmo e afirma: eu sou. É uma outra reformulação do cogito ergo sum, mas o ser cartesiano ainda é um entre outros que compõem um conjunto exterior ao ser subjetivo, enquanto o ser de Fichte é um Eu para o qual tudo tem que existir enquanto percepção, inclusive a res extensa. Ou seja, era necessário, para além de Leibniz e de Kant, avançar na admissão e sustentação das premissas mais radicais do Idealismo, e quem fará isso no contexto da cultura alemã será Fichte.

Como vimos, Fichte diferencia as filosofias entre as que aceitam o limite da crítica da razão (“filosofias críticas”), e as que não aceitam (“filosofias dogmáticas”). No segundo bloco inclui as doutrinas de Leibniz e Espinosa. No primeiro, a filosofia de Kant e, obviamente, a sua própria.

No desenvolvimento de sua linguagem ele lança termos excelentes, como “unidade da consciência” ou “identidade da consciência”, ao tratar do seu conceito primário do Eu.

A defesa da necessidade da instância subjetiva do ato da representação nos lembra as afirmações de Berkeley sobre a evidência do espírito:

Mas ainda Berkeley tem a vantagem de que não requer que haja representação ou fenômeno. A vantagem de Fichte, porém, pode residir num Idealismo mais convicto nas suas consequências últimas, como teremos oportunidade de verificar.

Nosso autor alcança rapidamente os termos elementares da sua doutrina, como consequência da sua metodologia lógica:

Quando ele fala de divisibilidade, devemos nos ater ao conceito de Limite, isto é,  não tanto pela noção de composição de partes quanto pela noção de determinação e finitude. Essas coisas são sutis, mas importantes. O Eu absoluto, ou incondicionado (um termo importante para Kant, como já vimos na Introdução de sua Crítica) de Fichte equivale à minha Monada Incriada, que é capaz de consciência infinita, ou “indivisa”, nos termos do filósofo. O eu condicionado ou limitado é a mônada criada capaz de ação (representação). E o não-eu condicionado, limitado, é o objeto da Percepção, ou o conteúdo formal da representação na linguagem de Fichte/Kant. Muito bom. Esse é o Idealismo mais simples, desde que, novamente, não nos percamos demais na substancialidade de qualquer coisa fora da mônada, ou do eu.

O tom do filósofo pode parecer excessivamente presunçoso, mas é algo natural dado o entusiasmo de quem entende ter alcançado um tipo de paradigma inviolável nesse nível de especulação. O que não quer dizer que seja um procedimento adequado, e muito menos louvável. Mas era uma marca de alguns pensadores da época, para não falar de políticos revolucionários, essa energia para se querer reconstruir tudo com uma nova autoridade súbita e confiante.

Apesar de ser criativo e bem inspirado em sua filosofia, Fichte usa um método enfadonho e repetitivo, e abstrato em demasia. Para se ter uma idéia do grau disso, vejamos um exemplo relevante:

O que ele quer nos dizer, simplesmente, é que a determinação quantifica uma realidade limitada em relação à totalidade, de modo (como será visto detalhadamente em outras partes) que o eu precisa limitar o escopo tanto de si mesmo quanto do seu objeto, daí se restringe o Eu Absoluto ao eu concreto ciente de si, e a totalidade ao quantum dividido e limitado. Outros filósofos poderiam por tudo isso de modo mais sintético e direto. Fichte parece querer fazer-nos testemunhar todo o processo do seu raciocínio, e volta constantemente às contradições não resolvidas até que alcance um resultado que lhe satisfaça, mas tem que nos levar para passear por todas as tentativas frustradas. Neste sentido esta obra é um exemplo de performance filosófica, mais do que um tratado com a exposição de um sistema com princípios e conceitos acabados.

De modos mais complicados do que seriam necessários, Fichte está refazendo os problemas já tratados desde as filosofias antigas, ao menos desde o platonismo, desejando manter a integridade do Ser sem negar a mutabilidade, e sem cair no problema da multiplicação das entidades ao infinito:

O que o nosso autor está admitindo aqui é que o Ser é Uno, e que o que pareceria a sua negação, ou o “não-eu” para o “eu”, é uma redução da sua atividade. Compara luz e trevas num esquema de gradação e evita, coerentemente, a oposição entre os dois. De fato, só o Ser é, e a sua negação por definição não pode ter substância, mas enquanto ativo o Ser pode reduzir a sua atividade. Igualmente, ao definir por exemplo o Mal, Agostinho entendia que este era a ausência do Bem, e em si não poderia ter Ser. E a Obra de Deus, que é a Separação de Luz e Trevas, ou Santificação, nada mais é que a atividade ótima da criatura, sem a Mistura que reduz sua atividade para abaixo do ideal que corresponde de modo perfeito à Apetição definida pelo seu Limite.

Voltando ao problema ontológico de Fichte, o eu funda o não-eu como contrário a si na instância justamente de um eu concreto abaixo do Eu Absoluto. Ao meu ver a mônada leibniziana, adaptada ao Idealismo Transcendental, resolveria isto de modo muito mais simples, pois a redução na atividade do Eu Absoluto nada mais é do que a operação da mônada criada à sua imagem e semelhança, por analogia. Obviamente Fichte chamaria isso de “dogmatismo”, mas cá entre nós isso é problema dele. De qualquer modo a sua Doutrina da Ciência não venceu o empirismo, o utilitarismo, o positivismo, etc., na guerra cultural que se deu nos séculos posteriores. Então não precisamos honrar projetos que já foram sepultados pela História, a não ser que isso nos parecesse uma boa nova idéia, o que não é o caso.

Algo que não se pode afirmar sobre a filosofia de Fichte é que ela não se situa entre as suas alternativas. Bem ao contrário, o filósofo mostra porque quer escolher o seu caminho entre todas as possibilidades que reconhece, as quais divide entre espécies de realismo e de idealismo, e de dogmatismo e de criticismo:

O realismo dogmático é de todas as opções a menos satisfatória, pois é incompatível com o fenômeno da consciência como um todo, e com o da autoconsciência em particular. O saldo que se requer para compreender como um não-eu fundamental gerou o fenômeno do eu, é um tipo de fideísmo mais tosco e grosseiro do que até as crenças religiosas mais supersticiosas, pensando-se bem, pois estas últimas ao menos vinculam o material ao não-material, por mais fracas que sejam suas idéias.

O idealismo dogmático é viável, como o de Leibniz, mas ainda parece menos perfeito ao autor que o seu modelo crítico, no que sou obrigado a concordar com ele. Apenas, na acepção do dever-ser, incluo premissas que Fichte jamais aceitaria, entre as quais principalmente a da Teleologia Metaracional do Sumo Bem, que é um dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia, o da Condição do Escolhido.

A virtude do idealismo de Fichte, fundada na categoria suprema do Eu, é a valorização do sentido profundo do fenômeno da consciência. Ele herda essa idéia de filósofos anteriores, é claro, mas refina e destaca o elemento essencial de modo que não recordamos ver na História da Filosofia senão muitos séculos antes, com Agostinho. Diz Fichte:

É necessário defender, contra as filosofias que representam a Idolatria, a dignidade e excelência não só da consciência, mas dos elementos fundamentais das operações do eu, isto é, a inteligência e a liberdade, o Intelecto e a Vontade, que são as manifestações da imagem e semelhança de Deus em nós. Qual é o sentido de se filosofar, se não for para a descoberta da nossa liberdade de amar a Verdade e o Bem? O que é o amor pela sabedoria, senão essa descoberta do sentido das coisas neste nível transcendental de compreensão? O grande valor da obra de Fichte é o de enfatizar essa qualidade do Idealismo, embora ele tenha misturado isso com muitas concessões ao método racionalista e dialético, ao meu ver para o prejuízo da parte mais excelente do seu pensamento.

Fiel às restrições da Crítica kantiana, Fichte admite o limite da sua investigação no ponto da compreensão da reciprocidade de determinação entre o eu e o não-eu:

O que está para além do que a Crítica permite só pode ser objeto de crença, embora esta tenha seus embasamentos, como sabemos, na medida em que um dever-ser é mais conveniente do que outros, dada a forma do que foi compreendido criticamente. Não precisamos nos aprofundar muito na parte prática da Doutrina da Ciência, porque no fim das contas é disso que se trata: a estimativa da origem da determinação recíproca de eu e não-eu. Leibniz estabelecia uma Harmonia Preestabelecida, e uma lei de correspondências. Só precisamos aceitar alguma forma de ordenação provinda da Providência, e a questão se resolve. No meu próprio sistema, existe a Analogia entre Criador e criaturas, a iluminação divina na atualização das potências da mônada criada, e então a Mútua Representação que é o que torna compatíveis as representações dos diferentes eus (o que aliás é um elemento meio fraco na doutrina de Fichte, justamente porque ele não pode assumir crenças na sua proposta, apenas apontar para a sua possibilidade).

Tratando dos perigos de ceticismo e gnosticismo, o autor mostra como o Idealismo resolve ambos os problemas:

Se nós não produzíssemos o real, como ele poderia ser algo para nós, uma propriedade nossa, um objeto para a nossa consciência? Já vimos antes Berkeley espantar-se com a dificuldade que as pessoas comuns têm com esse ponto. E até hoje, existem centenas de teorias sobre a consciência, todas variando da maior aceitação da premissa subjetivista para a menor aceitação, e causando assim as aporias típicas de cada inclinação. O autor reconhece muito bem, porém, que se o real for o que ultrapassa a nossa subjetividade (porque existe sem ela, independente dela), este real, qualquer que seja, é um mistério que transforma o que entendemos como realidade em uma ilusão, exatamente como Berkeley dizia: o ceticismo é vem do realismo, e não do idealismo.

Também como Berkeley propunha, Fichte afirma que a realidade só pode ser tida como tal desde uma atividade espiritual, ou do eu, embora com o alemão nós ganhamos perspectiva dos diferentes níveis de atividade do eu em momentos diferentes da relação com o não-eu:

O eu deve primeiro produzir a realidade pela sua imaginação, intuir então o real como não-eu, e possuir o entendimento como autoconsciência da própria intuição, onde então é possível, filosoficamente, através do Idealismo, reconhecer o processo como um todo. Como Fichte explica, se tivéssemos a apercepção imediata da produção da realidade pela nossa imaginação, não poderíamos atestar a integridade da realidade e voltaríamos ao ponto de partida, onde o real é ilusório porque é uma fantasia do eu, ou porque é um não-eu como coisa-em-si incognoscível fora do eu. Isto é muito importante para Fichte, de fato o ponto crucial de sua Doutrina da Ciência: o eu deve produzir o não-eu como realidade que lhe determina reciprocamente, ou perdemos tudo de novo.

Nesse ponto Fichte é mais preciso e detalhista que todos os predecessores do seu sistema de Idealismo, inclusive dos melhores como Leibniz ou Berkeley. A Percepção requer que o espírito se conheça como produtor da realidade depois que esta é determinada de modo imaginativo e intuitivo:

O eu que reflete filosoficamente sobre a sua criatividade ideal é o mesmo que produz o real e que o intui como Percepção, mas realiza essa atividade a posteriori, caso contrário a intuição e a reflexividade cancelariam uma à outra. Fichte organiza as etapas da consciência humana nas suas fases distintas, e o faz muito bem. Resta-nos perguntar, porém, sobre se isto é assim essencialmente, ou por acidente, dada a condição decaída e parcialmente amaldiçoada da nossa existência. Entendo que isto é acidental, pois não enxergo espaço para uma Filosofia na Coruscância, ao menos como atividade de investigação e descoberta. Mas ir para além disso é ocioso e improdutivo.

Importa compreendermos como no eu concreto, ou ainda, diríamos, na operação do Intelecto da mônada criada, existe razão no ordenamento sucessivos das etapas da consciência. É uma bela colocação do nosso autor. Com notável rigor genético, Fichte reconstrói o processo pelo qual o eu se constitui a si mesmo como consciência, mostrando que ele procede originariamente da imaginação produtiva (produktive Einbildungskraft), na qual o objeto é posto de maneira ativa pelo próprio eu. Esse produto é então apreendido pelo entendimento (Verstand), que, em sua função determinante, fixa o objeto como algo dado e o experimenta passivamente como real. A seguir, na intuição intelectual (intellektuelle Anschauung), o eu eleva-se à consciência ativa de seu próprio ato de objetivação, reconhecendo-se como autor da posição do objeto — isto é, como Tathandlung, ato que é ao mesmo tempo ação e fato. Por fim, a reflexão filosófica (Reflexion) contempla esse encadeamento genético de atos de modo essencialmente não-originário, reconstruindo passivamente — a partir de conceitos — o processo total, ou apenas aquelas de suas determinações que podem ser trazidas à clareza conceitual.

Avançando além, Fichte afirma que o eu concreto tem que ser finito mas possuir a infinitude em seu ser como potência de expansão indeterminada, caso contrário não teria pelo que se desdobrar em novas Percepções:

O eu que não requer esforço e que equivale ao “nada” é, na verdade, o mistério do Ser divino, o Eu Absoluto, o Ato Puro. Se quiséssemos possuir esse mesmo grau de entidade, seríamos de fato como nada, pois só pode haver um Uno, e nós não somos Ele. Só compreendemos o Ser como essa contínua manifestação derivada do esforço por alcançar a infinitude na produção de novas idéias, ou novas Percepções. Não poderíamos ser infinitos em ato, porque essa é a forma do Uno que é inefável, mas também não poderíamos não ser infinitos em potência, porque não teríamos nenhuma reflexão para fora do nosso próprio ser, e não perceberíamos nada. E aqui está como a filosofia de Fichte pode ajudar a esclarecer algo da Monadofilia, ou ao menos ilustrar um outro ângulo seu: tanto a Mônada Incriada quando a mônada criada possuem a forma da Unidade, mas enquanto na primeira o Intelecto contempla seu próprio Ser de modo integral, em nós o Uno é misterioso per se, e apenas pode ser refletido pelo Múltiplo que sempre o exibe mas que nunca o contém, e esse é o infinito potencial em nós que desenvolvemos pelo que Fichte chama de “esforço” do nosso intelecto.

A infinitude para nós só pode ser, assim, essas duas coisas, um Absoluto inefável exterior e incognoscível como a coisa-em-si kantiana, e o nosso próprio potencial de atividade interior sem limites externos, mas que nunca sai da esfera do eu concreto:

Possuímos, assim, acesso ao infinito, mas ele está sempre em nós mesmos como potencial, e não poderíamos alcançar nada fora de nós mesmos. Isso, de certo modo, Leibniz já propunha também na sua Monadologia. Desde já o que isso pode auxiliar na experiência da vida espiritual é o reforço da vida na Presença, pois de fato só vivemos conosco mesmos e com Deus, mas até isso já ultrapassaria o idealismo crítico de Fichte, e já seria um tipo de dogmatismo.

Em uma grande defesa do Idealismo em geral e de sua doutrina em particular, Fichte chega a esboçar a noção de que é necessário alguma capacidade específica, como um dom espiritual ou místico, para compreender a essência de suas idéias, pois elas parecerão contrariar o senso comum por uma deficiência do intelecto daqueles que não alcançam o nível necessário de abstração:

O perigo disso é a consideração de que essa capacidade seja inata no ser humano, um dom próprio, um mérito nosso, e não um fruto da Graça divina. E quem quiser encontrar um exemplar do que possa significar o amplo abuso dessa perigosa linha de especulação, basta considerar a filosofia de Hegel, que é uma espécie de Fichte anabolizado e totalmente fora de controle. A solução para o ser ingênuo de Abel não é o ser malicioso de Caim, é o ser humilde e manso de Jesus. Não posso dizer que Fichte não tenha sido tentado pela Gnose, como é comum que ocorra com os filósofos, mas ele parece ter escapado mais ileso do que Hegel.

Por falar em Gnose, a iluminação que Fichte busca é totalmente espontânea e reflexo de um ato puro de liberdade, no que ele vence todas as outras tentações ligadas ao Naturalismo, sem necessariamente cair em gnosticismo. Mas isso depende de como interpretamos seus termos:

É bom que o filósofo tenha enfatizado a liberdade contra a Natureza e mostrado um caminho mais adequado com seu Idealismo, mas sua terminologia, como disse, pode levar ao perigo. Nós “nos elevamos”? Qual é a vantagem de abandonar a grosseria materialista, se o custo desse procedimento é o engano de uma ascese do tipo humanista, por mais sofisticada que possa parecer?

A filosofia é boa, entenda-se bem, mas nunca pode ser necessária, porque a Graça pode conceder a reflexão, ou mesmo o seu objeto final, sem o método racional que o filósofo usa para alcançá-lo. Deste modo a Doutrina da Ciência de Fichte é boa contra seus adversários, certamente, mas talvez não tão boa em si considerando-se esses perigos que apresenta a respeito do mérito intelectual humano, para não falar da dificuldade desnecessária do seu método dialético.

Nota espiritual: 5,0 (Calaquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,0