SINOPSE: A catedral do mar acompanha a trajetória de Arnau Estanyol desde a infância, marcada pela fuga da servidão feudal ao lado de seu pai Bernat, que o conduz a Barcelona após a morte da mãe durante abusos impostos pelo senhor feudal, até sua ascensão social na cidade, onde Arnau sobrevive como trabalhador braçal, torna-se bastaixo envolvido na construção da igreja de Santa Maria del Mar e constrói uma reputação baseada em lealdade, trabalho e justiça. Arnau enriquece progressivamente por meio do comércio marítimo, assume cargos de prestígio e se casa com Aledis, união frustrada por traições e anulação, seguida por um novo casamento com Elionor, imposto por conveniência política e marcado por hostilidade e conspiração. Paralelamente, Joan, amigo de infância de Arnau, ingressa no clero e ascende na hierarquia eclesiástica, enquanto inimigos do passado reaparecem e antigos ressentimentos se transformam em acusações formais. O conflito central da narrativa se estabelece quando Arnau é denunciado à Inquisição sob acusações de heresia associadas à proteção de judeus perseguidos, o que leva à prisão, confisco de bens e julgamento público. Durante o processo inquisitorial, testemunhos falsos e vinganças pessoais são usados contra ele, enquanto Elionor colabora ativamente para sua condenação. A solução apresentada pela obra ocorre quando novas provas e confissões revelam a falsidade das acusações, levando à absolvição de Arnau, à punição dos conspiradores e à restauração de sua honra, com a conclusão da catedral de Santa Maria del Mar servindo como marco final dos acontecimentos narrativos.
Parece que o problema de Arnau foi querer se casar, não foi? Talvez seja o caso, mas a sinopse do Chat GPT não nos permite afirmar isso. Aliás, qual é a época dos fatos? Sabemos que estamos em Barcelona, mas quando? Fui atrás… por volta de 1320. A vida era difícil, e continuou difícil por muito tempo. Essas grandes obras que a Igreja fazia serviam de pano de fundo para as estórias particulares de várias gerações de pessoas. Me lembra Os pilares da terra, de Ken Follett. Por enquanto não há muito o que se dizer. Exceto o óbvio, que as razões religiosas para se fazer as coisas eram desculpas para a prática humana mais antiga, que é a concentração e o uso de poder contra o seu semelhante. É o caso da exploração dos servos feudais, uma ordem social baseada na legitimação do Pecado Original (afinal, Deus é quem manda gerar novos servos), bem como da organização econômica em torno de uma grande obra como a construção de uma Catedral, ou então as razões nominais para se justificar uma perseguição política, como parece que foi o caso. Não assisti a série. Só vi o trailer. O que me pareceu é que basicamente o tal Arnau acaba se convencendo de que carregar pedras para a Igreja é algo sagrado, o que representa bem o triunfo da manipulação religiosa. Vejamos a análise.
ANÁLISE: A catedral do mar constrói uma totalidade narrativa fechada fundada na equivalência rigorosa entre obra material e ordem moral. A série organiza sua inteligibilidade a partir da edificação da igreja de Santa Maria del Mar. O edifício funciona como eixo ontológico. Tudo o que ocorre adquire peso pelo vínculo com essa construção. A pedra erguida carrega sentido. O esforço coletivo fixa uma medida de justiça imanente ao mundo representado. A cidade de Barcelona surge como campo histórico determinado pela lei, pelo trabalho, pela fé e pela violência legítima.
Esse primeiro parágrafo da análise é bem ruim, mas talvez seja apenas um reflexo do vazio da obra em si. Não sei dizer por enquanto. Mas parece que já se confirma que o projeto da construção é o que dá “sentido” à vida da população da cidade de Barcelona à essa época. Isto porque o dinheiro e o poder da Igreja determinaram que fosse assim, mais ou menos como os Estados modernos fazem hoje com suas obras e projetos. Isso vem desde o Faraó, ou mesmo desde a Torre de Babel. Não há nada de novo sob o sol, exceto que desta vez se usa em vão o nome de Jesus Cristo para fazer essas coisas, o que se pensarmos bem é um agravante, porque os faraós ou Nimrod eram pagãos, mas os espanhóis desta época deveriam ser cristãos.
A narrativa assume forma de provação contínua. A vida de Arnau Estanyol se apresenta como trajetória submetida a forças superiores. A servidão inicial define a condição humana como sujeição. A fuga do pai rompe o vínculo jurídico com o senhor feudal. O gesto funda uma culpa objetiva. A culpa não se dissolve. Ela se transforma em destino jurídico. A série insiste na permanência da lei. Nenhum ato desaparece. Tudo retorna sob forma institucional.
Agora a trama fica um pouco mais clara. A fuga de Arnau com o pai foi um ato ilegal. Qual é a base desse fato? Por que isso aconteceu? Lembremos do inesquecível, daquele motor ancestral que movimenta esse moedor de almas que é o mundo desde a Queda: o Pecado Original. Arnau pode pensar que seus pais são os heróis, ou no mínimo as vítimas da estória, mas nós temos que saber melhor que isso. A realidade da servidão no feudo, ou sob as leis da Igreja, etc., tudo isso é derivado do mesmo ato inaugural da desobediência contra Deus que encarnou Arnau neste mundo. Olhar somente para fora, ou para frente, é o que animais, ou escravos em condição análoga à animalidade, fazem. A vida espiritual na presença de Deus começa quando contamos a verdade, quando olhamos para dentro e para trás, e entendemos de onde viemos e porque realmente estamos aqui. Caso contrário, os conflitos e as aporias que buscam vilões exteriores apenas reforçarão a dialética, por exemplo, do servo contra o senhor, ou do herege contra o religioso, etc., e toda essa disputa já está nas mãos de Satanás, que foi quem instituiu esse Sistema da Besta fazendo pactos com os ancestrais de Arnau. Se a estória de A catedral do mar não nos contar nada disso, não nos surpreende, porque tal como donos de animais ou de escravos, os produtores e diretores só querem que olhemos para fora e para frente.
A construção da catedral introduz o tema do sacrifício voluntário. Os bastaixos carregam pedras como oferenda. O trabalho não é apenas econômico. Ele assume valor espiritual explícito. O esforço físico equivale a oração. A série apresenta essa equivalência sem metáfora externa. O gesto corporal substitui o rito formal. A fé se manifesta no corpo. A comunidade se organiza em torno desse ato. A catedral nasce da soma de renúncias.
Eles tinham alternativa? Como que um ato pode ser apresentado como voluntário, se outra opção é inviável? Por exemplo, quem se opusesse a participar nesse empreendimento não seria excluído automaticamente da participação na sociedade, para não falar da possibilidade de sofrer um processo por acusação de heresia ou impiedade? Se esta série ficar por isso mesmo, é um grande testemunho da Legitimação da Mistura. A obra que fazemos para Deus é INTERIOR. Meu Deus do Céu! Essas catedrais todas vão ser destruídas pela própria mão de Deus. Será que Jesus não foi claro o suficiente? Que adianta carregar pedras para Deus? Que necessidade o Altíssimo tem dessas coisas? É o ser humano que precisa se sentir digno sem que o seja, e que precisa comprar de algum modo o favor divino, como se o Amor de Deus estivesse à venda. A construção que Deus quer é interior. As pedras que devemos carregar são as do perdão, da misericórdia, da caridade, principalmente a renúncia ao poder e às tentações da vida mundana. Mas se as grandes culpas derivadas da perpetuação do Pacto Ouroboros não se convertem em arrependimento e mudança de conduta naquilo que interessa, que é a renúncia ao Pecado Original, o povo continua refém dos espíritos infernais, e a Igreja capitaliza essa culpa na forma de autoridade e poder para usar esses infelizes escravos do pecado para lhe servir. É um esquema perverso que o diabo instalou no mundo junto com seus sócios humanos, e a maioria dos nossos semelhantes até prefere isso do que se libertar, o que é sempre a coisa mais nojenta. Como Deus disse: “Coisa horrível e abominável aconteceu nesta terra: os profetas profetizam mentiras, e os sacerdotes procuram proveitos. E meu povo gosta disto!”
A figura de Deus aparece de modo constante. Ela surge como instância última de justiça. Os personagens invocam Deus diante da injustiça humana. Arnau afirma em momento decisivo que “Deus vê tudo”. A frase não consola. Ela pesa. Ela introduz a certeza do juízo. O Deus da série não suspende a ordem histórica. Ele a atravessa. O sagrado não interrompe o mundo. Ele o confirma.
Espera um pouco aí, Deus não confirma nada além da liberdade que deu ao homem. Deus permite as coisas porque na sua Providência o cálculo da economia espiritual já considerou que de todas as possibilidades antevistas pela análise combinatória, e de todas esta é a melhor série possível (o Princípio da Razão Suficiente de Leibniz). E isso tudo é muito antigo, por estar na base do sentido da realidade da experiência humana neste mundo. Se Deus quisesse que o homem lhe fosse sempre obediente, não teria lhe dado a liberdade para escolher o bem. Então, se não quisermos anular o fato inquestionável da liberdade humana, nem tirá-lo da equação, nós precisamos romper com as aporias da Teodiceia e alcançar algo melhor. Esse melhor, na minha filosofia, é o que chamo de Eleuteriodiceia, que é a justificativa da liberdade humana pela razão da causa final por trás dessa experiência passageira. Como por misericórdia a Providência divina já abreviou essa nossa vidinha, na maior parte dos casos, a algo como sete ou oito décadas, não fica tão difícil entender as razões de Deus tendo em vista o chamado para a vida eterna.
A Igreja institucional surge em duplicidade. Há a Igreja da catedral. Há a Igreja do tribunal. A primeira aparece ligada à comunidade. A segunda se associa ao poder. A Inquisição encarna o juízo terreno que se arroga absoluto. O inquisidor invoca Deus para legitimar a violência. A série registra essa invocação de modo literal. “Agimos em nome de Deus”. A frase estrutura o conflito central. O nome divino se torna instrumento jurídico. O sagrado se converte em técnica.
Não vejo duplicidade nenhuma, só vejo manifestações diversas do mesmo tipo de poder básico, do homem sobre o homem. E não seria difícil verificar isso. De novo, quais são os incentivos concretos para a participação na construção da Catedral? Não é a de participação numa comunidade fora da qual não há vida possível? O que a Inquisição faz é apenas algo menos aceitável para um segmento da população, mas a fonte de poder é a mesma. Se ficarmos nessa dialética de “igreja do povo” e “igreja do poder” vamos legitimar uma das duas porcarias, é claro. A Igreja de Jesus Cristo é espiritual, é o seu corpo místico, é a aliança voluntária daqueles que amam a vontade do Criador e que imitam o Filho de Deus. Não tem nada a ver com instituições, nem para a construção de templos, e nem para processos judiciais, porque, novamente, tudo isso é apenas a manifestação da vontade de poder do homem sobre o homem. Não tem nada a ver com a liberdade e amor ao próximo do Evangelho.
O juízo aparece como tema recorrente. O julgamento público substitui a justiça interior. A confissão forçada ocupa lugar central. A verdade deixa de ser moral. Ela se torna procedimental. O tribunal exige palavras. O silêncio equivale à culpa. A consciência individual perde valor. A lei escrita assume primazia total. A série descreve esse mecanismo com precisão narrativa. Não há comentário externo. O sofrimento resulta da aplicação correta da norma.
Ok, e isso é uma maldade que a Inquisição inventou? Parece que não. Para começar, ao que me consta o Tribunal da Santa Inquisição trabalhava para criar processos onde a turba violenta e supersticiosa queria praticar vinganças com as próprias mãos. Então o cara era malvisto pela vizinha fofoqueira, essa contava para todo mundo que o cara era um herege, pronto vão querer acabar com a raça dele. Isso porque esses miseráveis são escravos do demônio, então um quer sempre se sentir melhor que o outro, ter alguma vantagem no meio dessa calamidade humana. Daí essas coisas aconteciam, e era uma zona. A Igreja instituía um processo para verificar alegações, dar chance de defesa ao acusado, etc. Claro que a própria instituição seria muito usada para justamente legitimar as perseguições pessoais ou políticas. Isso nos surpreende? É mais do mesmo, o ser humano sendo ser humano. O que quero dizer é que isso tudo deriva do Pecado Original que é perpetuado pelo povo que se torna escravo das consequências da sua ação. Então a Inquisição, ou mesmo a Igreja Católica como um todo, é uma coisa que sai do povo, da sua verdadeira crença que é a Religião de Adão, a Tradição Primordial, o Pacto Ouroboros. Essa é a causa fundamental das injustiças e dos sofrimentos. E é claro que se anunciamos a liberdade do Evangelho e da imitação de Cristo contra esse mal ancestral, nós é que nos tornamos imediatamente os hereges.
O destino se manifesta como encadeamento necessário. A ascensão de Arnau decorre de ações concretas. O favor recebido exige retribuição. A dívida moral se acumula. A riqueza não dissolve a origem servil. A memória social persiste. O passado retorna sob forma de acusação. A série estabelece uma ontologia da memória. Nada se apaga. Tudo se inscreve.
Agora o Chat GPT deu para ser lacônico. Parece que o sistema costuma exagerar tudo o que pedimos. Lá vou eu ajustar o prompt novamente. Voltando à série, como não foi detalhado o que subsidia essa interpretação, presumimos que Arnau volta e meia tem que se ver com ajustes de contas passadas, talvez desde a época da fuga com seu pai. Isso só prova que não se trata de um mundo cristão, porque não existe perdão em parte alguma. Pelos frutos conhecereis a árvore.
O pecado aparece como categoria objetiva. Ele não depende de intenção psicológica. A acusação de heresia dirigida a Mar ocorre por necessidade institucional. A série explicita o mecanismo. A Inquisição precisa de culpados. A culpa se fabrica a partir de ritos desviantes. O judaísmo oculto se torna signo de ameaça. Deus surge como nome usado para eliminar a diferença. A violência se reveste de sacralidade.
Quem é Mar? Quanta incompetência. Tive que ir atrás… Mar é uma filha adotiva de Arnau. E depois eles se apaixonam… não seria conveniente o Chat GPT me contar essas coisas? Fica difícil trabalhar assim, talvez eu tenha que incluir uma pesquisa profunda no prompt, vamos ver. Uma hora eles vão me cobrar algum dinheiro, esse é o objetivo deles, eu já sei. Mas não dá para ficar nessa linguagem esotérica. Simplesmente não consigo entender do que o Chat GPT está falando.
A misericórdia aparece como exceção rara. Ela surge apenas em momentos limítrofes. Arnau afirma diante da injustiça que “só Deus pode julgar”. A frase delimita uma fronteira. O humano não possui acesso ao juízo último. A série reconhece essa distância. Ela não a resolve. O mundo permanece submetido à lei imperfeita.
E por que será, hein? Não tem nada a ver com algo que o ser humano faz e que produz a perpetuidade dessa lei imperfeita? Não adianta nada dizer para um juiz humano que ele não tem legitimidade, por mais que isso seja verdade, porque o que basta para que os seres humanos nos aborreçam é que tenham o poder para fazer isso. A questão da autoridade ou legitimidade é uma discussão meio fantasiosa, porque se não existisse diferenças concretas de poder entre as pessoas, tudo isso se revelaria tolice. Não digo que não haja autoridade moral em algumas condições, mas elas são limitadas, e na melhor das hipóteses sinalizam a obediência de alguém à Deus sob certas condições. Isso nunca se converte em legitimação indiscriminada do poder humano.
A catedral concluída não encerra o conflito. O edifício permanece. Os homens passam. A pedra testemunha. O sagrado se fixa no espaço. A história continua marcada pela injustiça. A obra termina sem redenção plena. O juízo final não ocorre no tempo narrativo. Ele permanece prometido. A série sustenta essa suspensão como estrutura última. O sentido não se fecha pela felicidade. Ele se fecha pela permanência da ordem.
Uma conclusão bem fraca. E está errado. O edifício é mais passageiro que os homens, se acertarmos o ponto de vista que é o da alma que vive para sempre diante de Deus. Esse modo de mostrar as coisas dá um testemunho do espírito de Idolatria, como se existisse um mundo fora de nós, onde construímos templos, pontes e viadutos, e daí morremos e essas coisas ficam. Esse mundo não existe, é uma ficção. Jamais alguém viu um mundo cheio de coisas que não fosse visto por alguém que o vê desse jeito. Como Berkeley explicou muito bem, entre outros. Então é claro que não tem felicidade nessa estória. Seria estranho se tivesse alguma.
Fiquei tão decepcionado, e já estou tão cansado de ficar emendando prompts, que resolvei experimentar outra IA, Claude. Usei o mesmo prompt. Vejamos o resultado:
A série catalã concebida por Jordi Frades ergue-se como construção narrativa alicerçada na dialética entre servidão e dignidade. A ação transcorre na Barcelona do século XIV. O protagonista Arnau Estanyol nasce filho de um servo fugitivo. A fuga do pai Bernat representa ruptura com a ordem feudal estabelecida. A liberdade surge como condição ontológica conquistada mediante transgressão. O gesto fundador da narrativa é movimento de subtração ao domínio senhorial. A obra institui desde o início uma metafísica da emancipação. A liberdade não se herda. A liberdade se arranca.
Já melhorou algo, no mínimo por situar os eventos no Século XIV, coisa que o Chat GPT nem se dignou a fazer. Sobre essa questão de se precisar praticar uma transgressão para obter a liberdade, que não se herda mas “se arranca”, isso aí não quer dizer nada. Que transgressão é essa? Se é de uma lei injusta, ou de uma prática injusta de interpretação de uma lei boa, não é transgressão, embora possa ter essa aparência diante dos homens. Concordo que a liberdade não é quase nunca herdada, porque se nossos pais fossem livres seria impossível nós nascermos, mas eles poderiam se tornar livres depois do nosso nascimento, o que tornaria possível a herança de uma consciência aprimorada. Mas não seria uma liberdade material contra senhores feudais, é claro. Aliás, com liberdade espiritual, em uma geração se destrói o poder do sistema de servidão sobre todas as gerações poupadas de nascer sob essa condição. Isso serve para se ter uma idéia do que é o poder da vida espiritual e da renúncia ao mal. O perdão costuma ser a nossa libertação da necessidade de perpetuar o mal que nos fizeram. Há algo que se enquadra mais nisso do que o Pecado Original?
A construção da catedral de Santa Maria del Mar funciona como eixo simbólico e material da trama. Arnau integra-se à confraria dos bastaixos. Esses homens transportam pedras do porto até o canteiro da igreja. O trabalho é oferecido como devoção. A pedra carregada nos ombros configura sacrifício voluntário. A catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso. A narrativa estabelece equivalência entre labor físico e ascese espiritual. A dor do esforço purifica. A obra coletiva transcende a individualidade. Arnau declara repetidamente sua devoção à Virgem de Santa Maria. A relação com o sagrado não se medeia por hierarquias eclesiásticas. A fé se manifesta na entrega corporal à edificação. A pedra que sobe é prece materializada.
Gostei mais dessa formulação simbólica do que daquela do Chat GPT. Principalmente dessas expressões: “a catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso”, e “a pedra que sobe é prece materializada”. Muito bem. E o que é isso? É o esquema dos construtores de civilizações, os Filhos de Adão que desejam consumar a obra de seus pais no seu projeto de ereção de um monumento à traição da Queda, que será o futuro Terceiro Templo de Jerusalém. O que a Catedral de Santa Maria del Mar teria a ver com isso? É um modelo de ação humana voltada para o projeto de um falso Reino de Deus na Terra. Aquele templo em Barcelona é como uma filial que antecipa a construção da última matriz em Jerusalém. Novamente, Deus não quer que pedras sejam erguidas, amontoadas, talhadas, etc. Ele quer perdão, justiça, misericórdia, caridade, etc. E mesmo a construção de escolas e hospitais não resolveria (embora talvez pudesse ser algo melhor que a de templos) tanto quanto a construção de um testemunho da liberdade do Evangelho de Jesus Cristo contra o Pecado Original, pois onde não se gera ignorantes e doentes, não é necessário erguer escolas e hospitais, etc.
A estrutura social retratada repousa sobre antagonismos irredutíveis. A nobreza detém privilégios derivados do nascimento. O clero acumula poder temporal e espiritual. Os mercadores ascendem mediante acumulação. Os servos permanecem presos à terra. Os cidadãos livres de Barcelona habitam espaço intermediário. A obra explora com rigor as contradições internas dessa ordem. A liberdade jurídica dos citadinos não elimina a sujeição econômica. A mobilidade social permanece exceção violenta. Arnau atravessa estratos mediante acaso e virtude. A trajetória individual desmente a rigidez estamental sem negar sua violência estrutural.
A violência estrutural que costuma manter os servos presos à terra é originada de onde? De um total acaso? Posso parecer repetitivo, mas essa é a nossa sina enquanto caminharmos por este lugar. A servidão é gerada por uma ação humana, e uma ação humana é sempre livre e imputável, simples assim. Ah, mas e os filhos dos nobres e dos mercadores, e os membros do clero, porque a vida deles é mais fácil? Porque Deus assim o determinou por razões que não nos dizem respeito, e essa vantagem diante do Paraíso pensando bem não vale muita coisa. Se ainda assim se insistir muito no problema da desigualdade, há que se considerar três coisas: 1) tudo isso é mantido pela prática do Pecado Original, de modo que quem não gera filhos não gera a experiência da desigualdade; 2) se algumas almas podem sofrer menos do que outras debaixo da Providência divina, como poderíamos afirmar que este ou aquele caso requerem uma intervenção de nossa parte, senão já nos colocando no lugar de Deus, ou mesmo desconfiando completamente do seu governo?; 3) finalmente, mesmo nos casos de grande e óbvia injustiça na produção da desigualdade, a penalidade do malvado é a sua própria maldade, a sua vida apartada da Presença de Deus, de modo que quem vive em estado provisoriamente pior, materialmente falando, mas espiritualmente conciliado com o Criador, vive mil vezes melhor que uma criatura perdida que acha que está ganhando alguma coisa. Até Sócrates sabia disso, que é muito melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma, porque a maldade está no coração de quem é injusto, não no da vítima. Quem não quiser entender essas razões provavelmente não está querendo entender nada.
O casamento de Arnau com Elionor constitui nó dramático central. A união se realiza por interesse da nobreza decadente. Elionor pertence a família arruinada que aspira recuperar posição. Arnau acumula riqueza como cambista. O matrimônio converte-se em campo de humilhação recíproca. Elionor não consuma a união. A recusa do corpo expressa desprezo de classe. Arnau permanece fiel ao voto sacramental. A impossibilidade do amor conjuga-se com impossibilidade do desejo. O sacramento cristão revela-se armadilha quando desprovido de consentimento interior. A obra expõe a violência inscrita nas instituições que deveriam consagrar a liberdade afetiva.
O sacramento revela-se armadilha, ponto final. O consentimento interior que valida uma relação entre dois seres humanos é o da amizade, pois somos todos irmãos uns dos outros debaixo de Deus. O resto é resto. Temos uma idéia meio romântica, meio besta mesmo, de que um casamento por “amor” é superior ao por interesse, como teria sido o problema de Arnau com Elionor. Mas eu pergunto, esse amor ama o quê? O amor ao próximo é a amizade e a fraternidade. Que outro amor existe? O que se chama de amor matrimonial é geralmente um sentimento de conveniência que atende a interesses mútuos, que geralmente tem a ver com a vontade de poder sobre bens da vida como dinheiro, estabilidade, poder, influência, prazer, sonhos afetivos, etc. O contrato que costuma sair desse acordo serve para restringir a liberdade do outro. Amar o próximo é incompatível com a idéia de lhe restringir a liberdade, porque o próximo é um outro eu cujo destino é o usufruto pleno de sua liberdade na experiência do Ser divino. É claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O interesse espiritual legítimo que pode existir numa relação matrimonial é a da imposição de um limite sobre o desejo sexual, como sugerido pelo Apóstolo Paulo, mas isto é como achar bom amputar uma perna para que uma doença não tome o corpo inteiro: não seria melhor não ter a doença em primeiro lugar? A castidade é uma virtude milhões de vezes superior à tal “vocação matrimonial”. Ainda penso que o Apóstolo foi caridoso como Moisés na época da instituição da carta de divórcio. Não faz sentido recomendar que se aceite um limitador do pecado no lugar da virtude verdadeira.
A Inquisição surge como instância de terror absoluto. Elionor denuncia Arnau por heresia. A acusação é vingança pela humilhação matrimonial. O processo inquisitorial submete Arnau à tortura. A cena do potro apresenta a dor extrema. O corpo se fragmenta sob pressão dos instrumentos. A confissão extraída pela violência carece de valor epistêmico. A verdade torna-se função da resistência física. A obra demonstra que o tribunal eclesiástico opera mediante aniquilação da vontade. A pergunta sobre a fé converte-se em pergunta sobre os limites do corpo. Arnau confessa crimes que não cometeu. A palavra arrancada pela tortura é palavra morta.
Claro, uma confissão obtida sob tortura é inválida. Foi o problema do filme Silence de Scorcese, por exemplo, a respeito da tortura dos kirishitan no Japão. Esse tipo de coisa faz parte o mesmo teatro que a instituição religiosa pratica quando, por exemplo, reconhece a bênção divina sobre o matrimônio, como acabamos de observar no tópico anterior. O que temos que fazer é fugir da armadilha dialética. Não endossar a Religião por causa da Fé verdadeira, e nem jogar fora o Evangelho junto com a Religião.
Mar representa princípio de alteridade radical. Filha adotiva de Arnau. Criança resgatada da miséria. A relação entre Arnau e Mar estrutura-se inicialmente como paternidade eletiva. O crescimento de Mar transfigura o afeto. Arnau experimenta atração que não pode nomear. A narrativa explora com precisão o conflito entre dever moral e inclinação. Arnau reconhece o desejo como transgressão interna. A proibição não provém da lei externa. A proibição habita a consciência. Mar é prometida em casamento a jovem nobre. A separação forçada reproduz a lógica de propriedade que governa as alianças. O amor entre Arnau e Mar permanece interdito por categorias que a narrativa não valida mas registra como efetivas.
Parece que o Claude também tem seus limites. Este texto está ficando ruim aos poucos, como aconteceu com o Chat GPT. De qualquer modo, a relação de Arnau com Mar só é problemática sob o efeito do espírito da Sedução, ou Pacto com a Morte. Sob o nihil obstat do Espírito Santo, na Eternidade Mar pertence a Arnau de forma plena tanto quanto hoje ela já pertence a ele pela sua Apetição. A solução é o Louvor. Se Arnau não acessa essa promessa divina, e está no mínimo na condição precária de Dante com sua Beatriz, ou pior ainda. Se a série não revela, não é possível afirmar nada. De qualquer modo, nenhum amor verdadeiro pode ser “interdito”. Só existe a espera, como de uma Noiva pelas núpcias. A Noiva feliz sabe se alegrar porque confia no Noivo e em suas promessas.
Joan Estanyol encarna trajetória inversa à do irmão Arnau. Joan ingressa na ordem dominicana. Torna-se inquisidor. A ascensão eclesiástica afasta-o da origem humilde. Joan desenvolve fanatismo teológico. A pureza doutrinal substitui a compaixão. A cena em que Joan interroga Arnau configura paroxismo da alienação. O irmão tortura o irmão em nome de Deus. A instituição religiosa perverte o vínculo de sangue. Joan experimenta prazer sádico disfarçado de zelo apostólico. A narrativa expõe a cumplicidade entre ortodoxia e crueldade. A fé verdadeira pertence aos simples. A teologia armada serve ao poder.
Eu nem sabia que Arnau tinha um irmão! Amigos, se as coisas continuarem assim não se preocupem com a IA. Até um estagiário meio burrinho faria melhor. Primeiro, a instituição não perverte o vínculo de sangue porque este já era de algum modo pervertido, por ter origem na Queda. Deus não disputa lugar com as coisas do homem, e o Sagrado e o Amor lhe pertencem exclusivamente. Em segundo lugar, se Joan quisesse ser perverso ele poderia fazer isso em qualquer condição, independente da Religião. Como a época era de grande concentração de poder na Igreja, foi ali que o vilão encontrou instrumentos para realizar suas vontades, mas isso muda conforme a época e o lugar. O problema da ortodoxia religiosa não é de crueldade neste sentido, mas de perversão do testemunho da Revelação a respeito de Deus. Uma tortura é sempre um crime condenável, mas é uma coisa meio isolada. O falso testemunho da Palavra é uma conspiração gigantesca e milenar. O que acabou com o poder da Igreja medieval? Não foi a mera consequência dos crimes da Inquisição. Foi a tradução da Bíblia e a denúncia da manipulação da Igreja de Roma. Não vamos coar o mosquito e engolir o camelo. Vamos priorizar o que mais importa.
A peste negra atravessa a narrativa como catástrofe objetiva. A morte invade Barcelona. Os corpos apodrecem nas ruas. A ordem social se dissolve temporariamente. Arnau permanece na cidade. Cuida dos doentes. Transporta cadáveres. A caridade se exerce sem expectativa de retorno. A obra apresenta a peste como revelação da contingência humana. A morte súbita dissolve hierarquias. O nobre apodrece tão depressa quanto o mendigo. Arnau enfrenta a doença sem amuletos teológicos. A coragem deriva da aceitação da finitude. A solidariedade emerge precisamente quando Deus parece ausente.
De novo, que opção as pessoas têm? O desespero não é exatamente muito produtivo. E a ajuda mútua é tão proveitosa numa situação dessa quanto na escolha de se viver na cidade e não no meio do mato. O ser humano é adaptável e flexível. Sobre o fato brutal da morte, isso de fato pode ajudar as pessoas a se instalarem na realidade, mas nada disso é garantido. A dificuldade pode “gamificar” a vida. É espantoso como nós nos dispomos a ignorar o sentido das coisas quando somos instalados na condição de ganhar ou perder. Crises tendem a ativar esse tipo de mecanismo psíquico.
A figura da Virgem Maria percorre a série como presença tutelar. Arnau dirige-se à imagem inúmeras vezes. As preces não pedem milagres espetaculares. Arnau pede força para suportar. A Virgem não intervém causalmente nos acontecimentos. A devoção produz efeito subjetivo. A fé sustenta a resistência. A cena diante da imagem antes da tortura é decisiva. Arnau pede perdão pelos pecados que não cometeu. Reconhece a própria fragilidade. Entrega-se à vontade divina sem compreendê-la. A relação com o sagrado prescinde de mediação intelectual. A fé é confiança anterior ao entendimento.
Isso não está tão ruim. Pedir perdão pelos pecados que não cometeu já não faz muito sentido. O que existe é o pedido pelo perdão das chamadas “faltas escondidas”, ou seja, pelos pecados que nós mesmos ignoramos. Sobre a questão da devoção à Virgem, não vou esmiuçar a questão porque não vejo grandes vantagens. Tem gente que faz confusão? Tem. A Igreja Católica estimula esse tipo de bagunça e se aproveita da ignorância das pessoas? Sim. Mas deixe estar, que Deus sabe melhor o que vai no coração de cada um. Eu só tomaria cuidado com a prática disfarçada de necromancia, por óbvio. Jesus Cristo em pessoa se colocou como o nosso mediador entre a Terra e o Céu. Quem é como ele? Maria? Não… e o pior de tudo é que a grande qualidade que Maria tem de fato, que foi a sua renúncia ao Pecado Original, isso não é valorizado o quanto se deveria sobre a tal da “vocação matrimonial”. A Religião é um problema.
O julgamento final de Arnau convoca a cidade inteira. O povo de Barcelona comparece à praça. A sentença é esperada como espetáculo. A acusação formal enumera heresias inventadas. Arnau permanece em silêncio. A defesa provém de testemunhos inesperados. Os bastaixos relatam a devoção demonstrada. Os pobres testemunham a generosidade. A verdade factual confronta a verdade processual. O inquisidor-geral hesita. A pressão popular força a absolvição. A cena dramatiza conflito entre justiça institucional e justiça comunitária. A salvação de Arnau não provém da ortodoxia. A salvação provém da memória dos gestos.
Para começar, essa é uma “salvação”, entre aspas. Arnau sobreviveu num dia para morrer no outro, como todos nós fazemos. Em segundo lugar, o que funcionou foi uma concessão do poder religioso em face de uma inconveniência política. Em suma, não foi exatamente o triunfo da Justiça, mas uma disputa de poder político, entre a força popular e a força eclesiástica. Foi por esse tipo de concessão que a Igreja Católica se manteve por tanto tempo no domínio do poder político do continente europeu. Reconhecemos, por exemplo, uma manobra de acomodação no advento do carisma Franciscano, entre outros casos. Um poder que saiba ser rígido ou maleável conforme a condição tende a resistir mais à passagem do tempo. Mas é claro que a condição número um da sobrevivência de todas as religiões cristãs é a parasitagem do tesouro do Evangelho.
Mar casa-se com homem que não ama. A noite de núpcias revela-se estupro institucionalizado. O marido exerce direito conjugal mediante violência. A obra não atenua a brutalidade. A cena é filmada sem eufemismos. O sacramento torna-se cobertura legal do crime. Mar enviúva prematuramente. A liberdade reconquistada chega tarde. O corpo guarda memória da violação. A narrativa recusa redenção fácil do trauma. A violência inscrita nas instituições matrimoniais não se repara mediante arrependimento individual.
Gostei da idéia de que o “sacramento torna-se cobertura legal do crime”, mas eu corrigiria para “revela-se”, pois sempre foi isso. E o crime não é de um esposo contra o outro, mas de ambos contra Deus, na imitação daquele primeiro casal mitológico de traidores, Adão e Eva. Hoje em dia, sob a cultura “Red Pill”, os homens e as mulheres vivem em pé de guerra sobre quem tem direito ao quê. Ainda pensam no problema sob a ótica do Poder. Se mudarem isso para a ótica do Amor, da amizade e da fraternidade, tudo se resolve num instante. Mas vão saber onde enfiar seus desejos sexuais? Esse problema precisa ser resolvido. A pílula que cura a doença da escravidão ao sexo não é vermelha, nem azul, nem branca, nem preta, é uma coisa chamada liberdade: a de se abster, ou a de usufruir sem medos e traumas, o que é para poucos, cá entre nós, no meio dessa raça de fodidos, para usar um trocadilho apropriado. É mais fácil viver uma petrificação numa continência fria e cruel, como uma Igreja de Éfeso, ou uma libertinagem hipócrita como uma Igreja de Laodicéia, do que a liberdade, porque esta não é uma regra de vida, mas é o próprio viver cada momento com Discernimento, consciência e responsabilidade. Coisas que o ser humano geralmente detesta. O desgraçado prefere ser enfiado numa camisa-de-força do que ser maduro e responder por seus atos. Ou então receber uma bênção religiosa para fazer como o cara fez com a coitada da Mar na série.
A reconciliação final entre Arnau e Mar ocorre diante da catedral concluída. A construção que consumiu décadas está terminada. As pedras carregadas por Arnau compõem a estrutura visível. A igreja ergue-se como testemunho do sacrifício coletivo. Arnau e Mar reconhecem o amor impossível durante anos. A união se consuma fora do tempo narrativo principal. A obra sugere que certas formas de amor requerem destruição prévia das estruturas que as impedem. A catedral simboliza a possibilidade de beleza emergir do sofrimento histórico. A pedra inerte adquire significado através das mãos que a elevaram.
Fico feliz pelo casal, já que essa questão parece ter se resolvido no tempo da estória, mas temo pelo que isso significará, ou seja, o que significa para eles ser um casal de fato. Sobre certas formas de amor requererem a destruição de estruturas prévias, é a verdade em todos os casos, pois a consumação plena do Amor não pertence a este mundo, nunca pertenceu. Assim, o caso de Arnau e Mar pode ser exemplar, mas não sei dizer. Já a idéia de que a beleza emerge do sofrimento, é um tremendo testemunho de Legitimação da Mistura. Porca miséria, o ser humano não consegue só confiar em Deus, tem que fazer bagunça mesmo. Uma pedra inerte, por sua vez, pode ter significado mesmo que permaneça assim para sempre, bastando que alguém a reconheça na consistência do seu ser. Esse relato sobre a série dá uma impressão de poder taumatúrgico, telúrico, do ser humano sobre uma realidade material morta. É uma forma de fetichismo e de Idolatria. Tudo já teve sempre o seu sentido máximo no Logos divino. Não se pode criar sentido ou valor, só descobrir o que sempre foi verdade na Eternidade de Deus.
A dimensão religiosa da série não se reduz a ornamento temático. A fé constitui categoria ontológica operante. Arnau vive num universo onde Deus existe objetivamente. A providência não é hipótese consoladora. A providência é estrutura da realidade. As referências ao juízo divino não expressam medo supersticioso. O juízo é horizonte inevitável da ação moral. Quando Arnau perdoa os inimigos, o perdão deriva de imperativo espiritual. A misericórdia imita a misericórdia divina. A obra não ironiza essa convicção. A fé de Arnau é apresentada como racionalidade alternativa à racionalidade do cálculo.
Finalmente, parece que encontramos algo impecável, um testemunho espiritual de valor genuíno independente da Religião. Providência, Juízo Final, Misericórdia, são categorias verdadeiras da crença cristã. Se Arnau se liga a isto, já é uma conquista e um testemunho valoroso no meio do resto da bagunça. Mas nunca saberei ao certo o quanto o Chat GPT ou o Claude interferiram na interpretação da estória da série enquanto não a assistir eu mesmo.
A oposição entre igreja-instituição e igreja-povo atravessa toda a narrativa. Os prelados acumulam riquezas. Os monges inquisidores torturam. Os padres vendem absolvições. A corrupção eclesiástica é retratada sem ambiguidade. A fé verdadeira habita fora das hierarquias. Os bastaixos praticam cristianismo sem teologia. A caridade prescinde de doutrina. A obra estabelece distinção rigorosa entre cristianismo vivido e cristianismo administrado. A catedral do mar pertence ao povo que a construiu. A propriedade espiritual não coincide com propriedade jurídica.
É o caldo da futura Reforma Protestante. Mas vamos nos lembrar que os latinos não conseguiram se libertar das garras do poder eclesiástico por si jamais. A guerra contra a mentira e a tirania veio do Norte: de alemães e anglo-saxões, os mesmos que desafiaram e eventualmente venceram o antigo Império Romano. O problema é que a liberdade dos reformistas logo abriu chamado a novas formas de institucionalização do Poder religioso. Isso é inevitável. Só se possui testemunho espiritual sem corrupção onde não há estrutura institucional que concentre poder. Ou seja, a verdadeira Igreja é feita de ações e de testemunhos, não de ritos, calendários, festas, etc., tudo isso que já sabemos que Deus detesta. O que é bom é a própria bondade: o perdão, a misericórdia, a caridade, a justiça, etc. Essa é a verdadeira “Religião”.
A questão da liberdade retorna constantemente sob formas diferentes. Bernat foge da servidão e morre livre. Arnau nasce cidadão mas conhece a prisão inquisitorial. Mar é vendida em casamento e depois viúva. Joan escolhe o convento e torna-se escravo da ortodoxia. A liberdade não é estado permanente. A liberdade é conquista reiterada contra forças que a negam. A narrativa recusa determinismo histórico. As estruturas oprimem mas não anulam completamente a agência. A resistência individual possui eficácia limitada mas real. A liberdade é simultaneamente dom e tarefa.
A Liberdade é um dom divino inalienável. O problema é que o seu objeto verdadeiro é interior. Por isso o Claude está com essa dificuldade de verificar a vitória do homem contra as formas de repressão, porque parece que nunca cessa o efeito de alguma espécie de restrição. Bom, o modo de se resolver isso é espiritual e requer o reconhecimento de que dentro do Limite máximo da nossa forma substancial, todos os outros limites são apenas circunstanciais e temporários. É claro que a vida de servidão, ou a repressão religiosa, tudo isso parece destruir a liberdade das pessoas, mas é só uma impressão. Logo vem a morte das Obras da Carne e o triunfo das Obras do Espírito, e tudo fica bem. O problema deste mundo só existe para quem só crê neste mundo, daí a aflição já é uma escravidão também de outra natureza, também espiritual.
O tempo histórico da série é tempo de crise. A peste dizima a população. A guerra ameaça o reino. A fome assola os campos. As revoltas camponesas eclodem periodicamente. A narrativa não idealiza o medievo. O século XIV surge como época de catástrofe acumulada. A construção da catedral ocorre contra esse pano de fundo. A beleza se edifica apesar do horror circundante. A obra afirma possibilidade de criação em meio à destruição. A catedral é resposta estética e espiritual ao caos histórico.
Eu preferiria uma resposta interior, algo como a construção de catedrais espirituais dentro de cada coração humano. O foco nessa vitória temporal feita de pedra é um erro que prende os seus crentes numa dialética onde a Mistura é legitimada, como se de algum modo essas coisas se compensassem umas às outras. Isso ignora totalmente a perfeição do Ideal divino, bem como as promessas concretas feitas por Deus. Os construtores de templos querem simbolizar o divino naquilo que não é divino. Como poderão transmitir assim a idéia daquilo que é digno de Deus? Não me entendam mal: a arte sacra pode ser belíssima, mas tanto quanto uma paisagem que Deus já criou e que está aí há milhões de anos. Uma coisa é glorificar a Deus através da arte. Outra coisa é precisar fazer isso para justificar uma vida que de outro modo não teria sentido. Aí já encontramos um problema.
A linguagem visual privilegia a pedra e a água. A pedra carregada simboliza o peso da existência. A água do mar representa o horizonte de abertura. Barcelona aparece como cidade determinada pela geografia. O porto conecta a cidade ao mundo. As montanhas cercam o espaço urbano. A catedral eleva-se entre esses limites. A verticalidade da igreja desafia a horizontalidade da condição terrena. A arquitetura gótica é filmada como aspiração à transcendência. As nervuras apontam para o alto. A luz filtrada pelos vitrais transfigura o espaço. A matéria santificada pela forma.
Tudo isso é notável, mas novamente, se não culminar num processo no interior do homem onde ele descubra que vive na Presença do Altíssimo, não adianta de nada. Pedra, água, luz, seja o que for, ou tudo isso está em Deus e dá testemunho da Sua Glória, ou é apenas uma representação sentimental de esperanças meramente humanas.
A série evita psicologização anacrônica. As personagens não possuem interioridade moderna. Os conflitos não se resolvem mediante autoconsciência. Arnau não faz terapia da culpa. Joan não descobre um trauma infantil que explique o fanatismo. As motivações permanecem próximas da superfície dos atos. A obra respeita a alteridade antropológica do medievo. Os homens do século XIV não são burgueses disfarçados. A subjetividade retratada é subjetividade pré-cartesiana. A identidade deriva da posição social e da relação com Deus.
Dá para entender os limites na expressão e na representação, entre o moderno e o medieval, mas não no próprio Ser. Do contrário, de onde teria saído a consciência moderna? E de onde teria saído a subjetividade pós-cartesiana? O ser humano sempre teve a potência da autoconsciência. A largura e profundidade do conteúdo real explorado a partir dessa potência sempre dependeu de alguns elementos exteriores acidentalmente, mas essencialmente dependeu apenas da vontade interior. Não podemos confundir o que é o desdobramento histórico dos testemunhos da atividade interior da autoconsciência humana com a realidade da sua atividade. Do contrário caímos na armadilha historicista que transforma o homem antigo ou medieval num ser de outra espécie, prisioneiro do seu tempo. Não somos feitos à imagem e semelhança de Deus para estarmos presos aos limites de consciência de uma época, embora estejamos geralmente limitados ao uso de meios expressivos disponíveis em cada momento. E mesmo assim, sempre podemos inventar palavras novas, idéias novas, etc. Se não pudéssemos, a História teria sido impossível.
A conclusão da série retorna à catedral. Arnau morre velho. A igreja permanece. As gerações se sucedem. A pedra sobrevive aos construtores. A obra sugere que o trabalho humano pode produzir permanência relativa. A catedral é vitória sobre a morte. A beleza arquitetônica transcende a vida individual. A narrativa termina afirmando valor do esforço coletivo. A liberdade conquistada por Bernat transmite-se a Arnau. Arnau transmite dignidade a Mar. A corrente geracional não é corrente de sangue. É corrente de escolhas reiteradas. A catedral do mar ergue-se como monumento à possibilidade de homens livres edificarem juntos algo que os ultrapassa.
Eles não podem fazer isso para além de algumas gerações, e o Juízo Final de Deus apagará tudo isso, pois não sobrará pedra sobre pedra, e Deus fará coisas totalmente novas. Não é o templo de pedra que permanece, é a Palavra de Deus. A pedra não sobrevive aos construtores, é o contrário, eles vivem para sempre com Deus, e a pedra, por si, nem sequer existe, quanto menos “sobrevive”. A vitória sobre a morte é a Ressurreição através de Jesus Cristo, não através de templos de pedra. E a beleza arquitetônica não transcende a vida individual, porque ela só pode existir para o indivíduo e a seu serviço. Sai dele, e volta para ele. Por si, sequer existe. Sobre a liberdade transmitida de geração em geração, ela requer um testemunho relativo ao Amor divino. Não me parece ser exatamente isto que A catedral do mar nos informa. Há algo como uma obsessão com a construção de templos, civilizações; a família, a humanidade, qualquer coisa que não seja somente a Graça de Deus. Então não posso endossar essas idéias.
Nota espiritual: 4,0 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 4 |
| Presença/Idolatria | 3 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 4 |
| Discernimento/Psiquismo | 3 |
| Nota final | 4,0 |










































