SINOPSE: Dom Cobb é um ladrão especializado em extrair segredos do subconsciente das pessoas durante o estado de sonho, quando a mente está mais vulnerável, utilizando uma tecnologia que permite compartilhar sonhos entre múltiplas pessoas. Após perder tudo por um crime que não cometeu, Cobb recebe a chance de recuperar sua vida anterior em troca de realizar o impossível: em vez de roubar uma ideia, ele deve implantar uma no subconsciente de Robert Fischer, herdeiro de um império corporativo. Acompanhado por uma equipe especializada, Cobb mergulha em camadas progressivamente mais profundas de sonhos dentro de sonhos, onde o tempo se dilata exponencialmente e os limites entre realidade e imaginação se tornam perigosamente indistintos. Enquanto executa essa missão arriscada, ele precisa enfrentar as projeções espectrais de sua falecida esposa Mal, que ameaçam sabotar a operação, ao mesmo tempo em que luta para distinguir entre o mundo real e o onírico. A jornada se transforma em uma exploração vertiginosa sobre culpa, memória e a natureza da realidade, culminando em um desfecho ambíguo que questiona a própria possibilidade de certeza sobre o que é verdadeiro.
O desfecho ambíguo retrata a limitação do intelecto criado, humano. Jamais tivemos, temos ou teremos a condição de “bancar” a realidade em que vivemos, isto é, garantir inequivocamente de que algo é real por refletir o Ser tal como ele é. Porque o Ser tal como ele é, é uma propriedade divina, do Uno, é o Logos que Deus tem de Si mesmo, é o Intelecto divino conhecendo a Si próprio. Isto é universal, e é refletido com graus variados de rigor pela cultura. Gnosticamente, representa-se o Mistério do Ser divino como razão para a malícia que desconfia da integridade da realidade que nos é apresentada. Essa malícia se basearia num tipo de conhecimento secreto, esotérico, proibido, arcano, etc., em que a verdade do Ser seria revelada finalmente. E a respeito da decisão do sujeito que quer crer ou desconfiar, existem os símbolos que representam tanto a dissolução na desordem, quanto a estabilização numa nova ordem, na dialética alquímica da qual já falamos várias vezes, o subsídio psíquico para o funcionamento do Solve et Coagula, Ordo ab Chaos, etc. Assim como em Matrix existem as pílulas vermelha e azul, em A Origem existem os resultados dos testes dos totens: quando o totem corresponde à vontade do sonhador, significa ilusão, e quando contraria, significa realidade. Quem quiser entender mais do motivo dessa dinâmica pode aprender bastante com Hegel. Para nós, aqui, basta-nos entender como Cobb se enfiou nesta situação, e qual foi o seu destino. Se a realidade vale mais que o sonho, isto deve ter um motivo do tipo espiritual, ou transcendental, isto é, uma razão para que a verdade seja algo que nós não inventemos. Essa razão nunca é explicitada. Poderia ser uma submissão ao governo divino, mas Cobb não revela isso. Basta-nos, porém, que ele reconheça que há uma verdade que lhe supere. Seu problema foi a busca do poder através da técnica, que é um símbolo da Gnose. Ele compartilha essa busca com sua esposa Mal, porém ao acessar os poderes criativos nas profundezas de sua psique no Limbo, ela decide que não quer mais sair dali. Incapaz de abandoná-la, ou de continuar vivendo a ilusão com ela, ele cria a técnica de inception para instalar a idéia da liberdade e superação através da morte. Só que Mal não abandona a idéia depois que volta ao “mundo real”, justamente porque não há como determinar a realidade exceto pela crença. O totem só funciona a partir da crença, e não o contrário. Essa é uma genialidade do filme, e indiretamente é um grande testemunho do dom da Soberania. Não há ilusão capaz de conter o espírito humano, se este quiser questionar a integridade da sua versão da realidade. É claro que sem os outros dons, especialmente o da Presença (que aliás torna a vida diante de Deus uma experiência moral independente do nível de ilusão), isso pode levar à loucura. Esse parece ser o caso de Mal, mas Cobb não consegue provar, porque a prova real requereria não um teste de totem, mas a própria morte. Ironicamente, para extrair Mal do Limbo, Cobb inseriu uma idéia de liberdade da ilusão que é mais potente do que o teste do totem. Quando ela o confronta a esse respeito e decide morrer no que seria o “mundo real”, ele não consegue acompanhá-la, e acredita ter presenciado uma tragédia. Mas ele não sabe disso, tanto quanto não sabemos se ao fim ele está experimentando a realidade, ou um sonho. Creio que seja um sonho, mas o mais importante, espiritualmente, é entender que pela vida na Presença isso é indiferente. Vivendo-se em qualquer nível de “realidade” ou de “ilusão”, o fenômeno da autoconsciência capaz de se compreender diante de Deus é suficiente para que qualquer vida seja real o suficiente por ser vivida diante de Deus. Isso transforma o filme A Origem num testemunho problemático, cheio de Soberania, e ao mesmo tempo de Idolatria, na busca de uma verdade num Ser que não seja o divino, como se existisse alguma Substância num mundo exterior, ou algo assim. A solução espiritual para este filme é a vida na Presença, e a filosófica é o Idealismo: tudo é real porque é uma experiência de viver diante de Deus.
ANÁLISE: O cinema de Christopher Nolan encontra em A Origem talvez sua expressão mais sofisticada do que poderíamos chamar de uma fenomenologia da percepção mediada pela tecnologia. O filme não se configura apenas como um thriller de espionagem corporativa ambientado nos domínios do sonho, mas como uma investigação profunda sobre a natureza da realidade, da memória e da construção subjetiva do mundo. Ao apresentar um universo onde a invasão de sonhos se tornou possível através de dispositivos que conectam múltiplas consciências em estados oníricos compartilhados, Nolan estabelece um terreno propício para questões que atravessam a filosofia desde Descartes até as teorias contemporâneas da simulação.
A tecnologia é a parte menos importante. É apenas um símbolo da Gnose, do conhecimento que dá algum poder sobre a realidade. Mas esse conhecimento nunca supera a instância da crença no sentido da experiência da realidade. A prova disso está no próprio filme. Por mais que Cobb pudesse criar a inception como técnica para “salvar” sua esposa do Limbo, esse poder não tira de Mal a liberdade de operar a descrença em qualquer outro nível, inclusive o da suposta “realidade”. Uma consciência espiritual poderia alcançar um resultado melhor: não se trata de garantir o que é “real” –afinal isto é impossível–, mas apenas viver numa instância não produzida pela própria vontade, que é a diferença entre o uso da tecnologia de exploração onírica e a vida comum. Aprofundando mais a interpretação simbólica, o totem representa o enxofre, o elemento estabilizador da crença na realidade, e a idéia que Cobb instalou na cabeça da mulher, que foi a primeira inception, representa o mercúrio, o elemento solvente da crença anterior. E a questão toda é que a escolha de um elemento ou de outro (ou, respectivamente, das pílulas azul ou vermelha no filme Matrix) é sempre livre. Essa Liberdade é a questão mais importante, porque ela completa com uma estimativa aquilo que o intelecto humano, limitado, não é capaz de alcançar. Só podemos criar símbolos de crenças a respeito do Mistério do Ser, mas nunca dominá-lo.
A figura de Dom Cobb, interpretado por Leonardo DiCaprio, funciona como o eixo central dessa investigação ontológica. Cobb é simultaneamente um mestre arquiteto de sonhos e um sujeito atormentado pela culpa, pela perda e pela impossibilidade de discernir com absoluta certeza entre o real e o onírico. Sua condição de exilado, impedido de retornar aos Estados Unidos e de reencontrar seus filhos devido a acusações relacionadas à morte de sua esposa Mal, estabelece uma dimensão existencial ao drama que transcende a mera trama de ação. A presença espectral de Mal nos sonhos de Cobb não representa apenas uma manifestação de trauma psicológico, mas constitui uma problematização radical da relação entre desejo, memória e realidade. Mal é ao mesmo tempo projeção, lembrança e presença que assombra, uma entidade que desestabiliza a arquitetura onírica precisamente porque representa aquilo que Cobb não consegue integrar ou superar em sua própria psique.
Mal é um outro Eu fora do controle da Gnose de Cobb. A lógica da busca do real não pode parar até que algum conhecimento impossível fosse reconhecido por uma mente limitada demais para ter esse poder de reconhecimento, ou quando o Eu decide crer na verdade do que experimenta (decisão representada pela função do totem). Cobb instalou Mal na dinâmica de uma dúvida que não pode ter fim, porque não há nada na mônada criada para além da sua própria Liberdade de crer. Alguma crença é necessária para estabilizar o intelecto da criatura, mas isto não atesta a realidade, apenas a qualidade de uma idéia para a mente que a apetece. Traduzindo em termos espirituais, o real fora de nós só pode ser um outro Eu: ou o Eu do próximo, ou o Eu de Deus. Mas essa entidade fora de nós só pode ser acreditada. A crença mais conveniente e adequada é a do Ser divino que possui todas as qualidades das quais se poderiam derivar todas as características da realidade experimentada, e principalmente a confiabilidade na bondade dessa experiência. Se esta crença é rejeitada, só resta a experiência de uma Liberdade desligada do seu objeto ótimo, o que no filme é representado pelo Limbo sem a confiança em Deus.
A operação de “inception” — a implantação de uma ideia na mente de alguém de modo que essa pessoa acredite ter gerado tal pensamento originalmente — constitui o núcleo conceitual do filme e sua contribuição mais significativa para a reflexão sobre autonomia, livre-arbítrio e influência. Nolan explora aqui uma questão filosófica ancestral: se nossas ideias são verdadeiramente nossas ou se somos atravessados por determinações externas que nos constituem sem que tenhamos consciência disso. A premissa de que uma ideia implantada pode crescer e transformar completamente a identidade de uma pessoa dialoga diretamente com as teorias sobre ideologia, sugestão e condicionamento social. O alvo da operação, Robert Fischer, herdeiro de um império corporativo, deve ser levado a acreditar que a dissolução do conglomerado construído por seu pai representa não uma imposição externa, mas sua própria vontade autêntica, nascida de uma compreensão profunda de si mesmo e de seu relacionamento com a figura paterna.
O filme dá um testemunho do dom do Discernimento, pelo menos indiretamente. Embora não sejam citados espíritos além dos humanos, a noção de que nossas idéias possam ter origem em operações como de inception sugere uma interferência externa e, por implicação, a nossa capacidade de discernir essa atuação sobre nossas psiques. Lembrando, o Discernimento nos liberta da influência do espírito do Psiquismo. O que é o Psiquismo? É a crença de que nossas idéias e emoções são geradas espontaneamente por efeito de causas objetivas exteriores. O Discernimento é o dom de reconhecer que a suposta conexão de causas externas com efeitos interiores é falsa, e que esses efeitos são produzidos pelo nosso assentimento ou rejeição da influência de causas subjetivas exteriores, ou seja, da ação de outros espíritos. É evidente que o dom de Soberania é necessário para a recepção do dom de Discernimento: se não tivermos a consciência do nosso poder de criticar livremente nossas crenças, não poderemos discernir as origens exteriores das influências recebidas de outros espíritos.
A estrutura narrativa de A Origem se constrói através de camadas sobrepostas de realidade e sonho, em uma arquitetura que mimetiza tanto a estrutura psíquica freudiana quanto as questões lógicas dos paradoxos de autorreferência. Os personagens mergulham em níveis progressivamente mais profundos de consciência, onde o tempo se dilata de modo exponencial e as leis físicas se tornam cada vez mais maleáveis. Essa progressão vertical através de estratos de sonho dentro de sonho não é meramente um artifício narrativo, mas uma metáfora para os próprios níveis de acesso à psique humana. O primeiro nível, relativamente controlado e arquitetado, cede lugar a camadas mais turbulentas onde as projeções do subconsciente se tornam hostis, até culminar no limbo, um espaço de tempo infinito e possibilidades irrestritas onde a mente pode se perder definitivamente na própria criatividade desregulada.
Essa idéia fictícia a respeito do Limbo gerado pela nossa psique revela o que pode ser o potencial puro da criatividade monádica sem o recurso estrutural da comunhão com o Espírito Santo. Funciona muito bem, aliás. Através do acesso ao nível mais profundo dos sonhos, Cobb e Mal descobrem no Limbo o nível de poder que está reservado para a vida eterna com Deus. Qual é a diferença entre viver no Limbo com ou sem a comunhão com Deus? Do ponto de vista do poder em si, é a diferença entre a criação por combinações de um conjunto limitado de idéias, alimentado pelas experiências que o casal teve até então do Ser divino, e a criação com o poder de acesso ao conjunto ilimitado de idéias que a Glória de Deus contém. Do ponto de vista da consciência, é a diferença entre experimentar uma realidade determinada por defeitos interiores de Percepção e de Apetição (não conhecer tão bem, ou conhecer o que não é tão bom), e experimentar uma realidade determinada pela perfeição de todas as Percepções e Apetições que Deus possui no conhecimento de Si mesmo. Ou seja, o Limbo representa o poder cego da criatividade da mônada criada. Todos nós já estamos operando no nosso próprio “Limbo”, pois não podemos fazer outra coisa senão experimentar o reflexo do nosso próprio ser, mas experimentamos algo que parece estar fora do nosso controle para decidir confiar ou não no poder estruturante do Criador. A Coruscância é o acesso que a criatividade do nosso “Limbo” terá à infinitude e bondade do Logos divino, o que em outras partes já descrevi como o “casamento” entre o Poder e o Amor.
O conceito do totem — objeto pessoal cujo comportamento particular só é conhecido por seu portador, permitindo assim a distinção entre sonho e realidade — introduz uma dimensão epistemológica fascinante. O pião de Cobb, herdado de Mal, funciona teoricamente como âncora ontológica: na realidade ele eventualmente para de girar devido à gravidade e ao atrito, enquanto no sonho ele giraria indefinidamente. Contudo, a ambiguidade magistral da cena final, onde o filme termina precisamente antes que possamos ver se o pião tombará ou não, transforma o totem em um dispositivo irônico. A questão deixa de ser “isso é real?” e passa a ser “importa se é real?”. Quando Cobb finalmente reencontra seus filhos e se afasta do pião antes de verificar seu movimento, ele executa um gesto de profunda significação existencial: a escolha de aceitar a experiência vivida como suficiente, independentemente de sua correspondência a uma realidade objetiva exterior.
Sim, isto é o que salva o personagem no fim. Cobb faz exatamente o contrário de sua esposa Mal, o oposto da malícia que não tem fim: a crença num bem suficiente fora de si, no caso dele representado pelo reencontro com os filhos que ele sempre sonhou viver. Essa realidade está dentro dele, como sempre esteve, e como não poderia não estar, se somos suficientemente idealistas. O nosso problema é aceitar que a verdade é vivida dentro de nós, e que ela é boa o suficiente. O totem pode ser abandonado como símbolo, porque ele representava apenas a alternativa entre crer e duvidar, e nenhum teste mais é necessário quando a crença foi realizada dentro da alma do indivíduo a respeito de um bem suficiente. Este bem próprio, por sua vez, é o representante do Bem divino na nossa alma.
A filosofia por trás dessa resolução narrativa dialoga diretamente com tradições pragmatistas e fenomenológicas que questionam a centralidade da verdade correspondencial. Se a experiência de estar com seus filhos é indistinguível entre sonho e realidade, se produz os mesmos afetos, as mesmas conexões, a mesma sensação de completude, então a distinção metafísica entre os dois estados perde relevância prática. Nolan não oferece ao espectador a resposta que este presumivelmente deseja — a confirmação definitiva sobre o estatuto ontológico da cena final — mas nos confronta com a mesma escolha que Cobb enfrenta: aceitar a experiência como ela se apresenta ou permanecer eternamente suspenso na dúvida cética radical.
Mas cabe então a pergunta: como o diretor poderia confirmar definitivamente o estatuto ontológico de uma experiência, se toda experiência é vivida por um sujeito como algo interior ao seu ser? Essa questão nem faz sentido. Só existem duas experiências no limite da autoconsciência da mônada criada: a confiança e a malícia. Cobb decidiu confiar, assim como Mal decidiu desconfiar. A parte que parece trágica é que Mal só ficou obcecada com a desconfiança da realidade porque Cobb a induziu a isso, criando a crença gnóstica da malícia, querendo libertá-la do Limbo. Mas se Mal era livre, ela poderia ter rejeitado essa idéia a qualquer momento, tanto que ele insiste muito com ela para que desista da desconfiança. Se ela insiste, é porque quer. Então não é exatamente uma tragédia, é a decisão dos maliciosos cuja única solução será a aniquilação pela misericórdia divina.
A relação entre Cobb e Mal funciona como uma tragédia amorosa cuja dimensão metafísica transcende o melodrama. Mal, convencida por Cobb durante décadas vividas no limbo de que seu mundo compartilhado era um sonho, mantém essa convicção mesmo após retornarem à realidade consensual. Sua “inception” involuntária — a ideia de que o mundo é falso — a leva ao suicídio e simultaneamente arma um cenário que incrimina Cobb. Aqui, Nolan explora as consequências éticas e existenciais da manipulação cognitiva levada ao extremo. A ideia implantada não permanece contida ou controlada, mas metastatiza, reconfigurando completamente a estrutura de crenças de Mal e tornando-a incapaz de habitar a realidade compartilhada. A ironia trágica é que Cobb, ao tentar libertá-la do limbo, a aprisiona em uma prisão epistêmica ainda mais radical.
Como já disse, discordo dessa interpretação. Um gnóstico só pode nos convencer a desconfiar da realidade através da influência sobre a nossa Liberdade. O mentiroso precisa que alguém acredite em sua mentira livremente. Mal descobriu na idéia introduzida pela inception de Cobb algo para além do que ele queria lhe sugerir: a crença na posse de uma Gnose divina, que seria o domínio do Ser. Nesse ponto existe coerência no personagem de Mal, pois a sua obsessão com esta Gnose impossível corresponde com o seu apreço pelos poderes ilimitados no nível do Limbo. Ela não é vítima, é vilã ou algoz de si mesma.
O filme também desenvolve uma reflexão sobre criatividade, arquitetura e construção de mundos que ressoa profundamente com as artes e com o próprio fazer cinematográfico. Ariadne, a jovem estudante de arquitetura recrutada para desenhar os mundos oníricos, representa tanto a figura do artista-criador quanto a da espectadora que é gradualmente iniciada nos mistérios dessa realidade alternativa. Suas experimentações iniciais com a física dos sonhos — dobrar a cidade sobre si mesma, criar escadarias impossíveis inspiradas em Escher — evidenciam o prazer puro da criação livre de restrições materiais. Contudo, ela aprende rapidamente que sonhos efetivos não são meros exercícios de fantasia arbitrária, mas devem possuir coerência suficiente para sustentar a crença dos sonhadores. Um mundo onírico funcional requer verossimilhança interna, povoamento com projeções que reajam de modo plausível, e uma lógica espacial que, ainda que impossível fisicamente, pareça natural dentro de seus próprios parâmetros.
Ou seja, a verdade é racional, estruturada, coerente, lógica. E esse Logos é transcendente a todos os esquemas de representação do Ser. Quando suas leis são violadas excessivamente, criam-se paradoxos e absurdidades que destroem a integridade da experiência. É um testemunho indireto e meio fraco, mas verdadeiro, do dom de Presença.
Essa exigência de verossimilhança onírica estabelece um paralelo direto com a construção narrativa cinematográfica. Assim como os arquitetos de sonhos devem criar mundos convincentes o suficiente para que os participantes não percebam sua natureza fabricada, o cinema constrói realidades que pedem a suspensão voluntária da descrença. Nolan brinca metalinguisticamente com essa analogia quando apresenta sequências onde os personagens discutem as regras da invasão de sonhos, as possibilidades e limitações técnicas, os riscos e estratégias — discussões que facilmente poderiam ser transpostas para uma sala de roteiristas de cinema discutindo as leis internas de um universo ficcional.
Sim, mas a metalinguagem mais poderosa do filme está na cena final, pois o espectador deve escolher fazer como Cobb ou como Mal: acreditar na veracidade da experiência do protagonista sem garantias, ou desconfiar indeterminadamente, esperando por garantias que são impossíveis por definição. Genial.
A violência das projeções subconscientes que atacam invasores de sonhos introduz uma dimensão psicanalítica à narrativa. O sistema imunológico da mente sonhadora detecta elementos estranhos e reage agressivamente, uma metáfora tanto para mecanismos de defesa psíquica quanto para a resistência que encontramos ao tentar modificar crenças profundamente arraigadas em nós mesmos ou em outros. A militarização progressiva dessas projeções em Fischer, resultado de treinamento anti-extração, sugere que a consciência moderna está cada vez mais fortificada contra invasões, cada vez mais consciente da possibilidade de manipulação. Aqui Nolan captura algo do zeitgeist contemporâneo de suspeita generalizada, de ceticismo em relação a narrativas oficiais, de consciência aguda sobre propaganda e engenharia social.
O curioso é observar que o efeito disso é ambíguo. No caso da cultura norte-americana em especial, que é a mais exportada do mundo, percebe-se mais a provocação de um clima de paranóia e ansiedade do que de consciência da própria capacidade de discernir e escolher, isto é, o custo do despertar da Liberdade é que esta possa não escolher o Bem. Foi Deus quem fez as coisas assim, desejando o melhor resultado final, que é aquele estado paradisíaco da Coruscância gerado pela escolha livre pelo Bem. Espiritualmente, o que mais importa é o respeito pelas estruturas de crenças e de narrativas que mantém as psiques alheias funcionando. Neste sentido, a inception original de Cobb em Mal teve como que o efeito de um escândalo sobre uma alma, a introdução desse elemento mercurial de desconfiança maliciosa que causa a suspenção da crença.
O tempo, como dimensão manipulada e dilatada nos estratos de sonho, funciona como uma das explorações mais ricas do filme. A multiplicação progressiva da duração subjetiva à medida que se desce pelos níveis oníricos cria possibilidades narrativas fascinantes: minutos no mundo desperto correspondem a horas no primeiro nível de sonho, que correspondem a semanas no segundo, meses no terceiro, e décadas no limbo. Essa manipulação temporal não é meramente um truque de roteiro, mas uma investigação sobre a natureza subjetiva da experiência temporal. O tempo vivido, fenomenológico, difere radicalmente do tempo objetivo, cronométrico. Uma hora de tédio se arrasta interminavelmente, enquanto uma hora de absorção completa desaparece instantaneamente. Os sonhadores de Nolan habitam uma temporalidade puramente subjetiva, onde a consciência se torna a medida única da duração.
O chamado “tempo objetivo” tem a mesma característica do conceito de matéria: é uma abstração pura. Só existe o tempo percebido, porque o tempo é a função da sucessão das percepções. Se no Limbo uma quantidade ilimitada de experiências pode ser experimentada sem que transcorra qualquer quantidade significativa de “tempo real”, este é apenas um sinal da centralidade da consciência: ela não existe no tempo, o tempo é que existe para ela, conforme a sucessividade é experimentada.
A figura de Saito, o empresário japonês que contrata a equipe e que eventualmente permanece no limbo, encarna a dimensão econômica e geopolítica do controle sobre os sonhos. A tecnologia da invasão onírica é apresentada como um instrumento de espionagem corporativa e manipulação estratégica em um mundo globalizado onde informação e influência constituem poder supremo. Saito não busca riqueza material através da operação, mas a reconfiguração de estruturas de poder através da dissolução do império de um competidor. O fato de que essa dissolução deva ser apresentada como autorrevelação psicológica de Fischer — como uma reconciliação com seu pai morto e uma descoberta de sua própria identidade — revela a sofisticação da dominação contemporânea, que opera não através de coerção bruta, mas através da produção de subjetividades que desejam voluntariamente aquilo que serve aos interesses dos dominadores.
Existem muitos meios escusos para se praticar a guerra privada entre corporações, mas este tema é espiritualmente bem menos relevante. Saito existe apenas como um tentador para Cobb, alguém que faz o protagonista desejar ganhar vantagens, especificamente realizar o sonho de reencontrar os filhos. É um elemento corruptor.
A promessa de Saito a Cobb — limpeza de seu registro criminal e possibilidade de retorno à pátria — estabelece a motivação pragmática que impulsiona todo o enredo. Cobb não é um filósofo desinteressado explorando as profundezas da consciência, mas um pai desesperado que aceita um trabalho perigoso pela possibilidade de reencontrar seus filhos. Essa dimensão humana, pessoal, impede que o filme se torne especulação abstrata excessivamente distanciada. As apostas são existenciais: reconexão familiar, redenção de culpa, possibilidade de vida normal após anos de fuga. O contraste entre a sofisticação conceitual da operação e a simplicidade do objetivo final — um pai querendo abraçar seus filhos — produz uma tensão emocional que ancora as abstrações filosóficas em afeto genuíno.
O que esse afeto representa é a rendição de Cobb ao seu bem próprio que lhe permite repousar finalmente, e deixar para trás o seu totem. É claro que não existe uma reflexão consciente a esse respeito, mas o significado está claro.
O filme também desenvolve uma meditação sobre culpa, responsabilidade e a impossibilidade de desfazer o passado. Cobb carrega o peso da morte de Mal, sabendo que sua manipulação na mente dela, ainda que bem-intencionada, precipitou a catástrofe. Essa culpa se manifesta literalmente como uma projeção de Mal que sabota suas operações, uma externalização de sua própria autossabotagem inconsciente. A jornada de Cobb através dos níveis de sonho para completar a inception em Fischer é simultaneamente uma jornada para confrontar sua própria culpa e finalmente liberar Mal. Quando ele a enfrenta no limbo e admite sua responsabilidade enquanto simultaneamente reconhece que ela é apenas uma projeção, uma sombra, ele executa o trabalho de luto necessário. A Mal que ele amou está morta; o que persiste é apenas sua própria criação, alimentada por remorso e incapacidade de perdoar a si mesmo.
O que sempre existiu foi a sua criação, variando apenas o que é num momento o fenômeno de uma mútua representação, e o fenômeno do subconsciente que significa uma questão mal resolvida dentro de Cobb. Que ele tenha que confrontar a si próprio e confessar suas culpas, isto é necessário para “limpar” o terreno da consciência para uma decisão firme e autoconsciente pela escolha do Bem, que é o que vem ao fim do filme.
A sequência no limbo, onde Cobb e Ariadne encontram os destroços do mundo que Cobb e Mal construíram durante suas décadas perdidas ali, funciona como uma arqueologia da memória e do desejo. Edifícios desmoronando, espaços reconstruídos obsessivamente, a casa onde Mal permanece esperando — tudo isso constitui um museu pessoal de um amor que se tornou patológico precisamente por não aceitar seu próprio fim. A Mal que habita esses destroços oferece a Cobb a possibilidade de permanecer eternamente no limbo com ela, onde eles terão tempo infinito juntos. Essa tentação representa não apenas o desejo pelo retorno impossível, mas também a sedução da fantasia sobre a realidade, do controle total sobre a contingência, da eternidade sobre a mortalidade. A recusa de Cobb em aceitar essa oferta marca sua escolha definitiva em favor da vida real com todas suas limitações e perdas, em oposição à perfeição fantasmática e morta do simulacro.
Esta conclusão está errada. Cobb escolhe um bem verdadeiro contra um bem falso que já não o seduz mais. Chamar uma coisa de realidade e a outra de ilusão não significa mais nada. A obsessão por encontrar uma realidade garantida foi o que tornou Mal obcecada com o fim de qualquer experiência possível. No nível mais elementar da experiência humana só distinguimos cada Percepção de acordo com a Apetição que nos é própria, e a categoria de “realidade” é apenas mais uma qualificação de um tipo determinado de Apetição, em contraste com outro tipo menos apetecível.
A operação de inception propriamente dita, centrada em Fischer, é apresentada com elegância narrativa que demonstra compreensão profunda sobre como ideias realmente se enraízam nas pessoas. Não basta simplesmente dizer a Fischer que dissolva o império do pai; é necessário fazê-lo experienciar emocionalmente uma reconciliação com a figura paterna, descobrir (em um cofre onírico que representa seu subconsciente mais profundo) não o testamento esperado que exigiria que ele seguisse os passos do pai, mas um simples cata-vento de infância e as palavras “decepcionado por você ter tentado ser eu”. A inception funciona porque toca a ferida central de Fischer — sua sensação de inadequação perante expectativas paternas impossíveis — e oferece não uma solução imposta externamente, mas uma resolução que parece emergir de seu próprio insight. Fischer deve acreditar que a ideia é dele, nascida de compreensão profunda de si mesmo, e não reconhecê-la como sugestão plantada.
Esse é o desafio do Discernimento. O significado de uma idéia deve ser separado da sua suposta origem psíquica. Como Fischer poderia questionar a sugestão implantada pela operação de inception contratada por Saito? Usando categorias universais que apelem para o sentido próprio das idéias a tal ponto que as preferências viciadas dão espaço para o questionamento sobre o que é o Bem. Isto significa que há sempre a condição de operação de um juízo autônomo sobre as impressões diretas de pensamentos e emoções, desde que se use o recurso espiritual ou filosófico ao pleno uso do Intelecto. Quem está moral ou emocionalmente fraturado, como parece ser o caso de Fischer, não consegue acessar essa Liberdade, pois ainda está preso em alguma disputa inferior.
Há uma dimensão ética profundamente problemática nessa operação que o filme reconhece, mas não necessariamente condena. A equipe está literalmente roubando a autonomia de Fischer, reconfigurando sua estrutura de valores e objetivos de vida para servir interesses corporativos de Saito. Que essa reconfiguração possa ser apresentada como libertação psicológica — “seu pai queria que você fosse você mesmo, não uma cópia dele” — apenas torna a manipulação mais insidiosa. Aqui Nolan captura algo essencial sobre ideologia e poder nas sociedades contemporâneas: dominação efetiva não se apresenta como imposição externa, mas como descoberta de si mesmo, como autorrealização que coincide convenientemente com os interesses do sistema.
Descoberta de si mesmo? A interpretação de Fischer é conduzida por uma fraqueza sua e por uma manipulação externa. Isso não tem nada a ver com a descoberta da verdade. Vemos que forçado a fazer uma análise, Claude também pode começar a ver coisas onde não existem. Moralmente, Cobb já é inescrupuloso por procurar essa Gnose sobre o reino onírico em primeiro lugar. Os pesquisadores técnicos ou mágicos dos poderes sobre a realidade nunca têm essa desculpa para se refugiar. Não sabiam que sua descoberta seria usada para o mal? O ser humano faz o quê, desde que existe neste mundo?
Contudo, o filme também sugere uma ironia adicional. Ao implantar em Fischer a ideia de que ele pode ser ele mesmo em vez de seguir o legado paterno, a equipe pode inadvertidamente ter produzido uma inception genuinamente libertadora, independentemente das motivações instrumentais. Se Fischer de fato se torna capaz de perseguir seus próprios valores em vez de viver sob a sombra opressiva do pai, então talvez a origem instrumental da ideia seja menos importante que seus efeitos emancipatórios. Essa ambiguidade permanece sem resolução, refletindo a complexidade ética de qualquer intervenção psicológica ou terapêutica, onde intenção, método e resultado frequentemente divergem.
O que é feito honestamente é feito de forma aberta e franca. Desconfio profundamente de métodos “libertadores” cuja condição de efetividade depende da ignorância do suposto beneficiário. Se fosse bom para Fischer se libertar da figura do pai, ele teria que reconhecer isso por si. Por mais que se estimulasse essa decisão desde fora, se não partisse de dentro não seria real de maneira nenhuma. Isso implica que se Fischer foi “emancipado” de fato, ele poderia ter feito isso a qualquer momento por si mesmo. Todos os recursos usados no sonho só funcionam porque partem dos elementos reconhecíveis pela própria psique do alvo. Se ele não tivesse esse potencial dentro de si, não poderia ter sido desenvolvido do nada. Do mesmo modo, todas as influências espirituais que recebemos dependem da nossa decisão de recepção, de cultivo, etc.
A questão final, que persiste após os créditos, permanece irresoluta: Cobb está desperto ou sonhando? O pião continua girando ou eventualmente tombará? Nolan deliberadamente nega ao espectador a certeza, reproduzindo em nós a mesma incerteza epistemológica que assombra Cobb. Alguns interpretam a cena final como sonho, apontando para a semelhança exata entre seus filhos na memória e na “realidade”, ou para o fato de que Cobb veste as mesmas roupas. Outros argumentam que é real, notando que Cobb finalmente vê os rostos dos filhos ou que Michael Caine afirmou que todas as cenas onde ele aparece são reais. Mas essas discussões, embora interessantes, podem perder o ponto filosófico mais profundo.
São discussões inúteis, na verdade, porque o que interessa não é a descoberta de um segredo e sim a crença numa verdade. Qual descoberta seria afinal suficiente para fazer suspender a dúvida? Apenas a Gnose total, noesis noeseos, o conhecimento que o Intelecto divino tem de si mesmo. Então a pergunta é feita para não ter resposta, porque a resposta é o fim das perguntas.
A genialidade da ambiguidade final reside em forçar o espectador a confrontar suas próprias necessidades epistêmicas. Por que desejamos tão intensamente saber se é real ou sonho? O que essa necessidade de certeza revela sobre nossas ansiedades fundamentais? A recusa de Nolan em nos dar closure definitivo é uma recusa a nos permitir escapar da questão filosófica central: como sabemos o que sabemos, e o que fazemos quando a certeza é impossível? Cobb escolhe aceitar a experiência; o filme nos convida a fazer o mesmo, tanto em relação à narrativa quanto, por extensão, em relação à nossa própria existência.
Exato e impecável.
A Origem funciona, portanto, em múltiplos registros simultaneamente: como thriller de ação sofisticado, como drama familiar sobre perda e redenção, como romance trágico, e como experimento filosófico sobre realidade e percepção. A coexistência desses níveis sem que nenhum domine completamente ou anule os outros é testemunho da ambição artística de Nolan e de sua execução. O filme não sacrifica emoção em favor de conceito, nem abandona rigor conceitual em favor de espetáculo. A arquitetura onírica espelhada pela arquitetura narrativa cria uma experiência cinematográfica que, apropriadamente, se assemelha a um sonho lúcido — consciente de sua própria construção sem perder capacidade de afetar e envolver. É cinema que pensa, e que convida o espectador a pensar junto, sem didatismo ou condescendência, confiando na inteligência da audiência para navegar suas complexidades e abraçar suas ambiguidades irredutíveis.
Por genial que possa ser a idéia do filme em si, eu achei muito cansativo, talvez justamente por se querer manter interesses diferentes de audiências diferentes ao mesmo tempo. Um filme mais simples focado apenas na questão da impossibilidade da aferição de uma realidade fora da representação subjetiva poderia ser bem mais agradável, e até mais profundo. Mas, comparado com o nível geral do cinema contemporâneo, não podemos reclamar de A Origem.
Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 4 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 4 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 4 |
| Soberania/Gnosticismo | 9 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 6 |
| Nota final | 5,3 |