São Bernardo com café e pão na chapa

§ 1. Fui enviado caçula e canceriano para ser mimado e sofrer santas e incompreensíveis humilhações, para poder aprender um pouco da Lei do Amor, regra total e infinita de Deus. Não sei se me entendem. Nenhum pai quer estragar o filho mimando, mas quer ao mesmo tempo amar de fato, e isto quer dizer gratuitamente. Não há razão de medida entre amor e rigor, o amor vence sempre e vence fácil, porque até o bom rigor é amoroso, e o rigor justo está dentro do amor como uma gaveta dentro dum armário. O amor é completo, total e absoluto. Você imagina de que é capaz, então, um amor infinito! Todos os pais e mães são convidados a essa reflexão, porque se são capazes de matar e morrer por seus remelentos e imperfeitos pimpolhos, imagine então o que o Deus do Céu é capaz de fazer? E eis que Ele foi capaz de nos dar o Seu Único Filho no seu Amor total e escandaloso por todos nós.

§ 2. Há quem não aceite, claro. Aliás o Crucificado mesmo, amante total e absoluto, já teve sua sentença proferida contra o escândalo de sua entrega, de seu amor. O ser humano já se pronunciou, já julgou e condenou. Simplesmente não é aceitável, e não parece decente e respeitoso um amor tão grande e tão nu, tão nobre e tão humilde, tão rico e tão simples. Desde Adão e Caim até os dias de hoje a não aceitação do amor é uma prerrogativa humana inalienável. É uma conquista dos direitos do homem, é uma conquista do seru mano: não aceitar o amor. Há quem prefira uma Lei forte que ensine pelo domínio do poder e da dor, e estes serão os eternos participantes do sadomasoquismo. (Pense bem no inferno de chamas eternas: não é um clube sadomasoquista? E não estarão lá eternamente aqueles que amam, acima de tudo, o sofrimento seu ou do outro? E não é, portanto, o inferno um fruto do amor também ele? Surpreendentemente o fogo do inferno, até ele, é um fogo de um ardente amor, o amor pela recusa do próprio amor, o escândalo do escândalo.) Sempre há quem prefira a força e a dor. E assim já o velho Israel, esse povo de “cerviz dura”, gélido como uma Turandot de Puccini, de tempos em tempos se prostituía com deuses que não eram o Deus do Amor, e eis que ganhavam tantas vezes quantas eram precisas as durezas com que tanto ansiavam. Quem ama apanhar pede para apanhar, e que amor recusará o sofrimento a um masoquista sincero? Há sempre quem prefira o poder da dor contra o amor. E, como dizem os americanos, se o sapato entra no pé você deve calçá-lo: se para ser filho de Deus você quer tomar porrada, se esta é a sua escolha, então seja feita a tua vontade e a tua felicidade mais plena.

§ 3. (Ser feliz, mesmo, para valer, e até o fim, é ser amado sem merecer. É a situação real do ser humano, ao fim e ao cabo; e mesmo a mais alta crista, se um dia quiser se humilhar, entenderá isto. E o próprio São João chorava porque sabia que o Senhor morria também por ele. O amor ao obediente é menos completo que o amor ao desobediente, porque este tem perdão junto, tem um bônus. O amor ao fraco aumenta a compaixão, enquanto o forte se isola em si. E o obediente se espuma de ódio e morde a fronha, porque é menos amado, no seu rigor, que o mimado desobediente que recebe um amor gratuito. Pensa: comprei, com custo para mim, o que podia receber de graça. Mas quem mandou querer merecer alguma coisa em primeiro lugar? Quem disse para fazer comércio espiritual? Quem mandou se inscrever no infernal clube de sadomasoquismo? Quem lhe ensinou estas coisas?)

§ 4. Sempre há quem não aceita o amor. E se você não aceita o mimo para si, eis a fatalidade, provavelmente não aceitará o mimo para o outro. Se, ao invés do mimo amante dos privilégios, prefere ganhar o direito da Lei, você nunca tolerará o vizinho que é amado sem merecer. E esse amor lhe ofenderá profundamente, de forma abissal. E assim o diabo desde o início invejou o amor que Deus deu ao homem, “caiu do Céu como um raio”, e se tornou inimigo desse ser mimado e privilegiado. Sim! Um ser amado é um ser detentor de privilégios imerecidos, sempre, sempre. Em seguida Deus amou, mimou e privilegiou Abel (porque Deus é Amor e Ele ama incessantemente cada geração remelenta), e eis que Caim, antes de pedir e descobrir um mimo todo seu, vem dar a sua marretada no amor alheio, e o sangue do amado começou a escorrer já ali e não parou até hoje. Caim queria ser amado também? Será que queria mesmo? Ou queria a liberdade de amar ou não amar, de amar menos ou amar mais, enfim, queria a liberdade de ser simplesmente Caim, assim como Lúcifer queria apenas a liberdade de ser Lúcifer? Há quem só queira ser quem é, sem obedecer a Lei do Amor. O ódio odeia, por excelência, o amor que ama. E o mimo escandaliza e tortura eternamente a crueldade.

§ 5. “Ou vocês vivem pela Lei, ou morrem pela Lei”, disse alguém importante um certo dia. Só que a Lei era Amor, já era isso e nada mais, mas o povo de cerviz dura não aceitaria jamais esse mimo. Não aceitam até hoje, aliás. E o Filho de Deus veio, como Ele mesmo disse, levar a Lei à sua Perfeição. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça. Mas haverá sempre, e até no Inferno eterno, quem odeie o amor mimado de privilégios inaceitáveis, e prefira queimar para sempre no amor rebelde do seu próprio coração.

§ 6. Até um São Pedro foi, livremente e perfeitamente, um São Pedro, e não um São João. E cada um será amado e servido dos mimos a que tiver condições de receber sem que se corrompa. Nesta sutileza da Justiça poucos conseguem meditar e refletir. E é a mediocridade espiritual que costuma, ironicamente, querer mandar e desmandar no mundo, julgar e classificar tudo quanto há, e afirmar o que pode e o que não pode fazer o Poderoso com o seu Amor. É um analfabetismo espiritual humilhante, mas que chega a um cúmulo cômico. É um abuso hilário que provoca risos celestes, e a corte dos anjos se ri eternamente ao som de cantatas de Bach.

§ 7. Fui gerado mimado e canceriano, e fui santamente humilhado e desprezado, para aprender toda essa teologia. Ao que sou imensamente grato, por óbvio. A divina comédia, o Livro da Vida, poderia se chamar, também, “Pais e Filhos”. Tudo isso saiu de um café com pão na chapa na padaria da esquina. E eu só acredito numa teologia simples que pode ser pensada tomando café com pão na chapa na padaria da esquina. Qualquer coisa mais sofisticada pode ser mais perigosa; porque o seru mano é perigoso quando se leva a sério demais nas suas capacidades, nos seus méritos e direitos humanos.

§ 8. Ontem mesmo falava de São Bernardo e Pedro Abelardo com o amigo. São Bernardo matou a charada quando já sentiu, de longe, o fedor da sofisticação. Deus lhe deu olfato místico e o santo sentiu o mal cheiro instantaneamente. Escreveu Os graus da humildade e da soberba, e passou até um pito no próprio diabo. E eu imagino que São Bernardo passaria o seu pito do mesmo jeito, e escreveria o mesmo tratado, mesmo se estivesse no balcão da padaria da esquina, tomando o seu santo café com pão na chapa.

Esse non videri,

RS

“Aqui você vai estudar”

§ 1. Já contei a escatologia da minha educação formal. Se vivesse na Antiguidade, mereceria talvez a narrativa de um Eurípides, de um Sófocles. Simplesmente há todo um complô olímpico contra a minha educação formal. Ciumentos de minha desdenha, os diplomas me fogem e aprendi a viver muito bem sem eles, como se fôssemos mesmo seres de universos distintos.

§ 2. Mas a narrativa prossegue, recusa-se a ser uma não-história. O amigo me bate um telefone certo dia: “você tem que resolver isso”. Digo que só resolvo se gastar o mínimo de tempo, de esforço e de recursos. O amigo topa. Me leva enfim numa Delegacia de Ensino. Desde o início sabia que não seria um passeio no bosque. Para se ter uma idéia, o agendamento para marcar o dia da entrega de documentos (!) só pode ser feito pessoalmente (!), não serve telefone. E-mail? O que é isso? Não. Tem que ir lá, mais ou menos depois da Casa do Chapéu Velho (um amigo recentemente me confessou: não conhecia a Casa do Chapéu Velho), pessoalmente, ao vivo e à cores, em carne e osso, apenas para dizer “Fulano de Tal”. É isto: você diz o seu nome e ele é anotado num caderno. No Brasil a menor das tarefas requer o máximo dos esforços, e por isso somos um povo perpetuamente cansado e nervoso. E descontamos uns nos outros, claro. Não se esqueçam que vivemos num gigantesco clube de sadomasoquismo a céu aberto.

§ 3. Agendei, enfim, a fatídica data para entregar meus documentos. O plano é simples: pedir com muita gentileza e educação que o Estado me dê a chance de provar minha capacidade intelectual através de uma prova, de forma que atestem urbi et orbi que sou alfabetizado. Chega a data e lá vou eu.

§ 4. É uma aventura, como se sabe, ser atendido pelos serviços públicos de nossa nação. É sempre uma aventura com um final desconhecido. Sempre. Quer dizer, a coisa que deveria ser mais previsível que horário de trem bala japonês, é todo um sistema arcano e caótico, com direito a possibilidade de greves, desacato à autoridade, corrupção passiva, etc., etc. Embarquei nessa aventura.

§ 5. De imediato descubro uma fila. É claro. A fila, para o brasileiro, é uma necessidade metafísica. E se não houvesse fila alguma, um herói nacional teria que inaugurá-la e decretar, assim, a salvação da pátria. Descubro de imediato a fila. Mas a fila é para o quê? Nunca se sabe ao certo. A aventura é instantânea, o mistério é imediato: “para que serve esta fila?” E há um funcionário perguntando: “Quem veio para a palestra? Quem veio para a palestra?” E agora? Será que eu vim para a palestra? Em tese, não. Rigorosamente, estou aqui para entregar meus documentos e me matricular. Portanto, na teoria não tem nada comigo, mas nunca se sabe. É bom ficar esperto. Encosto no funcionário e pergunto: “é para fazer matrícula?” Ele diz que não, que tem outra fila atrás, que é para fazer matrícula. Ok. Ótimo. A jornada tem andamento.

§ 6. Dirijo-me animado para a fila da matrícula. Mas será que é esta fila mesmo? Você tem que se perguntar reiteradas vezes, eis a questão. Se Descartes nascesse no Brasil, teria descoberto o método da dúvida total já na adolescência. Porque viver no Brasil é viver a própria dúvida total desde a mais tenra e ingênua infância. E um Descartes brasileiro já diria no maternal: cogito ergo sum, seguramente, solidamente. Pergunto, então, a um dos participantes da fila que parecia disposto a esclarecimentos. Pois eis a misericórdia: sempre há o esclarecido da fila. Ele anuncia as regras e os sistemas, e direciona os transeuntes como um guarda de trânsito. Às vezes falha, é verdade. Mas a intenção nobre, ao menos, sempre está lá. E o iluminado me esclareceu: “Você já pegou seu número? Se não pegou, então tem que primeiro ir nessa outra fila aqui do lado, para pegar o número antes. Depois você fica nesta fila aqui.” O conhecimento absoluto me inundou até o fundo da alma, e a cada passo eu aprendia mais e mais nesta jornada.

§ 7. É todo um método de descoberta empírica e de eliminação indutiva. Eis que há a fila da palestra misteriosa, e há a fila da entrega de documentos para a matrícula, mas há uma terceira ainda, para pegar um número de chamada para, aí sim, pegar a fila da matrícula. É uma organização de fazer inveja a um alemão da mais estrita observância, como se vê. E finalmente sinto aquele conforto, aquele calorzinho abaixo do abdômem: “estou no meu lugar certo, finalmente!” Você estar, no Brasil, no lugar certo, na fila certa, já é uma vitória. Veja bem, nada mais precisa acontecer. E se tudo o mais der errado, algo já deu certo. Já há um êxito, já há um sucesso, quanto você descobre o seu lugar dentro de um órgão público. Me senti apossado, pertencido.

§ 8. Pacientemente, bovinamente (porque a dificuldade torna o homem feliz com pouco), espero meu momento feliz de pegar o número. Número 8. Minha mãe me batizou Rodrigo. Do germânico antigo: “soberano famoso”, “poderosamente famoso”, “famoso pela sua glória” ou “governante poderoso”. Não é pouca porcaria, como se vê. Mas a partir dali eu era um número. Um singelo número oito, nada mais e nada menos. E a quantidade oito virou, ali, um nome, um novo batizado. Feliz, saio da fila dos números para, finalmente! Alegria!, a fila da matrícula. A segurança sobre o futuro começa a aumentar aos poucos. E ela é necessária. Veja bem, é preciso ter alguma confiança, porque há uma série de documentos a ser apresentados. E você nunca sabe se você está exatamente com o que é preciso. Uma pessoa experiente, no Brasil, leva todos os documentos cuja existência consegue conceber, e tira a maior quantidade de fotocópias possível. Meio calejado de outros rodeios, senti-me finalmente um pouco encorajado a acreditar que, talvez, aquilo poderia quem sabe dar certo.

§ 9. Vão chamando os números. Tudo isso, até agora, aconteceu na portaria do prédio. Ninguém entrou realmente em lugar nenhum oficialmente. Somos como indigentes à beira dum castelo soberaníssimo. E o número fatal permite, como um passaporte diplomático, a ultrapassagem das grades para dentro da Tróia burocrática. Vão chamando de dois em dois. Leva um tempo, e a gente espera a primeira dupla voltar para que a nova dupla seja chamada. Tudo isso de pé, claro. Tolo e ingênuo é o homem que conta com uma fila sentada: você pode sonhar com isso, mas não pode contar. Não há cadeiras, então ficamos de pé. E, lembrando detalhes, debaixo duma garoinha. Há um toldo que obviamente não consegue abrigar todas as cabeças. E alguns de nós aguardávamos, de pé, não só uma chance de matrícula, mas quem sabe uma chance de pneumonia, uma gripe, ou ao menos um resfriado.

§ 10. Finalmente, chamam os números 8 e 9. Reconheci meu mais recente nome imediatamente. Nesta hora sempre bate um suspense. É a hora da verdade. A quantidade de riscos que corremos é inabarcável, e as chances de fracasso são uma legião. A confiança anterior se transforma numa sutil mas permanente sensação de agonia, um apertozinho lá mesmo, naquela parte baixa do abdômen. Vou entrando, ainda assim, confiante de enfrentar o meu destino.

§ 11. Ia acompanhado por um amigo. E evidentemente o amigo foi barrado. Eis a fatalidade: ele não era um número, era só um nome qualquer. “Você vai fazer o quê?”, perguntam para ele. E ele diz, singelo e humilde, que estava me acompanhando. Veja, um amigo pode acompanhar o outro nas cenas mais vitais da vida: à formatura, ao casamento, à maternidade, e finalmente ao velório. Mas o amigo não podia entrar naquele espaço. Era um local além de todo sagrado e além de todo mistério, inacessível às mais íntimas e sinceras amizades. Eis a dureza da realidade da nossa terra: nem todos os espaços públicos são realmente públicos. Há grades, crachás e vigias para proteger o espaço público do próprio público. E o amigo ficou de fora.

§ 12. Desbravei sozinho a aventura a partir daí. Sou levado a uma salinha junto com o outro número chamado. E embora eu estivesse, como diriam nos tribunais americanos, beyond any reasonable doubt, na fila da matrícula, o meu atendente, um homem racional como qualquer outro, me pergunta subitamente: “você veio fazer o quê aqui?” De repente me lembrei de uma piada e pensei em responder que queria um quilo e meio de alcatra. Mas você não pode contar piadas em situações de vida e morte como essas. Respondi com a educação majestática de um lorde inglês: “estou aqui para me matricular e agendar prova para o Ensino Médio.”

§ 13. O respeito não foi suficiente. Um funcionário público é um ser infinitamente sensível e caprichoso, como uma fada de conto infantil. E a resposta veio, brutal e gélida: “Agendar prova? Não é assim. Não é nada do jeito que você está pensando.” O frio da barriga derrama-se em si mesmo e se espalha pelo corpo. De repente descubro a cruel face do mundo real: não é nada do jeito que eu estou pensando. Ainda mal recuperado do golpe anterior, recebo então a próxima notícia sem clemência: “aqui você vai estudar.”

§ 14. Esta fala provocou em mim todo um processo regressivo. Foi como o ribombar numa noite escura e espectral, que te desperta de um sono agitado. Como um Fortimbras vagando ameaçadoramente sobre a cabeça dum Hamlet. “Aqui você vai estudar.” Isso poderia ser interpretado de tantas formas, que foi preciso uma feroz disciplina mental de minha parte. Vejamos. Por um lado, a fala tinha sido pronunciada num tom que parecia claramente ser o de uma ameaça. Isto é fato: aquilo foi uma ameaça direta. “Aqui você vai estudar.” Por outro lado, meditando o sentido mais verdadeiro possível das palavras, isto parecia ser não um destino trágico, mas bem ao contrário, paradisíaco.

§ 15. Eis que descubro as palavras que eu sempre quis ouvir mas que jamais me foram ditas seriamente: “Aqui você vai estudar.” E o processo regressivo se fez automaticamente, que também sou dado a ser um memorialista. Primeiro me veio um colega, meu xará, numa longínqua cena de intervalo de aulas numa manhã de inverno. Mostrava-me equações. Tínhamos algo entre dez e doze anos. E ele estava animadíssimo. Entraríamos finalmente numa fase mais substantiva dos estudos. Até ali tudo era simulação, sem notícia do mundo real, e até as matemáticas pareciam ser falsas. Mas havia um mundo de equações surgindo adiante, e o amigo tremia em cima dos sapatos para conhecer tudo aquilo. A equação que tinha em mãos lhe foi sorrateiramente contrabandeada pelo irmão mais velho, que já tinha estudado nas classes mais evoluídas. Era, ao seu modo, uma esperança para nós dois, aquela conta estranha.

§ 16. Nunca fui grande fã das matemáticas, mas a História já me cortejava como musa celeste. E tudo o que eu queria era estudar história. Depois de anos num ermo existencial, a escola finalmente faria algum sentido. Quando cheguei finalmente no primeiro ano em que a classe estudaria História, fiquei encantado como um Harry Potter entrando em Hogwarts. A professora era uma senhora loira de olhos bem azuis e um busto farto, uma Angela Merkel ao seu modo. E a primeira matéria seria Egito Antigo. Egito Antigo! Eu não entendia lhufas de Egito Antigo, mas descobri instantaneamente que queria saber tudo a respeito. E busquei minha felicidade na aula da Angela Merkel sobre Egito Antigo.

§ 17. Mas as decepções são inevitáveis numa vida humana, e quanto antes ocorrerem, antes a maturidade colherá a alma e lhe oferecerá dignidades nunca imaginadas. A realidade mostrou suas presas sangrentas: havia uma só aula de história com a Angela Merkel por semana, cinquenta minutos. Mas fica pior, fica pior. Essa amazona teutônica tinha necessariamente que gastar no mínimo trinta minutos dos cinquenta para colocar a classe em ordem e fazer a chamada. (A verdade é que só eu queria saber do Egito Antigo, talvez, quem sabe?, até mais que a própria professora.) Os vinte minutos restantes evaporavam-se numa bruma estranha que nem vagamente lembrava uma aula. E o resultado é que até hoje esse tal de Egito Antigo não me foi bem apresentado.

§ 18. “Aqui você vai estudar.” Finalmente? É isso? Será que o Egito Antigo será enfim vingado? Mas a face do homem racional que me dizia aquelas palavras indicava algo diverso da minha imaginação. A face exibe o ânimo, e os olhos espelham a alma. O que o homem racional estava querendo realmente me dizer é que eu não poderia fazer prova nenhuma sem antes marcar presença em não sei quantas aulas naquela escola. E dizia isso com alguma satisfação que me fez lembrar logo do pacto. Lembrem-se do pacto, do grande pacto brasileiro: o sadomasoquismo. E o homem racional mostrava-se logo, portanto, como parte da privilegiada casta dos sádicos nacionais.

§ 19. Ousei explicar a minha situação. Numa repartição, quando o seu caso está indo para o vinagre, sempre há o recurso final, a apelação suplicante, que é explicar a sua situação concreta. Um funcionário não conhece situações concretas e não quer tomar conhecimento, muito obrigado. Seu modelo é o computador, exato, preciso e infalível. Ignorante de tons súplices e vozes embargadas. E mal suspeita talvez que, caminhando assim, talvez um dia o computador lhe dê um golpe e roube a cadeira. Mas há seguranças, garantias, sindicalismos e estabilidades para o funcionário público brasileiro, e ele está poderosamente instalado, insuspeito, dentro dum corporativismo de fazer inveja numa Schutzstaffel nazista.

§ 20. O homem racional, sem saber, me provocava. Eu poderia lhe dizer: “Sim senhor, vamos estudar; mas nós vamos estudar AGORA. Imediatamente. Tome nota. Proponho alguma reflexões, como o fato econômico de que o quilo do arroz é mais caro porque o Estado precisa recolher para pagar o seu salário, ou então podemos meditar na transição do prestígio e privilégio da antiga aristocracia para a nova burocracia estatal das nações modernas, como essa da qual o senhor faz parte… que tal?” A proposta, é claro, jamais foi feita. Manda quem pode, e obedece quem tem juízo. Quem sou eu? Ninguém. Gosto disso, até. Sou um Ninguém, mas até um Ulisses, um Odisseu de Ítaca, diante do Polifemo terrível, era um Ninguém. E eis que ser Ninguém, Nemo, Outis, já é alguma coisa. E eu preferi, diante do homem racional, ser um Ninguém e dizer amém.

§ 21. Eu poderia dizer tantas coisas mais! Mas o tempo já me aperta. Poderia detalhar, por exemplo, o sequestro de meu documento de identidade. Sim. Pelo próprio homem racional, em pessoa. Agitava ele o meu RG no ar, dizendo assim: “olha, até o fim do ano isto aqui não vale mais nada, ok?” A elegância me informava que o documento ia perder validade. Só me esqueceu, no fim das contas, de devolver o RG. Isso para não falar dos outros documentos que a autoridade avaliou. Mexia e remexia e dizia depois, numa projeção pornográfica, que eu tinha feito uma bagunça. E gostava de dizer que tais e quais documentos eram muito velhos e que já não valiam mais nada, pelo menos uns dois ou três. Num determinado momento me olhou, enquanto pedia os papéis, e perguntou irônico: “trouxe tudo mesmo, seu dotô?” O “dotô” era todo constituído de um simbolismo invulgar. Como, apesar do tradicional frio abdominal que sentimos diante da SS, eu não estava particularmente temeroso e abalado, sentiu o homem racional em mim, como uma fera diante de uma presa, alguma oposição, alguma resistência. E a suposição do que seria a minha empáfia diante de tão absoluta e incontestável autoridade imperial resumiu-se no breve mas direto tratamento: “Dotô”. Neste dia de aventuras, como se vê, já fui de Rodrigo até Número 8, e de Ninguém até Seu Dotô. Toda a leitura dum épico antigo não renderia tamanhas profundidades existenciais.

§ 22. Mas já me estendo muito além do devido. Fui matriculado. Eis que a vitória final compensou toda uma série de santas humilhações. Apenas sequestraram involuntariamente (penso assim, porque o dever do homem é ser generoso com o próximo) o meu RG. Mas o acaso mostrou-se favorável. Quando resgatei meu documento descobri no mesmo local, por uma gentil alma, que poderia sim fazer diretamente as provas se me achasse preparado para tanto. E entendo finalmente a temeridade da minha presença anterior diante do homem racional: eu ousei me achar preparado. E a soberba alheia escandalizou aquela alma sensível.

§ 23. É isto! Chega. Nem mais uma palavra que não seja o pedido para que comprem o meu livro na Amazon. Comprem, por favor, ajudem o autor. Sei que ontem não passei a humilde sacolinha. Fui, ríspido, falar de nossas intransigências um com o outro, querido leitor. E citei até o vilaníssimo Thanos, quem diria, o soberbo dos soberbos. Dizia de si próprio o titã louco: “Thanos é Supremo, Supremo…” E ficava assim a contemplar perdidamente sua a própria superioridade. Um dia eu lhes conto como conheci Thanos e a história das jóias espirituais. Tem até uma cena de colégio envolvida. Mas há tempo para isso. Não hoje. Hoje já deu dor nas costas de tanto escrever.

Esse non videri,

RS

E nesse dia o taurino descobriu a beleza

§ 1. Merlí. Nova série no Netflix. Um professor de filosofia ensina seus alunos e vive com eles dramas, comédias e tragédias. Poderia ser algo mais, mas às vezes (e na verdade na maioria das vezes) um professor de filosofia é apenas um professor de filosofia. O que é sempre algo um pouco decepcionante. Inspirado, mas não intuitivo; libertino, mas não livre; inteligente, mas não sábio. E bastaram três episódios para que um tédio devastador me dominasse, me mandando ir fazer outra coisa.

§ 2. Ensinar é uma coisa, educar é outra. Ensinar é mostrar como se faz algo, serve para ter algo novo ou poder algo novo. Educar é mostrar como se é alguém melhor, serve para ser melhor. Mas você não pode dizer que alguém pode ser melhor do que já é se não reconhece alguma autoridade moral, alguma referência transcendente que sirva de objeto reflexivo e contemplativo. E eis a limitação dos nossos “educadores” de hoje; o máximo que podem afirmar é que é preciso “ser crítico”, “ser você mesmo”, e outras perfumarias. Merlí introduziu seus alunos, que até então eram mais livres e ainda estavam ilesos, à toda a mediocridade contemporânea da auto-afirmação humanista. E a escola industrializou todo o processo idiotizante. Mal alguém é matriculado e a estupidez já está com o futuro garantido até a aposentadoria.

§ 3. Os jovens sempre estão abertos ao descobrimento, e querem adquirir suas preferências. E eis que existem “educadores” e “mestres” prontos a mostrar todo um mundo que não existe, e do qual vai dar bastante trabalho sair. As abstrações e os dramas são oferecidos antes da substância da vida, das verdades e belezas inegáveis e inescapáveis. E o jovem assiste a palestra e abre a revista antes de abrir a própria janela e ver a paisagem.

§ 4. As janelas são umas das últimas esperanças da humanidade. Outro dia o amigo bateu no Messenger: “a Espanha é linda”. E nesse dia o taurino descobriu a beleza. Quantas telas depois isso aconteceu? Quantas perdas e dispersões numa vida? O amigo conheceu idéias e manchetes, chamadas e palavras de ordem durante toda uma vida. Estava caindo, de barranco em barranco, se apoiando numa frase, escorando num slogan. E um dia ele conhece uma paisagem espanhola e a beleza toca o coração. Há, eis a questão, todo um mundo real, toda uma beleza real, e não há cartaz de passeata, não há outdoor no mundo, que consiga tampar uma beleza espanhola.

§ 5. Há todos os dias uma esperança de descoberta, e é preciso confiar no invisível que de repente se escancara. É preciso mirar pacientemente o pano do mundo esperando a grande abertura que a qualquer momento pode acontecer, a grande estréia duma verdade espetacular. O mundo é um vidro embaçado, é uma vitrine vazia de bondades, de verdades e de belezas, e recheada e coberta de estrume de todas as espécies. Este é o mundo humano, é o mundo dos filosofantes, o mundo de Merlí. O humanismo embaça o cosmos e tampa a luz, é o pano do mundo que um dia terá de ser aberto, e até rasgado, para que apareça atrás dele a paisagem duma paz insuperável. Bendito será o dia em que nenhuma boca se abrirá para falar uma mentira, uma falsidade, mas só dirá a verdade, a beleza e a bondade.

§ 6. Feliz ou infelizmente, parece que este será o dia da morte. E quem diria, até um vilão como Thanos pode ter alguma razão em querer cortejar a rainha da noite, e de irar porque tenha um dia sido desperto do pacífico sono. Mas o vilão nunca vê tudo.

§ 7. Hoje não vou lhe pedir que compre a merda do meu livro. Não precisa. Você está livre de mim, e eis a maravilha: eu também estou livre de você.

Esse non videri,

RS

O Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas

§ 1. Além de Aristóteles, também Felipe II da Macedônia ensinou seu filho Alexandre. E o futuro do menino tinha que ser mesmo grandioso. Aprendeu a arte que lhe daria vitórias contra as hordas asiáticas: a falange é a bigorna, e a cavalaria é o martelo. Antes que existisse a primeira legião romana, portanto, a infantaria macedônia já mostrou ao mundo o poder da coesão e da disciplina, o poder de transformar colunas humanas em aço resistente. Mas a pergunta fatal é a seguinte: por que diabos acordei hoje lembrando das falanges macedônias em Gaugamela?

§ 2. Não sei explicar, mas deve haver uma razão. Essas histórias nos inspiram pela sua antiguidade; você pensar que há tantos séculos lá no fim do mundo alguém já elaborava sofisticadas doutrinas militares, sei lá, isso é motivador de alguma forma. Como um César cruzando o Rubicão (um dia eu conto o episódio em que eu tive coragem lembrando daquela travessia do rio). Porque aqui, agora, o que temos? Abro a internet e vejo a Carmen Lúcia, no seu já tradicional cosplay de Bento Carneiro (o Vampiro Brasileiro), dizer: “ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas”. O topete ameaçador, que atualmente preside o STF, explicava então a sua profunda meditação à uma plateia de Senadores. “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E eu fico pensando que as Excelências estejam talvez se apoiando numa bóia muito efêmera. Quando se é náufrago, depois de saber nadar, o mais importante é escolher o socorro certo. Sou eu próprio, pessoalmente, mais velho que a Constituição de 1988, assim como boa parte do próprio Brasil real. Mas a jovem resma de papéis é a salvação, sim, de acordo com o Supremo Topete Federal. Prefiro um Dom Bertrand: “ou nós colocamos Deus no centro, ou não haverá restauração no Brasil”. Mas o pensamento brasileiro quer ser moderníssimo, e então vai arrancando de si todas as antiguidades, uma por uma, como se fossem verrugas e carrapatos. Tradição cristã? Corta. Tradição latina, ibérica? Corta. Tradição monárquica? Corta. Corta, corta, corta. E no fim nós pensamos, o que vai sobrar dessa depenagem? O que é o Brasil sem a sua história, sem a sua origem? É o Bonde do Tigrão, é o Black-Block, é Karnal, Cortella e Barros, é a Valesca Popozuda, o Reinaldo Azevedo e o João Kléber.

§ 3. Então eu prefiro a companhia de Alexandre num deserto persa, não sei se me entendem. Todos os juízes do STF não substituem o realismo de um chefe de falange naquele deserto sem fim. Que é um juiz dos nossos tempos? É um especialista (ah, os especialistas…) E o que é um especialista? É um ser lesado, cortado de sua pessoa inteira, incapaz de dizer uma palavra de alma completa. O especialista é isto: um incapaz de dizer alguma coisa de verdade e com todo o coração. Fala como um papel, como uma peça, como um pedaço de não sei o quê. Fico me lembrando, para falar de antiguidades, de Sansão. Reli recentemente Juízes (quem não lê a Bíblia não sabe o que perde). Sansão é o último Juiz de renome em Israel, antes da monarquia. E mesmo em seu fim um tanto trágico, você vê do que foi capaz um Juiz cego que era servo de Deus: derrubou com sua musculatura providencial todo o edifício em cima da cabeça dos filisteus, usando apenas as próprias mãos. Gritou, na cena fatal: “Morra eu com os filisteus!” E o templo desmoronou em cima dos príncipes na mesma hora. Sansão não era um papel de juiz, era um juiz de fato. E o que diz o nosso papel de juiz, a nossa juíza-mor de hoje, o nosso cosplay de Bento Carneiro? “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E diz isso com uma cara seríssima, com um topete assustador.

§ 4. O segredo é ser grato. A Gratidão, como a Obediência, guarda seus mistérios maravilhosos, aguardando apenas que um incauto perdido a descubra e a desvele. Um Sansão, mesmo trágico, cego e humilhado, lembra de Deus, lhe é grato e lhe pede a última ajuda, o último favor, a última Graça. E é atendido fielmente e imediatamente; porque a Gratidão repercute num Amor fidelíssimo e infalível. Mas se você é um papel de alguma coisa, a quem lhe resta ser grato? Ao subscritor do papel, aos seus amigos e a si mesmo pelos seus méritos de seru mano. E eis o problema de uma gratidão que não sai da Terra: não recebe nada além da Terra, ou seja, a lei da necessidade, da força e da fatalidade, que é o que a Terra tem a oferecer por si. Para que as Graças sejam recebidas é preciso gente que seja grata ao Céu. E o topete supremo só pode ser grato a si mesmo e aos seus amigos, no que confessará os limites deprimentes e macabros de sua intercessão: “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.

§ 5. O segredo, repito, é saber a quem se é grato e a quem se é obediente. Em suma, diante de quem se é humilde de coração. E daí você descobre um monte de coisas e se descobre também. O que parecia miséria é um enredo harmonioso e nós encaixamos na trama. Me descubro, de repente, e sinto que quero ser mãe do Supremo Topete Federal. Explico. O canceriano descobre o mistério do Ser sendo e querendo ser mãe de todo mundo, e aprende uma sabedoria de maternidade que é segredo para todos os filhos da mãe. Há uma sabedoria própria de ser mãe de um ser desprotegido, indefeso, necessitado. Só uma mãe conhece a necessidade miserável de seu filho. E como toda sabedoria transcendente, abarca até os seres mais improváveis, e até os supremos topetes federais. Sim, até mesmo o cosplay de Bento Carneiro é, quem diria, também ele um ser desprotegido, indefeso, necessitado.

§ 6. E requer intercessão. Vocês imaginem a paciência de um São Bento. Os intercessores, pacientemente, pedem a Deus por aqueles incapazes de pedir, por aqueles perdidos da fé, mudos de coração, analfabetos do espírito, por todos os favelados espirituais do universo (e no Brasil há muitos: o Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas). O intercessor pede, pacientemente, que o espírito rebelde seja perdoado e redimido. Imagine a paciência. “Mas e o São Bento?”, alguém me perguntaria. Pois bem, São Bento é o campeão da paciência, porque é o padroeiro dos intercessores. Imagine o tamanho cósmico desta santa paciência: o homem intercede pelos que intercedem por nós. Não é pouca coisa.

§ 7. E daí ser mãe ajuda, porque a mãe olha a miséria do filho com compaixão infinita, e daria a sua vida para que aquela miséria pudesse viver e ser feliz. Mutatis mutandis, a intercessão máxima é a da Santíssima Virgem, obviamente. Quem pode receber de Deus a missão de se apiedar mais dos miseráveis da Terra, senão a Mãe de Deus? E quem poderá tocar com ternura e despertar a compaixão do Sagrado Coração mais que o próprio Imaculado Coração? Ninguém na Terra poderá.

§ 8. E há quem trema nos sapatos com a obviedade celeste. Não aceitam o título, não aceitam Theotokos. Birrentos, não querem uma mãe piedosa, mas ela os quer ainda assim, certamente, porque faz parte da miséria deles recusar que a misericórdia possa vir por um pedido tão humilde de um coração meramente humano. A humildade escandalizou até o diabo no começo dos tempos, e o fez cair abissalmente e eternamente. A recusa do amor humilde, a recusa do escândalo sublime, causa ainda hoje quedas fatais.

§ 9. E recusam, e contrariam, e blasfemam. Testam a infinita misericórdia, mas até estes são inocentes. Ouviram falar um dia, sim, do próprio Arcanjo, que Maria era “cheia das Graças”, e ouviram do próprio Crucificado: “eis aí a tua mãe”. Mas sua teologia de seru manu quer ser mais esperta que o Verbo anunciado e que o próprio Verbo Encarnado. Trabalho. Muito trabalho. Um dia Deus disse, Bendito seja eternamente: “fiat Sanctus Benedictus de Nursia!” E aquela alma paciente foi feita na mesma hora. E até hoje o homem trabalha, e trabalha, e trabalha…

§ 10. Que me resta? Passar a humilde sacolinha. Se você não comprou ainda, dê uma passadinha na Amazon e compre o meu livro. Baratinho. Ajude o autor. “E a PM na Cracolândia!?”, perguntariam, fatalmente. Olha, não sei. Acho que a renúncia da Maria Silvia Bastos Marques do BNDES é um assunto um tanto mais relevante, pensando no macro. Mas tudo isso, BNDES e Cracolândia, continuará sendo assunto por muito tempo, porque todo vício tem futuro garantido no Brasil. Do menor miserável ao maior Batista, todos os viciados perseveram nesta terra.

Esse non videri,

RS

O Brasil é um deserto moral vastíssimo

§ 1. Terminei a releitura de Juízes e vou entrar em Rute logo mais. Mas não sem antes reler o meu Diário de 2016. Já que estou pedindo para as pessoas comprarem, não custa nada rever a humilhação a que estou me expondo. Nada muito grave, pelo que vi até agora. O começo tem uns erros menores, e a coisa começa a ficar boa em Junho, Julho, daí para diante. Mesmo assim, extenso demais. Não sabia, ainda, que queria fazer algum tipo de literatura. E a literatura é a arte de dizer mais com menos, cada vez mais com cada vez menos. Espremer cada idéia para caber em menos palavras, até o limite. Por isso o frasista é um gênio a ser imitado: diz todo um tratado ou todo um romance com uma frase. E o gênio está em fazer as idéias ficarem atléticas e saudáveis, para caber em frases cada vez mais curtas, como se espreme uma top model num vestido apertado. E a beleza entubada e comprimida sai então desfilando e encantando.

§ 2. Mesmo um Jeremy Clarkson, o rosto vertical de três andares, confessou um dia com voz rouca a razão de James May: até a boa TV é escrita. Seu gênio é escrever e pensar e repensar cada palavra até a exaustão. Clarkson me lembra fisicamente um empresário já falecido que me perguntou um dia, assustado: “mas você quer ser padre?” Na verdade, a primeira pergunta foi: “você vai estudar o quê?” Eu vivia, então, aquela fase em que uma pessoa mais velha está automaticamente credenciada, apenas pela sua data de nascimento, a lhe cobrar o seu destino em cada esquina e sem cerimônia, como rotina de polícia pedindo documentos. Respondi, educado, bom moço: “Filosofia.” Daí é que veio, o olho rútilo de espanto, a pergunta fatal e um tanto indignada: “mas você quer ser padre?” Não era o caso, expliquei. Mas queria estudar Filosofia. E ele tinha pensado que para querer estudar filosofia, só podia querer ser padre. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ocupar um lugar na sociedade. Demorou, mas entendi depois. E entendi que jamais alguém compreenderia o quanto sempre me senti um desapossado, um despertencido, feliz até, de não ter lugar definido na sociedade. Na verdade o nome disso é liberdade, mas não espalhe o meu segredo. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 3. Mas pedir para um empresário brasileiro ter alguma sensibilidade é como querer que um rinoceronte voe. Outro dia também, outro empresário me perguntava, espantado, vendo uma pilha enorme de livros: “mas você vai ler tudo isso?” Eram livros de Administração, que por acaso era a área do cidadão. E era um espanto me interrogando: “mas você precisa ler tudo isso?” Disse eu que sim, pretendia ler tudo isso, sim. Ele fez uma expressão paciente e engraçada e voltou-se aos seus negócios. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ganhar alguma coisa com isso. Demorou, mas entendi depois. Como não via que eu ganharia fortunas lendo uma pilha de livros, não me entendeu. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 4. Eis que durante anos e anos estudei porque só queria saber alguma coisa, e hoje sou uma represa inteira, uma Três Gargantas da China, de conhecimentos classificáveis mais ou menos como “inúteis” pela assim chamada sabedoria popular e pragmática, e foi preciso todo um amor sincero e incondicional (todo amor verdadeiro é incondicional) para ser capaz de fazer isso durante anos e anos sem ligar para as aparências. Vale a pena fazer este esforço.

§ 5. Ontem quem fez esforço foi o Papa Francisco, para tirar a cara emburrada e esboçar um sorriso ao receber a família Trump no Vaticano. Dizem que Melania e Ivanka foram as responsáveis por derreter, finalmente, aquele bloco sólido, aquele Iceberg papal. É que o Papa tinha que fazer um pouco de cena para a plateia liberal, e também para a plateia moral, e para a Teologia da Libertação, e para o George Soros. Não é fácil ser um Papa diante das câmeras e dos distintos públicos, como se vê. Não se pode cair assim numa conversa amável com um Trump sem mais nem menos, tem que disfarçar um pouco.

§ 6. E o Brasil? O Brasil vive a sua adolescência mimada e birrenta, explosiva e rebelde, e isso estaria bem se enquanto isso nós não tivéssemos que viver dentro dele. Os Batista deram um nó em Brasília e as Excelências ainda estão anotando a chapa do caminhão. Quem são os Batista? São os donos da proteína animal, são os caras que estão, literalmente, por cima da carne seca. Eles fizeram isso com dinheiro do BNDES, e Roberto Campos, na cova, deve estar de novo arrependido de sua criação (já se arrependeu mil vezes). O brasileiro, em sua maioria uma massa masoquista, financia seus próprios tiranos e vota com gosto a cada quatro anos para reforçar a decisão. E num sistema bem bolado, a indignação possível já está devidamente canalizada, e é para isso que serve todo movimento popular. A elite bandida pensa: antes que o povo se rebele, criemos nós mesmos a rebelião controlada. Isso funciona faz séculos e o povo ainda não entendeu lhufas. E nem povo e nem empresário. Como já provei, o empresário não sabe o que é entender alguma coisa fora da sua estrita obrigação de se dar bem na vida. E eis que Brasília surge no deserto como a Capital dos que querem se dar bem, e quem não quer no país que atire a primeira indignação.

§ 7. Por isso não me dá tanto gosto falar de Brasil. É um jogo de cartas marcadas. Por mais caótico que seja, já está tudo mais ou menos arrumado. Por pior que seja o caos, e por mais inocente que a população se entenda diante da roubalheira e do cinismo político, todo brasileiro tem dentro de si, desperto ou ainda só potencial, um ladrãozinho e um cínico pronto a desabrochar, pronto a querer única e exclusivamente se dar bem na vida. O Brasil não é um grande mistério. É um país rico onde as pessoas não se organizam em vistas ao bem comum. Se fizessem isso ficariam muito ricas e muito rapidamente. Mas são burras, estúpidas e animalescas. Preferem correr cada um atrás do seu e atropelar uns aos outros, e o país se torna assim um enorme puteiro a céu aberto, uma algazarra criminosa sem fim. Esse tipo de baderna sempre vai acabar num modelo mais ou menos autoritário, porque a barbárie da cultura e da moral popular exige isso, um controle forte por cima. O povo brasileiro é o delinquente sadomasoquista que precisa de uma Febem.

§ 8. Não tenho a menor dó de dizer isso, mas nem a mínima mesmo, zero. Eu já testemunhei suficientes vezes o desprezo do brasileiro pela Sabedoria para saber que ele é isso e ponto final: um delinquente sadomasoquista. Se quiserem me dar esperança, terão que fazer acontecer coisas enormes, prodígios impossíveis. Por exemplo, se um dia o brasileiro desligar a televisão. Se ele fizer isso um dia, será um prodígio e o começo de uma esperança. Se no outro dia o brasileiro jogar fora todas as revistas e jornais, essa coleção diária de mentiras e manipulações, nesse dia tudo fica melhor ainda. E se no outro dia, ainda, o brasileiro fechar a Universidade, daí já é um quase orgasmo. A solução é destruir todas as Universidades e mandar todo mundo para o SENAI. Já disse isso não sei quantas vezes mas o pessoal não me ouve, ou acham que estou brincando.

§ 9. Não há recuo na estupidez, na audácia do erro. Não há nem sombra de uma remota chance de um arrependimento, de uma voz sincera. Não há nada, nada. O Brasil é um deserto moral vastíssimo. Sem oásis, sem descanso, é uma aridez completa de fazer o Saara sentir vergonha. Não há recolhimento meditativo, não há apelo da consciência. Essas coisas não existem no Brasil. É um moedor de almas que nunca para, incessante, de triturar suas vítimas voluntárias na máquina da insanidade perpétua. E para provar o meu ponto, o Reinaldo Azevedo já inventou um novo programa e foi ser colega do João Kléber na Rede TV. Quer dizer, tomou uma pancada num dia, e no outro já inaugurou um novo palco onde subiu para dizer, literalmente: “não peço perdão”, “não peço desculpas”, etc., etc.

§ 10. O Brasil é uma escuridão e uma desolação solitária. É um pós-apocalipse antes mesmo do fim do mundo. Mas há outro Brasil? Há. Há o Brasil das velhinhas que rezam, das famílias que se amam, dos anônimos que fazem milhões coisas boas, há, enfim, um país com gente de verdade, com gente que quer viver em paz uma vida boa e simples, um Brasil que não é o país da TV, do jornal, e das Universidades. Mas é, como nos EUA, “the silent majority”. E quanto mais extenso e continental for um país, maior será a desproporção entre a maioria silenciosa e sua elite ilustrada. Não há solução política. Mas há solução espiritual, há Jesus Cristo: “conhecei a verdade, e a verdade vos libertará”. E até um desapossado, um despertencido como eu, viro de repente e insuspeitamente um afortunado. Há um deserto inteiro, mas eu tenho meus camelos, minha água, e minha jornada. Não fui abandonado. E não quero abandonar meu Mestre, quero abraçar os seus joelhos e pedir que tenha misericórdia. Kyrie Eleison, Christe Eleison. Meu sonho é imitar São João e um dia ver Deus dizer de mim como Alfonso X disse de Sevilha: “no me ha dejado”.

§ 11. Por hoje é isto. Não posso deixar de passar, como sempre, a minha humilde sacolinha e pedir que você compre (caso não tenha feito isso ainda) o meu livro na Amazon, bem baratinho. Ajude o autor. “E o Temer, como fica?”, alguém pergunta. Eu não sei. Cai, não cai. Mas de hoje para amanhã não deve acontecer nada demais, haverá mais tempo para falar do primeiro Presidente-Mordomo do Brasil (senão do mundo).

Esse non videri,

RS

Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem

§ 1. Dizem que o jornalista não deve jamais ser notícia. Reinaldo Azevedo, se fosse mais escriba e menos jornalista, talvez não virasse mesmo jamais uma manchete na sua vida inteira. Mas Reinaldo cresceu e desabrochou como borboleta que sai do casulo. Virou uma cabeça sem freios. Uma cabeça altamente pensante sobre muitas coisas, sobre Direito Penal, sobre as Instituições Republicanas, e um negócio chamado “O Estado Democrático de Direito”, quase uma divindade civil. Reinaldo era uma cabeça falante setenta horas por dia, blogue, revista, jornal, TV, rádio, o diabo. E eu só sentia falta do escriba.

§ 2. Eis a questão. Quando era um simples blogueiro, o que, penso eu, sempre foi seu grande e verdadeiro métier, Reinaldo era bom, e era até imperdível. Escrevia todo dia e nada mais. Fazia questão de dizer que acordava não sei que horas muito depois do galo cantar. E trabalhava somente com as palavras dentro da madrugada. Era um ser separado da mediocridade humana. E eu o invejei: que vida simples e boa era essa. Era herdeiro de toda uma tradição frasista, com o que irmanava Diogo Mainardi, seguindo os passos de um Paulo Francis, de um Nelson Rodrigues. A cultura brasileira já teve seus momentos de lucidez, e Reinaldo seguia uma tradição para contribuir e inaugurar momentos novos deste fenômeno tão raro. Mas o bom trabalho trouxe a sua fama justa, e o desafio do homem é ser maior do que a sua própria fama.

§ 3. A audiência fez do blogue um instrumento político, com ou sem disfarce. Onde há muitos olhos, os demônios se concentram para fazer o seu serviço. E de uma coisa seguiu-se a outra. Até a manchete dizer, inclemente, que o escriba bateu um telefone para a irmã do senador. Uma senhora que está presa, diga-se, e mesmo seu irmão senador já não se sente muito bem. Aécio escreveu na Folha de S. Paulo que é uma vítima. Coitado. Imagino o que seja então o povo brasileiro (mas já sei o que é o povo: um masoquista enrabado).

§ 4. Reinaldo disse na cara do Boris Casoy que não gosta de “mimimi”. Não gosta do papel de vítima. Mas disse, mesmo assim, singelo: “sou uma vítima”. A Lava-Jato tem o poder de fazer o primor de coerência se entortar em rede nacional. Nunca vi tantas vogais na boca da eloquência mais viva e erudita da nação: “eh, uh, ah, oh”. Os poucos cabelos, desgrenhados. A caneta correndo na mesa, descontrolada. Pegava no braço do Boris para receber uma palavra de apoio. Gosto de ser generoso e penso, comigo, que Reinaldo está sendo vítima principalmente de si mesmo. De sua escolha de ser alguém na vida. Nós nunca podemos cair nesse truque de querer ser alguém na vida. Talvez isso sirva para ele voltar a escrever melhor, se ele desistir do jornalismo desabrochado. A culpa pode ser da República inteira, e ele vai provar tim-tim por tim-tim que foi lesado. Mas uma credibilidade não se remonta assim. Uma credibilidade arruinada é uma vidraça quebrada em mil caquinhos que jamais serão juntados. É a pasta de dentes que não volta para o tubo. As tão elogiadas Instituições Republicanas trituraram o seu próprio paladino em cinco minutos. Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem. O Leviatã, como a vida, dá, nega e tira.

§ 5. Toda a torcida do Corinthians sabia que Reinaldo cortava para o lado tucano da política brasileira, mas faltava o telefonema fatal. Reinaldo ist kaputt. (Ou não. Sua luta agora é falar das garantias constitucionais como se o conteúdo do telefonema não existisse, e esquecer o mais rápido possível o assunto. Certamente ele contará com a memória fraca dos outros. Novamente é preciso repisar: não há problema algum num Reinaldo super-empregado em duzentos lugares diferentes, trabalhando sem descanso como um Robocop. Eu gostaria que ele continuasse na Veja, etc. O problema é o Reinaldo tucano. E esse sempre foi o problema.) Seremos beneficiados se ele escolher como exílio um blogue, e voltar ao seu métier, à sua excelência. Já disse não sei quantas vezes que só espero o melhor dele. Nós temos que esperar o melhor de todo mundo o tempo todo. E até um São Bernardo escreveu um dia uma carta ao diabo, contando as suas decepções. E eis o desafio. O melhor que Reinaldo pode fazer é ser humilde. Daí ele será alguma coisa sem uma Veja, sem uma Folha, sem uma Jovem Pan. Porque hoje, sem estes papéis, Reinaldo virou um quase nada, virou uma caneta rolando na mesa, um cabelo desgrenhado, e vogais inconsoláveis.

§ 6. Tenho mil assuntos mas meu tempo foi mais curto hoje. E Reinaldo, como a barba explosiva do dia anterior, me roubou a pauta. Só me resta passar a conhecida e humilde sacolinha e pedir para quem não comprou ainda o meu livro na Amazon que o faça, que é baratinho e ajuda o autor. “E o quebra pau em Brasília!?”, alguém exigiria. Brasília terá certamente quebra paus homéricos no futuro, vocês não se preocupem com isso. A baixeza e a vilania já têm garantido todo um futuro promissor em nossa terra.

Esse non videri,

RS

Uma barba covarde explode Manchester

§ 1. Uma barba covarde explode Manchester. Isso pode acontecer mil vezes, e em todas as mil nos chocará. Como pode? Deus, quando pensou na barba, certamente não a vinculou à covardia. A barba é viril e nobre, automaticamente, mesmo que o seu possuidor tenha sangue de barata (e eis o segredo de alguns barbudos, a ocultar sua fraqueza atrás do disfarce). E aquela barba, ao invés de atacar o exército inglês, atacou um show cheio de criancinhas. Imagine comigo leitor, e se pergunte comigo, a quantas milhas se encontrava um quartel? Não era necessário a barba fazer uma jornada transatlântica para encontrar o infante inglês com o fuzil na mão, carregado de balas, treinado, e com uniforme em dia inclusive, lavado e passado. Mas a barba preferiu a covardia, e dezenove almas estão agora conversando com Deus e ainda relatando o seu espanto.

§ 2. O terror é publicitário como uma campanha de margarina. Lembra do IRA, do ETA? Aqueles deviam ser mais bêbados idealistas do que covardes, e ao menos se achavam heróis nas suas ilusões; a barba covarde de hoje em dia se acha mais popular que a Madonna, não quer nada mais e nada menos. E conseguem as suas duzentas manchetes instantaneamente. Eu tenho uma pauta, ou melhor, tinha uma pauta, para começar o meu dia hoje, e ela não incluía barbas, garanto. De repente a barba covarde explodiu também no diário e me mudou.

§ 3. Um muçulmano tradicional, não-explosivo no curto prazo, diria que a culpa é do Trump. Claro. Nisso parece um marxista, ou melhor, já um eurasiano: a culpa é sempre dos Atlantistas. O POTUS visita a Arábia Saudita, meca terrorista, e me fecha um acordo de cento e não sei quantos bilhões de dólares em contratos de defesa, ao invés de passar um pito e dar voz de prisão ao Rei. Mas o POTUS não é o Mahdi, ele é o governante daquele país do Norte. E prometeu ao povo do Norte: “eu vou fazer pagarem pela nossa proteção até o último centavo”. Acabava o policiamento gratuito e voluntário. Cruza o mar no jato presidencial e cumpre o que foi falado. Mais rápido que imediatamente o saudita escreveu e assinou o cheque, e sorriu para baterem uma foto.

§ 4. O Islam real, pacífico, seria assim vítima de uma assombrosa conspiração, de fazer chocar um Sábio de Sião: a trama ardilosa consiste em impedir o florescimento do Califado real dando dinheiro e armas para a monarquia fake controlar os lugares sagrados e inventar o terrorismo. O terrorismo seria, então, uma vasta campanha de difamação contra a ameaça do Califado real. Pessoas explodidas para sujar toda uma idéia. Começou com os ingleses. Sykes-Picot, Primeira Guerra. E de lá para cá, o terrorismo é financiado para servir de bandeja aos interesses atlantistas, ocidentais, como queira chamar. Tudo contra o Califado real. (O Isis não é o Califado, suponho que mais ou menos do jeito que a União Soviética não foi o socialismo.) Dez vezes mais muçulmanos morrem do terrorismo comandado pelo Ocidente, portanto, e as manchetes só dão as mortes europeias, só dão notícia do sangue do Norte.

§ 5. Eu sempre acredito em tudo que me contam, até ter prova em contrário, ou pelo menos uma séria suspeita. E, cá entre nós, fabricar um inimigo externo para justificar tais e quais decisões e interesses é a coisa mais velha do mundo. É crível como a sinceridade da oração de uma velhinha. E é uma coisa feita por todo mundo desde tempos imemoriais. Dá para pensar. Não cabe ao autor passar a mão na cabeleira dourada do POTUS, nem no turbante saudita, nem em cabeça nenhuma. O inocente é inocente, a vítima é vítima, aqui ou do outro lado do mundo, eis o fato. E não é isso o que importa? Não é isso o que abre o Céu? Absolver coletividades é tão impróprio quanto a condenação coletiva. Os tiranos e conspiradores são terríveis? Sim, eles são, sempre foram, sempre serão. Qual a surpresa? Mas a Espada de Deus é mais terrível ainda, e ela está chegando para esses pescoços desavisados.

§ 6. Só que a Espada de Deus não se chama Lawrence da Arábia, nem Abdullah, nem nada disso. (Assim creio.) Não tem uniforme nem bandeira, e não liga a menor bola para fazer estourar manchetes. Age infalível como um ninja numa meia-noite de lua nova. É na “hora que apavora” que cai como ladrão em cima do butim. Eis o fato: a arma divina não existe para satisfazer os sonhos humanos de justiça, mas tão somente a Justiça Divina secreta. Deus não deve satisfações nem ao mais justo dos homens (e cá entre nós, bem ao contrário). A fé deve crescer, a confiança na Harmonia e na Justiça, infalíveis, belas, perfeitas. E eis que o pavor justiceiro não combina.

§ 7. Eu acredito na paz e no acordo, e que 99% das pessoas só querem ser felizes e viver em paz, não importa onde morem, que língua falem, a cor da pele, ou o sabor da sopa que tomam antes de dormir. Só querem uma paz para chamar de sua (mesmo que não saibam, como geralmente é o caso do sadomasoquismo brasileiro). Conspirações secretas são assunto real, problema real, para pessoas que não conheceremos jamais. Chapéis e bigodes insuspeitos que você poderia encontrar para tomar um café e nem faria idéia. Um James Bond, por exemplo. Ninguém jamais vai encontrar um James Bond. O que não quer dizer que ele não esteja por aí fazendo seus estragos. E falar nisso, morreu o Roger Moore. Não está fácil para a Inglaterra esses dias. Como será que anda a Rainha? Já devem ter chamado o ilustríssimo Médico Real, por via das dúvidas.

§ 8. Tenho um amigo, daqueles que tem todo um espaço de penthouse no meu coração, que garante que a Rainha é reptiliana. O olho rútilo diz: “Ela é! Ela é!” As pessoas adoram um segredo, uma trama de Dan Brown. De Sykes-Picot nós chegamos até os reptilianos. A velha não morre, eis o fato mais poderoso, a prova mais contundente. Eu gosto de acreditar que é uma senhora bem conservada, sem escamas, sem língua bifurcada, e sem beber o sangue de virgens no canudinho todo dia. Mas quem garante?

§ 9. Ninguém garante nada. James May, um cabelo sob holofotes, diz que a Rainha é alemã e não tinha nada que se meter com os ingleses. Preferia a República. Mas será que preferia também os rios de sangue do Terror francês? E as filas duplas no estacionamento das decapitações? Correu sangue inglês também, é claro. Mas o francês sofreu e sofre ainda humilhações indizíveis, e os ingleses estão poupados de coisas impensáveis. Até Napoleão virou na boca, um dia desses, um vidrinho de veneno, para se ter uma idéia de como ser francês pode ser deprimente. Acho que com a Rainha os ingleses não fazem negócio tão mal assim, até quando se pensa em quantas são as barbas explosivas. Para cada barba que explode do lado de Dover, três ou mais explodem do lado de Calais.

§ 10. Algum idiota da objetividade poderá me dizer que eu falo de barbas que não existem, não comprovadas, não fotografadas. E é nessas horas que entendemos a superioridade semidivina de um Homero, de um Dante, e a miséria de uma época sem poesia. Veja bem, quando o Isis manda alguém fazer estragos, este alguém é uma barba automática, isso independente de ter ou não a face peluda, e até do sexo do terror. Um adolescente suíço, um rosto de bebê, depiladíssimo como uma Gisele Bündchen, é uma barba sangrenta mesmo assim, e vira uma barba no momento mesmo em que fecha em torno de si o cinto fatal e aperta a última fivela de sua vida. Não sei se me entendem. Um autor precisa de figuras, e a explosão precisa de uma barba que a faça. Se um dia a própria Gisele Bündchen acordar e disser ao espelho: “meu destino insuspeito é o martírio, é a jihad”, nesse mesmo dia Gisele, depiladíssima, será uma barba explosiva.

§ 11. Uso a barba porque foi Deus quem me deu, e Ele deve ter um plano com isso, vai saber. (E de tempos em tempos bate uma preguiça de tirar, isto também é um fato inescapável). Às vezes eu tiro, mas se deixo sou feliz com ela; foi Deus quem pensou a barba antes de mais nada. Mas o idiota da objetividade pode voltar, vingativo: “e o apêndice, Deus não fez também? Para que serve o apêndice, se não for só para dar apendicite e matar não sei quantos?”. E quem disse que a apendicite não é útil? Tolo, o seru mano cuja vista não consegue nem dobrar a esquina continua desafiando a Providência. Prefere fazer isso, na sua objetividade mesquinha e rasteira de tatu-bola, do que ter imaginação ou pelo menos ser generoso. E bastasse que um dia uma alma encontrasse outra numa sala de hospital, numa operação de apendicite, para que o apêndice fosse universalmente explicado. Imagine: o homem encontra a sua amada enfermeira, a futura mãe de seus filhos e avó de seus netos, porque o apêndice urrou dores num dia fatal. E toda uma família, toda uma descendência, deverá a sua própria existência, nua e crua, ao apêndice ancestral. Como é tosco o questionamento cego de superbia do motivo de ser das coisas. É tosco de causar um bocejo cavernoso. Se um reles autor imagina a Providência usando o apêndice, imagine o que faz com o órgão “inútil” a imaginação divina, o divino Autor? Os fisiólogos precisariam ainda um dia dissecar também a sua própria estreiteza.

§ 12. Outro dia o Diego Marques bate no Facebook para mim. Estava em Pamplona. Confessou o óbvio e perguntou o necessário: “A Espanha é linda. O que você ainda está fazendo aí?”Eis a indomável questão: o que ainda estou fazendo aqui? Já me perguntei isso tantas vezes. Vi belezas espanholas, de vários tipos, de fazer esquecer um Brasil inteiro em quinze minutos (um dia eu lhes confesso a beleza que vi em Granada). Mas estou aqui batendo o meu diário em São José dos Campos. Minha mãe diz que fui parar “beeeem looonge” dela, imaginem se estivesse em Pamplona? E a mãe, para um canceriano, é vital. Mas não é bem isso. A mãe a gente leva no coração, não precisa pegar na mão e fazer as malas juntos. Não é isso que me ancora abaixo do Equador. Estou fazendo algo que nem sei explicar direito. Talvez esteja cultivando a multidão de leitores para os convencer a comprar os meus livrinhos (um já está aí, pelo menos um já é comprável), para os convencer a me pagar o exílio em Carmona. O problema do exílio europeu é que custa em euros, não é uma vida fácil. Tenho que viciá-los a precisar dos meus parágrafos como um viciado precisa do seu mel, e este é todo um trabalho a se fazer. Mas há tempo para tudo, e quero viajar antes da mudança final, quero respirar diversos ares continentais. O Felipe Marques (não é da família do outro, mas ocupa tanto quanto o seu próprio espaço de suíte presidencial no coração) está fazendo a lista dele, e eu a minha, os ambiciosos. Cairo. Jerusalém. Atenas. Roma. Paris. Se nós conseguirmos chegar no aeroporto de Guarulhos eu já estou feliz, e já é alguma coisa.

§ 13. Poderia fazer uma campanha promocional: não sei quantos parágrafos para cada cidade visitada. Na internet se vê coisas monumentais hoje em dia. Veleiros dão voltas globais pagos por anônimos que querem sentir o sal na cara mas não suportam colocar nem o mindinho do pé num barco sem vomitar as vísceras. Podia inventar algo assim. Mas não tenho ânimo. Mal me anima publicar as palavras, os amigos sabem. Falar em amigos, o Facebook diz que tenho cento e sessenta e três deles. Publico não sei quantos parágrafos escritos com o coração na mão e dos cento e sessenta e três uns três ou quatro mostram o polegar, o que nos meus termos já é um sucesso de Broadway. Os outros estão ocupados para ler textão. Aliás, quem deu jóinha também, porque curtem rápido demais e sua velocidade os trai. Eu amo um textão. Amo ler e amo escrever textão. Nem tenho televisão em casa (minto: tenho o aparelho mas não vejo o que se chama “televisão”, assisto a arte do cinema). Quando vou na livraria e vejo um volume daqueles, um tijolaço, já tremo nos sapatos, penso em pegar na mão e ler tudo ali mesmo e até a morte, palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, até o último ponto final. Alguém escreveu alguma coisa, portanto alguém precisa ser lido. Vou lá e leio tudo. Leria lista telefônica e bula de remédio, se só restasse isso. Não importa ser lido, eis a verdade completa. Importa ler (e reler) e escrever, e isto é a vida de um autor. Ler e escrever. Ler e escrever até a morte, e se possível além dela.

§ 14. Não sou nenhum amante da cultura, mas sou amante da verdade. Então você lê um monte para ver se alguém disse um dia alguma coisa verdadeira. É sempre assim. É para isso que lemos um tijolo: no meio de tamanha massa de palavras deve ter alguma verdade esquecida. No fundo, estamos atrás do grande Autor, e do único verdadeiro Autor. Até o filósofo faz isso. Deus é o Autor que o filósofo quer ler eternamente.

§ 15. Tudo isso aí é importante, mas tem que haver outro dia para continuar. Só me resta por ora pedir para você passar ali na Amazon, se não fez isso ainda, e comprar o meu livro. Baratinho. É o que resta por hoje, passar a sacolinha humilde. Eu sei, eu sei, não falei tudo. Alguém perguntaria: “E a Lava-jato!?” Não se preocupem. Sempre haverá Lava-Jato. É o jato mais lento de todos os tempos. Amanhã haverá notícia suficiente para continuarmos a lavar eternamente o Brasil, o Brasil que não tem pressa, o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. Parece até que vou ler o último artigo de Reinaldo Azevedo na revista Veja, porque Reinaldo ist kaputt. E o Maluf foi condenado pelo STF por lavagem de dinheiro. Vivemos tempos estranhos e inéditos. Não faltará assunto jamais, jamais.

Esse non videri,

RS

Olhares pactuais

§ 1. Olhares pactuais. É preciso flertar com a paisagem e fazer o coração se declarar sincero. Mas quem ainda vê uma paisagem nesses dias? Ninguém. Paisagem virou cenário de selfie. Isso me dá uma depressão abissal. Dizem que a TV matou a janela. Hoje, pior, a Internet matou a TV. E é preciso fazer a janela matar a Internet e vingar-se, para que surjam novamente os olhares pactuais.

§ 2. Qualquer dia desses um gênio, engenheiro da Apple, anuncia urbi et orbi: “a tela venceu o mundo”. Nesse dia vão construir prédios inteiros que nem janela terão, porque a tela vai ter tudo, e vão dizer, sim, que a tela tem mais do que o próprio Deus criou. No dia que criarem o prédio sem janela, Deus destruirá o mundo. Porque saberá que nunca mais haverá um olhar pactual.

§ 3. Há dois Cálices, um no Céu e o outro na Terra. O do Céu contém as orações dos santos, o da Terra contém a ira de Deus. Os transbordamentos, cá e lá, serão inevitáveis. Para danação e salvação. Tudo se realizará. E vai ser no dia que inventarem o prédio sem janelas; o Cálice da Ira entorna inevitável.

§ 4. Porque o que é que nós estamos fazendo aqui? Estamos passando. Viver na Terra é passagem. A viagem segue e a morte é o passaporte certo, absoluto, marcado. Há quem ache que tem que fazer não sei o quê, e talvez alguns tenham mesmo mandatos especiais, porque grande é o mistério. Mas fazemos o quê, nós os humildes? Amamos, olhamos e amamos, pactualmente. Eis nosso desígnio superior. Nenhum Napoleão Bonaparte jamais conseguiu entender um olhar pactual. Tudo serve para dar testemunho do amor de Deus e para declarar o nosso amor à Ele. Tudo, tudo, tudo. Você ama um filho, uma poesia, uma rolha de garrafa, só para declarar a Deus que Ele é o mais amável por trás do filho, da poesia, e da rolha de garrafa.

§ 5. Há religiosos ponderados, púdicos e equilibrados, que acreditam mais em Kant do que em Cristo. Acham que a vida espiritual é um pedaço de não sei o quê. Pode até ser o pedaço de cima, pode ser até o pedaço mais nobre, mas, porca miséria, é um pedaço de alguma coisa. Mas esses são atores representando uma utopia, que é a do espírito achatado, do espírito anão. Isso não existirá no mundo das realidades jamais. O cristão é um radical do Amor, e como o frasista dizia, a Igreja é amor, a Igreja é feita para amar. Amar como? Totalmente, absolutamente, perdidamente. Está aí, e é isso: perdidamente. Um olhar pactual é um símbolo de amor de quem se perde amando, e de quem não quer encontrar mais nada além disso, e não precisa de mais nada. Nenhuma guerra, nenhuma revolução, nem sequer um plano de saúde ou uma aposentadoria.

§ 6. Mas há quem diga: precisamos, sim, precisamos muito, e de muitas coisas, e precisamos no mínimo de plano de saúde e aposentadoria, etc., etc. A necessidade urra feroz como um filhote de urso faminto e desolado num deserto siberiano. Algum vício ancestral nos viciou a ver o mundo material, e os planos de sáude e as aposentadorias, como algo mais sólido que o espírito. As palavras mesmas viciam. Spiritus, Pneuma. “Espírito” parece um gás etéreo, vago e impreciso como uma bruma que você assopra e vai embora, como fumaça de cigarro ou vapor de sauna. Mas uma fome não vai embora, um frio não vai embora, uma dor de dentes não vai embora, por mais que você assopre. E esse paradoxo fez um dia um Kant declarar que era preciso pôr limites no Amor. Nós precisamos do Amor, sim, mas não antes dos planos de saúde e das aposentadorias estarem satisfatoriamente garantidos. Foi neste dia que começaram a pensar seriamente nos direitos universais do seru mano. Neste dia o diabo ficou feliz, sentou no sofá, abriu um saco de pipocas e tirou um dia de folga. Sim, foi no dia dos direitos universais. E eis que o escrúpulo humanista se tornou a aposentadoria do espírito.

§ 7. O segredo é que o Espírito é mais sólido que tudo o que há de material, e o Espírito engarrafa toda a matéria como se fosse uma gelatina. Mas o Espírito é Vida, e ele requer um processo alquímico para ativar suas propriedades sólidas, e um ingrediente é exigido fatalmente: o olhar pactual cheio de amor. Sem Amor não há Vida, sem Vida não há Espírito, e sem Espírito só restarão Kant, as telas de computador, os planos de saúde e as aposentadorias. No dia que o último olhar pactual se fechar ao mundo, eis a ironia, é neste mesmo dia que o próprio mundo vai se fechar, tudo vai acabar e o que parecia ser mais real para a esperteza kantiana será a maior ilusão de todas, e o que parecia ser a maior ilusão de todas para essa mesma cabeça prussiana, será a realidade mais concreta e visceral, a mais absoluta e completa de todas. A Vida do Espírito, eterna.

§ 8. As pessoas não têm tempo para meditar na vida eterna porque elas estão ocupadas lendo manchetes sobre Brasília, sobre Temer, sobre Aécio. Sabe como é, no mundo dos planos de saúde e das aposentadorias, mais vale saber o destino de Brasília do que o da alma imortal. E as pessoas dizem, sinceras: “não dá, não tenho tempo”. Elas têm que correr atrás do seu. Cá, como diria o Conde Loppeux, “com os meus botões”, eu penso que o olhar pactual é um correr atrás também, e eu diria até que mais urgente, nobre e necessário. Mas quem sou eu? Ainda me considero humano, mas não posso atropelar as pressas alheias, a pressa de ser outra coisa, a pressa de ser um übermenschen nietzschiano (com plano de saúde e aposentadoria, é claro).

§ 9. Mas um dia eu falo de Temer e de Aécio também, óbvio. Isto é assunto. No mundo que Deus criou, na época em que depositou a minha alma, Temer e Aécio viraram assunto, que posso fazer? Não escolhi. As pessoas são livres, podiam escolher diferente, mas é isto aí. A única coisa que não vou fazer é falar de Brasília antes de falar do olhar pactual. E já cumpro a minha promessa.

§ 10. Mudando de assunto, o muçulmano normal, tradicional, moderado e não explosivo no curto prazo (dizem que existem, e aos bilhões, e é uma tal massa que poderia sufocar os seus radicais apenas com a força do número, pisando neles numa única e singela passeata de fim de tarde), jamais suspeitará talvez que o Ocidente prende, julga e condena os seus próprios radicais, no que parece ser uma tática suicida de retraimento e covardia, para a sua própria sobrevivência espiritual. O problema do Ocidente, que já nasceu querendo ser melhor do que era, é mudar, mudar, mudar. Melhorar, melhorar, melhorar. O Livro do Ocidente é o Livro do Amor, porque ser perfeito como o Pai do Céu é perfeito é uma tarefa incessante e jamais completa (promessa de vida eterna). Não há tempo de explodir os outros e passar a faca neles, eu tenho que ser melhor daqui a quinze minutos. Não há tempo. O ocidental, por mais perdido que esteja, bêbado e frequentador de orgias, é um buscador abissal, e até mesmo começou a beber e passar a mão na bunda alheia por causa da sua cava depressão de não conseguir ser melhor, o que é, no fundo, o que ele ainda quer ser, e um dia até, quem sabe ele sai dessa pior e vira mesmo uma pessoa melhor? Uma coletividade fechada num projeto final e acabado parece ser uma boa idéia, mas é uma depressão mais profunda do que a de um bordel, que a de um fundo de garrafa e de um sutiã de puta: é uma depressão sangrenta e explosiva. E o explosivo crê, na sua grande audácia espiritual, que mal o sangue secará das barbas ensopadas, e mágicas ocorrerão sem número para o seu deleite eterno, e ele será VIP no Paraíso. O segredo está na fé da mágica, o diabo está na promessa da mágica. Eu acredito mais na honestidade de uma garrafa de uísque num puteiro do que na de uma barba sangrenta. Mas acreditar num indivíduo melhor não é qualquer coisa, é preciso estar perdido de amor primeiro, é preciso perder-se, perder-se, perder-se. Mil vezes perder-se no labirinto do amor, e chorar, chorar, chorar. Chorar de amor sem fim, de paixão sem fim. É preciso olhar o frequentador de puteiro com uma paixão indecorosa, obsessiva, sofrer com ele as misérias, e então fazer com ele, as lágrimas escorrendo como cachoeiras diluvianas, a promessa da vida melhor. Claro que é mais fácil acreditar em promessas mágicas, facas empapadas no sangue alheio e em barbas explosivas, do que acreditar na vida melhor, no ser melhor, e engolir então todos os seus miseráveis orgulhos um por um, como balinhas de hortelã. Eis o segredo do amor: saber aguentar as santas humilhações.

§ 11. A bondade está no olho que enxerga e busca o bem incessantemente, e não na carteirinha de clube, não importa de que clube for. Meu Deus, como eu detesto as aglomerações e coletividades. Poderíamos dizer: “é a última utopia aquariana, fazer o coletivo ser amável”. Amo o indivíduo, pode ser um asmático, prostituído e morador do lixão, desde que seja apenas ele, sozinho, desde que seja apenas um e não uma massa. Ser bom misantropo é amar o próximo e não a proximidade, é amar o homem e não a humanidade. Amar um coletivo é prostituição espiritual.

§ 12. O um amigo bate no messenger: “Você viu o Nando Moura hoje? O que acha?”. Não vi e não acho. É que não está aqui comigo o amigo, senão eu pegava a cabeça dele com as minhas duas mãos e dizia para ele olhar bem nos meus olhos, profundamente, “olhe bem”, eu diria, “eu não estou feliz?”. Ele diria, o olho rútilo: “está feliz!”. Eis: eu sou feliz sem ver o Nando Moura, e melhor ainda, sem achar nada. Por que sair deste estado de felicidade? O brasileiro está sempre a sugerir a entrada no sadomasoquismo. Não, obrigado. A felicidade é como a verdade e o casamento, depois de alcançar o problema é manter a fidelidade. Há milhões de planos de sabotagem contra a simplicidade da vida, milhões de conspirações em andamento para nós trairmos o nosso bem da forma mais vil.

§ 13. Qualquer leitor dedicado de Nelson Rodrigues pode me julgar. E me deixo ser. Assim como a música de Wagner deixou Nietzsche doente, as palavras de Nelson Rodrigues me viciaram, e é impossível deixar de imitá-lo sem sofrer com isso de um tédio avassalador, como se a vida fosse sugada por um dementador do Harry Potter.

§ 14. Eis que não consigo pensar outro jeito de escrever nestes dias. E quero escrever, bater um diário todo dia, todo dia. Sei que há uma fila de INSS inteira para me apontar o dedo no nariz e afirmar com a autoridade imperial: “você vive uma bolha, uma ilusão”. Sei que hordas sádicas me arrastariam a uma realidade vil, sem poesia, sem vida e sem amor. Deus me protege. Até quando? Ninguém tem contrato, título executivo com Deus, que vai ali na esquina e obriga a alguma coisa. É amor, amor e mais amor. Nada é garantido no amor fora dele mesmo, ou melhor, o amor é a única garantia dele mesmo. Então eu penso: vou escrever todo dia, todo dia, até cair de costas. Vai saber quando a graça vai acabar? Então tenho que escrever tanto quanto puder. Mas tenho um desejo secreto, num lado especial do coração (um porão escondido): uma esperança maluca, um não sei que anseio visceral, de que a graça não acaba jamais e não tem fim, é eterna, eterna.

§ 15. Lembrei dum colega revolucionário de tempos malucos, o N29. Conrado. Ruivo, nariz de batata. Ele não sabia mais o que fazer com os marxistas. E me falava, “o que fazemos com os marxistas?”. Eu lhe dizia: a solução está nos Mercedes-Benz, na sua beleza e na sua velocidade. Explicava (o N29 precisava sempre de mais que uma frase, era uma mente faminta alheia à síntese frasista). Explicava: hoje uns eleitos conduzem carrões e a massa vai ao coletivo público, e os marxistas diziam que mundo bom mesmo era um em o que todo mundo tinha um Fusca vazando óleo. Um Fusca para cada família, um Fusca indiferenciado, o mesmo modelo, mesma cor, mesmo tudo, até o mesmo óleo vazando. O mesmo carro para a massa (e no mundo marxista os eleitos também são massa. Não há Abel no mundo marxista, e portanto não há inveja. No mundo marxista a igualdade matou Abel, e não a inveja. Mas o morto continua, eis o fato: o cadáver ainda está aí), sem uma única diferença que faça alguém dizer um “ai”. Conrado olhava-me lânguido e interrogatório. Ainda tinha fome. Arrematei: a solução está em afirmar que todo mundo vai ter o seu Mercedes-Benz. Modelos diferentes, um mais possante que o outro, cores diferentes, tudo diferente. E não só Mercedes. Porsche, Ferrari, Lamborghini. Na época não os havia ainda (ou não eram sabidos), mas se os houvesse eu os diria também: Paganis e Koenigseggs. Mas alguém poderia dizer: “espere, eu não quero um bólido, quero uma bicicleta”. Justo, uma bicicleta. Quem negará uma bicicleta a um homem honesto e sincero? E alguém pode dizer que não quer ralar o couro, para ter uma bicicleta, do mesmo jeito que alguém rala para ter um Jaguar lustroso. Justo. Eis que cada um pode fazer como quiser. E este era o meu mundo, pensando bem não muito diferente do mundo que já está aí, onde o sol acorda todo dia de manhãzinha sem falta. Há desigualdade? Há. É a regra desde tempos ante-diluvianos, e porque tremer então em cima dos sapatos? Porque os marxistas rangem e babam o ódio visceral? A igualdade é uma lenda demoníaca, sempre haverá diferenças, sempre haverá Abel e Caim, e abéis e caims, e sempre haverá um Caim para acreditar na lenda demoníaca da igualdade. Sempre haverá um marxista invejoso com medo de dizer: “quero o meu Mercedes-Benz”. Caim foi o primeiro marxista da história.

§ 16. Há uns liberais que sabem fazer contas, mas não sabem dizer a verdade completa. São caducos e incompletos como os marxistas, estão todos na escolinha do senhor Kant. Como direi? Faz ciência quem não sabe fazer poesia. Ciência você aprende no caderno e no quadro negro, mas poesia é arte arcana, é dom, é dádiva, é bênção dada pelas musas eternas. Não há como ganhar o favor de uma musa no muque, são deusas etéreas. E uma lágrima sincera enternece mais o coração divino que não sei quantos quilos de tratados escritos. Faz ciência quem não sabe cantar. Acham, tanto liberais quanto marxistas, com uma certeza escandalosa de fazer corar o mármore de um busto, que um Aristóteles, que um Platão, e os dois juntos até, negariam os poetas e os expulsariam mil vezes da cidade. E Kant seria então um singelo seguidor da ciência tradicional, pobrezinho. Olha, isso dá uma disputa, mas não se disputa com canalhas, com ladrões. Todo materialista é um ladrão. Todo materialista tosco (eu creio no materialista não-tosco) é um ladrão do espírito. Usam Platão e Aristóteles como rótulos de manuais e não os vêem como almas cantando, gritando o amor. Esse é o erro materialista mais estúpido e criminoso: não ver as almas cantando o amor. E mais burro ainda foi um Nietzsche, que acreditou nos kantianos. Nietzsche queria cantar o amor, o triste bigode queria apenas e somente cantar o amor, e achava que Sócrates tinha inventado outra coisa. Mentira dos kantianos, Friedrich, e você foi burro de acreditar neles.

§ 17. Toda verdade canta o amor de Deus. Toda verdade, até a mais árida e espectral verdade aritmética, é um canto de amor. Mas tem que ter ouvido para ouvir, tem que ter um coração para ouvir, e eis o problema, ninguém quer mais pedir um ouvido, um coração para ouvir. Todos querem uma mente brilhante que vai fabricar e explicar tudo até o último parafuso. É uma chatice, um tédio infinito. (Outro dia no Netflix apareceu outro documentário sobre a “fórmula de tudo”, e eu tive o inevitável bocejo cavernoso na mesma hora). Nietzsche rebelou-se contra o tédio, mas não pediu um coração para ouvir o canto de amor. Ou talvez, pediu e ganhou, mas não sabia usar, porque aquele bigode era trágico e tinha que ser trágico. Ele não podia escolher algo que não fosse a tragédia total.

§ 18. Mas há abusados, sempre. Querem falar contra o espírito, contra o amor, pela exatidão árida dum deserto do Saara. Outro dia um cientista, sádico, disse que provava o anti-amor com a frase dum pórtico platônico: “não entre quem não for geômetra”. Disse isso de forma séria e decidida, completa e definitiva. Ai dos que dizem definitivamente. É melhor ser cantor, vivo, e cantar o amor vivo. Mas, decidido, proclamou com um sonoro ponto final: “Não entre quem não for geômetra”. Mas achou que geômetra era aluno da Escolinha do Professor Raimundo, e não cantor do amor. Pitágoras era um cantor homérico, hesiódico, do amor divino. Mas o cientista não sabia. Erro fatal. Risos no Céu, risos de abalar as profundezas do Ser. O universo tremeu com as risadas celestes. Deus usa os idiotas para contar piadas impossíveis, de ainda causar o espanto angélico. Involuntariamente o cientista foi motivo de alegria na comédia universal. Ao som duma cantata de Bach.

§ 19. Me lembrei duma coisa que falei ao Felipe Marques e ao Vitor José (amigos amados, têm no meu coração, cada um, todo um espaço de uma suíte presidencial): veja a crença e não a palavra. Cada um pode falar no que acredita, se for confesso sincero, mas isto é raro. Geralmente fulano diz A, mas acredita mesmo é em B. E você tem que ver o B. O que uma pessoa teme, e o que ela deseja, conta tudo sobre ela, mostra um coração vivo. Eu sou confesso, bom, vocês sabem, mais do que isso sou um obsceno, um amante do despudoramento mental, da pornografia das idéias. Confessei-lhes três medos: não quero ir ao inferno, não quero reencarnar, e não quero ser enterrado vivo. Como se vê, temo tragédias abissais. O segredo é escolher terrores abissais, que daí o resto fica mais fácil. Não confessei meus maiores desejos, mas os tenho. Cito um: que o Olavo bata um telefone e me diga: “você sabe escrever”. Isso é suficiente, podem me enterrar no dia seguinte. (Só não me enterrem vivo. Por dúvida, cortem a minha cabeça fora. Sugestão cruel? Não, é uma garantia. E facilita o velório, não precisa velar o corpo todo, pode colocar só uma caixinha com um vidro na frente, e a minha fúnebre cabeça será velada de forma inédita). Outro desejo: assim que morto Deus me diga: “você sabe amar”. E mais: “vem comigo”. Acabou, não preciso de mais nada. E é isso o que nos faz amar e odiar, rir e chorar, etc., no que acreditamos, no que tememos e desejamos intensamente. O resto é Whattsapp.

§ 20. (O Whatsapp é o papo furado, é o small talk, da nossa época. Pode-se trabalhar e fazer coisas seríssimas pelo sistema, tratados internacionais inteiros pelo Whatsapp, negociar a paz no Oriente Médio, e conduzir Concílios Ecumênicos completos, mas tudo será acompanhado sempre pelo famoso bullshit. É uma lei).

§ 21. Enquanto o terrorista de Pyongyang, a obesidade infante, dispara mísseis a torto e a direito como se fossem foguetinhos de festa junina (e por enquanto são quase tão inocentes quanto), eu fico lembrando que todo mundo teme a morte e teme não ter o controle das coisas. É sempre assim, e isso basta para que alguém provoque devastações homéricas e genocídios continentais. Mas e a tristeza, e a acídia fatal? A tristeza é a opinião tola de que algo realmente amável será um dia perdido. Engano miserável. Jesus Cristo veio aí, fez um monte (continua fazendo), e as pessoas continuam não entendendo lhufas. Nada amável será jamais perdido, jamais, jamais. Tudo que merece ser amado é absolutamente indestrutível e existirá eternamente, e será amado eternamente, inclusive e especialmente as pessoas amáveis. Vocês acham que Deus está de brincadeira?

§ 22. Mas a teimosia humana é prodigiosa, tem um passado glorioso e um futuro promissor (para imitar um outro frasista). Agora mesmo, estou relendo Juízes. Para quem não sabe, para um desavisado, é o sétimo livro da nossa Bíblia. E está lá, não sei quantas vezes, de novo e de novo, como um refrão de música: “e os israelitas recomeçaram a praticar o que era mau aos olhos de Deus”. A desobediência é a regra, é a herança do primeiro casal. Borbulha o nosso sangue, agita as nossas tripas. Por isso um certo esforço, uma certa vontade, é necessária. E por isso a Obediência não é qualquer coisa, não é um capricho, mas é uma virtude inteira, de dar gosto. E é por isso também que é lícito dizer que a acídia é pecado. Ficar triste e teimar em ficar triste é um pecado horroroso.

§ 23. Novamente estourei o meu tempo. (E uma barba acaba de estourar Manchester, assunto de amanhã, essa covardia explosiva). Que me resta? Passar a humilde sacolinha e pedir que você, leitor, se caso não tenha comprado o meu livro, dê uma passada na Amazon e compre. Baratinho. Ajude o autor. “E o luto inglês!?”, alguém me questionaria, pedindo palavras. Luto é para viver, não é para falar. Um luto falado é um contrassenso. Se bem que, no Brasil, até o minuto de silêncio é vaiado, como diria o frasista.

Esse non videri,

RS

Sempre haverá a piada e a comédia

§ 1. Porca miséria. Já se passaram praticamente cinco meses e só agora –só agora!—começo meu novo diário, da mais recente glória presente, o Ano do Senhor de 2017. Antes tarde do que nunca. Tive meus motivos. Pensava eu que a transição do ano passado para este seria como a troca da guarda no Palácio da Rainha, uma coisa banal e suave. Mas mudei de vida, esta é a verdade. Mudei de vida. E fui atropelado por mim mesmo, esta é a verdade. Profeta, já no ano passado dizia a mim mesmo: “vai ter uma descompressão”. Vivi quase vinte anos meio comprimido, meio atum em lata. Pensei: “quando eu sair vai ter uma descompressão, não vai ter jeito”. Achava que dois meses bastavam. Mudo de vida e em dois meses estou inteiro transportado para uma nova realidade, como personagem de Star Trek subindo na nave espacial.

§ 2. Nem tão rápido assim. Mais que o dobro, vejam só. E por estes dias já estava com a mão na cabeça pensando, “mas essa coisa vai ou não vai?”. Quem sou eu? Sou um escritor, sou um professor, sou um maior abandonado? Mudo para o Canadá, para a Austrália ou para a Espanha? Acabei vindo para São José dos Campos mesmo. Uma hora de São Paulo. Minha mãe fala que fui para “beeeeem loooonge” dela. Imaginem se eu fosse para a Austrália o que ela diria (e eu tenho a tentação de ir, ah sim eu tenho).

§ 3. (Um amigo meu diz que Austrália é hoje o que eram os Estados Unidos quinze ou vinte anos atrás. Ou seja, é uma beleza, vale a pena, é um sucesso e é uma facilidade de vida. Eu disse que não sei, quem sabe? Mas tudo é uma promessa, e se eu não dirigir Uber em Brisbane, posso, talvez, ser escritor num autoexílio em Carmona. Ah, os exílios europeus, quem resiste a eles?).

§ 4. Nesses dias eu lia o Nelson Rodrigues, A cabra vadia. O Nelson (me permito a intimidade com o autor defunto) é para mim como um Leibniz. Começo a ler e acontece não sei o quê, sou como que eletrocutado e quero sair fazendo frases e acreditando sempre no amor. Pensei: “vou fazer o Diário”. Eis que vinte mil parágrafos surgem na mente, adiados e atrasados, atropelando-se uns aos outros, querendo sair por todos os meus dedos. Nunca falta assunto. A falta de assunto é como o Nada, é coisa de acídias melancólicas e de niilistas da PUC. Assunto sobra, é uma raça sem predador, e é preciso abrir a temporada de caça às idéias, para que não transbordem e destruam tudo. Escrever é fazer esta caça: morrem dez, cem, mil idéias, para que sobre uma boa caça que vale a pena pendurar na parede do chalé.

§ 5. O diário será a parede do chalé. Todo dia, todo dia. Até morrer. Trágico demais? Talvez escreva o diário até não poder mais, o que (espero) deve ocorrer não muito antes do respiro final, fatídico, fatal. Ou ainda, posso encontrar algo mais interessante para fazer nessa uma hora por dia, a ponto que o tempo falte e eu diga que é o fim. Você, leitor, será o primeiro a saber.

§ 6. O diário confessional, sem ser obsceno, consegue ser incrivelmente produtivo, de um jeito que no Brasil não é só arte de gênio, mas é antes e acima de tudo arte de sobrevivente. É um falar com as paredes que um dia, quem sabe, atinge alguém, uma alma insuspeita. Porque a palavra registra, marca, sintetiza o falar. E um dia alguém está andando e descobre o “Diário do Fulano de Tal”, e começa a ler esse negócio. Quem sabe até gosta? Não sei, talvez já seja muito. Ser lido, na época atual, é um milagre.

§ 7. Ninguém se deleita mais com o verbo esparramado na gramática, tudo é esquema, plástico e mecânico. Vejam o Youtube. O que é o Youtube? É um livro com desenho. Você gasta vinte minutos para saber o que gastava dois minutos lendo, mas você prefere o livro com desenho, aliás, o livro de desenhos. É um sucesso monstruoso, há carreiras assustadoras, verdadeiras aposentadorias e fortunas, feitas por autores de livros de desenhos. Suspeito que se colocassem por escrito, tim-tim por tim-tim, causariam um tédio monumental. Seu sucesso, repito, é a plástica e a mecânica.

§ 8. Sou o melhor diarista que há: faço para mim mesmo. Sou sanguíneo. O sanguíneo precisa andar, falar e escrever assim como um bebê precisa mamar, ou uma vaca precisa comer capim. Se eu não faço isso, me dá um faniquito, e cedo ou tarde vem a acídia fatal. Se você não gasta o excesso de temperamento, ele te sobra no corpo e pesa como um chumbo ectoplasmático, dragando o seu ser ao centro da Terra. Então precisa expulsar. Cada parágrafo é como uma mijada ou uma cagada que deixa o meu ser mais leve e limpo. Este parágrafo está digestivo demais. Perdoem. Mas há rumo, e eis o milagre: até que essas coisas expelidas podem ser interessantes, quem sabe? Mas não é meu problema, meu problema é psicofisiológico. Faço a minha parte para sobreviver.

§ 9. Querer ser um grande autor de frases eternas é uma tolice, porque esse tipo de coisa ou você é, ou você não é, e Deus distribui como quer, não deve nada a ninguém (cá entre nós, muito ao contrário). A vaidade toda é uma tolice e uma perda de tempo homérica, é como assaltar uma Tróia para o resgate de uma única e simples Helena. Não é assim. Os gregos estavam lá por desígnio divino. E a luta era até pelo amor, veja só, quem é uma remelenta de uma Helena, por mais bela que fosse, numa Guerra de Tróia, em dez anos de puro homicídio? É uma desculpa para fazer guerra por amor. Helena é uma desculpa.

§ 10. Mas vou longe. Não quero estourar uma hora. Disciplina, portanto. Isto é um mero diário, sejamos básicos, rasteiros, sem pretensões aéreas. Hoje é um dia feio num ano bonito. Todo dia fechado, nublado, frio e chuvoso é excelente para escrever. A vontade de sair diminui, cresce o desejo de recolher-se, e isso repercute na mente que de repente reflete e faz observações sobre as coisas com mais facilidade. É injusto escrever mais quando somos infelizes. Neste sentido, minha produção é desproporcional: há muito mais reclamações do que comemorações, se você for ler tudo o que eu escrevi. É preciso fazer algo a esse respeito, especialmente agora que estou mais feliz do que nunca antes. Mas um novo diário? Online, de novo? Não é muita exposição?

§ 11. Não é, porque no Brasil ninguém lê bosta nenhuma. A não ser que você anuncie no intervalo da novela, ou saia por aí com uma melancia pendurada no pescoço. Para ser visto é preciso se prostituir em alguma medida, se tornar um vendedor e rodar a bolsinha disparando beijos e piscadas de olho. Não, obrigado.

§ 12. O Brasil é cheio de masoquistas tímidos e enrustidos. O coletivo adora ser enganado e abusado, e se você lhe dá uma alternativa, recusa. É mulher de malandro. Acha maravilhoso estar onde está, apanhar, sofrer, etc. Talvez seja um resquício negativo da cultura católica de penitência, e só sobrou o lado ruim do negócio, porque não sai disso para algo melhor. Você não pode escrever mais de dois parágrafos para explicar um assunto, que isto é chamado de “textão”, como uma amolação desagradável, uma inconveniência. Eu imagino que amolação e inconveniência é o fato de haver assassinatos, roubos e estupros em quantidades alarmantes, ou a corrupção sem limites da política, ou ainda a estupidez e ineficiência do sistema educacional, etc., mas não!, amolação é um texto um pouco mais longo que tenta falar disso tudo, um texto que tenta pôr a mão na cabeça e dizer: “mas o que que é isso?”. O povo não quer entender nada, chega a se deleitar com o ódio à sabedoria, e ai do inconveniente que quiser lhe tirar do seu papel de enrabado na história mundial.

§ 13. Enfim eu volto ao meu site, resignado do meu destino brasileiro, global, intergaláctico, universal. Esse destino é: livrar-se dos outros e livrar os outros de mim mesmo, porque é isso ou é entrar no jogo da tirania. O Brasil é todo um gigantesco clube de sadomasoquismo, onde uma minoria ama torturar e a maioria ama apanhar, adora de paixão um sofrimento.

§ 14. Neste sentido, estou numa época um pouco mais nietzscheniana de minha jornada: acredito que a maioria das pessoas está querendo submeter ou ser submetida, numa divisão mais ou menos justa de trabalho entre tiranos e masoquistas. Eis a questão: eu não quero ser tirano nem masoquista, quero ser livre e viver em paz. Tenho certeza que Nosso Senhor Jesus Cristo anunciou esta novidade, esta boa notícia. Ele é o único Senhor legítimo porque ninguém jamais o ultrapassará em sua justiça, bondade, clemência, é absolutamente impossível. Mas tem uns idiotas por aí –inclusive e especialmente os religiosos, com o “venha a nós o Vosso Reino” pendurado na boca o tempo todo– que preferem inventar seus próprios adventos particulares. Que posso fazer? Apenas fico de fora do rolo tanto quanto posso.

§ 15. A questão do inglês foi finalmente resolvida (para quem acompanhava  o problema, ou seja umas duas pessoas, aproximadamente): a língua nortista foi vencida. O plano de escrever para uma audiência anglófona fazia parte de uma ambição inútil e de um conjunto medíocre de vaidades minhas. Estou em época de faxina moral, abrindo armários, sacudindo malas velhas e jogando fora coisas imprestáveis. A estupidez humana é adequadamente distribuída pelo orbe terrestre, não há com o que se preocupar quanto a isso, bem como não há muito onde se socorrer. Embora haja uma concentração notável no Brasil, a burrice é tão vasta e abundante na superfície terrestre que realmente não há escassez grave em parte alguma do planeta. Acredito que a coisa fique melhor em locais ermos como a Antártida, o Alasca e o alto mar, precisamente porque são locais com uma conveniente baixa densidade demográfica.

§ 16. Não sou anti-humano, que fique claro. E nem estou reclamando da vida, porque Deus está sendo generosíssimo comigo; qualquer reclamação seria absurda agora, seria um crime horroroso. O que sou, e muito contente com isso, é um anti-humanista, anti-antropocentrista, anti-antropolatria. Sou contra o culto do humano, porque é isso o que sempre estragou tudo desde o pecado original. É até gozado, que rebelando-se contra a criação do homem a primeira coisa que o diabo faz depois de cair é bajular o homem, cortejar e seduzir como puta de esquina. A serpente pendurada na árvore do Éden era como uma puta de esquina. Não é por acaso.

§ 17. Neste ano de 2017 aprendi bastante, até agora, sobre a vastidão do masoquismo nacional. Há um número gigantesco de pessoas que se recusam a se libertar do sofrimento, umas porque são simplesmente burras demais (e amam, e domesticam, e cuidam da sua burrice como um mascote querido), e outras porque carregam culpas homéricas nas costas e precisam desesperadamente de um castigo, urgente. Some a isso uma quantidade mínima de pessoas sádicas, violentas e cruéis e pronto, você tem a receita do Brasil: como já dizia, um gigantesco clube de sadomasoquismo.

§ 18. Dentro deste imbróglio, consegui me safar até aqui. Estes meus trinta e dois anos de idade foram uma série de exílios voluntários, retiradas estratégicas e fugas urgentes. Há sempre pessoas gentis e compreensivas dispostas a compartilhar a sua caridosa opinião de que eu sou covarde, fraco, etc., mas não, sou mais modesto: eu me classificaria mais como um sobrevivente. Foi por isso que eu me apeguei tanto ao Olavo, aliás: reconheci nele um pioneiro na arte de viver no Brasil, não enlouquecer e ainda amar a sabedoria. É uma proeza fantástica. Sobreviver na Sibéria é uma hospedagem de spa.

§ 19. Vivo minha época mais feliz. Aproveito tanto quanto posso, porque às vezes Deus muda as coisas por algum motivo misterioso e indesvendável, e como é evidente que Ele não deve satisfação a nós, é preciso ficar preparado e suficientemente desapegado à tudo o tempo todo. Vejo frequentemente esse problema nos outros: apegam-se às suas situações, sejam misérias ou maravilhas, criam raízes e não largam de jeito nenhum. A vida humana não foi feita para isso, obviamente. É um estado mais adequado aos vegetais. (E eu penso que amanhã uns nazistas entram na minha casa e botam fogo em dois mil livros coletados durante duas décadas de vida, e eu teria que viver com isso, eu teria que no dia seguinte tomar café na padaria e distribuir “bom-dia” aos necessitados. É preciso estar pronto para perder tudo quanto se ama nesta terra, para poder amar mais o Imperdível).

§ 20. Entre as melhores coisas que ocorreram até agora neste maravilhoso ano de 2017, uma das mais legais foi a retomada de minhas leituras num ritmo satisfatório. É verdade que os dois primeiros meses foram perdidos neste sentido (estava organizando outros assuntos, principalmente a parte mais pesada da faxina que mencionei), mas em Março iniciei uma série de leituras ininterruptas. Mandei para o lixo idéias de copismo, comentarismo e análise, porque se tornaram improdutivas para mim na fase atual. Simplesmente leio com tudo, direto, como sempre gostei de fazer, sem pauta, sem agenda, sem compromisso. Uma coisa boa de se ter um diário é que é possível falar a respeito destas leituras de uma forma mais descompromissada, menos estruturada e formal. É claro que há autores especiais que precisam ser estudados (especialmente como modelos intelectuais e espirituais), e para estes haverá tempo.

§ 21. Comecei a jornada com São Bernardo, editado pela Concreta: Os graus da humildade e da soberba. Mais da metade do livro me foi mais ou menos inútil, ou seja, a parte original em latim (eu não leio e não quero ler em latim, ao menos por ora), e a introdução elogiosa da Idade Média. A apologia de épocas é uma coisa detestável e incompreensível (creio que resulta da falta de inteligência ou de ignorância pura e simples). Elogiem São Bernardo, é mais do que suficiente. Falem da importância do homem na sua sociedade, etc., e isso basta. As lágrimas nostálgicas de uma época áurea estão entre as mais inúteis e deprimentes que existem. Eu não posso viver na Idade Média. Mais que isso: eu não quero. Quero viver no tempo que Deus me colocou, para o que “der e vier”, como se diz. Podemos admirar certas épocas pelos seus feitos, mas isso não pode passar de um certo ponto, que é o da figura de linguagem. Porque épocas não podem ser imitadas; porque épocas não podem ser virtuosas. Virtuosos são os melhores homens de uma época, esses sim imitáveis. Falem do São Bernardo! E não à toa, em compensação, o texto do próprio São Bernardo é uma maravilha. Me inspirou bastante, já que a Humildade se tornou objeto especial de reverência e atenção para mim há cerca de dois anos. Foi uma excelente leitura, porque é do tipo que não nos faz perder tempo com bobagens, e nos eleva constantemente com aquela objetividade e assertividade tão admiráveis nos antigos. Especialmente, São Bernardo é aquele que fala na lata, não teme dizer o que é necessário a quem quer que seja, como o prova inclusive uma “carta” que ele escreve ao próprio diabo dentro do livro, explicando suas inconsoláveis decepções. O homem tem que ter um espírito forte para passar um pito no capeta, para dizer ao chifrudo: você é um traste, como ousa?, etc.

§ 22. Mudando radicalmente de contexto eu li, a pedido de um amigo, um livro de uma cantora-escritora-gospel, a Sarah Sheeva, chamado Defraudação Emocional. Livro breve. Os nossos scholars tupiniquins provavelmente ririam disso, e eu também riria se ainda fizesse parte deste clube de soberbos, o que graças a Deus não é o caso. Estou livre desses impedimentos. O livro fala da importância do matrimônio tradicional, do papel do homem como buscador e da mulher como guardiã de si mesma para o seu marido. Eu duvido que muitos “sábios” nacionais pudessem escrever bem e brevemente assim sobre este assunto, sem apelar para teorizações entediantes que nos fizesse ter um sono de babar na gravata já na terceira página.

§ 23. Li a coleção de textos comentados por Olivier Clément, Fontes: os Místicos Cristãos. Uma obra muito especial. Foi um presente que recebi com muita alegria de um monge trapista do Paraná. O texto basicamente desmonta, como promete fazer desde o início, muitas confusões a respeito do cristianismo, e revisita as idéias dos primeiros cristãos como um passeio refrescante e um convite a uma conversão sincera. Eis que é possível ser cristão ao ar livre, fora de bolores e poeiras ancestrais acumuladas pelos séculos. Confesso que o final foi um pouco escandaloso, como o verdadeiro cristianismo sempre é afinal de contas: diante de um amor infinito é duvidoso que até mesmo o inferno escape absolutamente da misericórdia divina. Não há, no meu modestíssimo e semi-desqualificado entender, nenhuma violação herética, nenhum abuso da Graça contra a Lei. Mas todos nós, se formos honestos, assumiremos que temos um desejo intenso de que a Graça nos resgate da Lei, e é assim que o mistério da Paixão e da Páscoa é vivido pelos verdadeiramente humildes. Teologicamente eu não enxergo grandes problemas, porque se há tantos masoquistas na Terra, nada impede que haja um número suficiente de obstinados até o fim para habitar o inferno e satisfazer a necessidade de justiça dos vingadores, e o seu desejo de dor sem fim, esse prazer insano e inexplicável. Mas é curioso. Todo vingador é um contestador parcial de Cristo, como se tivesse o direito de fazer isso. E quem dirá que não tem? Ninguém dirá. Mas ninguém pode ser mais justo que Deus, espero que esta linha jamais seja ultrapassada por aqueles que ainda possuem alguma sanidade. Enfim, este livro me empolgou bastante em algumas idéias, e cheguei a um ponto em que não pude nem dissertar a respeito, tive que escrever em versos uma canção de louvor, uma coleção de orações que talvez eu publique aqui um dia. Veremos. Na verdade, é toda a idéia de Um Ovo (sim, e eis que a idéia toda se chama Um Ovo da Colméia do Senhor Salvador, um título que possui apenas um único motivo possível sobre a face do mundo, o qual eu levarei ao túmulo).

§ 24. Li também o livro de Roberto Grosseteste, A luz, o tempo e o movimento, também editado pela Concreta que publicou o São Bernardo. O latim impresso foi, novamente, tempo perdido para um analfabeto como eu. Mas a apresentação de Raphael de Paola foi bem melhor que a do outro livro, embora tratasse também de uma introdução a um escolástico. Raphael –a quem tive oportunidade de conhecer como colega num curso de Filosofia da Ciência em 2011– passa devidamente o seu rolo compressor na forma mentis da ciência moderna, com argumentos satisfatórios como sempre. Não perde tempo com historicismos, mas remete com razão à sabedoria ampla dos antigos em contraste com a frustrante especialização dos modernos, esses esquartejadores do conhecimento, esses açougueiros da sabedoria. Os pensamentos do próprio Grosseteste foram bastante difíceis, não é um assunto que eu tenha condições de julgar, e imagino que raras sejam essas cabeças possíveis. Mas há uma inspiração mais ou menos inevitável na declaração da luz como a primeira matéria, usada na criação das demais arrastando-se pelo universo desde o início dos tempos. Não é exatamente uma novidade, se você pensar em luz como análogo próximo ao fogo, que já era para Heráclito, por exemplo, a origem de todas as coisas. Mas é uma abordagem renovada e interessante de qualquer modo. Isso me levou até a considerar a luz como motivo material do fim dos tempos, reunindo tudo de volta a si e tornando-se ao mesmo tempo, aos seus refratários, um fogo consumidor curiosamente infernal. Eu poderia abraçar o livro como um estudo profundo, mas, parafraseando um certo vilão, “o que eu não possuo eu destruo”, complementando: transformo em algo bom. Desde Platão a contradição entre lógica e poesia precisou ser provada sem que jamais ninguém tivesse conseguido fazê-lo. Jamais farão. Eis que a poesia guarda mistérios profundíssimos e inacessíveis aos “contadores de fios de cabelo”.

§ 25. Li também o tijolo de Ken Follett, Os pilares da terra. Bom, mas não muito bom, e muito menos ótimo. O autor ajuda a nos colocar na atmosfera medieval e, com isso, ao menos no meu caso, a reaprender a valorizar nossa época tão maltratada pelos humanistas. A história é boa, mas cá entre nós não passa muito de uma novelinha mais ou menos previsível, com muito poucos momentos mais elevados. Nenhum grande suspiro, e apenas algumas risadas contidas. O volume talvez não compense, a densidade se torna baixa num caso assim, como se você tivesse que comer uma colher de manteiga com dez quilos de pão. Se há algo mais proveitoso é a vitória da Providência, que nunca é abandonada completamente no fio da narrativa, e ao fim vence. Mas é um daqueles casos em que se pensa: depois de tanto sofrimento, valeu a pena? Infelizmente nenhum personagem tem peso suficiente para assumir essa visão de superação, nem mesmo o monge Philip. Gastei dez dias com o senhor Follett, mas não sei se precisava de tudo isso. Sempre tem gente que nos cobra uma atenção inflacionada.

§ 26. Outra obra lida foi O Princípio 80/20, de Richard Koch. O autor é mais ou menos despreparado para lidar intelectualmente com o assunto que escolheu, mas compensa isso com seu entusiasmo. O Princípio de Pareto é adequadamente descrito como uma Lei do Desequilíbrio, onde observa-se que em dois grupos estatísticos causalmente ligados a menor parte das causas gera a maior parte dos efeitos. A idéia é excelente e ecoa as preferências divinas desde Caim e Abel, ecoa a escolha, a hierarquia, o melhor. O autor infelizmente ignora muito do que poderia ajudar-lhe a aprofundar seu pensamento, desde que sua profundidade intelectual, como a de muitos best sellers, é mais ou menos a de um pires de louça. Resolveu escrever uma obra de administração misturado com autoajuda. Hoje em dia se mistura tudo com autoajuda, culinária, turismo, mecânica automobilística, etc. E inevitavelmente o autor passa, da ótima inspiração pela busca da eficiência, para a superbia típica de autores desta espécie. O texto como um todo é uma colagem de pedaços, e aliás uma colagem meio mal feita, um Frankenstein colado com silvertape. Da metade do livro para diante Koch fica meio insano com sua obsessão pelo assunto, e acha que se tornou um Prometeu levando o fogo proibido para a libertação da humanidade. É tão típico da autoajuda, e tão entediante. Uma pretensão gigantesca. Ao final do livro o autor revela-se maníaco-depressivo: em resposta a indagações de leitores (seu livro vendeu muito), usa a edição mais atual para fazer mea culpa em vários pontos e acaba até concedendo mais do que deveria. Eis a consequência de não querer aprofundar um assunto antes de sair vendendo de porta em porta e enchendo os bolsos: passa vergonha de fazer corar o mármore. A obra vale pela inspiração primária oriunda da concepção de Pareto, ou seja, Koch é muito menos do que parece que se acha, é apenas um divulgador de uma idéia simples, que é a idéia da eficiência. Apenas a demonstração estatística o levou a pensar ter descoberto a pedra filosofal, mas isso é forçado.

§ 27. Por fim, li o genial Mário Ferreira dos Santos em Filosofia da Crise. Grande pensador. Uma cabeça! Sem ironias, uma cabeça. Sua apresentação do abismo entre finito e infinito e suas consequências para os seres finitos (especialmente para esta raça consciente de seres humanos) é genial. Explica a situação precária do seru mano (um dia eu explico essa piada). Vale muito ler, embora talvez a melhor parte só possa ser aproveitada por quem tenha alguma instrução filosófica, que tudo tem seu preço. No que decepciona um tanto, MFS transporta seu gigantismo intelectual para um meio-humanismo social, o que é característico de seus projetos enciclopédicos; o que até certo ponto é até estimulante, mas em seguida dá errado porque MFS se torna um crítico azedo, ou melhor, um crítico atormentado com a desqualificação humana da vida na época moderna, inconformado e como que propenso a ser revolucionário de algum modo. Não dá o mínimo sinal de esperança pela vida eterna (está lá, creio, mas dormia na ocasião), e nem de confiança na Providência divina. Há quem diga que as coisas não se misturam, mas a filosofia é o liquidificador das idéias, é preciso ligar tudo com tudo o tempo todo. É claro que vai ficar deprimido, porque vai achar que nós temos que fazer um monte de coisas, o seru mano tem que fazer tudo e mais um pouco de hora extra! É mesmo um amante de Nietzsche, o construtor impotente do homem impossível. Talvez o tanto de sabedoria que recebeu o afligisse, como não é tão raro ocorrer com filósofos que não se contentam em receber algo de Deus, precisam falar e escrever pelos cotovelos para compartilhar com os outros; eles transbordam a sabedoria, e se engasgam e se afogam em si mesmos. Dá para entender, mas o mal que pode sair disso é invulgar. E a alternativa era tão mais elevada! Se MFS desse a volta na sua filosofia da crise e ao invés de observar a sociedade, observasse o destino espiritual dos homens, talvez tivesse entrevisto a maravilhosa promessa de amor sem fim das almas humanas pela perfeição infinita de Deus. Eu lhe diria: o que é a crise afinal de contas? É o lado negativo do amor à Deus, o lado oposto: o amor por algo resulta da necessidade desse algo, e a necessidade de Deus é infinita; se você olhar a privação, parecerá uma desgraça sem fim, mas se você olhar para o que a completa e satisfaz, ficará tranquilo, porque é uma abundância infinita. Mas as pessoas abstraem o amor à Deus como uma coisa etérea, fantasmagórica e espectral, ou, na linguagem do próprio MFS, virtualizam a primeira virtude para atualizar as suas próprias misérias.

§ 28. Enquanto lia essas coisas, voltei também à Bíblia. Reli o Gênesis, Êxodo, Levítico, e logo mais reli Números. Que digo? Já passei o Deuteronômio e até Josué. Já estou em Juízes. Israel vai de lá para cá, aprende e esquece, aprende e esquece. Cada novo enviado vive e morre, e Israel teima. Os velhos morreram e continuam morrendo incessantemente, Aarão morreu, Moisés morreu, Josué morreu, e os próprios juízes já não estão se sentindo muito bem.

§ 29. Paralelamente li também o livro de Robert Wittman, O Diário do Diabo, sobre a documentação particular de Alfred Rosenberg (líder nazista). O autor tem suas limitações, mas é suficiente para o assunto. Eu só não entendi porque perder tanto tempo contando a história de Kempner junto com a transcrição de partes do diário de Rosenberg. Entendo a contextualização histórica, mas a história de Kempner não tem valor próprio, afinal este indivíduo só teve importância no caso porque, vamos falar, roubou simplesmente o documento histórico e o manteve consigo até morrer, ou seja, foi um pulha histórico, o que ironicamente satisfaria o senso nazista de juízo sobre os judeus como ladrões e manipuladores. O próprio Kempner é retratado como alguém de moral duvidosa em várias partes, claramente, e sua história, por mais aventureira que tenha sido, não tem a importância histórica do testemunho pessoal de Rosenberg. Não que Rosenberg seja grande coisa, mas era um retrato num gabinete em Berlim. Suas disputas com Goebbels mostram o ninho de ratos que era aquele negócio. O estoniano era um idealista desmiolado, uma combinação mortífera. Confundiu Hitler com quem ele achava que era, um herói pessoal (e a grande proeza de Hitler foi se fazer de necessário e especial a todo e cada um que lhe cercava, como uma Afrodite seduzindo suas vítimas uma a uma num jogo doentio). Toda vez que a Alemanha ia numa direção estranha, o “filósofo” do Reich se fazia de donzela traída em seu diário, e jogava veneno em quem podia, poupando é claro a sua musa. No fim, já em Nuremberg prestes a roçar a nuca na corda, disse sem espanto que Hitler não foi quem deveria ter sido, etc., uma previsibilidade entediante. Tudo dá errado, a culpa não é minha, claro que não é. Mas alguém me perguntaria: porque as aspas? Porque aspei o filósofo? Porque é obrigação do amante ser inteligível, e ninguém conseguia ler Rosenberg; Hitler elogiava O Mito do Século XX de frente, e pelas costas já liberava assim que possível o bocejo contido, o tédio insuportável. Um filósofo é mestre de um sofista, e vejam que um sofista é um belo discurso, uma bela palavra. Travar as almas da audiência, o que é o pós-doutorado da retórica, é a pré-escola da filosofia. Rosenberg era um chato. Perigoso, terrível, e criminoso milhões de vezes, mas sobretudo e antes e ao fim de tudo, um chato completo.

§ 30. Mas li mais, eis o fato cru. Quem diria, li até todo um improvável Código de Direito Canônico. Tijolaço, claro. Mas o volume engana: metade é latim. A volumosa erudição da Igreja engana os incautos, porque está tudo dobrado. Tudo tem latim junto, que mais de meia humanidade certamente não lerá jamais, nesta ou noutra vida. Se você é um Zé Mané analfabeto como eu, não precisa do latim, então lhe resta ler apenas metade daquela massa desafiadora. E as massas de edições bilingues enganam como a grávida de Taubaté.

§ 31. Mas ainda assim, metade da metade, ou seja, metade do que está na língua de Camões, é de uma inutilidade cultural bárbara, porque é a burocracia eclesiástica pura e simples: quem manda, quem obedece, quem está em cima e em baixo, uma chatice infinita. A única curiosidade é esse sabor romano, porque não sei quantos títulos imitam os nomes de autoridades pagãs das épocas dos imperadores, ou seja, há um flerte ao menos poético com a velha Roma. Adultério? Quem julga é Deus. Os Livros III e IV são os bons, Do múnus de ensinar da Igreja, e Do múnus de santificar da Igreja. Falam do ensino da doutrina, e dos Sacramentos. É só aí, já depois da metade da estrovenga, que se começa a explicar para que serve toda a parafernália. É interessante e curioso. A autoridade que se põe é evidente e saborosa, nutritiva: estamos aqui para fazer isto e mais aquilo, etc., etc, com pontos finais. Isto é de um ânimo estranho à nossa época, precisaríamos mais disso. Precisamos da invasão da autoridade moral, urgente. Hoje em dia a Igreja tem vergonha de ensinar o mundo, e talvez até de querer santifica-lo. Mas o Código diz lá, do múnus de ensinar, do múnus de santificar, etc., etc. E leiam, se quiserem, e verão as palavras colossais, olímpicas: “Todos os homens TÊM O DEVER DE PROCURAR A VERDADE, naquilo que se refere a Deus e à sua Igreja, e, uma vez conhecida, têm a obrigação e o direito, por lei divina, de abraça-la e segui-la” (Cânon 748, 1). Ler isso dá coceira de bater na porta do vizinho. “Boa tarde, sádico ou masoquista?”, ao que responde o sincero: “masoquista”. Respondo: “ótimo, já apanhou hoje? Como anda? Mas venha cá, você sabia de uma? Todos os homens têm o dever de procurar a verdade”. Dá vontade.

§ 32. O número 748-2, porém, nos põe na Igreja real, que não é um clube de futebol graças a Deus: “Jamais é lícito a alguém levar os homens a abraçar a fé católica por coação, contra a própria consciência”. É claro! Mas espere, precisava escrever isso? Então quer dizer que há uma atriz, uma outra igreja por aí, colocando facas em pescoços e ameaçando infernos eternos. Eis o fato inaudito.

§ 33. Li, ainda (estamos em Maio, raios, suportem a lista), Molière: O Misantropo. Alceste, digo logo, é um justo hipócrita, se isto é possível. O homem escancara a verdade, se lhe faz seu amante, mas convenientemente não se põe no mesmo barco, e se separa mentalmente como se não fosse nada demais. Uma separação falsa. Alceste está amarradíssimo, desde o seu amor à uma bela, até a existência de suas meras solas de sapato. Mas ser misantropo, como anti-humanista, não é ser justo hipócrita, é ser um sobrevivente na selva. E eu digo a quem quiser ouvir, “sou misantropo, muito prazer”, não-sociopata, sobrevivente recordista, amante do despudoramento mental e da pornografia das idéias. O Alceste de Molière poderia ser isso, mas era melhor fazer troça do tipo estranho e no máximo elogiar algumas sacadas, do que lhe visitar as entranhas mais íntimas, como um cirurgião da alma, e corajoso escancarar o coração do justo hipócrita para lhe descobrir mistérios enormes. Mas há gênios covardes, autores imensos que vão até ali e não adiante.

§ 34. Por fim, A cabra vadia. Rodrigues, Nelson. Eletrochoque das letras. Um coração enorme, e uma ternura inenarrável. Cientista do amor real. Cada alma é uma flor que o Nelson conta, trágico, cândido, sincero. Imitá-lo não é mais uma escolha: já é todo um processo irreversível. Não há vergonha no quase plágio, mas há espanto, porque como pode não haver hordas de imitadores do Nelson em cada esquina, falando o Brasil? O Brasil precisa ser falado (na verdade, eu diria que precisa ser exorcizado, mas não há clima para isso), precisa ser contado e descrito até o último crime, até o último escândalo. E onde estão os nossos nelsons uma hora dessas? Fazendo o quê? Imitando a quem? E li Nelson com todo um prazer único, e cada repetição era como um novo coito literário, a repetir orgasmos anteriores, da própria obra ou de O óbvio ululante, ou ainda de O reacionário, já devidamente degustados até a última palavra anos atrás. “Mas e o teatro, como fica?”, alguém me perguntaria. Eu não sei. Um amigo me bateu o telefone esses dias: “Mas você está lendo o Nelson Rodrigues? Eu não sabia que gostava. Vestido de noiva?”. Digo que não, só crônicas como sempre. E o amigo descobre que há vastas crônicas não lidas do maior frasista da nação, inimitável, imenso. Como é bom descobrir tesouros disponíveis, como uma Tele-Sena premiada que só precisa ir ali na esquina para sacar.

§ 35. Não há mais tempo hoje, explodi mais que o triplo. E não fiz quase nada. Só me resta passar a sacolinha humilde, e lhe perguntar: já comprou o meu livro? Se não comprou, compre hoje, compre agora, compre já. Na Amazon, baratinho, é só procurar o meu nome na loja. Tem um livro por enquanto: Diário de 2016. Baratinho. Ajude o escriba. Pode-se perguntar: “Mas e o Brasil?!”. Eu não tive fôlego para os escândalos da semana. Preferi Molière, preferi o Nelson, e pode me chamar de alienado que eu não ligo; de gente burra, já sabem, só se espera a vaia. Mas Maio vai seguir e o Brasil vai continuar com estragos cotidianos perfeitamente narráveis. O Brasil é um perpétuo barco à deriva na tempestade, com a tripulação bêbada e o capitão dormindo roncos de um V8 americano. Sempre haverá notícia trágica e, mais, e melhor, sempre haverá a piada e a comédia.

Esse non videri,

RS

On secret powers and our desire for freedom

There is no substantial difference between modern state secret services and the traditional secret societies, since the first ones have been founded on the base and in the service to the second ones. All the ordinary and humble people of the earth want to be free from submission to men tiranny, and this desire collides directally with the desire for power of the slave masters of all times. It is nonsense, and very non recommended, to rely on the secret as a way to fight the secret powers of the world, since this is the territory of the enemy, where he drives and manipulate things easily. Our desire for freedom, thereso, can only be satisfied by a superior power to which we are submited, and in this way we became sons of God wanting His power to release us from captivity. Don’t ask for malice when you can be saved by innocence. But you must believe in innocence in the first place, and to do this you must feel all the putrid stench that comes from the secrecy. To love the Truth with all your heart, you must hate the secrecy, the lies and the manipulation with all your heart. You know, deep down there, that you want to live in the light, not in the darkness. After knowing this, why will someone keeps the desire for hiding things, if not in the service of Hell?