Banalize e não se preocupe

§ 26. Recebo uma ligação imaginária. É Eberhard: “preciso que você me ajude a ser um idealista”. Eu peço que me explique a sua situação. Não é assim que funciona; você não liga para alguém pedindo ajuda para ser idealista sem mais nem menos. Especialmente num sábado de manhã, quando escolhemos propositalmente aquela gostosa e rara lentidão descompromissada. Esse tipo de telefonema estraga tudo. Ele me explica que está estudando a apostila O abandono dos ideais, de Você-Sabe-Quem, e pergunta se eu conheço. Digo: “sim, conheço sim, mas qual é o seu problema? Não está já tudo muito bem explicado?” E entao o amigo revela as suas abissais preocupações. Confessa, enfim, que teme não escapar da Banalização.

§ 27. Tento dar apoio como posso: “amigo, não tema, você é um cara suficientemente idealista para mim, não vejo maiores problemas…” Mas ele me corta quase aos prantos e explica a convulsão de sua consciência: “Não é o suficiente! Não é! Eu não sou ambicioso, sonhador, não tenho propostas para dar conta de um Ideal de verdade! E quando tento insistir nisso, eis a minha desgraça, caio na Exaltação Imaginativa! Me ensine a ser um idealista verdadeiro, esse ser equilibrado, maduro, temperado, consciente. Você tem que fazer isso por mim.” Daí questionei a razão de ele achar que eu seria capacitado para tal coisa, sendo que eu mesmo não me considerava um primor de idealismo. Disse ele que confiava em mim, e achava que eu tinha escapado da armadilha, que não tinha nem banalizado e nem exaltado. Na minha cabeça tenho pronta uma resposta indizível: “não, Eberhard, eu só tenho mesmo é mais o que fazer com a minha vida.” Mas isso ficou comigo enquanto pensava no que seria verbalizável.

§ 28. O mais rápido que pude organizei os pensamentos e montei uma resposta: “amigo, nos seus termos eu fico um pouco travado. Porque tenho comigo que já não se trata de ser idealista, mas sim realista, porque o cristão realista recebeu uma promessa de vida já tão fantástica que é de fazer qualquer Ideal humano corar de vergonha e humilhação. Salto por salto, se você quer mudar eu sugiro matar o homem velho e escolher o escândalo do amor cristão. Se tem algo que eu posso testemunhar é este amor escandaloso de Cristo por nós. Aceita isso e largue o resto, por que não?” Ele demorou do outro lado da linha. Por um momento achei até que tinha desligado. Mas estava lá ainda, e finalmente respondeu: “eu sei, mas este é um outro problema, não é uma questão espiritual, é uma questão de vocação de vida, desta vida aqui. Isso que você está falando não resolve o meu problema.” Neste ponto, confesso-lhes, comecei a ficar irritado. Mas me contive. Tenho que achar uma saída.

§ 29. Essas são as horas delicadas. Porque para levar o cidadão aos pés de Jesus parece ser necessário, inevitavelmente, humilhá-lo um pouco, dar um tipo de choque qualquer. Pensei no tempo, curador universal das obsessões, e na saída mais fácil. Disse-lhe: “olha, eu não sei o que te dizer por ora, mas tenho certeza que essa crise aí vai passar, você não precisa ficar assim. Arrume uma distração, vai passear que o sábado está lindo, e quando você ver, tudo já passou. A alegria da vida afasta esses encostos.” Pensei que ele ficaria feliz com a sugestão, mas a minha tentativa gerou o efeito inverso ao pretendido. Sentiu-se até ofendido comigo: “de todas as pessoas eu liguei para você, porque de todos eu sabia que você era alguém que não me viraria as costas e me entenderia. Talvez eu estivesse errado…” Se, por um lado, esse tipo de drama não tem o menor efeito em mim pelo lado emocional, por outro lado a realidade é que eu tinha um amigo que precisava de mim. De súbito me veio então uma idéia, e eu disse: “quer saber, Eberhard? Banaliza. Faz isso, banaliza mesmo. Banalize e não se preocupe.” Ele ficou chocado. Mas insisti e ainda completei: “Banaliza e qualquer coisa eu assumo a responsabilidade.”

§ 30. Ele não podia acreditar. Não que estivesse triste com a sugestão, pelo contrário: “olha, eu até estava querendo fazer isso mesmo, mas fiquei com medo de ser como a raposa de Esopo…” Desta vez eu que cortei: “esquece esse negócio, pode banalizar e se algo te ocorrer de mal por causa disso, eu assumo a responsabilidade.” Ele estava aliviadíssimo e logo me agradeceu com bastante entusiasmo. Estava, finalmente, pronto a viver um sábado maravilhoso, e eu fiquei feliz por ele (e por mim também, cá entre nós, que daqui a pouco já estou atrasado para ir dar uma aula, não-imaginária inclusive). Mas lhe ocorreu, fatalmente, a pergunta final: “posso pelo menos saber como você assume assim tranquilo essa barra?” Disse-lhe que podia saber sim, e que era muito simples.

§ 31. Expliquei: “meu caro Eberhard, entendendo os seus termos eu me vi na sua pele e pensei a coisa mais óbvia do mundo, quero dizer, que eu próprio já banalizei faz tempo, e graças a Deus. Em termos do que se chama por aí de ‘vida intelectual’ sou banalizadíssimo, não estou realmente valendo mais nada, e estou mais propenso a acreditar na honestidade de um vendedor de carro usado do que na de um intelectual idealista. Neste campo sou muito sem-vergonha, e um inimigo declarado do que podemos chamar de Humanismo de Atenas, a soberba da razão humana que só leva à ruína. Procure o Mestre dos mestres, Aquele que veio por nós sem idealismos, mas com o todo o Poder e Autoridade. Ele é o Caminho. O resto, não se preocupe, é superbia.” Ele pareceu ainda inseguro: “tem certeza? Fora de Jesus é tudo superbia?” Sim, respondi que podia ficar tranquilo: “tudo superbia, Eberhard, tudo superbia.”

Esse non videri,

RS

Anúncios

Diarista real-time

§ 15. Na época das redes sociais me descubro um tipo novo, uma espécie de diarista real-time. Como se sabe, a época dos blogs é essa em que nunca tanta gente com tão pouco a dizer falou tanta coisa para tão poucas pessoas ao mesmo tempo. Os antigos já sabiam, e muito bem, que a capacidade de falar não torna ninguém inteligente, mas tem gente que não entendeu isso ainda até hoje. Palavras, para mim, são como pincel e tinta nas mãos dum pintor: é para fazer arte, e não qualquer porcaria, mas uma arte feliz que cante a Glória. Não é qualquer porcaria mesmo. E eis que vale a pena ser um diarista real-time. O negócio não é ser lido, o negócio é dizer o que precisa ser dito. Os bons frasistas estão conversando com Deus, quer a platéia perceba isso ou não, aliás, quer exista ou não uma plateia.

§ 16. Mas é difícil acalmar os corações dos inquietos apaixonados pelo sucesso. Ninguém quer falar “só” com Deus, parece muito pouco para os ambiciosos. Querem falar ao mundo, querem falar urbi et orbi. Não querem só dizer algo bom de ser dito, querem uma carreira, querem uma posição, querem pertencer a algum raio de coisa neste mundo. E então talentos inteiros, grandes biografias potenciais, artífices escolhidos pelo Espírito, fazem filinha em evento de coaching, lêem livros de auto-ajuda, desenvolvem seu “network”, colecionam diplomas e entram numa Universidade para escrever teses homéricas que jamais serão lidas. Consomem toda uma indústria de dicas, especialmente aquelas listas de “5 coisas para deixar de ser trouxa”, “10 meios de ser mais produtivo”, “como despertar o seu eu criativo em 7 passos”, etc., etc. A estrovenga não tem fim. Chesterton já sabia (logo mais falo dele). E tudo o que eu queria é que dissessem algo bom de ser dito, verdades inegáveis. E só isso. Já é muito! E custa muito? Custa apenas o desligamento das efemeridades e aparências, custa mijar na fogueira das vaidades. Mas aí é como se diz, o que é remédio para um é veneno para outro, e o amor que salva este é o mesmo que condena aquele. Para quem tem paixão por pertencimento a simplicidade de uma beleza ou de uma verdade é insuportável.

§ 17. Falei de ambição, mas o nome técnico do negócio é cobiça. Irmã da avareza, para quem não sabe. Porque o desejo de ter vira depois, naturalmente, o desejo de manter. Essa dupla dinâmica é maníaco-depressiva em sua essência, mais ou menos como os dragões de castelos de contos de fadas: conquistam, coléricos, vastos tesouros para depois deitar em cima de sua coleção numa profunda melancolia. E ai daquele que se mete na frente para catar uma moedinha.

§ 18. Isso sempre existiu, é verdade, mas os tempos inauguraram bestialidades inéditas dentro do gênero, porque o seru mano é criativo, como se sabe, e não pode deixar de se emporcalhar mais um pouco a cada nova geração. Dizia eu que Chesterton já tinha tomado notas a respeito do assunto, e isto foi quando escreveu The fallacy of success. Mostra os tolos de sua época perseguindo o fantasma do sucesso. E ainda foi bonzinho, porque G.K. era um sujeito generoso, um coração imenso. Mas ele ficaria chocado com nossos dias atuais, com a nossa época idolátrica e narcisística ao extremo, e chocado principalmente com a tristeza da coisa toda. Todo mundo quer um sucesso para chamar de seu, porque não basta ser amado por Deus, isto parece muito pouco. E assim caminha a passos largos a História da Queda.

§ 19. Há sempre o idiota da objetividade, como diria o frasista, que explicaria a tese de Chesterton pelo seu catolicismo anti-progressista, pelo seu medievalismo ultrapassado, etc. Responder a este tipo de colocação exige a renovação constante da nossa paciência, e por isso é uma coisa santa e boa de se fazer. Até um quadrúpede, se questiona algo sinceramente, merece uma resposta. Digamos, para sermos bastante simples, que Deus se alegrou de Davi e de Salomão em suas riquezas, posses e prazeres, e não foram estas coisas que geraram a corrupção, porque não é o mundo que toca o coração, é o coração que toca o mundo. Todas as alegrias eram santas até não serem mais vividas por causa de Deus, mas pelo homem separado. Eis a questão. Todos os sucessos davídicos e salomônicos eram coisas boas aos olhos de Deus, já que eram em primeiro lugar dons dados por Ele mesmo. Porque para quem não sabe –ou para quem ainda não entendeu– a felicidade do homem canta a Glória de Deus. Não é o progresso do homem que o arruína, é a separação de Deus, é o adultério. É não assumir que todas as coisas que nos fazem bem vêm da bondade de Deus, é ser desobediente, é ser ingrato. O problema não é ser bem sucedido, o problema é esquecer de quem veio o sucesso, em suma, é ser adúltero. Quem com Ele não junta, separa. E era disso, ao seu modo, que Chesterton falava, embora aplicando a sabedoria cristã apenas ao caso local dos vendedores de sucesso.

§ 20. O problema é que o crítico da nossa época, esse sujeito que pensa com o fígado, quer encher o saco e não quer entender nada. Não é que não lê direito o Chesterton apenas. Se fosse isso ainda estaria bom. Mas ele não quer saber de nada. Não lê os livros da Palavra, não lê os livros de Samuel, nem os livros de Reis. Pensa consigo: “para quê, se já nasci tão depois, tão mais pronto e acabado?” Simplesmente não há tempo para ler a Palavra de Deus. Deus que espere e não amole muito. Há sempre um compromisso, uma urgência, uma fadiga ou uma enxaqueca. O que nos consola é que essas pessoas são suficientemente avisadas do que lhes sobrevirá, quando cumprimos o nosso papel de pedir que reflitam, que pensem bem.

§ 21. O sujeito que não quer entender nada e quer saber de tudo é como o amante de imitações, de quem Platão tanto falava. Platão é um também que não é lido ou é lido muito mal e porcamente. Há os catadores de miudezas e acidentalidades que deixam o elefante passar bem na frente dos seus narizes e não fazem nem idéia porque estão olhando para baixo, como se diz, com os dois pés no chão e as duas mãos também. Uma imitação é uma coisa boa quanto mais aparece nela a bondade do que é imitado, e naturalmente a imitação vai sumindo dentro do imitado, mais ou menos como o “transforma-se o amador na coisa amada” de Camões. Era disso que Platão falava quando falava de idéias. E este era o objetivo de sua filosofia: fazer as pessoas tirarem o focinho do chão e olharem para cima um pouquinho. Uma missão quase impossível, porque o seru mano tem a cerviz dura. Quando Deus veio em Pessoa, apanhou, foi xingado, condenado, torturado e crucificado. A maioria não quis –e parece que ainda não quer, infelizmente– uma vida simples e boa. E essa conversa mole de sucesso para cá e para lá é mais uma prova disso.

§ 22. Porque o sucesso a ser conquistado é uma imitação, e não passa disso, do sucesso verdadeiro que é concedido pela Graça. Tanto é uma imitação que os honestos, mesmo dentro dessa atmosfera tão plastificada, assumem o papel decisivo da fortuna, que nada mais é que a prima pagã e ignorante da Graça. Outro dia até o Tony Robbins, esse titã da indústria motivacional que é como uma mistura de Robocop com Britney Spears, assumiu que era um sujeito afortunado e grato sem merecimento. E lá no fundo mesmo ele deve saber que esta é a verdadeira razão de felicidade: ser amado sem merecer, por amor gratuito de fato. Pena que poucos agraciados testemunhem isso com a franqueza que deveriam, para honrar o Nome do seu Benfeitor acima de tudo. Mas vejam vocês, mesmo nesse ponto estou falando de algo distante da mente comum, que traduz a imitação do sucesso em termos quantitativos bastante vulgares, isto é, em termos financeiros. Precisamos falar disso também.

§ 23. Porque esta é a imitação mais crua e tosca que existe. O dinheiro representa o poder de possuir um bem qualquer (que já é por si uma imitação parcial de um bem superior), mas ele mesmo por si não tem nome, não tem antecedentes nem consequentes definidos. É um quase nada perseguido como se fosse o tudo da vida. É uma espécie de pegadinha espiritual. E o segredo para não ser capturado é tão óbvio quanto desconhecido de uma multidão: é buscar os bens finais da existência por amor a eles e não os meios de conquistá-los como objetos do domínio humano. É obeceder a hierarquia e a ordem natural da realidade. Pois o nosso problema, como sempre, é que amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Nosso Mestre já explicou tudo. E continuamos amando as imitações, e as imitações de imitações… onde vai parar esse negócio?

§ 24. Vai parar no Reino do Fruto da Separação e na “Dialética Histórica”, esta entendida num sentido muito particular, como tentarei explicar. Separados da Graça por orgulho masoquista os homens são liberados a perseguir as suas ambições mais loucas; cada um quer ser um novo Gordon Gekko, sem esses reles freios morais usados para botar medo em pessoas ingênuas e covardes, etc. A soma das ações impremeditadas, amorais e imorais de uma quantidade substancial da população causa tamanho malefício na ordem social que gera necessariamente uma contrapartida de desejo de normalização e de justiça, desejo esse que também é canalizado de forma orgulhosa em propostas revolucionárias. Isso é um processo mais ou menos normal, e é, digamos assim, o videogame do diabo. Primeiro o Tinhoso é um Liberal. E não se enganem, o Liberalismo é revolucionário até a medula, é luciferino até dizer chega. Pois bem, esse Liberal propõe que se tirem todos os grilhões morais da sociedade. E de fato há sempre um peso e um engessamento desmedido por causa do legalismo moralista dos fariseus sempre presentes como representantes da moral concreta, e por isso a proposta pega. Só que isso trará necessariamente desordem, caos e anarquia social, em suma a lei da selva dentro da sociedade humana, os mais fortes batendo e escravizando os mais fracos. Ao que é necessária uma resposta rígida de ordenamento e normalização com base na justiça social que impeça que uns sejam tiranos sobre os outros. E esta será a revolução socialista, comunista, etc. Troca-se uma tirania por outra, e o ciclo nunca termina porque há sempre mais gente para sofrer e para morrer. Por isso é muito natural que os grandes tiranos criem eles próprios as suas revoluções para controlar de antemão uma oposição fabricada e para canalizar todos os espíritos verdadeiramente antagonistas dentro da sua dinâmica. Essa porcaria toda já está muito bem explicada faz tempo, mas não adianta, o povo continua: “sou liberal”, “sou socialista”, “sou de direita”, “sou de esquerda”, “sou conservador”, “sou progressista”, etc., etc. Hegel ri, onde quer que esteja.

§ 25. Enquanto isso o humilde glorifica de pé o Deus Vivo. Porque quem é humilde não tem tempo a perder sendo importante, já que está suficientemente ocupado sendo feliz amando a Deus e sendo amado por Ele. O desafio do coração do homem é deixar de ser besta, de querer ser alguém; e aí finalmente o sujeito se abre para ser alguém de fato, porque será alguém diante Daquele que É. Tudo isto é de uma simplicidade quase obscena, e ao mesmo tempo de uma sutileza muito dócil e delicada que o olhar duro e malicioso simplesmente não consegue enxergar com sua crueldade brutal. Por isso se diz que Ele é Bendito eternamente por ocultar isso dos grandes e revelar aos pequenos.

Esse non videri,

RS

Que será, será

§ 1. SERÁ que eu devo voltar a escrever no Facebook? Quem sabe? Usar como um caderno de notas, um esboço literário? Será que devo ser um escritor cristão, ou melhor, um cristão escritor? O que será? Que será, será… O que será, será… O futuro não é nosso para vermos… Que será, será… O que será, será.

§ 2. Mas o hoje, que já foi, foi um dia belíssimo. Graças a Deus! Deus me liberta. Ele se apieda de mim e me leva ao prazer de ser para Ele. Que resta, nestes casos, além de louvar o seu santo Nome? Pouca coisa ou quase nada. As outras chamadas felicidades, perto desta, são tolices.

§ 3. E mal digo isso e o terrorista de Pyongyang, a obesidade infante, solta mais um balístico. Vivemos em tempo de orações aflitas, mas não podemos deixar de ser gratos, nunca, jamais. Hoje vivi um inverno de 40 graus, mas com sombra e brisa e, mais que isto, com o repouso daqueles que conhecem Jesus. Ai dos que se atribulam sozinhos e querem dominar a vida, inclusive e principalmente os que querem fazer isso em nome de Deus. Os obedientes não cobiçam a vida, eles a ganham, e recebem a vida para a Glória Dele, porque a nossa felicidade canta a Glória de Deus.

§ 4. Hoje eu escrevi uma cartinha a um amigo meu, aquele, para quem se lembra do rolo, que me incentivou a obter um diploma que atestasse publicamente a minha alfabetização. Um dia preciso contar o desfecho desta história. Mas hoje vamos ficar com a cartinha mesmo. O seu título seria (e digo “seria” porque acabei falando o seu conteúdo pessoalmente e não precisei de maiores formalidades) “Me deixe ser feliz com Deus”. O subtítulo poderia ser: “Não queira que eu compre com medo o que posso ganhar por amor”.

§ 5. Dizia eu o que segue: “Agradeço a boa intenção de me ajudar com a questão escolar, e eu entendo que isto faz sentido na sua cabeça de alguma forma, mas esta não é e nem será jamais a minha vida. Graças a Deus. Eu preferiria, se necessário fosse, voltar a São Paulo e trabalhar num emprego como o que tinha antes, do que participar disso, porque aquela vida que eu abandonei era ainda muito mais digna e feliz do que a miséria da submissão ao Leviatã. Não é justo, eu sabendo o que sei, e sendo abençoado como sou por Deus, me submeter ao Estado desta forma, pedindo que a autoridade estatal me reconheça como capaz disto ou daquilo, e implorando para que me dê um lugar seguro dentro da sociedade. Quem me deu a vida foi Deus e ela pertence a Ele, e glória a Ele que é uma vida muito boa, muito digna, cheia de bênçãos, a qual não mereço nem um pouco, mas que recebo gratuitamente para glorificar cada vez mais o santo nome Dele. Que indignidade imensa seria agora buscar segurança no Estado, que grande adultério contra o amor Dele! Estaria como Israel liberto, vivendo do maná e olhando para trás com saudades do Egito, traindo o amor de Deus. Amigo, eu não posso fazer isto. Se me resta dar um testemunho final a este respeito, é o de que a vida passa muito rápido para que percamos tempo cultivando medo em nossos corações e nos submetendo às seguranças e garantias deste mundo, porque este mundo passará num piscar de olhos meu amigo, tudo passará, e só restará o que cultivamos no coração para a Eternidade, pois nós viveremos eternamente para amar e nada mais. O medo será extinto junto com este mundo, para a glória de Deus. A Paz do Senhor esteja contigo.”

§ 6. Não sei se me entendem. Como eu posso ser quem eu sou, com a vida que tive e que tenho, e ficar de joelhos diante de uma potestade?

§ 7. Como posso promover o Reino de Consciência e ao mesmo tempo trair a confiança de Deus buscando as garantias e seguranças do Reino do Fruto da Separação?

§ 8. Como posso honrar a misericórdia que Deus tem comigo submetendo os outros a me servirem e a serem obrigados a me aceitarem socialmente, usando para isso o peso encarnado de uma entidade demoníaca?

§ 9. Como posso viver um pedaço da minha vida separado de Deus, reservando-me um domínio e uma parte desligada da Sua presença?

§ 10. Tudo isto deveria ter sido ainda mais óbvio para mim do que foi (pois já tinha minhas suspeitas acesas ao longo do processo), mas nós prudentemente devemos deixar as coisas amadurecerem e os frutos aparecerem naturalmente. Foi o que fiz, e hoje tive a minha colheita, porque Deus não tarda no favor de seus filhos. Glória a Deus nas alturas!

§ 11. Nosso problema é que nós amamos pouco. Uns e outros dirão que não, que isso e mais aquilo. Mas eu tenho a prova de que amamos pouco, e ela é facilmente demonstrável: contabilize em sua mente a quantidade de pensamentos, idéias, raciocínios, etc., que você alimentou por medo. Vai contando e veja consigo mesmo como o medo lhe move na vida como se fosse um rio e você um peixe dentro dele. Mas assim, também, e tanto quanto queiramos, é a nossa relação com Deus pela Fé, pois podemos também dentro Dele navegar como peixes num rio. Vejam bem, não no mundo. Porque o mundo não é um rio para nos jogarmos nele. Não. O mundo é como um peixão, uma baleia imensa, ou vários peixões, navegando no mesmo Grande Rio que é o Livro da Vida cujo Autor habita nas alturas. E eis provado, aí mesmo, a falta de amor: escolhemos o medo facilmente, rapidamente. E esquecemos de amar o nosso Deus e de confiar Nele.

§ 12. Não fazemos isso porque somos uns cagões de natureza, mas é que ao redor há uma massa inteira pusilânime e infeliz de idéias produzidas pelos mais variados terrorismos, e essa massa nos arrasta consigo. Essa gelatina suja é que polui e soterra o Rio da Vida, como uma barragem de Mariana estourando no Rio Doce. Nossa parte não é a de ser covardes natos, mas é a de escolher a covardia a cada dia, dizer todo dia um novo sim ao medo do futuro.

§ 13. Pior ainda, chamamos o medo de prudência, porque não basta esquecermos de Deus e perdermos a Fé Nele, temos que justificar a nossa atitude com as mais louváveis e beatas razões humanas. Ah, o seru mano. Do que ele não é capaz? Pega até mesmo a Palavra de Deus e faz com ela o diabo, tornando todas as opções dos corações não atos livres de amor (que são a nossa razão de ser), mas ações com embasamento bíblico, fechadinhas, bonitinhas, tim tim por tim tim. E eis que a Palavra serve de escora para argumentos humanos explicarem o próprio adultério contra Deus! É muito para a minha cabeça.

§ 14. Meu leitor pode se perguntar a essa altura o que é que está ganhando com essa estória toda. E eis que há um ganho leitor, sim. Aliás, depois de mim, se tem alguém que está saindo ganhando nesta onda é você. Porque eu fui liberto, mais uma vez, do cativeiro. E você, leitor, ganhou um escritor prolixíssimo que vai te entupir de palavras até elas saírem pelo seu nariz. E todas com sentido! Todas por amor, porque é isso que vale a pena fazer. Só façam, meus amigos, aquilo que faz sentido fazer eternamente, ou seja, amar, amar, amar. Porque o resto será jogado na grande privada do Nada daqui a pouco.

Esse non videri,

RS

São Bernardo com café e pão na chapa

§ 1. Fui enviado caçula e canceriano para ser mimado e sofrer santas e incompreensíveis humilhações, para poder aprender um pouco da Lei do Amor, regra total e infinita de Deus. Não sei se me entendem. Nenhum pai quer estragar o filho mimando, mas quer ao mesmo tempo amar de fato, e isto quer dizer gratuitamente. Não há razão de medida entre amor e rigor, o amor vence sempre e vence fácil, porque até o bom rigor é amoroso, e o rigor justo está dentro do amor como uma gaveta dentro dum armário. O amor é completo, total e absoluto. Você imagina de que é capaz, então, um amor infinito! Todos os pais e mães são convidados a essa reflexão, porque se são capazes de matar e morrer por seus remelentos e imperfeitos pimpolhos, imagine então o que o Deus do Céu é capaz de fazer? E eis que Ele foi capaz de nos dar o Seu Único Filho no seu Amor total e escandaloso por todos nós.

§ 2. Há quem não aceite, claro. Aliás o Crucificado mesmo, amante total e absoluto, já teve sua sentença proferida contra o escândalo de sua entrega, de seu amor. O ser humano já se pronunciou, já julgou e condenou. Simplesmente não é aceitável, e não parece decente e respeitoso um amor tão grande e tão nu, tão nobre e tão humilde, tão rico e tão simples. Desde Adão e Caim até os dias de hoje a não aceitação do amor é uma prerrogativa humana inalienável. É uma conquista dos direitos do homem, é uma conquista do seru mano: não aceitar o amor. Há quem prefira uma Lei forte que ensine pelo domínio do poder e da dor, e estes serão os eternos participantes do sadomasoquismo. (Pense bem no inferno de chamas eternas: não é um clube sadomasoquista? E não estarão lá eternamente aqueles que amam, acima de tudo, o sofrimento seu ou do outro? E não é, portanto, o inferno um fruto do amor também ele? Surpreendentemente o fogo do inferno, até ele, é um fogo de um ardente amor, o amor pela recusa do próprio amor, o escândalo do escândalo.) Sempre há quem prefira a força e a dor. E assim já o velho Israel, esse povo de “cerviz dura”, gélido como uma Turandot de Puccini, de tempos em tempos se prostituía com deuses que não eram o Deus do Amor, e eis que ganhavam tantas vezes quantas eram precisas as durezas com que tanto ansiavam. Quem ama apanhar pede para apanhar, e que amor recusará o sofrimento a um masoquista sincero? Há sempre quem prefira o poder da dor contra o amor. E, como dizem os americanos, se o sapato entra no pé você deve calçá-lo: se para ser filho de Deus você quer tomar porrada, se esta é a sua escolha, então seja feita a tua vontade e a tua felicidade mais plena.

§ 3. (Ser feliz, mesmo, para valer, e até o fim, é ser amado sem merecer. É a situação real do ser humano, ao fim e ao cabo; e mesmo a mais alta crista, se um dia quiser se humilhar, entenderá isto. E o próprio São João chorava porque sabia que o Senhor morria também por ele. O amor ao obediente é menos completo que o amor ao desobediente, porque este tem perdão junto, tem um bônus. O amor ao fraco aumenta a compaixão, enquanto o forte se isola em si. E o obediente se espuma de ódio e morde a fronha, porque é menos amado, no seu rigor, que o mimado desobediente que recebe um amor gratuito. Pensa: comprei, com custo para mim, o que podia receber de graça. Mas quem mandou querer merecer alguma coisa em primeiro lugar? Quem disse para fazer comércio espiritual? Quem mandou se inscrever no infernal clube de sadomasoquismo? Quem lhe ensinou estas coisas?)

§ 4. Sempre há quem não aceita o amor. E se você não aceita o mimo para si, eis a fatalidade, provavelmente não aceitará o mimo para o outro. Se, ao invés do mimo amante dos privilégios, prefere ganhar o direito da Lei, você nunca tolerará o vizinho que é amado sem merecer. E esse amor lhe ofenderá profundamente, de forma abissal. E assim o diabo desde o início invejou o amor que Deus deu ao homem, “caiu do Céu como um raio”, e se tornou inimigo desse ser mimado e privilegiado. Sim! Um ser amado é um ser detentor de privilégios imerecidos, sempre, sempre. Em seguida Deus amou, mimou e privilegiou Abel (porque Deus é Amor e Ele ama incessantemente cada geração remelenta), e eis que Caim, antes de pedir e descobrir um mimo todo seu, vem dar a sua marretada no amor alheio, e o sangue do amado começou a escorrer já ali e não parou até hoje. Caim queria ser amado também? Será que queria mesmo? Ou queria a liberdade de amar ou não amar, de amar menos ou amar mais, enfim, queria a liberdade de ser simplesmente Caim, assim como Lúcifer queria apenas a liberdade de ser Lúcifer? Há quem só queira ser quem é, sem obedecer a Lei do Amor. O ódio odeia, por excelência, o amor que ama. E o mimo escandaliza e tortura eternamente a crueldade.

§ 5. “Ou vocês vivem pela Lei, ou morrem pela Lei”, disse alguém importante um certo dia. Só que a Lei era Amor, já era isso e nada mais, mas o povo de cerviz dura não aceitaria jamais esse mimo. Não aceitam até hoje, aliás. E o Filho de Deus veio, como Ele mesmo disse, levar a Lei à sua Perfeição. Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça. Mas haverá sempre, e até no Inferno eterno, quem odeie o amor mimado de privilégios inaceitáveis, e prefira queimar para sempre no amor rebelde do seu próprio coração.

§ 6. Até um São Pedro foi, livremente e perfeitamente, um São Pedro, e não um São João. E cada um será amado e servido dos mimos a que tiver condições de receber sem que se corrompa. Nesta sutileza da Justiça poucos conseguem meditar e refletir. E é a mediocridade espiritual que costuma, ironicamente, querer mandar e desmandar no mundo, julgar e classificar tudo quanto há, e afirmar o que pode e o que não pode fazer o Poderoso com o seu Amor. É um analfabetismo espiritual humilhante, mas que chega a um cúmulo cômico. É um abuso hilário que provoca risos celestes, e a corte dos anjos se ri eternamente ao som de cantatas de Bach.

§ 7. Fui gerado mimado e canceriano, e fui santamente humilhado e desprezado, para aprender toda essa teologia. Ao que sou imensamente grato, por óbvio. A divina comédia, o Livro da Vida, poderia se chamar, também, “Pais e Filhos”. Tudo isso saiu de um café com pão na chapa na padaria da esquina. E eu só acredito numa teologia simples que pode ser pensada tomando café com pão na chapa na padaria da esquina. Qualquer coisa mais sofisticada pode ser mais perigosa; porque o seru mano é perigoso quando se leva a sério demais nas suas capacidades, nos seus méritos e direitos humanos.

§ 8. Ontem mesmo falava de São Bernardo e Pedro Abelardo com o amigo. São Bernardo matou a charada quando já sentiu, de longe, o fedor da sofisticação. Deus lhe deu olfato místico e o santo sentiu o mal cheiro instantaneamente. Escreveu Os graus da humildade e da soberba, e passou até um pito no próprio diabo. E eu imagino que São Bernardo passaria o seu pito do mesmo jeito, e escreveria o mesmo tratado, mesmo se estivesse no balcão da padaria da esquina, tomando o seu santo café com pão na chapa.

Esse non videri,

RS

“Aqui você vai estudar”

§ 1. Já contei a escatologia da minha educação formal. Se vivesse na Antiguidade, mereceria talvez a narrativa de um Eurípides, de um Sófocles. Simplesmente há todo um complô olímpico contra a minha educação formal. Ciumentos de minha desdenha, os diplomas me fogem e aprendi a viver muito bem sem eles, como se fôssemos mesmo seres de universos distintos.

§ 2. Mas a narrativa prossegue, recusa-se a ser uma não-história. O amigo me bate um telefone certo dia: “você tem que resolver isso”. Digo que só resolvo se gastar o mínimo de tempo, de esforço e de recursos. O amigo topa. Me leva enfim numa Delegacia de Ensino. Desde o início sabia que não seria um passeio no bosque. Para se ter uma idéia, o agendamento para marcar o dia da entrega de documentos (!) só pode ser feito pessoalmente (!), não serve telefone. E-mail? O que é isso? Não. Tem que ir lá, mais ou menos depois da Casa do Chapéu Velho (um amigo recentemente me confessou: não conhecia a Casa do Chapéu Velho), pessoalmente, ao vivo e à cores, em carne e osso, apenas para dizer “Fulano de Tal”. É isto: você diz o seu nome e ele é anotado num caderno. No Brasil a menor das tarefas requer o máximo dos esforços, e por isso somos um povo perpetuamente cansado e nervoso. E descontamos uns nos outros, claro. Não se esqueçam que vivemos num gigantesco clube de sadomasoquismo a céu aberto.

§ 3. Agendei, enfim, a fatídica data para entregar meus documentos. O plano é simples: pedir com muita gentileza e educação que o Estado me dê a chance de provar minha capacidade intelectual através de uma prova, de forma que atestem urbi et orbi que sou alfabetizado. Chega a data e lá vou eu.

§ 4. É uma aventura, como se sabe, ser atendido pelos serviços públicos de nossa nação. É sempre uma aventura com um final desconhecido. Sempre. Quer dizer, a coisa que deveria ser mais previsível que horário de trem bala japonês, é todo um sistema arcano e caótico, com direito a possibilidade de greves, desacato à autoridade, corrupção passiva, etc., etc. Embarquei nessa aventura.

§ 5. De imediato descubro uma fila. É claro. A fila, para o brasileiro, é uma necessidade metafísica. E se não houvesse fila alguma, um herói nacional teria que inaugurá-la e decretar, assim, a salvação da pátria. Descubro de imediato a fila. Mas a fila é para o quê? Nunca se sabe ao certo. A aventura é instantânea, o mistério é imediato: “para que serve esta fila?” E há um funcionário perguntando: “Quem veio para a palestra? Quem veio para a palestra?” E agora? Será que eu vim para a palestra? Em tese, não. Rigorosamente, estou aqui para entregar meus documentos e me matricular. Portanto, na teoria não tem nada comigo, mas nunca se sabe. É bom ficar esperto. Encosto no funcionário e pergunto: “é para fazer matrícula?” Ele diz que não, que tem outra fila atrás, que é para fazer matrícula. Ok. Ótimo. A jornada tem andamento.

§ 6. Dirijo-me animado para a fila da matrícula. Mas será que é esta fila mesmo? Você tem que se perguntar reiteradas vezes, eis a questão. Se Descartes nascesse no Brasil, teria descoberto o método da dúvida total já na adolescência. Porque viver no Brasil é viver a própria dúvida total desde a mais tenra e ingênua infância. E um Descartes brasileiro já diria no maternal: cogito ergo sum, seguramente, solidamente. Pergunto, então, a um dos participantes da fila que parecia disposto a esclarecimentos. Pois eis a misericórdia: sempre há o esclarecido da fila. Ele anuncia as regras e os sistemas, e direciona os transeuntes como um guarda de trânsito. Às vezes falha, é verdade. Mas a intenção nobre, ao menos, sempre está lá. E o iluminado me esclareceu: “Você já pegou seu número? Se não pegou, então tem que primeiro ir nessa outra fila aqui do lado, para pegar o número antes. Depois você fica nesta fila aqui.” O conhecimento absoluto me inundou até o fundo da alma, e a cada passo eu aprendia mais e mais nesta jornada.

§ 7. É todo um método de descoberta empírica e de eliminação indutiva. Eis que há a fila da palestra misteriosa, e há a fila da entrega de documentos para a matrícula, mas há uma terceira ainda, para pegar um número de chamada para, aí sim, pegar a fila da matrícula. É uma organização de fazer inveja a um alemão da mais estrita observância, como se vê. E finalmente sinto aquele conforto, aquele calorzinho abaixo do abdômem: “estou no meu lugar certo, finalmente!” Você estar, no Brasil, no lugar certo, na fila certa, já é uma vitória. Veja bem, nada mais precisa acontecer. E se tudo o mais der errado, algo já deu certo. Já há um êxito, já há um sucesso, quanto você descobre o seu lugar dentro de um órgão público. Me senti apossado, pertencido.

§ 8. Pacientemente, bovinamente (porque a dificuldade torna o homem feliz com pouco), espero meu momento feliz de pegar o número. Número 8. Minha mãe me batizou Rodrigo. Do germânico antigo: “soberano famoso”, “poderosamente famoso”, “famoso pela sua glória” ou “governante poderoso”. Não é pouca porcaria, como se vê. Mas a partir dali eu era um número. Um singelo número oito, nada mais e nada menos. E a quantidade oito virou, ali, um nome, um novo batizado. Feliz, saio da fila dos números para, finalmente! Alegria!, a fila da matrícula. A segurança sobre o futuro começa a aumentar aos poucos. E ela é necessária. Veja bem, é preciso ter alguma confiança, porque há uma série de documentos a ser apresentados. E você nunca sabe se você está exatamente com o que é preciso. Uma pessoa experiente, no Brasil, leva todos os documentos cuja existência consegue conceber, e tira a maior quantidade de fotocópias possível. Meio calejado de outros rodeios, senti-me finalmente um pouco encorajado a acreditar que, talvez, aquilo poderia quem sabe dar certo.

§ 9. Vão chamando os números. Tudo isso, até agora, aconteceu na portaria do prédio. Ninguém entrou realmente em lugar nenhum oficialmente. Somos como indigentes à beira dum castelo soberaníssimo. E o número fatal permite, como um passaporte diplomático, a ultrapassagem das grades para dentro da Tróia burocrática. Vão chamando de dois em dois. Leva um tempo, e a gente espera a primeira dupla voltar para que a nova dupla seja chamada. Tudo isso de pé, claro. Tolo e ingênuo é o homem que conta com uma fila sentada: você pode sonhar com isso, mas não pode contar. Não há cadeiras, então ficamos de pé. E, lembrando detalhes, debaixo duma garoinha. Há um toldo que obviamente não consegue abrigar todas as cabeças. E alguns de nós aguardávamos, de pé, não só uma chance de matrícula, mas quem sabe uma chance de pneumonia, uma gripe, ou ao menos um resfriado.

§ 10. Finalmente, chamam os números 8 e 9. Reconheci meu mais recente nome imediatamente. Nesta hora sempre bate um suspense. É a hora da verdade. A quantidade de riscos que corremos é inabarcável, e as chances de fracasso são uma legião. A confiança anterior se transforma numa sutil mas permanente sensação de agonia, um apertozinho lá mesmo, naquela parte baixa do abdômen. Vou entrando, ainda assim, confiante de enfrentar o meu destino.

§ 11. Ia acompanhado por um amigo. E evidentemente o amigo foi barrado. Eis a fatalidade: ele não era um número, era só um nome qualquer. “Você vai fazer o quê?”, perguntam para ele. E ele diz, singelo e humilde, que estava me acompanhando. Veja, um amigo pode acompanhar o outro nas cenas mais vitais da vida: à formatura, ao casamento, à maternidade, e finalmente ao velório. Mas o amigo não podia entrar naquele espaço. Era um local além de todo sagrado e além de todo mistério, inacessível às mais íntimas e sinceras amizades. Eis a dureza da realidade da nossa terra: nem todos os espaços públicos são realmente públicos. Há grades, crachás e vigias para proteger o espaço público do próprio público. E o amigo ficou de fora.

§ 12. Desbravei sozinho a aventura a partir daí. Sou levado a uma salinha junto com o outro número chamado. E embora eu estivesse, como diriam nos tribunais americanos, beyond any reasonable doubt, na fila da matrícula, o meu atendente, um homem racional como qualquer outro, me pergunta subitamente: “você veio fazer o quê aqui?” De repente me lembrei de uma piada e pensei em responder que queria um quilo e meio de alcatra. Mas você não pode contar piadas em situações de vida e morte como essas. Respondi com a educação majestática de um lorde inglês: “estou aqui para me matricular e agendar prova para o Ensino Médio.”

§ 13. O respeito não foi suficiente. Um funcionário público é um ser infinitamente sensível e caprichoso, como uma fada de conto infantil. E a resposta veio, brutal e gélida: “Agendar prova? Não é assim. Não é nada do jeito que você está pensando.” O frio da barriga derrama-se em si mesmo e se espalha pelo corpo. De repente descubro a cruel face do mundo real: não é nada do jeito que eu estou pensando. Ainda mal recuperado do golpe anterior, recebo então a próxima notícia sem clemência: “aqui você vai estudar.”

§ 14. Esta fala provocou em mim todo um processo regressivo. Foi como o ribombar numa noite escura e espectral, que te desperta de um sono agitado. Como um Fortimbras vagando ameaçadoramente sobre a cabeça dum Hamlet. “Aqui você vai estudar.” Isso poderia ser interpretado de tantas formas, que foi preciso uma feroz disciplina mental de minha parte. Vejamos. Por um lado, a fala tinha sido pronunciada num tom que parecia claramente ser o de uma ameaça. Isto é fato: aquilo foi uma ameaça direta. “Aqui você vai estudar.” Por outro lado, meditando o sentido mais verdadeiro possível das palavras, isto parecia ser não um destino trágico, mas bem ao contrário, paradisíaco.

§ 15. Eis que descubro as palavras que eu sempre quis ouvir mas que jamais me foram ditas seriamente: “Aqui você vai estudar.” E o processo regressivo se fez automaticamente, que também sou dado a ser um memorialista. Primeiro me veio um colega, meu xará, numa longínqua cena de intervalo de aulas numa manhã de inverno. Mostrava-me equações. Tínhamos algo entre dez e doze anos. E ele estava animadíssimo. Entraríamos finalmente numa fase mais substantiva dos estudos. Até ali tudo era simulação, sem notícia do mundo real, e até as matemáticas pareciam ser falsas. Mas havia um mundo de equações surgindo adiante, e o amigo tremia em cima dos sapatos para conhecer tudo aquilo. A equação que tinha em mãos lhe foi sorrateiramente contrabandeada pelo irmão mais velho, que já tinha estudado nas classes mais evoluídas. Era, ao seu modo, uma esperança para nós dois, aquela conta estranha.

§ 16. Nunca fui grande fã das matemáticas, mas a História já me cortejava como musa celeste. E tudo o que eu queria era estudar história. Depois de anos num ermo existencial, a escola finalmente faria algum sentido. Quando cheguei finalmente no primeiro ano em que a classe estudaria História, fiquei encantado como um Harry Potter entrando em Hogwarts. A professora era uma senhora loira de olhos bem azuis e um busto farto, uma Angela Merkel ao seu modo. E a primeira matéria seria Egito Antigo. Egito Antigo! Eu não entendia lhufas de Egito Antigo, mas descobri instantaneamente que queria saber tudo a respeito. E busquei minha felicidade na aula da Angela Merkel sobre Egito Antigo.

§ 17. Mas as decepções são inevitáveis numa vida humana, e quanto antes ocorrerem, antes a maturidade colherá a alma e lhe oferecerá dignidades nunca imaginadas. A realidade mostrou suas presas sangrentas: havia uma só aula de história com a Angela Merkel por semana, cinquenta minutos. Mas fica pior, fica pior. Essa amazona teutônica tinha necessariamente que gastar no mínimo trinta minutos dos cinquenta para colocar a classe em ordem e fazer a chamada. (A verdade é que só eu queria saber do Egito Antigo, talvez, quem sabe?, até mais que a própria professora.) Os vinte minutos restantes evaporavam-se numa bruma estranha que nem vagamente lembrava uma aula. E o resultado é que até hoje esse tal de Egito Antigo não me foi bem apresentado.

§ 18. “Aqui você vai estudar.” Finalmente? É isso? Será que o Egito Antigo será enfim vingado? Mas a face do homem racional que me dizia aquelas palavras indicava algo diverso da minha imaginação. A face exibe o ânimo, e os olhos espelham a alma. O que o homem racional estava querendo realmente me dizer é que eu não poderia fazer prova nenhuma sem antes marcar presença em não sei quantas aulas naquela escola. E dizia isso com alguma satisfação que me fez lembrar logo do pacto. Lembrem-se do pacto, do grande pacto brasileiro: o sadomasoquismo. E o homem racional mostrava-se logo, portanto, como parte da privilegiada casta dos sádicos nacionais.

§ 19. Ousei explicar a minha situação. Numa repartição, quando o seu caso está indo para o vinagre, sempre há o recurso final, a apelação suplicante, que é explicar a sua situação concreta. Um funcionário não conhece situações concretas e não quer tomar conhecimento, muito obrigado. Seu modelo é o computador, exato, preciso e infalível. Ignorante de tons súplices e vozes embargadas. E mal suspeita talvez que, caminhando assim, talvez um dia o computador lhe dê um golpe e roube a cadeira. Mas há seguranças, garantias, sindicalismos e estabilidades para o funcionário público brasileiro, e ele está poderosamente instalado, insuspeito, dentro dum corporativismo de fazer inveja numa Schutzstaffel nazista.

§ 20. O homem racional, sem saber, me provocava. Eu poderia lhe dizer: “Sim senhor, vamos estudar; mas nós vamos estudar AGORA. Imediatamente. Tome nota. Proponho alguma reflexões, como o fato econômico de que o quilo do arroz é mais caro porque o Estado precisa recolher para pagar o seu salário, ou então podemos meditar na transição do prestígio e privilégio da antiga aristocracia para a nova burocracia estatal das nações modernas, como essa da qual o senhor faz parte… que tal?” A proposta, é claro, jamais foi feita. Manda quem pode, e obedece quem tem juízo. Quem sou eu? Ninguém. Gosto disso, até. Sou um Ninguém, mas até um Ulisses, um Odisseu de Ítaca, diante do Polifemo terrível, era um Ninguém. E eis que ser Ninguém, Nemo, Outis, já é alguma coisa. E eu preferi, diante do homem racional, ser um Ninguém e dizer amém.

§ 21. Eu poderia dizer tantas coisas mais! Mas o tempo já me aperta. Poderia detalhar, por exemplo, o sequestro de meu documento de identidade. Sim. Pelo próprio homem racional, em pessoa. Agitava ele o meu RG no ar, dizendo assim: “olha, até o fim do ano isto aqui não vale mais nada, ok?” A elegância me informava que o documento ia perder validade. Só me esqueceu, no fim das contas, de devolver o RG. Isso para não falar dos outros documentos que a autoridade avaliou. Mexia e remexia e dizia depois, numa projeção pornográfica, que eu tinha feito uma bagunça. E gostava de dizer que tais e quais documentos eram muito velhos e que já não valiam mais nada, pelo menos uns dois ou três. Num determinado momento me olhou, enquanto pedia os papéis, e perguntou irônico: “trouxe tudo mesmo, seu dotô?” O “dotô” era todo constituído de um simbolismo invulgar. Como, apesar do tradicional frio abdominal que sentimos diante da SS, eu não estava particularmente temeroso e abalado, sentiu o homem racional em mim, como uma fera diante de uma presa, alguma oposição, alguma resistência. E a suposição do que seria a minha empáfia diante de tão absoluta e incontestável autoridade imperial resumiu-se no breve mas direto tratamento: “Dotô”. Neste dia de aventuras, como se vê, já fui de Rodrigo até Número 8, e de Ninguém até Seu Dotô. Toda a leitura dum épico antigo não renderia tamanhas profundidades existenciais.

§ 22. Mas já me estendo muito além do devido. Fui matriculado. Eis que a vitória final compensou toda uma série de santas humilhações. Apenas sequestraram involuntariamente (penso assim, porque o dever do homem é ser generoso com o próximo) o meu RG. Mas o acaso mostrou-se favorável. Quando resgatei meu documento descobri no mesmo local, por uma gentil alma, que poderia sim fazer diretamente as provas se me achasse preparado para tanto. E entendo finalmente a temeridade da minha presença anterior diante do homem racional: eu ousei me achar preparado. E a soberba alheia escandalizou aquela alma sensível.

§ 23. É isto! Chega. Nem mais uma palavra que não seja o pedido para que comprem o meu livro na Amazon. Comprem, por favor, ajudem o autor. Sei que ontem não passei a humilde sacolinha. Fui, ríspido, falar de nossas intransigências um com o outro, querido leitor. E citei até o vilaníssimo Thanos, quem diria, o soberbo dos soberbos. Dizia de si próprio o titã louco: “Thanos é Supremo, Supremo…” E ficava assim a contemplar perdidamente sua a própria superioridade. Um dia eu lhes conto como conheci Thanos e a história das jóias espirituais. Tem até uma cena de colégio envolvida. Mas há tempo para isso. Não hoje. Hoje já deu dor nas costas de tanto escrever.

Esse non videri,

RS

E nesse dia o taurino descobriu a beleza

§ 1. Merlí. Nova série no Netflix. Um professor de filosofia ensina seus alunos e vive com eles dramas, comédias e tragédias. Poderia ser algo mais, mas às vezes (e na verdade na maioria das vezes) um professor de filosofia é apenas um professor de filosofia. O que é sempre algo um pouco decepcionante. Inspirado, mas não intuitivo; libertino, mas não livre; inteligente, mas não sábio. E bastaram três episódios para que um tédio devastador me dominasse, me mandando ir fazer outra coisa.

§ 2. Ensinar é uma coisa, educar é outra. Ensinar é mostrar como se faz algo, serve para ter algo novo ou poder algo novo. Educar é mostrar como se é alguém melhor, serve para ser melhor. Mas você não pode dizer que alguém pode ser melhor do que já é se não reconhece alguma autoridade moral, alguma referência transcendente que sirva de objeto reflexivo e contemplativo. E eis a limitação dos nossos “educadores” de hoje; o máximo que podem afirmar é que é preciso “ser crítico”, “ser você mesmo”, e outras perfumarias. Merlí introduziu seus alunos, que até então eram mais livres e ainda estavam ilesos, à toda a mediocridade contemporânea da auto-afirmação humanista. E a escola industrializou todo o processo idiotizante. Mal alguém é matriculado e a estupidez já está com o futuro garantido até a aposentadoria.

§ 3. Os jovens sempre estão abertos ao descobrimento, e querem adquirir suas preferências. E eis que existem “educadores” e “mestres” prontos a mostrar todo um mundo que não existe, e do qual vai dar bastante trabalho sair. As abstrações e os dramas são oferecidos antes da substância da vida, das verdades e belezas inegáveis e inescapáveis. E o jovem assiste a palestra e abre a revista antes de abrir a própria janela e ver a paisagem.

§ 4. As janelas são umas das últimas esperanças da humanidade. Outro dia o amigo bateu no Messenger: “a Espanha é linda”. E nesse dia o taurino descobriu a beleza. Quantas telas depois isso aconteceu? Quantas perdas e dispersões numa vida? O amigo conheceu idéias e manchetes, chamadas e palavras de ordem durante toda uma vida. Estava caindo, de barranco em barranco, se apoiando numa frase, escorando num slogan. E um dia ele conhece uma paisagem espanhola e a beleza toca o coração. Há, eis a questão, todo um mundo real, toda uma beleza real, e não há cartaz de passeata, não há outdoor no mundo, que consiga tampar uma beleza espanhola.

§ 5. Há todos os dias uma esperança de descoberta, e é preciso confiar no invisível que de repente se escancara. É preciso mirar pacientemente o pano do mundo esperando a grande abertura que a qualquer momento pode acontecer, a grande estréia duma verdade espetacular. O mundo é um vidro embaçado, é uma vitrine vazia de bondades, de verdades e de belezas, e recheada e coberta de estrume de todas as espécies. Este é o mundo humano, é o mundo dos filosofantes, o mundo de Merlí. O humanismo embaça o cosmos e tampa a luz, é o pano do mundo que um dia terá de ser aberto, e até rasgado, para que apareça atrás dele a paisagem duma paz insuperável. Bendito será o dia em que nenhuma boca se abrirá para falar uma mentira, uma falsidade, mas só dirá a verdade, a beleza e a bondade.

§ 6. Feliz ou infelizmente, parece que este será o dia da morte. E quem diria, até um vilão como Thanos pode ter alguma razão em querer cortejar a rainha da noite, e de irar porque tenha um dia sido desperto do pacífico sono. Mas o vilão nunca vê tudo.

§ 7. Hoje não vou lhe pedir que compre a merda do meu livro. Não precisa. Você está livre de mim, e eis a maravilha: eu também estou livre de você.

Esse non videri,

RS

O Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas

§ 1. Além de Aristóteles, também Felipe II da Macedônia ensinou seu filho Alexandre. E o futuro do menino tinha que ser mesmo grandioso. Aprendeu a arte que lhe daria vitórias contra as hordas asiáticas: a falange é a bigorna, e a cavalaria é o martelo. Antes que existisse a primeira legião romana, portanto, a infantaria macedônia já mostrou ao mundo o poder da coesão e da disciplina, o poder de transformar colunas humanas em aço resistente. Mas a pergunta fatal é a seguinte: por que diabos acordei hoje lembrando das falanges macedônias em Gaugamela?

§ 2. Não sei explicar, mas deve haver uma razão. Essas histórias nos inspiram pela sua antiguidade; você pensar que há tantos séculos lá no fim do mundo alguém já elaborava sofisticadas doutrinas militares, sei lá, isso é motivador de alguma forma. Como um César cruzando o Rubicão (um dia eu conto o episódio em que eu tive coragem lembrando daquela travessia do rio). Porque aqui, agora, o que temos? Abro a internet e vejo a Carmen Lúcia, no seu já tradicional cosplay de Bento Carneiro (o Vampiro Brasileiro), dizer: “ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas”. O topete ameaçador, que atualmente preside o STF, explicava então a sua profunda meditação à uma plateia de Senadores. “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E eu fico pensando que as Excelências estejam talvez se apoiando numa bóia muito efêmera. Quando se é náufrago, depois de saber nadar, o mais importante é escolher o socorro certo. Sou eu próprio, pessoalmente, mais velho que a Constituição de 1988, assim como boa parte do próprio Brasil real. Mas a jovem resma de papéis é a salvação, sim, de acordo com o Supremo Topete Federal. Prefiro um Dom Bertrand: “ou nós colocamos Deus no centro, ou não haverá restauração no Brasil”. Mas o pensamento brasileiro quer ser moderníssimo, e então vai arrancando de si todas as antiguidades, uma por uma, como se fossem verrugas e carrapatos. Tradição cristã? Corta. Tradição latina, ibérica? Corta. Tradição monárquica? Corta. Corta, corta, corta. E no fim nós pensamos, o que vai sobrar dessa depenagem? O que é o Brasil sem a sua história, sem a sua origem? É o Bonde do Tigrão, é o Black-Block, é Karnal, Cortella e Barros, é a Valesca Popozuda, o Reinaldo Azevedo e o João Kléber.

§ 3. Então eu prefiro a companhia de Alexandre num deserto persa, não sei se me entendem. Todos os juízes do STF não substituem o realismo de um chefe de falange naquele deserto sem fim. Que é um juiz dos nossos tempos? É um especialista (ah, os especialistas…) E o que é um especialista? É um ser lesado, cortado de sua pessoa inteira, incapaz de dizer uma palavra de alma completa. O especialista é isto: um incapaz de dizer alguma coisa de verdade e com todo o coração. Fala como um papel, como uma peça, como um pedaço de não sei o quê. Fico me lembrando, para falar de antiguidades, de Sansão. Reli recentemente Juízes (quem não lê a Bíblia não sabe o que perde). Sansão é o último Juiz de renome em Israel, antes da monarquia. E mesmo em seu fim um tanto trágico, você vê do que foi capaz um Juiz cego que era servo de Deus: derrubou com sua musculatura providencial todo o edifício em cima da cabeça dos filisteus, usando apenas as próprias mãos. Gritou, na cena fatal: “Morra eu com os filisteus!” E o templo desmoronou em cima dos príncipes na mesma hora. Sansão não era um papel de juiz, era um juiz de fato. E o que diz o nosso papel de juiz, a nossa juíza-mor de hoje, o nosso cosplay de Bento Carneiro? “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.” E diz isso com uma cara seríssima, com um topete assustador.

§ 4. O segredo é ser grato. A Gratidão, como a Obediência, guarda seus mistérios maravilhosos, aguardando apenas que um incauto perdido a descubra e a desvele. Um Sansão, mesmo trágico, cego e humilhado, lembra de Deus, lhe é grato e lhe pede a última ajuda, o último favor, a última Graça. E é atendido fielmente e imediatamente; porque a Gratidão repercute num Amor fidelíssimo e infalível. Mas se você é um papel de alguma coisa, a quem lhe resta ser grato? Ao subscritor do papel, aos seus amigos e a si mesmo pelos seus méritos de seru mano. E eis o problema de uma gratidão que não sai da Terra: não recebe nada além da Terra, ou seja, a lei da necessidade, da força e da fatalidade, que é o que a Terra tem a oferecer por si. Para que as Graças sejam recebidas é preciso gente que seja grata ao Céu. E o topete supremo só pode ser grato a si mesmo e aos seus amigos, no que confessará os limites deprimentes e macabros de sua intercessão: “Ou o Brasil se salva com a Constituição, ou vamos ter mais problemas.

§ 5. O segredo, repito, é saber a quem se é grato e a quem se é obediente. Em suma, diante de quem se é humilde de coração. E daí você descobre um monte de coisas e se descobre também. O que parecia miséria é um enredo harmonioso e nós encaixamos na trama. Me descubro, de repente, e sinto que quero ser mãe do Supremo Topete Federal. Explico. O canceriano descobre o mistério do Ser sendo e querendo ser mãe de todo mundo, e aprende uma sabedoria de maternidade que é segredo para todos os filhos da mãe. Há uma sabedoria própria de ser mãe de um ser desprotegido, indefeso, necessitado. Só uma mãe conhece a necessidade miserável de seu filho. E como toda sabedoria transcendente, abarca até os seres mais improváveis, e até os supremos topetes federais. Sim, até mesmo o cosplay de Bento Carneiro é, quem diria, também ele um ser desprotegido, indefeso, necessitado.

§ 6. E requer intercessão. Vocês imaginem a paciência de um São Bento. Os intercessores, pacientemente, pedem a Deus por aqueles incapazes de pedir, por aqueles perdidos da fé, mudos de coração, analfabetos do espírito, por todos os favelados espirituais do universo (e no Brasil há muitos: o Brasil é uma imensa favela espiritual, de corações mudos e almas analfabetas). O intercessor pede, pacientemente, que o espírito rebelde seja perdoado e redimido. Imagine a paciência. “Mas e o São Bento?”, alguém me perguntaria. Pois bem, São Bento é o campeão da paciência, porque é o padroeiro dos intercessores. Imagine o tamanho cósmico desta santa paciência: o homem intercede pelos que intercedem por nós. Não é pouca coisa.

§ 7. E daí ser mãe ajuda, porque a mãe olha a miséria do filho com compaixão infinita, e daria a sua vida para que aquela miséria pudesse viver e ser feliz. Mutatis mutandis, a intercessão máxima é a da Santíssima Virgem, obviamente. Quem pode receber de Deus a missão de se apiedar mais dos miseráveis da Terra, senão a Mãe de Deus? E quem poderá tocar com ternura e despertar a compaixão do Sagrado Coração mais que o próprio Imaculado Coração? Ninguém na Terra poderá.

§ 8. E há quem trema nos sapatos com a obviedade celeste. Não aceitam o título, não aceitam Theotokos. Birrentos, não querem uma mãe piedosa, mas ela os quer ainda assim, certamente, porque faz parte da miséria deles recusar que a misericórdia possa vir por um pedido tão humilde de um coração meramente humano. A humildade escandalizou até o diabo no começo dos tempos, e o fez cair abissalmente e eternamente. A recusa do amor humilde, a recusa do escândalo sublime, causa ainda hoje quedas fatais.

§ 9. E recusam, e contrariam, e blasfemam. Testam a infinita misericórdia, mas até estes são inocentes. Ouviram falar um dia, sim, do próprio Arcanjo, que Maria era “cheia das Graças”, e ouviram do próprio Crucificado: “eis aí a tua mãe”. Mas sua teologia de seru manu quer ser mais esperta que o Verbo anunciado e que o próprio Verbo Encarnado. Trabalho. Muito trabalho. Um dia Deus disse, Bendito seja eternamente: “fiat Sanctus Benedictus de Nursia!” E aquela alma paciente foi feita na mesma hora. E até hoje o homem trabalha, e trabalha, e trabalha…

§ 10. Que me resta? Passar a humilde sacolinha. Se você não comprou ainda, dê uma passadinha na Amazon e compre o meu livro. Baratinho. Ajude o autor. “E a PM na Cracolândia!?”, perguntariam, fatalmente. Olha, não sei. Acho que a renúncia da Maria Silvia Bastos Marques do BNDES é um assunto um tanto mais relevante, pensando no macro. Mas tudo isso, BNDES e Cracolândia, continuará sendo assunto por muito tempo, porque todo vício tem futuro garantido no Brasil. Do menor miserável ao maior Batista, todos os viciados perseveram nesta terra.

Esse non videri,

RS

O Brasil é um deserto moral vastíssimo

§ 1. Terminei a releitura de Juízes e vou entrar em Rute logo mais. Mas não sem antes reler o meu Diário de 2016. Já que estou pedindo para as pessoas comprarem, não custa nada rever a humilhação a que estou me expondo. Nada muito grave, pelo que vi até agora. O começo tem uns erros menores, e a coisa começa a ficar boa em Junho, Julho, daí para diante. Mesmo assim, extenso demais. Não sabia, ainda, que queria fazer algum tipo de literatura. E a literatura é a arte de dizer mais com menos, cada vez mais com cada vez menos. Espremer cada idéia para caber em menos palavras, até o limite. Por isso o frasista é um gênio a ser imitado: diz todo um tratado ou todo um romance com uma frase. E o gênio está em fazer as idéias ficarem atléticas e saudáveis, para caber em frases cada vez mais curtas, como se espreme uma top model num vestido apertado. E a beleza entubada e comprimida sai então desfilando e encantando.

§ 2. Mesmo um Jeremy Clarkson, o rosto vertical de três andares, confessou um dia com voz rouca a razão de James May: até a boa TV é escrita. Seu gênio é escrever e pensar e repensar cada palavra até a exaustão. Clarkson me lembra fisicamente um empresário já falecido que me perguntou um dia, assustado: “mas você quer ser padre?” Na verdade, a primeira pergunta foi: “você vai estudar o quê?” Eu vivia, então, aquela fase em que uma pessoa mais velha está automaticamente credenciada, apenas pela sua data de nascimento, a lhe cobrar o seu destino em cada esquina e sem cerimônia, como rotina de polícia pedindo documentos. Respondi, educado, bom moço: “Filosofia.” Daí é que veio, o olho rútilo de espanto, a pergunta fatal e um tanto indignada: “mas você quer ser padre?” Não era o caso, expliquei. Mas queria estudar Filosofia. E ele tinha pensado que para querer estudar filosofia, só podia querer ser padre. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ocupar um lugar na sociedade. Demorou, mas entendi depois. E entendi que jamais alguém compreenderia o quanto sempre me senti um desapossado, um despertencido, feliz até, de não ter lugar definido na sociedade. Na verdade o nome disso é liberdade, mas não espalhe o meu segredo. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 3. Mas pedir para um empresário brasileiro ter alguma sensibilidade é como querer que um rinoceronte voe. Outro dia também, outro empresário me perguntava, espantado, vendo uma pilha enorme de livros: “mas você vai ler tudo isso?” Eram livros de Administração, que por acaso era a área do cidadão. E era um espanto me interrogando: “mas você precisa ler tudo isso?” Disse eu que sim, pretendia ler tudo isso, sim. Ele fez uma expressão paciente e engraçada e voltou-se aos seus negócios. Fiquei um pouco emburrado na época, mas depois entendi essa mentalidade. Estudar é para ganhar alguma coisa com isso. Demorou, mas entendi depois. Como não via que eu ganharia fortunas lendo uma pilha de livros, não me entendeu. Eu só queria estudar para saber alguma coisa.

§ 4. Eis que durante anos e anos estudei porque só queria saber alguma coisa, e hoje sou uma represa inteira, uma Três Gargantas da China, de conhecimentos classificáveis mais ou menos como “inúteis” pela assim chamada sabedoria popular e pragmática, e foi preciso todo um amor sincero e incondicional (todo amor verdadeiro é incondicional) para ser capaz de fazer isso durante anos e anos sem ligar para as aparências. Vale a pena fazer este esforço.

§ 5. Ontem quem fez esforço foi o Papa Francisco, para tirar a cara emburrada e esboçar um sorriso ao receber a família Trump no Vaticano. Dizem que Melania e Ivanka foram as responsáveis por derreter, finalmente, aquele bloco sólido, aquele Iceberg papal. É que o Papa tinha que fazer um pouco de cena para a plateia liberal, e também para a plateia moral, e para a Teologia da Libertação, e para o George Soros. Não é fácil ser um Papa diante das câmeras e dos distintos públicos, como se vê. Não se pode cair assim numa conversa amável com um Trump sem mais nem menos, tem que disfarçar um pouco.

§ 6. E o Brasil? O Brasil vive a sua adolescência mimada e birrenta, explosiva e rebelde, e isso estaria bem se enquanto isso nós não tivéssemos que viver dentro dele. Os Batista deram um nó em Brasília e as Excelências ainda estão anotando a chapa do caminhão. Quem são os Batista? São os donos da proteína animal, são os caras que estão, literalmente, por cima da carne seca. Eles fizeram isso com dinheiro do BNDES, e Roberto Campos, na cova, deve estar de novo arrependido de sua criação (já se arrependeu mil vezes). O brasileiro, em sua maioria uma massa masoquista, financia seus próprios tiranos e vota com gosto a cada quatro anos para reforçar a decisão. E num sistema bem bolado, a indignação possível já está devidamente canalizada, e é para isso que serve todo movimento popular. A elite bandida pensa: antes que o povo se rebele, criemos nós mesmos a rebelião controlada. Isso funciona faz séculos e o povo ainda não entendeu lhufas. E nem povo e nem empresário. Como já provei, o empresário não sabe o que é entender alguma coisa fora da sua estrita obrigação de se dar bem na vida. E eis que Brasília surge no deserto como a Capital dos que querem se dar bem, e quem não quer no país que atire a primeira indignação.

§ 7. Por isso não me dá tanto gosto falar de Brasil. É um jogo de cartas marcadas. Por mais caótico que seja, já está tudo mais ou menos arrumado. Por pior que seja o caos, e por mais inocente que a população se entenda diante da roubalheira e do cinismo político, todo brasileiro tem dentro de si, desperto ou ainda só potencial, um ladrãozinho e um cínico pronto a desabrochar, pronto a querer única e exclusivamente se dar bem na vida. O Brasil não é um grande mistério. É um país rico onde as pessoas não se organizam em vistas ao bem comum. Se fizessem isso ficariam muito ricas e muito rapidamente. Mas são burras, estúpidas e animalescas. Preferem correr cada um atrás do seu e atropelar uns aos outros, e o país se torna assim um enorme puteiro a céu aberto, uma algazarra criminosa sem fim. Esse tipo de baderna sempre vai acabar num modelo mais ou menos autoritário, porque a barbárie da cultura e da moral popular exige isso, um controle forte por cima. O povo brasileiro é o delinquente sadomasoquista que precisa de uma Febem.

§ 8. Não tenho a menor dó de dizer isso, mas nem a mínima mesmo, zero. Eu já testemunhei suficientes vezes o desprezo do brasileiro pela Sabedoria para saber que ele é isso e ponto final: um delinquente sadomasoquista. Se quiserem me dar esperança, terão que fazer acontecer coisas enormes, prodígios impossíveis. Por exemplo, se um dia o brasileiro desligar a televisão. Se ele fizer isso um dia, será um prodígio e o começo de uma esperança. Se no outro dia o brasileiro jogar fora todas as revistas e jornais, essa coleção diária de mentiras e manipulações, nesse dia tudo fica melhor ainda. E se no outro dia, ainda, o brasileiro fechar a Universidade, daí já é um quase orgasmo. A solução é destruir todas as Universidades e mandar todo mundo para o SENAI. Já disse isso não sei quantas vezes mas o pessoal não me ouve, ou acham que estou brincando.

§ 9. Não há recuo na estupidez, na audácia do erro. Não há nem sombra de uma remota chance de um arrependimento, de uma voz sincera. Não há nada, nada. O Brasil é um deserto moral vastíssimo. Sem oásis, sem descanso, é uma aridez completa de fazer o Saara sentir vergonha. Não há recolhimento meditativo, não há apelo da consciência. Essas coisas não existem no Brasil. É um moedor de almas que nunca para, incessante, de triturar suas vítimas voluntárias na máquina da insanidade perpétua. E para provar o meu ponto, o Reinaldo Azevedo já inventou um novo programa e foi ser colega do João Kléber na Rede TV. Quer dizer, tomou uma pancada num dia, e no outro já inaugurou um novo palco onde subiu para dizer, literalmente: “não peço perdão”, “não peço desculpas”, etc., etc.

§ 10. O Brasil é uma escuridão e uma desolação solitária. É um pós-apocalipse antes mesmo do fim do mundo. Mas há outro Brasil? Há. Há o Brasil das velhinhas que rezam, das famílias que se amam, dos anônimos que fazem milhões coisas boas, há, enfim, um país com gente de verdade, com gente que quer viver em paz uma vida boa e simples, um Brasil que não é o país da TV, do jornal, e das Universidades. Mas é, como nos EUA, “the silent majority”. E quanto mais extenso e continental for um país, maior será a desproporção entre a maioria silenciosa e sua elite ilustrada. Não há solução política. Mas há solução espiritual, há Jesus Cristo: “conhecei a verdade, e a verdade vos libertará”. E até um desapossado, um despertencido como eu, viro de repente e insuspeitamente um afortunado. Há um deserto inteiro, mas eu tenho meus camelos, minha água, e minha jornada. Não fui abandonado. E não quero abandonar meu Mestre, quero abraçar os seus joelhos e pedir que tenha misericórdia. Kyrie Eleison, Christe Eleison. Meu sonho é imitar São João e um dia ver Deus dizer de mim como Alfonso X disse de Sevilha: “no me ha dejado”.

§ 11. Por hoje é isto. Não posso deixar de passar, como sempre, a minha humilde sacolinha e pedir que você compre (caso não tenha feito isso ainda) o meu livro na Amazon, bem baratinho. Ajude o autor. “E o Temer, como fica?”, alguém pergunta. Eu não sei. Cai, não cai. Mas de hoje para amanhã não deve acontecer nada demais, haverá mais tempo para falar do primeiro Presidente-Mordomo do Brasil (senão do mundo).

Esse non videri,

RS

Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem

§ 1. Dizem que o jornalista não deve jamais ser notícia. Reinaldo Azevedo, se fosse mais escriba e menos jornalista, talvez não virasse mesmo jamais uma manchete na sua vida inteira. Mas Reinaldo cresceu e desabrochou como borboleta que sai do casulo. Virou uma cabeça sem freios. Uma cabeça altamente pensante sobre muitas coisas, sobre Direito Penal, sobre as Instituições Republicanas, e um negócio chamado “O Estado Democrático de Direito”, quase uma divindade civil. Reinaldo era uma cabeça falante setenta horas por dia, blogue, revista, jornal, TV, rádio, o diabo. E eu só sentia falta do escriba.

§ 2. Eis a questão. Quando era um simples blogueiro, o que, penso eu, sempre foi seu grande e verdadeiro métier, Reinaldo era bom, e era até imperdível. Escrevia todo dia e nada mais. Fazia questão de dizer que acordava não sei que horas muito depois do galo cantar. E trabalhava somente com as palavras dentro da madrugada. Era um ser separado da mediocridade humana. E eu o invejei: que vida simples e boa era essa. Era herdeiro de toda uma tradição frasista, com o que irmanava Diogo Mainardi, seguindo os passos de um Paulo Francis, de um Nelson Rodrigues. A cultura brasileira já teve seus momentos de lucidez, e Reinaldo seguia uma tradição para contribuir e inaugurar momentos novos deste fenômeno tão raro. Mas o bom trabalho trouxe a sua fama justa, e o desafio do homem é ser maior do que a sua própria fama.

§ 3. A audiência fez do blogue um instrumento político, com ou sem disfarce. Onde há muitos olhos, os demônios se concentram para fazer o seu serviço. E de uma coisa seguiu-se a outra. Até a manchete dizer, inclemente, que o escriba bateu um telefone para a irmã do senador. Uma senhora que está presa, diga-se, e mesmo seu irmão senador já não se sente muito bem. Aécio escreveu na Folha de S. Paulo que é uma vítima. Coitado. Imagino o que seja então o povo brasileiro (mas já sei o que é o povo: um masoquista enrabado).

§ 4. Reinaldo disse na cara do Boris Casoy que não gosta de “mimimi”. Não gosta do papel de vítima. Mas disse, mesmo assim, singelo: “sou uma vítima”. A Lava-Jato tem o poder de fazer o primor de coerência se entortar em rede nacional. Nunca vi tantas vogais na boca da eloquência mais viva e erudita da nação: “eh, uh, ah, oh”. Os poucos cabelos, desgrenhados. A caneta correndo na mesa, descontrolada. Pegava no braço do Boris para receber uma palavra de apoio. Gosto de ser generoso e penso, comigo, que Reinaldo está sendo vítima principalmente de si mesmo. De sua escolha de ser alguém na vida. Nós nunca podemos cair nesse truque de querer ser alguém na vida. Talvez isso sirva para ele voltar a escrever melhor, se ele desistir do jornalismo desabrochado. A culpa pode ser da República inteira, e ele vai provar tim-tim por tim-tim que foi lesado. Mas uma credibilidade não se remonta assim. Uma credibilidade arruinada é uma vidraça quebrada em mil caquinhos que jamais serão juntados. É a pasta de dentes que não volta para o tubo. As tão elogiadas Instituições Republicanas trituraram o seu próprio paladino em cinco minutos. Só foi preciso um telefonema com a irmã do senador, e a manchete devorou o homem. O Leviatã, como a vida, dá, nega e tira.

§ 5. Toda a torcida do Corinthians sabia que Reinaldo cortava para o lado tucano da política brasileira, mas faltava o telefonema fatal. Reinaldo ist kaputt. (Ou não. Sua luta agora é falar das garantias constitucionais como se o conteúdo do telefonema não existisse, e esquecer o mais rápido possível o assunto. Certamente ele contará com a memória fraca dos outros. Novamente é preciso repisar: não há problema algum num Reinaldo super-empregado em duzentos lugares diferentes, trabalhando sem descanso como um Robocop. Eu gostaria que ele continuasse na Veja, etc. O problema é o Reinaldo tucano. E esse sempre foi o problema.) Seremos beneficiados se ele escolher como exílio um blogue, e voltar ao seu métier, à sua excelência. Já disse não sei quantas vezes que só espero o melhor dele. Nós temos que esperar o melhor de todo mundo o tempo todo. E até um São Bernardo escreveu um dia uma carta ao diabo, contando as suas decepções. E eis o desafio. O melhor que Reinaldo pode fazer é ser humilde. Daí ele será alguma coisa sem uma Veja, sem uma Folha, sem uma Jovem Pan. Porque hoje, sem estes papéis, Reinaldo virou um quase nada, virou uma caneta rolando na mesa, um cabelo desgrenhado, e vogais inconsoláveis.

§ 6. Tenho mil assuntos mas meu tempo foi mais curto hoje. E Reinaldo, como a barba explosiva do dia anterior, me roubou a pauta. Só me resta passar a conhecida e humilde sacolinha e pedir para quem não comprou ainda o meu livro na Amazon que o faça, que é baratinho e ajuda o autor. “E o quebra pau em Brasília!?”, alguém exigiria. Brasília terá certamente quebra paus homéricos no futuro, vocês não se preocupem com isso. A baixeza e a vilania já têm garantido todo um futuro promissor em nossa terra.

Esse non videri,

RS

Uma barba covarde explode Manchester

§ 1. Uma barba covarde explode Manchester. Isso pode acontecer mil vezes, e em todas as mil nos chocará. Como pode? Deus, quando pensou na barba, certamente não a vinculou à covardia. A barba é viril e nobre, automaticamente, mesmo que o seu possuidor tenha sangue de barata (e eis o segredo de alguns barbudos, a ocultar sua fraqueza atrás do disfarce). E aquela barba, ao invés de atacar o exército inglês, atacou um show cheio de criancinhas. Imagine comigo leitor, e se pergunte comigo, a quantas milhas se encontrava um quartel? Não era necessário a barba fazer uma jornada transatlântica para encontrar o infante inglês com o fuzil na mão, carregado de balas, treinado, e com uniforme em dia inclusive, lavado e passado. Mas a barba preferiu a covardia, e dezenove almas estão agora conversando com Deus e ainda relatando o seu espanto.

§ 2. O terror é publicitário como uma campanha de margarina. Lembra do IRA, do ETA? Aqueles deviam ser mais bêbados idealistas do que covardes, e ao menos se achavam heróis nas suas ilusões; a barba covarde de hoje em dia se acha mais popular que a Madonna, não quer nada mais e nada menos. E conseguem as suas duzentas manchetes instantaneamente. Eu tenho uma pauta, ou melhor, tinha uma pauta, para começar o meu dia hoje, e ela não incluía barbas, garanto. De repente a barba covarde explodiu também no diário e me mudou.

§ 3. Um muçulmano tradicional, não-explosivo no curto prazo, diria que a culpa é do Trump. Claro. Nisso parece um marxista, ou melhor, já um eurasiano: a culpa é sempre dos Atlantistas. O POTUS visita a Arábia Saudita, meca terrorista, e me fecha um acordo de cento e não sei quantos bilhões de dólares em contratos de defesa, ao invés de passar um pito e dar voz de prisão ao Rei. Mas o POTUS não é o Mahdi, ele é o governante daquele país do Norte. E prometeu ao povo do Norte: “eu vou fazer pagarem pela nossa proteção até o último centavo”. Acabava o policiamento gratuito e voluntário. Cruza o mar no jato presidencial e cumpre o que foi falado. Mais rápido que imediatamente o saudita escreveu e assinou o cheque, e sorriu para baterem uma foto.

§ 4. O Islam real, pacífico, seria assim vítima de uma assombrosa conspiração, de fazer chocar um Sábio de Sião: a trama ardilosa consiste em impedir o florescimento do Califado real dando dinheiro e armas para a monarquia fake controlar os lugares sagrados e inventar o terrorismo. O terrorismo seria, então, uma vasta campanha de difamação contra a ameaça do Califado real. Pessoas explodidas para sujar toda uma idéia. Começou com os ingleses. Sykes-Picot, Primeira Guerra. E de lá para cá, o terrorismo é financiado para servir de bandeja aos interesses atlantistas, ocidentais, como queira chamar. Tudo contra o Califado real. (O Isis não é o Califado, suponho que mais ou menos do jeito que a União Soviética não foi o socialismo.) Dez vezes mais muçulmanos morrem do terrorismo comandado pelo Ocidente, portanto, e as manchetes só dão as mortes europeias, só dão notícia do sangue do Norte.

§ 5. Eu sempre acredito em tudo que me contam, até ter prova em contrário, ou pelo menos uma séria suspeita. E, cá entre nós, fabricar um inimigo externo para justificar tais e quais decisões e interesses é a coisa mais velha do mundo. É crível como a sinceridade da oração de uma velhinha. E é uma coisa feita por todo mundo desde tempos imemoriais. Dá para pensar. Não cabe ao autor passar a mão na cabeleira dourada do POTUS, nem no turbante saudita, nem em cabeça nenhuma. O inocente é inocente, a vítima é vítima, aqui ou do outro lado do mundo, eis o fato. E não é isso o que importa? Não é isso o que abre o Céu? Absolver coletividades é tão impróprio quanto a condenação coletiva. Os tiranos e conspiradores são terríveis? Sim, eles são, sempre foram, sempre serão. Qual a surpresa? Mas a Espada de Deus é mais terrível ainda, e ela está chegando para esses pescoços desavisados.

§ 6. Só que a Espada de Deus não se chama Lawrence da Arábia, nem Abdullah, nem nada disso. (Assim creio.) Não tem uniforme nem bandeira, e não liga a menor bola para fazer estourar manchetes. Age infalível como um ninja numa meia-noite de lua nova. É na “hora que apavora” que cai como ladrão em cima do butim. Eis o fato: a arma divina não existe para satisfazer os sonhos humanos de justiça, mas tão somente a Justiça Divina secreta. Deus não deve satisfações nem ao mais justo dos homens (e cá entre nós, bem ao contrário). A fé deve crescer, a confiança na Harmonia e na Justiça, infalíveis, belas, perfeitas. E eis que o pavor justiceiro não combina.

§ 7. Eu acredito na paz e no acordo, e que 99% das pessoas só querem ser felizes e viver em paz, não importa onde morem, que língua falem, a cor da pele, ou o sabor da sopa que tomam antes de dormir. Só querem uma paz para chamar de sua (mesmo que não saibam, como geralmente é o caso do sadomasoquismo brasileiro). Conspirações secretas são assunto real, problema real, para pessoas que não conheceremos jamais. Chapéis e bigodes insuspeitos que você poderia encontrar para tomar um café e nem faria idéia. Um James Bond, por exemplo. Ninguém jamais vai encontrar um James Bond. O que não quer dizer que ele não esteja por aí fazendo seus estragos. E falar nisso, morreu o Roger Moore. Não está fácil para a Inglaterra esses dias. Como será que anda a Rainha? Já devem ter chamado o ilustríssimo Médico Real, por via das dúvidas.

§ 8. Tenho um amigo, daqueles que tem todo um espaço de penthouse no meu coração, que garante que a Rainha é reptiliana. O olho rútilo diz: “Ela é! Ela é!” As pessoas adoram um segredo, uma trama de Dan Brown. De Sykes-Picot nós chegamos até os reptilianos. A velha não morre, eis o fato mais poderoso, a prova mais contundente. Eu gosto de acreditar que é uma senhora bem conservada, sem escamas, sem língua bifurcada, e sem beber o sangue de virgens no canudinho todo dia. Mas quem garante?

§ 9. Ninguém garante nada. James May, um cabelo sob holofotes, diz que a Rainha é alemã e não tinha nada que se meter com os ingleses. Preferia a República. Mas será que preferia também os rios de sangue do Terror francês? E as filas duplas no estacionamento das decapitações? Correu sangue inglês também, é claro. Mas o francês sofreu e sofre ainda humilhações indizíveis, e os ingleses estão poupados de coisas impensáveis. Até Napoleão virou na boca, um dia desses, um vidrinho de veneno, para se ter uma idéia de como ser francês pode ser deprimente. Acho que com a Rainha os ingleses não fazem negócio tão mal assim, até quando se pensa em quantas são as barbas explosivas. Para cada barba que explode do lado de Dover, três ou mais explodem do lado de Calais.

§ 10. Algum idiota da objetividade poderá me dizer que eu falo de barbas que não existem, não comprovadas, não fotografadas. E é nessas horas que entendemos a superioridade semidivina de um Homero, de um Dante, e a miséria de uma época sem poesia. Veja bem, quando o Isis manda alguém fazer estragos, este alguém é uma barba automática, isso independente de ter ou não a face peluda, e até do sexo do terror. Um adolescente suíço, um rosto de bebê, depiladíssimo como uma Gisele Bündchen, é uma barba sangrenta mesmo assim, e vira uma barba no momento mesmo em que fecha em torno de si o cinto fatal e aperta a última fivela de sua vida. Não sei se me entendem. Um autor precisa de figuras, e a explosão precisa de uma barba que a faça. Se um dia a própria Gisele Bündchen acordar e disser ao espelho: “meu destino insuspeito é o martírio, é a jihad”, nesse mesmo dia Gisele, depiladíssima, será uma barba explosiva.

§ 11. Uso a barba porque foi Deus quem me deu, e Ele deve ter um plano com isso, vai saber. (E de tempos em tempos bate uma preguiça de tirar, isto também é um fato inescapável). Às vezes eu tiro, mas se deixo sou feliz com ela; foi Deus quem pensou a barba antes de mais nada. Mas o idiota da objetividade pode voltar, vingativo: “e o apêndice, Deus não fez também? Para que serve o apêndice, se não for só para dar apendicite e matar não sei quantos?”. E quem disse que a apendicite não é útil? Tolo, o seru mano cuja vista não consegue nem dobrar a esquina continua desafiando a Providência. Prefere fazer isso, na sua objetividade mesquinha e rasteira de tatu-bola, do que ter imaginação ou pelo menos ser generoso. E bastasse que um dia uma alma encontrasse outra numa sala de hospital, numa operação de apendicite, para que o apêndice fosse universalmente explicado. Imagine: o homem encontra a sua amada enfermeira, a futura mãe de seus filhos e avó de seus netos, porque o apêndice urrou dores num dia fatal. E toda uma família, toda uma descendência, deverá a sua própria existência, nua e crua, ao apêndice ancestral. Como é tosco o questionamento cego de superbia do motivo de ser das coisas. É tosco de causar um bocejo cavernoso. Se um reles autor imagina a Providência usando o apêndice, imagine o que faz com o órgão “inútil” a imaginação divina, o divino Autor? Os fisiólogos precisariam ainda um dia dissecar também a sua própria estreiteza.

§ 12. Outro dia o Diego Marques bate no Facebook para mim. Estava em Pamplona. Confessou o óbvio e perguntou o necessário: “A Espanha é linda. O que você ainda está fazendo aí?”Eis a indomável questão: o que ainda estou fazendo aqui? Já me perguntei isso tantas vezes. Vi belezas espanholas, de vários tipos, de fazer esquecer um Brasil inteiro em quinze minutos (um dia eu lhes confesso a beleza que vi em Granada). Mas estou aqui batendo o meu diário em São José dos Campos. Minha mãe diz que fui parar “beeeem looonge” dela, imaginem se estivesse em Pamplona? E a mãe, para um canceriano, é vital. Mas não é bem isso. A mãe a gente leva no coração, não precisa pegar na mão e fazer as malas juntos. Não é isso que me ancora abaixo do Equador. Estou fazendo algo que nem sei explicar direito. Talvez esteja cultivando a multidão de leitores para os convencer a comprar os meus livrinhos (um já está aí, pelo menos um já é comprável), para os convencer a me pagar o exílio em Carmona. O problema do exílio europeu é que custa em euros, não é uma vida fácil. Tenho que viciá-los a precisar dos meus parágrafos como um viciado precisa do seu mel, e este é todo um trabalho a se fazer. Mas há tempo para tudo, e quero viajar antes da mudança final, quero respirar diversos ares continentais. O Felipe Marques (não é da família do outro, mas ocupa tanto quanto o seu próprio espaço de suíte presidencial no coração) está fazendo a lista dele, e eu a minha, os ambiciosos. Cairo. Jerusalém. Atenas. Roma. Paris. Se nós conseguirmos chegar no aeroporto de Guarulhos eu já estou feliz, e já é alguma coisa.

§ 13. Poderia fazer uma campanha promocional: não sei quantos parágrafos para cada cidade visitada. Na internet se vê coisas monumentais hoje em dia. Veleiros dão voltas globais pagos por anônimos que querem sentir o sal na cara mas não suportam colocar nem o mindinho do pé num barco sem vomitar as vísceras. Podia inventar algo assim. Mas não tenho ânimo. Mal me anima publicar as palavras, os amigos sabem. Falar em amigos, o Facebook diz que tenho cento e sessenta e três deles. Publico não sei quantos parágrafos escritos com o coração na mão e dos cento e sessenta e três uns três ou quatro mostram o polegar, o que nos meus termos já é um sucesso de Broadway. Os outros estão ocupados para ler textão. Aliás, quem deu jóinha também, porque curtem rápido demais e sua velocidade os trai. Eu amo um textão. Amo ler e amo escrever textão. Nem tenho televisão em casa (minto: tenho o aparelho mas não vejo o que se chama “televisão”, assisto a arte do cinema). Quando vou na livraria e vejo um volume daqueles, um tijolaço, já tremo nos sapatos, penso em pegar na mão e ler tudo ali mesmo e até a morte, palavra por palavra, parágrafo por parágrafo, até o último ponto final. Alguém escreveu alguma coisa, portanto alguém precisa ser lido. Vou lá e leio tudo. Leria lista telefônica e bula de remédio, se só restasse isso. Não importa ser lido, eis a verdade completa. Importa ler (e reler) e escrever, e isto é a vida de um autor. Ler e escrever. Ler e escrever até a morte, e se possível além dela.

§ 14. Não sou nenhum amante da cultura, mas sou amante da verdade. Então você lê um monte para ver se alguém disse um dia alguma coisa verdadeira. É sempre assim. É para isso que lemos um tijolo: no meio de tamanha massa de palavras deve ter alguma verdade esquecida. No fundo, estamos atrás do grande Autor, e do único verdadeiro Autor. Até o filósofo faz isso. Deus é o Autor que o filósofo quer ler eternamente.

§ 15. Tudo isso aí é importante, mas tem que haver outro dia para continuar. Só me resta por ora pedir para você passar ali na Amazon, se não fez isso ainda, e comprar o meu livro. Baratinho. É o que resta por hoje, passar a sacolinha humilde. Eu sei, eu sei, não falei tudo. Alguém perguntaria: “E a Lava-jato!?” Não se preocupem. Sempre haverá Lava-Jato. É o jato mais lento de todos os tempos. Amanhã haverá notícia suficiente para continuarmos a lavar eternamente o Brasil, o Brasil que não tem pressa, o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido. Parece até que vou ler o último artigo de Reinaldo Azevedo na revista Veja, porque Reinaldo ist kaputt. E o Maluf foi condenado pelo STF por lavagem de dinheiro. Vivemos tempos estranhos e inéditos. Não faltará assunto jamais, jamais.

Esse non videri,

RS