
Parece que Kant aqui se perdeu num entendimento que vinha razoavelmente bem, guiado mais pela sutileza do idealismo por pura analogia, e voltou à certas obscuridades do ceticismo empirista. Isso pode se dar a qualquer um de nós quando caímos justamente no pesado empreendimento de querer dominar objetos que só se oferecem à contemplação amorosa, mas que recusam a violência gnóstica.
Ele tem razão, contra o dogmatismo, que não se pode postular as razões determinadas de um ser supremo ordenador a priori, mas parece se esquecer de que ele próprio descobriu, e não faz muito tempo, que a causa da série dos condicionados só pode estar num incondicionado fora da série, de modo que a natureza só conhece (ou dá a conhecer) a necessidade de uma instância que legisle sobre si internamente, mas não pode atribuir os motivos dessa legislação. A teleologia de uma Razão transcendente sempre explica a natureza, mas não pode ser explicada por ela.
Aqui parece que o denunciante da perversa ratio acaba denunciando a si próprio: a total transcendência do ser supremo com relação à natureza criada, na busca das finalidades últimas, não constitui um antropomorfismo necessariamente, mas é apenas buscado na sua integridade como capaz de justificar o conjunto natural com fins que o ultrapassam, de tal modo que o próprio Kant observou que o dever descoberto pela consciência pode até contrariar o interesse da Lei Natural na contingência da experiência.
Parece-me que Kant começa a fazer uma escolha, mas não a quer ter esclarecida, afinal de contas. Uma coisa estranha, num filósofo do Esclarecimento.
Ele não quer a Fé num transcendente, mas procura a Gnose do criador de uma natureza que contenha a finalidade total, de origem transcendente, embutida dentro da contingência. Isso é um procedimento de um Furioso, obviamente.