“Homens bons ocultam o transtorno e se obrigam ao louvor.”

Citação L0033-C02, em Protágoras, livro por PLATÃO.

Nesta breve passagem deste diálogo socrático podemos ver o testemunho valioso de duas verdades universais de grande repercussão para a nossa vida espiritual, quais sejam: a do engano da escolha pelo Mal, e a da maior Justiça do suportar os males do que da atitude de se vingar ou murmurar.

É notável que para alguns obcecados com certas visões religiosas totalitárias, esse tipo de sabedoria jamais teria alcançado o coração humano se não fosse por um envelopamento bíblico. Platão nos prova que isto não é verdade. Seria bastante complicado, para não dizer impossível, afirmar que a origem desse testemunho tenha sido uma certeira influência hebraica, e seria mais ainda improdutivo forçar essa associação de vez que a liberdade requer, da parte daquele que concorda com qualquer preceito bíblico em qualquer ponto da face da Terra, que tenha a liberdade de fazê-lo, isto é, a confiança de por si mesmo acreditar no Bem.

Do engano na escolha do Mal, ou das Trevas, que Sócrates diz que é “involuntário”, o que ele quer dizer está muito próximo do testemunho que o próprio Apóstolo Paulo disse quando confessou que quando faz o mal, o faz contra a sua vontade, por uma fraqueza, e não por não reconhecer um Bem que está além das suas forças.

Isto é tremendamente importante, do ponto de vista espiritual, já que esta consciência nos aproxima de Deus fazendo uso de nossa própria fraqueza confessada. Ao mesmo tempo, ajuda a ganhar grande tolerância e magnanimidade com relação à fraqueza alheia, ao compreendermos que todos compartilhamos da mesma precária condição humana. É um recurso que auxilia tanto a experiência do Primeiro quanto do Segundo Mandamento.

Já da questão de ser mais justo suportar os males do que querer vingá-los ou de murmurar por conta deles, isto está em total associação com o Espírito Santo de Deus, quando Jesus Cristo ensina: “aprendei de mim, que sou humilde e manso de coração.” O que afinal significaria “pacificar e harmonizar seus sentimentos”, como Sócrates diz, senão o aceite das qualidades divinas de humildade e mansidão?

Especialmente, num tema que pode ser sensível além do comum para o meu público, gostaria de enfatizar a paz e alegria que existe no cumprimento do mandamento de honrar pai e mãe.

Essa honra não consiste no elogio do pecado, nem na permissão ao mal. Jesus mesmo corrige a idolatria da família declarando que nossos primeiros inimigos estão na nossa própria casa, que veio fazer os filhos se voltarem contra os pais, e que quem não odiar sua família não poderá segui-lo. O mandamento divino não fala da idolatria da família, mas do amor ao próximo, da aplicação do Segundo Mandamento, por um ato de misericórdia, em favor daqueles que são os nossos primeiros próximos na vida, isto é, nossos próprios pais. Bem entendidas as coisas, percebemos rapidamente como dificilmente eles tiveram malícia congênita, sendo o mais das vezes mais vítimas eles mesmos da sua criação em cativeiro, debaixo da Maldição, do que grandes cúmplices do Pacto Ouroboros.

Deixe um comentário