Citação L0035-C02, em Górgias, livro por PLATÃO.

Neste alto ponto moral da filosofia socrática-platônica, reconhecemos já os ecos mais promissores de uma consciência da realidade espiritual, para não dizer até mesmo monádica.
O mal é um fato espiritual que existe, como tal, no interior da alma humana.
Naquilo que normalmente presumiríamos consistir a maldade, isto é, nos seus efeitos na vida exterior, Sócrates vê somente consequências de movimentos interiores que são não somente mais relevantes como causas, mas também mais persistentes por qualificar o estado espiritual de um sujeito agente.
Ser bom, ou ser mau, é algo que está, portanto, totalmente sob o nosso controle: podemos não controlar os efeitos da maldade alheia sobre a nossa vida, mas temos o total domínio da nossa qualidade moral de disposição e da nossa reação ao mundo que nos cerca.
Quando depois os estóicos elogiarão o autocontrole e o autodomínio, nada mais farão do que continuar esse legado da autoconsciência moral humana iniciada pelo menos desde Sócrates.
Igualmente, quando os gregos receberem o Evangelho que recomenda a mansidão contra todo tipo de maldade e agressão, suas almas não serão totalmente surpreendidas com essa solução espiritual. Deus já havia, afinal, visitado as nações com a sua Lei do Amor, cada qual nutrindo aquilo a que pudesse se dispor ouvir.
Reparem, na postura de Sócrates, que ele não deixa de ser humano, e nem recomenda que vivamos uma ilusão: entre sofrer ou causar um mal, ele prefere não participar nem como paciente, e nem como agente. Não há masoquismo, não há nenhuma Cruz forçada, ou voluntária. O que há é uma escolha, quando não existe escapatória, de aceitar o mal infringido como algo melhor do que infringir o mal aos outros.
Terminadas as experiências morais provisórias e temporárias neste mundo, que restará das nossas almas, senão aquilo que cultivamos no nosso interior diante de Deus?
Sócrates tem essa preocupação. Embora use uma mitologia datada e localizada, com os três juízes Aiaco, Radamanto, e Minos, fazendo o papel do Juízo Final de Deus, a idéia de uma Justiça imortal não deixa de acertar ao menos parcialmente no seu alvo. Até a idéia de recompensas ou punições depois da morte terrena é secundária à importância do bem da Justiça em si mesma.