A primeira questão relevante neste diálogo, proposta por Sócrates, é a pergunta do motivo pelo qual os sábios de antigamente, como Tales de Mileto, não se envolviam em questões de Estado, ou seja, com a política.
Hípias afirma, aceitando uma sugestão de Sócrates, que isto se dava por uma limitação da capacidade desses sábios, já que a virtude política ainda seria desenvolvida futuramente. Mas Sócrates apenas criou uma armadilha para fazer Hípias revelar a sua pretensão de sofista.
O diálogo então chegará no seu objeto principal, que é a investigação sobre o que é o Belo. Lembremos que esse Belo é o kálos grego, um conceito mais amplo do que aquilo que entendemos como valor estético.
Hípias escapará da definição do Belo buscando refúgio na predicação da beleza, dizendo que isto ou aquilo pode ser belo, mas sem afirmar o que é o Belo em si. Sócrates, mais à serviço de Platão do que de si mesmo, defenderá a idéia superior do Belo, embora sem definições satisfatórias. Assim como para Hípias o Belo é o que agrada, para Sócrates (Platão) o Belo é o que torna aquilo que de si participa algo agradável, isto é, situam o Belo nas coisas ou as transcendendo, sem uma identificação suficiente.
E esta provavelmente jamais nos seria possível, dado o limite de nosso intelecto. Monadofilicamente, o mais próximo que podemos chegar da verdade é o que segue: o Belo é a propriedade do Ser que satisfaz a Apetição da Vontade, tanto quanto a Verdade é a propriedade do Ser que satisfaz a Percepção do Intelecto. Em melhores termos, enquanto a Verdade é o aspecto do Ser que atende ao Logos, o Belo é o aspecto do Ser que atende ao Telos. O Verdadeiro mostra a forma, o Belo mostra a finalidade. Aletheia para o Logos, Kálos para o Telos. Porém, a Unidade do Ser é suprema, porque o Ser é a Mônada, e sua forma de Substância Simples é a Unidade. O Ser é Belo e Verdadeiro. O Belo é a Glória de Deus que nos apetece. Se pudéssemos definir o Belo para além desse nível, com a precisão do conhecimento dos contingentes, nós teríamos o domínio intelectual do que nos transcende, o que é impossível. Não existem definições precisas nem do Belo, e nem do Verdadeiro, mas apenas aproximações por critérios de reconhecimento.
A investigação socrático-platônica não é improdutiva, porém, porque serve para mostrar o limite do nosso Intelecto, e para a admiração contemplativa do Transcendente. Auxilia, assim, na recepção dos dons de Humildade e Presença. E Platão, cá entre nós, chegou muito longe, praticamente pronto para afirmar o que precisamos para chegar no ponto de que a Verdade é o Bem do Ser de acordo com o Intelecto, tanto quanto o Belo é o Bem do Ser de acordo com a Vontade.
Outros detalhes são dignos de nota.
Por exemplo, quando Sócrates insiste na diferença entre o ser belo e o parecer belo, na pista da diferença entre episteme e doxa, entre opinião e conhecimento, como aplicação da metafísica ao problema do Belo, é Platão quem nos leva ao dualismo gnóstico que cria novos problemas. Entre a evidência do que é aparente e do que é real, qual é a distinção senão entre uma Percepção e outra? Como se pode afirmar que o que é tido como realmente belo agora não será entendido como aparente mais tarde? Não se pode. Diante disso só se pode ter uma solução idealista, isto é, se não queremos perder o mínimo Princípio de Identidade, que é o poder de afirmar as coisas. Porém, existem dois tipos de idealismo. O platônico é imanentista quando propõe que o conhecimento pode ser dominado pelo Filósofo, a Pretenção gnóstica. Já o idealismo transcendental propõe a Unidade do Ser pela sua forma de Substância Simples: ou seja, somente o Intelecto divino possui a Percepção plena, sem nenhuma “aparência”, enquanto os intelectos criados só podem possuir a Percepção limitada do Belo, ou o acesso a uma “aparência” do Ser integral. Dito isso, Platão não perde o seu grande mérito de apontar para a necessidade metafísica dessa Unidade do Ser. Não seria possível alcançarmos as alturas plotinianas, scotianas, e leibnizianas, sem antes sermos erguidos pela potência platônica.
Uma outra observação que pode ser feita a partir das indagações socráticas é a da questão da diferença entre o que parece ser belo para sujeitos diferentes. Essa questão está obviamente ligada à anterior (e tudo isso não passa de uma tentativa de resolver o problema parmenídico da permanência da Unidade do Ser). O tal do Belo em si mesmo precisa ser o mesmo para todos, é claro. Mas ele não pode ser conhecido como o mesmo, porque os intelectos criados possuem uma Percepção parcial e relativa da Unidade do Ser. A experiência real dos intelectos criados é tão particular e determinada pela sucessividade, que não só o que parece belo para um difere do que parece belo para outro, mas até o que parece belo para alguém agora já pode não parecer mais tão belo depois para o mesmo sujeito. E isso não constitui defeito, ao contrário, é uma condição da satisfação humana. Até mesmo sob a Coruscância, embora não haja alternância no contexto da Mistura, há movimento entre o que equivale à passagem do que parece “menos belo” ao que parece “mais belo” na forma da satisfação da sucessão das Percepções, porque a nova experiência é sempre apetecida para completar a anterior. A visão gnóstica, porém, diverge radicalmente.
Transhumanista, contrária à forma substancial da mônada criada, a crença gnóstica propõe a plenitude divina para todos, ou seja, que o Belo seja conhecido enquanto tal por todos os intelectos criados, o que por ser impossível implica que o Gnosticismo seja um culto de morte, inclusive, e de modo escandaloso, nos cultos religiosos cristãos, que deveriam dar o testemunho da Ressurreição mas propõem não a Comunhão do Homem com Deus, mas a transformação do Homem em Deus (uma mentira), com idéias de “visão beatífica”, “união mística”, etc., o objeto da promessa da Serpente no Paraíso.
Vejamos uma citação do diálogo:

Sócrates chega perto da identificação do Belo com o Bem, mas empaca no problema da diferenciação pela causalidade, quando é proposto que o Belo é a causa do Bem. Esse problema é interessante porque ilustra a dificuldade comum com o entendimento das relações de identidade e diferença entre as Pessoas da Santíssima Trindade. E até convenientemente, Sócrates mesmo usa como exemplo a relação entre as figuras de pai e filho. Ele resolve por abolir a identidade, ou negar a causalidade, ou seja, não é possível o Belo e o Bem serem Um e ao mesmo tempo o primeiro causar o segundo. Toda a dificuldade está na distinção entre causalidade contingente e processão hipostática, ou seja, tomar o que é divino e transcendente sob o entendimento das coisas criadas e imanentes.
Mas Platão não é Plotino, e o desenvolvimento das idéias de Unidade e de Analogia ainda dependiam de muitos séculos para alcançarem seu ápice histórico.
O Ser é Bom, Belo e Verdadeiro, sendo a Beleza a bondade do Ser enquanto objeto da Apetição, e a Verdade a bondade do Ser enquanto objeto do Intelecto. Porém, mesmo essas qualificações não exprimem bem a simplicidade nem da realidade nos seus termos, e nem da nossa experiência dela. Porque refletem um certo abstracionismo filosófico, isto é, reconhece uma separação na mente que não existe nas coisas. O Intelecto que percebe as formas é o mesmo que se satisfaz com as suas qualidades. Só existe uma Percepção. A multiplicação das abstrações pode servir para um entendimento mais extenso, mas não deve ser usada para a ruptura da Unidade do Ser. Fico feliz com que esta leitura do Hípias Maior tenha servido para essa reflexão. Não se deve ter a falsa impressão de que o Belo, enquanto bondade do Ser como objeto da Apetição, não o seja também do Intelecto, algo que seria absurdo, pois a Apetição é o desejo de uma boa Percepção, o que quer dizer concretamente o Belo é sempre objeto do Intelecto, e é bom para o Intelecto, e é por isso que satisfaz a Apetição da Vontade. Dito de outro modo, Beleza e Verdade não são duas coisas diferentes, mas dois aspectos do mesmo Ser.
Ao fim do diálogo, depois de debaterem sobre como o que é belo pode ser tanto percebido pela visão quanto audição, Sócrates avança novamente na direção do entendimento do problema de como algo pode ter unidade e distinção ao mesmo tempo, isto é, o problema do Múltiplo a partir do Um, mas Hípias desiste. Reafirma a razão sofista dos discursos com finalidades tangíveis e debocha da filosofia, ao que Sócrates reage com resignação irônica, ao citar um adágio que diz “tudo que é belo é difícil”, obviamente cientificando a limitação de Hípias, pela sua desistência, e não a sua própria.
Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 7 |
| Presença/Idolatria | 5 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 6 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 4 |
| Nota final | 5,1 |