Esta quase profética comédia mostra uma visão do futuro com base numa insuspeita consequência da evolução depois das maiores conquistas tecnológicas, econômicas e sociais do Século XX: acostumado a viver sem um predador natural, e com uma vida razoavelmente fácil de se manter, o ser humano médio não precisa ser mais esperto para sobreviver, e o mecanismo da seleção natural passa a premiar os mais burros, ao invés dos mais inteligentes.
Desde a premissa evolucionária, temos que até certo momento da história os indivíduos que mais tinham chance de se reproduzir eram os mais adaptáveis, portanto com maiores chances de ter um intelecto superior. Porém, a partir do momento em que a espécie humana domina o mundo e os indivíduos não precisam mais se adaptar ao ambiente que já está bastante controlado, a equação se inverte: os mais inteligentes se reproduzem menos, e os mais estúpidos se reproduzem mais.
Esta é uma premissa interessante que contestaria a minha idéia de concomitância do progresso moral na evolução natural da senciência, se não fosse a evidência contrária na queda da taxa média de natalidade em níveis globais, ao menos por ora. É claro que períodos mais extensos podem mostrar resultados diferentes, talvez próximos a um cenário como o apresentado no filme, que se passa no Século XXVI. Podemos até mesmo conceber uma noção de Ciclo com base nessa premissa, de modo que o Great Reset talvez não passe de um colapso natural quando a capacidade intelectual média de uma civilização atinge níveis catastróficos que tornam a vida impossível.
O filme não precisa especular seriamente sobre nada, por se tratar justamente de uma comédia.
A melhor parte, logo no início, mostra a diferença de mentalidade entre Trevor e Clevon, o primeiro, mais inteligente, relutante em multiplicar a sua genética, e o segundo, mais burro, incapaz de qualquer ato de continência, multiplicando grandemente a sua genética.
O que é mais perigoso é a tendência eugenista desse tipo de narrativa, a sugestão de uma tentação no sentido de controlar o processo ao se mostrar, mesmo que comicamente, as sinistras perspectivas do futuro da humanidade.
No que tem de mais favorável, e que chega a contar um ponto positivo como testemunho da Vigilância, é a observação das características dessa sociedade tola, formada por pessoas estúpidas: o grande papel da tecnologia que torna o seu usuário cada vez menos qualificado individualmente, a grande obsessão com sexo e dinheiro que permeia toda a cultura, o desprezo contra qualquer noção de valor intelectual ou cultural (“isso é coisa de veado”), e a transformação de tudo em marketing e comércio, onde até os nomes de pessoas famosas são acrescidos de marcas de produtos.
O patético protagonista, de inteligência média, que por acidente foi parar cinco Séculos adiante depois que foi esquecido num programa de teste de criogenia, acaba por salvar essa humanidade futura com o simples expediente de substituir a irrigação das lavouras com Gatorade por água.
É claro que com o advento da Inteligência Artificial, e com a preocupação constante da Elite de permanecer no controle de todas as coisas, o cenário final da humanidade apresentado em Idiocracia dificilmente se concretizaria.
Mas o filme não deixa de ter uma função no diagnóstico da atual condição humana, e talvez um uso dentro de uma certa estratégia de programação preditiva que quer justificar antecipadamente as medidas eugênicas a serem implantadas (ou já em andamento?) para submeter a humanidade a um controle artificial.
E isso não é nenhuma novidade. A burrice da humanidade, inaugurada com a traição de Adão e Eva contra seu Criador, sempre foi uma suficiente justificativa legal para a legitimação da escravidão da mesma.
Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 4 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 6 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 4,9 |