O contexto deste importante diálogo é o fato recente da morte de Sócrates, e o interesse nos últimos testemunhos do filósofo antes da execução de sua sentença. Fédon fará o relato.
Sócrates pede que Xantipa, sua esposa, cheia de lamentos, seja retirada e levada para casa, para que os amigos possam discutir com calma e serenidade. Não se confunda isso com misoginia. Xantipa representa, aqui, a falta de domínio das emoções. Esse descontrole emocional precisa ser afastado para que se possa praticar a Filosofia. É disso que se trata.
A primeira coisa notável é o testemunho de como o prazer e a dor parecem caminhar juntos, sempre em sucessão. É uma observação casual de Sócrates, mas vale a pena nos determos um pouco nela. Ele afirma que isso é uma coisa estranha. Percebam que essa expressão é eminentemente socrática: testemunha a Mistura com uma reação de perplexidade, sem trabalhar na sua legitimação, ou pelo menos não propositalmente, como Platão e Aristóteles farão mais tarde.
Mas então recebemos um altíssimo testemunho do espírito de Vigilância, satisfatoriamente imune da doença gnóstica, o que nos lembra os próprios testemunhos bíblicos:


Isto é importante: Sócrates rejeita a experiência da Mistura, mas igualmente confia na autoridade divina que nos instalou na experiência da Mistura. Ou seja, ele rejeita, ao menos até aqui (até que Platão o faça dizer algo diverso), ambos os lados da Dialética do Ouroboros, tanto o da Tradição quanto o da Revolução.
Recebamos todo o peso das palavras de Sócrates. Ele diz que o amante da Sabedoria deseja o fim das Obras da Carne, ou seja, a morte deste corpo. Quando fala de “aguardar um benfeitor“, ele literalmente afirma que não podemos salvar a nós mesmos, mas que a passagem para além desta experiência é uma Graça divina. Está às portas de Jesus, que disse: “EU SOU a Ressurreição“. E Sócrates não é prosélito de nenhum culto, ao contrário de Platão, por exemplo, como veremos no fim do próprio Fédon. Sócrates admite: “a mim parece de grande peso e de difícil compreensão“, que estejamos como numa prisão, mas sem poder escapar por nós mesmos. Apesar disso, repousa na confiança na Providência divina.
Mais adiante no diálogo a morte é definida como a separação da alma e do corpo. É uma definição mecanicista, dualista e gnóstica. O quanto ela corresponde ao pensamento socrático, e não somente ao platônico, é algo que pode ser difícil de discernir. Monadofilicamente, porém, certamente definimos a morte como uma operação funcional, ou processual: é a cessação da Percepção condicionada pela contingência de um corpo em particular. O corpo, sendo uma interface persistente da Percepção, isto é, o objeto imediato e mediador do Intelecto, a sua morte constitui para a Mônada apenas a passagem para uma nova fase de Percepções.
Porém, o caminho platônico será bem diverso. O corpo e as experiências das suas sensações serão desprezados em face do verdadeiro conhecimento que a alma só pode obter separadamente, como fruto da Razão, no acesso às idéias puras que transcendem o universo das sensações. Esse ensinamento é essencialmente gnóstico, ligado à busca do Poder, já que isto que é exaltado na busca filosófica é o conhecimento das idéias ou formas na sua permanência, de forma independente da mutabilidade da contingência, algo que só experimentamos através da abstração, ou seja, através de um poder da psique humana. O que quero dizer: ninguém nunca conheceu as formas das coisas diretamente. Esse tipo de conhecimento só pode ser imaginado a partir da nossa experiência abstrativa da Percepção, como conteúdo de uma preexistência, como na mitologia platônica, ou como conteúdo de um conhecimento ideal que seria posse de uma divindade. E a única razão para se desejar esse conhecimento imaginado é a desconfiança maliciosa da atual experiência da Percepção. Vejamos o próprio raciocínio platônico:


É afirmado que a alma é “enganada” pelo corpo. O que isto quer dizer? Que as sensações não nos transmitem a verdade, mas somente uma aparência, ou imagem, da verdade. E o Filósofo sabe disso porque exercita um raciocínio abstrato que lhe permite separar e conceber as verdades imutáveis por trás das aparências dos contingentes. Mas justamente essa operação é uma forma de poder psíquico, de tal modo que não é bem assim que a alma é enganada pelo corpo: o que acontece é que os objetos da Percepção estão fora do nosso controle, enquanto os objetos do nosso pensamento nos são totalmente submetidos, porque nós mesmos os produzimos, como se fôssemos seus deuses soberanos. A Gnose corresponde perfeitamente àquela soberba maliciosa de Lúcifer diante de Deus, o medo de ser enganado por aquilo que escapa de seu controle. Afinal, só se pode ser enganado por um poder que é superior. A ânsia de ter o conhecimento pleno da verdade corresponde, assim, perfeitamente ao desejo de ser Deus, isto é, de não depender da bondade de um Ser que, por estar fora do nosso controle, poderia sempre nos enganar, não tendo nada que o obrigasse a ser bom fora da sua própria essência.
Dizendo isto, não quero afirmar que não há nenhum problema com a experiência deste corpo presente. E nem sequer quero negar que é necessária uma separação. Mas não existe dualidade. Não existimos por composição de duas partes. Só existe a Substância Simples. A “alma”, por assim dizer, não precisa se separar do corpo, porque ela nunca esteve unida a ele: ele é uma função da sua Percepção. Ela só precisa conhecer a sua decisão livre de confiar no Amor divino ou não. A separação que é necessária é a da Percepção misturada daquilo que é bom com aquilo que é mau. Esta é a verdade universal do nosso ser. Nós não queremos realmente ser como Deus é, porque não podemos nem sequer conceber o que isso significa. Mas queremos ser como deuses na nossa própria forma de ser, isso sim, ou seja, desejamos obter uma Percepção de acordo com a nossa Apetição.
Aquilo que Sócrates disse que era “de grande peso e difícil compreensão” fica mais fácil de entender: enquanto salvador de si mesmo, realmente, o homem está perdido. A razão para ele ter de morrer, ou melhor, para que seu presente corpo ter de morrer, mas ao mesmo tempo de que ele não possa deliberar o momento dessa sua libertação, consiste numa certa necessidade da sua alma de experimentar esta contingência, isto é, a Mistura. O gnóstico afirmará que isto é para a escolha do conhecimento verdadeiro e o desprezo do falso. Mas este conhecimento divino é um objeto de crença, como qualquer outro. E a síntese da crença gnóstica é a superação e transformação da forma substancial humana. Outra crença é igualmente viável, e na verdade muito mais conveniente: a de que não há defeito na forma do ser humano, dada a excelência da criatividade divina, e de que o tempo da experiência da Mistura é necessário para a deliberação da confiança no Amor divino, ou o desejo de salvar-se por si mesmo. Curiosamente, ambos esses seres humanos atingirão a sua meta: os que confiam e aceitam o Amor divino receberão a salvação da separação; já os que não confiam e não aceitam a sua forma limitada de ser receberão a salvação da extinção permanente de seus seres, ou seja, a libertação de seu limite.
Na linguagem mesma de Platão percebemos como dois males diversos se confundem: de um lado as sensações enquanto tais, e de outro as necessidades do corpo, suas dores, seus cansaços, etc. A experiência do prazer é ambígua, porque talvez ela sirva para distrair o Filósofo, mas ninguém pode afirmar que ela não dá algo de bom, porque a sua bondade a define. No que o prazer é enganoso é justamente que ele nos faz assentir com a Mistura, e nada aponta para isso com maior clareza do que o prazer sexual que geralmente serve como veículo para a perpetuação da experiência da Mistura, e não qualquer veículo, mas o mais poderoso. Vejamos uma passagem interessante:


O Bem é identificado como um produto do nosso pensar, ou ao menos o reconhecimento dele. E o corpo é a origem de todos os males. Mas todos os nossos conhecimentos possuem a particularidade da singularidade, e é por isso que dizemos que são nossos conhecimentos. Queremos sempre o conhecimento daquilo que nos é próprio. E o corpo não passa de ser mais um desses objetos próprios ao nosso Intelecto, e diríamos até que é o mais imediato e comum. O conhecimento não é resultado do pensamento, ou do raciocínio, ou da abstração. É resultado da Percepção. O conhecimento é o Bem do Intelecto produzido pela Percepção. Assim, o que conhecemos através das sensações é não somente o que há para ser conhecido, mas é o conhecimento completo. As idéias são um subproduto da depuração abstrativa aplicada aos conhecimentos integrais obtidos pelas sensações. A origem do Mal é a necessidade que a liberdade das criaturas têm de experimentá-lo para o conhecimento do seu próprio arbítrio da escolha do Bem, já que se só conhecessem o Bem, não seriam livres para escolhê-lo.
Aquilo que incomoda Platão, ou mesmo Sócrates, não é que suas Percepções se realizem pela experiência de um corpo (afinal, como conceber de outra maneira?), mas que elas conheçam o que não as apetece. A Mistura maligna, assim, não é entre alma e corpo, mas entre Percepções que satisfazem a Apetição, e outras que a contrariam.
Mais adiante, quando Platão identifica o Filósofo com o “homem que passasse a existência praticando para viver num estado o mais próximo possível da morte“, isso constitui a confissão mais clara de como o Gnosticismo é um Culto da Morte, seja nessa forma filosófica ou em outras, como a mais comum que é a religiosa. A desconfiança da bondade do Ser leva inescapavelmente à morbidez do espírito.
Na parte seguinte do Fédon, Platão gastará argumentos na tentativa de provar, ou ao menos tornar mais provável, a hipótese da imortalidade da alma. Hoje podemos considerar todos esses argumentos fracos e dispensáveis. Em contraste, por exemplo, a permanência da Mônada é uma idéia muito mais fácil e intuitiva. Mas ela precisou dos desenvolvimentos prévios do platonismo, como veremos. O que interessa é chegar na Unidade como forma do Ser. Não composta por partes e sendo, assim, imune aos processos submetidos ao princípio de geração e corrupção, a Substância Simples só pode ser criada e aniquilada, isto é, não vive como produto indireto da causalidade eficiente da instância de uma Natureza, mas da vontade direta de um Deus.
Como de costume, a teoria da Reminiscência é elencada como evidência da imortalidade da alma, e até o fim do Fédon será a “prova” mais forte para justificar a crença platônica. Já vimos antes como isto é apenas a confusão entre a intuição da integridade da Unidade do Intelecto com alguma suposta preexistência.
Eventualmente Platão afirmará que a unidade não composta da alma é o que lhe permite resistir ao processo entrópico de dissolução, mas fará isso às expensas da condenação do corpo e das sensações. Chega a dizer que a nossa alma é o que temos de divino, e o corpo é aquilo que temos, não de animal, mas de humano. Um testemunho claro do transhumanismo gnóstico. Isso não surpreende. Antes de Leibniz e Plotino, nós precisávamos dessa Unidade platônica, para não falar da pitagórica. Mas que os cristãos percebam claramente como a imagem e semelhança divina é negada, bem como, igualmente, a possibilidade da Encarnação e da Ressurreição. Indiretamente, o testemunho platônico é anticristão. Platão pode até ser considerado um profeta para os cabalistas ou para os sufis, mas nunca poderia sê-lo para os místicos cristãos.
Platão sempre está na pista certa, mas chegando em conclusões inconvenientes. Quando verifica, aqui neste Fédon, que não se poderia saber, por exemplo, que a Igualdade é sempre igual a si mesma, se isso não fosse conhecido desde sempre e antes da predicação dessa qualidade ao primeiro caso concreto, está muito perto da intuição da Unidade intelectual monádica, mas prefere a solução da dualidade de substâncias, buscando a salvação da alma com a condenação do corpo (entenda-se bem: não do corpo decaído, que de fato já foi condenado por Deus, mas de qualquer corpo possível).
Digo isso em admiração à filosofia platônica. Se conseguimos ver por detrás do obscurecimento gnóstico, podemos reconhecer o esforço por uma liberdade contra o estado ilusório não só da Mistura, mas da própria Idolatria. Por exemplo:


Podemos ouvir um eco do dom da Presença nestas palavras, e indiretamente até um testemunho da Metareflexividade. É claro que Platão não está me dando nada disso; sou eu que estou buscando. Mas ele está, e com razão, assustado com o quanto os seres humanos se deixam impressionar com as aparências das coisas, enquanto poderiam repousar na contemplação do permanente por trás do transitório. Se soubermos depurar a linguagem platônica na busca da essência de suas idéias, ainda temos muito o que aprender com esse grande idealista.
Mais adiante, Sócrates recomenda a confiança moderada em quaisquer argumentos, análoga à confiança moderada nos próprios seres humanos, um elogio aos dons de Humildade e Vigilância. E faz o alerta de que quem deposita confiança demasiada em argumentos tende a se decepcionar muito, e tende a se tornar um misólogo, um odiador de argumentos, assim como quem se decepciona muito frequentemente com seres humanos tende a se tornar um misantropo. Ele recomenda um distanciamento calmo, que parece inclusive um testemunho da Presença, pois quem não se firma em seres humanos e em argumentos, buscará firmeza onde, senão num Deus?
A argumentação final de Platão sobre a imortalidade da alma, bem como de sua indestrutibilidade, é bem fraca, na base de que com o advento da morte aquilo que se lhe opõe, ou seja, a vida, se afasta, de modo que a vida da alma deve ser imortal e indestrutível, pois não se aproxima nem se comunica com a morte. Infelizmente, a coisa não pára por aí: Platão dá o testemunho da sua Religião na qual não há salvação para quem escolhe a maldade (ou simplesmente se apega á ela), porque a imortalidade da alma a força a ter um destino eterno. Essa doutrina é a razão da ruína de muitas pessoas que passam a desconfiar da bondade de um Deus misericordioso, e as leva a fazer comércio espiritual com um “deus” carrasco. A divindade platônica não pode alcançar o suprassumo da Justiça, que é o perdão que só o verdadeiro Deus pode produzir. Isso nos coloca numa posição estranha: se, por um lado, o Fédon dá um potente testemunho do Louvor, por outro lado, contra a Paixão, ele exalta o espírito de Terror, o Pacto com o Inferno. Ainda que de forma atenuada (com um caminho de salvação disponível), essa conclusão é inevitável para a maior parte da humanidade.
Ao menos Sócrates termina seu último diálogo exortando os amigos, entre os quais especialmente Críton, a não confundí-lo com o cadáver de seu corpo:

Essa desidentificação da pessoa com seu corpo é sempre espiritualmente produtiva, embora aqui devemos observar a ressalva de que com Platão corremos o risco de endossar a doutrina da dualidade. Dispensado esse risco, e bem entendido como o corpo é apenas uma função da Percepção, de modo que o percebedor resiste à passagem do percebido, só temos lucros com essa concepção.
Que trabalho nos deu o Fédon! É o tipo de coisa que provavelmente mais desgasta do que nos traz proveitos, mas cada um que faça seu juízo.
Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 7 |
| Presença/Idolatria | 7 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 8 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 3 |
| Soberania/Gnosticismo | 2 |
| Vigilância/Ingenuidade | 6 |
| Discernimento/Psiquismo | 6 |
| Nota final | 5,6 |