Lísis, livro por PLATÃO

Neste breve diálogo Platão tenta definir o que é a amizade e o amigo, mas isso num sentido mais pleno do que entenderíamos hoje pelo uso atual dos termos. A philia é o amor da amizade que atua como uma força magnética que aproxima os seres. Mas os aproxima por qual razão, e de que modo?

Esse é o problema que Platão tenta resolver, mas não consegue: ora parece que os semelhantes são amigos, e ora os dessemelhantes. A questão se tornou insolúvel porque o filósofo baseou a amizade na noção de utilidade, o que causa contradições insolúveis num sistema fechado, ou seja, da relação do Múltiplo consigo mesmo.

A amizade, ou o amor verdadeiro, supera o nível dos desejos, ou das Apetições particulares, porque se dirige ao Bem universal que transcende o Múltiplo e só se realiza no Uno. Trata-se de um outro nível de desejo, por um outro tipo de benefício. Estou quase convicto de que se tivesse tempo suficiente em seu Lísias, Platão poderia ter observado isso, pois ele chegou perto da essência da questão neste trecho:

Somente assim se resolve o problema da definição da amizade: é o amor que o amante tem no seu desejo pelo bem do amado. Quando esse bem é o que chamamos de particular, se define por uma carência solúvel pela posse do Múltiplo, e então é a atração daquilo que tem a aparência do dessemelhante. Mas essa satisfação pela posse do dessemelhante só pode se realizar no âmbito da posse do semelhante, na atração exercida entre os que se assemelham porque transcendem o sistema fechado dos bens particulares. Em outros termos, o bem que é útil dentro do limite do contingente se subordina ao Bem que transcende essa utilidade, ou ainda, o que é insuficiente se submete ao que é suficiente. O Múltiplo é apenas a expressão parcial do Uno, e é por isso que nunca se resolve sozinho, e é por isso que Platão se perdeu em seu argumento: ele tentou justificar a amizade num sistema fechado de Multiplicidades. A amizade que um ser tem por um bem que lhe é próprio depende primeiro da amizade que se tem pelo Bem universal: é assim que antes do amor por qualquer coisa vem o amor-próprio, o amor à Deus, e o amor ao próximo. Da Unidade para a Multiplicidade, assim se expressa a verdade da Monadofilia.

Especificamente na amizade entre seres humanos, o desejo pelo bem do amado é a vontade de que o semelhante pela Unidade se realize pela sua dessemelhança pela Multiplicidade, e é por isso que amar o próximo é principalmente amar a sua liberdade de realizar-se com Deus. Todos os outros bens desejados na amizade com o próximo já são manifestações do que é o Múltiplo para nós, ou seja, é o nosso próprio desejo de viver com Deus e conhecer Sua Glória.

O amigo que se mostra amável para nós é tão somente um embaixador da Graça divina em nossas vidas. O que possui de amável é sempre uma qualidade do Ser divino. Através do amor pelas qualidades do amigo, verdadeiramente amamos a Deus, porque só Deus possui todo o Bem. O outro é uma manifestação de partes desse Bem, como o Múltiplo expressa partes da qualidade do Uno.

No que tem de propriamente amável per se, o amigo apenas possui a mesma simplicidade que nós temos: a indeterminação da sua singularidade monádica. O que une esses amigos atraídos por semelhança é o seu destino comum, o de serem amados por Deus pela Eternidade.

Nota espiritual: 4,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,9

Deixe um comentário