O diálogo trata da disputa sobre qual é o maior bem, se é o prazer ou a sabedoria. Sócrates evidentemente postula a superioridade do bem da sabedoria, enquanto seu interlocutor, Filebo, afirma que o prazer é o maior dos bens.
Sem uma definição boa do prazer é evidente que a sabedoria parecerá superior com facilidade. Sócrates logo ataca a noção superficial de prazer mostrando a possibilidade de prazeres bons e maus. O que ele se esquece de fazer é a pergunta sobre saberes bons e maus. Não digo nem da falsa opinião, que é um tema habitual dos diálogos platônicos, mas de conhecimentos que só produzem o mal. Ou não existe uma sabedoria da produção de armas de terror, ou da arte da tortura, ou da mentira, ou da tirania, etc.? Sócrates poderia responder que nenhuma dessas ciências constitui a verdadeira sabedoria, porque a verdadeira sabedoria só pode produzir um bem. Ao que seria fácil contrapor que igualmente os prazeres maus não constituem o verdadeiro prazer. E Filebo e Sócrates estariam quites, isso ainda que a sabedoria fosse considerada a juíza da distinção do que é e do que não é bom. Porque ela poderia ser apenas um meio para a finalidade do prazer, como a arte da produção de navios ou a arte da navegação são subordinadas ao objetivo de se alcançar um destino. O destino é a causa final.
Dito isso, na Monadofilia eu reconheço a maldade particular do espírito de Sedução que causa o sofrimento pela busca desmedida e desregrada do prazer. Ora, medida e regra são produtos da Sabedoria. Assim, sob esse aspecto, reconhecemos a superioridade da bondade da Sabedoria todas as vezes. Mas que aspecto é esse? É o da causalidade da ação humana, conforme tenha mais ou menos Sabedoria para escolher o bem. Noutro aspecto, como já foi dito, como o da finalidade, existe outra ordem de prioridades. Ademais, e mais importante, a Sabedoria não é humana, mas divina. Por isso se reconhece que o que vence o espírito de Sedução não é a Sabedoria, mas o dom do Louvor que dá a sabedoria particular de amar a Beleza divina através da experiência do prazer. Este dom pode produzir a sabedoria necessária para escapar do mal, da escravidão do prazer desligado da sua fonte divina, mas não o faz às expensas do valor do prazer, mas justamente o contrário disso. De tal modo que a sabedoria que livra o ser humano da escravidão do mau prazer consiste precisamente na exaltação do bom prazer. E somente assim se pode resolver a questão sem se cair nas armadilhas gnósticas. Monadofilicamente, a definição do prazer nos permite esclarecer o tópico: o prazer é a experiência subjetiva da Percepção da Beleza divina. Em outros termos, nós conhecemos a Glória divina através do prazer que ela nos proporcional, não só intelectualmente, esteticamente, ou moralmente, mas também sensivelmente (e diríamos até que de maneira primordial e eminente), a tal ponto que nada do que possamos fazer glorifica mais o Nome de Deus do que a nossa felicidade no deleite dos prazeres da contemplação da Beleza divina. O que nos leva a um ponto ainda mais fundamental da questão, que é o da unidade intelectual da experiência humana: o Belo é o conteúdo do Ser que corresponde ao que é apetecível na Percepção, assim como o Verdadeiro é o conteúdo deste ser no que corresponde ao que é cognoscível na Percepção. O kalos do ontos é o telos do logos: a beleza do ser é o propósito do conhecimento da verdade. O Gnosticismo quer nos fazer crer que há algum conhecimento do ser que não tenha como propósito a Apetição, ou que só constitua um objeto de abstração apetecido enquanto tal, como uma reflexão da Apercepção, mas até ao contrário, que o conhecimento verdadeiro consiste na negação de tudo o que é apetecível na Percepção. Neste caso o Intelecto não produz a Percepção do Ser, mas uma abstração, uma Imagem do Ser, por sua inteligência abstracionista e racionalista que quer contestar a validade dos objetos diretos da Percepção. Em suma, pela Monadofilia o Intelecto possui total unidade, de modo que o raciocínio abstrativo tem somente a função secundária de esclarecimento da Percepção, não para a contestação da mesma, mas para a sua valorização. É na Percepção que conhecemos Deus, seu Bem e sua Beleza, e não na Razão abstrativa.
Platão mesmo não está tão distante dessa unidade do Nôus, embora hierarquize o poder do reconhecimento sobre a capacidade da Percepção per se, como se a sensação tivesse apenas uma função de coleta de dados para a função superior da abstração intelectual. Assim, o saber que se usufrui de um prazer é superior ao próprio usufruto. Mas se o Intelecto (o Nôus) opera intuitivamente, a Percepção é autoconsciente todas as vezes, embora nem sempre produza a Apercepção. Estamos próximos de identificar o vício gnóstico: entre a Percepção intuitiva autoconsciente e a Apercepção, a diferença se encontra na atividade psíquica, ou seja, na consciência como forma criativa de controle do ser. Os filósofos possuem o hábito gnóstico de tomarem a Razão como meio de posse da Verdade, quando ela é somente um meio de reflexão sobre a Verdade, e um meio tão mais falível quanto mais exige uma deliberada atividade da psique humana (esta é a razão pela qual eu já afirmei que “a beleza não mente”). Já a Percepção em si é sempre completa e em si mesma indefinidamente contemplativa, porque o Intelecto não encontra limite interno na sua atividade intuitiva de conhecimento da riqueza do Ser. Em outros termos: não há limite para a atividade da atenção direta no ato da Percepção. Em suma, a contemplação da Verdade é a própria Percepção do Ser, e não a Apercepção abstrativa da psique humana. Esta última é apenas uma imagem estável e mais controlada do produto da Percepção, seja como memória ou imaginação, algo que é mais tentador porque está justamente muito mais no nosso controle.
Vejo com clareza a diferença entre essas coisas na diferença, por exemplo, que existe entre a experiência do turista que vai e vê aquilo que visita, deixando-se ser absorvido pelo que percebe, e a experiência do turista que se ocupa principalmente em registrar por fotos e vídeos a sua visita, querendo mais produzir o registro controlável da sua experiência do que aprofundar-se na riqueza imediata e intuitiva da mesma, justamente a riqueza que não é transportável na sua integridade à forma do registro. Prestem muita atenção nisto. Um outro análogo pode ser observado na diferença que há entre a vida experimentada com sentido interior e aquela que é voltada para fora, para a produção de reconhecimento exterior, seja na forma de poder, riqueza, prestígio, fama, etc.
Seguindo adiante no estudo do Filebo, encontramos as categorias ontológicas que Platão fará uso na sua defesa da superioridade da Sabedoria (ou ao menos da inferioridade do prazer), nas formas que determinam as relações entre o Uno e o Múltiplo, ou seja, os conceitos do discreto, do contínuo, da mistura de ambos, e da causa dos dois e de sua mistura:


Nota-se como a cosmologia platônica interfere na sua ontologia, e como isso complicará o entendimento do que significa o prazer. O dualismo das substâncias corporal e psíquica, sendo uma produção da própria psique, jamais reconheceria a qualidade não abstrativa do Intelecto acima da Razão. Comparado com os animais, dentro de um sistema fechado (entrópico, imanentista, sem Deus), o ser humano só pode vencer se exaltar a sua própria racionalidade. Mas quando toma por real não somente a sua experiência da Percepção, mas a substância do que é percebido em si mesmo, o ser humano já transforma a sua exaltação em idolatria, seja da Natureza ou do próprio Homem. Bastaria voltar ao elemento básico da sua experiência, que é a Percepção, bem como à necessidade de uma causa suprema externa e transcendente à essa Percepção, que tudo se corrigiria rapidamente. O idealismo da filosofia platônica está no meio do caminho entre essas duas possibilidades. Como de costume, Platão mistura erros com acertos: desintegra a unidade do Intelecto atribuindo substância ao que não convém, mas reconhece a fonte divina, transcendente, do Ser.
Em seguida encontramos uma doutrina que é muito cara ao pensamento gnóstico, que é o de que o prazer sensível, assim como outros bens análogos, se define na relação com uma contraparte, no caso a dor, e portanto que uma coisa não possui ser sem o necessário ser da outra. Vejamos a citação em que Platão fará essa proposta diretamente:

Este ponto é fundamental para a definição do prazer. Posto deste modo, temos uma harmonia prévia, constituída por um estado natural cuja ruptura causa dor e a recuperação causa prazer. O Ser fundamental está muito distante deste processo parcial que afeta apenas a natureza particular dos animais. É evidente que se a parte “divina” (ou superior) do homem é aquela que se distingue eminentemente da parte animal, e o prazer é uma afetação exclusiva da natureza animalesca dos seres, ele será tido como inferior todas as vezes em relação com as qualidades superiores do ser racional, como o entendimento, a agência moral, etc. Mas não é esse um jogo de cartas marcadas? Quem foi que disse que a experiência na condição da Mistura, ou seja, do decaimento, não afetou o juízo da verdadeira natureza do prazer, tornando sua condição contingente uma qualificação essencial? Quem disse que a mentalidade dos nascidos em cativeiro não os predispôs a considerar a experiência apenas sob a ótica da idolatria, sem cogitar-se outras possibilidades?
Especialmente os cristãos estão terminantemente proibidos de acompanhar essa lógica transhumanista do Gnosticismo, desde que tanto a Encarnação quanto a Ressurreição constituem uma validação direta e inquestionável da bondade da forma substancial humana.
No intuito de consolidar a diferença entre prazeres da alma e do corpo, Platão produzirá uma definição dualista da Percepção (aísthesin): “a conexão da alma e do corpo em um único estado emocional comum e em um único movimento“. Já monadifilicamente definimos a Percepção como o ato do Intelecto que produz o conhecimento do Ser. Aquilo que será determinado como propriedade da alma na filosofia platônica, como a depuração abstrativa, ou a apreciação estética e moral, é na verdade um processo secundário à atividade intelectual primária da Percepção, que agregamos de forma geral no conceito de Apercepção. O dualismo é uma premissa não autoevidente baseado na atribuição de substância a seres que não podem se sustentar sozinhos ou, em outros termos, na idolatria. Até mesmo toda a categoria do Corpo é arbitrária. O que existe, quando reduzimos a experiência aos seus elementos fundamentais inescapáveis, é o objeto da Percepção, portanto o Intelecto e a Substância Simples. O que essa doutrina gnóstica dualista produzirá é uma imensa fratura no pensamento filosófico, gerando os enganos dos idealismos imanentistas e dos materialismos, com consequências devastadoras na História. Ainda não estamos curados desse mal, enquanto sociedade, se é que um dia poderemos estar.
Mais adiante Platão fará uma aproximação mais exata no seu critério de distinção do que é um prazer legítimo, verdadeiro ou bom:


Ao afirmar que bom é o prazer de cuja ausência não se sente a falta, Platão ignora completamente a possibilidade de que a afetação negativa da alma possa se dar por alguma influência que possa ser isolada. Isto ocorre por falta de Discernimento, ou por influência do espírito de Psiquismo: se um espírito afeta a psique com o sofrimento de uma carência, isso não constitui a maldade do bem desejado, pois não cabe à psique fazer juízo do que é bom, principalmente quando é afetada pela agência de uma força exterior à sua dinâmica interna da Apetição. Nos próprios termos da filosofia grega, diríamos que o Nôus, ou o Intelecto, arbitra sobre a Psiquê, ou a Mente. Em termos cristãos, diríamos com Paulo que o homem psíquico não sabe julgar o que é espiritual, mas que o homem espiritual a tudo julga e por nada é julgado. A Platão nem ocorre a desconfiança da integridade do testemunho do processo psíquico. É por isso que está preso à lógica naturalista e porque busca o prazer no incorpóreo, negando portanto a integridade e bondade da forma substancial humana.
Quando fala, na citação acima, do modo “absoluto” e não “relativo” de certas belezas, Platão associa a pureza das formas à Verdade, mas bem que poderia verificar que a atual condição da Percepção humana é que poderia constituir uma impureza, e não a mediação das sensações corporais. Vejam bem: o Gnosticismo é um escolha travestida de revelação. Quando quer, a Razão humana pode conceber, e até com facilidade, os motivos da frustração da sua experiência, sem ter que apelar para dualismos, transhumanismos, etc. A desconfiança a respeito das sensações é uma arbitrariedade. A qualquer momento a condenação da mistura de soma e psiquê pode ser substituída pela condenação da Mistura de Luz e Trevas, Bem e Mal, ou entre aquilo que apetece à Percepção e o que contraria a Apetição. É uma escolha.
E Platão não está tão longe de perceber isso. A inteligência do filósofo assume proposições gnósticas na sua falta de alternativas melhores que fossem viáveis para aquela mentalidade. Na sua busca pelo prazer verdadeiro, Platão nos segue com noções úteis até hoje:

Essa prazer “mais agradável, mais verdadeiro e mais belo” possui a característica da pureza, em oposição à mistura. Pois bem, a definição do que é a Mistura, como já vimos, é a questão que separa o nível superior do entendimento. O nível inferior diz respeito à consciência de que há mistura, e de que o puro é melhor que o misturado. O primeiro tipo de Gnosticismo é o legitimador da Mistura: os cultos da Natureza, da Lei Natural, etc. Platão possui idealismo suficiente para nos livrar desse nível inferior, quando reconhece que a pureza é melhor que a mistura. Mas é na qualificação da Mistura que ele não escapa do outro grau do Gnosticismo, que oferece a pureza não como purificação, ou como Redenção da forma substancial do ser humano, mas como sublimação transhumanista. O nível superior de entendimento requer a observação da inefabilidade divina: para não se cair na tentação luciferina que gera o impulso autodestrutivo, é preciso reconhecer que o Limite dos seres contingentes constitui a sua bondade inerente, ou potencial. E não é preciso haver Mistura na experiência do Limite. Do ponto de vista da Unidade, a restrição da Percepção não gera a Mistura. O que gera a Mistura é a carência moral por uma condição de escolha entre o aceite do Limite e a sua rejeição. Isto quer dizer que nós podemos, se quisermos, separar os seres humanos em três graus de níveis de entendimento sobre a condição do seu ser:
1- O nível inferior, de aceite da Mistura, que identifica o homem com a Multiplicidade da animalidade;
2- O nível médio, de rejeição da Mistura, e de rejeição do Limite, que identifica o homem com a Unidade da divindade;
3- O nível superior de rejeição da Mistura, e de aceite do Limite, que identifica o homem com a imagem e semelhança da Unidade da divindade, criada por analogia.
O nível inferior é humanista, naturalista, religioso, tradicionalista, etc., o Gnosticismo do braço direito do Ouroboros, o Behemoth.
O nível médio é o transhumanista, esotérico, revolucionário, etc., o Gnosticismo do braço esquerdo do Ouroboros, o Leviathan.
O nível superior é o da consciência cristã que rejeita as duas mentiras e recebe, através da Humildade, aquilo que Lúcifer nunca quis: a Graça do Limite, ou seja, a contemplação amorosa, não gnóstica, da Unidade. Em suma, é a Comunhão com o Filho na sua relação divina com o Pai que foi o que Lúcifer, o Ouroboros, rejeitou, preferindo a autodestruição autofágica da contínua dissolução do seu ser para produzir a imagem de um análogo da Eternidade.
Voltando ao Filebo, Platão mesmo não parece estar decidido com relação ao seu rumo na investigação. Seu idealismo nunca é superficial, embora ainda não possa resolver satisfatoriamente todos os seus problemas. Ele faz Sócrates propor a Protarco o envio de uma oração aos deuses Dionísio, Hefaístos, ou ao deus que preside às misturas. Depois, ele faz elogio a certos princípios ordenadores da mistura que a pudessem tornar boa, como a proporção (ksymmetríai), ou a justa medida (metriótetos). Se tudo isso servisse à uma teleologia que reconhecesse um propósito providencial na condição da Mistura, isso estaria ótimo. Mas isso não é reconhecido, ao menos não explicitamente. A escolha apolínea de Platão se torna mais clara no fim, tendo submetido tudo à Sabedoria, repetindo a escolha salomônica que, por sua vez, também foi uma repetição da escolha de Lúcifer. Mas não é uma mentira, sempre? Somente Deus, noesis noeseos, pode superar infinitamente o bem particular dos seres criados. Quem mais pretenda possuir esse domínio nada mais faz do que fingir a posse da divindade, apenas para cair eventualmente na vergonha. Lúcifer caiu ao mais profundo abismo, e Salomão afundou nas práticas mais execráveis. Foi nisso que deu a busca da Gnose.
A Humildade, que era muito prezada por Sócrates, mas talvez nem tanto por Platão, permite discernir melhor as coisas. Tomemos aquilo que o filósofo mesmo nos informa sobre a impostura dos prazeres: que arrebatam os homens de seu autocontrole, e que precisam muitas vezes ser buscados na escuridão da noite, devido à vergonha que causam. A perda do autocontrole, por lastimável que seja de fato, não atesta a maldade do prazer, mas apenas que na nossa condição o seu controle nos escapa. A idéia de que aquilo que escapa ao nosso controle é um mal não faz sentido, pois a própria santidade de Deus, o maior dos bens, possui essa qualificação, e da forma mais eminente. Seria mais certo, e mais humilde, dizer que o prazer muitas vezes nos é perigoso, e isso pela nossa fraqueza, e não por sua maldade. Se você não pode lidar com um prazer sem perder um controle, isso te informa da sua inferioridade com relação a esse prazer, e não que ele seja mau. Percebem como a Pretensão gnóstica deturpa as coisas? Por outro lado, a vergonha da nudez tem uma mais provável relação com as virtudes do pudor e da intimidade, do que com a suposta maldade do prazer. O filósofo simplesmente está com medo do que escapa ao controle da sua psique.
Para não falar que não concordamos com a conclusão de Platão em seu Filebo, de fato o maior dos bens não é o prazer, e nem a Sabedoria. O maior dos bens é o Amor divino, este que, porém, se faz conhecer pelas criaturas manifestando a Sua Glória que é percebida como aquilo que apetece ao desejo delas, ou seja, como aquilo que lhes causa prazer.
O bem próprio das criaturas é gerado pela sua causa absoluta, mas é conhecido pela sua finalidade particular e relativa. Mas isso só os humildes conseguem entender.
Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 4 |
| Presença/Idolatria | 3 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 6 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 3 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 3 |
| Nota final | 4,1 |