Chernobyl, série por Craig MAZIN

A série que conta a história do desastre do Reator 4 na usina nuclear de Chernobyl dá um testemunho razoável dos dons de Humildade e Vigilância.

Em algum momento o protagonista Legasov afirma que “o átomo é algo que nos faz menos arrogantes“, ao que seu interlocutor, o general Tarakanov responde que “não nos faz humildes, ele nos humilha“. A diferença é decisiva, em linha com o que a Bíblia nos diz: “para o orgulhoso, a humildade é humilhação”. É a diferença de perspectiva entre um cientista íntegro, um buscador da verdade, e um militar que busca apenas a conquista do poder.

A corrupção e a ineficiência generalizadas levam Legasov a dizer que a causa do acidente em Chernobyl havia sido a mentira do Estado: institucionalizada, arraigada, cultural. É um testemunho inequívoco da Vigilância, com a ressalva de que a narrativa quer nos fazer crer que no Ocidente as pessoas são muito melhores, o que não é bem verdade. Para não falar da isenção indevida dos próprios cientistas que gostam de brincar de deuses, e da humanidade em geral que quer viver emancipada da Graça, trocando o Amor divino pelo poder da Gnose.

O fato é que todo mundo gosta de poder, mas poucos gostam de responsabilidade, e isso bem explica não só a situação da URSS da época deste acidente, mas toda a história da humanidade desde Adão e Eva. Nós somos filhos da ambição somada à irresponsabilidade. Esses são os nossos pais.

Que ninguém se engane com relação aos defeitos particulares da ditadura soviética. Tudo o que uma tirania faz é revelar claramente a irresponsabilidade humana que é camuflada e escondida debaixo da dissipação da democracia. As democracias são sistemas que tiranos mais sofisticados usam para obter a isenção de responsabilidade e coleta de anuência em massa. Democracia é o sistema político em que a vítima da tirania é pessoalmente envolvida na legitimação dos seus algozes. Obviamente isso não torna nenhuma ditadura melhor do que o liberalismo democrático. Afinal, este ao menos nos dá o direito de denunciá-lo e de buscar a verdade até o fim, ou pelo menos até enquanto a sociedade suportar a liberdade de expressão.

A série mostra bem como as pessoas mais precavidas e responsáveis são zombadas como ingênuas, loucas ou covardes. Já os chefes, que jogam com o destino, são tidos como heróis e vitoriosos. Isso na maior parte das vezes funciona muito bem para a maior parte dos envolvidos. E se torna então algo sistemático, institucional, que permeia toda uma sociedade e a corrompe por dentro como um câncer.

O quadro em Chernobyl só não ficou pior porque eventualmente a racionalidade prevaleceu minimamente, embora ao um alto custo de tempo e vidas, um custo pago como tributo às vaidades políticas, ideológicas, etc.

O que mais nos interessa é a observação de que toda a fragilidade e vulnerabilidade humana é mostrada em contraste com a grande pretensão dessa raça. Há algo de errado, muito errado, na consciência humana que não vê enganos no seu proceder. E em determinado momento obtemos um testemunho praticamente impecável da boca de Shcherbina, a autoridade política responsável pela solução do problema, que afirma, já a caminho da morte por contaminação radioativa, isso anos mais tarde do acidente, no contexto do julgamento do processo para apurar os responsáveis pelo ocorrido.

Diz ele, citando as populações que migraram para aquela região ucraniana já depois de muitos desastres históricos: “Sabiam que a terra sob seus pés estava empapada de sangue, mas não se importaram… as pessoas nunca acham que vai acontecer com elas. Mas aqui estamos nós.”

Isso não vale como explicação para toda a condição humana desde o início dos tempos?

A estória paralela da mulher grávida do falecido bombeiro que trabalhou na contenção do incêndio no reator não é uma anedota inócua: mostra a total desproporção entre o poder e a pretensão da humanidade.

Isso torna a conclusão do protagonista, Legasov, mais contundente ainda: o reator RBMK explodiu por causa de mentiras. E ele pergunta: qual é o custo das mentiras?

Ora, o salmista já havia dito: é a mentira, e não a verdade, que triunfa no mundo. Não existe novidade, apenas repetição sob novas formas, apenas o Ouroboros.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção8
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,4

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