Dispensamos o comentário do Crítias, que não é tão relevante filosoficamente, na sua brevidade, ao tratar do conteúdo mítico da Atlântida.
Neste Crátilo o filósofo aborda o problema da veracidade dos nomes. Há um duplo desafio nessa questão: o primeiro, ontológico, diz respeito à substancialidade das coisas nomeadas, já que se um nome é uma verdade, o ser nomeado deve possuir essa consistência verdadeira em primeiro lugar; o segundo, gnosiológico, diz respeito a cognoscibilidade dessas verdades e, portanto, da possibilidade de nomear com sucesso (alcançar a verdade da coisa que o nome representa). Platão começa pelo problema do Ser:

Vencido o relativismo de Protágoras como hipótese, resta justificar o poder nominalista do ser humano. Como de costume, Platão defende a integridade da verdade, mas restringe o poder de alcançá-la ao uso da elite ilustrada dos filósofos, ou ao menos dos legisladores. O “produtor de nomes” (onomatoyrgoy) é esse Adão no Paraíso, com toda a Criação submetida a si.
Prosseguindo na sua investigação, o filósofo tentará defender essa capacidade nominalista humana, ao menos da parte de uns poucos capazes, o que o faz explorar as etimologias como artes de definição, com resultados variados. Fala de discursos literários como os de Hesíodo e Homero, e analisa nomes dados a deuses, heróis, etc. Ao tratar do sentido do nome do corpo (soma), encontramos uma reflexão que pode nos ser útil citar:

Digo útil porque Platão afirma categoricamente que entende por mais correta a designação dada pelos poetas órficos, uma influência marcadamente gnóstica assumida pelo filósofo. Claro que o nosso objetivo não é o de julgar, mas de entender. No panorama de Platão, essa determinada influência exerceu um peso considerável. E o corpo de certo modo possui mesmo algo disso tudo que é afirmado: é o “túmulo da alma”, desde que é por ele que experimentamos a nossa fragilidade e a nossa mortalidade como falta da posse do dom da vida; é um “sinal da alma” porque opera como o objeto mais imediato da Percepção (na minha própria definição, o corpo é a interface persistente da Percepção); e é também um sistema de segurança, como um “invólucro” que limita a ação da alma para a sua proteção, como se faz com animais usando-se cercas, ou com crianças pequenas, etc. Neste último caso, preferido por Platão por influência dos órficos, só devemos ter o cuidado de diferenciar este corpo presente (que podemos chamar de “Corpo de Queda”) de outros possíveis onde o limite é mais adequado à todas as potências da alma, como o Corpo de Graça, e principalmente o Corpo de Glória. Ou seja, o limite não é um mal, mas exatamente um contrário disso, agora um restritor do mal, e então finalmente um meio para a realização de todo o nosso bem possível.
Moderado e conservador, inspirado certamente por Sócrates, Platão dá um poderoso testemunho da Humildade, no limite da inconveniência da defesa da Tradição Primordial através do costume:


Isso nos basta, no entanto, como correção da Pretensão. É uma virtude, ou talvez até a maior, do idealismo: a perfeição é possível, mas ela não está aqui e agora. Os nomes corretos, verdadeiros, são em si possíveis, graças a Deus, mas não sob qualquer condição, e especialmente não ao dispor da vontade humana.
Daí em diante o filósofo aceita que suas conjecturas são especulações sobre opiniões tidas como corretas à partir do costume, e não propriamente produto de uma ciência. Chega a afirmar que Plutão (Hades) é um deus filósofo, etc. Em determinado momento o discurso fala sobre Hermes e Pã, e faz uma afirmação curiosa sobre o gênero trágico, que expõe a hipótese da intenção primordial da cultura como a legitimação da Mistura:

É uma idéia que os nietzscheanos chamariam de apolínea, e isso até seria justo, embora diriam isso como um julgamento negativo. O que nos importa: a falsidade é trágica, áspera e caprina porque é produzida pela Mistura, ou seja, pela idolatria. Já o verdadeiro é do gênero da comédia, lisa e ovina, porque é produzida pela Separação, ou seja, pelo efeito da Presença.
Quando mais adiante se faz referência ao nome de Zeus, encontramos uma formulação interessante que merece ser mencionada:

Em qualquer caso que se faça referência à divindade suprema, ou absoluta, a indicação da Unidade total é necessária, seja “aquilo que passa em revista no interior de si mesmo”, seja “Aquele que É”, ou “Visão da Visão”, etc. Isso sempre é adequado: a idéia da suficiência da Unidade divina.
Mais adiante pareceria que o filósofo faria apenas uma reflexão sobre considerações gramaticais e morfológicas, mas Platão nunca perde de vista o quadro maior, e a certa altura alcança um excelente panorama crítico no Crátilo, quando aponta para o risco tanto das investigações baseadas em nomes antes das coisas quanto da confiança na Tradição e no costume, fazendo deste diálogo um testemunho poderoso não só da Humildade, como também da Vigilância, o que é incomum na obra platônica:


Observe-se o cuidado de Platão em diferenciar a coerência interna, ou validade lógico, do discurso, da veracidade que depende da verificação da assertividade das premissas muito mais do que da arte discursiva.
A grande e constante preocupação de Platão é com a integridade da Verdade e do Ser. Ele preserva as noções de Parmênides e Heráclito e persegue o entendimento da relação entre o Um e o Múltiplo, entre o Ser e o Vir-a-Ser e, no âmbito da arte produtiva de nomes, entre substantivos e verbos. O Crátilo termina com um alerta muito conveniente:


A solução está em que o Ser do Uno se conhece, nas criaturas, como o Vir-a-Ser do Múltiplo. Mas ainda que não tenha alcançado isso, Platão nos apoiou em seus ombros de gigante para que pudéssemos enxergar mais longe.
Nota espiritual: 6,0 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 9 |
| Presença/Idolatria | 6 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 6 |
| Vigilância/Ingenuidade | 6 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 6,0 |