Minos, livro por PLATÃO

De todos os diálogos platônicos suspeitos e apócrifos, este pode ser o pior, ou mais distante do que costuma ser a linha normal de investigação do filósofo. Aqui Sócrates dialoga com um “Discípulo” a respeito do que é a Lei, e eles circularão entre a temática constante da diferença entre o que é o ser e o vir-a-ser: por um lado o que é a Lei deveria ser universal, para todos os tempos e lugares, por outro lado na experiência humana as leis concretas mudam e variam.

Imediatamente notamos a diferença entre Lei real e Lei ideal, e o caminho normal, tipicamente socrático, deveria ser o de observar que isso apenas reflete o estado natural de ignorância humana a respeito do que é o ideal, daí a precariedade daquilo que ele realiza.

Porém, no Minos a argumentação vai para outro caminho bem diferente. Torna-se um testemunho muito mais conservador e tradicionalista do que todos os outros já dados por Platão: a Lei verdadeira, de origem divina, deve ser rastreada na sua formulação histórica tal como tenha sido transmitida para os seres humanos nos seus contatos mais diretos com os deuses. Daí entra o mito de Minos, o Rei de Creta, que teria sido aluno pessoal de Zeus, com quem teria aprendido a verdadeira Lei que teria depois sido ensinada naquela nação e sido disseminada para outras, inclusive a Lacedemônia.

Mas o Discípulo questiona Sócrates (esse estranho Sócrates que geralmente tem mais dúvidas do que certezas, mas que mudou tanto de atitude neste diálogo) a respeito da má fama de Minos entre os atenienses, por ter sido considerado um Rei cruel e injusto. A resposta socrática é a que segue:

É uma pura defesa da Tradição Primordial contra uma suposta maledicência ateniense, o contrário do que me pareceria mais prudente supor, que os gregos modernos foram capazes de se verem mais livres do costume e questionar a suposta bondade de origem mitológica de Minos. Contra a defesa da bondade de uma Lei por sua mera antiguidade (argumento conservador-tradicionalista desse Sócrates), é o Discípulo quem por outro lado questiona a índole de Minos, esse suposto melhor legislador, e num ponto que pode ser crucial, e que já tinha sido levantado como prova da variância entre as leis dos vários Estados: justamente no pedido de tributo na forma do sacrifício de sangue de vítimas inocentes. Foi esse costume cretense que tornou odiosa a imagem de Minos em Atenas, e que serviu aos gregos de razão para questionar a legitimidade dessa autoridade antiga.

Parece-me que assim como já vimos na história da tradição bíblica, também na história da filosofia há uma pesada interferência de agentes usurpadores e manipuladores, que querem usar a boa fama de testemunhas fidedignas das coisas mais sagradas e divinas para transmitir a sua própria mentira que sustenta um bem determinado tipo de poder sobre o mundo. Não há nada de novo sob o sol.

Nota espiritual: 3,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção3
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade1
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,1

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