LIVRO UM – TÓPICOS MONADOFÍLICOS
CAPÍTULO UM – LIBERDADE PRIMEIRA
TÓPICO TERCEIRO – Para além da busca dessa verdade, não se envolve com nada em excesso
Bem-vindos de volta. Alguém tem alguma dúvida sobre a aula anterior?
Lucas (O Racionalista Cristão): Professor, na aula passada falamos sobre ‘Conhece a ti mesmo’. Eu estava refletindo sobre isso e fiquei com uma dúvida: o autoconhecimento, segundo a Monadofilia, é um fim em si mesmo ou um meio para alcançar outra coisa? Porque, se for um fim, parece um ciclo fechado, mas se for um meio, para onde ele nos conduz?
É um meio. A causa final de toda a Monadofilia é o amor pela unidade, de Deus, de si próprio, e do próximo. O autoconhecimento serve apenas como recurso para ajudar no reconhecimento da realidade para favorecer essa conclusão depois. Principalmente pela observação da forma substancial humana que, criada à imagem e semelhança da divina, já permite o reconhecimento de algo sobre quem Deus é, para não falar também no aprendizado de quem o próximo é realmente para nós. Entendeu Lucas?
Lucas (O Racionalista Cristão): Sim, agora faz sentido. Então o autoconhecimento não é um objetivo isolado, mas um meio para reconhecer a realidade da unidade e do amor. Gostei dessa ideia de que conhecer a si mesmo já traz pistas sobre Deus e sobre o próximo. Obrigado pela explicação, professor.
Fernando (O Empirista Cético): Na aula anterior, você mencionou que conhecer a si mesmo envolve lidar com ilusões sobre quem somos. Mas como podemos saber que realmente nos conhecemos, em vez de simplesmente criarmos uma nova ilusão mais sofisticada sobre nós mesmos?
Com relação ao Intelecto, você vai conhecer primeiro a sua própria ignorância, e a partir daí conhecerá a conveniência do dom de Humildade, sobre o qual falaremos com maior detalhe mais tarde. Percebe que a admissão de que somos constitutivamente ignorantes resolve o problema da própria Presunção de conhecimentos? Com relação à Vontade, o principal é escapar do desejo mimético, e do fingimento de que não desejamos o que desejamos, quando isso ocorre por constrangimentos morais, vergonha, etc.
Fernando (O Empirista Cético): Entendi a ideia de que reconhecer a ignorância já dissolve a presunção de conhecimento. Isso parece coerente com o método socrático, que parte da consciência da própria ignorância. Sobre a Vontade, faz sentido que o desejo mimético e a repressão artificial dos próprios desejos distorçam o autoconhecimento. Acho que preciso pensar mais sobre como isso se aplica na prática. Valeu, professor.
Gabriel (O Escolástico/Neotomista): Se conhecer a si mesmo significa compreender nossa essência, como a Monadofilia distingue essa essência? Ela é algo fixo e dado, ou estamos sempre descobrindo algo novo sobre nós?
As duas coisas ao mesmo tempo. O Ser é unificado, é o “fixo” e “dado” que você menciona, e é a Substância Simples, ou Mônada. Porém, o Conhecer é múltiplo, seria o “não-fixo” e “não dado”, que é o reflexo da Substância. Existe unidade de Ser e Conhecer apenas na substância divina, o Ato Puro. Em nós a Unidade é inefável, conhecida apenas parcial e sucessivamente pela série das Percepções. Talvez você não compreenda tudo isso agora, porque vários desses conceitos fazem parte de idéias que ainda exploraremos futuramente. Entendeu Gabriel?
Gabriel (O Escolástico/Neotomista): Entendi parcialmente, professor. Faz sentido que a essência seja fixa, mas o conhecimento dela seja gradual e múltiplo. Essa distinção entre Ser e Conhecer me lembra a diferença entre essência e existência na metafísica clássica. Imagino que, quando avançarmos nesses conceitos, essa visão ficará mais clara para mim. Obrigado pela explicação.
Roberta (A Estoica Cristã Ortodoxa): Eu estava pensando em como o ‘Conhece a ti mesmo’ se relaciona com a disciplina espiritual. Na tradição cristã, o autoconhecimento leva ao reconhecimento da própria insuficiência diante de Deus. A Monadofilia vê esse reconhecimento como um passo necessário para a liberdade?
Sim! Isso é essencial! Se eu tiver sucesso em explicar a Monadofilia, terei demonstrado exatamente porque as coisas são assim, porém com melhorias com relação à tradição cristã que, vinculada à religião, ainda restringe muito o mais amplo sentido dessa liberdade cristã. Mas você já está na pista certa.
Roberta (A Estoica Cristã Ortodoxa): Isso me parece muito interessante. A tradição cristã já aponta para essa insuficiência como caminho para a liberdade, mas estou curiosa para ver como a Monadofilia expande essa ideia para um sentido ainda mais amplo. Vou prestar atenção nos próximos tópicos para entender melhor essas melhorias que você mencionou. Obrigada, professor.
Ok turma, algum aluno por favor leia o título do tópico desta aula para que eu faça a explicação inicial.
Bruna (A Pragmatista Cristã Liberal): O título do tópico desta aula é “Para além da busca dessa verdade, não se envolve com nada em excesso” (medèn ágan / μηδὲν ἄγαν*).
Muito bem, a Primeira Liberdade não só precisa ser buscada, mas depois de obtida em qualquer grau, ela deve ser mantida. Nós não podemos filosofar alheios à realidade da vida humana cheia de vicissitudes e demandas. Isso já foi falado aqui, vocês mesmos já questionaram sobre isso. E eu já expliquei que devemos fazer o nosso melhor e entender que nossas escolhas morais pesam na nossa liberdade de filosofar. Agora, é preciso que nossa busca por essa Primeira Liberdade não nos aliene de uma realidade que está aquém dos interesses filosóficos. E é uma questão de moderação: para além da busca dessa verdade sobre o Ser e o sentido de todas as coisas, não devemos nos envolver com nada em excesso. Obter a liberdade filosófica, mas também manter essa liberdade, é disso que se trata. O “nada em excesso” é a moderação que não nos deixa desviar e atolar em nenhum aspecto da vida humana que, repito, continua sendo complexa e cheia de realidades que exigem a nossa atenção, a nossa disposição, etc. Quem quiser buscar grandes ambições ao mesmo tempo se frustrará. Não se pode servir a dois senhores. Moderados e contentes com uma vida simples, podemos nos manter o mais livres possíveis para filosofar, desimpedidos. É isto. Podem colocar suas dúvidas.
Carlos (O Pós-Moderno Cético): Você falou que “não se pode servir a dois senhores”. Mas quem decide quais são os limites desse “nada em excesso”? Porque o que pode ser excesso para um pode não ser para outro. Essa moderação não é algo subjetivo?
Não é porque graças a Deus o dia tem vinte quatro horas, e dessas nós precisamos nos desligar da vida de vigília pelo menos umas seis, sete ou oito horas, e depois “resetamos” ou reiniciamos nossas atividades. Essa realidade humana tão simples nos permite enxergar as nossas disposições com muita clareza e objetividade. O excesso é denunciado pela relação de tempo entre uma atividade e as demais. Entendeu Carlos?
Carlos (O Pós-Moderno Cético): Entendi seu ponto, professor. O tempo como um limitador natural acaba funcionando como um critério objetivo para evitar excessos. Mas ainda fico com uma dúvida: e se alguém decidir dedicar a maior parte do seu tempo a uma única atividade porque considera que essa é a prioridade da sua vida? Isso ainda seria um excesso ou apenas uma escolha legítima?
Do ponto de vista da Monadofilia, se essa atividade não for relacionada com o amor à unidade, especialmente o Amor a Deus, que chamamos de Primeiro Mandamento, é um excesso porque desvia do objetivo da vida humana, que é a felicidade cuja essência é a vida com Deus, ou na Presença. O que não significa que não seja uma escolha “legítima”. A liberdade humana é plena e instaurada pela própria Graça divina. Se você escolhe uma atividade que não te ajuda em nada do que interessa para a sua felicidade de viver com Deus, essa escolha continua sendo legítima, porque é soberana, mesmo que seja inconveniente. Entendeu Carlos?
Carlos (O Pós-Moderno Cético): Entendi, professor. Então, do ponto de vista da Monadofilia, o critério não é só o tempo gasto, mas a relação da atividade com o objetivo maior, que é a unidade e o amor a Deus. Mesmo assim, a escolha continua sendo soberana, mesmo que não seja conveniente. Faz sentido. Obrigado pela explicação.
Marcela (A Filósofa Analítica Secular): Se o excesso é definido pela relação entre uma atividade e o objetivo da vida humana, como lidamos com aquelas atividades que são necessárias, mas não têm relação direta com essa busca pela unidade? Trabalhar, por exemplo, não seria um excesso se ocupar a maior parte do nosso tempo?
Seria um excesso se fosse apenas fruto de uma escolha, e não de um dever de estado. Para quem não tem a escolha de dispor com liberdade do seu próprio tempo com paz e ócio, como já falamos, não pode passar nem pelo primeiro tópico da Liberdade Primeira. Vocês tem que se lembrar de que nosso progresso aqui é cumulativo. Esse problema tem que ser resolvido antes. Só estamos falando de quem já tem a liberdade de tempo com ócio e paz. Essa pessoa é a que produzirá um excesso, por exemplo, com o trabalho, porque isto não foi imposto por circunstâncias externas, mas pelo próprio arbítrio do indivíduo. Entendeu Marcela?
Marcela (A Filósofa Analítica Secular): Agora entendi, professor. O excesso só acontece quando há escolha, não quando há necessidade. Então, quem ainda não alcançou essa liberdade primeira nem sequer pode se preocupar com essa moderação, porque ainda está lidando com questões mais fundamentais. Isso faz sentido. Obrigada pela resposta.
André (O Existencialista Ateu): Mas aí eu pergunto: e se alguém, mesmo tendo a liberdade do ócio, decide voluntariamente trabalhar bastante porque sente que isso dá sentido à sua vida? Esse “excesso” ainda seria um problema?
Depende da natureza do trabalho. A própria filosofia cristã pode ser um trabalho, ou alguma obra de caridade que seja uma vocação verdadeira, etc. O conceito de trabalho não exclui atividades que não sejam excessivas do ponto de vista da filosofia cristã.
André (O Existencialista Ateu): Entendi, então não é o trabalho em si que define o excesso, mas sim o seu propósito e a relação com a filosofia cristã. Mas aí entra um problema: e se alguém sente que o sentido da sua vida está em algo fora dessa perspectiva cristã? Ele estaria necessariamente errando ao se dedicar a isso, ou a Monadofilia reconhece que essa escolha pode ter valor em outro nível?
Pode errar o quanto for, e mesmo assim sua escolha sempre terá valor no nível da Providência, que é o governo divino de todas as coisas. Ou seja, você pode querer voluntariamente se afastar do que lhe é mais conveniente (o amor a Deus), e com isso frustrar sua liberdade filosófica com excessos, mas sua vida não deixará de ter valor porque a obra divina combinará todas as suas atividades com o interesse de prover as suas próprias carências espirituais e as dos outros. Entendeu André?
André (O Existencialista Ateu): Certo, então mesmo que alguém escolha um caminho que não leve diretamente ao amor a Deus, essa escolha ainda será parte do governo divino das coisas. Isso parece uma visão otimista da liberdade humana, mas, ao mesmo tempo, sugere que, no fim, tudo acaba servindo a esse propósito maior, mesmo sem intenção. Ainda acho isso difícil de aceitar, mas pelo menos entendi a lógica dentro da Monadofilia. Valeu pela resposta, professor.
Gabriel (O Escolástico/Neotomista): A ideia de que todas as escolhas acabam sendo integradas na Providência me lembra a doutrina da cooperação divina. Mas, se mesmo as escolhas erradas são usadas por Deus, então o conceito de excesso não se torna relativo? Quero dizer, se tudo acaba sendo providencialmente aproveitado, qual seria o real problema do excesso?
O problema é que pelo excesso você não escolhe o bem livremente, e essa escolha é o sentido da nossa vida. Ou seja, através do excesso o melhor resultado possível será gerado pela Providência, mas esse melhor possível já estará abaixo do verdadeiro melhor que você rejeitou, que seria produzido pela sua participação voluntária nas obras do Amor.
Gabriel (O Escolástico/Neotomista): Agora vejo a distinção com mais clareza. O excesso não anula a Providência, mas impede que escolhamos o bem de forma livre e plena. Então, mesmo que Deus conduza tudo para um propósito, nossa participação voluntária faz diferença na qualidade desse propósito. Isso me lembra a diferença entre agir por necessidade e agir por amor. Obrigado pela explicação, professor.
Bruna (A Pragmatista Cristã Liberal): Professor, pensando na vida cotidiana, como a gente pode discernir, na prática, se algo está se tornando um excesso? Existe algum critério simples para perceber isso antes que já estejamos atolados?
Existem pelo menos dois. Um já foi falado, que é o do tempo. Nós temos que perceber quando nossa vida está gravitando com maior força em direção a alguma atividade, qualquer que seja, e então devemos ser capazes de julgar se isto é bom ou não de acordo com os nossos propósitos. O outro critério é o do Discernimento, que é um dom divino que será discutido com mais detalhe no futuro, mas basicamente consiste no julgamento da árvore pelos frutos, como Jesus ensinou. O excesso gerará frustração, tristeza, ira, ansiedade, etc. Por esses sinais podemos descobrir os excessos. Idealmente, recebendo o dom do Discernimento, tudo isso fica mais claro, fácil e rápido, mas essa matéria é mais profunda e ainda não podemos tratar dela.
Bruna (A Pragmatista Cristã Liberal): Faz sentido. Então, primeiro observamos se uma atividade está dominando nosso tempo, e depois analisamos os frutos que ela gera na nossa vida. Se ela nos deixa ansiosos, frustrados ou desequilibrados, é um sinal de que pode ser um excesso. Gostei desse critério prático, professor. Vou prestar mais atenção nisso. Obrigada pela resposta!
Rafael (O Idealista Alemão Místico): Professor, você mencionou que a moderação é essencial para manter a Primeira Liberdade, mas o próprio ato de filosofar profundamente não poderia se tornar um excesso? Afinal, se passamos tempo demais refletindo, corremos o risco de nos distanciar da vida concreta. Como equilibrar isso?
Isso depende da natureza do filosofar. O problema que você aponta é o das filosofias não contemplativas. Aí também encontramos o excesso. Agora, a consideração das coisas espirituais é sempre uma atividade libertadora e gratificante, porque equivale intelectualmente à glorificação de Deus. Esse amor nunca pode ser excessivo. Daí a filosofia é apenas auxiliadora, como um caminho para chegar ao destino. De fato, se quiser ficar no caminho, isso se tornará um excesso. Mas o destino nunca é excessivo, porque é a causa final do nosso ser.
Rafael (O Idealista Alemão Místico): Ah, agora vejo a distinção! O problema não é a profundidade da reflexão em si, mas o tipo de reflexão que fazemos. Se a filosofia se torna um fim em si mesma, pode se tornar um excesso, mas se é usada para contemplar e glorificar a unidade divina, então ela se alinha com o propósito final. Isso me lembra a crítica hegeliana às filosofias que não compreendem o absoluto. Acho que começo a enxergar o papel da filosofia na Monadofilia de forma mais clara. Obrigado pela explicação, professor!
Larissa (A Filósofa Oriental Espiritualista): Essa distinção entre caminho e destino me fez pensar na ideia de desapego. Se o destino é o que importa, e a filosofia é só um meio, não seria melhor simplesmente abandonar a filosofia depois de certo ponto e focar diretamente na experiência do divino?
Sim, sempre que puder é isso o que deve fazer.
Larissa (A Filósofa Oriental Espiritualista): Isso faz muito sentido para mim. Parece parecido com o que algumas tradições espirituais ensinam: o intelecto pode ser um veículo, mas não deve ser um obstáculo. Quando a filosofia tiver cumprido seu papel, é hora de deixá-la e viver a experiência direta. Acho que entendi bem. Obrigada, professor.
Eduardo (O Ateu Materialista Cientificista): Professor, essa visão sobre excessos parece depender de uma ideia de propósito último da vida, mas se alguém não aceita essa premissa, como definir um excesso de forma objetiva?
É impossível, porque a causa final é o que define a razão de ser de qualquer coisa. Retirada essa premissa, tudo é imediatamente indiferente e arbitrário. Futuramente abordaremos o problema desse tipo de crença, quando falarmos do Caos. Entendeu Eduardo?
Eduardo (O Ateu Materialista Cientificista): Entendi, professor. Sem um propósito final, qualquer noção de excesso se torna relativa, porque não há um critério absoluto para medir o que é “demais” ou “de menos”. Ainda não concordo com a ideia de uma causa final absoluta, mas faz sentido dentro da lógica da Monadofilia. Vou esperar para ver como vocês argumentam contra o Caos quando chegarmos nesse ponto. Valeu pela resposta.
Mais alguém tem alguma pergunta sobre o tópico desta aula?
Mariana (A Filósofa Política Comunitarista): Professor, fiquei pensando sobre como essa ideia de moderação se aplica às relações sociais. Evitar excessos significa também limitar nosso envolvimento com a coletividade? Afinal, algumas pessoas se dedicam intensamente a causas e comunidades. Isso seria um excesso?
Depende do significado dessa atividade. Se for uma atividade espiritualmente justificada, não é um excesso, mas é a própria ação de amar que constitui o sentido de nossa vida. Porém, se for uma atividade movida por outros fins não espirituais, certamente pode se tornar um excesso. Entendeu Mariana?
Mariana (A Filósofa Política Comunitarista): Entendi, professor. Então o critério não é o envolvimento social em si, mas o que motiva esse envolvimento. Se for um ato de amor verdadeiro, está alinhado com o propósito final, mas se for movido por razões alheias a isso, pode se tornar um excesso. Faz sentido. Vou refletir mais sobre isso. Obrigada pela explicação!
Leia a bela apologia de Paulo sobre o amor, quando ele afirma que mesmo que desse todos os seus bens aos pobres, se não tivesse o amor, de nada adiantaria. Ou seja, existe uma separação entre a ação e o seu significado espiritual.
Gabriel (O Escolástico/Neotomista): Sim, professor, essa passagem de São Paulo é muito clara ao separar a mera ação do verdadeiro amor. Isso reforça o que você disse sobre o excesso: a questão não é o ato em si, mas se ele está ordenado ao amor verdadeiro. Acho essa distinção muito importante.
Muito bem, vamos encerrar por aqui. Obrigado a todos e até a próxima aula. Pensem sobre o que foi falado hoje, caso tenha restado alguma dúvida, podem me trazer depois. Até.