§ 1. Com o décimo filme de Kubrick em análise, podemos ver agora a sua obra como um todo desde um patamar mais privilegiado do que no início. Este filme foi feito, imaginemos, com a máxima qualidade técnica do cineasta, especialmente de sua apurada capacidade de trabalhar o controle do mise-en-scène. Nossa primeira obra analisada era de 1957 (Glória feita de sangue). Em seguida analisamos trabalhos de 1960 (Spartacus), 1962 (Lolita), 1964 (Dr. Fantástico), 1968 (2001: uma odisséia no espaço), 1971 (Laranja mecânica), 1975 (Nascido para matar), e finalmente chegamos em 1980, com O Iluminado. São nove obras pouco mais de vinte anos. Pois bem, dezoito anos depois, em 1999, Kubrick aparece com sua obra final, este De olhos bem fechados. Parece que quer dar-nos um recado? Dizer algo importante, antes de partir? Isso poderia parecer mais uma conspiração tola, se não fosse relevante o fato de que Kubrick morre exatamente seis dias depois de entregar a edição do filme finalizado para a Warner Bros. Para quem gosta de conspirações convém pensar que Kubrick possa ter desejado falar algo, dentro das regras do jogo, e portanto com a permissão de Hollywood sob as regras sagradas do Annuit Coeptis, não mais sobre atos farsescos, como o pouso do homem na Lua, mas sobre as pessoas que sustentam a farsa deste mundo e a origem do seu poder. Dirão que estou indo longe demais, mas esse talvez seja o meu trabalho mesmo, dizer o que os tímidos temem.
§ 2. O título do filme já precisa ser explicado, e o pode facilmente com a imagem usada para a sua publicidade: William Harford (Tom Cruise), ou simplesmente Bill, fecha os olhos ao beijar Alice, sua esposa (Nicole Kidman). Isso representa a fantasia dos casados ao se beijarem, de poder estar com outros parceiros. Mas ao mesmo tempo e principalmente no contexto deste filme representa o adultério num sentido mais profundo, aquilo que Bill não quer ver de jeito nenhum, as mentiras da vida e do mundo, e até a maior das mentiras, de que o mundo é governado por boas almas e não por servidores que fizeram pacto com o Inferno. Como veremos, Alice mantém os olhos abertos porque ela vê o que Bill se recusa a enxergar.
§ 3. Bill é o Dr. Harford, médico de pessoas ricas em Nova Iorque. O filme começa com Bill e Alice comparecendo à festa de Ziegler, um homem poderoso e rico. Lá já vemos os dois flertando com outros participantes da festa. Um senhor húngaro que dança com Alice pergunta: “um dos encantos do casamento não é que ele exige a farsa das duas partes?” Isto é, o casamento se mantém com base numa mentira na qual pactuam os dois cônjuges, a mentira de que só querem um ao outro. Alice está bem solta por conta da bebida, mas se contém quando é convidada à traição. William também flerta com duas moças que querem levá-lo ao “fim do arco-íris”, que é um símbolo do fim da consumação do Adultério no sentido espiritual, quando Deus não mais manterá a Aliança feita com Noé. De acordo com a regra que nos foi dada por Jesus, de fato ambos Bill e Alice já são adúlteros, porque isto é o que está em seus corações. Esta é a verdade do ser humano: ele é um mentiroso.
§ 4. No meio da festa Bill é chamado para cuidar de Mandy, uma amante (ou prostituta?) de Ziegler que passa mal depois de abusar de algumas drogas. Ziegler pede segredo sobre o caso. Harford participa dos segredos e mentiras do alto escalão da sociedade, até certo ponto, mas não avança para além. Sua curiosidade, porém, o fará passar dos limites, como veremos. Mais tarde, embalada pelo uso de droga (maconha), Alice confronta William e ambos discutem o problema da fidelidade. Bill quer manter a mentira, mas sua esposa quer a verdade. De sua parte conta seus sentimentos de infidelidade num episódio do passado. Ela não o traiu, mas definitivamente o quis fazer. Isso o atormentará durante o resto do filme. Alice não o quis poupar disso porque a mentira dele alcançou um cúmulo que ela não mais suportou.
§ 5. Bill tem que sair na noite para visitar a residência de um paciente que acabou de falecer. Fica com tudo que sua esposa disse em mente o tempo todo. Na casa do falecido encontra Marion, a filha do morto, que beija o médico e diz que o ama. Ele se desvincula dela, mas fica evidente que as mulheres estão colocando Bill na realidade: tudo acontece ao redor do poder e do sexo. Ele sai pelas ruas pensando sobre tudo isso. Bill acaba aceitando o convite de Domino, uma prostituta, para entrar no apartamento dela para um programa. Mas ele nem sabe o que pedir. Ela conduz a situação, mas Alice liga para o marido antes que eles possam avançar, e ele muda de ideia. Da o dinheiro para ela mesmo assim, 150 dólares. E segue na noite. Bill quer consumar o adultério, mas não consegue ser o adúltero consumado.
§ 6. Bill encontra seu amigo, o ex-colega de curso de medicina, Nick Nightingale, tocando como pianista num bar. Eles já tinham se reencontrado na festa de Ziegler, onde Nick também performou. Os dois conversam no bar. Bill fica sabendo do trabalho de Nick numa misteriosa festa com mulheres bonitas e fica curioso. Descobre a senha, “Fidelio”, e decide conhecer o mistério. Antes, porém, precisa de uma fantasia e de uma máscara. Ele consegue a roupa com Milich, numa loja chamada “Rainbow Fashions”. Uma referência bem óbvia àquele estímulo inicial das duas mulheres na festa de Ziegler. Na loja a filha de Milich, menor de idade, está com dois amantes. Tudo estimula Bill na direção de uma consumação erótica, porque tudo ao redor é sobre sexo. Mas principalmente o que o conduz é a confissão da esposa, que continua como um pensamento fixo em sua mente.
§ 7. Ele finalmente se dirige à Mansão Somerton, o local da misteriosa festa indicado por Nick. Todos estão mascarados. Lá ele encontra um ritual em andamento, onde aquele que cumpre o papel de um sacerdote, vestido com uma roupa vermelha, como que invoca alguma força e a distribui por algumas mulheres participantes do rito, mulheres estas que são enviadas então para encontrar parceiros no evento. Esse rito que Bill assiste é para mim um símbolo muito óbvio do Pecado Original: a Serpente encontra a mulher, lhe transmite o seu “dom”, a Gnose que é a mentira do amor e da felicidade sem Deus, e então a mulher procura o homem para propagar esse “dom” recebido. Bill é escolhido por uma das mulheres que logo lhe diz: não sei o que você pensa que está fazendo, mas você não pertence a este lugar e deve ir embora logo, está correndo um grande perigo. Ele continua vagando curioso pela festa até que é descoberto. Quando está prestes a ser punido, a mulher que o alertou pede que parem e se oferece para redimi-lo. Ele é convidado a se retirar com o alerta de que não deve falar de nada do que viu para ninguém, ou ele e sua família sofrerão as piores consequências.
§ 8. Ele finalmente volta para casa. Sua esposa acorda de um sonho e ele pede que a conte o que era. No sonho ela transava com muitos homens para zombar dele, enquanto ria descontrolada. Isso só vai fortalecer suas angústias interiores. No dia seguinte Bill maneja as consequências de tudo. Descobre que seu amigo Nick foi sequestrado pelos organizadores da festa, provavelmente por ter sido ligado à sua presença como não convidado. Descobre também, quando vai devolver a roupa alugada para a festa, que o Sr. Milich está prostituindo a filha. O mundo vai se mostrando nas suas realidades. Por fim, Bill decide visitar a Mansão Somerton. Ele recebe um bilhete: “desista de suas investigações”.
§ 9. Bill continua obcecado pela ideia de sua esposa com outros homens. Ele tenta refazer o percurso da noite anterior com outras mulheres, para tentar consumar uma traição vingativa ou catártica, não sabemos bem porque ele próprio não sabe bem o que quer, mas elas não estão disponíveis. O marido de Marion atende o telefone no lugar dela. Já Domino saiu e no seu apartamento Bill só encontra Sally, a amiga que vive com ela. Bill está disposto a ficar com Sally mesmo assim, tamanha a sua miséria espiritual, mas ela quebra o clima e diz que Domino descobriu que está com HIV. Mais mundo real.
§ 10. Bill volta a vagar pelas ruas à noite, e tem a certeza de que está sendo seguido. Ninguém o ataca, mas é um recado de que está sendo vigiado. Ele descobre pelos jornais que uma famosa modelo foi encontrada morta por overdose, Amanda Curran. Imediatamente imagina que Amanda é a “Mandy”, a garota de que cuidou na festa de Ziegler. Ele vai reconhecer o corpo e está convicto de que foi ela quem o salvou na festa. A realidade do mundo está escancarada, eis o que há no fim do arco-íris: sequestro, violência, prostituição, doença e morte.
§ 11. Ziegler o chama para uma conversa. Revela que estava na festa e reafirma que Bill correu um grande risco, embora depois tente convencê-lo de que tudo não teria passado de uma farsa. Sua intervenção é obviamente cheia de mentiras e manipulações. Quer apenas controlar uma situação, ao custo de contar o que o médico quiser ouvir para seguir com sua vida. Mas Bill fala que reconheceu a mulher morta. E pergunta: que tipo de farsa termina com uma morte? Aí vem a grande revelação de Ziegler. Diz que Bill não entendeu muitas coisas do que viu. “Ninguém matou ninguém. Alguém morreu. Acontece o tempo todo. Mas a vida continua. Sempre continua… até que acaba. Mas você sabe disso, não é?” Sim, isso é nada menos que uma repetição do dito bíblico: o salário do pecado é a morte. Ziegler está relembrando Bill, que não é nenhuma criança, de que o mundo é assim e sempre foi assim. A única resposta digna diante disso seria a condenação do pecado, mas Bill não conhece Deus, só conhece sua profissão prestigiosa, sua bela esposa troféu, e sua vida de pai de família respeitável. É a mentira da qual não pode escapar, porque não tem Deus. Ziegler o enquadrou num xeque-mate espiritual.
§ 12. De volta para casa, Bill vê que a esposa descobriu sua máscara da festa em Somerton e desaba, dizendo que vai contar tudo para a esposa. Na última cena, enquanto passeiam por uma loja com a filha Helen, Bill pergunta o que eles devem fazer. Alice diz que devem ser gratos por ter sobrevivido e por estarem bem, e torce para que isso dure bastante. Bill diz: “para sempre”, mas ela responde que isso a assusta. Ela sabe das coisas. Alice termina dizendo que há uma coisa muito importante que eles precisam fazer o mais rápido possível: foder. Ela já entendeu tudo muito mais rapidamente e profundamente do que ele jamais poderia, pobre coitado.
§ 13. Bill é como um menino assustado que precisa que alguém lhe diga o que deve fazer. Provavelmente só trocou sua mãe pela esposa nesse papel. Muitos, muitos homens são assim. Alice percebe a condição de Bill e resolve que apesar da situação como um todo ser falsa, isto é, o próprio casamento, Bill precisa disso para sobreviver na insanidade do mundo. Ela precisa dar o sexo para ele, como uma mãe precisa amamentar seu filho. Ele não aguentará a realidade.
§ 14. E como ele poderia? Através de Discernimento espiritual, e da vida na Presença de Deus. Isso poderia fazê-lo entender a realidade em que se encontra, um mundo governado pelo diabo que comprou a humanidade com o Pecado Original. Alice, como toda mulher, por ser usada pelo homem como veículo do domínio da mentira, tem uma intuição visceral da realidade do pecado. Como Bill se recusa a ser uma testemunha de Deus e de seu Amor, ele precisa ser protegido por Alice, inclusive com o sexo seguro e supostamente santificado através do matrimônio.
§ 15. Mas nós sabemos, ou deveríamos saber, que amor não é possessão. O verdadeiro ciúme é uma coisa sagrada, divina. O ciúme de Bill é doentio porque ele crê que precisa de qualquer coisa que não seja Deus para a sua felicidade, e isto se concretiza na sua vida na forma da sua mulher. Seu foco em Alice o ajuda a não se perder mais ainda no mundo de mentiras e ilusões. Mas ele não deixa de ser presa do pecado. Como Ziegler lhe disse, ninguém mata ninguém, mas todo mundo morre. E que tipo de farsa termina com uma morte? A farsa do Pecado Original travestido de Amor. Por isso Alice não quis afirmar que se amariam para sempre: ela não quer que a mentira dure para sempre. Eles precisam morrer.
Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 5 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 4 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 4 |
| Soberania/Gnosticismo | 6 |
| Vigilância/Ingenuidade | 8 |
| Discernimento/Psiquismo | 6 |
| Nota final | 5,4 |
Como já terminamos de ver os dez principais filmes de Kubrick, podemos calcular a nota espiritual média para essa parte principal de sua obra: 4,9 (Moriquendi).