Estamos no Século XIV. Dois monges franciscanos, um mestre (William de Baskerville) e um discípulo (Adson), se dirigem a um sinistro mosteiro no norte da Itália, para participar da disputa sobre a concentração de riquezas pelo papado e pela Igreja Católica de forma geral. Ao chegarem em seu destino descobrem um clima de intriga e conspiração ao redor de algumas mortes suspeitas. Resumindo a trama, o mosteiro possui uma vasta coleção de obras escondidas por razões de uma suposta piedade religiosa da parte dos anciãos do local. A obra em torno de que ocorreram os assassinatos foi a Poética de Aristóteles. As mentiras são descobertas, o debate termina sem nenhuma concessão do papado, ao mesmo tempo em que testemunhamos a crueldade de uma ação da Santa Inquisição no local.
O filme nos mostra três elementos principais: a corrupção da Igreja Católica, a liberdade filosófica do antigo Aristóteles e do contemporâneo William, e o mistério do Amor na paixão do jovem Adson por uma jovem.
Da corrupção da Igreja temos abundantes amostras com o acobertamento dos crimes ocorridos no mosteiro, com a manutenção em segredo da biblioteca profana com escritos perigosos ao dogma católico (como se a verdade do Evangelho tivesse que temer alguma filosofia do mundo), com a ação criminosa da Inquisição na produção de uma falsa justiça, e com a derrota do argumento franciscano na disputa pela divisão dos bens da Igreja.
Na obra que levou monges a matarem e a morrerem, A Poética de Aristóteles, encontramos o elogio da Comédia como gênero literário, e o poder do riso para a descoberta da verdade, especialmente da verdade que desagrada aos poderes e instituições estabelecidos. A interpretação daqueles que suprimem o conhecimento filosófico é de que “o riso mata o medo, e sem o medo não pode haver fé. Sem o medo do diabo, não há mais necessidade de Deus“, uma teologia fraquíssima e gnóstica. Essa Igreja é fetichista e mórbida, tanto quanto aquele farisaísmo que matou Jesus. O filósofo grego estava muito mais próximo da verdade e, portanto, do verdadeiro Evangelho, quando afirmou que o riso desarma o dogma, destrói a solenidade, torna os poderosos ridículos e enfraquece a obediência baseada no medo. Sobretudo, se deus é bom, se seu Amor é invencível, a Revelação de certo modo é um tipo de Comédia, uma história com final feliz.
Com William de Baskerville temos a concordância da fé com o espírito investigativo, de amor à Verdade doa a quem doer. No contexto do filme isso se mostra no caráter curioso e aberto da mente de William. Já no âmbito mais amplo da filosofia da Ordem dos Franciscanos, entendemos que o problema do “Nome da Rosa” aponta para o legado franciscano da investigação do principium individuationis, uma filosofia que contestou a individuação pela matéria defendida por Aristóteles e por Tomás de Aquino. Para além dessa conquista franciscana concentrada na figura de Duns Scot no Século XIII, chegamos ao próximo Século com William Baskerville representando o legado do outro William, de Ockham, o nominalista que separou as coisas do seus nomes, defendendo a Unidade da substância real contra a generalização das universalizações racionais. Na criatura a ousia ultrapassa o logos, porque só em Deus o Ser e o Conhecer se unificam plenamente. O Nome da Rosa é, afinal, um mistério que só Deus conhece plenamente.
Isso não nos faz deixar de desejar o deleite de experimentar esse mistério divino, o que nos leva para a parte final e mais importante do filme, que é a experiência da paixão de Adson. No fim do filme o jovem monge vai embora do mosteiro com seu mestre, deixando para trás aquela jovem que tanto o encantou. Em seu relato enquanto já idoso ele afirma em memória: “Da rosa antiga resta apenas o nome; apenas nomes nus temos agora.”
Essa expressão melancólica trai o sentido sagrado do final feliz da Comédia que Aristóteles defendia em sua Poética. Afinal, o que Adson poderia perder daquele mistério, se todo o Bem é Eterno em Deus, esse Deus a quem ele próprio se dirige com a consumação de sua vida? Infelizmente isso reduz a qualidade espiritual da obra. Não sei do livro, mas o filme desaponta neste sentido. Possivelmente a idéia do próprio Umberto Eco foi a de endossar a interpretação da inclinação ateística e materialista do nominalismo, o que é um grande erro em face da verdadeira intenção dos Franciscanos: o que eles queriam não era destruir a Eternidade do Logos divino, mas a pretensão do logos humano. Desastrosamente, para o espírito humanista e antropocentrista, uma coisa quer dizer a perda da outra, mas para quem tem a Fé tudo está resolvido, e até ao contrário, a Humildade favorece a exaltação do Logos divino.
A morte é lucro, meu jovem velho Adson.
Confiando em Deus você não perdeu a Rosa, mas a ganhou para sempre.
Acho que o que você perdeu foi o fio da meada do Evangelho…
PS: Completando a explicação nos termos da minha própria filosofia (Monadofilia): corretamente entendido, o Nominalismo corrige o âmbito da experiência humana mostrando o Limite da Percepção, que é o conhecimento da Rosa concreta, e o Limite da Apercepção, que é o Nome da Rosa, mas jamais às custas da idéia eterna da Rosa no Logos divino, ao qual temos o acesso prometido pela nossa participação na Eternidade de Deus.
Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 6 |
| Presença/Idolatria | 5 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 3 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 7 |
| Vigilância/Ingenuidade | 7 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 5,4 |