Marcial Maciel (O Lobo de Deus), série por Matías GUEILBURT

Para que não digam que a Religião em geral, ou a Igreja Católica em particular, é perseguida com alguma obsessão, a história de Marcial Maciel, o fundador da ordem dos Legionários de Cristo, serve para mostrar como o fenômeno da corrupção moral humana é universal e não só não escapa do âmbito da religiosidade, como parece se acomodar muito bem dentro desse tipo de ambiente. É como se identificássemos que num mundo inteiro que é governado por Satanás, parece que o diabo tem uma certa preferência e um carinho especial, entre seus vários domínios, pela Religião.

Este breve documentário da HBO em quatro episódios conta a história de Marcial Maciel, mais um monstro religioso travestido de santo.

Nasceu no México em 1920. Efeminado quando criança, Maciel sofreu bullying, abandono e abuso. Incapaz de carregar a sua cruz e seguir Jesus, de algum modo parece que ele quis se encaixar e participar profundamente do jogo do mundo que o mal tratou. E o fez com a excelência dos maiores perversos.

Maciel decidiu seguir uma suposta missão pessoal como católico, mas num sistema quase paralelo. Ordenou-se padre, mas interessava-se mesmo era em arregimentar quadros e acumular poder, especialmente na exploração da fragilidade alheia, oferecendo acolhida à crianças e jovens de famílias carentes, e ganhando doações de viúvas sentimentais, e de ricos com a consciência culpada. Com o máximo de autonomia e emprestando autoridade e prestígio da Igreja Católica, fundou a ordem dos Legionários de Cristo, inspirado na Ordem dos Jesuítas. Não se pode negar que Maciel tivesse grandes capacidades de organização, e que fosse um oportunista muito habilidoso.

Maciel se financiava com a ajuda de pessoas ricas, especialmente viúvas abastadas, e com o dinheiro abria institutos de educação para formar uma nova elite católica. Essa elite se contraporia ao modernismo do Vaticano II e aos avanços do marxismo da Teologia da Libertação na América Latina. Enquanto os idiotas se distraíam com essa fachada, Maciel concentrava poder e dinheiro, e se divertia com os abusos de menores e de drogas.

Maciel corrompeu a hierarquia da Igreja com dinheiro, e principalmente com o seu poder de arregimentar grupos sociais para o organismo religioso. Numa época de crescente liberdade religiosa, essas grandes e velhas instituições como a Igreja Católica são sedentas por renovações dos seus quadros, especialmente de lideranças capazes de trazer as novas vítimas necessárias à manutenção do sistema, a nova geração. Maciel foi extremamente bem-vindo como líder popular e carismático, trazendo de reboque uma vasta clientela e novos operários das engrenagens religiosas, além de um fluxo constante de doações. E para envernizar essa obra maravilhosa, Maciel vestiu os Legionários de Cristo com as roupas dos campeões contra o Vaticano II, contra o Comunismo, etc.

Mas aos poucos seus crimes se tornam conhecidos e isso cria uma situação problemática na Igreja Católica. Em 1956 Macial é afastado de suas atividades depois de uma investigação. Mas com a morte de Pio XII ele volta à ativa. Mais tarde Maciel encontra um grande parceiro em João Paulo II, esse santo que provavelmente foi o maior responsável por cobrir Maciel com um manto de legitimidade e autoridade.

Expandindo suas atividades, Maciel cria a Regnum Christi para atrair jovens mulheres para apoio aos Legionários, tomando seu dinheiro, seus serviços, etc., basicamente escravizando essas mulheres, inspirado na idéia da instituição dos leigos consagrados da Opus Dei. Observe-se novamente que, assim como aconteceu com os Jesuítas, Maciel não inventou nada: todo o esquema de exploração dos seres humanos em nome de Deus já estava pronto e em funcionamento nesses vários tipos de organização. Tudo o que Maciel fez foi repetir essas programações.

Maciel usava as vastas doações doações de dinheiro recebidas pelos Legionários para manter um estilo de vida luxuoso, e também para o suborno de autoridades políticas ou religiosas, estas últimas através principalmente de “obras de caridade”. Lavagem de dinheiro e desvios de recursos para paraísos fiscais se tornaram uma especialidade na ordem dos Legionários.

Eventualmente acusações mais graves e mais comprovadas são feitas, finalmente, quando algumas das principais vítimas de Maciel decidem que não aguentam mais mentir e esconder os fatos. As denúncias contra Maciel tiveram que ser feitas nos EUA, porque no México era inviável a acusação de uma celebridade como ele. Isso nos faz pensar: o quanto é inviável a denúncia dos famosos em geral, quando isso arrisca causar um grande escândalo e até o abalo da ordem social? Vejam como funciona o comprometimento moral da sociedade humana ao esquema de Satanás: emprega-se um tão grande alinhamento das consciências a esses esquemas mentirosos, que a desmoralização geral da comunidade torna inviável a revelação da verdade. É isso o que autoriza o procedimento do sacrifício ritualístico dos bodes expiatórios: uma vítima simbólica deve morrer como símbolo do mal, para que o próprio mal possa se perpetuar no governo de uma sociedade hipócrita e moralmente apodrecida. No fim, até com Maciel será este o caso. Vão-se os anéis, ficam os dedos: o líder morre, fisicamente e simbolicamente, mas os Legionários continuam, e principalmente a Sacra Igreja Católica Apostólica Romana.

Entre suas várias aventuras, Maciel teve esposa e filhos, tanto no México como na Espanha. Era um ator, um farsante, um grande mentiroso. E apesar de ter seus vários papéis no mundo, ele nunca quis realmente ser bom em nenhum deles. Abusou de seus dois filhos mexicanos. E conseguiu, sabe-se lá como, que o próprio Papa João Paulo II batizasse sua filha espanhola, Norma. Desculpem, mas se além do dinheiro e do prestígio de Maciel, se ele não tivesse também o poder de chantagem contra lideranças católicas, não sei se certas coisas seriam possíveis. Afinal, de que outro modo uma instituição tão poderosa poderia ter sua liderança maior submetida aos caprichos e desejos de Maciel? Entendem como isso funciona? O governante de todas as religiões é o Ouroboros, a grande e velha Serpente, desde o seu primeiro pacto com o primeiro dos homens, Adão. O que Maciel fez foi usar as ferramentas espirituais de conquista e concentração de poder, que é a moeda do diabo, e com isso Maciel ganhou controle até sobre a Igreja Católica. Este mundo está a serviço do diabo, com a exceção daqueles que são livres da busca pelo poder, aqueles que amam a Deus e ao próximo.

Já depois de muitas denúncias, o Vaticano ainda reconhecia e legitimava a posição de Maciel, inclusive num grande evento com o Papa no Vaticano para celebrar o aniversário dos Legionários de Cristo. Uma grande vergonha, e uma grande evidência para quem não tem medo de reconhecer a verdade.

Um novo processo interno de investigação é iniciado pelo então Cardeal Ratzinger. Esse processo continua depois da morte de João Paulo II, e é finalizado no papado do próprio Ratzinger, já como Bento XVI. Porém, qual é a resposta que a Igreja dá para o caso? Maciel é afastado da liderança dos Legionários e é recomendado a viver em oração e penitência. Obviamente Maciel ignora a recomendação e faz o que quer. Ele viaja pelo mundo, inclusive para a Tailândia, onde parece que se diverte com a exploração da prostituição de menores.

Com isso se vê que não há grande diferença entre este papado, ou aquele papado. Essa dialética imita aquela que vemos operar na política: é uma distração para enganar os imbecis.

Desde a época de Pio XII se sabia dos crimes de Maciel, mas ele nunca foi julgado nem condenado por nada. Maciel soube explorar muito bem a corrupção de pessoas e principalmente de instituições, com as massas de pessoas e as grandes riquezas dos Legionários.

Se a Igreja quisesse proteger os órfãos e as viúvas, que é a religião verdadeira que Cristo instituiu, ela teria impedido Maciel de agir. Mas ela não só não o impediu, como o autorizou e legitimou. Pelos frutos conhecereis a árvore. Foi isso que Jesus ensinou. Sai dela, povo meu!

Na maior ilusão, alguns dos acusadores de Maciel, querendo separar a religião ideal da religião real, acusaram Maciel de ser apóstata e ateu.

Mas foi justamente na condição de religioso que Maciel se realizou como predador, com a cobertura, leniência, omissão e negligência da própria Igreja Católica.

Como já dissemos antes, a Igreja Católica é um projeto messiânico igual ao Partido Comunista, apenas mais antigo e tradicional: quando falha, nunca perde o brilho da sua forma ideal que continua sendo acreditada como se Deus tivesse algo que ver com as ilusões humanas.

Quanta ilusão! Não foi enquanto apóstata e ateu que Maciel explorou suas vítimas, mas enquanto líder religioso consagrado pela Igreja Católica. Eis a força da mentira e da ilusão humana.

Pensando na pessoa de Maciel em si mesmo, o que ele poderia ter feito? Poderia ter carregado a sua cruz como vítima de abuso, e se quisesse poderia ter buscado a castidade e a virtude dentro da Religião, ou então, poderia ainda carregar a sua cruz como pessoa afastada da Igreja e do Poder do mundo, vivendo de forma privada da melhor maneira que pudesse.

Mas ele faz a pior escolha de todas, se tornou um lobo travestido de cordeiro, e usou do poder e do prestígio da Religião para abusar e explorar seres humanos vulneráveis.

O maior problema não é que existam tipos como Maciel.

O maior problema é que estes tipos sejam os líderes mais aplaudidos e reverenciados da humanidade.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade8
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

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