Literariamente bem mais agradável, esta obra do nosso filósofo trata novamente do objeto de sua Ética a Nicômaco: a ciência da felicidade, a eudaimonia. O começo do seu argumento oferece porém algumas novidades interessantes. Por exemplo, ele declara que a vida humana entregue ao seu dispositivo natural não vale a pena ser vivida, por ser muito contrária ao que é escolhido voluntariamente, ou apetecível, e que para muitos seres humanos seria melhor não ter nascido (1215b20). Isso coaduna com os muitos chamados e poucos escolhidos do Evangelho, e com a diferença entre a participação na Primeira Ressurreição, que só a menor parte alcança, e a participação na Segunda Ressurreição, ou Dia do Juízo, onde a maioria termina.
Também é notável que logo no início o Estagirita separa a investigação do Sumo-Bem da investigação da conveniência da filosofia para a felicidade. Outros tipos de felicidade precisam ser comparados com o da vida contemplativa ou especulativa. Já sabemos onde ele deve terminar sua investigação, mas ele quer nos levar lá por raciocínios e evidências. É justo que faça isso, mas é algo dispensável de acordo com a Soberania. Melhor fez Plotino, por exemplo, dando por pressuposto o motivo de sua busca e se dedicando a se aprofundar nela própria. Se ao fim a maioria não pode ser persuadida à respeito do Bem, como o próprio Aristóteles já admitiu antes, de que adianta argumentar?
O autor reafirma que a virtude é uma atividade da alma em que se alcança a mediania racional entre as deficiências e os excessos diante das paixões. Não temos grandes novidades aqui, em comparação com o que já vimos na Ética a Nicômaco, exceto talvez pela descrição do que Aristóteles chama de Malevolência: oposto à deficiência da Justa Indignação diante da maldade, que é o caso da Inveja (a tristeza com os bens e o sucesso alheio), a Melevolência é a alegria com o sucesso e a prosperidade alheia mesmo quando esta implica em injustiça e maldade. Ora, quanto não podemos compreender da natureza humana e da baixeza moral com a qual convivemos, distinguindo justamente esses extremos decadentes na nossa sociedade? E isso não reflete de algum modo uma aplicação dessa ciência moral da Ética aos dois lados da Dialética do Ouroboros? Não são os malevolentes aqueles que legitimam a Mistura ao aprovar a injustiça, e não são os invejosos aqueles que rejeitam o Limite ao detestar o que é bom junto com o que é mau?
Nos Capítulos 6 e 7 do Livro II o autor argumenta de modo mais claro e elegante à respeito das virtudes enquanto atividades de um ser livre que se torna gerador de princípios de ações (e de suas consequências). Por trás, portanto, da máquina moral que produz a força das virtudes, existe a “prévia escolha” (proaíresis). Esse é um testemunho indireto da Soberania, que por mais fraco que seja possui o seu valor. O tradutor chega a usar o termo “escolhido” (proaíretes) para se referir ao objeto desse ato inaugural da alma na autodeterminação da sua moralidade, o que é uma referência que exibe diretamente o valor do principal dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia.
No Capítulo 5 do Livro III o autor volta a falar da “Grandeza de Alma” mencionada na Ética a Nicômaco, mas com uma conotação que parece mais correta. Sem o juízo sobre os méritos das virtudes fica mais fácil afastar o perigo do Orgulho. Esta Grandeza de Alma está mais conectada à idéia de Magnanimidade, da qual aliás é um termo sinônimo. Tal virtude provê o magnânimo de desdenho e desprezo pelos vícios, ou mesmo pelas paixões quando essas provocam os vícios. Os ignorantes afetados pela deficiência da pequenez julgam a Magnanimidade como arrogância, porque desconhecem o mal da valorização daquilo que ainda respeitam e estimam, mas que é inferior. O magnânimo possui uma estimativa correta com relação ao valor real das coisas, especialmente do ponto de vista moral. Obviamente, assim como ocorre com todas as virtudes morais, a Magnanimidade é tão boa e mais plena quanto for grande a Sabedoria da qual depende. No mundo atual onde as pessoas são tão massacradas com estímulos e distrações diversas é quase impossível falar de Magnanimidade. Mas isso é relevante espiritualmente, porque esta virtude dá um testemunho indireto e valioso do dom da Soberania, especialmente numa sociedade dominada por uma cultura de massas.
No Livro VII, Capítulo 2, 1237a5, o autor nos provê uma excelente ferramenta para o juízo da hipocrisia, enquanto tratava da virtude da Amizade: “É necessário que as coisas nobres sejam prazerosas. Quando ocorre divergência entre eles, a pessoa fica impossibilitada de ser definitivamente boa, sendo possível nela ser gerado o descontrole, visto que o descontrole tem como causa a divergência entre o bom e o prazeroso nas emoções“. Calcule-se o quanto é mentirosa a falsa virtude daqueles que se acham bons justamente por seu padecimento, tal como fariam os masoquistas. Dores e sofrimentos, são compensados pela virtude verdadeira que dá prazer para aquele que a experimenta. Jesus se referiu a isso quando orientou sobre a maneira correta de se jejuar, isto é, com a alegria de alguém que faz algo bom e prazeroso à sua alma, e não com o pesar de quem se lamenta por sua situação.
A amizade verdadeira, que chamamos de Monadofilia Menor na filosofia cristã, ou de Segundo Mandamento na teologia, não é o amor pelas qualidades do amigo, pois estas nos pertencem como bens próprios, de acordo com o amor próprio ou Monadofilia Primeira. O amor ao próximo é o desejo do seu bem enquanto singularidade. E Aristóteles é capaz de reconhecer a excelência dessa amizade, que ele vincula à virtude, sobre aquelas baseadas no prazer e na utilidade: “a satisfação da amizade é aquela extraída do próprio indivíduo enquanto ele mesmo” (1237b1, Capítulo 2, Livro VII). O que coaduna com a melhor definição que o filósofo tem do amigo: o amigo é um outro eu.
Na maior parte do Ética a Eudemo o autor repete as idéias de sua Ética a Nicômaco, exceto pelos destaques que já demos, e pelo estilo em geral, que é mais agradável como já foi dito.
Isto até o Livro VII. O Livro VIII, que em algumas edições é embutido como capítulos extras do livro anterior, foi separado pelo editor deste trabalho, seguindo a prática de alguns editores das obras do Estagirita, o que entendo ser um procedimento muito adequado, dada a diferença no assunto.
Neste último Livro VIII o autor trabalhará na muito árdua e importante investigação do problema da sorte (tykhe), especialmente quando esta beneficia agentes que são moralmente destituídos das virtudes que, de acordo com a natureza, deveriam ser necessárias para produzir o seu sucesso. Vejam o que é a honestidade de um filósofo de verdade. É tão mais fácil espíritos superficiais simplesmente desconsiderarem aquilo que a observação da experiência real revela todos os dias: que os bens da vida não são sempre obtidos por aqueles que supostamente deveriam ser os únicos beneficiados. Aristóteles, que é modelo de seriedade filosófica e continuará sendo até o Fim dos Tempos, não ignora o problema. Sua mente busca a lógica dos dispositivos naturais de causalidade. Mas ele não ignora o fato brutal de um desajuste entre essa expectativa lógica e a realidade observada. E não teme avaliar essa questão desde o ponto de vista de uma intervenção divina, pois para o buscador de ordem isso é inescapável. Ou seja, ele não quer abandonar a razão e o ordenamento da realidade como recurso à explicação da sorte, isto é, ele quer eliminar a idéia de acaso e da própria sorte. Diz ele: “causa estranheza, porém, que um deus ou divindade (theon e daimona) se dispusesse a amar um indivíduo dessa espécie e não o indivíduo melhor e o mais sábio“. Seguindo essa pista, ele diz também: “Se, contudo, procedermos à sua completa eliminação, diremos que nada acontece em decorrência da sorte, ainda que digamos ser ela uma causa simplesmente porque, embora exista uma outra causa, não a vemos; por conta disso, ao definir a sorte há quem a entenda como uma causa insuscetível de ser calculada pela razão humana (aitían álogon anthropínoi logismôi), concebendo-a como algo autenticamente natural“. Aristóteles está na pista da Graça. E ele deduzirá que a alternativa seria aquilo que eu chamo de Cacolatria, ou seja, a destruição de toda noção de ordem subjacente ao Ser, um culto ao Caos como realidade primordial. Em suma: se existe sorte como caos, tudo tem que ser sorte (caos), embora tenhamos como que uma ilusão de ordem à partir da nossa própria racionalidade, que seria anômala com relação ao Ser. Esta é a interpretação que algumas pessoas farão inclusive da filosofia kantiana, mais tarde. Se, ao contrário, existe ordem no ser das coisas, então há um Logos transcendente que ordena todos os seres, ainda que este não seja compreensível para nós. Esta é a chave do enigma, a virtude da Humildade para não projetar sobre o ignorado (ou o inconsciente) uma irracionalidade que não revela o Ser, mas a nossa limitação de conhecê-lo.
Aristóteles parece estar numa pista muito boa, apesar de ele não se dedicar aqui ao desenvolvimento dessas idéias. Mas sua luta contra o Caos é admirável e louvável, em contraste com o que seria esperado de um habitual filósofo da natureza como ele. E chegamos ao ponto de questionar, na leitura desta obra, se aqui o autor não superou mesmo o Naturalismo, para a grande humilhação dos idólatras da natureza que persistem até hoje na sua obstinação. Como pode um pagão, ignorante da Revelação, e grande estudante da Natureza como foi Aristóteles, conceber os limites da hipótese do Caos primordial enquanto até hoje em dia rastejam sobre a Terra esses espíritos enfatuados com a sua recusa de admirar, pela beleza ordenada da arte, a virtude do Artista? O Estagirita alcançou aqui algum testemunho da Presença, por menos consciente que seja:


Quem não se impressionar com esse testemunho vindo de um filósofo pagão do Século IV a.C. não tem o direito de se considerar um bom juiz de valor. Aristóteles está praticamente reconhecendo, quando fala que o “princípio da razão não é a razão, porém algo superior“, do que chamamos filosoficamente de Teleologia Metaracional do Sumo-Bem, um dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia, e daquilo que na teologia se chama de Lei do Amor, ou Lei da Graça. Seu termo “inspiração” (enthousiasmón) é quase uma descrição direta da atuação do Espírito Santo.
Dir-se-ia que estou vendo o que eu busco, isto é, fazendo uma leitura cristã da filosofia aristotélica, etc., mas que diabo de leitura eu posso fazer senão a que eu sou capaz e que quero fazer? Não se intimida o buscador da verdade que já tem consciência do dom de Soberania. O pesquisador neutro e cético, afinal, se for honesto, é ele também um amante da verdade tanto quanto Aristóteles o foi, e se persistir nessa trilha chegará a excelentes resultados. Não devemos temer pelos bem intencionados e sinceros de fato. E por que temeríamos os maliciosos e mentirosos que não conhecem nem a si mesmos?
No fim desta obra o autor termina com um excelente testemunho, na esteira da sua explicação a respeito da nobreza (kalokagathía), que é a virtude completa. Diz ele: “Deus, com efeito, não é governante imperioso, sendo sim aquilo em favor do que a Sabedoria emite suas ordens. Daí resulta que Deus de nada necessita. Portanto, a escolha e posse de coisas naturalmente boas, não importa se coisas boas relativas ao corpo, à riqueza, a amigos ou a outros bens, que maximamente vierem a produzir a especulação de Deus (theoû theorían) são as melhores, constituindo também a mais nobre das normas; e uma e outra que, por deficiência ou excesso, venham a nos impedir de servir a Deus e especulá-lo, são ruins. Esta norma a alma possui, sendo ela a norma mais excelente para a alma, a saber, perceber o mínimo da parte irracional da alma enquanto tal“.
A mínima percepção da parte irracional enquanto tal significa o erro da Idolatria: tomar por substancialmente bom aquilo que não o é. O que significa que indiretamente, ou nem tanto, Aristóteles termina sua Ética a Eudemo com um testemunho do dom de Presença.
Esta obra começou melhor que o outro trabalho sobre a Ética, do ponto de vista do estilo, mas terminou realmente melhor na própria qualidade do seu conteúdo, especialmente pelos efeitos do Livro VIII. É notável que a Ética a Nicômaco seja mais conhecida e propagada na cultura filosófica do que esta obra. Talvez isto tenha sido feito por uma certa predileção iluminista, o que não seria de se estranhar.
Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 6 |
| Presença/Idolatria | 7 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 6 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 5,6 |