Neste filme que tinha tudo para dar errado, mas que até que funcionou bem, nós acompanhamos a trajetória como adulto do protagonista Danny Torrance, o menino do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, que já avaliamos aqui antes.
O filho de Jack Torrance cresceu perturbado, como era de se esperar. Prefere o bloqueio ou o uso limitado de suas capacidades paranormais, nas quais é treinado pelas aparições do antigo cozinheiro do Hotel Overlook, que se torna o seu tutor. Boa parte de sua vida é passada no vício do alcoolismo, na esteira da fraqueza de seu pai. Até que ele não aguenta mais e parte para uma vida nova num novo lugar onde ele consegue usar suas capacidades para uma boa finalidade, especificamente dando conforto para idosos e pacientes terminais quando chega o momento destes morrerem. Daí que ele recebe o alcunha de “Dr. Sono”.
Acontece que ele receberá mensagens de um correspondente secreto que mais tarde se revelará como a outra protagonista do filme, a menina Abra. Superpoderosa na sua própria “iluminação”, Abra terá por sua vez o seu caminho cruzado com uma gangue de vilões chefiados por Rose.
Quem são estes? São seres humanos convertidos em um tipo de ser decaído, como vampiros ou demônios, cuja atividade principal é a absorção do sopro vital de vítimas inocentes, especialmente crianças com o dom da “iluminação”, para receberem o dom de prolongamento de suas próprias vidas. A gangue, que se autointitulam “O Verdadeiro Nó”, vive como ciganos nômades, vagueando de cidade em cidade em busca de novas presas, ou mais raramente em busca de talentos que possam ser integrados ao grupo. Rose, a líder que sempre veste um chapéu preto, é a que possui os maiores dons para detectar novas vítimas, e é quem também parece ser responsável pelos rituais de coleta do recurso de sobrevivência do grupo, do qual ela faz um estoque controlado.
No que entendo ser a cena mais importante, o filme mostra o grupo capturando um menino que será levado até um local remoto onde os vilões farão o ritual de roubo do seu sopro vital. Isto importa porque é a maior ponte da ficção com a realidade. O menino não é simplesmente assassinado, mas é torturado com crueldade por Rose. Parece que o sofrimento da vítima está diretamente ligado à qualidade da extração do sopro vital. Depois podemos checar se isto consta do livro de Stephen King, o que não é difícil de se acreditar. Faz parte do esquema perverso do mundo o sistema de constante compartilhamento das verdades obscuras e comprometedoras na forma das artes, de modo que o público esteja de algum modo ciente do que é que mantém o seu mundo funcionando, e assim exista algum nível sutil de comprometimento moral, especialmente da parte daqueles que contribuem com a continuidade do Pecado Original, seja com sua prática ou com sua legitimação, o que constitui uma forma de cumplicidade. A esse respeito recomendo que se tome conhecimento do argumento de Bruno Contestabile na sua leitura de Aqueles que partem de Omelas, de Ursula K. Le Guin.
Ora, todos os usurpadores que servem ao Ouroboros, que é o maior Usurpador de todos ele mesmo, basicamente extraem o seu poder do sofrimento de suas vítimas. Isso se aplica tanto a anjos caídos, ou demônios, que dependem da idolatria humana para continuar a existir como os falsos deuses que pretendem ser, quanto a servidores humanos que vendem suas almas em troca de benefícios temporais nas posições de poder sobre as massas (as Torres, Cavalos, Bispos, Rainhas e Reis do Sistema da Besta). Esse vampirismo é retratado de forma bem direta pelo filme, embora os vilões sejam falsamente retratados como meros marginais afastados dos centros de poder da sociedade, quando o que ocorre na realidade é exatamente o oposto. Apenas por essa razão não podemos dar uma nota maior para o critério de Vigilância.
O filme se desdobrará através de um elo psíquico de Abra com o menino vitimado pela gangue de Rose, e então de Abra com a própria Rose. Um conflito e uma caçada se instaurará. Rose fica obcecada e temerosa com o grande poder de Abra. A menina se defende sozinha o máximo que pode, mas sabe que o cerco está se fechando e por fim resolve pedir ajuda ao Dr. Sono, Danny Torrance.
Relutante de início, Danny será estimulado pelo seu tutor que reaparecerá uma última vez para confirmar a sua missão: assim como ele ajudou Danny (lembremos que o cozinheiro literalmente morreu para salvar o menino no primeiro filme), agora chegou a vez de Danny ajudar Abra.
Apesar de algumas baixas (um amigo de Danny e o pai de Abra), eventualmente a dupla de heróis consegue eliminar toda a gangue, exceto por Rose, que está afastada do conflito até que chegue o fim. Furiosa com a morte de todos os seus companheiros, a vilã perseguirá a dupla com pleno empenho, no uso de todas as suas reservas dos sopros vitais de vítimas do passado. Mas Danny tem um plano: levar Rose para um território onde a caçadora possa se tornar caça, isto é, o próprio Hotel Overlook.
Dito e feito, Rose é confrontada pelos espíritos famintos do hotel, e o próprio Danny termina por se sacrificar na explosão do Hotel, para garantir que Abra possa sobreviver e continuar sua própria trajetória. Ele voltará como um espírito para incentivá-la em seu novo caminho.
Nota espiritual: 5,1 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 4 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 4 |
| Soberania/Gnosticismo | 5 |
| Vigilância/Ingenuidade | 8 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 5,1 |