Este livro foi feito a partir de um trecho da Lectura de Duns Scot, Livro I, Distinção 2, Parte 1, Questão 1: “Se entre os entes há algum infinito em ato“.
O autor, franciscano, intitulado “Doutor Sutil” pela própria Igreja Católica, que depois inclusive o beatificou, fará os contrapontos ao aristotelismo dominicano conhecido através dos trabalhos de expoentes como Alberto de Colônia e Tomás de Aquino, revalorizando noções caras aos estudiosos de sua ordem, como as aprendidas pela filosofia agostiniana. Duns Scot está, no âmbito da filosofia franciscana do Medievo, entre Boaventura (o “Doutor Seráfico”) e Guilherme de Ockham (o “Doutor Invencível”), e sua obra certamente faz uma ponte entre esses pontos de entrada e saída do período.
Entre essas noções encontramos a da limitação dos intelectos criados diante de verdades mais acessíveis (ou até exclusivamente) por um ato de Vontade, inclusive e principalmente pela iluminação da Fé. Por exemplo:

O conhecimento da verdade “per se nota” dos termos é obrigatória como hipótese, mas não como realidade. A proposição sobre o Ser divino, ou sobre a sua infinitude, não pode ser negada como possibilidade, pois não possui contradição interna; mas só pode ser assentida como verdadeira por um ato de Fé, ou por demonstração. Não nos esqueçamos, porém, como o próprio autor nos lembra, que mesmo na demonstração a premissa maior é presumida como evidente ainda que não o seja, por ser intuitiva em si mesma ou porque resultou como conclusão de outra demonstração. Ora, a maior desse tipo de proposição “Deus É” ou “Deus é infinito em ato” contém uma essência indemonstrável por definição, que é o próprio Ser divino. A evidência intuitiva disso é um produto da Fé, e não do raciocínio e da demonstração, porque pelo pensamento sempre se poderia considerar de outro modo, como ocorre aliás com a dúvida maliciosa dos sistemas luciferianos e adâmicos. Assim, mesmo que esse tipo de proposição possa ser demonstrada racionalmente, sem o recurso à evidência produzida pela Fé, o mesmo não pode ser dito da premissa maior do raciocínio, a não ser por hipótese. Sem a Fé, a psique pode afirmar que algum ser divino com tal essência poderia possuir o ser ou a infinitude por necessidade formal, mas não poderia assentir a isso para além do nível hipotético, ou seja, meramente de que isto seria possível. É a Fé que dá a intuição de que as coisas são assim. O mesmo se pode afirmar do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária em seu Proslogion: sua “prova” serve como evidência para quem já tem a intuição gerada pela Fé a respeito da verdade da premissa maior do argumento. Se não fosse assim, qual seria o mérito humano de aceitação da iluminação divina? E qual seria, mais ainda, o mérito do Espírito Santo de conceder o dom sobrenatural de conhecê-Lo? E a própria pregação não seria nem produzida e nem aceita por força da vontade humana, mas como um processo pedagógico como o das ciências em geral.
As luzes naturais, que também são um dom de Deus por sinal, não podem violar a sacralidade da liberdade humana. Caso contrário o próprio Pecado Original e a Queda de Adão não seriam possíveis, pois o primeiro homem possuía essas luzes naturais do modo mais eminente e perfeito possível, e nem por isso ele resistiu à malícia de desconfiar da natureza divina. Ora, nem Lúcifer resistiu. Então há um ato de vontade que move o intelecto para aceitar intuições de verdades que superam as capacidades racionais naturais de qualquer criatura. As criaturas são livres para escolher, e todos são livres para atualizar sua realidade espiritual diante de Deus, e para tomar suas decisões com relação ao seu destino eterno. Deus fez assim. Duns Scot foi um filósofo cristão que quis mostrar isso, mesmo que isso custasse, por exemplo, a perda de um poder dogmático e magisterial totalitário como o da Igreja medieval. E é claro que os totalitaristas teocráticos até hoje não o perdoam por isso, chamando-o de “voluntarista”, etc. Se condenam tanto um defensor da liberdade humana, porque não dão mais um passo e condenam também o Criador dela? Sejam íntegros e coerentes. Eu amo a liberdade porque amo o seu inventor, e amo tudo o que Ele faz, porque tudo que Ele cria é bom. Duns Scot também amava. Nós não temos que prestar contas para tiranos, humanistas, ou idólatras.
A Igreja Católica perdeu autoridade porque perdeu carisma e legitimidade moral, e não porque alguns filósofos franciscanos inventaram doutrinas como o Voluntarismo ou o Nominalismo. É tão mais fácil acusar do que assumir erros. Se não me engano Jesus ensinou algo sobre isso, não foi?
O que tradicionalistas e conservadores católicos deveriam observar é que o título de Mater et Magistra não é um privilégio. É um encargo. Quem mais quiser se exaltar mais deve servir, e não ser servido. Ser sal da terra e luz do mundo não é um poder mágico concedido por participação em rituais religiosos. É um dever moral de dar o testemunho por atos. Por séculos e mais séculos A Coisa se envolveu com corrupção, tirania e crueldades, e a culpa do declínio católico é de alguns filósofos franciscanos? Façam-me o favor…
Nos números 45 e 48 encontramos distinções importantes entre causas essenciais e acidentais que nos ajudam a entender porque Jesus afirma “a ninguém na terra chameis de pai” (Mt 23:9), do ponto de vista da filosofia cristã:

Em sua nota, Sidney Silveira diz: “Um filho insere-se numa série causal acidentalmente ordenada. Para que ele viva não é necessário, por exemplo, que os seus tataravós –causas distantes do ser do filho, na série– estejam vivos“. Aí pergunto eu: e os pais carnais diretos, são necessários vivos por serem causas mais próximas? O pai só é necessário até a fecundação, e a mãe até o parto. E isso em se tratando apenas da causalidade acidental, é claro. Sem a causa primeira, porém, o filho não poderia existir jamais, e nem subsistir de nenhum modo, nem por nenhuma duração. Quem, portanto, é pai?
Já falamos disso. Abraão é pai de Isaac? Digamos que seja, como é o costume que se diga. Mas não é pai de Sarah. Então como podemos dizer que Abraão é pai? Ele é e não é ao mesmo tempo. É por acidente, numa circunstância. E apenas por um tempo, porque nem é mais: Abraão já morreu, então nem dizemos que Abraão é pai de Isaac, apenas que ele foi isso e já não é mais. Mas Deus é pai de Isaac, como sempre foi e sempre será, tanto quanto foi, é e será sempre pai de Sarah, e do próprio Abraão, etc. Ou seja, Deus é Pai de modo essencial e eterno. E não se pode dizer que Deus dependeu de Abraão para ser pai de Isaac, como se existisse dependência, porque um Deus que depende da criatura em qualquer medida ou sentido não pode ser Deus de modo absoluto. Foi isso que Jesus ensinou quando disse que só Deus é Pai. Foi o Pecado Original que introduziu confusão e idolatria na história humana. Mas o Filho de Deus veio nos libertar de todas essas trevas, para que triunfe a Glória do único e legítimo Criador para sempre.
Continuando no número 48, Scot afirma:

É óbvio que os pais carnais não podem produzir a Mônada, ou a Alma. A Substância Simples não pode ser gerada nem corrompida, pois não possui partes. Só pode ser criada e aniquilada por um ato divino. O que as causas acidentais produzem é a experiência da interface persistente da Percepção, isto é, um corpo, para uma mônada criada por Deus, e o fazem imperfeitamente desde a sua condição, gerando o que é corrompível e perecível, destinado à morte, enquanto a criação divina é perfeita e destinada à imortalidade.
Nestes próximos parágrafos encontramos mais noções interessantes sobre o problema da relação entre as causas:

Diga-se do exposto o seguinte: que a causa primeira perfeita e infinita não depende de nenhuma causa segunda, senão para a produção daquilo que é imperfeito, mas de modo não essencial, só pelo acidente –e só do nosso ponto de vista– da volição da causa imperfeita. A Deus não pode faltar o que lhe permita criar qualquer ser do nada e de modo perfeito. A criação de imperfeitos depende de causas segundas, como a vontade de Adão e Eva, mas Deus não dependia disso para qualquer finalidade, inclusive para a criação de um ser livre para errar, porque o Limite não é um defeito do ser criado, como crêem os gnósticos, mas condição da sua forma substancial. Só pelo acidente da vontade imperfeita de subcriadores contingentes existe a criação de seres imperfeitos, como se observa com o Pecado Original. Mas até último ser criado sob a condição da imperfeição ainda é criado por Deus de modo eminente e primário, ou não teria substância verdadeira. Daí a virtude criativa de Deus alcançar toda a ordem de seres criados por quantas causas secundárias existam, por possuir virtude infinita.
O livro aborda apenas uma parte bem limitada da obra de Scot, de modo que não há mais o que apreciar para nosso proveito além do que foi visto.
Mostra-se o suficiente assim, porém, para percebermos que nem o aristotelismo e nem o tomismo foram filosofias definitivas para o Século XIII, nem para qualquer outro período imediatamente posterior. Foi só no tempo moderno, quando os efeitos mais longos da separação de teologia e filosofia foram sentidos, que a Igreja, ou uma parte dela, resolveu retroagir seu entendimento e revalorizar essas doutrinas vencidas à época. Mas pelos frutos históricos sabemos o que teve mais sucesso de fato, e os motivos, e as consequências, etc.
Nota final: 5,2 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 7 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 5 |
| Vigilância/Ingenuidade | 5 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 5,2 |