Pluribus, série por Vince GILLIGAN (1T)

Nesta série nós acompanhamos a experiência ingênua de seres humanos criando um vírus em laboratório seguindo instruções recebidas do espaço. Que os seres humanos pareçam mais dispostos a acreditar na bondade de ETs do que em Deus, isso continua sendo algo espantoso, mas não de todo incompreensível: se a evolução e o progresso tendem universalmente na mesma direção positiva, quem está na frente poderia dar dicas para quem está atrás. Essa é a premissa oculta por trás do otimismo tolo no início da série. O auge da imprudência consiste em fazer essa experiência sem protocolos adicionais de segurança. Eu instalaria os pesquisadores numa base submarina no meio do mar, ou numa estação espacial. Como não fizeram isso, ocorre um acidente e logo o vírus começa a ser transmitido de humano para humano com facilidade.

A protagonista Carol Sturka, escritora de ficção residente em Albuquerque, Novo México, testemunha a sua companheira Helen sendo contaminada pelo vírus lançado por aeronaves, bem como o de todas as pessoas ao redor naquela mesma localidade. Estranhamente, Carol não é contaminada. O que ela descobre é que os infectados logo se reanimam e agem em conjunto, como se todos tivessem uma mesma mente coletiva. Helen, porém, falece em virtude de sua queda no momento da infecção. Muitos outros seres humanos morreram em circunstâncias semelhantes.

Nossa protagonista, meio alcoólatra e emocionalmente instável, levará muito tempo para descobrir informações importantes sobre o funcionamento do vírus. Os infectados perderam sua agência individual, são incapazes de matar e mentir (embora possam dissimular e manipular, como atores), e são vulneráveis a emoções negativas muito fortes. Apenas treze indivíduos teriam sido imunes ao vírus em todo o mundo. Os infectados fazem todos os desejos dos imunes, para ganhar sua confiança e mantê-los sob controle. Depois de muitos vais e vens emocionais mais ou menos inúteis, Carol finalmente descobre que eles planejam infectá-la independente de sua vontade, e que pretendem construir um dispositivo, como uma antena, para retransmitir o sinal da programação do vírus para o espaço. Inclusive são econômicos com relação a energia e alimentos porque sabem que não tendem a durar muito tempo na sua condição, incapazes de coletar, plantar, cultivar, criar animais, etc.

Desde o início essa seria a linha de investigação mais óbvia para Carol: descobrir como vivem os humanos afetados pela infecção, de onde veio a transmissão do código de criação do vírus, e qual é o objetivo desse coletivo infectado. Passam oito dos nove episódios, mais que dois meses na história, para a protagonista descobrir coisas básicas que poderia ter descoberto muito mais rapidamente. E ainda não descobriu tudo. Por exemplo: os infectados se reproduzem? Há menção a números de nascimentos e de mortes, mas os nascidos foram todos concebidos antes da infecção.

Os infectados em certo momento mencionam um tal “imperativo biológico” no comando das suas funções. Pode ser uma dissimulação. Pode ser um erro na programação do vírus, ou ainda um design com um objetivo específico. Ora, sabemos pelo menos desde Aristóteles que as funções elementares do tal imperativo biológico são as de nutrição e reprodução, para manter os indivíduos e a espécie, respectivamente. Não usar a energia vital para adquirir nutrientes de qualquer maneira não é nada natural nem biológico, é artificial. Caso não se reproduzam (algo que ainda não sabemos), aplica-se o mesmo conceito. Isso indica que os infectados são escravos de uma programação cujo objetivo, provavelmente, é o de limpar o planeta da vida senciente. Talvez com o objetivo de torná-lo habitável por uma raça de conquistadores imunes ao vírus?

De qualquer modo os personagens que ainda não foram infectados (restaram 12), inclusive o aguerrido paraguaio Manousos, têm razões de sobra para querer restaurar a condição natural do ser humano, que eles chamam exageradamente de “salvar o mundo”. Isso porque ainda que possa haver paz e segurança com esse intelecto agente coletivo, essa condição consiste numa óbvia redução da condição humana plena. Na plenitude existe não só criatividade intelectual e capacidade de experimentar o espectro completo das emoções, mas principalmente a liberdade da agência moral individual, que é a vida na Presença, diante de Deus. Nesse sentido, a infecção equivale à morte.

Na remota hipótese de que o vírus tivesse sido criado com a finalidade de evoluir a humanidade a um estágio mais avançado, sua atuação criaria a condição de aumentar a liberdade, e não reduzir. Por exemplo, as pessoas poderiam experimentar um efeito temporário da infecção, e ao sair dessa condição de volta ao normal, fazer uma avaliação sóbria e independente sobre a conveniência de se submeter de modo permanente ao estado infectado. Como isso não aconteceu, a infecção foi um ato violento, assim como a retransmissão a partir da Terra consistirá também num ato de violência. Pode ser que descubramos ainda, por exemplo pelo testemunho de uma pessoa curada da infecção, mais detalhes sobre os efeitos do vírus. Infelizmente vai ficar para outra temporada, porque esses estúdios ganham mais dinheiro assim. Poderia ser um filme, mas renderia menos aos produtores.

Já a respeito da parte humana, há pouco a se dizer, pois Carol é uma personagem muito descompensada emocionalmente, imatura, ingênua, contraditória, etc. E os outros imunes ao vírus também não são muito melhores. A série causa uma certa reflexão sobre os problemas da condição humana que são destacados quando são suspensos pelo estado artificial de total colaboração do coletivo infectado. Mas ao mesmo tempo ressurge a valorização da vida convencional em face dessa artificialidade. Então não chegamos em grandes conclusões, pelo menos por enquanto.

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,4

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