Assisti esta série pelo menos umas cinco ou seis vezes, e decidi que não preciso reassistir mais uma vez para fazer uma análise do seu valor espiritual.
Bem feita, com roteiros competentes, bons atores, boa trilha sonora, e boa fotografia com as paisagens maravilhosas que Deus criou no Havaí, esta série cativou milhões ao longo de anos, e parece ter trabalhado no limite entre a qualidade e a enrolação para ganhar dinheiro. Cá entre nós, era para ser uma série em quatro temporadas no máximo.
J. J. Abrams, um dos criadores da série, explorou o recurso narrativo da “Mistery Box” até a exaustão, e criou escola com os roteiristas da série. O efeito disso é que existem muitos subenredos que na verdade são meio irrelevantes, como as conspirações de Benjamin Linus, ou o legado da Iniciativa Dharma. Essas coisas não fazem muita diferença no fim das contas, embora distraiam muitos os nerds que são geralmente são fãs com uma competência intelectual duvidosa no discernimento do que é essencial e acidental, meio e finalidade, etc. A estória está centrada em personagens que passam pela ilha de Lost mais ou menos como as almas passam por este mundo, para ter alguma experiência importante e seguir em frente depois. A ilha em si é apenas um cenário, e essas camadas superestruturais que os personagens criam são relevantes apenas no contexto da sua agência moral.
O fenômeno recorrente é que almas são trazidas a essa realidade, que na série é representada pela ilha, literalmente como indivíduos perdidos com relação ao sentido de suas vidas, mais ou menos presos em seus respectivos traumas de origem. Neste ponto o nome da série em Portugal, onde se costuma adotar a máxima literalidade dos títulos (para o humor dos brasileiros), acabou sendo uma escolha muito feliz: Perdidos. Na última temporada o sábio ou guru Jacob afirma isso diretamente aos protagonistas: vocês estão reclamando, mas a vida de vocês não fazia sentido antes de virem para cá.
Recapitulando a série brevemente, vamos aos fatos mais relevantes.
Desde tempos imemoriais, de algum modo seres humanos acabam se vendo nessa misteriosa ilha por várias razões, a maioria como sobrevivente de algum tipo de desastre, e alguns como convidados por habitantes. A lembrança mais antiga de habitação da ilha já mostra essa dinâmica pronta: por um lado uma mulher misteriosa, que eu vou chamar de Mãe, que é guardiã da própria ilha e portadora de segredos, e por outro lado sobreviventes, provavelmente náufragos, que são tratados como hostis. Conhecemos essa realidade pela experiência de outros náufragos mais recentes, na verdade uma mulher gravidíssima que dará a luz a irmãos gêmeos com a ajuda da Mãe. Imediatamente a mulher é assassinada pela Mãe, que vai criar os irmãos como se fossem seus filhos. Eventualmente a Mãe apresenta aos filhos um tal “Coração da Ilha”, que deve ser protegido sabe-se lá porquê. Na verdade a Mãe está querendo um substituto para a sua função, tanto que quando ela morre pela mão de um deles mais tarde, diz “obrigado”.
Para mim é óbvio que a Mãe, além de ser assassina, é mentirosa.
Digam o que quiserem, que “para martelo tudo é prego”, mas para mim a ilha representa o mundo decaído, ou “paraíso perdido” se preferirem, e o Coração da Ilha é um símbolo do Pecado Original. Literalmente, no centro do mecanismo há um sistema que imita uma cópula, que é como uma máquina que serve para prender a luz. Um simbolismo muito óbvio do Pacto Ouroboros: a cópula carnal “prende” a substância espiritual numa condição inferior. A Mãe foi parar lá por efeito de algum outro pecado anterior, e se viu presa ao dever de preservar o Coração da Ilha sob pena de que se o mecanismo fosse desfeito, o mundo acabaria. Ora, o simbolismo é claro: se não se manter o Pecado Original, o mundo decaído termina. A Mãe está presa ao seu papel até que encontre um Substituto para sua função, de modo que o mundo continue existindo. Foi por isso que ela assassinou a verdadeira genitora dos gêmeos e mentiu se apresentando como se fosse a mãe deles.
Aos poucos as personalidades dos irmãos vão se desenvolvendo. Jacob é mais ordeiro e lento no aprendizado, enquanto seu irmão, sem nome (vamos chamar de MIB, de Man in Black, ou “Homem de Preto”), é mais intrigado, curioso e independente, sendo chamado inclusive de “especial” pela Mãe, provavelmente numa tática de manipulação para que ele eventualmente aceitasse o papel de substituto como guardião do Coração da Ilha. Acontece que quando outros náufragos são descobertos pelo MIB na ilha, ele decide confrontar a Mãe, que havia dito, em outra de suas mentiras, que não existia nada além da ilha, e que eles três eram as únicas pessoas que existiam. Mais uma vez se confirma o simbolismo do Pacto Ouroboros: os seus subscritores costumam crer na mesma coisa, que se eles não gerarem e mantiverem a vida por seus meios, não existirá mais nada.
Jacob defende a Mãe e resolve ficar com ela, e MIB vai morar com os Outros, com o objetivo de sair da ilha.
Acontece que essas duas trajetórias colidirão quando a Mãe descobrir que os Outros estão próximos de desvendar os mistérios necessários para escapar da ilha, de tal modo que isso possa comprometer a continuidade da mesma. A Mãe age contra os Outros, causando a sua morte e a destruição de seus aparatos, e então MIB se vinga finalmente de todos os crimes da Mãe a a mata (quando ela justamente o agradece). Ela já havia tornado Jacob o novo guardião substituto no seu lugar. Jacob, por sua vez, resolve punir MIB lançando-o dentro do Coração da Ilha, algo que já havia sido sugerido como um destino mais sinistro do que a própria morte. O fato é que Jacob não consegue matar o irmão com as próprias mãos, como aliás jamais conseguirá fazer. A Mãe produziu algum encantamento que previne que os irmãos possam se matar diretamente. MIB torna-se então o Monstro de Fumaça, que talvez fosse a forma verdadeira da Mãe, embora isso nunca seja confirmado.
A obsessão de MIB continuará sendo a mesma: sair da ilha. É um símbolo do sentimento gnóstico por excelência, a da vida numa condição de prisioneiro. Por outro lado, Jacob se torna o mantenedor da ordem. São como Caim e Abel.
Quando em algum momento no futuro, séculos mais tarde, Jacob explica ao náufrago Richard o que é a ilha, ele a compara a uma rolha que mantém o vinho preso dentro de uma garrafa. O mal, que é personificado por MIB, seria mantido preso dentro da ilha e impedido de se espalhar pelo mundo. Essa é outra mentira, é claro. Jacob aprendeu a mentir com a sua Mãe, ao assumir o papel de guardião do Coração da Ilha. A verdade é que para MIB escapar da ilha, ele precisa que Jacob morra e a ilha fique desguarnecida, mas por não conseguir matá-lo diretamente, é necessário que manipule alguém para fazer o que precisa em seu lugar. Igualmente, para se livrar de seu papel, Jacob precisa que outra pessoa lide com seu irmão de modo definitivo e assuma, em seu lugar, o papel de guardião da ilha.
Muito mais tarde, os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines serão lançados no meio dessa realidade ancestral sem ter a mínima idéia do sentido real do que ocorre. Ora, podemos dizer que nem mesmo Jacob e MIB sabem o sentido real, porque eles já foram criados num ambiente simbólico formado por mentiras e manipulações.
Jack, o líder dos sobreviventes do vôo, inicialmente assumirá um papel análogo ao de MIB: seu desejo maior é escapar da ilha. Já Locke quer acreditar que há uma razão especial para eles estarem ali, o que o torna em tese um excelente candidato a ser guardião da ilha. Acontece que por ciúme Benjamin Linus (uma espécie de “gerente” dos Outros, sob comando de Jacob) matará Locke, e sobrará para Jack assumir esse papel. Eventualmente, já para o fim da sexta temporada, apesar de relutar, ele aceita essa missão. Não o faz de modo fideísta, porém, como seria o caso de Locke, que era ingênuo e crédulo de modo quase patológico. Simplesmente Jack sabe que o plano de MIB é matar a todos os candidatos a substitutos de Jacob, para garantir que possa realizar seu plano de escapar sem possibilidade de erro. E Jack quer que seus amigos sobrevivam, apenas isso. É um herói que se sacrifica voluntariamente, e participa do ritual de passagem para assumir o lugar de Jacob, mas o faz por uma razão muito clara e bem fundamentada, sem entusiasmos nem exageros.
Isto nos dá a entender que embora seja aplicável o simbolismo do Pecado Original ao Coração da Ilha, para cada ser humano que se vê na circunstância de aceitar ou rejeitar a sua condição aplica-se o problema moral de um Dever de Estado. Neste sentido, embora MIB tivesse razão para questionar os crimes da Mãe, Jacob de modo ordeiro e paciente acaba por realizar um propósito maior que ultrapassa o nível presente de mentiras e manipulações, mais ou menos como Abel, apesar de ser ingênuo e crédulo, fez algo mais certo ao ter boa fé e confiar em seus pais do que Caim, que acabou caindo em crimes piores do que a mentira de seus pais. Entenda-se bem: o Pecado Original, com todas as suas consequências, existe sob a permissão divina por uma razão boa que o justifica, de acordo com a Eleuteriodiceia. Esta razão boa é o destino final das almas, que é o estado paradisíaco da Coruscância.
O que isto significa? Que o Coração da Ilha precisa ser mantido a todo custo? Que o Pecado Original não pode ser desfeito?
Negativo. Tanto faz, na verdade. Quem prova isso é o personagem “coringa” da estória, Desmond Hume. Ele é quem vai agir para desfazer o mecanismo no Coração da Ilha, o que permitirá a MIB tentar escapar da ilha, mas ao mesmo tempo o tornará vulnerável. Jack tentará matar o vilão, mas quem dará o tiro final será Kate, sua parceira de aventuras na série. Jack então voltará para restaurar o mecanismo na sua posição original, e então morrerá vendo seus amigos escaparem da ilha, que era o seu propósito desde o primeiro episódio da série.
Mas, voltando a Desmond, a certa altura ele compreendeu, através de seus poderes extraordinários de experimentar tempos ou mesmo dimensões diversas, que as experiências na ilha são passageiras em face de um destino muito mais excelente preparado para todos eles no futuro. Então diz a Jack: “Isso não importa, sabia Jack? Ele destruir a ilha, você matar ele. Isso não importa. Você vai me levar até aquela luz, e então eu vou para outro lugar. Um lugar onde podemos estar com aqueles que amamos, e nunca ter que pensar nesta maldita ilha novamente. E sabe qual é a melhor parte? Você está lá. Nós estamos sentados perto um do outro no vôo 815 da Oceanic. Ele nunca caiu. Nós falamos um com o outro. Você parecia feliz. Talvez eu consiga encontrar um caminho para levar você para lá também“. E Jack o responde: “Eu já tentei isso antes. Não existem atalhos, nem segundas chances. O que aconteceu, aconteceu. Confie em mim. Tudo isso importa.”
Os dois têm razão, mas em planos diferentes.
Por um lado é verdade que o desígnio final da Providência que levará as almas ao seu destino eterno é infalível e inescapável. Nesse sentido não importa muito o que cada um faz, desde que não rejeite o Bem final, que é o pecado mortal contra o Espírito Santo.
Por outro lado, na contingência criada pelo Pecado Original, as ações humanas refletem essa escolha pelo Bem, de tal modo que se não importa para Deus que Jack consiga salvar seus amigos, ou a ilha, importa apesar disso para Jack que ele faça essas coisas, pois esta é a sua maneira de escolher o Bem. Certamente existem meios mais fáceis de se fazer a escolha certa, mas Jack é um personagem intenso, heróico e ambicioso nesse sentido do dever. Ele sabe o que ele precisa fazer. Desmond acha que a história pode ser reescrita, mas Jack sabe que não, mesmo que ainda não tenha experimentado a outra dimensão. O que lhe resta é fazer a escolha que lhe permitirá estar em paz nessa outra vida futura, que é o que ele faz.
Os perdidos se encontram através da circunstância que os instalou num roteiro arquitetado por uma Providência infalível, e o trilho que centraliza a consciência humana nessa realidade cheia de sentido misterioso é o Dever de Estado. Isto é o que Jack reconhece ao fim. Desmond não tem problemas com isso, porque ele nunca foi teimoso como Jack nesse sentido, que sempre presumiu estar no controle de sua vida, etc. O dever é maior para os mais obstinados e ambiciosos, como sabemos muito bem, até porque estes costumam criar deveres artificiais com os seus votos voluntários, exatamente como fizeram a Mãe, Jacob, Jack e então Hurley, ao se tornarem guardiões do Coração da Ilha.
Cada personagem vive, assim, o seu arco particular de redenção. A maioria se encontra no final da estória, numa dimensão arrumada com o propósito dessa reunião antes de partirem para a próxima etapa desconhecida, que está para além de uma porta de luz, no último episódio da série. Embora exista uma forte imagem iconográfica do Cristianismo nessas cenas finais, outras religiões também são representadas como caminhos para essa solução espiritual final.
E os nossos vilões, como ficam? Benjamin Linus parece ser capaz de redenção ao que tudo indica, mas é um vilão menor no fim das contas. Já a Mãe e MIB tem um destino desconhecido, como aliás o próprio Jacob. Não entendo ser impossível para nenhum deles a salvação final, embora me interesse particularmente pelo caso de MIB. Tudo o que ele quis era a verdade e a liberdade, coisas boas em si, mas ele desejou isso a todo custo, e esse foi o seu grande mal (como o de Caim, aliás). Se for capaz de arrependimento, Deus não muda no seu desejo amoroso.
Há alguns aprendizados valiosos na série, entre os quais vou falar de dois dos mais relevantes:
Primeiro, a necessidade do cumprimento dos Deveres de Estados e em especial do perdão, que na série toma a forma da proposição “let it go” (“deixe estar”, ou “deixe para traz”). Todos os protagonistas são marcados por traumas que determinaram a sua encarnação particular nesta vida: o que eles precisam fazer agora é carregar essa Cruz e não replicar o mal. A grande tentação de cada um é se apegar aos seus mecanismos de defesa contra o trauma sofrido, fórmulas que são falsas porque replicam ou imitam o mal de algum modo. Senão vejamos: Jack quer ser bom o suficiente para o pai, porque sofreu de carência emocional durante a sua criação; Kate quer fugir da Lei porque presumiu ser boa a sua ação de libertar a mãe das maldades do padrasto (que na verdade era seu pai); Hurley quer compensar a frustração com o abandono paterno com o vício da gula, ou entretendo a idéia do suicídio; Sawyer quer ser tão perverso quanto o criminoso que enganou e vitimou seus pais; Locke quer acreditar que ele tem um destino especial que explique a terrível série de tragédias que viveu por culpa de seu pai; Sayid quer se entregar aos papéis mais sórdidos por se ver preso a um destino por ter nascido em difíceis circunstâncias no Iraque, e assim por diante. Curiosamente, o que todos os arcos particulares dos personagens têm em comum é o tema das consequências dos pecados dos pais recaindo sobre os filhos, uma evidência imediata e inegável da força do Pecado Original. Mas a solução não seria não ter nascido nas condições em que cada um nasceu, pois essa realidade foi providenciada pela vontade de Deus. A solução é carregar a Cruz do Dever de Estado e perdoar quem fez o mal, principalmente os pais e mães. Em suma, a primeira lição é: aceitar o Limite.
Segundo, há um aprendizado mais difícil, mas necessário, caso contrário acabaremos no lado direito da Dialética do Ouroboros, que é o da Legitimação da Mistura. A verdade de todos os personagens é que eles querem sair da ilha. Quando parece que encontramos alguma exceção, como nos casos de Locke, ou de Rose, é sempre um caso particular em que um mal maior específico é evitado, como a paraplegia do primeiro, ou o câncer terminal da segunda. Em ambos os casos seria absurdo presumir que estes prefeririam viver limitados ao ambiente da ilha, se pudessem continuar saudáveis fora dela. Se nos esquecermos de que este é apenas um local de passagem, corremos o risco de achar que o Bem precisa do Mal, ou a Luz das Trevas, etc. Isto quer dizer que MIB de algum modo é o personagem mais próximo da verdade em toda a série, pela ambição da sua consciência. Porque se ele queria sair da ilha, igualmente tanto a Mãe quanto Jacob também quiseram o mesmo. Apenas ele se obstinou e foi longe demais na perseguição da sua meta. Se acreditasse que a mesma Providência que o havia instalado ali na ilha seria capaz de retirá-lo de lá, poderia ficar em paz, perdoar a Mãe, etc. Gosto de acreditar que esse personagem é capaz de alcançar a redenção de algum modo, porque seu objetivo nunca foi o de fazer o mal, mas de ser livre de mentiras e manipulações. O problema é que quando confundimos as mentiras e manipulações dos nossos pais com uma suposta maldade de Deus, nós nos tornamos gnósticos aflitos, prisioneiros de nossa própria vida, e desta situação podem decorrer muitos males. Por isto, embora a solução correta para o MIB não fosse a de matar a Mãe como fez, e sim perdoá-la, tampouco seria bom que ele fizesse os juramentos para se tornar guardião da ilha, e nem apoiar seu irmão Jacob nesse intuito. O mal precisa ser denunciado e rejeitado, e não há mal maior, mais ancestral e primordial, do que o Pecado Original. A dificuldade é fazer isso e ainda assim amar os desgraçados que estão amarrados na mentira, a Mãe, Jacob, etc. MIB tinha razão na sua visão da verdade e da liberdade, mas errou no alvo, por não antever uma dimensão maior, um destino eterno, em suma, o Amor divino governando todas as coisas. Achou que devia salvar a si mesmo, e por isso errou. Mas, novamente, gosto de crer que ele poderia alcançar a paz da salvação mesmo assim, porque seu intuito original era a verdade. Em suma, a segunda lição é: rejeitar a Mistura.
Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 6 |
| Presença/Idolatria | 6 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 6 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 6 |
| Soberania/Gnosticismo | 6 |
| Vigilância/Ingenuidade | 3 |
| Discernimento/Psiquismo | 4 |
| Nota final | 5,3 |