Nosso autor, o bispo, teólogo e filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753), desenvolveu a doutrina de um Idealismo Subjetivista, resumida na sentença de que “ser é ser percebido” (esse est percipi), que convém analisarmos por sua proximidade com o meu próprio sistema.
Ele começa um tanto audacioso, afirmando que não existem idéias abstratas. Só temos idéias particulares de cuja intuição a respeito dos princípios somos capazes de abstrair sobre outras idéias particulares submetidas aos mesmos princípios. Ele dá o exemplo dos triângulos: ninguém nunca imaginou um triângulo sem características particulares, mas basta que os princípios que governam um triângulo se apliquem todos os demais, para que formemos essa noção abstrata, que no entanto não é uma idéia, porque esta requer a particularidade para ser concebida. Um tanto dessa discussão me parece ociosa, sendo franco. Entendo que Aristóteles já resolveu boa parte desses problemas: toda existência é individual, e todo conhecimento é universal, o que quer dizer que quanto mais abstraído for um elemento, menos realidade concreta ele contém (embora possa ter mais realidade formal, na pureza de sua essência, justamente por se distinguir de todas as demais). Se a definição de idéia se refere a um ente possível, como substância ou acidente, essa requer todas as particularidades, como uma essência não pode se manifestar sem todos os acidentes necessários. Entendo a intenção de Berkeley, principalmente quando ele fala da conveniência e do costume do uso dos nomes para representação das idéias. Aí ele acerta muito bem. Porque não há território mais falso do que o da linguagem humana, quando ela se pretende adequada à realidade, e não meramente sugestiva. A inspiração do nosso filósofo para essa crítica vem do movimento iniciado por Descartes e outros, isto é, o questionamento do edifício da filosofia escolástica medieval. Ou seja, talvez a abstração não fosse tão perigosa não fosse essa ambição dos escolásticos, e agora parece ser necessário operar alguma correção.
Desde o início a relatividade das percepções a um intelecto, alma, mente, espírito ou eu capaz de sensibilidade é determinado como premissa de todo o pensamento do filósofo:


Isto quer dizer que tudo o que é, é para alguém que o percebe como ser. Ou, ainda, ser é ser percebido. E pela simples razão de que o que não é percebido de algum modo não pode existir, pois não existe diante de nenhum observador, ou Intelecto (que é o meu termo preferido). Berkeley prefere sempre os termos “idéias”, para se referir aos objetos da percepção, ou imaginação, etc., e o termo “espírito” para se referir ao ser que tem as idéias.
Nosso filósofo sabe muito bem que sua teoria não é de fácil aceitação por parecer ferir o senso comum. Ele deixará claro que isso se dá por um defeito da opinião geral dos homens, e não da sua tese:

Ora, “colocar em dúvida”, ou ter como “claramente contraditório”, não são intuições imediatas derivadas da percepção da vida comum. São raciocínios abstrativos, filosóficos. Neste ponto, portanto, o autor força um tanto a barra, querendo fazer crer que para todos deveria restar óbvio o que propõe. Mas isso só é assim para quem se dedicar à reflexão que ele oferece, caso contrário ele aliás nem precisaria se dar ao trabalho de escrever o seu livro. Acontece que aqui identificamos um ponto cego deste pensador: ele não compreende a conveniência espiritual da ambiguidade da experiência da realidade para a realização da liberdade humana. A realidade é apresentada aos nossos sentidos de tal modo que sempre seremos livres para crer que tudo é produzido pela causa divina, ou por outras causas mais ou menos separadas, ou até totalmente independentes, de Deus. O Criador fez assim pra o maior bem das criaturas livres. Berkeley parece estar tão engajado no combate contra a grosseria materialista que ele desconsidera as razões espirituais dessas coisas serem assim. Se considerasse a bondade dessa configuração pelas razões que apontei, não acharia que é uma “opinião estranhamente predominante” essa a da existência de substâncias fora do espírito. Ao contrário, seria a coisa mais normal e previsível do mundo. A vida da Fé verdadeira, na Presença de Deus, ou ainda Vida de Oração, não é natural ao ser humano. A natureza é decaída e amaldiçoada em decorrência do Pecado Original. É necessária a ação da Graça santificante para recuperar os plenos poderes da Razão Natural que o primeiro Pecador rejeitou ao trair o Amor divino. Como teólogo, é estranho que Berkeley não note essas coisas ao produzir a sua filosofia, mas não conheço o seu pensamento a respeito desses outros fatores.
De todo modo, a vontade de explicar a realidade na sua simplicidade é notável e vai até mais longe que outros autores da época, ou mesmo posteriores. Berkeley diz: “Não há nenhuma outra substância a não ser o espírito, ou aquele que percebe.” Ele está mais próximo da mônada pura do que o próprio Leibniz, que ainda complicava com a visão de um mundo de compostos formados pelo agregado das Substâncias Simples. Também está numa condição melhor que a de Kant, porque não requer que haja nem por hipótese uma coisa-em-si para além da representação: para Berkeley o fenômeno já é o ser que existe para quem o percebe. Seu idealismo é o mais simples e puro que já vimos, entre os autores estudados até aqui. E por isso mesmo, é o mais radical.
Inevitavelmente o conceito de matéria teria que ser questionado, e com muita razão, desde o seu ponto de vista:

Para alguns isso pode parecer muito estranho, mas para mim é a coisa mais óbvia, desde o estudo dos filósofos mais antigos. Já Platão tratava a matéria como uma aparência ou imagem da verdade, sem substância ou ser próprio. E Aristóteles afirmará: a matéria em si é incognoscível. Desde então o que chamamos de material fora da função de causa de uma Percepção não significa nada, isto é, é uma pura abstração. A matéria-prima simpliciter equivale ao Nada diante do Uno, ou ao Zero diante do Um, enquanto a matéria secundum quid, assinalada pela quantidade, já é componente formal da substância. Por que, então, parece que Berkeley está nos dizendo algo fora do normal? Em primeiro lugar, há a ignorância e a confusão causadas pela influência do espírito de Idolatria, por decorrência do Pecado Original, como já expliquei antes. Em segundo lugar, há o problema particular da História da Filosofia, com a influência da idéia de res extensa de René Descartes. Quem diria, não é? O maior obscurantismo veio de certas posições racionalistas e iluministas modernas, e não da filosofia escolástica medieval. Ao analisar, por exemplo, a filosofia de Leibniz, percebemos que ele peca mais no que se acha devedor dos contemporâneos do que dos antigos.
Uma habilidade do autor em sua construção é a de mostrar como o que é complicado é o modo “natural” do pensamento humano que cogita o ser de coisas não percebidas, o que novamente indica como essa natureza é inclinada à falsidade. Além disso, em linha com os melhores frutos da filosofia de Ockham, no sentido de preservação da simplicidade e da economia, Berkeley questiona a necessidade de uma complexidade inútil:

Isto evoca o tema que já tivemos a oportunidade de abordar antes aqui, quando tratamos de uma dificuldade na filosofia de Leibniz: o problema de que se todos os seres existem para o Bem, e o Ser divino já é o seu próprio Bem suficiente por toda a Eternidade, só resta os seres necessários ao bem próprio das criaturas. Se há uma bondade, beleza, ou sabedoria imanente ao conjunto da Obra de Deus, esta decorre da exata proporção entre meios e fins na ação da Providência divina, sem exceder no mínimo esta conveniência do Amor do Criador. Berkeley tem razão, e seu questionamento valeria também para a contestação daquela tese gnóstica de doutores católicos que creêm num corpo ressuscitado com uma boca que não come, um nariz que não cheira, um ouvido que não ouve, mãos que não tocam, etc.
Antes que se afirme que a filosofia de Berkeley tende a algum tipo de monismo, o próprio autor esclarece que o sujeito condicionado, ou parcial, da Percepção não pode ser ele mesmo apenas uma idéia para um Intelecto superior:

Ele está falando da mônada, ou Substância Simples, cuja singularidade indeterminada é necessária para a experiência subjetiva das Percepções, embora ela própria não tenha qualquer forma diferenciada para além da sua singularidade. O Uno, inefável, é reconhecido assim de modo indireto. Berkeley não gosta muito, ou melhor, nada mesmo, das formas substanciais, enteléquias, etc., mas ao seu modo não pode negar a característica da unidade do espírito que percebe.
O nosso filósofo afirma que para além do que o nosso espírito determina, existem as idéias produzidas por um espírito superior, que é Deus. Assim, um critério típico de distinção do que chamamos de Realidade, que é o da independência em relação à nossa Apetição, não determina que exista algo fora do espírito, mas somente que isso ocorre em relação ao nosso espírito particular, tudo o mais se referindo ao Espírito Santo. Em decorrência disso, outra questão se coloca. Um dos pontos cruciais de qualquer sistema idealista é o dever de lidar com o problema da Causalidade em geral: se o fenômeno manifesta uma idéia de modo direto, as supostas relações de dependência dos fenômenos entre si são na verdade aparências apostadas à própria Percepção, ou fatores que são convenientes para o sujeito que percebe, mas nunca relações de necessidade. Diz o autor:


É preciso ao mesmo tempo preservar a Causalidade como fator contingente útil para a vida humana atual, e ao mesmo afastar essa idéia da Ontologia geral, como se o Espírito não pudesse produzir um efeito, que é somente uma idéia e nada mais, sem uma causa qualquer que não seja a própria Vontade. Lutei com estas questões logo na Introdução da minha Monadofilia, especificamente as idéias de causalidade, irreversibilidade e escassez, porque notei que essas são as noções mais típicas que se repetem como manifestação da influência do espírito de Idolatria. Berkeley neste ponto é infalível. A Causalidade não reflete uma Lei imutável, antes disso é apenas um ordenamento das Percepções que opera como beneplácito aos caídos, ou seja, é somente uma concessão da Graça divina.
Atacando aberta e diretamente o espírito de Idolatria, nosso autor deixa claro que não abole nenhuma das categorias fundamentais do Ser, exceto a abstração chamada Matéria:


Seja a substância, a entidade, a existência ou a realidade, tudo isso é preservado no Idealismo de Berkeley. O problema é a afirmação do ser de qualquer uma dessas categorias fora do espírito. Neste sentido, esta filosofia esclarece de certo modo que a influência do espírito de Idolatria gera certas abstrações particulares, entre as quais uma das mais cruciais para o erro das filosofias, senão a pior mesma, é a noção de Matéria. Como em si a matéria é de fato e inescapavelmente incognoscível, é meio difícil negar a afirmação do autor. O máximo que se pode fazer é apelar para alguma regra de Analogia, como a Escolástica, de Correspondência, como faz Leibniz, ou para a Coisa-em-Si, como faz Kant. Mas, perguntemo-nos, com Berkeley: para quê mesmo é necessário fazer isso? Pensando no ordenamento da realidade como um sistema processual com finalidades bem determinadas, quem ganha com a criação de uma substância que não é percebida por nenhum espírito, se esta não pode ser conhecida de modo algum?
É claro que nosso autor não revisita a filosofia aristotélica com o cuidado que muitos achariam imprescindível, pois como se pode agora justificar Forma, Matéria e o Sínolo (i.e. o Composto)? Parece ser mais fácil seguir uma linha independente. Mas isto não seria impossível. O caminho é a total conexão de Aristóteles com Platão: a matéria aristotélica serve tão somente para individuar o contingente, já que a forma se refere ao ideal que não pode ser conhecida sem esse seu modo de ser concreto. Porém, conforme os acidentes podem ser todos indefinidamente compreendidos como idéias ou formas, a própria matéria se torna cada vez mais abstrata por si mesma, até chegarmos no puro Nada incognoscível, como Aristóteles mesmo reconhecia. De certo modo, não fosse um certo exagero platônico na negação da realidade do conhecimento contingente (um hábito gnóstico, por sinal), não seria preciso ancorar as idéias na experiência sensível através do conceito da matéria. E pensando mais profundamente, tudo deriva de um certo vício abstracionista a partir da capacidade nominalista do ser humano. O nome simplifica porque recorta do real, mas imediatamente se divorcia por isso mesmo da realidade concreta. A tentação de prosseguir nos caminhos da abstração é tremenda, e Berkeley se refere a isto várias vezes, reafirmando a necessidade de se voltar ao mundo dos fatos não processados pelo moedor filosófico que cria essas salsichas abstratas. Em suma, sem a noção de Idéias fora da Percepção, não é necessário refundar a experiência cognitiva através da Matéria. Quando mais tarde Zubiri afirmar que a sensação é inteligente, parece que ele também está querendo sair desse rolo do Problema dos Universais por um caminho mais simples. Será essa questão, então, apenas uma gigantesca ficção grega? Não nos cabe investigar isso aqui e agora. Mas me parece que a Humildade favorece os caminhos desses ousados como Berkeley, Zubiri, etc. E que por outro lado os construtores de sistemas complexos são mais ou menos todos viciados e presos em alguma forma de Gnosticismo. Como já vimos, nem Plotino escapou disso. O Idealismo mais perfeito, portanto, requereria uma total imunidade contra a Gnose, porque significaria a total confiança no Espírito Santo. Essa seria sempre a melhor Filosofia Cristã.
Convém lembrar que esta filosofia não só não é contraditória com a Revelação cristã, como é extremamente compatível, pois derruba a Idolatria sem negar a Criação divina, ou seja, sem entrar numa armadilha gnóstica. O Evangelho está cheio de testemunhos que validam o pensamento de Berkeley: o Reino de Deus está dentro de nós… ou então o significado da Santa Ceia, que é comer e beber o Corpo de Deus, de modo que o material é uma manifestação da Graça… ou ainda, como o Apóstolo afirma, que em Deus nos movemos, somos e existimos, etc. Por outro lado, a noção de que existe um terceiro elemento entre a alma e Deus é a interferência de um componente diádico gnóstico que permitirá a Idolatria e a Pseudoeuergesia, pois se presumirá que o produto da Graça pode ser capturado por ser justamente um tipo de substrato material passível de ser dominado pela Gnose. Mas o Nada ou o Zero não existe, por isso a Bíblia chamam os ídolos de “Vazio”.
Num ponto muito forte de sua doutrina, o nosso autor mostra que sua postura é a de maior respeito pelas sensações obtidas pelos sentidos, e pela realidade percebida, o contrário não podendo ser afirmado em favor daqueles que postulam que algo deva existir para além do que se percebe:

Ou seja, quem é cético realmente é aquele que não confia somente no que é experimentado através de suas sensações, mas que postula que haja alguma substância que não seja percebida por algum espírito. Traduzindo os termos de Berkeley, o que ele chama de ceticismo pode ser chamado também de Idolatria ou de Gnosticismo, dependendo da ênfase: Idolatria quando se afirma algum Ser alheio ao Espírito, e Gnosticismo quando se afirma que há algo para além da Percepção.
Em certo ponto nosso filósofo volta a justificar o motivo pelo qual o Senso Comum parece ter se distanciado tanto da realidade que ele descreve:


Embora Berkeley descreva de modo quase impecável os processos que causaram os enganos do Sendo Comum, e inclusive das doutrinas filosóficas, ele novamente deixa de notar os motivos mais fundamentais para o erro humano, quais sejam: 1) que Deus desejou que a Liberdade do homem sempre encontrasse as razões para duvidar da sua Presença; 2) e que, por isso mesmo, a influência do espírito de Idolatria deveria ter sua chance de prosperar de acordo com o arbítrio das criaturas livres. Se reconhecesse isso, talvez o autor não precisasse se irritar tanto, ou estranhar a rejeição à sua filosofia. E entenderia talvez que antes da Filosofia Cristã, por melhor que seja, vem o Evangelho. Por isso eu mesmo já enfatizei a necessidade de alguma phronesis anterior à teoria monadofílica: as liberdades iniciais, e o próprio conhecimento direto do Novo Testamento. A Fé como dom sobernatural é tão necessária para a aferição do Idealismo de Berkeley quanto para a do Argumento Ontológico de Anselmo da Cantuária.
Nosso filósofo tentará responder antecipadamente as perguntas mais previsíveis a respeito de seu sistema. Na décima primeira questão ele se enrola um pouco, ou melhor, mistura algumas boas razões com outras piores. O tema é o da explicação da causalidade natural: por que haveria esse tanto de complexidade nas relações causais se os mesmos efeitos poderiam ser produzidos diretamente pelas causas mais simples e diretas? O autor explica que as leis e regras ajudam a organizar as percepções e a tornar a ação humana mais ordenada ela própria. Ele tem razão, mas na causa final desse ordenamento não coloca o que entendo ser o principal, que é o bem da liberdade humana, principalmente o da vida na Presença, ou vida da Graça. Só pode escolher viver pela Graça, na Presença, quem possa escolher o contrário, e por algumas razões suficientes. Estas razões mais que justificam o nível de complexidade causal encontrado nas leis naturais. É por uma conveniência espiritual, como tudo o mais.
Para que fique muito claro: a Árvore da Vida só pode ser escolhida livremente com a alternativa da Árvore da Gnose. É por esta razão que no mito Deus instala as duas árvores no Éden. Como pode a criatura conhecer a sua própria liberdade de escolher a Graça, se ela não tiver alternativa? O Bem escolhido por falta de alternativa não é escolhido, portanto ele não é próprio para a vida do agente moral livre: este não pode realizar a sua decisão de confiar em Deus se não tiver a chance de escolher o contrário. Assim, pela Eleuteriodiceia, a complexidade causal das leis naturais servem para que o ser humano seja livre.
Sobre a equivalência conceitual da Matéria com o Nada ou o Zero, segue uma passagem relevante:

Se existe alguma utilidade para esse elemento totalmente negativo, é o da afirmação da necessidade da positividade divina, como o côncavo que recebe o convexo, ou como chamamos na vida espiritual a pobreza de espírito. Na minha visão, a mônada criada por si é como o pó, ou o Nada, ou o Zero, que requer a iluminação que lhe atualiza as potências intelectuais. A Criação não seria assim um produto da cópula entre o Uno e a Díade, mas do reflexo do Uno per se na mônada criada que tem toda potência, mas nenhuma atualidade. Essa substância que possui toda potência equivale de certo modo ao conceito de matéria, mas somente pelo aspecto negativo, como enfatiza Berkeley. Quando há Percepção, ou seja, a mínima atividade intelectual, já não há Nada, de maneira que a matéria mesmo nessa figura de passividade é inconveniente, pois o que reage ao influxo divino é uma alma ou espírito, sempre.
Me espanta que Berkeley não tenha associado a experiência do ceticismo que ele denuncia por excessos abstracionistas ao Gnosticismo desde Lúcifer e Adão. Vejam como ele está próximo da verdade:


Essa é uma defesa infalível da veracidade da experiência humana. O erro gnóstico projeta para fora de si a confusão que é produzida apenas por uma malícia interior. Mas se o nosso autor não aponta essa conexão, é porque está produzindo uma filosofia alheia a esses juízos espirituais, pelo menos até certo ponto. O que importa aqui é compreender que se alguém interpõe entre aquele que percebe e aquilo que é percebido algum outro elemento externo que pode ou não validar a experiência do conhecimento, cria-se assim um problema insolúvel. Estaria Platão errado, então, ao querer “sair da caverna” das aparências? Não, porque ele buscava o Espírito, assim creio, que fundamentava todas as experiências. Lembremos, com alguma generosidade, que o mundo de Platão, Aristóteles, e mesmo de Plotino, era um mundo em que não se tinha notícia da Queda e de suas consequências. O Gnosticismo sempre lucrou com a confusão gerada pela ignorância da Revelação e do seu significado pleno: muitos quiseram negar a integridade de uma experiência sem discernir que o que há de rejeitável não é o Limite, mas a Mistura. Por melhor que esses filósofos antigos fossem, seria difícil que produzissem uma doutrina totalmente compatível com a Revelação do Pecado Original e da Queda. Mas os filósofos cristãos não têm desculpa para além da sua ignorância ou má vontade. A Caverna de que Platão queria sair, enfim, não era o mundo criado por um Demiurgo mal, era a condição do decaimento e de Mistura de Luz e Trevas. Ele apenas não sabia disso. E muitas filosofias poderiam ser bem melhores, se não fosse essa confusão entre a realidade criada por Deus e o mundo decaído. Lembrando: sem a Queda continua existindo Cruz e a experiência da Mistura, porque a Liberdade é necessária, mas o Pecado Original instalou uma condição muito pior, por arbitragem de um excesso de Mistura. O que, aliás, continua sendo feito. Voltando ao ponto de Berkeley, porém, a Queda não falsificou a experiência humana, nem a nossa capacidade de conhecer a verdade. Criou-se, porém, um estado em que sem a Graça santificante nós permanecemos alheios ao sentido espiritual das coisas, pois somos criados em Cativeiro, e fomos vendidos aos demônios pelos nossos ancestrais. O que é necessário, portanto, não é a correção da cognição humana, mas a luta contra a mentira e a perversidade, e contra todos os espíritos malignos que negam a Glória de Deus.
Para não se dizer que o autor não deu nenhuma notícia do significado espiritual dos erros filosóficos que condenou, encontramos um trecho significativo a esse respeito:


Sim, impiedade, profanidade e idolatria, é disso que se trata. E Berkeley fica tão animado com seu Idealismo como eu fico com a idéia da mônada: basta que só exista a nossa experiência de Deus através da nossa Percepção para que toda a Idolatria seja destruída. Mas tantos bons pensantes religiosos são atraídos pela matéria como que por um fetiche. Basta verificar o que os romanos fizeram com o sentido da Santa Ceia, entre tantos outros rituais que confirmam os erros filosóficos em formas religiosas. Mas ora, o mesmo pode ser dito justamente do Pecado Original, pois é fácil identificar a raiz de todos os males, mas difícil é querer viver com essa liberdade. Uma certa sombra paira sobre a humanidade: é o peso inclemente da Tradição Primordial e do Costume, o Culto do Ouroboros nas suas formas típicas, e a própria força da Religião de hoje que é a representante desse legado.
Falando de Religião, esse é um ponto cego do autor, quando reiteradamente parece não compreender porque o ser humano se nega a reconhecer as coisas mais óbvias do mundo:

Daí eu pergunto, essa cegueira não foi incentivada por força dos erros da Religião? Ou por acaso a doutrina do Idealismo de Berkeley é compatível com os ensinamentos religiosos? Mas isso fica pior, porque o nosso autor tem alguma inclinação para algum tipo de humanismo, um idealismo imanentista do futuro, um entusiasmo qualquer incompatível com o espírito das Profecias. Não só não denuncia o Pecado Original, como não o reconhece no seu significado espiritual. E quer que a sua filosofia sirva para o progresso do ser humano, dando a entender que servirá para algum tipo de ênfase do tipo do Utilitarismo. Isso resulta da falta de consideração do valor espiritual das coisas, inclusive no contexto da sua investigação, pois não é a Razão Natural que fará o ser humano viver na Presença de Deus, é a Fé. Quando a Fé foi transformada num símbolo de participação religiosa, seu sentido de Metanoia se perdeu, e neste caso nenhuma filosofia vai prestar para nada, nem a de Berkeley, nem a minha.
Para demonstrar que o nosso filósofo não está imune ele mesmo da impregnação, por efeito colateral na cultura do testemunho do espírito do Gnosticismo, verifique-se esta passagem, por exemplo:

Não é difícil que um filósofo como Berkeley tenda para o lado Direito da Dialética do Ouroboros, isto é, para a Legitimação da Mistura. Ele está tão centrado na justificação da experiência humana contra os seus negadores, que deixa a guarda aberta contra todo tipo de ceticismo, mesmo que lhe conviesse, como seria o caso na recepção do dom de Vigilância.
Fazem parte deste volume, além do Tratado sobre os princípios do conhecimento humano, a coleção de Três diálogos entre Hylas e Philonous, o texto Sobre o movimento, o Correspondência com Johnson, e Comentários filosóficos.
Na troca de cartas com Samuel Johnson, encontramos uma passagem relevante. Um lembrete de que algo que nos conforta sempre com uma boa filosofia é o seu alcance, a capacidade de antever e explicar muitos problemas específicos antes que os especialistas se resolvam nos seus temas particulares, já que o geral abrange e domina o particular. Eis o exemplo:

Aqui Berkeley basicamente demonstra porque o tal “graviton”, para não falar da Teoria de Tudo, jamais será descoberto: se a gravidade fosse inerente ao contínuo extenso pela observação da gravitação descrita pela Relatividade Geral operando sobre as partículas subatômicas, concluir-se-ia um absurdo, isto é, que o equivalente ao nada (o infinitamente divisível) produz algum efeito de grandeza mensurável. Se a gravidade fosse uma propriedade intrínseca do contínuo extensivo — tal como pressuposto pelas tentativas de quantização da Relatividade Geral — então ela dependeria causalmente de uma realidade infinitamente divisível e, portanto, indeterminada. Segue-se o absurdo metafísico de que o equivalente ontológico do nada produziria efeitos mensuráveis. Logo, a gravidade não pode ser uma propriedade inerente da extensão, mas apenas uma regularidade fenomenal na ordem das ideias percebidas. Mas é claro que isso também se aplicaria aos fenômenos das outras forças, porque a maneira de Berkeley entender a Causalidade é como manifestação de sinais para o entendimento de uma natureza em favor dos seus observadores, ou seja, é uma contingência e não uma necessidade, e pelas mesmas razões que inviabilizam a quantificação da gravidade.
Em geral as idéias do filósofo são interessantes e podem ser frutuosas espiritualmente, com ressalvas, como ocorre de costume com as obras de filósofos famosos, para o problema de um certo testemunho da Ingenuidade. Forte no quesito da noção da vida na Presença, Berkeley poderia ter ido muito mais longe do que foi, se não submetesse todo o seu trabalho ao bem estar da civilização e da humanidade, como se desconhecesse as profecias e os alertas evangélicos quanto ao espírito do mundo, um problema que compartilha com outros pensadores da sua época. É uma característica do movimento contra o “obscurantismo” medieval a crença no progresso humano, num sentido que é espiritualmente perigoso. É uma pena que um filósofo tão promissor por várias razões tenha sido confinado a uma agenda tão pequena e afastada da verdadeira Glória.
Nota espiritual: 6,1 (Calaquendi)
| Humildade/Presunção | 5 |
| Presença/Idolatria | 9 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 6 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 8 |
| Vigilância/Ingenuidade | 4 |
| Discernimento/Psiquismo | 6 |
| Nota final | 6,1 |