Investigações sobre o entendimento humano e os princípios da moral, livro por David HUME

O autor, cético e empirista, abrirá sua especulação anunciando que está em guerra contra a “filosofia abstrusa”. David Hume (1711-1776) quer que a filosofia possa ser tão profunda quanto clara, e tão criativa quanto exata. Sua premissa é a de que existe um bem comum qualquer que por ser óbvio deve servir de base para a aferição do valor das filosofias. Imediatamente ocupa, assim, uma posição de Bispo no Sistema da Besta, como um franco Legitimador da Mistura. Podem questionar se antes Descartes, Leibniz, ou Berkeley não teriam também ocupado uma posição semelhante. Digo que não tanto, porque se nos outros o bem-estar social seria importante, em todo caso não seria jamais uma fonte de princípios para o juízo da verdade. Como pode querer investigar a verdade quem se presume portador dela, ou ao menos de seus símbolos conclusivos, ao ponto de se usar esse Senso Comum para julgar as ideias filosóficas? Ninguém esteve tão longe de Sócrates até agora do que este Hume. E o problema não é ser cético ou não. A questão é saber no que se pode encontrar firmeza suficiente para se assumir a própria ignorância. E é preciso sim se aceitar a hipótese de que a maior parte da humanidade esteja desorientada e mal arrumada, pois não é legítimo se confundir a competência da Providência divina com o acerto do Costume. Se a humanidade consegue se sair bem, isto é apesar de suas práticas, e não por causa delas. Se Hume tem o que dizer contra a Tradição religiosa, eu só tenho elogios e minhas próprias queixas. Mas é preciso reconhecer por trás dessas práticas particulares aquela Religião do Homem, e se Hume quer abandonar os preconceitos das seitas da sua época apenas para abraçar os mais ancestrais preconceitos da Religião de Adão, não entendo no que ele encontra vantagem.

Hume defenderá um ceticismo que pode parecer exagerado, mas que não deveria assustar os cristãos que realmente vivem pela Graça. Pode não dar testemunho da Presença, ou do Discernimento, mas não faz ao seu modo um elogio da Humildade, da Soberania e até da Vigilância?

Sua observação sobre o hábito da inferência da Causalidade como se fosse uma lei necessária é precisa:

Eis que o hábito, que é o conduíte psicológico tanto do Costume quanto da Tradição (e como o filósofo tratará disso colocará em cheque o grau de Vigilância ou de Ingenuidade de sua filosofia), é capaz de mascarar tanto a nossa ignorância quanto o seu próprio efeito psíquico. Por que isto é assim? Porque a evidência pela luz natural da vida na Presença foi rejeitada pelos nossos pais através do Pecado Original. Agora o que foi perdido por força da traição deve ser recuperado pela reconciliação que permitirá como efeito da Graça santificante a recepção do dom da Presença.

Mas o radicalismo do autor aparece quando ele afirma claramente o seguinte:

Já vimos com Berkeley que as conexões entre as ideias sucessivas são sinais convenientes por um ordenamento que nos faz bem, e não uma operação por qualquer motivo necessário. Neste sentido, o que Hume afirma não é exatamente uma novidade. Seu foco, porém, é outro. Berkeley, atacando a ontologia, desejava mostrar como é impossível afirmar a substância externa ao espírito, ou seja, a res extensa cartesiana, a matéria-prima simpliciter dos escolásticos, ou a hyle aristotélica. Hume, atacando a epistemologia, quer desfazer o mito de que conhecemos as causas das coisas, quando de fato apenas produzimos essa impressão por mero hábito.

Em seguida observamos como o testemunho de Humildade da Crítica kantiana foi fundada no trabalho de Hume:

Essa é a descrição desmoralizante, porém fidedigna, da realidade do homem decaído a amaldiçoado, abandonado aos seus próprios recursos, por assim dizer. Ainda essa expressão está errada, pois sem o mínimo auxílio da Graça, mesmo quando ela é rejeitada, nenhuma sanidade poderia ser mantida pelo gênero humano, e tampouco nenhuma ordem continuaria operando sobre a natureza. 

De modo cuidadoso e metódico, nosso autor apresentará a razão de sua tese:

Então temos o percurso que vai da Causalidade para a Experiência, e desta para o Hábito. Este, porém, não é um conhecimento como o dos juízos de razão (Leibniz) ou juízos analíticos (Kant), é na melhor das hipóteses uma convenção conveniente, e na pior, uma manifestação de Presunção e de Gnosticismo. Lembrem-se de que estou explicando as coisas já nos meus termos. Eu sempre uso tudo para a finalidade de ilustrar a Monadofilia. Quem quiser aprender as ideias de Hume em seus próprios termos pode ler o filósofo, ou aprender de uma enciclopédia, etc. Quem está comigo quer a minha impressão filosófica dos filósofos.

Quando ele diz que há um mérito na ignorância, ele se refere ao valor da Humildade, mas está meio sem jeito para admitir isso como uma evidência filosoficamente válida, afinal sua faca cética deve cortar na própria carne. No fim o que importará mais será o quanto ele será capaz de reconhecer o limite da conveniência do Hábito.

Poderão alegar que Hume era limitado pelas investigações da filosofia natural de sua época, e que isso lhe impedia de conceber os avanços possíveis que só seriam alcançados no futuro. Considerem, por exemplo, esta passagem:

Quem entender que já se resolveram as últimas questões necessárias para se afirmar definitivamente os elos causais como demonstrados analiticamente não entendeu o que o filósofo disse. Pois a questão é que sempre restará algo a se explicar e, na verdade, do ponto de vista estritamente científico, o inexplicável é sempre maior, ou mais extenso que o demonstrado, por definição, pois toda afirmação que não seja de princípio (do tipo lógico ou metafísico) deve ser falseável. Isto é, o que permite à ciência evoluir é um princípio que se baseia no que Hume afirma justamente, que qualquer causa contingente poderia ter uma outra explicação possível, indefinidamente, caso contrário se possuiria o domínio analítico de entes não puramente racionais, o que é impossível. Seria essa ciência miraculosa o termo médio sobre o qual o filósofo pondera, que jamais existiu, nem existirá. O que a Gnose oferece, portanto, não é um conhecimento verdadeiro, mas algo como um simulacro capaz de tornar manipuláveis as forças e grandezas relevantes para a vida humana, como fazem tanto a magia quanto a tecnologia, que são igualmente instrumentos de poder sobre a realidade. E é isto que o ser humano quer, e não o entendimento, como se finge.

Para conhecer bem a doutrina de um filósofo, é necessário que nos habituemos ao seu vocabulário técnico, que muitas vezes usa de termos comuns da linguagem, mas significando ideias bem particulares na mente do pensador. Hume fala de “inferências” quando se refere às noções derivadas do pensamento indutivo. Para ele é importante distinguir entre este tipo de pensamento, e o estritamente racional, que é dedutivo e demonstrativo. Esta é uma de suas colocações elementares desde o início. O filósofo também se refere a “poderes secretos” ao se referir às últimas causas eficientes dos fenômenos. Isso pode incomodar as pessoas engajadas na ideologia cientificista, por uma confusão relativa ao que já expliquei antes. O ceticismo saudável não só não é anti-científico, como é a base de uma boa ciência. Quando uma causa é descoberta no curso de uma investigação, isso lança luz sobre o entendimento dos fatos, mas não com o mesmo nível de certeza que temos através das evidências sobre entes de razão pura. Este é o problema de Hume. 

Conforme delineia suas ideias, o autor se mostra ingênuo e meio gnóstico, incapaz de situar o valor e o alcance da sua liberdade de crença. Afirma que qualquer filosofia que persiga alvos para além da vida ordinária se deixa levar por “paixões desordenadas”. Assume, assim tão facilmente, sua posição de inimigo da metafísica e, principalmente, Legitimador da Mistura. O que ele acha que é razoável pelo hábito ou costume é assim para sua mente, conforme os seus interesses de crença. Como não consegue perceber isso? Se quer filosofar, deveria desejar conhecer as causas, inclusive do seu desejo de confiar em hábitos e costumes, e é fácil duvidar que este tipo de ideia resistiria a todos os ataques possíveis. O bonum terminativo do homem deve ultrapassar a sua vida ordinária, senão na vida exterior (o que é vaidade), certamente no interior. O filósofo estava indo bem, talvez só lhe faltasse querer ser cético até o fim, o que lhe levaria a um caminho melhor.

É claro que o nosso filósofo trabalhará para explicar-se, o que nos dará a oportunidade de avaliar suas ideias de modo mais detalhado. Hume elabora a noção de uma concepção vivaz, ou vívida, que parte da experiência e auxilia essa disposição de crer para além de apenas imaginar. Ele tem razão até certo ponto. Como crer, isto é, assumir como real ou verdadeiro, algo que não seja antes possível? Mas nada me recorda mais do possível do que o percebido imediatamente. Então é apenas natural que o crível me seja mais sugerido pela experiência atual do que por mera imaginação de objetos mais distantes. Essa, no entanto, é uma observação mais psicológica do que filosófica. Ao tratar das superstições católicas, por exemplo, fica bem explicada a necessidade da presença de símbolos materiais no lugar de ideias mais abstratas ou longínquas, mas isto não poderia ser um sinal de falta da fé verdadeira, ou ao menos de uma debilidade? Quer dizer, psiquicamente o ser humano costuma crer com mais facilidade naquilo que estimula sua imaginação por hábito. Mas quem disse que essa disposição é ótima ou sequer conveniente? Para os atos da sobrevivência e vida em sociedade, é claro que tudo isso ajuda. Mas para as grandes questões da vida, o hábito não adianta nada, exceto talvez por servir como um sistema mais ou menos útil para se ganhar tempo. O ponto cego de Hume é a causa final do ser humano e, portanto, toda a metafísica, como já disse. Sua filosofia talvez seja boa para limitar crendices fideístas, mas ainda assim, a que custo? De esfriar o coração até a morte? Cui bono?

Ao comparar a clareza das ideias e dos termos empregados das ciências naturais com as morais, o autor acerta em cheio:

No curso das minhas próprias investigações já observei essa realidade várias vezes. Poucas coisas emburrecem tanto quanto a discussão simplista de listas de regras morais, porque os termos quase nunca são unívocos. O discernimento das coisas, por outro lado, envolve uma apreciação mais longa e profunda de cada problema, e a maioria das pessoas não quer se dedicar a isso (como em geral também não querem se dedicar à matemática, ou a geometria). Mas essa maioria de ignorantes resolutos não pode abrir mão de produzir algum juízo, e é isto o que dá vazão ao poder das ideologias, das religiões, etc., para não falar de costume e tradição. É muito mais confortável viver numa realidade sem perguntas. Isso sempre foi verdade. Mas é o próprio sofrimento, os limites e as crises que eventualmente tirarão o sujeito do seu conforto. Alguns são afortunados com perplexidade desde cedo, como creio que foi o meu caso. O que poderiam chamar de empecilho ou perturbação, para mim foi oportunidade.

O autor detalhará os motivos pelos quais o conhecimento da Causalidade é ilusório. A base de seu argumento é o uso até o limite ínfimo do princípio da falácia post hoc ergo propter hoc (depois de, então por causa de), ou seja, que conhecemos, e apenas por experiência, a sucessividade das impressões, e não realmente os elos completos de uma cadeia de causa e efeito.

Ao se referir à nossa capacidade de agir sobre nossos pensamentos e de mover nossos corpos, Hume afirma que há conexão entre vontade e ação também aprendida apenas por experiência através de nossas impressões, mas não há posse de conhecimento contíguo a esse processo, no que aliás ele tem toda a razão.

Quando o autor afirma que, se a nossa ignorância deve servir para evitarmos juízos abusivos, tanto mais isso deve se aplicar à ideia de que Deus é o causador de todas as realidades de modo contínuo, ele tem razão da parte do conhecimento, mas parece que ignora que a crença sustentada pela Fé é capaz de subsidiar certas ideias, como a de uma Providência total. E, sem nenhuma surpresa, parece que suas dificuldades nesse setor derivam do problema da conexão entre espírito e corpo, res cogitans e res extensa, ao modo cartesiano. Mas ignorar ou desprezar as filosofias de Leibniz ou Berkeley, que resolvem esse problema, é uma escolha dele. Novamente verificamos que o Ceticismo em si nunca é um problema. O problema surge quando ele é aplicado seletivamente, o que é injusto. Afinal, tanto quanto as razões das causas últimas nos são desconhecidas, igualmente a substancialidade da matéria ou do corpo é uma ficção. Mas a hora de Hume vai chegar. Kant vingará o Idealismo.

Ao tratar do problema do conflito entre necessidade e livre-arbítrio, Hume evita termos que facilitariam o trabalho, seja inclinação ou qualificação da indiferença, como Leibniz fez. É evidente que a Liberdade só existe para a escolha do bem. Não é preciso pretender destruir a Liberdade, mas tampouco defender a Necessidade, que o próprio Hume estabelece como baseada no hábito e não no conhecimento. Se ele buscasse conceitos mais inevitáveis, ele chegaria naquelas evidências da Metafísica a respeito do Ser e do Bem, mas o filósofo prefere pretender que essa ciência é “controversa”. Azar o dele.

Na passagem que veremos em seguida temos um exemplo claro de como a integridade da Escolástica pode fazer falta para uma mente moderna:

Com relação à primeira parte, Hume nem sequer se lembra da razão número um que os cristãos têm para considerar a vantagem da sua existência sob a Providência, desconsiderando o mero prazer de confiar em Deus, e sem trair essas impressões mais imediatas que ele afirma que são tão importantes: a vida após a Ressurreição, como o Apóstolo afirma em Romanos Capítulo 8. É injusto discutir supostas contradições e dissonâncias de um sistema de crenças sem se considerar o conjunto das mesmas, embora seria justo, sempre, reavaliar a credibilidade de cada coisa separadamente. Se tivesse interesse em entender a experiência cristã, Hume teria que reconhecer que a Ressurreição muda todo esse jogo.

Já com relação à outra parte, se o filósofo se recusa a considerar uma Teodiceia (nem falemos de Eleuteriodiceia), ele não pode então escapar de uma Antropodiceia. Afinal de contas, essa “vida ordinária” que ele tanto defende não é um fait accompli com o qual lidamos inescapavelmente. Sendo um animal racional, o homem sempre que quiser pode considerar a conveniência do ato reprodutor. E nessa sua capacidade reside a imputação de sua responsabilidade. Aqui encontramos uma safadeza quase confessa do autor, escondendo-se atrás do seu Agnosticismo por suposta modéstia, mas isso é apenas ridículo e não muda a responsabilidade objetiva da coisa. Quem chancela a vida ordinária deve responder por ela até o fim. Será que ele consegue? Se descartou o império do governo divino, não tem escapatória, isso se tornou sua obrigação. Ou ele será antinatalista?

Ao avançar sobre o tema das superstições religiosas, Hume ataca a crença católica na transubstanciação, ou a “presença real”. Dá suas razões que podemos ignorar enquanto debate que é relevante apenas para os membros desse segmento da sociedade. Mas quando elabora uma doutrina mais ampla sobre o milagre em geral, torna-se inevitável uma análise mais detida:

Começando pela definição do milagre como uma violação das leis da natureza, isso já traz problemas óbvios. Se é apenas o hábito que nos infere uma conexão causal entre fenômenos distintos na percepção, o que chamamos de “leis da natureza” é na verdade uma convenção. O que quer dizer que Deus não violaria, neste sentido, uma lei que não existe realmente. O milagre apenas ultrapassaria a norma habitual. Por outro lado, se existisse uma lei firme determinada pela divindade, há que se considerar que o Legislador é superior à Lei que determina, sendo capaz de produzir, desde sua mesma autoridade, as exceções que forem conformes ao seu espírito de Justiça.

A seção 10 das Investigações de Hume, dedicadas a esse tema do milagre, parecem ter sido produzidas de modo menos natural que as seções anteriores. Como se a conclusão já estivesse pronta de antemão, e só faltasse encaixar as peças. Esse método sempre deixa sinais da sua artificialidade, resíduos do efeito da falácia de petição de princípio. Ora, chamar de “prova” uma experiência uniforme é um argumento de elasticidade excessiva. Senão vejamos: a única maneira mais infalível de transformar a experiência uniforme em prova do que é normativo é a suposição de um ordenamento superior que o determinasse de modo autoritativo. Caso contrário, teríamos apenas as convenções dos homens. O que quer dizer que se a experiência uniforme aprendida por hábito significa algo mais que uma mera convenção humana, é porque é sinal de um poder superior, como o de uma Providência que instalou essa realidade com vistas a determinados bens. E essa instância transcendente às leis naturais seria justamente capacitada para causar quaisquer rompimentos com a regularidade das coisas, por possuir o domínio da causa final que orientou o seu ordenamento original em primeiro lugar. Prova, então, seria suficiente apenas com a crença de uma origem infalível das leis naturais, uma fonte que teria que transcender essa instância, isto é, uma autoridade divina. De novo encontramos o autor apelando para safadezas?

O restante do argumento da mesma Seção é bastante interessante e frutuoso. O autor novamente faz observações mais competentes do ponto de vista psicológico do que propriamente filosófico. Com razão fala da habitual prática humana da mentira, do lucro daqueles que relatam fatos miraculosos, e faz uma série de notas valiosas. Seu postulado final sobre a fé cristã, porém, é estranho. Afirma que o valor dessa crença está no fato de que só poderia ser provada por milagres incontestes, pela sua observação direta, dos quais o relato exige porém a confiabilidade de testemunhas que, por outro lado, temos todas as razões para desacreditar como ele mesmo já afirmou. Então a natureza dá por si um testemunho contra o milagroso, e os testemunhos humanos não resolvem a questão, porque o ser humano costuma mentir pelas várias razões que conhecemos. Terminamos com um gosto de fideísmo, ou seja, de se crer justamente porque é algo absurdo, e somente uma verdade poderia resistir tanto tempo sendo absurda em si pelos critérios da razão natural. Ou, mesmo que Hume não chegue a este ponto, no mínimo observa-se que a crença cristã é irracional em si, que não pode ser defendida racionalmente.

Acontece que isso cria problemas e perigos.

Entre os problemas, destaco a arrogância da Pretensão humana de determinar o que é ou não racional de acordo com as capacidades do seu Intelecto limitado. Ora, se a Fé verdadeira revela que Deus nos supera infinitamente, igualmente nos supera o Intelecto divino com suas razões. Como posso usar justamente argumentos limitados pelo escopo da compreensão humana para designar o que é ou não racional per se? Que as coisas de Deus são absurdas aos homens, isso Ele próprio nos diz, e várias vezes. Mas isso não quer dizer que a crença é irracional, porque a Graça santificante suporta e ilumina o Intelecto humano, de modo ilimitado, algo que também a Escritura dá o testemunho. Se há uma transformação no crente, uma metanóia, o cristão não pode mais estar preso aos liames da Razão Natural. Isso foi alertado pelo próprio Apóstolo Paulo quando esse se dirigiu aos gregos: não sejam confundidos pelas filosofias dos homens, que julgam as coisas de acordo com os elementos do mundo, e não de acordo com Deus. Hume é exatamente esse tipo de humanista, como vemos já análise da premissa da Seção 10, para não dizer mesmo contraditório.

E entre os perigos, basta-nos citar o de que se milagres e prodígios fossem necessários para a Fé, o testemunho bíblico neotestamentário viria abaixo, e pior ainda, estariam justificados aqueles que colocarem sua crença no Anticristo, que virá justamente com todo tipo de poder para enganar os homens. Para entendermos o perigo do raciocínio de Hume: se é necessário crença irracional para ser cristão, tomando como verdadeiros os milagres cujo testemunho direto seria necessário para tornar racional a crença através de “provas” aceitáveis para Hume, a presença desses fatos legitimaria a autoridade que os produzisse, exatamente como está profetizado a respeito do Falso Profeta e do Anticristo.

Ou seja, o que vale na crença cristã é o contrário do que o Sr. Hume propõe: é uma Fé na autoridade divina independente da manifestação de poderes divinos, pela qualidade da bondade da verdade de Deus, que é sagrada e sempre suficiente para quem a ama. Senão Jesus não seria rejeitado como foi, e não teria sido tão importunado pelos religiosos da época da sua Encarnação, mesmo depois de tantos milagres. Porque esses religiosos exigiam justamente esse tipo de “prova” que Hume pede para que a autoridade de Jesus fosse acreditada, e especialmente nada menos que a confirmação de Jesus como o triunfante Mashiach ben David através da queda do Império Romano.

Mas era o contrário que Cristo valorizava, isto é, a crença livre na veracidade do seu testemunho por ele ser santo e divino. Lázaro ressuscitou para morrer de novo outro dia, e seu milagre passou, mas as palavras de Jesus não passarão jamais. Quando Pedro afirma que Jesus é o Filho de Deus, ele é bendito porque recebeu isso do Espírito, e não da carne. A carne é essa coisa que recebemos dos nossos pais e que vai ser enganada pelo Anticristo, porque é viciada e corrompida na busca do Poder, em total desprezo à verdade. Em suma, o prazer do cristão é acreditar em Jesus porque ele é bom, e não porque fez tais e quais prodígios. Pois o diabo também sabe impressionar com seus magos e bruxos, mas o que ele não sabe é ser bom e amar, e foi assim que Jesus provou sua própria santidade e a maldade do mentiroso e assassino: porque nos amou até o fim, enquanto o outro só quer nos destruir. Se Jesus fez muitos milagres que convenceram muitas pessoas ao redor, foi porque isso convinha como um testemunho contra elas, e não a seu favor. Exatamente como Moisés já tinha executado e afirmado no Deuteronômio, quando afirma que os objetos sagrados (a vara, o maná e as tábuas) estariam para sempre preservados como testemunho contra a infidelidade do povo. Isso é assim porque a Fé é um dom sobrenatural que só Deus pode dar a quem quer receber. Mas quem estaria pronto para receber esse dom, se ao mesmo tempo exigisse provas ao estilo de Hume? É uma óbvia contradição. Como querer confiar no bem e ao mesmo tempo exigir provas? Na proporção exata de que eu acredito em alguém, menos provas requererei da sua confiabilidade. Querer provas é o mesmo que não confiar. Quem quiser saber mais sobre isso pesquisa e minha seção de “Fé e Milagres” a respeito do Evangelho.

No geral a Seção X é boa como inventário psicológico da ruína humana e da prosperidade das superstições. Seria bom que o autor apenas tivesse a noção do quanto isso é condenado pelo próprio Evangelho, ao invés de misturar a Salvação com outras crendices. Podemos debitar essa lástima da Religião, que como já disse merece o ateísmo como uma justa punição para lhe castigar. Se o ensino das coisas espirituais fosse bom, Hume poderia defender o verdadeiro mérito da Fé cristã. Se não o faz, é culpa dos mesmos que sofrem sob os ataques desse tipo de filósofo. Tudo merecido.

No tratado sobre os princípios da moral, nosso filósofo defende a origem utilitária das normas da conduta humana, e a superioridade do bem comum da vida em sociedade na justificação até do efeito das superstições religiosas. Novamente a sua análise psicológica é muito adequada, mas lhe escapa o principal eixo que sustenta uma moralidade independente da utilidade imediata, que é a vida na Presença, o ser feliz agradando a Deus, e a consideração do outro como um eu destinado à mesma felicidade que desejamos.

À luz de outros investigadores mais puramente filosóficos, ou metafísicos, Hume parece um pensador meio pequeno, como se esse tipo de obra que fez tivesse que manter toda a sociedade humana operando sob o mesmo pacto de sempre, o que obviamente impede a mais plena liberdade de pensamento. Por onde vai o autor quer arrastar consigo o seu império terrestre, o que é, cá entre nós, uma âncora muito pesada. Poucas vezes analisei uma filosofia tão obviamente ocupada com a Legitimação da Mistura. E como poderia ser diferente, com uma teoria que preza pelo valor do hábito e dos costumes? Ora, eu também posso prezar por essas coisas até certo ponto, mas meu entusiasmo acaba quando a utilidade imediata (para usar outro recurso do autor) cessa de valer, isto é, para além da preservação da paz. O filósofo não precisa de paz para manter tudo como está, mas para descobrir o que as coisas significam mesmo que isso custe desconfiar da bondade dos seus costumes. O costume, portanto, pode ser útil, mas não é uma bússola moral e nem intelectual. É somente algo conveniente, pois nos liberta da falta de moderação e autodomínio dos outros seres humanos. 

Nota espiritual: 3,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade1
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,4

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