SINOPSE: Attack on Titan narra a história de uma humanidade que vive confinada atrás de enormes muralhas para se proteger dos Titãs, criaturas humanoides gigantes que devoram pessoas, acompanhando inicialmente Eren Yeager, sua irmã adotiva Mikasa Ackerman e seu amigo Armin Arlert após a destruição da Muralha Maria e a morte da mãe de Eren, evento que desperta nele um desejo absoluto de exterminar todos os Titãs; com o ingresso no exército, a revelação de que Eren possui o poder de se transformar em Titã e a descoberta progressiva de outros Titãs inteligentes — como Reiner, Bertholdt e Annie —, a narrativa desloca-se da luta pela sobrevivência para um conflito político e histórico mais amplo, quando se revela que os Titãs são humanos transformados e que o povo dentro das muralhas, os eldianos, é odiado e oprimido pelo resto do mundo, especialmente pela nação de Marley, devido a um passado imperial violento ligado ao poder originário de Ymir Fritz; ao recuperar as memórias de seu pai, Grisha, e acessar fragmentos do passado e do futuro por meio do Titã de Ataque e do Titã Fundador, Eren compreende que a história está presa a um ciclo de ódio e decide desencadear o “Rugido”, libertando milhões de Titãs Colossais para destruir quase toda a humanidade fora da ilha de Paradis, acreditando que apenas um genocídio preventivo garantiria a liberdade de seu povo; diante disso, antigos inimigos e aliados — incluindo Mikasa, Armin, Levi, Hange, Reiner e outros — unem-se para deter Eren, culminando em sua morte pelas mãos de Mikasa, no fim do poder dos Titãs e na sobrevivência de um mundo marcado pela devastação, pela memória do massacre e pela persistente ambiguidade quanto à possibilidade real de paz ou reconciliação futura.
Parece que a série relata a condição de sobrevivência sob a Lei da Selva, com a descoberta de que aquele que participava da História em nome de uma suposta causa justa na verdade apenas integrava um ciclo sem redenção e sem verdadeira Justiça. Isto pode indicar um testemunho de Vigilância até certo ponto, porque saber que podemos ser os vilões faz parte desse sadio aprendizado espiritual (o que chamo de “o lado certo do Golgota”). Porém, sem a perspectiva desse quadro dentro de uma maior Providência que transcendesse o ciclo histórico, seríamos afetados por outro lado pelo espírito de Terror, ou Pacto com o Inferno. Será que haverá alguma indicação de algum tipo de redenção fora da História?
ANÁLISE: A série Attack on Titan pode ser lida, para além de sua superfície épica e violenta, como uma meditação sombria sobre a condição histórica do humano, estruturada em torno da experiência do cerco, da culpa herdada e da liberdade concebida como tragédia. Desde seus primeiros episódios, o mundo apresentado não se organiza apenas como um cenário ficcional, mas como uma arquitetura simbólica: muros erigidos contra um exterior indeterminado, humanidade reduzida à sobrevivência mínima e um inimigo cuja alteridade absoluta legitima qualquer forma de exceção. Essa configuração inicial não serve apenas à narrativa de ação; ela estabelece uma ontologia política do medo, na qual a vida humana é definida negativamente, isto é, não pelo que pode realizar, mas pelo que precisa evitar para não ser exterminada.
É uma aplicação simbólica do sentido da condição humana sob o Decreto da Queda de Gênesis Capítulo 3. Este simbolismo é indevido? Depende, como já falei no início, da perspectiva. Em si mesmo o quadro pode ser realista o quanto for, e até produtivo espiritualmente quando a situação é vinculada às consequências da própria ação humana. Assim, até a idéia de uma “prisão” dentro de uma situação decadente e amaldiçoada faz sentido quando isto é observado como efeito decorrente das decisões dos seres humanos. Então, por exemplo, se o ato inaugural do ódio vingativo do protagonista, Eren, é a morte de sua mãe, este poderia dirigir a sua atenção desde a ação do titã responsável pelo incidente para a realidade originária da própria mortalidade da sua mãe. De onde veio isto? Veio de uma Natureza impecável, de uma Lei Natural boa como se fosse divina, ou ainda de um ordenamento caótico? Qualquer que seja o caso, se a morte era inevitável, não é tão terrível que um titã tenha matado a mãe de Erin, mas que ela fosse morrer de qualquer modo. Pois fosse esse meio mais ou menos violento, o efeito final é sentido de modo mais terrível justamente pela sua irreversibilidade. Então vale mais a morte do que o sofrimento do meio para se chegar nela. Mas qual é, então, a origem da morte? Se for uma Lei Natural, ou um Caos, Erin seria idólatra, Naturalista ou Cacólatra, e seu tormento pela perda da mãe seria sua culpa sua. Por outro lado, se existisse um desígnio bom por trás da determinação da mortalidade de todos, inclusive da mãe de Erin, porque, por exemplo, “o salário do pecado é a morte”, então Erin não precisaria se entregar ao espírito de ódio e de vingança, e sua arbitrariedade nessa direção, com todas as consequências disso, seria igualmente sua culpa. Portanto, a situação humana precisa ser enquadrada dentro de um escopo mais amplo, do contrário estaremos tão presos à História da humanidade quanto os animais estão presos à Natureza. Mas nosso Intelecto já sugere, sem grandes dificuldades, pela nossa capacidade de concepção de algo que nos transcende, a nossa Liberdade de escolher situar os horrores do mundo dentro de um quadro maior que possua algum sentido. Se a série não aponta para essa hipótese, além de Idolatria ela também daria testemunho de Psiquismo, e de Gnosticismo.
À medida que a narrativa avança, os Titãs deixam de funcionar como simples monstros naturais e passam a revelar sua verdadeira função conceitual: eles são a figuração de uma violência histórica que não vem de fora, mas emerge do próprio humano. A descoberta de que os Titãs são, em última instância, humanos transformados dissolve a separação confortável entre vítima e agressor, deslocando o eixo moral da série. O horror já não é o ataque externo, mas a constatação de que a própria humanidade carrega em si a potência de sua autodestruição. Com isso, Attack on Titan rompe com a lógica clássica do épico heroico, no qual o mal é exterior e o bem se afirma pela derrota do outro; aqui, o mal é imanente, transmitido, herdado e estrutural.
Isto tem um potencial excelente para revelar tanto a essência do problema como o Pecado Original, quanto a solução verdadeira que é a Cruz. Mas há que se questionar se existe, então, alguma referência à ordem de origem dos problemas. Por exemplo, a reprodução humana sob essa terrível condição é questionada por algum personagem? Talvez até seja e o Chat GPT não me relate isso. Caberia a alguma boa alma que assistiu à série me informar se for o caso. Se não existisse esse questionamento, então não adiantaria nada reconhecer que os titãs são humanos transformados, porque a origem da exploração do potencial maligno está na encarnação sob esta condição decaída e amaldiçoada. Se o problema não puder ser adequadamente diagnosticado, a solução verdadeira não pode ser aplicada. Qual é a solução verdadeira? A Cruz: interromper o ciclo do mal. Isso começa pela renúncia ao espírito e às práticas vinculadas ao Pecado Original. E chega finalmente no perdão e na misericórdia, isto é, a imitação de Cristo. Se os personagens aguardassem apenas uma salvação que viesse pelo recurso extraordinário da Ressurreição, não seria necessário sofrer com a condição atual senão como a experiência temporária e limitada da Cruz. Essa é a Lei de Liberdade que o Evangelho nos trás: imite a Jesus e a Virgem Maria, não a Adão e Eva, e ame e perdoe todos os desgraçados filhos dos homens até o último dia. Uma outra maneira de enxergar a simbologia desta série é que os titãs são equivalentes, no Pacto Sadomasoquista do Sistema da Besta, aos Sádicos, isto é, aos ambiciosos pactualistas que desejam Poder sobre os masoquistas, e igualmente a solução necessária é a mesma: a renúncia à prática da traição do Amor em nome do Poder, seguir Jesus, etc.
Esse deslocamento atinge seu ponto decisivo quando a história se expande para além dos muros e revela um mundo geopolítico mais amplo, marcado por impérios, ressentimentos históricos e narrativas concorrentes de culpa e redenção. O conflito entre Eldianos e o resto do mundo não é apresentado como uma simples oposição entre opressores e oprimidos, mas como um ciclo de violência sustentado por memórias traumáticas, mitologias nacionais e tecnologias de dominação. A série sugere que a história não é um processo de superação moral, mas uma repetição trágica na qual cada geração herda não apenas territórios e nomes, mas também pecados que não cometeu diretamente. Nesse sentido, Attack on Titan se aproxima de uma filosofia da história profundamente pessimista, na qual a ideia de progresso é substituída pela de acumulação de culpa.
Não somos todos herdeiros dos pecados dos nossos pais? Não herdamos deles todos os nossos sofrimentos, dores, traumas, angústias, medos, etc.? Se não herdamos deles, de quem recebemos essas coisas? De Deus? Da Natureza? Do Caos? Do Nada? Se a série emprega o tom pessimista de modo monotemático, talvez peque pela falta de abrangência, afinal o progresso material e tecnológico pode disfarçar a realidade da experiência humana. De vez em quando não vem alguém dizer que vivemos mais do que nunca antes, temos mais acesso a isto e aquilo, etc.? Tudo isso pode ser verdade e não modificar a realidade da condição humana, especialmente diante da Presença de Deus. Essa questão modifica, portanto, apenas o grau do testemunho do Dom de Vigilância: se o tom trágico e pessimista é exagerado, há menos Vigilância; se, porém, existir o reconhecimento de vantagens pelo progresso e mesmo assim se evidenciar friamente o quanto isso é infinitamente inferior ao Ideal divino, há mais Vigilância.
A figura de Eren Yeager encarna de modo exemplar essa tragédia histórica. Inicialmente apresentado como o arquétipo do herói movido por um desejo absoluto de liberdade, Eren gradualmente se transforma no vetor da maior violência já vista na narrativa. No entanto, essa transformação não é retratada como corrupção moral simples, mas como consequência lógica de um mundo em que toda liberdade parece exigir aniquilação. A liberdade, em Attack on Titan, não é um valor universal conciliável com a coexistência; ela aparece como um bem escasso, conquistado apenas pela negação radical da liberdade alheia. O “Rugido” não é apenas um evento catastrófico, mas a expressão final de uma liberdade levada à sua coerência extrema: se existir significa estar condenado pelo olhar do outro, então a eliminação do outro surge como condição para existir plenamente.
Essa seria sempre a conclusão extrema da experiência do Limite dentro da condição da Mútua Representação: não é possível alcançarmos o nosso bem próprio de modo pleno sem a possível afetação do bem próprio de outros. A solução tempestiva, sob a condição presente da Mútua Representação, é o exercício da Justiça que só é viável como virtude quando a busca do bem próprio é limitada pelo reconhecimento do bem comum, dos direitos universais, etc. Esta situação nunca poderia ser ideal, porém. O Ideal só é alcançável pela superação desta condição da mutualidade no estado paradisíaco da Coruscância, onde a Justiça não é mais necessária, porque a injustiça não é possível, já que o Amor triunfa de modo absoluto e somos todos infalíveis em comunhão com o Espírito Santo. Lá as entidades pessoais com as quais convivemos de modo regular são perfeitamente determinadas pela Apetição da mônada, os chamados Periannath (“povo pequeno”). E as outras mônadas são absolutamente livres para representar suas realidades apetecidas com igual potência. A idéia de que vamos conviver com vizinhos permanentes numa tal Jerusalém celeste, e que alguém possa dizer “bom dia” sem o outro querer ouvir, ou de você não poder nem sequer querer não ouvir “bom dia” do seu vizinho, é uma hipótese tão maluca quanto a da eliminação da nossa pessoalidade na absorção da União Mística ou Visão Beatífica.
Essa lógica conduz a série a um terreno profundamente problemático do ponto de vista ético. Attack on Titan não oferece uma moral clara nem um ponto de vista redentor capaz de reorganizar o mundo após a catástrofe. Ao contrário, ela insiste em mostrar que toda tentativa de solução total — seja pela dominação, pela vingança ou pela proteção absoluta de um povo — resulta inevitavelmente em genocídio, silêncio e ruína. A ausência de um horizonte reconciliador não é uma falha narrativa, mas uma tese implícita: o mundo humano, quando estruturado exclusivamente por identidades fechadas, memórias absolutizadas e soberanias totais, não admite síntese pacífica. O trágico não é um acidente, mas a forma própria desse mundo.
Eu nem me incomodaria por falta de salvação no plano desta temporalidade, afinal de contas isso não existe mesmo. Mas a falta de indicação de uma salvação transcendente, isso sim seria preocupante. De todo modo, mesmo sob uma visão imanentista fechada, novamente, seria possível questionar a validade da continuidade da reprodução humana nessa condição. É o tema da Antropodiceia. Já que não há Eleuteriodiceia que reconhece a validade dessas coisas terríveis num plano limitado diante da Eternidade, no mínimo os participantes voluntários na perpetuação dessa situação são moralmente obrigados a se questionarem sobre a sua decisão. Essa responsabilidade objetiva existe e é inescapável. Mesmo que o Pecado Original não seja reconhecido na sua significação espiritual, a sua prática é sempre reconhecível como o conduíte para a morte, o sofrimento, etc. Se a série não apontou sequer para isto, então realmente o seu grau de Vigilância não é muito alto.
Nesse contexto, o tempo desempenha um papel filosófico decisivo. A possibilidade de acesso ao futuro e ao passado, mediada pelos Titãs e pela linhagem de Ymir, dissolve a noção clássica de livre-arbítrio. As ações dos personagens parecem simultaneamente escolhidas e determinadas, como se a liberdade existisse apenas como experiência subjetiva dentro de uma cadeia causal fechada. Eren age porque quer, mas quer porque já viu o que fará. Essa circularidade temporal introduz uma concepção profundamente fatalista da história, na qual a responsabilidade moral não desaparece, mas se torna quase insuportável, pois o agente é ao mesmo tempo autor e prisioneiro de seus atos.
Isto tem que ser visto com bastante cuidado. Se o personagem vê o que vai fazer, ele pode apenas contemplar o resultado de uma decisão que já tomou, embora ainda não saiba que o tenha feito, porque o momento no tempo de uso dessa liberdade particular ainda não chegou. Não existe, neste sentido, abolição da Liberdade. Se o sujeito detesta o resultado do que fez, mas continua tendo feito o que fez, isto apenas gera uma situação exótica e anômala, como um arrependimento antecipado, mas não muda de fato o ato livre, porque se mudasse isto já converteria a concepção da realidade moral para o paradigma de um Determinismo total. Mas esse tipo de concepção costuma ser facilmente questionável, seja por atos simples do dia-a-dia, ou pela reconsideração dos atos interiores executados no momento das supostas decisões determinadas por causa externa. No mínimo, mesmo que as ações fossem produzidas por motores exteriores, uma consciência capaz de detestar o que faz já é livre o suficiente diante de Deus, e portanto responsável por esse nível de autonomia (Romanos 7:15). Isto é, para um Intelecto verdadeiro sempre existe no mínimo a agência moral interior sempre livre e imputável. Novamente, se a série não é capaz de apresentar isso, ela dá o testemunho dos espíritos de Gnosticismo e de Psiquismo.
Por fim, Attack on Titan pode ser compreendida como uma alegoria radical da modernidade política e de seus impasses últimos. Estados fortificados, tecnologias de extermínio em massa, narrativas identitárias absolutas e a conversão da liberdade em arma total formam um quadro que remete menos a um mundo fantástico do que às experiências históricas mais extremas do século XX. A série não oferece consolo, redenção nem transcendência clara; ela termina como começou, com restos, memórias e sobreviventes incapazes de afirmar se algo foi realmente resolvido. Nesse sentido, sua força filosófica reside precisamente na recusa de uma conclusão edificante. Attack on Titan não ensina como salvar o mundo, mas expõe, com rigor implacável, o preço metafísico e histórico de tentar fazê-lo pela força absoluta.
Eu nem penso que o mundo devesse ser salvo, porque já há uma profecia sobre a sua destruição, e a Vontade de Deus é perfeitamente boa. A salvação pertence às almas, ou mônadas. Então esse negócio de salvar o mundo nunca é o problema. Aliás, o contrário é verdade: o problema costuma ser a idéia de salvar o mundo, algo que Olavo sempre dizia (“o mundo estaria muito melhor se muitas pessoas não quisessem melhorá-lo”). O que perpetua o sofrimento e a desordem é a vontade de fazer diferente, de se achar diferente, em suma, a Pretensão, a falta de Humildade. Por isso seguir a Jesus Cristo continua sendo, como sempre será, a única solução final: ser humilde e manso de coração, tornar-se filho de Deus, carregar a Cruz e seguir o Pastor em direção à morte e à Ressurreição. Eu não esperaria que um anime levasse a tudo isso, é claro. Mas no mínimo alguma indicação de transcendência seria sempre possível, ou então a consciência da possibilidade de interromper o ciclo do mal com a renúncia voluntária à prática do Pecado Original.
Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 6 |
| Presença/Idolatria | 2 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 2 |
| Soberania/Gnosticismo | 3 |
| Vigilância/Ingenuidade | 6 |
| Discernimento/Psiquismo | 3 |
| Nota final | 3,9 |