SINOPSE: Avatar: A Lenda de Aang se passa em um mundo dividido em quatro nações — Água, Terra, Fogo e Ar — ligadas aos respectivos elementos, no qual o equilíbrio sempre foi garantido pelo Avatar, único capaz de dominar todos eles, até que a Nação do Fogo inicia uma guerra de conquista que culmina no genocídio dos Nômades do Ar e no desaparecimento do Avatar por cem anos; esse Avatar é Aang, um menino dobrador de ar que, ao fugir do peso de sua missão, acaba congelado em um iceberg, sendo despertado no início da série por Katara e Sokka, irmãos da Tribo da Água do Sul, que passam a acompanhá-lo em sua jornada para aprender os outros elementos e pôr fim à guerra antes do retorno do Cometa de Sozin, que ampliaria o poder do Senhor do Fogo Ozai; ao longo do caminho, Aang aprende a dobra de água com Katara, a dobra de terra com Toph, uma jovem cega de força extraordinária, e enfrenta perseguições constantes do príncipe Zuko, filho exilado de Ozai, cuja obsessão em capturar o Avatar para recuperar sua honra evolui gradualmente para um conflito moral profundo, especialmente após sua convivência com o tio Iroh, ex-general sábio que lhe oferece uma visão alternativa de poder e identidade; paralelamente, o grupo confronta as consequências da guerra em diferentes regiões, incluindo a corrupção no Reino da Terra e a queda de Ba Sing Se, enquanto a Nação do Fogo revela sua decadência interna por meio de figuras como a princesa Azula, estrategista brilhante e psicologicamente instável; no desfecho, após um colapso espiritual que quase o destrói, Aang se reconecta ao mundo dos espíritos, enfrenta Ozai durante a passagem do cometa e, recusando-se a matá-lo, utiliza a dobra de energia para remover-lhe o poder, enquanto Zuko depõe o pai e assume o trono, restaurando a possibilidade de paz entre as nações e encerrando o ciclo de destruição que marcou aquele século de guerra.
O que esta sinopse do Chat GPT não revela, mas que descobri numa investigação paralela, é que há uma mitologia de origem que relata um conflito primordial entre Rava e Vato, numa espécie de dualidade maniqueísta que mantém o Universo em equilíbrio. Compreendido no contexto desse pano de fundo, a estória de Avatar a lenda de Aang se torna somente a retomada do mesmo ciclo de sempre, onde desde a perda do equilíbrio anterior por algum agente desestabilizador (no caso a ação do líder da Nação do Fogo, etc.), que opera como o mercúrio na relação alquímica, se torna necessária a ação de um novo poder estabilizador, com a função equivalente ao do enxofre, para restaurar o equilíbrio entre as forças. É uma narrativa com a função típica de Legitimação da Mistura, o lado direito da Dialética gnóstica do Ouroboros, como o mito de origem já revela com muita clareza. Não há transcendência ao nível de Mistura de Luz e Trevas, há apenas o equilíbrio, e a vida que é possível deriva desse estado de harmonia entre os poderes. O Mal não pode, assim, ser definitivamente superado ou sublimado, ele só pode ser colocado sob algum controle, pois de algum modo é necessário para que o Bem se manifeste. Por enquanto só encontramos uma nota negativa na direção do Gnosticismo. Vejamos a análise mais pormenorizada da IA.
ANÁLISE: Avatar: A Lenda de Aang pode ser lida como uma meditação narrativa sobre a ordem do mundo, a legitimidade do poder e o estatuto moral da força, articulada por meio de uma cosmologia em que natureza, espírito e política não se separam. A divisão do mundo em quatro nações associadas aos elementos não funciona apenas como recurso estético ou mitológico, mas como uma ontologia prática: cada elemento expressa uma relação distinta com o real, com o corpo e com a comunidade. A dobra de água pressupõe adaptação e fluidez; a dobra de terra afirma estabilidade e resistência; a dobra de fogo encarna energia, vontade e transformação; a dobra de ar, por fim, aponta para desapego e liberdade. O Avatar, enquanto figura que reúne em si todos os elementos, não é um soberano absoluto nem um messias no sentido clássico, mas um mediador ontológico cuja função é manter o equilíbrio entre forças que, abandonadas a si mesmas, tendem à unilateralidade e à tirania. O “equilíbrio” que a série invoca não é neutralidade moral, mas harmonia dinâmica entre princípios incompatíveis, o que já indica uma concepção trágica e não utópica da ordem do mundo.
Ainda não enxergo tanta tragédia nessa concepção, mas certamente também não encontro nenhuma Salvação num sentido de transcendente, de mudança de plano de existência. A mitologia já reforçou essa concepção imanentista. Na verdade, parece que no mito de origem Vato operou algum evento em que almas que viviam em algum plano superior pudessem descer e encarnar no mundo material, como um tipo de Demiurgo. Isso poderia indicar algum outro tipo de redenção para além do equilíbrio imanente, mas nem por isso seria uma solução espiritualmente adequada, ou seja, pela santificação, ou separação de Luz e Trevas. De qualquer modo, precisamos nos ater à narrativa. O simbolismo natural dos elementos já de muito tempo é empregado em artes terapêuticas antigas, como as que usam a doutrina dos humores para a cura dos excessos (de melancolia, fleuma, cólera e sangue) nos temperamentos. Tudo isso pode ser válido até certo ponto, como por exemplo num sentido mais elevado a virtude da Justiça pode ser vista como uma forma de equilíbrio que é excelente para produzir a paz e a felicidade política, o que parece ser a solução que Aang vai encontrar no fim desta estória. A questão que fica é: qual é o próximo passo? Onde se encaixam as vidas das pessoas no contexto maior? Ou este contexto não existe para além de suas vidas presentes? Tudo o que há é o ciclo de ordem anterior, caos, e nova ordem? E a vida das pessoas é como um breve suspiro no meio desse jogo de equilíbrios e desequilíbrios? Se for isso, a estória dá testemunho do espírito de Idolatria, seja da Natureza como o plano máximo de existência que rege os seres pelas suas Leis, ou seja do Homem como agente estabilizador das forças concorrentes em seu conflito permanente contra o Caos. Vamos ver se conseguimos concluir alguma coisa a esse respeito.
Nesse horizonte, a guerra conduzida pela Nação do Fogo não se reduz a um conflito geopolítico convencional, mas representa a hipertrofia de um único princípio — a vontade de poder, a expansão, a eficiência — desligado de qualquer limite espiritual. O fogo, elemento ambíguo por excelência, é aqui interpretado como energia que, sem disciplina interior, degenera em dominação. A série recusa, contudo, uma leitura maniqueísta: o problema não é o fogo em si, mas sua absolutização. Essa recusa se manifesta de modo exemplar na trajetória de Zuko, cuja formação moral revela que a redenção não ocorre pela negação do próprio elemento, mas pela sua reintegração a um horizonte ético mais amplo. O arco de Zuko encena uma tese central da obra: o mal político nasce menos da maldade individual do que da deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder que rompem o vínculo entre força e responsabilidade.
Essa interpretação não faz sentido nenhum. Qual é a causa agente que produz “a deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder”? Não é a maldade individual daqueles que desejam criar essas estruturas? De vez em quando vamos ter que lidar com essa superficialidade da interpretação da máquina. O que me parece ter valor na interpretação simbólica é o valor do equilíbrio tão necessário entre os elementos, e por fim entre aquelas forças originárias do Bem e do Mal, Rava e Vato. Não conseguimos tirar algo de bom disso? Até certo ponto podemos, por exemplo com a valorização da diversidade da realidade humana. Na minha experiência, ao lidar com o simbolismo astrológico, por exemplo (e que envolve a interpretação dos quatro elementos usados na série), o estudo da variedade e diversidade ajuda a respeitar as diferenças entre as pessoas. Mas isso não é realizado pelo conhecimento em si da diversidade. Há uma outra crença que deve agir nesse sentido. No caso da crença cristã, é a noção de Harmonia produzida pela Providência: Deus criou a diversidade tendo em vista finalidades que escapam do nosso entendimento, de modo que a homogeneidade tende a destruir a riqueza gerada pelo Criador. No caso da crença sugerida pela moral da estória de Avatar a lenda de Aang, a própria sobrevivência dos povos depende de um equilíbrio entre eles, uma realidade que só pode ser operada por uma consciência superior que tem essa função de estabilização, que é o Avatar. Fazendo a tradução disto para a vida particular, temos impulsos antagônicos que devem ser controlados por uma disciplina que visa a harmonia do conjunto, autocontrole este que é causado pela consciência da unidade do nosso próprio ser. Apesar disso, esta vida natural é regida por um princípio entrópico da geração e corrupção que vai terminar com a extinção do próprio organismo, algo que sempre gera alguma contradição perceptível pela psique humana em algum grau, quando se percebe, por exemplo, que os indivíduos mais equilibrados e capazes de homeostase vão morrer tanto quanto os mais desequilibrados. Onde está a vitória do equilíbrio, neste caso? Seria na felicidade de uma vida virtuosa, mas a morte é capaz de apagar isso e tornar essa conquista uma espécie de fábula ou ilusão. Do mesmo modo, no nível da vida política, a Justiça e o equilíbrio de forças gera mais paz e harmonia, o que não deixa de reverter o processo civilizacional com a direção que ele tenha, e que pode ser julgado como espiritualmente negativo, ou ao menos sem sentido se o que possuir entidade for apenas a alma individual (a idéia da Cidade de Deus de Agostinho). O que quero dizer, por fim, é que a noção de equilíbrio ou respeito pela diversidade tem que se enquadrar num contexto transcendente para ter valor definitivo, como no caso do indivíduo que vive uma vida mais harmônica e com isso se relaciona melhor com seu Criador e o serve com maior eficácia, ou então no caso da Política quando a paz gerada pela Justiça é capaz de abrir espaço na sociedade para o aparecimento de testemunhos mais fiéis ao divino (Calaquendi). Só nesses casos é que o equilíbrio faz sentido, pois visa um bem realmente transcendente e indestrutível. De resto, só se mantém o equilíbrio de individualidades que morrerão pela ação do mesmo processo, ou de sociedades que evoluirão para um destino qualquer que é indiferente ou mesmo prejudicial para a salvação das almas.
A figura de Aang introduz um problema filosófico ainda mais profundo ao colocar em tensão o dever cósmico e a integridade da consciência individual. Educado segundo uma espiritualidade que valoriza a não violência e o desapego, Aang se vê confrontado com a expectativa de matar o Senhor do Fogo para restaurar o equilíbrio. A série, nesse ponto, se distancia deliberadamente de narrativas heroicas clássicas, nas quais a violência final aparece como necessidade redentora. Aang recusa a lógica segundo a qual a ordem só pode ser restaurada pela eliminação física do inimigo, e sua busca por uma terceira via culmina na descoberta da dobra de energia, que permite neutralizar o poder sem aniquilar a pessoa. Essa solução não deve ser lida como simples artifício narrativo, mas como afirmação de uma tese ética: a justiça verdadeira não coincide com a vingança nem com a mera inversão da dominação, mas com a restauração da medida, isto é, do limite.
Muito bem, mas qual é o resultado final dessa bondade de Aang? Talvez ele tenha impedido um cenário violento e caótico, mas com qual finalidade última? Se a narrativa mostrasse um caminho pelo qual, a partir dessa decisão do protagonista, a própria condição de restrição da vida humana sob o esquema do equilíbrio entre os elementos (ou mesmo entre Rava e Vato) pudesse ser superada, esse seria um resultado muito excelente. Mas não parece ser o caso. Comparemos, por exemplo, com a mitologia cristã: quando Jesus ordena o perdão dos inimigos, isto não gera apenas maior paz e ordem no nível da vida em sociedade, como a decisão de Aang. É uma coisa completamente diferente. A nossa misericórdia com o próximo reflete o Amor divino, é a própria imitação de Deus. Se buscamos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, desejamos nos tornar como seus filhos adotivos, e isto significa espiritualmente que dizemos “sim”, não só com palavras mas com ações, ao convite para a vida eterna com Deus. Essa vida paradisíaca é a superação total da necessidade de equilíbrio entre Luz e Trevas, pois significa a separação eterna entre os dois. O que Jesus nos ensina é a nos tornarmos imortais pela ação da sua Graça, algo completamente diferente da manutenção do plano terreno atual regulado pelo equilíbrio da Mistura. Vejam que não importa apenas fazer o bem, mas é preciso fazer o bem pelas razões certas, como diria Tomás de Aquino: a boa ação é completa, na sua intenção, nos seus meios, e nos seus resultados. A intenção de Aang foi fazer algo melhor que seu inimigo lhe faria, usando de meios menos violentos, e com a finalidade de restaurar o equilíbrio entre as nações. A intenção da bondade cristã é a comunhão com Deus, o meio é a imitação de Cristo, e a finalidade é a salvação pela Ressurreição e a vida paradisíaca. São coisas bem diferentes. Parece que a estória desta série é apenas um novo testemunho favorável à Legitimação da Mistura. A bondade de Aang é restrita a esse nível, é a bondade de um escravo que não alcança a liberdade, mas preserva o sistema que o escraviza. Neste sentido, quem saberia dizer se os extremos do líder da Nação do Fogo não significariam a salvação no sentido de um necessário fim do mundo que já não tem mais redenção? Não que esse agente tivesse essa consciência, pois o martelo não conhece a intenção daquele que o empunha, e Deus já fez e continua fazendo uso da vilania para seus próprios propósitos. De certo modo, a obsessão com a manutenção do equilíbrio e com a continuidade da Mistura converte Aang num instrumento do Mal à sua maneira. Porque como um parasita, o Mal precisa da Mistura para continuar subsistindo, então aqueles que defendem a Mistura são servidores do Mal. Ao contrário, a Obra de Deus é a Separação de Luz e Trevas, ou Santificação, como revelado em Gênesis.
Por fim, Avatar: A Lenda de Aang propõe uma filosofia da história na qual o tempo não é progresso linear, mas ciclo ameaçado pela repetição da queda. A reencarnação do Avatar sugere que o equilíbrio nunca é conquistado de modo definitivo, pois a liberdade humana permanece capaz de romper a ordem a qualquer momento. Nesse sentido, a série sustenta uma visão profundamente realista da condição moral: não há estrutura política, poder espiritual ou tradição cultural que garanta por si só a justiça. O equilíbrio exige vigilância, autodomínio e disposição ao sacrifício pessoal. A obra encerra, assim, uma crítica implícita tanto ao messianismo político quanto ao niilismo cínico, afirmando que o mundo só permanece habitável enquanto houver quem aceite carregar o peso de mediar entre força e sentido, poder e limite, ação e consciência.
É verdade, mas quem ainda desejaria habitar um mundo onde algum nível de maldade ou sofrimento é necessário? Somente quem não acredita na libertação dessa condição sob nenhuma forma. Então a estória nos dá um testemunho de Idolatria, como eu suspeitava desde o início. E também de Presunção, até certo ponto, porque os protagonistas acham que eles precisam salvar o mundo, como se não existisse um Deus salvador, ou como se Deus delegasse esse tipo de responsabilidade a indivíduos como os avatares. O nome de Jesus resolve esse problema, porque ele significa literalmente que “Deus é o nosso salvador”. E seu exemplo de Humildade, para não falar de seus ensinamentos e dos de seus discípulos, já nos liberta dessas ilusões a respeito da hipótese de que a salvação do mundo nos pertença. A harmonia entre os elementos, ou entre as forças primordiais, não reflete a visão cristã de mundo. Não existe harmonia, existe o império da Queda, a consecução da vontade traidora de Adão e Eva (ou de todos os nossos ancestrais que os representam concretamente): existe maldição e decadência, e então a tentativa de restaurar o mundo pela força da Gnose, o Poder de dominar essa realidade decaída. O que depende de nós é a nossa conexão com o Criador e a solução verdadeira que não é a paz e o equilíbrio neste mundo, mas a Ressurreição. Não há nada disso na estória desta série, somente a manutenção do status quo, que é um objetivo daqueles que legitimam a Mistura.
Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 4 |
| Presença/Idolatria | 3 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 5 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 3 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 4,1 |