Eu já assisti uns dois ou três filmes com esta temática. E conheço algo da História o suficiente para ir além do roteiro imediato, inserindo a narrativa num contexto maior.
Qual é o cenário?
O ano é 1946. Os vencedores da Segunda Guerra Mundial se ocupam com a construção da História que será lida no futuro: não querem que seja reconhecida apenas a sua supremacia econômica e militar, mas sobretudo querem ser moralmente justificados. Além disso, particularmente no contexto do plano dos Aliados para a Alemanha, é necessário fazer algo que sirva como uma cerimônia de purgação coletiva para fortalecer o processo de desnazificação e a reinserção daquela nação no contexto da Guerra Fria. As lideranças decidem promover uma série de julgamentos das lideranças do Terceiro Reich, dentre os quais o principal será promovido contra a elite nazista. As principais acusações são de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Os principais réus são Goering, Hess, Ribbentrop e Speer.
Este filme foca principalmente em Goering, interpretado por Russell Crowe, que faz um trabalho decente. Talvez em alguns aspectos a performance de Brian Cox num filme anterior tenha sido superior. Mas a função social e espiritual do filme repete a de todos os outros: a reiteração desse mito de que os vencedores são sempre os melhores e que mereciam ganhar. Quanto mais longínquo fica um período histórico, mais fácil é a revisão dessa mitologia. No caso desse tipo de História mais recente, como ainda existem muitos interesses dependentes desse alicerce propagandístico, a revisão fica mais difícil ou mesmo impossível. Mas é fácil verificar as vulnerabilidades do Processo, afinal os acusadores não foram personagens neutros, como ETs marcianos, mas as próprias nações vitoriosas. Seja na questão da conspiração para promover a guerra, o que não é difícil demonstrar com os bloqueios navais seja da Alemanha ou do Japão, ou na prática de crimes contra a humanidade, na qual por exemplo os Aliados derem exemplos insuperáveis nos seus bombardeios de terror, não seria difícil relativizar muito ou até mesmo ignorar completamente a validade desses julgamentos.
Supostamente o Julgamento de Nuremberg também deveria servir como jurisprudência precedente para a fundação de um Direito Internacional. O problema disso é que, como de praxe, a força vem antes da suposta justiça dos homens. Assim como é necessário primeiro a polícia prender um bandido para que os tribunais possam depois julgá-lo, o tal do Direito Internacional depende de que algumas nações tenham poder suficiente sobre outras a ponto de serem capazes de administrar essa tal justiça. Quando uma nação vitoriosa julga moralmente o vencido, quem tem o poder real de garantir que o acusado possa ser absolvido? E pior, quem tem a capacidade de acusar, julgar e executar sentenças contra uma liderança criminosa quando esta governa os Estados que concentram o maior poder? Que eu saiba o tal do Direito Internacional já condenou personalidades como Putin e Netanyahu, mas quem pode prender essas pessoas que são protegidas pelas grandes nações da Rússia e dos EUA? Ou seja, o Direito Internacional só funciona quando é usado pelos poderosos, exatamente como um instrumento teatral.
Foi mais ou menos isso que a liderança nazista respondeu de imediato ao tomar conhecimento do processo judicial. Diziam que era um teatro, e que era mais fácil e justo que simplesmente fossem fuzilados. Alguns, como Speer, jogaram com essa teatralidade a seu favor, fazendo-se de “bons alemães” como tática colaboracionista, no espírito do que seria a parceria no contexto da Guerra Fria. Outros, como Goering, bem cientes de que seriam os bodes expiatórios para a purgação da nação alemã, já decidiram ocupar voluntariamente o outro lado do teatro, assumindo suas convicções e defendendo a posição nazista.
Este filme em particular possui algumas omissões e inexatidões que são previsíveis. Goering teve que ser isolado dos demais réus, porque sua presença era suficiente para influenciar negativamente no sentido indesejado pelo Tribunal, isto é, na direção da defesa do regime nazista. Isto não é evidenciado pelo filme, pela simples razão de que esse tipo de medida faria notar o quanto o empreendimento como um todo era mais uma ação de propaganda do que realmente uma questão de prática da justiça.
Além disso, o filme não dá uma informação importante, de que Goering havia pedido para que sua execução fosse feita por um pelotão de fuzilamento, o que é o mais adequado para um réu militar. Somente quando teve a certeza de que seria enforcado como um criminoso comum é que Goering resolveu se suicidar. Ou seja, ele não estava muito animado com alguma ilusão de vencer o processo, e neste sentido era realista e resignado, mas não aceitou particularmente o método da execução da sua sentença de morte. Quis ele também mostrar que até o fim era o senhor do seu destino particular? Talvez, mas isso não é historicamente evidenciado.
Um dos pontos mais fracos do filme foi a absurda exposição do Juiz Jackson, dos EUA, que neste Julgamento atuou como Promotor, quando ele pede a ajuda do psicólogo dos prisioneiros para obter informações privilegiadas quanto às fragilidades e segredos de Goering. Vejam bem, eu nem duvido que isto tenha acontecido, mas não faz sentido inserir esta cena num filme que quer defender o procedimento como um todo. Esse tipo de prática serviria, e com facilidade, para a anulação de qualquer processo judicial. Qual é o efeito desta cena no filme como um todo? É uma exibição de audácia, de confiança abusiva na superioridade moral dos acusadores. Mas seria hybris do roteirista, ou a idéia seria gerar esse sentimento na audiência, no sentido de normalizar as injustiças menores em prol das supostas justiças maiores? Os fins devem justificar os meios? Algo me diz que essa é uma tendência de Hollywood com as gerações mais novas, uma fábrica de monstrinhos.
O filme como um todo é cheio do espírito do mundo, do espírito de mentira, e não porque os réus fossem inocentes, mas porque os acusadores em sua maioria deveriam ser igualmente lançados na lata de lixo da História.
Nota espiritual: 3,0 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 2 |
| Presença/Idolatria | 2 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 4 |
| Soberania/Gnosticismo | 3 |
| Vigilância/Ingenuidade | 1 |
| Discernimento/Psiquismo | 4 |
| NOTA FINAL | 3,0 |