Charlie Kirk e a próxima fase da guerra contra o Irã

Passado um tempinho desde a execução do ativista americano Charlie Kirk, consegui começar a montar na minha cabeça um quadro um pouco mais lúcido a respeito do evento.

Obviamente, pelo dom de Vigilância, nenhum de nós teria a permissão de aceitar a versão oficial de que ele teria morrido pela ação de um fanático esquerdista. Isto é o mesmo que acreditar que o ataque de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gêmeas foi feito por terroristas islâmicos. Uma parcela da humanidade vai continuar confiando nessas coisas, inclusive no pouso do homem na Lua em 1969, etc. Eu não estou trabalhando para essas pessoas. Infelizmente estamos no Brasil, e aqui ser de “direita”, ou seja, ser escravizado como parte do sistema dialético, já é considerado uma atividade subversiva o suficiente. Entendo que serei compreendido por poucos, como sempre.

Nos EUA ocorre algo um pouco diferente. Ainda há muito controle dialético, mas não apenas isso. Uma nova geração habituada com a circulação instantânea e sem censura de informações na internet começa a perceber que as versões oficiais dos fatos, assim como as versões mais comuns da história, são provavelmente falsificadas. Este meme, porém, não deve alcançar o Brasil em nenhum cenário futuro até o fim do mundo:

Nossa cultura predominante ainda é de origem católica, ou seja, não absorvemos coletivamente nem a reação mais básica de rejeição ao sequestro do Evangelho pelos poderes do mundo. Quando recebemos aqui os frutos do protestantismo, este já é o subproduto religioso corrompido que não só não resolve nada como até piora a situação de quem quer ser cristão. O brasileiro médio está muito mais pronto para aceitar o Anticristo sem grandes críticas do que outras populações mais acostumadas com o pensamento crítico, seja nos EUA, na Europa ou na Ásia.

Dito isso, vamos ao caso de Charlie Kirk.

Sua atuação sempre me pareceu ser a daquele típico americano que é inteligente e esforçado, e ao mesmo tempo extremamente ingênuo. Pois é, se coletivamente o americano médio pode estar um pouquinho melhor que o brasileiro médio, na escala do varejo das individualidades encontramos de tudo.

Desde bem jovem Kirk se engajou em debates públicos, no qual se destacou por uma certa habilidade retórica, para não se dizer sofística. Nem preciso explicar que esse tipo de procedimento nunca me agradou. Que ele tenha sido apoiador de causas políticas como a de Trump, é apenas um agravante maior ainda. Aos poucos ele cresceu na sua carreira, sustentado pelo lobby direitista que é, por sua vez, financiado por interesses sionistas via AIPAC. Sua atuação era particularmente relevante no front universitário, justificando a disputa por verbas federais de acordo com alinhamentos ideológicos, e principalmente preparando o terreno para o boicote intelectual de iniciativas anti-sionistas, sob o cobertor de combate ao anti-semitismo.

Essa trajetória da carreira de Kirk não surpreenderia em nada, seria mais um em muitos.

Acontece que nos EUA existe mobilização política de base nos movimentos chamados grassroots. Esse fenômeno, por praticamente não existir no Brasil, pode ser de difícil compreensão por aqui. Por lá é perfeitamente viável que uma base popular force certas lideranças a mudarem o rumo de suas posições e condutas públicas. E o fato é que a base política de Kirk, basicamente composta de pessoas bem jovens, começou a pressioná-lo a respeito de temas ligados a Israel. E o próprio Kirk passou a questionar coisas que normalmente seriam inquestionáveis por alguém que é sustentado pelo lobby direitista. Principalmente:

  1. A ligação da operação de Epstein com o Mossad;
  2. A narrativa oficial dos eventos de 07 de Outubro de 2023 e o subsequente apoio americano à guerra de extermínio em Gaza;
  3. O apoio americano à guerra de Israel contra o Irã.

Este último ponto provavelmente foi o decisivo para que Kirk fosse visto como persona non grata. Ingênuo, o serviçal de Israel não percebeu que se voltava contra a mão que o alimentava e que dava o seu poder político. Será que ele achava mesmo que seu sucesso se devia pura e simplesmente à sua capacidade oratória? Se achava, como foi ingênuo! Ele poderia ser mais um zé mané, um ninguém na fila do pão, se não fosse o interesse dos poderes do mundo em usar a sua atividade para fins de propaganda e mobilização das massas. Essa era a serventia de Kirk ao sistema: a legitimação de crimes de Estado, da Dialética do Ouroboros e do Sistema da Besta como um todo. Foi essa a origem real da sua fama, do seu prestígio e do seu sucesso.

Quando Kirk começou a questionar partes inconvenientes da narrativa oficial da direita política, ele foi chamado para mais uma rodada de negociações onde, no caso, Netanyahu entraria com muito dinheiro e influência, e Kirk entraria com o resto de sua alma. Kirk recusou o acordo e saiu da mesa. Achou que poderia ter vida própria e algum poder no mundo sem a ajuda de Satanás.

Mas quando a verdade pura se levanta para falar, o mundo literalmente a mata no tempo de uma semana. Foi o que já aconteceu uma vez em Jerusalém, para os cristãos que não perderam a memória.

O ingênuo Charlie Kirk achava que tinha autonomia para perseguir a verdade e a justiça com autonomia? Foi rapidamente corrigido pelos poderes do mundo, poderes que o usaram em vida e agora o usam na morte, para reforçar o sistema dialético.

Trump chegou a compartilhar essa imagem grotesca em sua rede social (Truth Social):

Mas resta uma questão: por que assassinaram o cara?

Não seria mais fácil e menos suspeito simplesmente desmontar a sua operação? Retirar as verbas, acionar o shadowban, praticar a espiral do silêncio, etc.?

Seria mais fácil, mas isso leva tempo. Para que uma operação dessas tenha efeito pode ser preciso passar no mínimo uns 6 a 12 meses, e talvez ainda mais no caso do movimento de Kirk, justamente por esse ter uma forte base grassroot.

E acontece que talvez Israel precise mobilizar a opinião pública americana para algo muito importante antes desse prazo, ou seja, logo mais, nas próximas semanas ou meses.

Qual evento justificaria essa emergência?

Ora, nada se encaixa mais no cenário do que uma nova fase na guerra contra o Irã.

É preciso soterrar os questionamentos sobre Epstein e a farsa do 7 de Outubro de 2023, e colocar o lobby para forçar o apoio dos EUA a Israel nesse próxima fase da guerra.

Possivelmente isso deva acontecer antes das midterm elections nos EUA, ou seja, até no máximo Março ou Abril de 2026.

Esse calendário favoreceria a opção pela eliminação física imediata de Kirk, com o bônus de que se os EUA guinarem para fora da zona de influência do lobby sionista antes da próxima fase na guerra, ainda se teria a vantagem de aumentar as chances de deflagrar uma guerra civil nos EUA para neutralizar a sua capacidade de interferência em assuntos internacionais. Afinal, se os EUA não estiverem comigo, o mínimo que eu preciso é garantir que eles não estarão contra mim por estarem, por exemplo, ocupados demais num conflito interno entre Direita X Esquerda, etc. É muito importante que a maior parte da população americana continue hipnotizada pela Dialética, e a própria morte de Kirk está sendo usada para essa finalidade. Vai funcionar? Não sabemos, mas não é difícil desestabilizar a economia americana, altamente alavancada, com uma crise econômico-financeira, bem como o sistema político, que é lotado de elementos comprometidos por operações de blackmail.

O incidente também está sendo usado para testar a lealdade de outros assets de inteligência influentes sobre a sociedade americana. Estes estão sendo orientados, senão mesmo ameaçados quando necessário, para insistir na narrativa contra a esquerda radical, os trans, etc. O recado foi dado da forma mais clara possível. Ao mesmo tempo os movimentos de base conseguem detectar facilmente quais influências e lideranças estão comprometidas com o sionismo. Figuras de grande relevo na mídia alternativa estão sendo rapidamente esvaziadas, como é o caso de Alex Jones e sua operação (Infowars).

O calendário foi a provável motivação para a execução de Kirk.

Sobre a pressa de Netanyahu que quer acelerar as coisas em todo o Oriente Médio, há uma interpretação geopolítica de que isso seria conveniente antes da mudança de ares políticos nos EUA, ou mesmo antes da queda do império americano, já que com China e Rússia o sionismo não teria o mesmo poder de influência (supostamente). Mas há que se considerar também a questão escatológica. Toda uma geração de rabinos messiânicos pressionam Netanyahu para que eles sejam os preparadores finais para a chegada do seu Messias triunfante, e muitos destes acreditam que apenas os construtores americanos (os maçons mais poderosos do mundo) poderão erguer o Terceiro Templo. Seria preciso então fazer tudo acontecer logo: comprometer os EUA com um conflito na região, jogar Esaú contra Ismael, destruir al-Aqsa, “descobrir” a Arca da Aliança, e construir o Terceiro Templo. É claro que essas possibilidades escatológicas escapam da análise geopolítica típica que ainda tenta compreender tudo em termos de interesses nacionais, políticos, econômicos, etc.

Do ponto de vista mais individual, no âmbito da alma do sujeito, Kirk abraçou a idolatria da família, mas não se comprometeu totalmente com os poderes do mundo. Ele pagou por essas decisões. Ele precisava ser vitorioso neste mundo. Não estava esperando pelo próximo, não repousava apenas em Cristo. Tinha que ter planos, vitórias, sucessos. Casou e teve filhos, então ele precisava que essa porcaria de mundo, destinado à destruição, fosse viável para seus descendentes. Isso o levou a se envolver com poderes malignos travestidos com o bom-mocismo direitista, conservador, etc., poderes que o dariam os meios práticos de crescer na vida e ter o sucesso e a vitória que ele precisava dar a si mesmo e à sua família.

Mas era um acordo espiritual com o mundo. Quando ele resolveu desfazer o acordo, as consequências vieram rapidamente.

Politicamente, ninguém vai escapar daquelas duas verdades supremas reveladas na Bíblia desde a antiguidade:

  1. Para os fiéis Deus já é o único rei legítimo, e todas as demais autoridades são no mínimo problemáticas, quando não são mesmo comprometidas, malignas e demoníacas;
  2. É a mentira e não a verdade que prevalece na terra.

O ser humano típico gosta de acreditar nas mentiras e escolher um lado da Dialética do Ouroboros porque não quer receber o dom da Vigilância que o Espírito Santo nos dá para suportar o fato de que nós todos nascemos como escravos, vendidos para o diabo pelos nossos ancestrais, e então crer que a nossa única salvação está em cumprir o Decreto de Gênesis 3 seguindo Jesus Cristo: aceitando a morte e recebendo a ressurreição.

Charlie Kirk, na prática, desprezou o exemplo de Jesus Cristo, assim como sua esposa desprezou o exemplo da Virgem Maria. Eles preferiram imitar Adão e Eva, e os poderes do mundo aplaudiram e exaltaram o casal, como sempre fizeram desde o princípio, e como farão até o fim.

Como Jesus veio pessoalmente revelar a verdade e ainda a revela a quem a quiser receber, a história de Kirk não é uma tragédia. É um drama que terminará como comédia, para aqueles que crêem.

PS: pode ser que estejamos muito perto da ativação de protocolos avançados de controle ditatorial dentro de uma tecnocracia totalitária. É possível que as coisas que eu expliquei aqui já sejam suficientes para não só uma censura futura, mas mesmo para sanções automáticas com efeitos transnacionais. Percebam que uma legislação aprovada no Congresso norte-americano pode ter efeito sobre cidadãos brasileiros, pelo simples fato de que o sistema financeiro já tem efeitos em escala mundial. A Marca da Besta pode mesmo não estar muito longe de nós na escala do tempo. Mas ainda parece ser inviável que tudo se resolva até Setembro de 2028. Veremos.

Marcial Maciel (O Lobo de Deus), série por Matías GUEILBURT

Para que não digam que a Religião em geral, ou a Igreja Católica em particular, é perseguida com alguma obsessão, a história de Marcial Maciel, o fundador da ordem dos Legionários de Cristo, serve para mostrar como o fenômeno da corrupção moral humana é universal e não só não escapa do âmbito da religiosidade, como parece se acomodar muito bem dentro desse tipo de ambiente. É como se identificássemos que num mundo inteiro que é governado por Satanás, parece que o diabo tem uma certa preferência e um carinho especial, entre seus vários domínios, pela Religião.

Este breve documentário da HBO em quatro episódios conta a história de Marcial Maciel, mais um monstro religioso travestido de santo.

Nasceu no México em 1920. Efeminado quando criança, Maciel sofreu bullying, abandono e abuso. Incapaz de carregar a sua cruz e seguir Jesus, de algum modo parece que ele quis se encaixar e participar profundamente do jogo do mundo que o mal tratou. E o fez com a excelência dos maiores perversos.

Maciel decidiu seguir uma suposta missão pessoal como católico, mas num sistema quase paralelo. Ordenou-se padre, mas interessava-se mesmo era em arregimentar quadros e acumular poder, especialmente na exploração da fragilidade alheia, oferecendo acolhida à crianças e jovens de famílias carentes, e ganhando doações de viúvas sentimentais, e de ricos com a consciência culpada. Com o máximo de autonomia e emprestando autoridade e prestígio da Igreja Católica, fundou a ordem dos Legionários de Cristo, inspirado na Ordem dos Jesuítas. Não se pode negar que Maciel tivesse grandes capacidades de organização, e que fosse um oportunista muito habilidoso.

Maciel se financiava com a ajuda de pessoas ricas, especialmente viúvas abastadas, e com o dinheiro abria institutos de educação para formar uma nova elite católica. Essa elite se contraporia ao modernismo do Vaticano II e aos avanços do marxismo da Teologia da Libertação na América Latina. Enquanto os idiotas se distraíam com essa fachada, Maciel concentrava poder e dinheiro, e se divertia com os abusos de menores e de drogas.

Maciel corrompeu a hierarquia da Igreja com dinheiro, e principalmente com o seu poder de arregimentar grupos sociais para o organismo religioso. Numa época de crescente liberdade religiosa, essas grandes e velhas instituições como a Igreja Católica são sedentas por renovações dos seus quadros, especialmente de lideranças capazes de trazer as novas vítimas necessárias à manutenção do sistema, a nova geração. Maciel foi extremamente bem-vindo como líder popular e carismático, trazendo de reboque uma vasta clientela e novos operários das engrenagens religiosas, além de um fluxo constante de doações. E para envernizar essa obra maravilhosa, Maciel vestiu os Legionários de Cristo com as roupas dos campeões contra o Vaticano II, contra o Comunismo, etc.

Mas aos poucos seus crimes se tornam conhecidos e isso cria uma situação problemática na Igreja Católica. Em 1956 Macial é afastado de suas atividades depois de uma investigação. Mas com a morte de Pio XII ele volta à ativa. Mais tarde Maciel encontra um grande parceiro em João Paulo II, esse santo que provavelmente foi o maior responsável por cobrir Maciel com um manto de legitimidade e autoridade.

Expandindo suas atividades, Maciel cria a Regnum Christi para atrair jovens mulheres para apoio aos Legionários, tomando seu dinheiro, seus serviços, etc., basicamente escravizando essas mulheres, inspirado na idéia da instituição dos leigos consagrados da Opus Dei. Observe-se novamente que, assim como aconteceu com os Jesuítas, Maciel não inventou nada: todo o esquema de exploração dos seres humanos em nome de Deus já estava pronto e em funcionamento nesses vários tipos de organização. Tudo o que Maciel fez foi repetir essas programações.

Maciel usava as vastas doações doações de dinheiro recebidas pelos Legionários para manter um estilo de vida luxuoso, e também para o suborno de autoridades políticas ou religiosas, estas últimas através principalmente de “obras de caridade”. Lavagem de dinheiro e desvios de recursos para paraísos fiscais se tornaram uma especialidade na ordem dos Legionários.

Eventualmente acusações mais graves e mais comprovadas são feitas, finalmente, quando algumas das principais vítimas de Maciel decidem que não aguentam mais mentir e esconder os fatos. As denúncias contra Maciel tiveram que ser feitas nos EUA, porque no México era inviável a acusação de uma celebridade como ele. Isso nos faz pensar: o quanto é inviável a denúncia dos famosos em geral, quando isso arrisca causar um grande escândalo e até o abalo da ordem social? Vejam como funciona o comprometimento moral da sociedade humana ao esquema de Satanás: emprega-se um tão grande alinhamento das consciências a esses esquemas mentirosos, que a desmoralização geral da comunidade torna inviável a revelação da verdade. É isso o que autoriza o procedimento do sacrifício ritualístico dos bodes expiatórios: uma vítima simbólica deve morrer como símbolo do mal, para que o próprio mal possa se perpetuar no governo de uma sociedade hipócrita e moralmente apodrecida. No fim, até com Maciel será este o caso. Vão-se os anéis, ficam os dedos: o líder morre, fisicamente e simbolicamente, mas os Legionários continuam, e principalmente a Sacra Igreja Católica Apostólica Romana.

Entre suas várias aventuras, Maciel teve esposa e filhos, tanto no México como na Espanha. Era um ator, um farsante, um grande mentiroso. E apesar de ter seus vários papéis no mundo, ele nunca quis realmente ser bom em nenhum deles. Abusou de seus dois filhos mexicanos. E conseguiu, sabe-se lá como, que o próprio Papa João Paulo II batizasse sua filha espanhola, Norma. Desculpem, mas se além do dinheiro e do prestígio de Maciel, se ele não tivesse também o poder de chantagem contra lideranças católicas, não sei se certas coisas seriam possíveis. Afinal, de que outro modo uma instituição tão poderosa poderia ter sua liderança maior submetida aos caprichos e desejos de Maciel? Entendem como isso funciona? O governante de todas as religiões é o Ouroboros, a grande e velha Serpente, desde o seu primeiro pacto com o primeiro dos homens, Adão. O que Maciel fez foi usar as ferramentas espirituais de conquista e concentração de poder, que é a moeda do diabo, e com isso Maciel ganhou controle até sobre a Igreja Católica. Este mundo está a serviço do diabo, com a exceção daqueles que são livres da busca pelo poder, aqueles que amam a Deus e ao próximo.

Já depois de muitas denúncias, o Vaticano ainda reconhecia e legitimava a posição de Maciel, inclusive num grande evento com o Papa no Vaticano para celebrar o aniversário dos Legionários de Cristo. Uma grande vergonha, e uma grande evidência para quem não tem medo de reconhecer a verdade.

Um novo processo interno de investigação é iniciado pelo então Cardeal Ratzinger. Esse processo continua depois da morte de João Paulo II, e é finalizado no papado do próprio Ratzinger, já como Bento XVI. Porém, qual é a resposta que a Igreja dá para o caso? Maciel é afastado da liderança dos Legionários e é recomendado a viver em oração e penitência. Obviamente Maciel ignora a recomendação e faz o que quer. Ele viaja pelo mundo, inclusive para a Tailândia, onde parece que se diverte com a exploração da prostituição de menores.

Com isso se vê que não há grande diferença entre este papado, ou aquele papado. Essa dialética imita aquela que vemos operar na política: é uma distração para enganar os imbecis.

Desde a época de Pio XII se sabia dos crimes de Maciel, mas ele nunca foi julgado nem condenado por nada. Maciel soube explorar muito bem a corrupção de pessoas e principalmente de instituições, com as massas de pessoas e as grandes riquezas dos Legionários.

Se a Igreja quisesse proteger os órfãos e as viúvas, que é a religião verdadeira que Cristo instituiu, ela teria impedido Maciel de agir. Mas ela não só não o impediu, como o autorizou e legitimou. Pelos frutos conhecereis a árvore. Foi isso que Jesus ensinou. Sai dela, povo meu!

Na maior ilusão, alguns dos acusadores de Maciel, querendo separar a religião ideal da religião real, acusaram Maciel de ser apóstata e ateu.

Mas foi justamente na condição de religioso que Maciel se realizou como predador, com a cobertura, leniência, omissão e negligência da própria Igreja Católica.

Como já dissemos antes, a Igreja Católica é um projeto messiânico igual ao Partido Comunista, apenas mais antigo e tradicional: quando falha, nunca perde o brilho da sua forma ideal que continua sendo acreditada como se Deus tivesse algo que ver com as ilusões humanas.

Quanta ilusão! Não foi enquanto apóstata e ateu que Maciel explorou suas vítimas, mas enquanto líder religioso consagrado pela Igreja Católica. Eis a força da mentira e da ilusão humana.

Pensando na pessoa de Maciel em si mesmo, o que ele poderia ter feito? Poderia ter carregado a sua cruz como vítima de abuso, e se quisesse poderia ter buscado a castidade e a virtude dentro da Religião, ou então, poderia ainda carregar a sua cruz como pessoa afastada da Igreja e do Poder do mundo, vivendo de forma privada da melhor maneira que pudesse.

Mas ele faz a pior escolha de todas, se tornou um lobo travestido de cordeiro, e usou do poder e do prestígio da Religião para abusar e explorar seres humanos vulneráveis.

O maior problema não é que existam tipos como Maciel.

O maior problema é que estes tipos sejam os líderes mais aplaudidos e reverenciados da humanidade.

Nota espiritual: 5,7 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade8
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,7

Retórica, livro por ARISTÓTELES

Neste trabalho o nosso filósofo tratará da arte do discurso persuasivo. Ainda estamos no território da imagem ou aparência da verdade (doxa, ou opinião). A diferença com relação ao que vimos antes, na Poética, é que lá a verdade era imitada sob o aspecto da impressão, como a gerada pelas sensações, enquanto aqui na Retórica a imagem da verdade adquire maior grau de abstração, como o que é gerado pelo discurso.

O Estagirita nos dá logo a sua definição da arte retórica:

Essa explicação está em linha com a prévia investigação socrática-platônica a respeito do objeto indeterminado da sofística. Que habilidade é essa que permite falar de tudo com maior poder de convencimento do que aqueles que conhecem melhor cada tema em particular? Isso gerava perplexidade e até antipatia da parte dos filósofos. Já Aristóteles, com um espírito mais frio e científico, não se preocupa tanto com a denúncia dessa prática quanto com o entendimento dos motivos da sua efetividade. O que é próprio do discurso retórico é a sua atuação sobre aquilo que é persuasível em qualquer caso. Assim, tanto quanto vimos, no Órganon, que a estrutura da lógica analítica é universal para todos os intelectos, do mesmo modo as propriedades daquilo que é persuasivo são universais para todas as psiques. Todos os seres humanos costumam ser convencidos daquilo que é verossímil do mesmo modo.

Aristóteles percebe que o discurso persuasivo orbita em torno de seu tema, sobre o qual pode conjecturar indefinidamente, mas se apóia em duas componentes alheias ao assunto em si: a credibilidade do orador (ou autor), e as emoções e inclinações do ouvinte (ou leitor), que é o árbitro e, portanto, o elemento “que determina a finalidade e o objeto do discurso“. O objeto da retórica não é a verdade, mas o movimento da crença do juiz do discurso. Um discurso que seja desqualificado por sua relação com a verdade sobre o assunto pode se tornar convincente apenas porque seu autor possui credibilidade suficiente, ou porque as emoções e inclinações dos ouvintes foram movidos na direção que convinha para que fossem persuadidos.

A verdade é convincente por si mesma, mas a aparência da verdade pode ser convincente por recursos alheios ao que é verdadeiro. A arte retórica explora esses recursos.

Como bom inventariante que é, Aristóteles logo começará a fazer listas de coisas, o que aliás parece ser algo típico de pessoas inteligentes, ou no mínimo curiosas. Sobre temas do debate político ele relaciona os assuntos fundamentais sobre os quais as disputas políticas costumam versar, quais sejam: recursos, guerra e paz, defesa nacional, importações e exportações, e legislação. Eu poderia penalizar este segmento por sua Ingenuidade, já que com a consideração do efeito do Pecado Original sobre todos esses temas políticos, estes restam vazios (res exclusae in limine) ou ao menos muito preteridos em face da conveniência do desarmamento moral generalizado em direção à idéia da Melhor Geração. Mas o filósofo apenas inventaria aqui aqueles assuntos políticos que são debatidos de acordo com o costume, e portanto não pode ser responsabilizado pelo que os outros entendem ser de maior importância. Se ele próprio produzisse um juízo de mérito a respeito, então poderíamos avaliar essa decisão, como deverá ser o caso na avaliação da sua Política, ocasião na qual poderemos confrontar as suas posições.

Algo diferente talvez ocorra quando o filósofo passa a listar os bens que produzem, por sua posse, a felicidade dos seres humanos. Ele não erra ao reconhecer que a felicidade e os seus componentes são universalmente desejáveis. Mas possivelmente erra na própria listagem desses bens, para não falar na omissão sobre a origem primeira de todos os bens, o que pode levar ao erro do Psiquismo. Vejamos o trecho:

Já Sócrates, e com ele Platão, afirmava a superioridade da virtude (arete) sobre todos os outros bens. Nós mesmos podemos ir além e afirmar a Graça como a fonte de toda felicidade verdadeira. Novamente me inclino à leniência, porque Aristóteles pode se referir, mais uma vez, àquilo que é acreditado pelo costume, como ele mesmo nos avisou que faria, e como aliás faz sentido que faça, já que reconhecemos que a retórica visa à persuasão e não à investigação da verdade. Mas há o erro, talvez, de não disputar ou ressalvar o quanto essa valorização pode ser prejudicial. Como ele enfatizou a origem axiológica dessas idéias, o que é muito apropriado e exato, de novo podemos deixar passar. É difícil glosar Aristóteles. Mas oportunidades não faltarão para um reexame das idéias por elas mesmas, como com o Da Alma, com a Ética a Nicômaco, etc.

Sua definição daquilo que é bom é excelente e possivelmente até insuperável:

Grande é a importância de dois componentes nessa definição: a característica da finalidade e a característica da racionalidade. A finalidade torna todos os meios dispensáveis todas as vezes em que isso for possível, e a racionalidade implica na falsidade dos bens que são considerados apenas pela sua natureza e independentes de finalidades. Ambos componentes são espiritualmente vitais. Aqui Aristóteles se mostra um legítimo e digno herdeiro do idealismo platônico, e se mostra também livre, pelo menos por ora, de qualquer Naturalismo.

Neste trecho do Capítulo 6 vemos como o nosso filósofo é exato em seus termos, razão pela qual sempre foi muito apreciado:

A chave está na expressão “a consideramos um fim“. Esse caráter subjetivo neste tipo de juízo mostra o grande perigo da capacidade e do interesse humano de perverter o senso da realidade das coisas. Pois o modo de proceder típico desses seres criados no cativeiro da Idolatria e na cultura do Pacto Sadomasoquista é o de fazer o valor dos esforços e sofrimentos dos meios das ações humanas emprestarem legitimidade, de modo artificial, às finalidades. É uma racionalização abusiva e falaciosa, a justificação das finalidades pelos meios. O fato de que quaisquer meios para a obtenção de determinados fins tenham sido custosos, especialmente em termos da impressão subjetiva causada por sofrimentos gerados por danos ou esforços deliberados, não servem para a qualificação dos fins. Qualquer fim deve ser bom por si mesmo, por definição, já que isto é o que qualifica e determina a essência daquilo que é uma finalidade. Aristóteles não se aprofunda nisto agora, mas seu testemunho é bom o suficiente para nos despertar um alerta: o quanto não pode ser conveniente a um ser ao mesmo tempo racional em potência e ignorante em ato a atribuição retroativa da bondade dos fins de suas ações pela consideração do valor subjetivo dos meios voluntariamente empregados? Numa alma predisposta à Presunção, especialmente, é mais fácil simular a Sabedoria do que ser Humilde, porque para o orgulhoso a Humildade é humilhação.

Ainda nessa matéria da prioridade dos fins sobre os meios, nosso filósofo tem mais observações interessantes e que merecem ser notadas, por mais óbvias que sejam:

Ora, não há causa mais primordial, mais benéfica, ou mais perfeita nos seus meios e nos seus efeitos, do que a Graça, que é a ação divina por excelência. Aristóteles não tem a obrigação de reconhecer isso, mas os filósofos cristãos têm. E isso especialmente em face do sentido do Pecado Original. Ninguém podendo restringir a potência da criatividade divina, resta como absurda toda ação que se presuma boa por livre deliberação sem o constrangimento das circunstâncias, principalmente quando implique em riscos evidentemente inapropriados.

Por uma razoável extensão o autor fará o inventário dos elementos mais convincentes para a persuasão, com ênfase nos âmbitos das disputas forenses e políticas. Aqueles que estão envolvidos nesses tipos de atividades podem encontrar instruções valiosas nesta Retórica.

Naquilo que nos interessa, que é o sentido espiritual, há uma passagem relevante sobre o amor e a amizade que vale a pena destacarmos, sem prejuízo de futuras manifestações da parte do mesmo autor em outras obras:

Esta definição de amor (philia), ou amizade, é perfeita. Essa noção mostra como todas as outras relações humanas, em contraste, refletem posições como de poder ou posse, e conflitos de interesses pelos bens relativamente a uma das partes em detrimento ou em indiferença aos interesses das demais. Sócrates, e com ele Platão, já havia notado isso, e Aristóteles subscreve.

Em outra passagem descobrimos um importante testemunho à favor da Vigilância:

Aqui novamente ressalvamos o destaque para a função técnica desses testemunhos, o que implica que não necessariamente o filósofo endossa essas idéias enquanto investigador ou na competência de pessoa particular que emite sua opinião. Mas, com o risco de que bons testemunhos não sejam reiterados em outra ocasião, prefiro fazer o destaque do citado.

E no que isso implica? Na corrupção e na decadência reconhecidas por efeito das inclinações naturais, de modo que a virtude e a bondade não são naturais, extraordinárias. A natureza não é boa e não inclina os agentes livres ao bem e à virtude.

Esse testemunho não só auxilia à favor da Vigilância, mas também favorece o reconhecimento da Presença, particularmente contra a Idolatria naturalista. Estamos falando de um filósofo pagão sem acesso ao testemunho revelado da Queda gerada pelo Pecado Original. Com qual subsídio operam então os medievais aristotélicos a exaltação da Lei Natural para além da sua justa medida, que é a da regulação dos entes submetidos à corrupção da Queda? Se os gregos já tinham produzido a Segunda Navegação e superado, assim, o naturalismo fisicalista das gerações precedentes de investigadores, de onde os medievais tiraram então a revalorização da Natureza acima do seu nível de direito? De outras fontes, como até certo ponto também Agostinho o tinha feito. O que está em jogo é a sanidade filosófica do escape da dupla armadilha da Dialética do Ouroboros: nem rejeitar o Limite, e nem legitimar a Mistura. Isto é: nem negar a bondade de alguma natureza simpliciter revelada como expressão do Limite, e nem a idolatria de uma natureza secundum quid já condicionada pelo mau uso da Liberdade.

A natureza amável é aquela mais pura e mais simples, gerada pela vontade divina e não pervertida ou deturpada pela agência de quaisquer outras vontades, e não aquela que foi arruinada pela ação humana.

Mais adiante, no Capítulo 21, ao tratar do emprego das máximas, Aristóteles mostra com clareza como a arte retórica tende à mentira e à corrupção:

É persuasivo, e isso não deveria nos surpreender, o discurso que não só confirma as opiniões que o público já possui, mas que usa de sua arte, como com o emprego de máximas, para tornar essa opinião valorosa com as formas da Sabedoria (principalmente através da pretensão de universalidade).

E também é persuasivo o discurso que versa sobre coisas nobres e qualidades virtuosas, porque se supõe que aquele que fala do que é superior possui em si próprio algo de superior.

Em suma, o ser humano está geralmente predisposto a enganar e a ser enganado, e cria até mesmo uma arte refinada com o propósito de conquista e dominação da vontade alheia, independentemente da bondade ou verdade de suas idéias.

Assim como o discurso poético tem o potencial, derivado de uma capacidade humana geral para a mentira, de produzir uma falsa imagem da verdade, também o discurso retórico possui este potencial, embora o desenvolva em outra direção, não por artes imitativas, mas por artes discursivas.

Dito isso, o componente mais crucial da arte retórica como um todo, e que a inclina para a malícia ou corrupção derivadas de algum grau de Presunção, é o fator da busca do verossímil à revelia do provável em face de uma decisão tempestiva. O discurso retórico quer persuadir um árbitro, ou juiz, a decidir em tempo hábil sobre o objeto em disputa, e portanto sacrifica o desejo pelo que é bom e verdadeiro em face daquilo que parece ser bom e verdadeiro, isto é, opera uma espécie de troca do Amor (pela verdade) pelo Poder (para agir).

Isso significa que qualquer situação que leve um agente a ser persuasivo não por força das circunstâncias, mas por Pretensão, constitui uma tentação para a malícia.

Igualmente, aqueles que são amantes do Bem e da Verdade agem como seres livres da necessidade da arbitragem em qualquer disputa a que não sejam obrigados a participar por força maior, e se dão o direito mais nobre de buscar o mais provável ou certo, podendo assumir em seu benefício o fato de sua ignorância, sem sofrer a pressão como fazem aqueles que se escravizam em busca do Poder.

Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,3

Sendo a Singularidade inefável senão para um Intelecto infinito (divino), a única relação possível do ser finito com o infinito é o de amor como contemplação, confiança e repouso, atos antes volitivos do que intelectuais (§2, Cap. I)

§ 2. Sendo a Singularidade inefável senão para um Intelecto infinito (divino), a única relação possível do ser finito com o infinito é o de amor como contemplação, confiança e repouso, atos antes volitivos do que intelectuais. A Singularidade, ou Unicidade, é a qualidade de Absoluto e Infinito que Deus possui e que só Ele mesmo pode conhecer. Que exista o Infinito e o finito e a relação entre os dois é uma necessidade metafísica derivada da Percepção de qualquer contingente, já que sem Limite não há Percepção de formas discretas (conteúdos formais cuja primeira qualidade é a de participação no Ser e de formalização pelo Princípio de Identidade), e sem o Infinito não há atualidade possível a qualquer ser informado por um Limite. A operação do Intelecto é sempre garantida, do contrário não há sequer a Percepção da relação. O Uno, que transcende infinitamente, na sua completude, a capacidade de apreensão de um intelecto finito, só pode ser objeto de Amor e não de Gnose. O conhecimento sempre pode se expandir, da parte do intelecto finito, mas nunca alcança aquilo que só a vontade completa por sua crença voluntária sobre a essência da Unidade, especialmente na qualidade da Bondade. Daí o moto da Monadofilia ser “Coram Uno Amor Tantum” (“Diante do Uno, apenas o Amor”). A Unidade plenamente cognoscível ao ser contingente perderia sua essência e integridade, e se reduziria apenas a uma imagem do Ser da Unidade, como ocorre com as idolatrias da Natureza e do próprio Homem, por exemplo. O Uno só pode ser conhecido adequadamente, assim, através do amor que completa por desejo voluntário aquilo que o intelecto finito alcançou no seu Limite. Essa é uma aplicação direta das súmulas do Evangelho: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11:27), “Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14:6), “A vida eterna é esta: que eles te conheçam, a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (17:3), “Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” (Jo 17:22) e “Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17:26).

Monadofilia é uma filosofia cristã que propõe o Amor pela Unidade, que é a forma do Ser (§1, Cap. I)

Monadofilia é uma filosofia cristã que propõe o Amor pela Unidade, que é a forma do Ser. A filosofia é o amor pela sabedoria. O amor é o desejo que o amante tem pelo bem do amado. A sabedoria é o conhecimento do Bem, o conhecimento dos Princípios, o conhecimento do conhecimento, ou a Apercepção da Percepção, ou a consciência da consciência: ela informa o ser que conhece, que percebe ou que é consciente do valor e do sentido de sua experiência intelectual. Essa sabedoria, ainda indiferenciada e desqualificada, se apresenta apenas como um ideal amável pelo filósofo, pela inspiração que o conhecimento das verdades apodíticas (aletheia apodeixis) demonstradas inicialmente pela Geometria, e depois depuradas conceitualmente nas idéias de juízos analíticos a priori (Kant), ou juízos de razão (Leibniz), sugerem. Como a Sabedoria cristã é diferenciada e qualificada pelo conteúdo revelado do Evangelho, a filosofia cristã é o amor de quem ama a Sabedoria do Evangelho, de modo que tanto a premissa maior quanto a conclusão final são dadas antes do processo filosófico em si. Desta maneira a investigação filosófica cristã não tem como propósito descobrir o objeto do seu amor, que é o Evangelho, mas somente o motivo de porque ele é amável. Sendo o Intelecto humano gerado e sustentado pela Graça da iluminação pelo Intelecto divino, a filosofia cristã não vai modificar o seu praticante senão na sua qualidade de amante esclarecido de Deus, como uma forma de realização do Primeiro Mandamento, na descoberta do sentido da bondade da Sabedoria divina que a torna amável. Note-se que todas as filosofias indiferenciadas, ainda que não possuam necessariamente conclusões peticionadas em princípio, devem possuir necessariamente premissas declaradas como autoevidentes, ainda que não sejam necessidades metafísicas. A escolha do Evangelho como premissa da filosofia cristã é somente a aplicação intelectual do conteúdo da crença cristã que se coloca para o crente como autoevidente tanto quanto quaisquer outras crenças podem ser indefinidamente postuladas por outros tipos de filosofia na formulação de suas premissas. O privilégio cristão é o da escolha de confiar em Jesus Cristo que diz de si mesmo: “Eu Sou a luz do mundo, quem me seguir não andará mais nas trevas, mas terá a luz da vida“. Os filósofos que não querem ser cristãos podem ter seus próprios privilégios, mas estes lhes custam a decisão de ser indiferentes ou repelentes ao testemunho que Jesus dá de si mesmo, por sua própria conta e risco. Por fim, a Sabedoria do Evangelho revela a Unidade como forma do Ser por diversas declarações, especialmente na Revelação do Filho de Deus em sua relação com o Pai, e no Amor como Causa Final do Ser. Isso se coaduna com a necessidade ontológica da Substância Simples, ou Mônada, que corresponde metafisicamente como princípio intelectual necessário ao Primeiro Mandamento e a Revelação do Nome de Deus (EU SOU), contra todo tipo de mentira na forma das várias idolatrias. Além do testemunho de Deus através de Moisés em Êxodo 20, temos Jesus afirmando que “o Bom é um só“, e o apóstolo Paulo ensinando que “Nele somos, nos movemos e estamos“, entre outros exemplos que podem ser encontrados. O sentido da vida humana é encontrado na sua analogia, por imagem e semelhança, com o Ser divino, cujo Bem é encontrado em Si mesmo, e cujo bem particular que nos completa contingencialmente é informado pelo nosso Limite. Com a consciência da Unidade do Ser sendo eminentemente amável, todos os erros intelectuais e morais derivados de ignorância ou confusão gerados pela ilusão da Idolatria se desfazem. Como filosofia cristã, a Monadofilia se propõe, assim, como a melhor descrição da natureza da realidade e da condição da experiência humana.

Brightburn, filme por David YAROVESKY

O casal Breyer deseja ter filhos. A primeira cena do filme mostra pilhas de livros com o tema da gravidez, sugerindo que o desejo da maternidade é uma obsessão, provavelmente da parte da mulher, Tori.

Enquanto o casal se entrega às preliminares para mais uma tentativa de causar uma gravidez, as luzes piscam e então ocorre um tremor, como causado por um impacto. Os dois verificam pela janela da casa que algo caiu na floresta próxima, algo que emite uma misteriosa luz vermelha.

Como se trata de um filme de terror, mantém-se um mistério no decorrer da história, mas aqui podemos exibir a ordem cronológica: basicamente o casal encontra um bebê dentro do que seria, supostamente, uma nave espacial. E decidem juntos criar o menino como se fosse seu filho, que será reconhecido como adotivo. Ele se chamará Brandon.

Aos dez anos de idade Brandon será afetado por alguma influência da sua nave de origem, descobrirá que tem poderes extraordinários, e decifrará a mensagem na língua misteriosa que lhe diz: “tome o mundo“.

O menino aos poucos vai se tornar um vilão, por não aceitar mais as limitações impostas pelas circunstâncias normais da vida de um garoto de dez anos de idade. Eventualmente comete seu primeiro assassinato, e daí para frente não tem mais retorno. A culminação da história estará no homicídio de seus pais adotivos, primeiro o pai e depois a mãe, ambos mortos na circunstância de terem decidido eliminar a criança.

O que temos de importante, espiritualmente falando, é um duplo alerta que enfatiza o dom da Vigilância.

Primeiro, observamos na obstinação da mãe uma cegueira particularmente perigosa que serviu apenas para a leniência diante da consumação do mal para uma série de pessoas (e, como o filme vai sugerir ao fim, talvez do mundo inteiro). No começo do filme Tori se mostra obcecada com a idéia da gravidez, e foi dessa obsessão que saiu a idéia de criar o bebê que caiu na floresta em primeiro lugar. Depois, ela não quer aceitar a hipótese de que há algo de muito errado com o rapaz, quando já tem razões de sobra para concluir racionalmente o contrário. Se não fosse obcecada, Tori poderia ter deixado outras providências e circunstâncias terem interferido com o aparecimento do bebê, e depois teria dado chance para que outras pessoas, inclusive seu marido, pudessem sobreviver aos ataques da criança. Não seria de todo impossível inclusive fazer o menino alterar sua disposição com relação ao mundo, etc., mas isso requereria que Tori quisesse viver no mundo real, e não na sua ficção. Se a nave de origem de Brightburn lhe influenciou numa certa direção, porque seus pais, e principalmente sua mãe, não poderiam ter contraposto essa influência com outra maior na direção oposta? Não nos esqueçamos que todos os atos de violência do menino têm como motivação uma frustração com outros seres humanos, o que é uma experiência normal para qualquer adolescente. Diante dos limites impostos por regras e convenções, conhecendo sua superioridade, o menino não sabe como agir, e vai aceitando a sugestão da programação que vem da nave (ou que ele acha que vem da nave). Tori poderia ter sido uma influência para o bem, se quisesse, mas não poderia fazer isso enquanto negasse a verdade dos fatos. E o que o filme sugere é que a criação de Brandon não foi boa o suficiente, até antes do momento da influência da programação advinda da nave, para que o rapaz contrapusesse por sua própria conta essa nova afetação à um quadro estável, forte e profundo de valores que gerassem na sua consciência uma oposição moral suficiente para impedir a sua decadência. Por exemplo, a influência de valores morais que estariam acima até de um extraterrestre superpoderoso vivendo entre humanos fracos, como os valores que a família Kent teria transmitido ao jovem Superman. Ora, quem foi a pessoa mais responsável entre todas, no mundo inteiro, por ajudar a criar essa consciência moral no jovem Brandon? Tori. Ela falhou. Não se deve supor que as leis dos homens e os seus sistemas de fiscalização e punição serão sempre suficientes para impedir a ação criminosa. Muito mais poderosa é a capacidade de autocensura e o autocontrole de natureza moral. Mas isto requer o reconhecimento da grandeza de uma instância que está acima dos homens, as famosas leis não escritas às quais já os antigos gregos se referiam, ou o Temor de Deus ensinado pela Revelação, etc. Será que Tori se preocupou em aprender ela mesma essas noções, ou em transmiti-las ao seu filho? Ou ela só estava preocupada em viver a fantasia pequena e mesquinha de um papel vazio de mãe?

Segundo, Brandon, que se tornou o vilão Brightburn (em homenagem à cidade em que foi criado), poderia ser comparável com qualquer algoz real da humanidade. Quem deseja um filho nunca imagina que este possa ser um vilão de verdade, mas de onde os vilões saem? Do nada? Não, eles saem desse desejo irracional de multiplicação das Obras da Carne. Isto se aplica ao caso, porque ainda que tenha sido adotado, Brandon o foi no contexto do desejo particular de Tori de ser mãe. Ela não considerou qual seria o possível efeito negativo de criar uma consciência sensível que seria afetada pelas várias brutalidades e limitações do mundo, como por exemplo as mães de estudantes revoltados costumam desconsiderar, e depois se surpreendem quando o resultado dessa sua temeridade acaba em violência. Não é estranho, quando sabemos que ocorreu algum tiroteio em uma escola, provocado por exemplo por um jovem perturbado, talvez vítima de bullying, que esse tipo de crime ainda surpreenda tantas pessoas, quando deveria ser mais previsível que isso ocorresse eventualmente dada a relativa absurdidade da condição humana quando esta não é justificada por valores superiores e transcendentes, como o da vida na Presença? Todos os tiranos, psicopatas, sociopatas, assassinos, torturadores, estupradores, ladrões, etc., são todos filhos das mães, produtos do desejo de pessoas como Tori. E, como diria Agostinho, se o ser humano se abstivesse dessa vontade irracional, nada menos que o advento do Reino de Deus seria antecipado, e em uma geração o domínio de Satanás sobre este mundo seria destruído eternamente.

Já sabemos, porém, que não vai ser assim…

Nota espiritual: 5,6 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,6

Poética, livro por ARISTÓTELES

Ao tratar daquilo que é o poético, o Estagirita aborda imediatamente a distinção entre objetos e meios, afirmando que o que é próprio daquilo que ele chama de poético é a arte imitativa, e não o veículo próprio de apresentação desta arte, de modo que um filósofo pode usar meios aparentemente poéticos para produzir sua filosofia, e nem por isso se tornaria poeta. O contrário disso, porém, não nos parece ser verdadeiro, de vez que conforme o discurso é mais organizado formalmente parece que ele perde a sua capacidade imitativa. Assim, podemos encontrar, por exemplo, nas literaturas russa ou norte-americana, uma produção filosófica legítima, mas será difícil encontrar poetas que se expressem filosoficamente, porque esta expressão já exige uma abstração que viola o princípio das artes imitativas, que é o de sugerir possibilidades, que são aparências de verdades, e não probabilidades ou certezas.

É evidente que as artes imitativas podem ser usadas para a produção de ídolos, isto é, de objetos de culto no lugar da divindade real. Isso se dá porque a imitação pode ser veraz ou mentirosa. Precisamos distinguir, porém, com Aristóteles, os usos desse tipo de arte para conferir o quanto essa possibilidade tende a se realizar, mais ou menos, conforme o emprego das artes imitativa.

O filósofo nota que a imitação da vida humana deve ser capaz de representar as qualidades humanas, e portanto as virtudes e os vícios, e os caráteres superiores, ou nobres, e os inferiores.

Feita essa primeira observação, reparamos que um tipo bem antigo e clássico de arte imitativa, a poesia épica, como a de Homero ou Hesíodo, tem como objeto tipos superiores de seres humanos no contexto de assuntos da maior seriedade, e o elogio da sua virtude, fazendo isto de modo narrativo, o que cria uma projeção ideal algo distante da realidade humana comum. É uma narrativa mitológica que se distancia da temporalidade convencional. Já a poesia trágica, por sua vez, como de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, traz essa virtude e nobreza para a realidade humana mais cotidiana, substituindo a narrativa pela representação direta da ação (drama) na dimensão temporal da nossa experiência pessoal. Deixemos o nosso filósofo, este primoroso definidor, nos ensinar:

Esse caráter purgativo, catártico, fazia da poesia trágica um elemento essencial da vida psíquica e religiosa dos gregos antigos, trazendo à sua consciência elementos cruciais do sentido da condição humana que sem essa expressão poderiam permanecer soterrados no subconsciente. Não foi à toa que essa civilização produziu uma grande filosofia. O discurso poético antecede o político, o científico, e finalmente o filosófico (v. Aristóteles em nova perspectiva, de Olavo de Carvalho). Antes que a realidade humana pudesse ser integralmente considerada de forma objetiva, ela precisava ganhar expressividade suficiente nos seus diversos sentidos subjetivos. Daí também notamos que uma poética pobre e limitada sempre tornará uma sociedade filosoficamente incapaz de abstrair, por não possuir elementos simbólicos suficientes para representar a totalidade da experiência humana.

O exemplo mais óbvio e imediato dessa dependência que a filosofia tem da poética se dá no caso brasileiro onde a representação da vida geralmente alcança apenas os caráteres inferiores, sendo normalmente incapaz de se referir ao que é superior senão de forma irônica, sarcástica, com zombaria, etc. Isso instala toda uma população no estado de Apeirokalia, a falta da experiência das coisas mais belas. As virtudes não podem ser racionalmente reconhecidas no âmbito das discussões sociais, políticas e filosóficas, se elas não forem primeiro reconhecidas no seu legítimo valor no âmbito do sentido simbólico da vida do dia-a-dia. Se a nobreza, a generosidade, a magnanimidade, etc., forem zombadas na arte imitativa, serão também zombadas na vida real, e a política e a filosofia não poderão se realizar usando essas virtudes, porque elas foram desqualificadas pela arte imitativa. Aquilo que não compõe a imaginação primeiro, não poderá compor a abstração mais tarde. Daí observamos facilmente a grande futilidade desses empreendimentos políticos no Brasil, querendo salvar uma pátria que está poética e moralmente apodrecida, como se fosse possível alcançar paz e prosperidade numa sociedade em que a cultura é de ódio, violência, baixaria e futilidades. Não faz sentido algum. Uma árvore ruim não dá bons frutos. Primeiro seria preciso plantar boas árvores, e disso se colheria então bons frutos.

Voltando à Poética, numa de suas passagens mais notórias o filósofo nos ensina que a poesia está mais próxima da universalidade filosófica do que a história:

A maior seriedade, ou veracidade, da poesia se refere à sua maior universalidade ou pureza, desde que do ponto de vista mais universal do sentido das coisas, a possibilidade não só antecede a fatualidade histórica como é independente desta. Por exemplo, uma grande virtude, como de sacrifício da própria vida pelo bem de outro, não precisa se realizar historicamente para ser possível, e mesmo quando se realiza na história, só o fez porque foi antes possível, e é nesse âmbito de possibilidade que essa virtude possui a sua qualidade universalmente distintiva, o que é apreciado de forma mais pura na poesia porque esta destaca o caráter essencial da ação, como o valor heróico daquele que se sacrificou, enquanto na história o que tem importância se mistura com acidentes que desqualificam o caráter da ação, como a afirmação de que o herói era de uma certa etnia, tinha certa idade, era mais alto ou mais baixo, ou que vestia certas roupas, etc.

A respeito do potencial idolátrico das artes poéticas, como a avaliação disto não é o objetivo de Aristóteles, só podemos nós mesmos refletir sobre isso por nossa própria conta. Uma passagem do livro talvez nos ajude:

Reparem que estamos falando de uma poesia épica que tinha uma função religiosa e cívica. Isso não é uma novidade. Já vimos Platão afirmar expressamente que a mentira é necessária para o governo da sociedade. Qualquer reserva, portanto, quanto à legitimidade das fontes públicas de autoridade, inclusive e principalmente do tipo religioso, é autorizada pela mais elementar noção de como é fabricada realmente a “salsicha”, desde testemunhos antigos como esses de Platão e Aristóteles. Os ídolos são fabricados como instrumentos de poder sobre as massas que não buscam a verdadeira autoridade, que é a divina.

De resto o filósofo aponta para o que convém mais à arte imitativa, fazendo inclusive notas valiosas do ponto de vista gramatical, sobre a identificação de erros, etc.

Aristóteles obviamente não nos disse tudo o que podia sobre esse tema. Aquilo que nos está perdido só pode ser imaginado ao gosto de cada um e de suas preferências.

O filósofo termina por afirmar que a tragédia é a arte poética superior, principalmente por razões técnicas ligadas à extensão desse tipo de obra em comparação com as epopéias, e também pelo potencial de atingir os seus objetivos psicossociais com maior chance de acerto (embora em grande dependência da qualidade dos atores).

Falta-nos, porém, o elogio da comédia como recurso contrário à idolatria humanista e à Ingenuidade. Mas não podemos culpar Aristóteles pelo que ele não disse.

Nota espiritual: 4,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,7

John Wick, filme por Chad STAHELSKI

Assisti os quatro filmes da franquia John Wick: De volta ao jogo (2014), Um novo dia para matar (2017), Parabellum (2019) e Baba Yaga (2023).

Esses filmes não merecem uma análise detalhada, de um por um. Vou fazer apenas este comentário e já valerá para os quatro.

Parece que Keanu Reeves está sempre envolvido com filmes violentos especificamente voltados para a expansão dos limites do que é culturalmente tolerável. Hoje isso deve ter sido esquecido, mas na época do lançamento de filmes como Velocidade Máxima, ou Matrix, essa discussão existiu. Mas é claro que isso já foi esquecido. Nem sei se John Wick chegou sequer a causar alguma discussão, mas se não causou, deveria ter causado.

O protagonista desta série é um homem com um passado violento de envolvimento enquanto mercenário com serviços criminosos, particularmente como assassino.

Depois de muitos sacrifícios para conseguir sua aposentadoria, ele finalmente fica com sua esposa em paz, que era o seu objetivo, até que ela morre subitamente de uma doença (câncer?). O viúvo se consola com seu carro e com seu cachorro, este último um presente de sua falecida esposa.

Por um lance do destino, talvez um tipo de carma, Wick esbarra com mafiosos russos que terminam por lhe roubar o carro e matar o cachorro, e isso basta para que o personagem busque sua vingança que levará quatro filmes para acabar.

No percurso da história desse desgraçado que tinha tão pouco para dar valor em sua vida (literalmente só uma esposa, um carro e um cachorro), a sua vingança o levará a confrontar grandes chefões mafiosos.

Descobriremos as altas instâncias do crime organizado e toda a sua institucionalidade: a rede de hotéis Continental como santuários do crime, os rituais de pactos de sangue, e a Alta Cúpula (ou High Table), cujo líder é um misterioso Ancião que vive no meio de um deserto no norte da África.

Eventualmente Wick conseguirá enfrentar todos os desafios e sair vivo e vingado. Mas o que foi exaltado nestes filmes? O poder e prestígio dessas organizações secretas, a glamourização da violência como recurso legítimo, e a suposta justiça do desejo de vingança do protagonista. São valores abertamente anticristãos.

John Wick deveria ser desprezado como o verme moral que ele é, nem tanto por suas querelas com os criminosos, mas principalmente por sua opacidade espiritual. Hollywood continua educando a juventude para ser no mínimo espiritualmente insensível, quando não ensina mesmo a própria ambição por tudo que há de maligno.

A miséria espiritual de John Wick é revelada já no começo do primeiro filme e constitui todo o seu problema: ele não tem Deus. Se tivesse Deus, não poderia realmente perder a esposa, nem o cachorro, e nem o carro. Tudo o que é amável está eternamente em Deus. De fato, o que John amava de fato era Deus na forma de sua esposa, de seu cachorro, e de seu carro. Sua cruz lhe cobrou o acesso imediato a experiência dessas coisas amáveis, mas Deus é imperdível. E tantas graças quanto poderiam haver foram desprezadas porque John Wick achava que tinha perdido o que há de bom para sempre. Se carregasse seu fardo e confiasse em Deus, poderia ter vivido tantas coisas mais que o aproximariam do Pai, mas ele não quis. Preferiu experimentar essa vingança inútil e desnecessária. A morte já estava pronta para acolher todos os seus algozes, porque a verdadeira vingança é de Deus, e desta ninguém escapa. Mas Wick, querendo se colocar no lugar que não lhe cabia, perdeu o lugar de amor que lhe era destinado. Uma vida perdida em ambição, cegueira e tolice. Será que um próximo filme pode mudar essa sina?

Nota espiritual: 2,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção2
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final2,7

Órganon, livro por ARISTÓTELES

Esta edição contempla vários tratados lógicos do Estagirita, a saber:

  • Categorias
  • Da Interpretação
  • Analíticos Anteriores
  • Analíticos Posteriores
  • Tópicos
  • Refutações Sofísticas

Diferente dos filósofos que o precederam, que distinguem mais intuitivamente do que analiticamente a diferença da sua investigação em comparação com a atividade dos sofistas, Aristóteles se aprofundará no entendimento da própria linguagem humana e na sua correspondência lógica com os fatos do mundo real. Podemos entender essa como uma segunda jornada no território do Sujeito da filosofia, enquanto produtor de discursos, assim como com Sócrates o Sujeito filosófico foi investigado enquanto agente moral. Esse empreendimento, entre outros, torna Aristóteles o filósofo mais completo de sua época, embora talvez não seja necessariamente o mais profundo, dependendo do quanto ele consiga –conforme veremos– colaborar na investigação mais poderosa dos metafísicos anteriores, isto é, o tema do Uno e do Múltiplo tal como foi abordado por Pitágoras e Platão.

No livro das Categorias encontramos a primeira correspondência ao Uno na forma do mais elementar dos tipos de nomes que podem ser produzidos, a Categoria da Substância, e dentro desta especialmente o que ele chama de Substância Primária. Diz-nos Aristóteles:

A determinação da substância primária afirma a sua prioridade no Ser e a sua singularidade enquanto compatível com a diversidade de qualidades do Múltiplo, qualidades estas que são indefinidamente possíveis e que recebem a sua própria determinação por ação do Uno. Isso não é dito, por óbvio, nas Categorias, mas não é difícil fazer essa dedução. A implicação metafísica disto produz consequências espirituais decisivas: tudo o que reconhecemos pela sua qualidade distintiva formal afirma algo do Ser, mas não se confunde com ele, porque não o determina, mas é determinado por ele. Nossa inteligência apreende as formas do Ser, manifestado na Multiplicidade das suas qualidades, mas o Ser mesmo não pode ser reduzido a nenhuma delas, pois as antecede ontológica e formalmente. Ou seja, a atribuição de substancialidade a qualquer Ser que não seja o Uno, inefável na sua singularidade, é um juízo falso que corresponde, na dimensão espiritual, ao erro da Idolatria.

Mais adiante, ao investigar na Categoria da Relação a comunicação lógica de termos contrários, diz-nos o filósofo:

Essa simples afirmação é suficiente para desfazer uma gigantesca pretensão platônica, e também gnóstica, que precedia essa distinção: a de que às oposições lógicas entre termos contrários intelectualmente distintos pelo reconhecimento de sua oposição, corresponda uma oposição real no próprio Ser. A bondade de qualquer qualidade, como o estado de saúde de qualquer ser vivo, reconhecível, não somente, mas também pela relação de oposição com a maldade do estado contrário, que é o da sua ausência, não exige que esta oposição tenha que ser realizada no Ser e reconhecida como existente, à não ser apenas contingencialmente, se esta distinção for experimentada por um agente livre que precisa conhecer seu próprio arbítrio na escolha daquilo que é bom.

Para Platão, as idéias são tão ou até mais reais do que os entes que as manifestam como suas imagens ou aparências. Daí que às idéias opostas a qualquer bem particular se intelige por oposição as idéias das suas ausências, os males que lhes correspondem, e estas idéias devem possuir tanto Ser quanto as suas contrárias. Assim, conhecemos o mal na experiência porque existe lá na dimensão do mundo das idéias platônicas essas idéias eternas de todos os males possíveis, de modo que se não fosse assim não poderíamos reconhecer a bondade das idéias contrárias. Essa doutrina é profundamente gnóstica, já que atribui dualidade à dimensão divina do plano das idéias eternas. Para haver Bem deve haver Mal, para haver Luz deve haver Trevas, etc.

Para Aristóteles, as idéias são verdadeiras para o Intelecto, sem precisar possuir substancialidade fora dele, ou seja, sem participação necessária no Ser. Só a Unidade, correspondente à Categoria da Substância Primária, é necessária. Portanto, a oposição entre o que é bom e o que é mau é apenas uma aplicação da Categoria de Relação para o reconhecimento de possibilidades que se contrariam no Logos, mas não necessariamente no Ser. O Bem não precisa do Mal para ser o Bem, e nem sequer para ser reconhecido como o Bem, senão apenas sob um aspecto da Categoria da Relação.

A ressalva que eu fiz acima se refere à carência do ser livre contingente, com Intelecto finito, que requer particularmente alguma experiência da oposição no ser manifestado para que possa conhecer sua própria liberdade de escolha entre uma possibilidade e a outra. A medida dessa carência, porém, é variável, como já vimos no tema da Razão Singular de Mistura Mínima (RSMM). Um Intelecto limitado, por não possuir a consciência atual de toda a bondade de todo o Ser possível como Deus possui, não pode aderir por uma vontade esclarecida na escolha do Bem sem conhecê-lo livremente diante de uma oposição concreta. Disto se depreende uma necessidade mínima de Mistura para esse tipo de ser realizar sua liberdade e escolher o Bem. A afirmação de que essa experiência contingente implica na necessidade ontológica de Mistura para qualquer condição de conhecimento do Bem não passa de uma Presunção advinda da Idolatria humanista e antropocêntrica. A forma como conhecemos o Ser não é a forma do conhecimento que Deus tem de Si mesmo. “Meus pensamentos não são vossos pensamentos, e vossos caminhos não são meus caminhos. Quanto os céus estão acima da terra, tanto meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos.”

Com os Analíticos Anteriores Aristóteles nos ensina a lógica do discurso com a função exclusiva de conferir a sua validade. A veracidade do discurso depende da evidência das premissas maiores que transcendem o seu escopo. Em outros termos: a verdade do discurso está fora dele, não é uma qualidade lógica sua, mas ontológica, referindo-se à ousia, o Ser, e não ao logos, que é o discurso posterior e análogo ao Ser. A qualidade lógica do discurso aponta apenas para a sua validade. O que é autoevidente constitui uma premissa verdadeira em si, enquanto o que não possui evidência por si tem somente a qualidade de probabilidade e só pode ser afirmado se a mesma formulação comportar a negativa contrária, de acordo com o princípio científico da falseabilidade. Em suma, e como Kant esclareceu muito bem mais tarde, o que pertence à razão humana não é a Verdade, mas sim a coerência lógica.

Aristóteles herda de Sócrates, através de Platão, um certo ceticismo que se torna ferramenta de rigor analítico do discurso. Nos últimos capítulos do Livro I dos Analíticos Anteriores ele menciona várias vezes o poder enganador dos discursos, especialmente quando as premissas não funcionam direito, seja quando as declaradas não se aplicam, ou quando as aplicáveis não são declaradas. Isso nos evidencia um problema clássico na investigação da verdade: a urgência, ou pressa, para se obter as conclusões de um discurso competem diretamente com a capacidade analítica de esclarecer a validade e a veracidade de todas as premissas necessárias ao aferimento dessas conclusões. Daí que o espírito filosófico, e mesmo o verdadeiramente científico, se inclina naturalmente para a contemplação, e não para a arbitragem de disputas e questões práticas, onde o convencimento pelo discurso persuasivo é mais conveniente para a formação da opinião. Essa contradição entre a contemplatividade da verdadeira Filosofia e Ciência e a praticidade de uma imagem finita da verdade na forma da opinião persuasiva sempre me pareceu um elemento essencial que diferencia os seres humanos entre Amorosos e Furiosos. Quem quer decidir, sem que tenha tido o poder para fazê-lo por imposição das circunstâncias, coloca-se num grande risco moral. Ninguém deveria fazer isso contra si mesmo, e nem contra os outros. Antes, a rendição ao Mistério do Ser exige do ser humano a redução ao máximo de sua exposição a essas atividades de arbitragem. Todo o Pacto Ouroboros, por exemplo, poderia ser evitado por essa simples opção pela contemplação no lugar da persuasão sedutora da conquista de alguma vantagem através do risco do engano. Sempre que todas as premissas de um dado argumento forem investigadas com verdadeiro rigor filosófico o espírito de Presunção será desarmado, porque amar a Verdade é o contrário de presumir possuí-la, e esse amor é experiência do dom da Humildade.

No Capítulo VIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, Aristóteles destaca a diferença radical entre o conhecimento superior e puro, referente ao que é Eterno, e o conhecimento inferior, ou misturado, dos contingentes:

Isso é muito relevante para um grande estudioso da natureza como foi este filósofo, porque nos dá a noção da grandeza de sua visão. Embora tenha se dedicado tanto ao estudo detalhado das realidades naturais, o Estagirita jamais deixaria de reconhecer a hierarquia do Ser desde os primeiros princípios e as necessidades metafísicas até as contingências da realidade natural manifestada na nossa experiência. Quando mais tarde uma certa idolatria na forma de Lei Natural tentar imprimir às relações entre os contingentes vínculos de necessidade de uma natureza indevida, como se fossem verdades metafísicas, isso constituirá um erro tremendo que levará muitos séculos para ser corrigido, primeiro com a filosofia franciscana da Idade Média, e depois com a filosofia kantiana. Esse erro foi um dogmatismo que feria a hierarquia das coisas e o próprio espírito da melhor filosofia aristotélica, como podemos notar na leitura desta passagem do Órganon.

Que, por exemplo, um ser humano não deva matar o seu semelhante, não é uma revelação da Lei Natural, mas uma revelação divina pertencente ao domínio daquilo que transcende toda natureza possível. Ao querer “enfiar” Deus na Natureza, o que o dogmatismo tradicionalista fez foi endossar o ramo exotérico da dialética gnóstica do Ouroboros, ou seja, a legitimação da Mistura.

Igualmente, e até com maior importância, o fato de uma certa Lei Natural apontar para a conveniência da procriação não modifica o âmbito espiritual que deve ser independente e permitir o reconhecimento, com Aristóteles, de que “no que concerne a relações corruptíveis, não há demonstração ou conhecimento scricto sensu, mas somente no sentido acidental em que o predicado ou atributo pertence ao sujeito não universalmente, mas num dado tempo ou sob dadas condições“. Os animais não podem atingir essa consciência, mas os seres humanos podem e, como podem, devem, no que aliás se realizam mais como criaturas à imagem e semelhança de Deus, e não dos animais. Com a categoria teológica da Cruz, ou com a filosófica da RSMM, podemos por exemplo entender como a reprodução pode ser conveniente para alguns casos, mas não para todos, e principalmente nunca como regra de uma suposta Lei Natural. A distinção entre Obras da Carne e Obras do Espírito, afinal, não pode ser deduzida da Lei Natural porque implica justamente na sua total transcendência, do mesmo modo que a virtude da castidade da Virgem Maria, ou mesmo de Jesus, sublima completamente o decaimento embutido na natureza amaldiçoada desde Gênesis 3. Curiosamente, Aristóteles não tinha nenhuma dessas noções reveladas pelo Evangelho, mas sua filosofia era potente o suficiente para reconhecer os limites contingenciais das verdades obtidas pela observação da natureza. Que isso seja sempre lembrado quando algum dogmático quiser alegar a autoridade da Lei Natural para justificar a prática do Pacto Ouroboros.

No Capítulo X do Livro I dos Analíticos Posteriores lemos:

A validade do silogismo e a veracidade da demonstração são propriedades internas da alma que produz o assentimento a seu respeito. O que Aristóteles nos ensina aqui é que não existem proposições verdadeiras, senão em elipse. A Verdade está no Ser que é, e no Intelecto que o conhece. O discurso é apenas um símbolo dessa relação. O logos humano aponta para a correspondência externa entre nous e ousia. Diante de um discurso externo à alma, como a afirmação de um professor para um aluno, no exemplo dado, este é uma hipótese quando aceito como verdadeiro sem o correspondente discurso interno, e é um postulado quando não é aceito por hipótese. Assim, só podemos dizer que um discurso é verdadeiro por elipse, pois a verificação depende do discurso interior de cada alma.

No Capítulo XI do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

Esta é uma distinção vital na filosofia aristotélica contra a platônica. O Estagirita afirma que não é necessário separar o Uno e o Múltiplo para que qualquer predicação seja viável a respeito do Ser. Platão, desejando de algum modo proteger a eternidade das idéias, escolhe o caminho da multiplicação dos seres. Aristóteles, de certo modo mais eficiente, só requer que haja a identidade dos predicados no Intelecto. O mestre distanciava o Uno do Múltiplo posicionando essa classe de entes intermediários entre os dois e tornando os objetos da Percepção as imagens dos seus tantos variados arquétipos ideais, sem relação direta com o Uno. Já o discípulo, mais econômico, enxerga o Uno no Múltiplo pela identidade formal dos predicados do Ser. As filosofias futuras de Ockham e Kant seguirão essa pista de maneira frutuosa. E com Leibniz temos a maior unificação possível da relação entre o Uno e o Múltiplo com a Mônada que possui como objeto de Percepção a si mesma.

No Capítulo XXII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

Aristóteles nos mostra que é impossível possuir todos os conhecimentos por demonstração, porque se todos os termos forem eles mesmos demonstráveis, sua série seria infinita e nenhum conhecimento seria possível (atual). Certos termos intuitivos e autoevidentes são necessários para que qualquer conhecimento seja posteriormente demonstrável. E aquele intelecto que desejar a demonstração do que é intuitivo se colocará na tarefa impossível de realizar o que somente um intelecto divino poderia fazer, isto é, conhecer o infinito em ato. Foi isso o que Lúcifer desejou, a Gnose divina (noesis noeseos, “a visão da visão”), e através dessa frustração foi que ele caiu do Céu “como um raio“, como disse Jesus. De fato, a natureza desse conhecimento intuitivo e não demonstrável dos termos superiores, ou primeiros princípios, de qualquer raciocínio, é misteriosa enquanto sumamente dependente da Graça da iluminação divina. Entenda-se bem: também a demonstração silogística possível aos termos intermediários depende da iluminação divina, mas nesta, como a prova é recebida como parte da evidência e complemento da intuição, a relação de dependência pode ser desconsiderada, mas isto é impossível na qualificação da veracidade das intuições puras.

No Capítulo XXIV do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

O conhecimento mais perfeito, ou mais completo, atinge as causas primeiras que são mais simples. Essa observação nos convém para revalorizar a ação do arbítrio divino na sustentação de todas as causas intermediárias, e mesmo para repensarmos toda a validade dos termos referentes às causas próximas e médias como meras deferências da parte das causas primárias. Assim, que algo posterior ao ato divino tenha causado um efeito por seu próprio movimento é apenas uma concessão de participação na Graça que é sempre a produtora das Percepções. É claro que a linguagem da lógica aristotélica não poderia antecipar o que formalizamos com a ontologia monadofílica –isto é, que todas as causas intermediárias, correspondentes aos termos médios das demonstrações, são partes do objeto da Percepção tão produzidos pela iluminação divina no Intelecto percipiente quanto todos os seus efeitos–, mas nos impressiona que ela seja tão compatível com suas conclusões. Sobretudo, contra a Idolatria, convém reafirmar o poder divino de produzir qualquer Percepção per se, sem outras causas senão a Vontade de Deus, de maneira que até os últimos efeitos de qualquer série causal possam ser produzidos ex nihilo. Conhecer o Amor divino como a causa eminente de todas as coisas é, portanto, a Sabedoria suprema.

No Capítulo XXXIII do Livro I dos Analíticos Posteriores, lemos:

A Verdade, assim, pode ser (1) um juízo de fato, (2) um juízo de razão, (3) um juízo volitivo, (4) ou um discurso sobre um juízo verdadeiro. A maior dificuldade se encontra nos juízos volitivos que sustentam a opinião (doxa). Isso parece até antifilosófico, mas isto é só uma impressão falsa decorrente de um certo hábito gnóstico na História da Filosofia. O próprio Edson Bini, que traduziu esta edição do Órganon, comenta a respeito desta passagem que os especialistas em Aristóteles a acham problemática, e divergem na sua interpretação. Pela Monadofilia observo que é próprio do Intelecto limitado a estimativa do verdadeiro na produção da sua crença, e entendo que é a essa experiência elementar que Aristóteles se refere. A opinião não é, assim, apenas objetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como é, mas é também subjetivamente verdadeira quando reflete o Ser tal como seria possível. A opinião subjetivamente falsa, por sua vez, é aquela que contraria algum outro juízo no mesmo Intelecto, o que constitui um erro, ou uma mentira. Toda crença é verdadeira para quem nela acredita na falta de melhor juízo.

No Capítulo VII do Livro II dos Analíticos Posteriores, lemos:

Aqui Aristóteles mostra sua genialidade, a abrangência do seu pensamento, antecipando o Nominalismo ockhamista e a Crítica kantiana: o logos humano compreende racionalmente e é capaz de demonstrar somente aquilo que parte dos primeiros princípios da intuição que são indemonstráveis, como já vimos antes. Os nomes das coisas, as identidades das formas e as definições simbolizam os objetos intuídos pelo Intelecto, mas não o demonstram nem o dominam racionalmente.

Os nomes descrevem possibilidades de seres que nunca possuem fundamento racional para existirem, exceto pelo caso de Deus. A única realidade que possui em sua definição a necessidade do Ser por essência é a Substância divina, ou a Mônada Incriada, como primeiro princípio ou termo inicial sem o qual nada mais poderia existir ou ser demonstrado. Mas isso já é um objeto mais próprio à Metafísica.

No Livro I dos Tópicos encontramos um traço de Ingenuidade na afirmação de que a Dialética deve discutir somente a opinião da maioria, ou dos sábios. Isso poderia fazer muito sentido no universo da polis, pois uma sociedade organizada pelo bem comum permite que a unanimidade ou a especialidade ajudem na formação da base de uma investigação. Mas se a realidade social humana costuma ultrapassar os limites desse ideal político grego, essa segurança já não existe mais. Aristóteles chega a rejeitar in limine opiniões como as de negação de reverência aos deuses, ou do amor aos pais, e cria, assim, um limite artificial, externo, à Dialética. Essa provisão de uma reserva tradicionalista também revela um traço de Gnosticismo, ao prejuízo do dom de Soberania. A suposta dignidade da opinião da maioria e dos sábios não foi capaz de receber Jesus Cristo, por exemplo.

No Capítulo I do Livro III dos Tópicos, lemos:

A categoria do elegível tem aqui a mesma função, para a afetação da Vontade, que o Escolhido, que é o primeiro dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia. O que é elegível por si é o que é bom por si, bom no sentido estrito, e este é o conteúdo terminal da nossa Apetição, ou a causa final do ser em geral.

As causas intermediárias, ou termos médios, são excluídos da finalidade pela sua operação, e não por sua espécie. Assim, se eu preciso caminhar para me locomover de uma origem a um destino no espaço, nessa operação, por si, o caminhar poderia ser substituído, digamos, por um teletransporte imediato, sem afetar a Apetição cujo objetivo era um destino espacial. Porém, se eu qualifico essa causa como final em si mesma, por sua espécie a operação se torna elegível em si mesma como causa final. É assim que se compreende a riqueza inerente ao Escolhido, que é a Coruscância, ou o Paraíso. O caminhar como meio é preterível, já o caminhar em si é desejável, etc.

No Capítulo II do Livro III dos Tópicos, lemos:

A hierarquia entre os bens nos remete à importância da superioridade de algumas virtudes sobre outras, e de alguns tipos de experiência sobre outros. Assim, a Humildade supera a Sabedoria, a Sabedoria supera a Saúde, a Saúde supera a Riqueza, etc. O ensino das virtudes em grupo é muito contraproducente. Viver na Presença com Humildade supera tudo e, na verdade, é a única e suficiente forma de frutificar os demais dons e virtudes.

Ainda no mesmo Capítulo III podemos ler:

Ora, o que é mais útil do que a Vontade de Deus? Nada pode ser. Aplicando a lógica aristotélica do Decreto de Gênesis 3 e à revelação cristã da salvação através da Cruz, Morte e Ressurreição, reafirmamos a conveniência do desarmamento moral da humanidade pela hipótese da Melhor Geração (ou Última Geração). Aqueles que buscam qualquer tipo de felicidade, bem-estar, ou justiça sem contar com a Vontade divina tomam uma decisão irracional. E antes que se afirme que igualmente a perpetuação do Pacto Ouroboros pela procriação carnal se justifica como fruto da Vontade divina, é suficiente lembrar que nenhum nascimento é jamais obrigatório dada a potência racional da alma que pode produzir um juízo que escolha o autocontrole e a castidade, ao passo que a morte de todas as Obras da Carne, do ponto de vista humano, é inescapável. Isso aponta para a distinção do que é a provisão divina para um ato de liberdade da escolha do bem e do que é provimento para o ato de aceite de uma verdade inescapável.

No Capítulo V do Livro VII dos Tópicos, lemos:

Esta observação de Aristóteles, casualmente produzida enquanto o filósofo analisava as respectivas forças e fraquezas dos argumentos dialéticos, nos permite ver como a ambição científica é difícil, e potencialmente frustrante, e indiretamente indica a conveniência geral de uma postura cética e de agnosia, que corresponde, filosoficamente, ao dom espiritual da Humildade. Isto tudo deriva do Limite enquanto definidor da forma substancial humana. E é por isso que a Filosofia pode ser tão perigosa. Ela parece predispor a alma à tentação da Presunção e do Gnosticismo.

Além disso, nota-se como parece ser mais produtivo buscar as grandes intuições sobre o Ser, do que as suas infindáveis aplicações particulares. O especialista toma sempre o risco de se perder na sua investigação e de esquecer a firmeza dos primeiros princípios que lhe inspiraram inicialmente. O generalista, por outro lado, apesar de não ser mais infalível por si, fortalece o seu Intelecto por estar sempre próximo das grandes intuições originárias, como fazem os metafísicos na Filosofia, e os místicos na Teologia.

No Capítulo V do Livro VIII dos Tópicos, lemos:

Esta passagem ajuda na desambiguação da finalidade da Dialética e nos esclarece a natureza radicalmente diferente da Filosofia, e da Ciência pura, comparando-se com o que havia até então. Aristóteles se vê mesmo obrigado a reconhecer que está prestes a definir regras que nunca antes foram formalizadas, o que de certo modo produz um ajuste indireto na sua postura tradicionalista.

Mas será que os homens de antes não buscaram nunca a Verdade? É claro que eles buscaram. A questão é: com que clareza eles discerniam que este alvo não poderia ser atingido com o convencimento alheio? Nossa questão aqui trata da descoberta de um novo paradigma que é moral por sua natureza, e que foi inaugurado com plena autoconsciência por Sócrates. Já não importa ter uma opinião convincente. O que interessa agora é o convencimento de si mesmo. E, paradoxalmente, neste intuito é mais valioso o reconhecimento da ignorância do que a geração da imagem da verdade. O filósofo está (ou deveria estar) totalmente separado do teatro da Pretensão humana. Sem função social, ele enxerga por sobre as restrições dos vários papéis e está livre para não precisar chegar em nenhuma conclusão. Os outros precisam fingir que sabem, porque estão presos nas suas formas sociais que os impedem de ser honestos. O filósofo está livre dessa mentira. Sócrates de certo modo fundou a expressão da subjetividade autoconsciente. Aquele eu cartesiano que soube que existia por duvidar, precisou antes disso ser um eu socrático que sabia que não sabia o que os outros fingiam que sabiam. Com esse paradigma Sócrates inventou a verdadeira Filosofia.

Aristóteles é um descendente direto dessa nova tradição. Tão nova que este neto intelectual de Sócrates se vê obrigado a distinguir na Dialética essas duas funções radicalmente distantes uma da outra: por um lado a arte de se ter razão contra o outro, e por outro lado a arte de se ter razão contra si mesmo.

O triunfo da Humildade é um grande desarmamento moral para o qual boa parte da humanidade ainda não está pronta. Assim como na vida do espírito Jesus ainda é rejeitado, o mesmo se dá com Sócrates na vida intelectual.

No Capítulo XIV do Livro VIII dos Tópicos, lemos:

A investigação da Verdade só deve ser feita entre as mentes que podem fazê-la, quais sejam: as daqueles que já não disputam entre si, mas que fazem as próprias idéias serem disputadas, para que vença a melhor idéia, e não o melhor disputador.

Uma maneira rápida de verificar se dada mente possui o desejo da investigação da Verdade está em conferir com qual facilidade se dispõe a entreter-se com hipóteses as mais diversas, especialmente as mais inconvenientes, sem se deixar irritar ou cansar.

No Capítulo I das Refutações Sofísticas, lemos:

Duas observações merecem ser feitas a esse preâmbulo de Aristóteles a respeito da argumentação sofística.

Primeiro, destaquemos o abismo que existe entre as coisas e os seus nomes. Isso aponta, por sua vez, para a distância entre o Logos divino e o logos humano: o primeiro cria todas as coisas, e o segundo cria apenas algumas imagens precárias de algumas dessas coisas. Quem puder notar essa relação entre o divino e o humano poderá entender que só Deus pode ser sábio, e que ao ser humano cabe ser então o filósofo, que ama a verdadeira Sabedoria porque ama Aquele que é sábio.

Em segundo lugar, notamos como justamente aquele que se pretende sábio entre os homens não pode sê-lo, porque se fosse sábio enquanto homem, saberia que a Sabedoria não lhe pertence. Um homem verdadeiramente sábio, por outro lado, não pode aparentar sê-lo porque aceita que sua sabedoria não lhe é própria, mas é o objeto de seu amor por Aquele que a possui em si. Na melhor condição, este sabe que não sabe de nada por si, mas por Aquele que sabe.

A origem de todo Gnosticismo e de todo o Psiquismo é, assim, a Pretensão daquele que pratica a Idolatria do logos que produz as imagens da verdade como se estas pudessem capturar a verdade das coisas que só pertencem ao Logos divino. Observamos com isso, novamente, que a Idolatria é a origem de todos os males, e que a sua cura é a vida na Presença.

Em conclusão, esta louvável obra lógica de Aristóteles, ainda que tenha tido o seu grandioso papel de contribuição na História da Filosofia, termina por nos enfatizar o valor da Soberania sobre todas as formas de Gnosticismo. A mera quantidade de argumentos formuláveis inventariados pelo Estagirita para se defender argumentos corretos de refutadores desonestos, ou para se atacar argumentos desonestos com raciocínios corretivos, já serve para mostrar que a integridade moral dos investigadores importa muito mais do que o rigor lógico, já que sem o primeiro o segundo jamais é garantido, e entre aqueles amam a Sabedoria não é necessário tanto rigor quanto o mero desejo e um bom caráter. Talvez esta tenha sido a mais simples e poderosa mensagem de Sócrates que possa ter parecido menos importante do que era.

Poder-se-ia alegar que esta lógica seria necessária como fundação da Civilização ocidental e de suas instituições acadêmicas, mas qual será o destino de tudo isto, senão aquela destruição já prometida para o Dia do Juízo? Neste ponto enxergamos o comprometimento espiritual de Aristóteles com uma certa Ingenuidade. Ainda que não possuísse a Revelação das profecias sobre o Fim dos Tempos, certamente o filósofo era inteligente o suficiente para deduzir a maior probabilidade desse tipo de destino, como já deu a entender em várias partes de sua obra.

A análise exaustiva e detalhada da correção lógica dos discursos humanos nos lembra o papel da Lei na vida espiritual: a compilação de uma série de regras que jamais modificarão o coração de quem não possui uma boa disposição interior, e que só servirá para a acusação destes por meio de provas universais. Esse tipo de prática distancia a alma humana tanto da Soberania quanto do Discernimento, embora possamos entender porque, em dados contextos históricos, pareça ser muito conveniente aplicar esse tipo de técnica para a qualificação dos testemunhos que se pretendem verdadeiros. Mas se uma sociedade já está distante da Verdade por falta de integridade moral, não é a conferência lógica disso que modificará essa escolha.

Esta obra aristotélica demonstra a Ingenuidade dos empreendimentos escolares que nos ensinam coisas boas para sermos competentes ao lidar com uma realidade decaída e amaldiçoada que jamais modificaremos com toda a nossa qualidade intelectual, já que neste caso aquilo de que mais necessitamos é de qualidades morais como as que são desenvolvidas pelo impulso contrário, como o da Vigilância, por exemplo.

Nota espiritual: 4,7 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,7

O Nome da Rosa, filme por Jean-Jacques ANNAUD

Estamos no Século XIV. Dois monges franciscanos, um mestre (William de Baskerville) e um discípulo (Adson), se dirigem a um sinistro mosteiro no norte da Itália, para participar da disputa sobre a concentração de riquezas pelo papado e pela Igreja Católica de forma geral. Ao chegarem em seu destino descobrem um clima de intriga e conspiração ao redor de algumas mortes suspeitas. Resumindo a trama, o mosteiro possui uma vasta coleção de obras escondidas por razões de uma suposta piedade religiosa da parte dos anciãos do local. A obra em torno de que ocorreram os assassinatos foi a Poética de Aristóteles. As mentiras são descobertas, o debate termina sem nenhuma concessão do papado, ao mesmo tempo em que testemunhamos a crueldade de uma ação da Santa Inquisição no local.

O filme nos mostra três elementos principais: a corrupção da Igreja Católica, a liberdade filosófica do antigo Aristóteles e do contemporâneo William, e o mistério do Amor na paixão do jovem Adson por uma jovem.

Da corrupção da Igreja temos abundantes amostras com o acobertamento dos crimes ocorridos no mosteiro, com a manutenção em segredo da biblioteca profana com escritos perigosos ao dogma católico (como se a verdade do Evangelho tivesse que temer alguma filosofia do mundo), com a ação criminosa da Inquisição na produção de uma falsa justiça, e com a derrota do argumento franciscano na disputa pela divisão dos bens da Igreja.

Na obra que levou monges a matarem e a morrerem, A Poética de Aristóteles, encontramos o elogio da Comédia como gênero literário, e o poder do riso para a descoberta da verdade, especialmente da verdade que desagrada aos poderes e instituições estabelecidos. A interpretação daqueles que suprimem o conhecimento filosófico é de que “o riso mata o medo, e sem o medo não pode haver fé. Sem o medo do diabo, não há mais necessidade de Deus“, uma teologia fraquíssima e gnóstica. Essa Igreja é fetichista e mórbida, tanto quanto aquele farisaísmo que matou Jesus. O filósofo grego estava muito mais próximo da verdade e, portanto, do verdadeiro Evangelho, quando afirmou que o riso desarma o dogma, destrói a solenidade, torna os poderosos ridículos e enfraquece a obediência baseada no medo. Sobretudo, se deus é bom, se seu Amor é invencível, a Revelação de certo modo é um tipo de Comédia, uma história com final feliz.

Com William de Baskerville temos a concordância da fé com o espírito investigativo, de amor à Verdade doa a quem doer. No contexto do filme isso se mostra no caráter curioso e aberto da mente de William. Já no âmbito mais amplo da filosofia da Ordem dos Franciscanos, entendemos que o problema do “Nome da Rosa” aponta para o legado franciscano da investigação do principium individuationis, uma filosofia que contestou a individuação pela matéria defendida por Aristóteles e por Tomás de Aquino. Para além dessa conquista franciscana concentrada na figura de Duns Scot no Século XIII, chegamos ao próximo Século com William Baskerville representando o legado do outro William, de Ockham, o nominalista que separou as coisas do seus nomes, defendendo a Unidade da substância real contra a generalização das universalizações racionais. Na criatura a ousia ultrapassa o logos, porque só em Deus o Ser e o Conhecer se unificam plenamente. O Nome da Rosa é, afinal, um mistério que só Deus conhece plenamente.

Isso não nos faz deixar de desejar o deleite de experimentar esse mistério divino, o que nos leva para a parte final e mais importante do filme, que é a experiência da paixão de Adson. No fim do filme o jovem monge vai embora do mosteiro com seu mestre, deixando para trás aquela jovem que tanto o encantou. Em seu relato enquanto já idoso ele afirma em memória: “Da rosa antiga resta apenas o nome; apenas nomes nus temos agora.”

Essa expressão melancólica trai o sentido sagrado do final feliz da Comédia que Aristóteles defendia em sua Poética. Afinal, o que Adson poderia perder daquele mistério, se todo o Bem é Eterno em Deus, esse Deus a quem ele próprio se dirige com a consumação de sua vida? Infelizmente isso reduz a qualidade espiritual da obra. Não sei do livro, mas o filme desaponta neste sentido. Possivelmente a idéia do próprio Umberto Eco foi a de endossar a interpretação da inclinação ateística e materialista do nominalismo, o que é um grande erro em face da verdadeira intenção dos Franciscanos: o que eles queriam não era destruir a Eternidade do Logos divino, mas a pretensão do logos humano. Desastrosamente, para o espírito humanista e antropocentrista, uma coisa quer dizer a perda da outra, mas para quem tem a Fé tudo está resolvido, e até ao contrário, a Humildade favorece a exaltação do Logos divino.

A morte é lucro, meu jovem velho Adson.

Confiando em Deus você não perdeu a Rosa, mas a ganhou para sempre.

Acho que o que você perdeu foi o fio da meada do Evangelho…

PS: Completando a explicação nos termos da minha própria filosofia (Monadofilia): corretamente entendido, o Nominalismo corrige o âmbito da experiência humana mostrando o Limite da Percepção, que é o conhecimento da Rosa concreta, e o Limite da Apercepção, que é o Nome da Rosa, mas jamais às custas da idéia eterna da Rosa no Logos divino, ao qual temos o acesso prometido pela nossa participação na Eternidade de Deus.

Nota espiritual: 5,4 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria5
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte3
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo7
Vigilância/Ingenuidade7
Discernimento/Psiquismo5
Nota final5,4