Reflexões do Vazio sobre si mesmo: A biblioteca da meia-noite, por Matt Haig

Já faz tempo que a psique ocidental é tratada com os analgésicos espirituais e amortecedores morais da autoajuda, na vã tentativa de compensar o vazio existencial que cresce sem parar.

Conforme a escravidão material da Maldição é compensada pelo progresso civilizacional, o sentido da existência dessa massa de escravos é continuamente desmontado. A especialidade da nossa raça era a de ser escravizada num cativeiro trabalhoso de manter e cheio de perigos. Se vivemos mais livres de um trabalho contínuo e de grandes ameaças iminentes, que sentido de vida nos resta?

Nossa sociedade chegou ao ponto de se especializar no autoengano ao ponto da alucinação coletiva em torno das mentiras mais sofisticadas, uma farsa que vai dar trabalho para cada nova geração desvendar. Ao lermos A biblioteca da meia-noite, de Matt Haig, revisitamos o hospício a céu aberto da mentalidade contemporânea, e revemos mais uma vez as impotentes reflexões do Vazio sobre si mesmo.

Ao viver uma vida sem Deus –e, vejam bem, falo do Deus verdadeiro, o centro e o ápice de nossas vidas, o Primeiro e o Último, o fundamento e o objetivo, a origem e o fim–, nenhuma mônada pode dar conta de si mesma, por mais potente que se considere, e por mais privilegiada que seja a sua “visão quântica” dos muitos universos possíveis. Toda a relação do Múltiplo consigo mesmo é entrópica por natureza e tende ao declínio e à dissolução, pois dissipa sua energia ilimitadamente. Todos os seres contingentes precisam do Ser Absoluto de potência infinita para lhes conceder continuamente a vida e a graça. Por si mesmos, os entes criados são pedaços vazios de possibilidades equivalentes ao Nada de onde foram tirados pela vontade amorosa de seu Criador. Por isso se diz, diante da rebelião contra o Amor, que o ser humano veio do pó, e ao pó retornará.

Tudo o que Nora Seed, a protagonista da história, faz, é tirar as minimamente honestas conclusões dessa total devastação espiritual da experiência humana vivida na rejeição da Presença e do Amor de Deus. Isso obviamente a leva a desejar a morte depois que algumas circunstâncias a pressionam para além do psiquicamente suportável, especialmente a perda do emprego e a morte de seu gato.

A história concluirá que Nora sofre do medo de viver, no sentido da recusa de experimentar uma vida não refletida, e neste sentido apresenta uma moral antifilosófica, fatalista, trágica e existencialista.

No sentido espiritual, é um conto que estimula o Pacto com a Morte e o Psiquismo, desempenhando assim seu autor o papel de Bispo no Sistema da Besta, legitimando a existência decaída através de diversos testemunhos de justificação da experiência da vida humana sem Deus.

As coisas boas fazem o todo valer a pena“, uma das crenças de Nora, por exemplo, é um clássico testemunho Moriquendi.

A Sra. Elm, a bibliotecária que serve como interlocutora constante de Nora na experiência da Biblioteca da Meia-Noite, produziu por sua vez o importante testemunho de que “a única maneira de aprender é vivendo“, desclassificando e desmoralizando qualquer busca por Discernimento e Sabedoria, e equivalendo o ser humano a um rato de laboratório preso num labirinto. Ela teria razão, sem dúvida, com relação ao caso dos Falmari, os salvos da Segunda Ressurreição, os seres humanos que realmente têm que apanhar até o limite para aprender. Mas se ainda estamos aqui, não temos então uma eleição muito melhor disponível, a do destino Noldor?

O livro produz uma ficção científica baseada na Física Quântica, que é o mais novo esparadrapo no kit de primeiros-socorros da literatura de autoajuda. Nora não consegue morrer de uma vez, e vai parar na tal Biblioteca com a Sra. Elm, onde vai poder experimentar outras possibilidades de vida a partir de seus arrependimentos, tudo com o objetivo de recuperar o desejo de viver na sua vida original.

Eventualmente Nora recuperará o desejo de viver numa conclusão não muito convincente de que ela poderia rever sua vida original com olhos repletos de novas possibilidades. A compaixão com as pessoas que concretamente foram beneficiadas pela sua existência naquela realidade é o ponto forte da narrativa (o aluno de piano e o vizinho idoso), mas me lembra a solução de compaixão do Schopenhauer: como aplicar um band-aid numa fratura exposta.

Uma das experiências alternativas que mais a impressionou foi, obviamente, a de casar e ter filhos. Parabéns ao autor, está trabalhando firme mesmo na manutenção deste mundo decaído. O Ouroboros está orgulhoso. Só recomendo ser um pouco mais competente: em certa parte diz que “Nora se deu conta de que não era culpa sua que os pais jamais tivessem sido capazes de amá-la como seria esperado: incondicionalmente“, mas depois diz, quando Nora tem a experiência do casamento e da maternidade, que “ela sentiu o poder daquilo, o poder apavorante de amar incondicionalmente e de ser amada incondicionalmente“. Ué, Nora superou seus pais? Ela ficou melhor que eles? Quando foi que isso aconteceu? Não será mais provável que Nora tenha se tornado mentirosa como seus pais? Ou ao menos que tenha se enganado tanto quanto eles?

Para mim a mensagem sutil da história é: mulheres, meninas, esqueçam esse negócio de filosofia e sentido de vida, simplesmente casem e tenham filhos. O Ouroboros agradece. Consciência pra quê mesmo? Deixem a Serpente se alimentar…

Em certo momento um grande segredo da vida humana é revelado quando Nora, numa de suas expedições quânticas, sobrevive ao encontro com um urso polar: “fazer parte da natureza era fazer parte da vontade de viver“. Quer dizer, toda aquela consciência do Vazio pode ser resolvida de modo simples, desde que o ser humano aceite equiparar-se a um animal e que não queira ir muito além disso.

Há situações na história em que a legitimação fatalista da humanidade decaída chega aos cumes, principalmente nas conversas de Nora com a Sra. Elm, representante dessa suposta sabedoria quântica.

Exemplo:

A tristeza é parte intrínseca do tecido da felicidade. Não dá para ter uma sem a outra.”

É a famosa mistura de Luz e Trevas que tanto interessa à Serpente do Mundo, pois o mal só sobrevive com a parasitagem do bem.

Comparemos isso com o que diz o Apocalipse:

Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!

Cada um faça a sua escolha.

Querem outros exemplos de testemunho Moriquendi neste livro?

Vejamos:

Não há uma vida sequer em que a pessoa possa existir num estado permanente de felicidade absoluta. E imaginar que exista uma vida assim só acrescenta mais infelicidade à nossa vida.”

E:

Nora: ‘Parece impossível viver sem machucar as pessoas.’ Sra. Elm: ‘Parece impossível porque é impossível’.

Quer dizer, Jesus Cristo e seu testemunho do Amor e da Ressurreição não vale absolutamente nada para essa gente. Nada, nada, nada. Só lhes resta, é claro, fazer o Pacto com a Morte. De preferência não entendendo lhufas de nada, como reafirma a Sra. Elm em outra parte: “Você não precisa entender a vida. Precisa apenas vivê-la.” Assinado: A Serpente do Mundo, por seu procurador.

Talvez esotericamente Nora tenha escapado da Biblioteca e voltado à sua vida original passando pelo Corredor 11, um número bem conhecido do pessoal que, digamos, assim, não estão muito a fim do Amor de Deus.

A decisão final do masoquismo de Nora, e de seu assentimento espiritual com a mistura de Luz e Trevas desde mundo decaído, é declarada nas seguintes expressões conclusivas:

Minha vida será milagrosamente livre de dor, desespero, mágoa, coração partido, dificuldades, solidão, depressão? Não. Mas eu quero viver? Sim. Sim. Mil vezes, sim.”

Não é uma adesão à esperança cristã da Vida Eterna, a salvação divina. Não. É uma adesão ao sofrimento mesmo. É a afirmação do valor existencial do mal. É um testemunho Moriquendi.

E também:

Ela aceitou as sombras da vida de um jeito que jamais havia feito, não como fracasso, mas como parte de um todo, como algo que ajuda outras coisas a serem ressaltadas, a crescerem, a existirem.”

Eis uma declaração cuspida e escarrada de que o Bem precisa do Mal, e a Luz das Trevas. Mais óbvio que isso, impossível.

Antes que se diga que o autor apenas se perdeu no tema, com seu conhecimento de filosofia eu tenho certeza de que ele poderia acertar o alvo espiritual, se quisesse.

Por exemplo, esta obra perde a chance de mergulhar numa interessantíssima reflexão sobre o Princípio de Indeterminação das Mônadas, ou Singularidade monádica, ao rejeitar por exemplo o modelo de Diógenes de Sinope que elogiava o heroísmo de quem desistia de qualquer plano mundano como uma vitória que honra a verdadeira forma humana destinada ao plano divino, defendendo as mônadas da decadência da identificação com quaisquer manifestações inferiores. Nora poderia ter sido uma heroína cínica, mas até esse paganismo seria perigoso demais, porque poderia abalar a paz e segurança do Sistema da Besta.

Mas esta já é uma história que não foi escrita, e que provavelmente jamais será.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD:

Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba2
M. Maior – Obediência/Rebelião2
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo0
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD2,0

Valor Espiritual:

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria (a mera hipótese da transcendência é desprezada)1
Louvor/Sedução 3
Paixão/Terror 5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo (causas finais preteridas pelas eficientes)1
Nota Espiritual3,2

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)0
Informação1
Diversão0
Nota Cultural0,3

Nota Final: 1,8

Propaganda terrorista para as massas: O Exorcista do Papa, por Julius Avery

Ao assistir o filme O Exorcista do Papa, de Julius Avery, podemos ficar um pouco confusos. Um cristão deveria pôr medo no demônio, e não o contrário.

Está dito: “não participareis do seu medo, nem vos aterrorizareis“, e “não se perturbe, nem se intimide o vosso coração“. Suponho que se eu que sou um zé ninguém conheço essa instrução e a tenho como verdadeira, muito mais o deveriam fazer os se dizentes especialistas do ramo, sacerdotes em geral do culto de Jesus Cristo, e entre eles especialmente os exorcistas que em tese atuam diretamente com a autoridade divina para o serviço de expulsar os espíritos impuros de suas vítimas.

Acontece que já faz algumas décadas que Hollywood decidiu incluir, entre suas muitas propagandas contra-iniciáticas, o terror do mal. Os papéis se invertem. Ao invés de os demônios temerem a autoridade cristã e sentirem eles mesmos o terror da sua Perdição atestada pela fé no Amor divino, os exorcistas é que saem atormentados e vitimados pelos seus confrontos.

Com este filme Hollywood mantém a sua tradição e continua propagandeando o terror do mal para as massas. O padre Gabriele Amorth (personagem que representa um verdadeiro exorcista com o mesmo nome, já falecido) começa sua jornada enfrentando inimigos dentro da própria Igreja, céticos descrentes do poder paranormal dos anjos caídos. Aí já começamos a entender a dinâmica do filme. A ingenuidade moderna, iluminista e cientificista, é contraposta ao suposto esclarecimento das realidades prodigiosas. Acontece que a solução, se não consegue ser pior que o problema, acaba não ajudando muito, pois valida aquele velho engano da supersticiosidade humana, que é o de tomar por imediatamente verdadeiro ou legítimo qualquer acontecimento paranormal, como se quaisquer prodígios não fossem antes permitidos pela autoridade divina por suficientes razões providenciais.

Em determinado ponto do filme o demônio que possui uma criança, mais tarde revelado como Asmodeus, Rei do Inferno, tenta o coração do padre questionando se Deus permitiria até mesmo suas mais ousadas violências, e daí temos é claro aquelas cenas mais horrorosas que o povo tanto gosta. Acontece que um cristão bem informado, e muito mais ainda um padre exorcista, deveria saber muito bem que a permissão para a ação do mal vem sempre pelo arbítrio humano, no caso imediatamente representado pela mãe da vítima, que participou do Pacto Ouroboros, fosse por omissão ou por comissão. Essa é a fonte do poder de Asmodeus, o annuit coeptis humano que força o Amor divino a aceitar os mais extremos abusos da liberdade. Amorth sente medo porque não é cristão o suficiente para enxergar que o mal é apenas um explorador da realidade de que Deus pune os filhos pelos pecados dos pais até a quarta geração, assim como abençoa os filhos dos que lhe obedecem até a milésima.

No fim, depois de muita pirotecnia, e até mesmo de o Papa se cagar nas calças (metaforicamente, ou talvez de fato, vai saber?), o Bem triunfa com a revelação de uma verdade bem mais suave e aceitável do que a realidade do Pacto Ouroboros: a Igreja tinha que se redimir do período de crimes da Santa Inquisição, já que uma aliança ancestral de autoridades da Igreja com Asmodeus era o que lhe empoderava. É uma solução típica de Hollywood, mantendo o prestígio e a autoridade da Igreja até certo ponto, enquanto se legitima o medo do mal no pior sentido possível, que é o medo não de praticá-lo, mas o de ser injustamente perseguido por ele.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD

Hipótese: P&A 2,0 (Influência Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba4
M. Maior – Obediência/Rebelião4
M. Menor – Perdão/Julgamento4
M. Menor – Libertação/Sadismo4
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo4
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD2

Valor Espiritual

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria 5
Louvor/Sedução5
Paixão/Terror (medo do triunfo do mal)1
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade (ignorância do Pacto Ouroboros)2
Discernimento/Psiquismo5
Nota Espiritual4

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)3
Informação2
Diversão3
Nota Cultural2,6

Nota Final: 2,8 (IMDB 6,1)

Do cálculo de tudo à razão de nada: Eu Robô, por Isaac Asimov

Tudo é Mente, ou Números, falando pitagoricamente, no livro Eu Robô de Isaac Asimov.

Não estaríamos tão mal assim se o problema fosse apenas a revisitação das idéias da filosofia pré-socrática. Infelizmente, porém, Asimov, não satisfeito com os problemas da humanidade passada, nos leva numa viagem em direção aos problemas da humanidade futura.

Com o progresso tecnológico o ser humano tende a expandir esta experiência que já faz parte do nosso presente: a vitória sobre as causas materiais e eficientes em detrimento da derrota sobre as formais e finais. Conseguimos viver cada vez mais e melhor, e com cada vez menos sentido. A robótica prometida por Asimov não chega a nenhuma outra conclusão. A humanidade ganhará o poder de calcular tudo ao mesmo tempo em que não vai entender a razão de mais nada. Digo “razão” naquele sentido mais profundo da vida humana: o telos, a finalidade, o motivo.

Não existe vida espiritual na ficção deste autor, embora saibamos melhor que tudo tem sentido espiritual, inclusive a recusa de dar sentido espiritual às coisas. Nosso guia que representa a sabedoria em Eu Robô é a psicóloga roboticista Susan Calvin. Eis um exemplo da sua grande sabedoria:

Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. A humanidade não está mais sozinha.”

Até mesmo aqueles pagãos pré-socráticos chamavam o universo de Cosmos, indicando a confiança numa ordem superior, e entendendo o mundo como o seu lar, e não como uma realidade a ser enfrentada. Asimov obviamente começa já declarando a sua premissa gnóstica. Se existe uma Maldição, esta não deve ser aceita de forma nenhuma: deve ser enfrentada, derrotada e conquistada. Tudo se resume a isso. O velho mito prometéico que apela para o espírito de rebelião dentro do homem.

Do mesmo modo a suposta solidão do ser humano também apresenta não só o total desprezo pela Presença, mas até mesmo a ingenuidade com relação a qualquer outra dimensão que não seja esta que o ser humano habita. Não há Deus, não há anjos nem demônios, e tudo está morto, exceto esse verdadeiro milagre que veio do Caos chamado ser humano.

A questão da criação de seres artificiais é muito empregada na ficção, e costuma apresentar dilemas e dicotomias falsas, principalmente no questionamento dos supostos direitos e dignidades das criações humanas em comparação com seus criadores. Ora, sem Deus o homem se torna o falso deus de si mesmo, o que torna essa questão indiferente. Não faz diferença o ser humano tratar os robôs como seus iguais ou como seus semelhantes: seu suposto valor autônomo, sem um desígnio divino que determine sua origem e seu destino, já não existe, e dessa perspectiva para baixo tudo pode fazer sentido porque nada faz sentido de fato, porque é uma pura arbitrariedade.

Não há nenhum problema com os robôs. O problema está no criador dos robôs: se este está desligado de Deus, sua vida não fará sentido nenhum, seja com mais ou menos robôs, ou com maior ou menor igualdade entre si.

Se o ser humano é eminentemente psíquico –e este é o ser que decreta, gnosticamente, que tudo é feito de Números ou de Mente–, ele pode criar seres mais ou menos psíquicos á sua imagem e semelhança que sejam portadores da sua mesma dignidade, já que esta foi reduzida à capacidade psíquica.

Qual é, afinal, a diferença essencial entre seres humanos e robôs?

Só pode ser uma diferença determinada por uma razão transcendente, por uma origem humana baseada na própria substância divina, com o propósito monádico de um destino eterno. Essa diferença é total e absoluta. Mas se, kantianamente, toda a transcendência já foi abolida do pensamento humano, daí para baixo tudo se resume ao pó, seja mais ou menos qualificado no seu próprio plano de insignificância.

Asimov quer que sintamos grandes simpatias pelos robôs, e certa reserva ou até mesmo desgosto com os nossos semelhantes. Um traço obviamente gnóstico.

Ao que parece este autor foi o responsável, nesta obra, pela invenção das chamadas Três Leis da Robótica, isto é, da programação universal para quaisquer robôs portadores de cérebros positrônicos, a saber:

Lei 1- Jamais causar dano a seres humanos ou, por omissão, deixar que sofram danos;

Lei 2- Obedecer as instruções humanas, exceto quanto violar a Lei 1;

Lei 3- Fazer o que for preciso para se preservar, exceto quando violar as Leis 1 e 2.

Asimov parece ter predileção pela análise lógica, pela dedução, assim como pela indução e pela investigação em geral. Seus contos exploram as diferentes possibilidades de experiência com a aplicação das Três Leis em cenários mais ou menos exóticos.

Toda essa experiência lógica e psicológica traz o interesse imediato da própria experiência ética da vida humana, que é espelhada no experimento fictício com os robôs. É uma ficção científica, mas não passa de ser, como sempre ocorre em qualquer literatura, um reflexo da realidade humana. No fim das contas o ser humano está sempre falando ou de Deus, ou de si mesmo.

Lembro-me, no sentido da idolatria denunciada no livro Eclesiástico, da passagem que diz: “Diante de um rosto aparece uma imagem. Do impuro que se pode tirar de puro? Da mentira que verdade se pode tirar?” Essas são boas perguntas a se fazer a Asimov e a todos os futurologistas que se animam com as promessas desse progresso. O que vai sair disso tudo, senão a mesma vaidade debaixo do sol, e o correr atrás do vento?

O que o estímulo à invenção dos robôs parece fazer é incentivar a multiplicação da entropia deste mundo, e a perversão da genuína criatividade monádica, como se estes seres humanos escravos da Maldição e do Poder tirassem inspiração das suas potências espirituais para gerar uma maior dissipação de suas forças e maior decadência, ao invés de se concentrar no ideal eterno, como no caso da criação dos Periannath, por exemplo. Toda essa saga de emancipação serve apenas para a prorrogação das limitações decretadas ao ser humano decaído: escassez, inviolabilidade das causas, e irreversibilidade dos efeitos. Pretendendo se tornar mais livre, este ser apenas expande a sua prisão.

A Dra. Susan Calvin nos dá outro exemplo da inevitável equiparação do pó ao pó, desde que o ser humano crie autômatos programados com seus ideais psíquicos: “Não se pode diferenciar entre um robô e os melhores seres humanos.” Claro que não, Dra. Susan. Se as máquinas foram programadas para realizar o maior ideal humano possível, o máximo desempenho moral que os seres humanos podem atingir é o de se igualar às suas próprias criações. Isto é uma falácia chamada petitio principii, Petição de Princípio. A perfeição ideal das máquinas é uma premissa, e não uma conclusão, como pode parecer.

Isso é psiquismo puro, a profecia de Protágoras: o homem como medida de todas as coisas.

Em determinado momento se coloca a dúvida sobre se um robô poderia ser eleito para um cargo público, como se essa fosse uma elevada questão moral e política.

Não é: sem uma responsabilidade diante de uma Autoridade transcendente, que diferença faz se o homem governa a si mesmo diretamente, ou através dos robôs programados para emular o seu psiquismo? A questão é vazia.

O que não quer dizer que Asimov não tenha uma visão política condenável, principalmente ao idealizar, como bom discípulo (consciente ou não) de Kant, o governo global sob o comando de um Coordenador Mundial.

Dos capítulos 1 a 8 Asimov nos apresenta casos variados de robôs que são quase sempre simpáticos, inocentes ou vítimas. Ele próprio diz numa carta anexada à edição que quis mudar a perspectiva do robô como vilão, ou monstro. Trabalhou fiel ao seu desejo, sem dúvida.

O que eu não gostei muito foi que ele esperou chegar ao último Capítulo 9, “O conflito evitável“, para declarar suas idéias mais importantes, as quais se fossem expostas desde o início talvez nos permitiria gastar menos energia tentando decifrar qual é a visão de mundo do autor.

Vejamos algumas citações relevantes:

No final das contas a Máquina é apenas uma ferramenta, que pode ajudar a humanidade a progredir mais rápido ao tirar de suas costas o peso dos cálculos e das interpretações. A tarefa do cérebro humano continua sendo a que sempre foi: descobrir novos dados a ser analisados e inventar novos conceitos a ser testados. É uma pena que a Sociedade pela Humanidade não entenda isso. Eles seriam contra a matemática ou contra a arte de escrever se tivessem vivido na época oportuna. Esses reacionários da Sociedade alegam que a Máquina rouba a alma do homem. Eu noto que os homens capazes ainda são poucos em nossa sociedade. Nós ainda precisamos do homem que é inteligente o bastante para pensar nas perguntas apropriadas a se fazer. Talvez, se pudéssemos encontrar homens assim em número suficiente, essas alterações [com ineficiências] com as quais o senhor (O Coordenador Mundial) se preocupa não ocorreriam.”

Essa passagem me fez refletir sobre várias coisas.

Em primeiro lugar, por que temos essa obsessão com o progresso tecnológico? Me parece validar aquela tese, sobre a qual falei no meu último livro, do perenialismo transhumanista que vai na direção da fantasia deus ex machina, ou seja, na construção de um artefato que permita a encarnação dos demônios para uma existência “imortal”.

Em segundo lugar, em nenhum momento o progresso é explicado por uma causa final que o justifique. O que quer dizer que o progresso é o próprio ideal de si mesmo: a humanidade teria que progredir para… progredir mais, indefinidamente. Obviamente não há Teodicéia num mundo de ateus. Mas, curiosamente, não há também nenhuma Antropodicéia. Essa questão filosófica parece não ter passado nem perto de uma reflexão.

Por fim, o que a burocracia tecnocrática quer não são seres humanos, mas justamente máquinas na forma humana, incapazes de verdadeira independência. A “Sociedade pela Humanidade”, herdeira dos “Fundamentalistas”, tem razão sobre o roubo da alma humana no ponto crucial que diferencia a forma da nossa espécie: o livre-arbítrio. Porém, a liberdade não pode ser inserida num cálculo, e portanto não pode ser ensinada para um computador, por mais avançado que este seja. Todo cálculo é uma razão sobre proporções determinadas. Mas a liberdade é justamente a singularidade de um ser capaz de produzir efeitos indeterminados por quaisquer elementos exteriores. Isso não quer dizer que a vontade livre é irracional. Antes, a liberdade é supraracional, transracional, ou metaracional, já que se dirige aos fins mais excelentes que justificam o emprego de qualquer racionalidade secundária. Isto é: as causas finais e formais justificam as materiais e eficientes. Jamais um robô vai compreender isso. Ele não pode subir a esse nível de entendimento. Mas é claro que o ser humano pode se rebaixar ao nível do raciocínio robótico, como parece ser o caso nesta passagem que declara o desejo por seres humanos mais úteis por serem justamente mais maquinais.

Asimov quer que sejamos todos mais burros no processo mesmo de crer que estamos ficando mais inteligentes.

Outra passagem: “Se a fé dos homens nas Máquinas pode ser destruída a ponto de elas serem abandonadas, teremos a lei da selva de novo.” Isso é propaganda de totalitarismo tecnocrático. E é puro Gnosticismo. A idéia de fé nas máquinas remete diretamente a fé na Razão, na Ciência e no Conhecimento, como se esses fossem os elementos salvíficos da experiência humana.

Em certa parte há a condenação do pessoal reacionário, novamente: “Homens que acreditam ser fortes o bastante para decidir por conta própria o que é melhor para si.” Ora, eles acreditam ser fortes, ou antes acreditam serem livres? Isso é Gnose pura. O conhecimento como força obriga os ignorantes a obedecerem aos sábios, mesmo que não creiam nessa autoridade. A realidade da liberdade humana é totalmente desprezada. Só sobra a força pura, e os ignorantes são os mais fracos, portanto incapazes de decidir o que é melhor para si mesmos.

Asimov ainda diz, por um personagem: “Desobedecer às análises da Máquina é deixar de seguir o caminho ideal.”

Ideal de quem? Da máquina? Do inventor da Máquina? De uma Razão Pura representada por uma intelligentsia humana totalmente fiel ao ideal?

Essa é uma mistura perfeita de psiquismo com gnosticismo e com ingenuidade. E equivale ao suicídio moral da humanidade: é o próprio desejo de morrer na forma de uma filosofia pseudoracionalista.

Vejam ainda: “Só as Máquinas sabem [todas as respostas], e elas estão seguindo nessa direção e levando-nos consigo.” … “Todos os conflitos se tornaram por fim evitáveis. Apenas as Máquinas são, de agora em diante, inevitáveis!

Não precisamos mais do Espírito Santo.

Temos o Logos encarnado na forma de máquina para nos salvar!

Seria cômico, se não fosse trágico.

E há repercussões esotéricas, quando por exemplo Susan Calvin diz, no fim: “Acompanhei tudo desde o início, quando os pobres robôs não podiam falar, até o fim, quando eles se colocaram entre a humanidade e a destruição.”

Talvez essa destruição seja aquela que os Illuminati desejam adiar indefinidamente, ou seja, a do próprio Fim do Mundo. De algum modo essa pode ser uma fantasia demoníaca: a de garantir a sua sobrevivência através da perenidade do Annuit Coeptis, mediante o emprego de um sistema que faça o ser humano prescindir totalmente de uma redenção verdadeira.

Para encerrar, o próprio Asimov, em sua carta, parece não querer esconder muito o seu gnosticismo, como quando diz: “Não conseguiria acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha de ser a sabedoria.”

Isto quer dizer: se o conhecimento nos traz um mal, a solução é redobrar a aposta num conhecimento melhor, uma sabedoria mais perfeita, como se essa não pudesse trazer um mal pior ainda, como provou o caso de Salomão, ídolo gnóstico e Illuminati.

Aliás, o testemunho de Asimov não contém um óbvio tertium non datur, a falácia do terceiro excluso?

Não estamos presos a escolha da sabedoria ou da ignorância, já que a ignorância assumida toma a forma da virtude moral da Humildade. Solução que aliás era a preferida de David, aquele ungido que agradou a Deus mais que seu filho, o “sábio”.

Para Asimov, ao menos nesta obra, não existe vida espiritual, e não existe liberdade humana, existe somente uma triste série de cálculos que levam do nada ao lugar nenhum.

Tudo está muito bem calculado e significa exatamente nada.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD: 1,0

Hipótese: P&A

M. Maior – Gratidão/Soberba0
M. Maior – Obediência/Rebelião5
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo3
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo0
Ataques Avari-Moriquendi0
Testemunho ES-Calaquendi0
Nota EMD1,8

Valor Espiritual:

Humildade/Presunção0
Presença/Idolatria 0
Louvor/Sedução 5
Paixão/Terror 5
Soberania/Gnosticismo0
Vigilância/Ingenuidade0
Discernimento/Psiquismo 0
Nota Espiritual1,4

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)1
Informação1
Diversão3
Nota Cultural1,7

Nota Final: 1,6

Mais um “super-herói” que podia ser humilde, mas não foi: The Flash, por Andy Muschietti

Para alguém que é muito rápido, o Flash infelizmente ainda foi muito lerdo para entender o sentido do que viveu em seu último filme (The Flash, por Andy Muschietti).

O único super-herói que faz sentido é aquele que disse de si mesmo: “aprendei comigo que sou manso e humilde de coração“. Mas lá vamos nós assistir gente vestida de palhaço fingindo que são capazes de salvar alguma coisa.

Por que as pessoas ainda têm paciência para assistir filmes como este?

Esta é uma boa pergunta, mas não é o nosso assunto imediato. Deve ser mais fácil eu dizer qual foi o meu próprio motivo: matar aquele que me mata, o tempo. E seria uma felicidade descobrir que o meu semelhante assistiu o filme mais ou menos pela mesma razão, o que não deve estar muito longe da verdade.

The Flash é mediano, não inspira grandes coisas além do tradicional arroz-com-feijão do sentimentalismo em torno da família, já que o personagem, Barry Allen, tem toda a sua vida definida por uma tragédia familiar que o fez perder a vida ordenada e feliz que ele achava que tinha, e que o faz imaginar a perda também de uma suposta boa vida que ele teria em tese perdido para sempre.

Barry trabalha como um remediador, e o tema do filme é a valorização dessa busca com o respeito a uma limitação final que o personagem deve descobrir à duras penas. Já que viaja no tempo, poderíamos imaginar que o herói esbarraria em algum paradoxo típico desse tipo de narrativa, mas ele encontra algo mais sólido e simples, que é a limitação ordenada por um Destino de origem desconhecida. Há coisas que Barry não pode mudar, por mais que tente de novo e de novo no pleno uso de seus poderes. A tentativa de forçar um resultado pessoalmente favorável leva o sujeito a reconhecer a sua própria transformação num vilão ou monstro, o que poderia ser melhor explorado pela desmoralização do juízo arbitrário desde um ponto de vista tão limitado, mas o filme não poderia chegar lá, sendo uma historinha de superhéroi. No fim Barry aceita a limitação e trabalha ao redor dela para remediar os fatos que conseguir dentro da sua competência, mas não percebe que ainda age naquele mesmo espírito de arbítrio, e portanto ignora qualquer design superior que tenha imposto aquelas limitações. Neste sentido, o inalterável é espiritualmente semelhante a qualquer outro paradoxo de filme de ficção científica: uma lei sem um legislador.

Não podemos recusar o desejo de justiça da parte de Barry, mas também não podemos ultrapassar a nossa própria noção definitiva de ignorância.

O filme acertaria, do ponto de vista espiritual, reconhecendo por trás da fraca (mas presente) noção de Destino uma maior deliberação divina na forma da Providência. Mas isso diminuiria a importância dos super-heróis, o que seria obviamente contraditório, para não dizer impopular com a proliferação da apostasia, talvez principalmente da parte do tipo de público que este produto cultural atinge. O Flash poderia ser humilde, mas continuou no seu papelzinho mequetrefe de mero remediador. Com toda sua velocidade parece não ter sido rápido o suficiente para chegar nas conclusões que lhe trariam a verdadeira paz e alegria.

Notas (de 0 a 10):

Valor EMD

Hipótese: P&A 3,0 (Sugestão Demoníaca)

M. Maior – Gratidão/Soberba3
M. Maior – Obediência/Rebelião2
M. Menor – Perdão/Julgamento5
M. Menor – Libertação/Sadismo5
M. Primeira – Liberdade/Masoquismo5
Ataques Avari-Moriquendi2
Testemunho ES-Calaquendi5
Nota EMD3

Valor Espiritual

Humildade/Presunção (heroísmo)3
Presença/Idolatria (família/vida familiar)2
Louvor/Sedução5
Paixão/Terror (ameaça da injustiça terminal)3
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade (expectativa de felicidade mundana)4
Discernimento/Psiquismo (crença na tragédia como causa)3
Nota Espiritual3,6

Cultural

Inspiração (moral, estética, etc.)4
Informação5
Diversão4
Nota Cultural4,3

Nota Final: 3,6 (IMDB 6,8)