No prefácio à epístola enviada aos doutores de Teologia da Faculdade de Paris, a Sorbonne, Descartes pede o aval destes às suas teses a respeito de Deus e da alma. Este será o objeto de suas Meditações metafísicas. O autor escreve depois da publicação de seu Discurso do Método, e no mesmo contexto de precaução. Diz que quer defender a evidência de Deus e da continuidade da alma após a morte do corpo, com demonstrações que façam justiça tanto à Escritura (da qual faz três citações) quanto ao Concílio de Latrão. Ora, estando nessa tão católica França de seu tempo, como poderia ser de outro modo? Nossa esperança de ver a filosofia livre do jugo teocrático da religião está na capacidade que o filósofo pode ter de desenvolver suas ideias apesar de suas limitações, principalmente sendo criativo com a linguagem. Logo neste prefácio aos doutores da Sorbonne ele diz, por exemplo, que é preciso reconhecer que a alma difere do corpo, ou que é distinta dele. Isso resolve o materialismo tosco de heresias do tipo ateístas, e preserva a possibilidade de dizer algo distinto da pura imortalidade. Em outros termos: assim é possível dizer que a alma não morre com o corpo por diferir dele, e só nesse sentido qualificar a sua “imortalidade”, com uma condição bem localizada.
O problema de Descartes aqui, como já vimos na obra anteriormente analisada, é sua excessiva crença no Racionalismo. Ele se propõe afirmar que essas matérias são demonstráveis com o recurso apenas da Razão Natural, tanto a de Deus quanto da alma, embora isso contrarie a noção de que as verdades sagradas são reveladas através do dom sobrenatural da Fé. Duas coisas lhe faltam: primeiro, a noção que a própria Razão Natural é iluminada pela Graça divina e, portanto, disponível apenas com a permissão de Deus; segundo, que as glosas bíblicas que ele menciona a respeito dos estudiosos da natureza que ignoraram o Criador não se referem a uma filosofia deficiente, mas justamente à falta de Fé, uma decisão exclusivamente moral com repercussões espirituais. Sua proposta, portanto, de estabelecer de uma vez por todas essas demonstrações para toda futura filosofia ou ciência, é na melhor das hipóteses um testemunho de Ingenuidade, e na pior uma pura dissimulação.
Não só por generosidade, mas com alguma base em evidências, é preferível optar pela hipótese da ingenuidade. No Prefácio aos leitores encontramos uma indicação disso na sua lógica:


Ora, se os ateus continuam livres para negar o que não poderiam se a Razão Natural produzisse verdades apodícticas, é óbvio que não é possível superar esse nível da agência moral humana com discursos filosóficos. Se os ateus querem tornar Deus explicável, ou a mente humana divina, essa escolha vem antes do assentimento a qualquer filosofia. Por outro lado, se ele sabe que se dirige a poucos, porque se preocuparia com os outros muitos, e porque se proporia a criar proposições incontestáveis que só vão ser aceitas por quem não tem o desejo de contestá-las? Esse tipo de confusão dá uma ideia de como a alta cultura fora das instituições medievais se torna rapidamente caótica. Um escolástico medieval jamais experimentaria esse nível de desordem, porque tinha um papel social muito bem desenhado dentro de uma estrutura poderosa, de modo que lhe restasse apenas se concentrar nas suas tarefas e disputar questões apenas com seus pares especializados.
Na confirmação de que a linguagem cartesiana é precisa, e que é o principal meio de que o autor dispõe para avançar sua investigação sem fazer polêmica, encontramos numa nota de rodapé uma menção a um questionamento sobre o postulado da imortalidade da alma:

Descartes está certíssimo, e bem subsidiado escrituralmente inclusive. A vida e todos os seus bens pertencem à Deus. Uma imortalidade predicada à criatura é uma noção contraditória diante do império divino: o que significa ser imortal diante de Deus? Que Ele não pode extinguir a vida de uma criatura? Se sim, o resultado é absurdo (e ainda assim, serve de desculpa para a justificativa da doutrina do Inferno), e se não, então a predicação é tão relativa que perde o sentido.
Nesta obra o autor desenvolverá com maior cuidado as mesmas teses do seu Discurso do Método, com a intenção de conseguir o aval, ou no mínimo a consideração, da elite ilustrada de sua época.
São seis meditações, a primeira sobre o método da Dúvida Total. Para além da desconfiança dos sentidos e da vida de vigília, Descartes traz a hipótese de um novo grau de desconfiança que lhe permite negar a integridade até de entes puros de razão:

A concepção da hipótese do gênio mau é necessária considerando-se a liberdade que tanto Lúcifer quanto Adão tiveram. Que ela seja incompatível com a essência divina, isso o próprio Descartes mencionará logo em seguida, mas a razão da confiança em Deus não é mandatária para a vontade de fazer o oposto, caso contrário a rebelião seria impossível, ou ao menos inimputável. O que o autor busca, entretanto, não é resolver isto de imediato, mas antes alcançar aquele nível de certeza que nem essa hipótese pudesse negar.
É claro que essa novidade no método cartesiano sugere no mínimo que Descartes tenha sido de fato oprimido por fantasias do tipo gnóstico. Não direi que sua filosofia é gnóstica, mas convém considerar que ele tivesse sofrido alguma influência de cogitações desta espécie. Olavo foi alguém que tomou os sonhos cartesianos, que sugeriram a hipótese do gênio mau ao filósofo francês, como sinais sombrios de uma personalidade perturbada, mas isso me parece inconcluso.
Na segunda meditação o autor retomará a investigação a partir do método da Dúvida Total e alcançará a evidência da res cogitans:

O filósofo toma o cuidado de se afastar da ideia de alma e emprega noções mais adequadas ao incorpóreo, como mente, espírito, ou intelecto. Isto é adequado e excelente. Alma denota o movimento autônomo de um corpo, uma instância capaz de causar isto, como primeiramente observamos nos animais. Não se implica então nada, neste sentido, que denote o que é característico do humano enquanto tal. Na definição aristotélica de “animal racional”, que aliás Descartes menciona, já existe a necessidade de uma composição que justifique a espécie dentro do gênero. Mas e se o ser humano possuir um outro gênero, ligado ao Intelecto? E se o movimento de seu corpo for análogo ao animal, mas não semelhante como explicado desde o mesmo gênero? Todas estas questões são viáveis, e a filosofia cartesiana ajuda a fazer essas perguntas.
Nosso filósofo afirma finalmente que nenhum conhecimento particular pode ser atestado sem a prévia necessidade do Eu que propõe qualquer determinado conhecimento. A substância pensante tem prioridade ontológica total sobre qualquer conhecimento possível, porque é o sujeito permanente da experiência de qualquer conhecer. Quando na Física, por exemplo, se reconhece os diferentes estados da matéria conforme ela é ou não conhecida por um observador, isto parece estranho desde uma concepção materialista isolada do fenômeno inescapável do conhecimento, mas este isolamento nunca acontece senão em abstrato, justamente como produto da mente humana. Já observamos isto desde a análise da Metafísica de Aristóteles: é sempre problemático atribuir substancialidade à matéria, porque ela nunca pode ser identificada senão como componente da experiência de um sujeito intelectual. Quando o ser humano quer sair da sua experiência psíquica, ele finge que faz isso, mas nunca o poderia fazer, e todas as atribuições de realidade fora da alma são sempre abstraídas por ela mesma. Kant dará as indicações definitivas a respeito disso, continuando Descartes, mas tudo isto é derivado da antiga questão da relação entre o Uno e o Múltiplo, entre o Ser e o Devir, etc. A unidade do Ser e do Intelecto desafia a visão de uma realidade heterogênea e submetida a processos de vir-a-ser. O grande tema da Filosofia universal sempre foi e sempre será este.
Na terceira meditação encontramos um salto importante da evidência da substância pensante para a dos seus objetos interiores de conhecimento e vontade:

Isto quer dizer que só pode haver erro dentro da alma quando ela deseja atribuir ser ao que lhe é externo, conforme suas atividades interiores: seja a realidade do que idealiza, ou a bondade do que deseja. O autor reconhece que todo erro que pode se instalar na alma, sugerido por uma ação maligna qualquer, ou pelo mero engano por fraqueza ou incapacidade, depende de que a alma se pretenda sábia ou boa o suficiente. Indiretamente, este é um tremendo testemunho da Humildade, e mesmo da Presença, pois não por um acaso essa terceira meditação servirá para reconhecer o ser divino como garantidor da veracidade dos seres, caso contrário só nos restaria a Presunção e a Idolatria, atribuindo-nos sabedoria sobre o ser e a sua realidade fora de nós.
Na sua argumentação sobre a evidência de Deus o autor não consegue terminar sua descoberta com a mesma simplicidade com que realizou a evidência da alma. Ele precisa adotar muitas noções aprendidas da filosofia precedente, o que é uma prova fácil de como não existiu ruptura entre o tempo das “trevas” e o das “luzes”, apenas o espírito humano pôde se ver livre de tributar ao dogmatismo, como Kant avaliou. Vejamos um segmento relevante:




Se Descartes fosse mais profundo ele poderia estranhar a intuição da ideia do Bem, que é a mais primária de todas e que subsidia a noção da perfeição. De todo modo ele não escapa das categorias clássicas a respeito da necessidade do ente divino, a necessidade do infinito em ato como termo inicial da série causal sendo a principal de todas, que remonta às formalizações das metafísicas platônica e aristotélica. Descartes vai bem, apesar das suas limitações. Que isso sirva de lição: bons filósofos nunca mudam muito de assunto, e estão sempre evocando os grandes acertos dos precedentes de algum modo, por mais que queiram praticar uma tabula rasa.
Logo adiante Descartes sumariza sua descoberta nos seguintes termos:

Existem raciocínios mais simples e diretos que este, mas entendemos que o autor precisou conectar, como que numa demonstração em imitação ao método geométrico –algo que ele mesmo enfatiza bastante–, a nova evidência sobre Deus àquela sua primeira evidência sobre a alma. Então, porque a alma, ou a substância pensante que é inegável, concebe o que lhe transcende, isto só pode ter como origem uma outra substância infinita que possua em sua essência essa qualidade transmitida, porque o menor não causa o maior, nem o menos ordenado o mais ordenado, etc. Isto está bem assim, mas o que Descartes não esclarece é que essas categorias lógicas das necessidades metafísicas são intuitivamente autoevidentes, mas não são demonstradas. Como podemos ter esses conhecimentos, como o de que o menor não produz o maior, etc.? Esse se tornará o tema principal de Kant em sua Crítica da Razão Pura, isto é, a questão de como são possíveis os juízos analíticos a priori. De certo modo Descartes precisaria de um Kant mais cedo ou mais tarde, como Platão precisava de um Aristóteles, digamos assim.
Na finalização da sua quarta meditação, onde o autor concluirá que a ideia de Deus é incompatível com a de um gênio mau, encontramos os maiores exageros da argumentação, com a melhor das intenções mas o afrouxamento do próprio método:


Não criticarei como um ateu talvez o faria, contra o espírito do testemunho, mas contra o modus operandi. Para mim fica evidente dois defeitos no procedimento cartesiano aqui citado: (1) a menção a evidências trazidas das luzes naturais como se essa categoria fosse compatível com a do cogito que o próprio autor quis usar como método. Isto não só estraga a intenção do autor, como faz descaso com a dispensa da Graça divina que é a única capaz de sustentar o que o autor dá por evidente pela razão natural. Pode-se dizer que a racionalidade humana não faz oposição lógica por não encontrar contradição interna nas ideias intuídas, mas jamais se pode afirmar que estas ideias sejam inatas à inteligência humana senão por um recurso divino; (2) ele cria a contradição entre o que são as ideias atuais que temos do divino com um conhecimento de tipo espiritualista (e gnóstico) do tipo religioso, na experiência do que ele chama de Majestade divina. Isto é compatível com o seu dualismo, e tem o traço característico do gnosticismo que empesteia toda a história da filosofia.
Na quarta meditação o filósofo investigará a origem do erro e a encontrará no descompasso entre o nosso ser e o nosso bem, aquilo que podemos apreender e aquilo que desejamos:


Há rudimentos de Humildade nisto, mas não há clareza suficiente. Nossa Apetição envolve alvos para além da nossa capacidade. Buscamos ainda assim nos salvar ou nos realizar, aceitamos o espírito de Presunção e optamos por desmedidas na Arbitragem do Excesso de Mistura. Isto é arbitrário e imputável, porque Deus sempre poderia ser confiado como o provedor de todos os bens que nos aparecem pela Eternidade. A coerência de Descartes está na beira de alcançar tudo isso, mas por ora alcança somente o descompasso entre o bem realizável e o possível.
Nosso filósofo termina sua explicação sobre a origem do erro nos seguintes termos:





Esse testemunho é denso e complexo, e de valor espiritual ambíguo. Por um lado é um testemunho de Humildade, de Presença, mas por outro lado atesta um tanto de Gnosticismo e de Ingenuidade. Descartes acerta ao identificar o erro no abuso da Presunção humana e no reconhecimento não só da nossa limitação, mas na bondade dessa condição. Deus não criou nada defeituoso, nós é que passamos da medida correta na operação da nossa arbitragem. Por outro lado, ele tem uma confiança racionalista indevida na nossa capacidade de sempre operar na medida do conhecimento, como se não fosse necessário crer e estimar para além do conhecido. Talvez a condição do seu isolamento no momento de seu exercício meditativo, para não falar do seu estilo de vida nessa ocasião, tenha permitido conceber um tipo de vida prática que é inviável. Para a maioria dos seres humanos a necessidade de arbitrar sem conhecimento é continuamente enorme. Seu racionalismo, neste sentido, é inviável. O que se pode sempre afirmar é que os juízos podem ser separados entre os condicionados e parciais dos absolutos, e os desde uma posição de poder por dever de estado dos derivados de cumprimentos de votos, etc., ou seja, é possível uma prática sempre ajustada ao conhecimento, além da imunidade da ignorância invencível, e do cuidado com a AEM. Na melhor das hipóteses o que o autor afirma é um tanto ingênuo, sem todas essas distinções, ou talvez a brevidade do trabalho não lhe tenha permitido separar as coisas, então deixemos estar assim por enquanto. Por outro lado é bom que ele reconheça que a privação constitui o erro só da parte da criatura, mas que isto não é defeito criativo da parte de Deus, faltando apenas a explicação do mais importante: por quê isto é assim? Descartes não diz. Nós temos a Eleuteriodiceia, etc.
Na quinta meditação Descartes diz que vai buscar alguma certeza a respeito da realidade das coisas materiais, mas tudo o que ele faz é revisitar a ideia da evidência do ser divino por um novo ângulo. Sua nova abordagem não é tão original assim. É apenas o empréstimo da credibilidade dos entes puros de razão, apriorísticos, para a noção do ser divino. Nosso filósofo diz que se qualquer raciocínio do tipo matemático ou geométrico é evidente, mais evidente ainda é a ideia da essência divina que contém a perfeição da existência, como já foi dito.
Um problema que já vimos antes se repete novamente, isto é, que novos tipos de evidência são constatados sem o mesmo tipo de validação do método originário da primeira meditação. Ademais, alguém poderia dizer que já fazia então alguns séculos que essas ideias circulavam na filosofia escolástica, seja pelo Proslogion de Anselmo da Cantuária, ou pelo O Ente e a Essência de Tomás de Aquino, etc., e que não seria necessário uma nova reformulação das mesmas ideias sem grandes novidades metodológicas (visto o defeito posto).
O autor se vê obrigado a voltar para a questão de Deus porque precisa de um garantidor para a validade das experiências materiais. Isto pode ser psicologicamente aceitável, mas não filosoficamente. Ele mesmo insiste que por si não pode afirmar que nada exista fora de sua alma. Por que então seria necessário, por Deus, que as coisas tivessem substância em si, especialmente como coisas materiais? Parece que o gênio mau, esse Demiurgo, assustou muito nosso filósofo. Mas se isto foi um problema tão grande, a solução não seria uma Fé mais robusta e assumida, no lugar de uma filosofia racionalista?
Partindo para a sexta e última meditação, encontraremos o nosso filósofo justificando a composição de corpo e alma com uma lógica parecida com a da meditação anterior. Vejamos a sua argumentação:


Que o atributo mais direto do que chamamos de “realidade” seja aquilo que resista ao nosso desejo, isto é sabido faz muito tempo e não traz nenhuma novidade. Mas o autor fala de não poder sentir um objeto “se ele não se achasse presente ao órgão de um de meus sentidos“, e que “não estava de modo algum em meu poder não o sentir, quando estava presente a ele“. Essas expressões são problemáticas. Novamente, não há desvio no curso psicológico, porque entendemos imediatamente que ele está descrevendo a experiência comum que todos temos das coisas e do nosso próprio processo de sensibilidade. Mas se ele quer fazer uma filosofia racionalista baseada em evidências inegáveis independentes das impressões do tipo psicológico, ele não poderia fazer o salto necessário para atribuir, à representação psicológica do fenômeno, o conceito de presença. O fato é: tem coisas que não percebo quando quero, só quando algo aparenta estar presente, e tem coisas que não consigo não perceber quando algo aparenta estar presente. Isso é fato, ou seja, a aparência da presença de algo cuja substancialidade pode ser questionada filosoficamente. Aliás, não é esse o expediente inteiro destas Meditações metafísicas? Questionar a aparência das coisas? De onde se pode tirar que, da falta de controle ou correspondência entre desejos e realidades, se possa atribuir substancialidade ao que parece estar presente? E o que significa, aliás, estar presente? Não é ter uma percepção? Descartes quer nos dizer que a substancia extensa (res extensa) existe por si mesma e independentemente da substância pensante (res cogitans). Mas ele não pode sair da sua experiência de substância pensante para conhecer, fora dela, a tal da substância extensa, assim como o físico não pode observar o campo quântico em seu estado puro sem produzir o colapso da função de onda, ou do vetor de estado. Em outros termos, não se pode afirmar um conhecimento senão a partir da perspectiva de ser quem conhece. Isto é inviolável. Podem juntar milhões de filósofos cartesianos, ou o que mais vocês quiserem, ninguém vai mudar isto, porque o ato do conhecer sem o ser do conhecedor é impossível. Nosso autor não nota isso (ou não quer notar), e começa a fazer saltos inviáveis.
Vejamos onde vai chegar a reflexão do autor:



Que jeito estranho de pensar. E um tanto quebrado também, novamente. Ao afirmar que possui faculdades que dependem de um ser externo ao seu ser pensante para se realizar, seja a faculdade dos movimentos ou das sensações, ele continua reconhecendo apenas que não é o produtor direto de suas próprias percepções, o que já tinha sido observado faz tempo por ele mesmo. A atribuição, porém, de corporeidade, ou extensão, a essa fonte externa que corresponde às suas faculdades subjetivas, é novamente um salto desnecessário e não justificado. Não há nenhum elemento corpóreo ou extenso identificável por qualquer caráter cognoscível. Tudo que é conhecido, é conhecido por ter qualidade formal. O puramente corpóreo ou extenso não pode existir como objeto de conhecimento. Aqui Descartes denuncia a si próprio como mau aluno da Escolástica, para não falar até da filosofia clássica, porque já Aristóteles afirmava que a matéria-prima era incognoscível, e isto foi sempre reiterado no decorrer da filosofia medieval. A atribuição de substancialidade à matéria depende de uma dessas duas qualificações: (1) que seja pura função da abstração enquanto matéria-prima simpliciter, que é pura potência; (2) que seja cognoscível apenas enquanto matéria secundum quid, assinalada pela quantidade, isto é, já mediada por algum elemento formal. Se isso fosse notado pelo nosso autor, ele não poderia fazer essas acrobacias e sair falando de corpos e extensões, etc.
Digo isso para nem entrar no rolo cartesiano do suposto problema das privações do nosso conhecimento, como se Deus fosse indesculpável caso tivesse nos provido objetos defeituosos como percepções diretas. Mas se Deus é soberano, ele não teria criado aquilo que é corporal e extenso, que pode nos confundir ou enganar, de tal modo que se mantivesse como causa primeira do nosso erro? Me parece que o Deus de Descartes não é o Senhor dos cristãos, mas a divindade falível dos gnósticos, que não teria nada a ver com as subcriações de um demiurgo. Afirmo que este é um “suposto problema” porque o Limite em si não possui defeito (como querem crer justamente os gnósticos), e a nossa falibilidade é uma condição temporária apenas para o exercício do livre-arbítrio a respeito da comunhão com o Espírito Santo. Vejam que se um filósofo é cristão, livre para assentir às premissas evangélicas como princípios do seu pensamento, é muito mais fácil resolver os problemas da metafísica cartesiana, sem nem por isso abrir mão da racionalidade.
Para sermos justos com o autor, Descartes afirma ao fim do §19 da sexta meditação que a substância por trás do fenômeno da percepção deve ser um corpo ou “então é Deus mesmo, ou alguma criatura mais nobre do que o corpo, na qual isso mesmo está contido eminentemente“. Essa sua ressalva lhe ajuda a escapar da armadilha gnóstica que se proporá logo em seguida, isto é, de que deve haver corpos responsáveis pela percepção eventualmente enganosa, caso contrário Deus perderia sua confiabilidade. Seria preciso que ele voltasse a esta consideração anterior.
Primeiro, reconhecendo que os seus corpos extensos são uma improvisação para se evitar o constrangimento de ter que revisitar a hipótese do gênio mau. Implicitamente ele mesmo admite isso. Ora, se a falibilidade humana tem uma função espiritual, não há problema que Deus seja o gerador das percepções de modo direto, ou “alguma criatura mais nobre que o corpo”, como ele mesmo diz. Até porque, como já expliquei, a responsabilidade divina é inescusável como Primeiro Princípio ou termo inicial de todas as causas. Porque Leibniz e tantos outros trabalhariam numa Teodicéia futura à filosofia cartesiana, senão porque essa sua arrumação é inegavelmente incompetente? Então ele teria que recuar e reconhecer um outro tipo de solução. Fosse qual fosse a sua resposta, eu me dou por satisfeito com a Eleuteriodiceia e com a Razão Singular de Mistura Mínima.
Segundo, seria necessário ele reconhecer que a percepção do ser divino por um intelecto limitado requer exatamente esse tipo de percepção parcial que ele identifica como a razão para a atribuição de existência objetiva ao que é extenso. O que é necessário para a alma, portanto, é a percepção limitada do ser, adequada ao limite do intelecto. Reconhecido isto, é mais fácil afirmar que o ser divino cria um ser feito à sua imagem e semelhança para o conhecimento parcial de seu ser por um reflexo. Lembremos que as coisas mais firmes que Descartes reconhecia desde o princípio, no seu Discurso do método, e reiteradas nas primeiras das suas Meditações metafísicas, são as evidências da alma como substância pensante e de Deus como o infinito necessário em ato. O modo mais simples de conectar essas evidências para a explicação de todo o universo do Múltiplo, que para ele é o problema do ser do corpo, do mundo, da natureza, etc., é afirmar que a própria alma possui a potência ilimitada de conhecer que é parcialmente atualizada conforme recebe o influxo do ato divino que ilumina o intelecto criado. E ela possui esta potência porque é uma mônada criada, feita à imagem e semelhança da Mônada Incriada, que é Deus. Tudo o que achamos que é real só o pode ser, de algum modo, como o próprio Descartes admite, porque Deus é real em primeiro lugar. Essa dependência que a alma tem de Deus seria naturalmente reconhecida pelo fenômeno da reflexividade monádica. Estaria aí a descrição do que é essa “criatura mais nobre do que o corpo” que ele buscava para explicar as faculdades da percepção: é a mônada.
Esta obra é estranha, porque se por um lado contribui trazendo uma linguagem simples para uma nova filosofia, por outro lado perde o rigor mínimo para fazer uma demonstração com a firmeza que pretende. E não serve muito bem como filosofia cristã, porque o autor se nega a reconhecer os efeitos da Graça santificante sobre o intelecto. Seu racionalismo é imanentista, para não dizer já humanista. O projeto do Discurso do método era mais interessante do que o que foi entregue nestas Meditações metafísicas.
Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)
| Humildade/Presunção | 4 |
| Presença/Idolatria | 6 |
| Louvor/Sedução-Pacto com a Morte | 5 |
| Paixão/Terror-Pacto com o Inferno | 4 |
| Soberania/Gnosticismo | 4 |
| Vigilância/Ingenuidade | 3 |
| Discernimento/Psiquismo | 5 |
| Nota final | 4,4 |





































































