Lost, série por Damon LINDELOF

Assisti esta série pelo menos umas cinco ou seis vezes, e decidi que não preciso reassistir mais uma vez para fazer uma análise do seu valor espiritual.

Bem feita, com roteiros competentes, bons atores, boa trilha sonora, e boa fotografia com as paisagens maravilhosas que Deus criou no Havaí, esta série cativou milhões ao longo de anos, e parece ter trabalhado no limite entre a qualidade e a enrolação para ganhar dinheiro. Cá entre nós, era para ser uma série em quatro temporadas no máximo.

J. J. Abrams, um dos criadores da série, explorou o recurso narrativo da “Mistery Box” até a exaustão, e criou escola com os roteiristas da série. O efeito disso é que existem muitos subenredos que na verdade são meio irrelevantes, como as conspirações de Benjamin Linus, ou o legado da Iniciativa Dharma. Essas coisas não fazem muita diferença no fim das contas, embora distraiam muitos os nerds que são geralmente são fãs com uma competência intelectual duvidosa no discernimento do que é essencial e acidental, meio e finalidade, etc. A estória está centrada em personagens que passam pela ilha de Lost mais ou menos como as almas passam por este mundo, para ter alguma experiência importante e seguir em frente depois. A ilha em si é apenas um cenário, e essas camadas superestruturais que os personagens criam são relevantes apenas no contexto da sua agência moral.

O fenômeno recorrente é que almas são trazidas a essa realidade, que na série é representada pela ilha, literalmente como indivíduos perdidos com relação ao sentido de suas vidas, mais ou menos presos em seus respectivos traumas de origem. Neste ponto o nome da série em Portugal, onde se costuma adotar a máxima literalidade dos títulos (para o humor dos brasileiros), acabou sendo uma escolha muito feliz: Perdidos. Na última temporada o sábio ou guru Jacob afirma isso diretamente aos protagonistas: vocês estão reclamando, mas a vida de vocês não fazia sentido antes de virem para cá.

Recapitulando a série brevemente, vamos aos fatos mais relevantes.

Desde tempos imemoriais, de algum modo seres humanos acabam se vendo nessa misteriosa ilha por várias razões, a maioria como sobrevivente de algum tipo de desastre, e alguns como convidados por habitantes. A lembrança mais antiga de habitação da ilha já mostra essa dinâmica pronta: por um lado uma mulher misteriosa, que eu vou chamar de Mãe, que é guardiã da própria ilha e portadora de segredos, e por outro lado sobreviventes, provavelmente náufragos, que são tratados como hostis. Conhecemos essa realidade pela experiência de outros náufragos mais recentes, na verdade uma mulher gravidíssima que dará a luz a irmãos gêmeos com a ajuda da Mãe. Imediatamente a mulher é assassinada pela Mãe, que vai criar os irmãos como se fossem seus filhos. Eventualmente a Mãe apresenta aos filhos um tal “Coração da Ilha”, que deve ser protegido sabe-se lá porquê. Na verdade a Mãe está querendo um substituto para a sua função, tanto que quando ela morre pela mão de um deles mais tarde, diz “obrigado”.

Para mim é óbvio que a Mãe, além de ser assassina, é mentirosa.

Digam o que quiserem, que “para martelo tudo é prego”, mas para mim a ilha representa o mundo decaído, ou “paraíso perdido” se preferirem, e o Coração da Ilha é um símbolo do Pecado Original. Literalmente, no centro do mecanismo há um sistema que imita uma cópula, que é como uma máquina que serve para prender a luz. Um simbolismo muito óbvio do Pacto Ouroboros: a cópula carnal “prende” a substância espiritual numa condição inferior. A Mãe foi parar lá por efeito de algum outro pecado anterior, e se viu presa ao dever de preservar o Coração da Ilha sob pena de que se o mecanismo fosse desfeito, o mundo acabaria. Ora, o simbolismo é claro: se não se manter o Pecado Original, o mundo decaído termina. A Mãe está presa ao seu papel até que encontre um Substituto para sua função, de modo que o mundo continue existindo. Foi por isso que ela assassinou a verdadeira genitora dos gêmeos e mentiu se apresentando como se fosse a mãe deles.

Aos poucos as personalidades dos irmãos vão se desenvolvendo. Jacob é mais ordeiro e lento no aprendizado, enquanto seu irmão, sem nome (vamos chamar de MIB, de Man in Black, ou “Homem de Preto”), é mais intrigado, curioso e independente, sendo chamado inclusive de “especial” pela Mãe, provavelmente numa tática de manipulação para que ele eventualmente aceitasse o papel de substituto como guardião do Coração da Ilha. Acontece que quando outros náufragos são descobertos pelo MIB na ilha, ele decide confrontar a Mãe, que havia dito, em outra de suas mentiras, que não existia nada além da ilha, e que eles três eram as únicas pessoas que existiam. Mais uma vez se confirma o simbolismo do Pacto Ouroboros: os seus subscritores costumam crer na mesma coisa, que se eles não gerarem e mantiverem a vida por seus meios, não existirá mais nada.

Jacob defende a Mãe e resolve ficar com ela, e MIB vai morar com os Outros, com o objetivo de sair da ilha.

Acontece que essas duas trajetórias colidirão quando a Mãe descobrir que os Outros estão próximos de desvendar os mistérios necessários para escapar da ilha, de tal modo que isso possa comprometer a continuidade da mesma. A Mãe age contra os Outros, causando a sua morte e a destruição de seus aparatos, e então MIB se vinga finalmente de todos os crimes da Mãe a a mata (quando ela justamente o agradece). Ela já havia tornado Jacob o novo guardião substituto no seu lugar. Jacob, por sua vez, resolve punir MIB lançando-o dentro do Coração da Ilha, algo que já havia sido sugerido como um destino mais sinistro do que a própria morte. O fato é que Jacob não consegue matar o irmão com as próprias mãos, como aliás jamais conseguirá fazer. A Mãe produziu algum encantamento que previne que os irmãos possam se matar diretamente. MIB torna-se então o Monstro de Fumaça, que talvez fosse a forma verdadeira da Mãe, embora isso nunca seja confirmado.

A obsessão de MIB continuará sendo a mesma: sair da ilha. É um símbolo do sentimento gnóstico por excelência, a da vida numa condição de prisioneiro. Por outro lado, Jacob se torna o mantenedor da ordem. São como Caim e Abel.

Quando em algum momento no futuro, séculos mais tarde, Jacob explica ao náufrago Richard o que é a ilha, ele a compara a uma rolha que mantém o vinho preso dentro de uma garrafa. O mal, que é personificado por MIB, seria mantido preso dentro da ilha e impedido de se espalhar pelo mundo. Essa é outra mentira, é claro. Jacob aprendeu a mentir com a sua Mãe, ao assumir o papel de guardião do Coração da Ilha. A verdade é que para MIB escapar da ilha, ele precisa que Jacob morra e a ilha fique desguarnecida, mas por não conseguir matá-lo diretamente, é necessário que manipule alguém para fazer o que precisa em seu lugar. Igualmente, para se livrar de seu papel, Jacob precisa que outra pessoa lide com seu irmão de modo definitivo e assuma, em seu lugar, o papel de guardião da ilha.

Muito mais tarde, os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines serão lançados no meio dessa realidade ancestral sem ter a mínima idéia do sentido real do que ocorre. Ora, podemos dizer que nem mesmo Jacob e MIB sabem o sentido real, porque eles já foram criados num ambiente simbólico formado por mentiras e manipulações.

Jack, o líder dos sobreviventes do vôo, inicialmente assumirá um papel análogo ao de MIB: seu desejo maior é escapar da ilha. Já Locke quer acreditar que há uma razão especial para eles estarem ali, o que o torna em tese um excelente candidato a ser guardião da ilha. Acontece que por ciúme Benjamin Linus (uma espécie de “gerente” dos Outros, sob comando de Jacob) matará Locke, e sobrará para Jack assumir esse papel. Eventualmente, já para o fim da sexta temporada, apesar de relutar, ele aceita essa missão. Não o faz de modo fideísta, porém, como seria o caso de Locke, que era ingênuo e crédulo de modo quase patológico. Simplesmente Jack sabe que o plano de MIB é matar a todos os candidatos a substitutos de Jacob, para garantir que possa realizar seu plano de escapar sem possibilidade de erro. E Jack quer que seus amigos sobrevivam, apenas isso. É um herói que se sacrifica voluntariamente, e participa do ritual de passagem para assumir o lugar de Jacob, mas o faz por uma razão muito clara e bem fundamentada, sem entusiasmos nem exageros.

Isto nos dá a entender que embora seja aplicável o simbolismo do Pecado Original ao Coração da Ilha, para cada ser humano que se vê na circunstância de aceitar ou rejeitar a sua condição aplica-se o problema moral de um Dever de Estado. Neste sentido, embora MIB tivesse razão para questionar os crimes da Mãe, Jacob de modo ordeiro e paciente acaba por realizar um propósito maior que ultrapassa o nível presente de mentiras e manipulações, mais ou menos como Abel, apesar de ser ingênuo e crédulo, fez algo mais certo ao ter boa fé e confiar em seus pais do que Caim, que acabou caindo em crimes piores do que a mentira de seus pais. Entenda-se bem: o Pecado Original, com todas as suas consequências, existe sob a permissão divina por uma razão boa que o justifica, de acordo com a Eleuteriodiceia. Esta razão boa é o destino final das almas, que é o estado paradisíaco da Coruscância.

O que isto significa? Que o Coração da Ilha precisa ser mantido a todo custo? Que o Pecado Original não pode ser desfeito?

Negativo. Tanto faz, na verdade. Quem prova isso é o personagem “coringa” da estória, Desmond Hume. Ele é quem vai agir para desfazer o mecanismo no Coração da Ilha, o que permitirá a MIB tentar escapar da ilha, mas ao mesmo tempo o tornará vulnerável. Jack tentará matar o vilão, mas quem dará o tiro final será Kate, sua parceira de aventuras na série. Jack então voltará para restaurar o mecanismo na sua posição original, e então morrerá vendo seus amigos escaparem da ilha, que era o seu propósito desde o primeiro episódio da série.

Mas, voltando a Desmond, a certa altura ele compreendeu, através de seus poderes extraordinários de experimentar tempos ou mesmo dimensões diversas, que as experiências na ilha são passageiras em face de um destino muito mais excelente preparado para todos eles no futuro. Então diz a Jack: “Isso não importa, sabia Jack? Ele destruir a ilha, você matar ele. Isso não importa. Você vai me levar até aquela luz, e então eu vou para outro lugar. Um lugar onde podemos estar com aqueles que amamos, e nunca ter que pensar nesta maldita ilha novamente. E sabe qual é a melhor parte? Você está lá. Nós estamos sentados perto um do outro no vôo 815 da Oceanic. Ele nunca caiu. Nós falamos um com o outro. Você parecia feliz. Talvez eu consiga encontrar um caminho para levar você para lá também“. E Jack o responde: “Eu já tentei isso antes. Não existem atalhos, nem segundas chances. O que aconteceu, aconteceu. Confie em mim. Tudo isso importa.”

Os dois têm razão, mas em planos diferentes.

Por um lado é verdade que o desígnio final da Providência que levará as almas ao seu destino eterno é infalível e inescapável. Nesse sentido não importa muito o que cada um faz, desde que não rejeite o Bem final, que é o pecado mortal contra o Espírito Santo.

Por outro lado, na contingência criada pelo Pecado Original, as ações humanas refletem essa escolha pelo Bem, de tal modo que se não importa para Deus que Jack consiga salvar seus amigos, ou a ilha, importa apesar disso para Jack que ele faça essas coisas, pois esta é a sua maneira de escolher o Bem. Certamente existem meios mais fáceis de se fazer a escolha certa, mas Jack é um personagem intenso, heróico e ambicioso nesse sentido do dever. Ele sabe o que ele precisa fazer. Desmond acha que a história pode ser reescrita, mas Jack sabe que não, mesmo que ainda não tenha experimentado a outra dimensão. O que lhe resta é fazer a escolha que lhe permitirá estar em paz nessa outra vida futura, que é o que ele faz.

Os perdidos se encontram através da circunstância que os instalou num roteiro arquitetado por uma Providência infalível, e o trilho que centraliza a consciência humana nessa realidade cheia de sentido misterioso é o Dever de Estado. Isto é o que Jack reconhece ao fim. Desmond não tem problemas com isso, porque ele nunca foi teimoso como Jack nesse sentido, que sempre presumiu estar no controle de sua vida, etc. O dever é maior para os mais obstinados e ambiciosos, como sabemos muito bem, até porque estes costumam criar deveres artificiais com os seus votos voluntários, exatamente como fizeram a Mãe, Jacob, Jack e então Hurley, ao se tornarem guardiões do Coração da Ilha.

Cada personagem vive, assim, o seu arco particular de redenção. A maioria se encontra no final da estória, numa dimensão arrumada com o propósito dessa reunião antes de partirem para a próxima etapa desconhecida, que está para além de uma porta de luz, no último episódio da série. Embora exista uma forte imagem iconográfica do Cristianismo nessas cenas finais, outras religiões também são representadas como caminhos para essa solução espiritual final.

E os nossos vilões, como ficam? Benjamin Linus parece ser capaz de redenção ao que tudo indica, mas é um vilão menor no fim das contas. Já a Mãe e MIB tem um destino desconhecido, como aliás o próprio Jacob. Não entendo ser impossível para nenhum deles a salvação final, embora me interesse particularmente pelo caso de MIB. Tudo o que ele quis era a verdade e a liberdade, coisas boas em si, mas ele desejou isso a todo custo, e esse foi o seu grande mal (como o de Caim, aliás). Se for capaz de arrependimento, Deus não muda no seu desejo amoroso.

Há alguns aprendizados valiosos na série, entre os quais vou falar de dois dos mais relevantes:

Primeiro, a necessidade do cumprimento dos Deveres de Estados e em especial do perdão, que na série toma a forma da proposição “let it go” (“deixe estar”, ou “deixe para traz”). Todos os protagonistas são marcados por traumas que determinaram a sua encarnação particular nesta vida: o que eles precisam fazer agora é carregar essa Cruz e não replicar o mal. A grande tentação de cada um é se apegar aos seus mecanismos de defesa contra o trauma sofrido, fórmulas que são falsas porque replicam ou imitam o mal de algum modo. Senão vejamos: Jack quer ser bom o suficiente para o pai, porque sofreu de carência emocional durante a sua criação; Kate quer fugir da Lei porque presumiu ser boa a sua ação de libertar a mãe das maldades do padrasto (que na verdade era seu pai); Hurley quer compensar a frustração com o abandono paterno com o vício da gula, ou entretendo a idéia do suicídio; Sawyer quer ser tão perverso quanto o criminoso que enganou e vitimou seus pais; Locke quer acreditar que ele tem um destino especial que explique a terrível série de tragédias que viveu por culpa de seu pai; Sayid quer se entregar aos papéis mais sórdidos por se ver preso a um destino por ter nascido em difíceis circunstâncias no Iraque, e assim por diante. Curiosamente, o que todos os arcos particulares dos personagens têm em comum é o tema das consequências dos pecados dos pais recaindo sobre os filhos, uma evidência imediata e inegável da força do Pecado Original. Mas a solução não seria não ter nascido nas condições em que cada um nasceu, pois essa realidade foi providenciada pela vontade de Deus. A solução é carregar a Cruz do Dever de Estado e perdoar quem fez o mal, principalmente os pais e mães. Em suma, a primeira lição é: aceitar o Limite.

Segundo, há um aprendizado mais difícil, mas necessário, caso contrário acabaremos no lado direito da Dialética do Ouroboros, que é o da Legitimação da Mistura. A verdade de todos os personagens é que eles querem sair da ilha. Quando parece que encontramos alguma exceção, como nos casos de Locke, ou de Rose, é sempre um caso particular em que um mal maior específico é evitado, como a paraplegia do primeiro, ou o câncer terminal da segunda. Em ambos os casos seria absurdo presumir que estes prefeririam viver limitados ao ambiente da ilha, se pudessem continuar saudáveis fora dela. Se nos esquecermos de que este é apenas um local de passagem, corremos o risco de achar que o Bem precisa do Mal, ou a Luz das Trevas, etc. Isto quer dizer que MIB de algum modo é o personagem mais próximo da verdade em toda a série, pela ambição da sua consciência. Porque se ele queria sair da ilha, igualmente tanto a Mãe quanto Jacob também quiseram o mesmo. Apenas ele se obstinou e foi longe demais na perseguição da sua meta. Se acreditasse que a mesma Providência que o havia instalado ali na ilha seria capaz de retirá-lo de lá, poderia ficar em paz, perdoar a Mãe, etc. Gosto de acreditar que esse personagem é capaz de alcançar a redenção de algum modo, porque seu objetivo nunca foi o de fazer o mal, mas de ser livre de mentiras e manipulações. O problema é que quando confundimos as mentiras e manipulações dos nossos pais com uma suposta maldade de Deus, nós nos tornamos gnósticos aflitos, prisioneiros de nossa própria vida, e desta situação podem decorrer muitos males. Por isto, embora a solução correta para o MIB não fosse a de matar a Mãe como fez, e sim perdoá-la, tampouco seria bom que ele fizesse os juramentos para se tornar guardião da ilha, e nem apoiar seu irmão Jacob nesse intuito. O mal precisa ser denunciado e rejeitado, e não há mal maior, mais ancestral e primordial, do que o Pecado Original. A dificuldade é fazer isso e ainda assim amar os desgraçados que estão amarrados na mentira, a Mãe, Jacob, etc. MIB tinha razão na sua visão da verdade e da liberdade, mas errou no alvo, por não antever uma dimensão maior, um destino eterno, em suma, o Amor divino governando todas as coisas. Achou que devia salvar a si mesmo, e por isso errou. Mas, novamente, gosto de crer que ele poderia alcançar a paz da salvação mesmo assim, porque seu intuito original era a verdade. Em suma, a segunda lição é: rejeitar a Mistura.

Nota espiritual: 5,3 (Calaquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno6
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final5,3

Pluribus, série por Vince GILLIGAN (1T)

Nesta série nós acompanhamos a experiência ingênua de seres humanos criando um vírus em laboratório seguindo instruções recebidas do espaço. Que os seres humanos pareçam mais dispostos a acreditar na bondade de ETs do que em Deus, isso continua sendo algo espantoso, mas não de todo incompreensível: se a evolução e o progresso tendem universalmente na mesma direção positiva, quem está na frente poderia dar dicas para quem está atrás. Essa é a premissa oculta por trás do otimismo tolo no início da série. O auge da imprudência consiste em fazer essa experiência sem protocolos adicionais de segurança. Eu instalaria os pesquisadores numa base submarina no meio do mar, ou numa estação espacial. Como não fizeram isso, ocorre um acidente e logo o vírus começa a ser transmitido de humano para humano com facilidade.

A protagonista Carol Sturka, escritora de ficção residente em Albuquerque, Novo México, testemunha a sua companheira Helen sendo contaminada pelo vírus lançado por aeronaves, bem como o de todas as pessoas ao redor naquela mesma localidade. Estranhamente, Carol não é contaminada. O que ela descobre é que os infectados logo se reanimam e agem em conjunto, como se todos tivessem uma mesma mente coletiva. Helen, porém, falece em virtude de sua queda no momento da infecção. Muitos outros seres humanos morreram em circunstâncias semelhantes.

Nossa protagonista, meio alcoólatra e emocionalmente instável, levará muito tempo para descobrir informações importantes sobre o funcionamento do vírus. Os infectados perderam sua agência individual, são incapazes de matar e mentir (embora possam dissimular e manipular, como atores), e são vulneráveis a emoções negativas muito fortes. Apenas treze indivíduos teriam sido imunes ao vírus em todo o mundo. Os infectados fazem todos os desejos dos imunes, para ganhar sua confiança e mantê-los sob controle. Depois de muitos vais e vens emocionais mais ou menos inúteis, Carol finalmente descobre que eles planejam infectá-la independente de sua vontade, e que pretendem construir um dispositivo, como uma antena, para retransmitir o sinal da programação do vírus para o espaço. Inclusive são econômicos com relação a energia e alimentos porque sabem que não tendem a durar muito tempo na sua condição, incapazes de coletar, plantar, cultivar, criar animais, etc.

Desde o início essa seria a linha de investigação mais óbvia para Carol: descobrir como vivem os humanos afetados pela infecção, de onde veio a transmissão do código de criação do vírus, e qual é o objetivo desse coletivo infectado. Passam oito dos nove episódios, mais que dois meses na história, para a protagonista descobrir coisas básicas que poderia ter descoberto muito mais rapidamente. E ainda não descobriu tudo. Por exemplo: os infectados se reproduzem? Há menção a números de nascimentos e de mortes, mas os nascidos foram todos concebidos antes da infecção.

Os infectados em certo momento mencionam um tal “imperativo biológico” no comando das suas funções. Pode ser uma dissimulação. Pode ser um erro na programação do vírus, ou ainda um design com um objetivo específico. Ora, sabemos pelo menos desde Aristóteles que as funções elementares do tal imperativo biológico são as de nutrição e reprodução, para manter os indivíduos e a espécie, respectivamente. Não usar a energia vital para adquirir nutrientes de qualquer maneira não é nada natural nem biológico, é artificial. Caso não se reproduzam (algo que ainda não sabemos), aplica-se o mesmo conceito. Isso indica que os infectados são escravos de uma programação cujo objetivo, provavelmente, é o de limpar o planeta da vida senciente. Talvez com o objetivo de torná-lo habitável por uma raça de conquistadores imunes ao vírus?

De qualquer modo os personagens que ainda não foram infectados (restaram 12), inclusive o aguerrido paraguaio Manousos, têm razões de sobra para querer restaurar a condição natural do ser humano, que eles chamam exageradamente de “salvar o mundo”. Isso porque ainda que possa haver paz e segurança com esse intelecto agente coletivo, essa condição consiste numa óbvia redução da condição humana plena. Na plenitude existe não só criatividade intelectual e capacidade de experimentar o espectro completo das emoções, mas principalmente a liberdade da agência moral individual, que é a vida na Presença, diante de Deus. Nesse sentido, a infecção equivale à morte.

Na remota hipótese de que o vírus tivesse sido criado com a finalidade de evoluir a humanidade a um estágio mais avançado, sua atuação criaria a condição de aumentar a liberdade, e não reduzir. Por exemplo, as pessoas poderiam experimentar um efeito temporário da infecção, e ao sair dessa condição de volta ao normal, fazer uma avaliação sóbria e independente sobre a conveniência de se submeter de modo permanente ao estado infectado. Como isso não aconteceu, a infecção foi um ato violento, assim como a retransmissão a partir da Terra consistirá também num ato de violência. Pode ser que descubramos ainda, por exemplo pelo testemunho de uma pessoa curada da infecção, mais detalhes sobre os efeitos do vírus. Infelizmente vai ficar para outra temporada, porque esses estúdios ganham mais dinheiro assim. Poderia ser um filme, mas renderia menos aos produtores.

Já a respeito da parte humana, há pouco a se dizer, pois Carol é uma personagem muito descompensada emocionalmente, imatura, ingênua, contraditória, etc. E os outros imunes ao vírus também não são muito melhores. A série causa uma certa reflexão sobre os problemas da condição humana que são destacados quando são suspensos pelo estado artificial de total colaboração do coletivo infectado. Mas ao mesmo tempo ressurge a valorização da vida convencional em face dessa artificialidade. Então não chegamos em grandes conclusões, pelo menos por enquanto.

Nota espiritual: 4,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade5
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,4

Obras filosóficas, livro por George BERKELEY

Nosso autor, o bispo, teólogo e filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753), desenvolveu a doutrina de um Idealismo Subjetivista, resumida na sentença de que “ser é ser percebido” (esse est percipi), que convém analisarmos por sua proximidade com o meu próprio sistema.

Ele começa um tanto audacioso, afirmando que não existem idéias abstratas. Só temos idéias particulares de cuja intuição a respeito dos princípios somos capazes de abstrair sobre outras idéias particulares submetidas aos mesmos princípios. Ele dá o exemplo dos triângulos: ninguém nunca imaginou um triângulo sem características particulares, mas basta que os princípios que governam um triângulo se apliquem todos os demais, para que formemos essa noção abstrata, que no entanto não é uma idéia, porque esta requer a particularidade para ser concebida. Um tanto dessa discussão me parece ociosa, sendo franco. Entendo que Aristóteles já resolveu boa parte desses problemas: toda existência é individual, e todo conhecimento é universal, o que quer dizer que quanto mais abstraído for um elemento, menos realidade concreta ele contém (embora possa ter mais realidade formal, na pureza de sua essência, justamente por se distinguir de todas as demais). Se a definição de idéia se refere a um ente possível, como substância ou acidente, essa requer todas as particularidades, como uma essência não pode se manifestar sem todos os acidentes necessários. Entendo a intenção de Berkeley, principalmente quando ele fala da conveniência e do costume do uso dos nomes para representação das idéias. Aí ele acerta muito bem. Porque não há território mais falso do que o da linguagem humana, quando ela se pretende adequada à realidade, e não meramente sugestiva. A inspiração do nosso filósofo para essa crítica vem do movimento iniciado por Descartes e outros, isto é, o questionamento do edifício da filosofia escolástica medieval. Ou seja, talvez a abstração não fosse tão perigosa não fosse essa ambição dos escolásticos, e agora parece ser necessário operar alguma correção.

Desde o início a relatividade das percepções a um intelecto, alma, mente, espírito ou eu capaz de sensibilidade é determinado como premissa de todo o pensamento do filósofo:

Isto quer dizer que tudo o que é, é para alguém que o percebe como ser. Ou, ainda, ser é ser percebido. E pela simples razão de que o que não é percebido de algum modo não pode existir, pois não existe diante de nenhum observador, ou Intelecto (que é o meu termo preferido). Berkeley prefere sempre os termos “idéias”, para se referir aos objetos da percepção, ou imaginação, etc., e o termo “espírito” para se referir ao ser que tem as idéias.

Nosso filósofo sabe muito bem que sua teoria não é de fácil aceitação por parecer ferir o senso comum. Ele deixará claro que isso se dá por um defeito da opinião geral dos homens, e não da sua tese:

Ora, “colocar em dúvida”, ou ter como “claramente contraditório”, não são intuições imediatas derivadas da percepção da vida comum. São raciocínios abstrativos, filosóficos. Neste ponto, portanto, o autor força um tanto a barra, querendo fazer crer que para todos deveria restar óbvio o que propõe. Mas isso só é assim para quem se dedicar à reflexão que ele oferece, caso contrário ele aliás nem precisaria se dar ao trabalho de escrever o seu livro. Acontece que aqui identificamos um ponto cego deste pensador: ele não compreende a conveniência espiritual da ambiguidade da experiência da realidade para a realização da liberdade humana. A realidade é apresentada aos nossos sentidos de tal modo que sempre seremos livres para crer que tudo é produzido pela causa divina, ou por outras causas mais ou menos separadas, ou até totalmente independentes, de Deus. O Criador fez assim pra o maior bem das criaturas livres. Berkeley parece estar tão engajado no combate contra a grosseria materialista que ele desconsidera as razões espirituais dessas coisas serem assim. Se considerasse a bondade dessa configuração pelas razões que apontei, não acharia que é uma “opinião estranhamente predominante” essa a da existência de substâncias fora do espírito. Ao contrário, seria a coisa mais normal e previsível do mundo. A vida da Fé verdadeira, na Presença de Deus, ou ainda Vida de Oração, não é natural ao ser humano. A natureza é decaída e amaldiçoada em decorrência do Pecado Original. É necessária a ação da Graça santificante para recuperar os plenos poderes da Razão Natural que o primeiro Pecador rejeitou ao trair o Amor divino. Como teólogo, é estranho que Berkeley não note essas coisas ao produzir a sua filosofia, mas não conheço o seu pensamento a respeito desses outros fatores.

De todo modo, a vontade de explicar a realidade na sua simplicidade é notável e vai até mais longe que outros autores da época, ou mesmo posteriores. Berkeley diz: “Não há nenhuma outra substância a não ser o espírito, ou aquele que percebe.” Ele está mais próximo da mônada pura do que o próprio Leibniz, que ainda complicava com a visão de um mundo de compostos formados pelo agregado das Substâncias Simples. Também está numa condição melhor que a de Kant, porque não requer que haja nem por hipótese uma coisa-em-si para além da representação: para Berkeley o fenômeno já é o ser que existe para quem o percebe. Seu idealismo é o mais simples e puro que já vimos, entre os autores estudados até aqui. E por isso mesmo, é o mais radical.

Inevitavelmente o conceito de matéria teria que ser questionado, e com muita razão, desde o seu ponto de vista:

Para alguns isso pode parecer muito estranho, mas para mim é a coisa mais óbvia, desde o estudo dos filósofos mais antigos. Já Platão tratava a matéria como uma aparência ou imagem da verdade, sem substância ou ser próprio. E Aristóteles afirmará: a matéria em si é incognoscível. Desde então o que chamamos de material fora da função de causa de uma Percepção não significa nada, isto é, é uma pura abstração. A matéria-prima simpliciter equivale ao Nada diante do Uno, ou ao Zero diante do Um, enquanto a matéria secundum quid, assinalada pela quantidade, já é componente formal da substância. Por que, então, parece que Berkeley está nos dizendo algo fora do normal? Em primeiro lugar, há a ignorância e a confusão causadas pela influência do espírito de Idolatria, por decorrência do Pecado Original, como já expliquei antes. Em segundo lugar, há o problema particular da História da Filosofia, com a influência da idéia de res extensa de René Descartes. Quem diria, não é? O maior obscurantismo veio de certas posições racionalistas e iluministas modernas, e não da filosofia escolástica medieval. Ao analisar, por exemplo, a filosofia de Leibniz, percebemos que ele peca mais no que se acha devedor dos contemporâneos do que dos antigos.

Uma habilidade do autor em sua construção é a de mostrar como o que é complicado é o modo “natural” do pensamento humano que cogita o ser de coisas não percebidas, o que novamente indica como essa natureza é inclinada à falsidade. Além disso, em linha com os melhores frutos da filosofia de Ockham, no sentido de preservação da simplicidade e da economia, Berkeley questiona a necessidade de uma complexidade inútil:

Isto evoca o tema que já tivemos a oportunidade de abordar antes aqui, quando tratamos de uma dificuldade na filosofia de Leibniz: o problema de que se todos os seres existem para o Bem, e o Ser divino já é o seu próprio Bem suficiente por toda a Eternidade, só resta os seres necessários ao bem próprio das criaturas. Se há uma bondade, beleza, ou sabedoria imanente ao conjunto da Obra de Deus, esta decorre da exata proporção entre meios e fins na ação da Providência divina, sem exceder no mínimo esta conveniência do Amor do Criador. Berkeley tem razão, e seu questionamento valeria também para a contestação daquela tese gnóstica de doutores católicos que creêm num corpo ressuscitado com uma boca que não come, um nariz que não cheira, um ouvido que não ouve, mãos que não tocam, etc.

Antes que se afirme que a filosofia de Berkeley tende a algum tipo de monismo, o próprio autor esclarece que o sujeito condicionado, ou parcial, da Percepção não pode ser ele mesmo apenas uma idéia para um Intelecto superior:

Ele está falando da mônada, ou Substância Simples, cuja singularidade indeterminada é necessária para a experiência subjetiva das Percepções, embora ela própria não tenha qualquer forma diferenciada para além da sua singularidade. O Uno, inefável, é reconhecido assim de modo indireto. Berkeley não gosta muito, ou melhor, nada mesmo, das formas substanciais, enteléquias, etc., mas ao seu modo não pode negar a característica da unidade do espírito que percebe.

O nosso filósofo afirma que para além do que o nosso espírito determina, existem as idéias produzidas por um espírito superior, que é Deus. Assim, um critério típico de distinção do que chamamos de Realidade, que é o da independência em relação à nossa Apetição, não determina que exista algo fora do espírito, mas somente que isso ocorre em relação ao nosso espírito particular, tudo o mais se referindo ao Espírito Santo. Em decorrência disso, outra questão se coloca. Um dos pontos cruciais de qualquer sistema idealista é o dever de lidar com o problema da Causalidade em geral: se o fenômeno manifesta uma idéia de modo direto, as supostas relações de dependência dos fenômenos entre si são na verdade aparências apostadas à própria Percepção, ou fatores que são convenientes para o sujeito que percebe, mas nunca relações de necessidade. Diz o autor:

É preciso ao mesmo tempo preservar a Causalidade como fator contingente útil para a vida humana atual, e ao mesmo afastar essa idéia da Ontologia geral, como se o Espírito não pudesse produzir um efeito, que é somente uma idéia e nada mais, sem uma causa qualquer que não seja a própria Vontade. Lutei com estas questões logo na Introdução da minha Monadofilia, especificamente as idéias de causalidade, irreversibilidade e escassez, porque notei que essas são as noções mais típicas que se repetem como manifestação da influência do espírito de Idolatria. Berkeley neste ponto é infalível. A Causalidade não reflete uma Lei imutável, antes disso é apenas um ordenamento das Percepções que opera como beneplácito aos caídos, ou seja, é somente uma concessão da Graça divina.

Atacando aberta e diretamente o espírito de Idolatria, nosso autor deixa claro que não abole nenhuma das categorias fundamentais do Ser, exceto a abstração chamada Matéria:

Seja a substância, a entidade, a existência ou a realidade, tudo isso é preservado no Idealismo de Berkeley. O problema é a afirmação do ser de qualquer uma dessas categorias fora do espírito. Neste sentido, esta filosofia esclarece de certo modo que a influência do espírito de Idolatria gera certas abstrações particulares, entre as quais uma das mais cruciais para o erro das filosofias, senão a pior mesma, é a noção de Matéria. Como em si a matéria é de fato e inescapavelmente incognoscível, é meio difícil negar a afirmação do autor. O máximo que se pode fazer é apelar para alguma regra de Analogia, como a Escolástica, de Correspondência, como faz Leibniz, ou para a Coisa-em-Si, como faz Kant. Mas, perguntemo-nos, com Berkeley: para quê mesmo é necessário fazer isso? Pensando no ordenamento da realidade como um sistema processual com finalidades bem determinadas, quem ganha com a criação de uma substância que não é percebida por nenhum espírito, se esta não pode ser conhecida de modo algum?

É claro que nosso autor não revisita a filosofia aristotélica com o cuidado que muitos achariam imprescindível, pois como se pode agora justificar Forma, Matéria e o Sínolo (i.e. o Composto)? Parece ser mais fácil seguir uma linha independente. Mas isto não seria impossível. O caminho é a total conexão de Aristóteles com Platão: a matéria aristotélica serve tão somente para individuar o contingente, já que a forma se refere ao ideal que não pode ser conhecida sem esse seu modo de ser concreto. Porém, conforme os acidentes podem ser todos indefinidamente compreendidos como idéias ou formas, a própria matéria se torna cada vez mais abstrata por si mesma, até chegarmos no puro Nada incognoscível, como Aristóteles mesmo reconhecia. De certo modo, não fosse um certo exagero platônico na negação da realidade do conhecimento contingente (um hábito gnóstico, por sinal), não seria preciso ancorar as idéias na experiência sensível através do conceito da matéria. E pensando mais profundamente, tudo deriva de um certo vício abstracionista a partir da capacidade nominalista do ser humano. O nome simplifica porque recorta do real, mas imediatamente se divorcia por isso mesmo da realidade concreta. A tentação de prosseguir nos caminhos da abstração é tremenda, e Berkeley se refere a isto várias vezes, reafirmando a necessidade de se voltar ao mundo dos fatos não processados pelo moedor filosófico que cria essas salsichas abstratas. Em suma, sem a noção de Idéias fora da Percepção, não é necessário refundar a experiência cognitiva através da Matéria. Quando mais tarde Zubiri afirmar que a sensação é inteligente, parece que ele também está querendo sair desse rolo do Problema dos Universais por um caminho mais simples. Será essa questão, então, apenas uma gigantesca ficção grega? Não nos cabe investigar isso aqui e agora. Mas me parece que a Humildade favorece os caminhos desses ousados como Berkeley, Zubiri, etc. E que por outro lado os construtores de sistemas complexos são mais ou menos todos viciados e presos em alguma forma de Gnosticismo. Como já vimos, nem Plotino escapou disso. O Idealismo mais perfeito, portanto, requereria uma total imunidade contra a Gnose, porque significaria a total confiança no Espírito Santo. Essa seria sempre a melhor Filosofia Cristã.

Convém lembrar que esta filosofia não só não é contraditória com a Revelação cristã, como é extremamente compatível, pois derruba a Idolatria sem negar a Criação divina, ou seja, sem entrar numa armadilha gnóstica. O Evangelho está cheio de testemunhos que validam o pensamento de Berkeley: o Reino de Deus está dentro de nós… ou então o significado da Santa Ceia, que é comer e beber o Corpo de Deus, de modo que o material é uma manifestação da Graça… ou ainda, como o Apóstolo afirma, que em Deus nos movemos, somos e existimos, etc. Por outro lado, a noção de que existe um terceiro elemento entre a alma e Deus é a interferência de um componente diádico gnóstico que permitirá a Idolatria e a Pseudoeuergesia, pois se presumirá que o produto da Graça pode ser capturado por ser justamente um tipo de substrato material passível de ser dominado pela Gnose. Mas o Nada ou o Zero não existe, por isso a Bíblia chamam os ídolos de “Vazio”.

Num ponto muito forte de sua doutrina, o nosso autor mostra que sua postura é a de maior respeito pelas sensações obtidas pelos sentidos, e pela realidade percebida, o contrário não podendo ser afirmado em favor daqueles que postulam que algo deva existir para além do que se percebe:

Ou seja, quem é cético realmente é aquele que não confia somente no que é experimentado através de suas sensações, mas que postula que haja alguma substância que não seja percebida por algum espírito. Traduzindo os termos de Berkeley, o que ele chama de ceticismo pode ser chamado também de Idolatria ou de Gnosticismo, dependendo da ênfase: Idolatria quando se afirma algum Ser alheio ao Espírito, e Gnosticismo quando se afirma que há algo para além da Percepção.

Em certo ponto nosso filósofo volta a justificar o motivo pelo qual o Senso Comum parece ter se distanciado tanto da realidade que ele descreve:

Embora Berkeley descreva de modo quase impecável os processos que causaram os enganos do Sendo Comum, e inclusive das doutrinas filosóficas, ele novamente deixa de notar os motivos mais fundamentais para o erro humano, quais sejam: 1) que Deus desejou que a Liberdade do homem sempre encontrasse as razões para duvidar da sua Presença; 2) e que, por isso mesmo, a influência do espírito de Idolatria deveria ter sua chance de prosperar de acordo com o arbítrio das criaturas livres. Se reconhecesse isso, talvez o autor não precisasse se irritar tanto, ou estranhar a rejeição à sua filosofia. E entenderia talvez que antes da Filosofia Cristã, por melhor que seja, vem o Evangelho. Por isso eu mesmo já enfatizei a necessidade de alguma phronesis anterior à teoria monadofílica: as liberdades iniciais, e o próprio conhecimento direto do Novo Testamento. A Fé como dom sobernatural é tão necessária para a aferição do Idealismo de Berkeley quanto para a do Argumento Ontológico de Anselmo da Cantuária.

Nosso filósofo tentará responder antecipadamente as perguntas mais previsíveis a respeito de seu sistema. Na décima primeira questão ele se enrola um pouco, ou melhor, mistura algumas boas razões com outras piores. O tema é o da explicação da causalidade natural: por que haveria esse tanto de complexidade nas relações causais se os mesmos efeitos poderiam ser produzidos diretamente pelas causas mais simples e diretas? O autor explica que as leis e regras ajudam a organizar as percepções e a tornar a ação humana mais ordenada ela própria. Ele tem razão, mas na causa final desse ordenamento não coloca o que entendo ser o principal, que é o bem da liberdade humana, principalmente o da vida na Presença, ou vida da Graça. Só pode escolher viver pela Graça, na Presença, quem possa escolher o contrário, e por algumas razões suficientes. Estas razões mais que justificam o nível de complexidade causal encontrado nas leis naturais. É por uma conveniência espiritual, como tudo o mais.

Para que fique muito claro: a Árvore da Vida só pode ser escolhida livremente com a alternativa da Árvore da Gnose. É por esta razão que no mito Deus instala as duas árvores no Éden. Como pode a criatura conhecer a sua própria liberdade de escolher a Graça, se ela não tiver alternativa? O Bem escolhido por falta de alternativa não é escolhido, portanto ele não é próprio para a vida do agente moral livre: este não pode realizar a sua decisão de confiar em Deus se não tiver a chance de escolher o contrário. Assim, pela Eleuteriodiceia, a complexidade causal das leis naturais servem para que o ser humano seja livre. 

Sobre a equivalência conceitual da Matéria com o Nada ou o Zero, segue uma passagem relevante:

Se existe alguma utilidade para esse elemento totalmente negativo, é o da afirmação da necessidade da positividade divina, como o côncavo que recebe o convexo, ou como chamamos na vida espiritual a pobreza de espírito. Na minha visão, a mônada criada por si é como o pó, ou o Nada, ou o Zero, que requer a iluminação que lhe atualiza as potências intelectuais. A Criação não seria assim um produto da cópula entre o Uno e a Díade, mas do reflexo do Uno per se na mônada criada que tem toda potência, mas nenhuma atualidade. Essa substância que possui toda potência equivale de certo modo ao conceito de matéria, mas somente pelo aspecto negativo, como enfatiza Berkeley. Quando há Percepção, ou seja, a mínima atividade intelectual, já não há Nada, de maneira que a matéria mesmo nessa figura de passividade é inconveniente, pois o que reage ao influxo divino é uma alma ou espírito, sempre.

Me espanta que Berkeley não tenha associado a experiência do ceticismo que ele denuncia por excessos abstracionistas ao Gnosticismo desde Lúcifer e Adão. Vejam como ele está próximo da verdade:

Essa é uma defesa infalível da veracidade da experiência humana. O erro gnóstico projeta para fora de si a confusão que é produzida apenas por uma malícia interior. Mas se o nosso autor não aponta essa conexão, é porque está produzindo uma filosofia alheia a esses juízos espirituais, pelo menos até certo ponto. O que importa aqui é compreender que se alguém interpõe entre aquele que percebe e aquilo que é percebido algum outro elemento externo que pode ou não validar a experiência do conhecimento, cria-se assim um problema insolúvel. Estaria Platão errado, então, ao querer “sair da caverna” das aparências? Não, porque ele buscava o Espírito, assim creio, que fundamentava todas as experiências. Lembremos, com alguma generosidade, que o mundo de Platão, Aristóteles, e mesmo de Plotino, era um mundo em que não se tinha notícia da Queda e de suas consequências. O Gnosticismo sempre lucrou com a confusão gerada pela ignorância da Revelação e do seu significado pleno: muitos quiseram negar a integridade de uma experiência sem discernir que o que há de rejeitável não é o Limite, mas a Mistura. Por melhor que esses filósofos antigos fossem, seria difícil que produzissem uma doutrina totalmente compatível com a Revelação do Pecado Original e da Queda. Mas os filósofos cristãos não têm desculpa para além da sua ignorância ou má vontade. A Caverna de que Platão queria sair, enfim, não era o mundo criado por um Demiurgo mal, era a condição do decaimento e de Mistura de Luz e Trevas. Ele apenas não sabia disso. E muitas filosofias poderiam ser bem melhores, se não fosse essa confusão entre a realidade criada por Deus e o mundo decaído. Lembrando: sem a Queda continua existindo Cruz e a experiência da Mistura, porque a Liberdade é necessária, mas o Pecado Original instalou uma condição muito pior, por arbitragem de um excesso de Mistura. O que, aliás, continua sendo feito. Voltando ao ponto de Berkeley, porém, a Queda não falsificou a experiência humana, nem a nossa capacidade de conhecer a verdade. Criou-se, porém, um estado em que sem a Graça santificante nós permanecemos alheios ao sentido espiritual das coisas, pois somos criados em Cativeiro, e fomos vendidos aos demônios pelos nossos ancestrais. O que é necessário, portanto, não é a correção da cognição humana, mas a luta contra a mentira e a perversidade, e contra todos os espíritos malignos que negam a Glória de Deus.

Para não se dizer que o autor não deu nenhuma notícia do significado espiritual dos erros filosóficos que condenou, encontramos um trecho significativo a esse respeito:

Sim, impiedade, profanidade e idolatria, é disso que se trata. E Berkeley fica tão animado com seu Idealismo como eu fico com a idéia da mônada: basta que só exista a nossa experiência de Deus através da nossa Percepção para que toda a Idolatria seja destruída. Mas tantos bons pensantes religiosos são atraídos pela matéria como que por um fetiche. Basta verificar o que os romanos fizeram com o sentido da Santa Ceia, entre tantos outros rituais que confirmam os erros filosóficos em formas religiosas. Mas ora, o mesmo pode ser dito justamente do Pecado Original, pois é fácil identificar a raiz de todos os males, mas difícil é querer viver com essa liberdade. Uma certa sombra paira sobre a humanidade: é o peso inclemente da Tradição Primordial e do Costume, o Culto do Ouroboros nas suas formas típicas, e a própria força da Religião de hoje que é a representante desse legado.

Falando de Religião, esse é um ponto cego do autor, quando reiteradamente parece não compreender porque o ser humano se nega a reconhecer as coisas mais óbvias do mundo:

Daí eu pergunto, essa cegueira não foi incentivada por força dos erros da Religião? Ou por acaso a doutrina do Idealismo de Berkeley é compatível com os ensinamentos religiosos? Mas isso fica pior, porque o nosso autor tem alguma inclinação para algum tipo de humanismo, um idealismo imanentista do futuro, um entusiasmo qualquer incompatível com o espírito das Profecias. Não só não denuncia o Pecado Original, como não o reconhece no seu significado espiritual. E quer que a sua filosofia sirva para o progresso do ser humano, dando a entender que servirá para algum tipo de ênfase do tipo do Utilitarismo. Isso resulta da falta de consideração do valor espiritual das coisas, inclusive no contexto da sua investigação, pois não é a Razão Natural que fará o ser humano viver na Presença de Deus, é a Fé. Quando a Fé foi transformada num símbolo de participação religiosa, seu sentido de Metanoia se perdeu, e neste caso nenhuma filosofia vai prestar para nada, nem a de Berkeley, nem a minha.

Para demonstrar que o nosso filósofo não está imune ele mesmo da impregnação, por efeito colateral na cultura do testemunho do espírito do Gnosticismo, verifique-se esta passagem, por exemplo:

Não é difícil que um filósofo como Berkeley tenda para o lado Direito da Dialética do Ouroboros, isto é, para a Legitimação da Mistura. Ele está tão centrado na justificação da experiência humana contra os seus negadores, que deixa a guarda aberta contra todo tipo de ceticismo, mesmo que lhe conviesse, como seria o caso na recepção do dom de Vigilância.

Fazem parte deste volume, além do Tratado sobre os princípios do conhecimento humano, a coleção de Três diálogos entre Hylas e Philonous, o texto Sobre o movimento, o Correspondência com Johnson, e Comentários filosóficos.

Na troca de cartas com Samuel Johnson, encontramos uma passagem relevante. Um lembrete de que algo que nos conforta sempre com uma boa filosofia é o seu alcance, a capacidade de antever e explicar muitos problemas específicos antes que os especialistas se resolvam nos seus temas particulares, já que o geral abrange e domina o particular. Eis o exemplo:

Aqui Berkeley basicamente demonstra porque o tal “graviton”, para não falar da Teoria de Tudo, jamais será descoberto: se a gravidade fosse inerente ao contínuo extenso pela observação da gravitação descrita pela Relatividade Geral operando sobre as partículas subatômicas, concluir-se-ia um absurdo, isto é, que o equivalente ao nada (o infinitamente divisível) produz algum efeito de grandeza mensurável. Se a gravidade fosse uma propriedade intrínseca do contínuo extensivo — tal como pressuposto pelas tentativas de quantização da Relatividade Geral — então ela dependeria causalmente de uma realidade infinitamente divisível e, portanto, indeterminada. Segue-se o absurdo metafísico de que o equivalente ontológico do nada produziria efeitos mensuráveis. Logo, a gravidade não pode ser uma propriedade inerente da extensão, mas apenas uma regularidade fenomenal na ordem das ideias percebidas. Mas é claro que isso também se aplicaria aos fenômenos das outras forças, porque a maneira de Berkeley entender a Causalidade é como manifestação de sinais para o entendimento de uma natureza em favor dos seus observadores, ou seja, é uma contingência e não uma necessidade, e pelas mesmas razões que inviabilizam a quantificação da gravidade.

Em geral as idéias do filósofo são interessantes e podem ser frutuosas espiritualmente, com ressalvas, como ocorre de costume com as obras de filósofos famosos, para o problema de um certo testemunho da Ingenuidade. Forte no quesito da noção da vida na Presença, Berkeley poderia ter ido muito mais longe do que foi, se não submetesse todo o seu trabalho ao bem estar da civilização e da humanidade, como se desconhecesse as profecias e os alertas evangélicos quanto ao espírito do mundo, um problema que compartilha com outros pensadores da sua época. É uma característica do movimento contra o “obscurantismo” medieval a crença no progresso humano, num sentido que é espiritualmente perigoso. É uma pena que um filósofo tão promissor por várias razões tenha sido confinado a uma agenda tão pequena e afastada da verdadeira Glória.

Nota espiritual: 6,1 (Calaquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria9
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte6
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo8
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo6
Nota final6,1

A catedral do mar, série por Jordi FRADES

SINOPSE: A catedral do mar acompanha a trajetória de Arnau Estanyol desde a infância, marcada pela fuga da servidão feudal ao lado de seu pai Bernat, que o conduz a Barcelona após a morte da mãe durante abusos impostos pelo senhor feudal, até sua ascensão social na cidade, onde Arnau sobrevive como trabalhador braçal, torna-se bastaixo envolvido na construção da igreja de Santa Maria del Mar e constrói uma reputação baseada em lealdade, trabalho e justiça. Arnau enriquece progressivamente por meio do comércio marítimo, assume cargos de prestígio e se casa com Aledis, união frustrada por traições e anulação, seguida por um novo casamento com Elionor, imposto por conveniência política e marcado por hostilidade e conspiração. Paralelamente, Joan, amigo de infância de Arnau, ingressa no clero e ascende na hierarquia eclesiástica, enquanto inimigos do passado reaparecem e antigos ressentimentos se transformam em acusações formais. O conflito central da narrativa se estabelece quando Arnau é denunciado à Inquisição sob acusações de heresia associadas à proteção de judeus perseguidos, o que leva à prisão, confisco de bens e julgamento público. Durante o processo inquisitorial, testemunhos falsos e vinganças pessoais são usados contra ele, enquanto Elionor colabora ativamente para sua condenação. A solução apresentada pela obra ocorre quando novas provas e confissões revelam a falsidade das acusações, levando à absolvição de Arnau, à punição dos conspiradores e à restauração de sua honra, com a conclusão da catedral de Santa Maria del Mar servindo como marco final dos acontecimentos narrativos.

Parece que o problema de Arnau foi querer se casar, não foi? Talvez seja o caso, mas a sinopse do Chat GPT não nos permite afirmar isso. Aliás, qual é a época dos fatos? Sabemos que estamos em Barcelona, mas quando? Fui atrás… por volta de 1320. A vida era difícil, e continuou difícil por muito tempo. Essas grandes obras que a Igreja fazia serviam de pano de fundo para as estórias particulares de várias gerações de pessoas. Me lembra Os pilares da terra, de Ken Follett. Por enquanto não há muito o que se dizer. Exceto o óbvio, que as razões religiosas para se fazer as coisas eram desculpas para a prática humana mais antiga, que é a concentração e o uso de poder contra o seu semelhante. É o caso da exploração dos servos feudais, uma ordem social baseada na legitimação do Pecado Original (afinal, Deus é quem manda gerar novos servos), bem como da organização econômica em torno de uma grande obra como a construção de uma Catedral, ou então as razões nominais para se justificar uma perseguição política, como parece que foi o caso. Não assisti a série. Só vi o trailer. O que me pareceu é que basicamente o tal Arnau acaba se convencendo de que carregar pedras para a Igreja é algo sagrado, o que representa bem o triunfo da manipulação religiosa. Vejamos a análise.

ANÁLISE: A catedral do mar constrói uma totalidade narrativa fechada fundada na equivalência rigorosa entre obra material e ordem moral. A série organiza sua inteligibilidade a partir da edificação da igreja de Santa Maria del Mar. O edifício funciona como eixo ontológico. Tudo o que ocorre adquire peso pelo vínculo com essa construção. A pedra erguida carrega sentido. O esforço coletivo fixa uma medida de justiça imanente ao mundo representado. A cidade de Barcelona surge como campo histórico determinado pela lei, pelo trabalho, pela fé e pela violência legítima.

Esse primeiro parágrafo da análise é bem ruim, mas talvez seja apenas um reflexo do vazio da obra em si. Não sei dizer por enquanto. Mas parece que já se confirma que o projeto da construção é o que dá “sentido” à vida da população da cidade de Barcelona à essa época. Isto porque o dinheiro e o poder da Igreja determinaram que fosse assim, mais ou menos como os Estados modernos fazem hoje com suas obras e projetos. Isso vem desde o Faraó, ou mesmo desde a Torre de Babel. Não há nada de novo sob o sol, exceto que desta vez se usa em vão o nome de Jesus Cristo para fazer essas coisas, o que se pensarmos bem é um agravante, porque os faraós ou Nimrod eram pagãos, mas os espanhóis desta época deveriam ser cristãos.

A narrativa assume forma de provação contínua. A vida de Arnau Estanyol se apresenta como trajetória submetida a forças superiores. A servidão inicial define a condição humana como sujeição. A fuga do pai rompe o vínculo jurídico com o senhor feudal. O gesto funda uma culpa objetiva. A culpa não se dissolve. Ela se transforma em destino jurídico. A série insiste na permanência da lei. Nenhum ato desaparece. Tudo retorna sob forma institucional.

Agora a trama fica um pouco mais clara. A fuga de Arnau com o pai foi um ato ilegal. Qual é a base desse fato? Por que isso aconteceu? Lembremos do inesquecível, daquele motor ancestral que movimenta esse moedor de almas que é o mundo desde a Queda: o Pecado Original. Arnau pode pensar que seus pais são os heróis, ou no mínimo as vítimas da estória, mas nós temos que saber melhor que isso. A realidade da servidão no feudo, ou sob as leis da Igreja, etc., tudo isso é derivado do mesmo ato inaugural da desobediência contra Deus que encarnou Arnau neste mundo. Olhar somente para fora, ou para frente, é o que animais, ou escravos em condição análoga à animalidade, fazem. A vida espiritual na presença de Deus começa quando contamos a verdade, quando olhamos para dentro e para trás, e entendemos de onde viemos e porque realmente estamos aqui. Caso contrário, os conflitos e as aporias que buscam vilões exteriores apenas reforçarão a dialética, por exemplo, do servo contra o senhor, ou do herege contra o religioso, etc., e toda essa disputa já está nas mãos de Satanás, que foi quem instituiu esse Sistema da Besta fazendo pactos com os ancestrais de Arnau. Se a estória de A catedral do mar não nos contar nada disso, não nos surpreende, porque tal como donos de animais ou de escravos, os produtores e diretores só querem que olhemos para fora e para frente.

A construção da catedral introduz o tema do sacrifício voluntário. Os bastaixos carregam pedras como oferenda. O trabalho não é apenas econômico. Ele assume valor espiritual explícito. O esforço físico equivale a oração. A série apresenta essa equivalência sem metáfora externa. O gesto corporal substitui o rito formal. A fé se manifesta no corpo. A comunidade se organiza em torno desse ato. A catedral nasce da soma de renúncias.

Eles tinham alternativa? Como que um ato pode ser apresentado como voluntário, se outra opção é inviável? Por exemplo, quem se opusesse a participar nesse empreendimento não seria excluído automaticamente da participação na sociedade, para não falar da possibilidade de sofrer um processo por acusação de heresia ou impiedade? Se esta série ficar por isso mesmo, é um grande testemunho da Legitimação da Mistura. A obra que fazemos para Deus é INTERIOR. Meu Deus do Céu! Essas catedrais todas vão ser destruídas pela própria mão de Deus. Será que Jesus não foi claro o suficiente? Que adianta carregar pedras para Deus? Que necessidade o Altíssimo tem dessas coisas? É o ser humano que precisa se sentir digno sem que o seja, e que precisa comprar de algum modo o favor divino, como se o Amor de Deus estivesse à venda. A construção que Deus quer é interior. As pedras que devemos carregar são as do perdão, da misericórdia, da caridade, principalmente a renúncia ao poder e às tentações da vida mundana. Mas se as grandes culpas derivadas da perpetuação do Pacto Ouroboros não se convertem em arrependimento e mudança de conduta naquilo que interessa, que é a renúncia ao Pecado Original, o povo continua refém dos espíritos infernais, e a Igreja capitaliza essa culpa na forma de autoridade e poder para usar esses infelizes escravos do pecado para lhe servir. É um esquema perverso que o diabo instalou no mundo junto com seus sócios humanos, e a maioria dos nossos semelhantes até prefere isso do que se libertar, o que é sempre a coisa mais nojenta. Como Deus disse: “Coisa horrível e abominável aconteceu nesta terra: os profetas profetizam mentiras, e os sacerdotes procuram proveitos. E meu povo gosta disto!

A figura de Deus aparece de modo constante. Ela surge como instância última de justiça. Os personagens invocam Deus diante da injustiça humana. Arnau afirma em momento decisivo que “Deus vê tudo”. A frase não consola. Ela pesa. Ela introduz a certeza do juízo. O Deus da série não suspende a ordem histórica. Ele a atravessa. O sagrado não interrompe o mundo. Ele o confirma.

Espera um pouco aí, Deus não confirma nada além da liberdade que deu ao homem. Deus permite as coisas porque na sua Providência o cálculo da economia espiritual já considerou que de todas as possibilidades antevistas pela análise combinatória, e de todas esta é a melhor série possível (o Princípio da Razão Suficiente de Leibniz). E isso tudo é muito antigo, por estar na base do sentido da realidade da experiência humana neste mundo. Se Deus quisesse que o homem lhe fosse sempre obediente, não teria lhe dado a liberdade para escolher o bem. Então, se não quisermos anular o fato inquestionável da liberdade humana, nem tirá-lo da equação, nós precisamos romper com as aporias da Teodiceia e alcançar algo melhor. Esse melhor, na minha filosofia, é o que chamo de Eleuteriodiceia, que é a justificativa da liberdade humana pela razão da causa final por trás dessa experiência passageira. Como por misericórdia a Providência divina já abreviou essa nossa vidinha, na maior parte dos casos, a algo como sete ou oito décadas, não fica tão difícil entender as razões de Deus tendo em vista o chamado para a vida eterna.

A Igreja institucional surge em duplicidade. Há a Igreja da catedral. Há a Igreja do tribunal. A primeira aparece ligada à comunidade. A segunda se associa ao poder. A Inquisição encarna o juízo terreno que se arroga absoluto. O inquisidor invoca Deus para legitimar a violência. A série registra essa invocação de modo literal. “Agimos em nome de Deus”. A frase estrutura o conflito central. O nome divino se torna instrumento jurídico. O sagrado se converte em técnica.

Não vejo duplicidade nenhuma, só vejo manifestações diversas do mesmo tipo de poder básico, do homem sobre o homem. E não seria difícil verificar isso. De novo, quais são os incentivos concretos para a participação na construção da Catedral? Não é a de participação numa comunidade fora da qual não há vida possível? O que a Inquisição faz é apenas algo menos aceitável para um segmento da população, mas a fonte de poder é a mesma. Se ficarmos nessa dialética de “igreja do povo” e “igreja do poder” vamos legitimar uma das duas porcarias, é claro. A Igreja de Jesus Cristo é espiritual, é o seu corpo místico, é a aliança voluntária daqueles que amam a vontade do Criador e que imitam o Filho de Deus. Não tem nada a ver com instituições, nem para a construção de templos, e nem para processos judiciais, porque, novamente, tudo isso é apenas a manifestação da vontade de poder do homem sobre o homem. Não tem nada a ver com a liberdade e amor ao próximo do Evangelho.

O juízo aparece como tema recorrente. O julgamento público substitui a justiça interior. A confissão forçada ocupa lugar central. A verdade deixa de ser moral. Ela se torna procedimental. O tribunal exige palavras. O silêncio equivale à culpa. A consciência individual perde valor. A lei escrita assume primazia total. A série descreve esse mecanismo com precisão narrativa. Não há comentário externo. O sofrimento resulta da aplicação correta da norma.

Ok, e isso é uma maldade que a Inquisição inventou? Parece que não. Para começar, ao que me consta o Tribunal da Santa Inquisição trabalhava para criar processos onde a turba violenta e supersticiosa queria praticar vinganças com as próprias mãos. Então o cara era malvisto pela vizinha fofoqueira, essa contava para todo mundo que o cara era um herege, pronto vão querer acabar com a raça dele. Isso porque esses miseráveis são escravos do demônio, então um quer sempre se sentir melhor que o outro, ter alguma vantagem no meio dessa calamidade humana. Daí essas coisas aconteciam, e era uma zona. A Igreja instituía um processo para verificar alegações, dar chance de defesa ao acusado, etc. Claro que a própria instituição seria muito usada para justamente legitimar as perseguições pessoais ou políticas. Isso nos surpreende? É mais do mesmo, o ser humano sendo ser humano. O que quero dizer é que isso tudo deriva do Pecado Original que é perpetuado pelo povo que se torna escravo das consequências da sua ação. Então a Inquisição, ou mesmo a Igreja Católica como um todo, é uma coisa que sai do povo, da sua verdadeira crença que é a Religião de Adão, a Tradição Primordial, o Pacto Ouroboros. Essa é a causa fundamental das injustiças e dos sofrimentos. E é claro que se anunciamos a liberdade do Evangelho e da imitação de Cristo contra esse mal ancestral, nós é que nos tornamos imediatamente os hereges.

O destino se manifesta como encadeamento necessário. A ascensão de Arnau decorre de ações concretas. O favor recebido exige retribuição. A dívida moral se acumula. A riqueza não dissolve a origem servil. A memória social persiste. O passado retorna sob forma de acusação. A série estabelece uma ontologia da memória. Nada se apaga. Tudo se inscreve.

Agora o Chat GPT deu para ser lacônico. Parece que o sistema costuma exagerar tudo o que pedimos. Lá vou eu ajustar o prompt novamente. Voltando à série, como não foi detalhado o que subsidia essa interpretação, presumimos que Arnau volta e meia tem que se ver com ajustes de contas passadas, talvez desde a época da fuga com seu pai. Isso só prova que não se trata de um mundo cristão, porque não existe perdão em parte alguma. Pelos frutos conhecereis a árvore.

O pecado aparece como categoria objetiva. Ele não depende de intenção psicológica. A acusação de heresia dirigida a Mar ocorre por necessidade institucional. A série explicita o mecanismo. A Inquisição precisa de culpados. A culpa se fabrica a partir de ritos desviantes. O judaísmo oculto se torna signo de ameaça. Deus surge como nome usado para eliminar a diferença. A violência se reveste de sacralidade.

Quem é Mar? Quanta incompetência. Tive que ir atrás… Mar é uma filha adotiva de Arnau. E depois eles se apaixonam… não seria conveniente o Chat GPT me contar essas coisas? Fica difícil trabalhar assim, talvez eu tenha que incluir uma pesquisa profunda no prompt, vamos ver. Uma hora eles vão me cobrar algum dinheiro, esse é o objetivo deles, eu já sei. Mas não dá para ficar nessa linguagem esotérica. Simplesmente não consigo entender do que o Chat GPT está falando.

A misericórdia aparece como exceção rara. Ela surge apenas em momentos limítrofes. Arnau afirma diante da injustiça que “só Deus pode julgar”. A frase delimita uma fronteira. O humano não possui acesso ao juízo último. A série reconhece essa distância. Ela não a resolve. O mundo permanece submetido à lei imperfeita.

E por que será, hein? Não tem nada a ver com algo que o ser humano faz e que produz a perpetuidade dessa lei imperfeita? Não adianta nada dizer para um juiz humano que ele não tem legitimidade, por mais que isso seja verdade, porque o que basta para que os seres humanos nos aborreçam é que tenham o poder para fazer isso. A questão da autoridade ou legitimidade é uma discussão meio fantasiosa, porque se não existisse diferenças concretas de poder entre as pessoas, tudo isso se revelaria tolice. Não digo que não haja autoridade moral em algumas condições, mas elas são limitadas, e na melhor das hipóteses sinalizam a obediência de alguém à Deus sob certas condições. Isso nunca se converte em legitimação indiscriminada do poder humano.

A catedral concluída não encerra o conflito. O edifício permanece. Os homens passam. A pedra testemunha. O sagrado se fixa no espaço. A história continua marcada pela injustiça. A obra termina sem redenção plena. O juízo final não ocorre no tempo narrativo. Ele permanece prometido. A série sustenta essa suspensão como estrutura última. O sentido não se fecha pela felicidade. Ele se fecha pela permanência da ordem.

Uma conclusão bem fraca. E está errado. O edifício é mais passageiro que os homens, se acertarmos o ponto de vista que é o da alma que vive para sempre diante de Deus. Esse modo de mostrar as coisas dá um testemunho do espírito de Idolatria, como se existisse um mundo fora de nós, onde construímos templos, pontes e viadutos, e daí morremos e essas coisas ficam. Esse mundo não existe, é uma ficção. Jamais alguém viu um mundo cheio de coisas que não fosse visto por alguém que o vê desse jeito. Como Berkeley explicou muito bem, entre outros. Então é claro que não tem felicidade nessa estória. Seria estranho se tivesse alguma.

Fiquei tão decepcionado, e já estou tão cansado de ficar emendando prompts, que resolvei experimentar outra IA, Claude. Usei o mesmo prompt. Vejamos o resultado:

A série catalã concebida por Jordi Frades ergue-se como construção narrativa alicerçada na dialética entre servidão e dignidade. A ação transcorre na Barcelona do século XIV. O protagonista Arnau Estanyol nasce filho de um servo fugitivo. A fuga do pai Bernat representa ruptura com a ordem feudal estabelecida. A liberdade surge como condição ontológica conquistada mediante transgressão. O gesto fundador da narrativa é movimento de subtração ao domínio senhorial. A obra institui desde o início uma metafísica da emancipação. A liberdade não se herda. A liberdade se arranca.

Já melhorou algo, no mínimo por situar os eventos no Século XIV, coisa que o Chat GPT nem se dignou a fazer. Sobre essa questão de se precisar praticar uma transgressão para obter a liberdade, que não se herda mas “se arranca”, isso aí não quer dizer nada. Que transgressão é essa? Se é de uma lei injusta, ou de uma prática injusta de interpretação de uma lei boa, não é transgressão, embora possa ter essa aparência diante dos homens. Concordo que a liberdade não é quase nunca herdada, porque se nossos pais fossem livres seria impossível nós nascermos, mas eles poderiam se tornar livres depois do nosso nascimento, o que tornaria possível a herança de uma consciência aprimorada. Mas não seria uma liberdade material contra senhores feudais, é claro. Aliás, com liberdade espiritual, em uma geração se destrói o poder do sistema de servidão sobre todas as gerações poupadas de nascer sob essa condição. Isso serve para se ter uma idéia do que é o poder da vida espiritual e da renúncia ao mal. O perdão costuma ser a nossa libertação da necessidade de perpetuar o mal que nos fizeram. Há algo que se enquadra mais nisso do que o Pecado Original?

A construção da catedral de Santa Maria del Mar funciona como eixo simbólico e material da trama. Arnau integra-se à confraria dos bastaixos. Esses homens transportam pedras do porto até o canteiro da igreja. O trabalho é oferecido como devoção. A pedra carregada nos ombros configura sacrifício voluntário. A catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso. A narrativa estabelece equivalência entre labor físico e ascese espiritual. A dor do esforço purifica. A obra coletiva transcende a individualidade. Arnau declara repetidamente sua devoção à Virgem de Santa Maria. A relação com o sagrado não se medeia por hierarquias eclesiásticas. A fé se manifesta na entrega corporal à edificação. A pedra que sobe é prece materializada.

Gostei mais dessa formulação simbólica do que daquela do Chat GPT. Principalmente dessas expressões: “a catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso”, e “a pedra que sobe é prece materializada”. Muito bem. E o que é isso? É o esquema dos construtores de civilizações, os Filhos de Adão que desejam consumar a obra de seus pais no seu projeto de ereção de um monumento à traição da Queda, que será o futuro Terceiro Templo de Jerusalém. O que a Catedral de Santa Maria del Mar teria a ver com isso? É um modelo de ação humana voltada para o projeto de um falso Reino de Deus na Terra. Aquele templo em Barcelona é como uma filial que antecipa a construção da última matriz em Jerusalém. Novamente, Deus não quer que pedras sejam erguidas, amontoadas, talhadas, etc. Ele quer perdão, justiça, misericórdia, caridade, etc. E mesmo a construção de escolas e hospitais não resolveria (embora talvez pudesse ser algo melhor que a de templos) tanto quanto a construção de um testemunho da liberdade do Evangelho de Jesus Cristo contra o Pecado Original, pois onde não se gera ignorantes e doentes, não é necessário erguer escolas e hospitais, etc.

A estrutura social retratada repousa sobre antagonismos irredutíveis. A nobreza detém privilégios derivados do nascimento. O clero acumula poder temporal e espiritual. Os mercadores ascendem mediante acumulação. Os servos permanecem presos à terra. Os cidadãos livres de Barcelona habitam espaço intermediário. A obra explora com rigor as contradições internas dessa ordem. A liberdade jurídica dos citadinos não elimina a sujeição econômica. A mobilidade social permanece exceção violenta. Arnau atravessa estratos mediante acaso e virtude. A trajetória individual desmente a rigidez estamental sem negar sua violência estrutural.

A violência estrutural que costuma manter os servos presos à terra é originada de onde? De um total acaso? Posso parecer repetitivo, mas essa é a nossa sina enquanto caminharmos por este lugar. A servidão é gerada por uma ação humana, e uma ação humana é sempre livre e imputável, simples assim. Ah, mas e os filhos dos nobres e dos mercadores, e os membros do clero, porque a vida deles é mais fácil? Porque Deus assim o determinou por razões que não nos dizem respeito, e essa vantagem diante do Paraíso pensando bem não vale muita coisa. Se ainda assim se insistir muito no problema da desigualdade, há que se considerar três coisas: 1) tudo isso é mantido pela prática do Pecado Original, de modo que quem não gera filhos não gera a experiência da desigualdade; 2) se algumas almas podem sofrer menos do que outras debaixo da Providência divina, como poderíamos afirmar que este ou aquele caso requerem uma intervenção de nossa parte, senão já nos colocando no lugar de Deus, ou mesmo desconfiando completamente do seu governo?; 3) finalmente, mesmo nos casos de grande e óbvia injustiça na produção da desigualdade, a penalidade do malvado é a sua própria maldade, a sua vida apartada da Presença de Deus, de modo que quem vive em estado provisoriamente pior, materialmente falando, mas espiritualmente conciliado com o Criador, vive mil vezes melhor que uma criatura perdida que acha que está ganhando alguma coisa. Até Sócrates sabia disso, que é muito melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma, porque a maldade está no coração de quem é injusto, não no da vítima. Quem não quiser entender essas razões provavelmente não está querendo entender nada.

O casamento de Arnau com Elionor constitui nó dramático central. A união se realiza por interesse da nobreza decadente. Elionor pertence a família arruinada que aspira recuperar posição. Arnau acumula riqueza como cambista. O matrimônio converte-se em campo de humilhação recíproca. Elionor não consuma a união. A recusa do corpo expressa desprezo de classe. Arnau permanece fiel ao voto sacramental. A impossibilidade do amor conjuga-se com impossibilidade do desejo. O sacramento cristão revela-se armadilha quando desprovido de consentimento interior. A obra expõe a violência inscrita nas instituições que deveriam consagrar a liberdade afetiva.

O sacramento revela-se armadilha, ponto final. O consentimento interior que valida uma relação entre dois seres humanos é o da amizade, pois somos todos irmãos uns dos outros debaixo de Deus. O resto é resto. Temos uma idéia meio romântica, meio besta mesmo, de que um casamento por “amor” é superior ao por interesse, como teria sido o problema de Arnau com Elionor. Mas eu pergunto, esse amor ama o quê? O amor ao próximo é a amizade e a fraternidade. Que outro amor existe? O que se chama de amor matrimonial é geralmente um sentimento de conveniência que atende a interesses mútuos, que geralmente tem a ver com a vontade de poder sobre bens da vida como dinheiro, estabilidade, poder, influência, prazer, sonhos afetivos, etc. O contrato que costuma sair desse acordo serve para restringir a liberdade do outro. Amar o próximo é incompatível com a idéia de lhe restringir a liberdade, porque o próximo é um outro eu cujo destino é o usufruto pleno de sua liberdade na experiência do Ser divino. É claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O interesse espiritual legítimo que pode existir numa relação matrimonial é a da imposição de um limite sobre o desejo sexual, como sugerido pelo Apóstolo Paulo, mas isto é como achar bom amputar uma perna para que uma doença não tome o corpo inteiro: não seria melhor não ter a doença em primeiro lugar? A castidade é uma virtude milhões de vezes superior à tal “vocação matrimonial”. Ainda penso que o Apóstolo foi caridoso como Moisés na época da instituição da carta de divórcio. Não faz sentido recomendar que se aceite um limitador do pecado no lugar da virtude verdadeira.

A Inquisição surge como instância de terror absoluto. Elionor denuncia Arnau por heresia. A acusação é vingança pela humilhação matrimonial. O processo inquisitorial submete Arnau à tortura. A cena do potro apresenta a dor extrema. O corpo se fragmenta sob pressão dos instrumentos. A confissão extraída pela violência carece de valor epistêmico. A verdade torna-se função da resistência física. A obra demonstra que o tribunal eclesiástico opera mediante aniquilação da vontade. A pergunta sobre a fé converte-se em pergunta sobre os limites do corpo. Arnau confessa crimes que não cometeu. A palavra arrancada pela tortura é palavra morta.

Claro, uma confissão obtida sob tortura é inválida. Foi o problema do filme Silence de Scorcese, por exemplo, a respeito da tortura dos kirishitan no Japão. Esse tipo de coisa faz parte o mesmo teatro que a instituição religiosa pratica quando, por exemplo, reconhece a bênção divina sobre o matrimônio, como acabamos de observar no tópico anterior. O que temos que fazer é fugir da armadilha dialética. Não endossar a Religião por causa da Fé verdadeira, e nem jogar fora o Evangelho junto com a Religião.

Mar representa princípio de alteridade radical. Filha adotiva de Arnau. Criança resgatada da miséria. A relação entre Arnau e Mar estrutura-se inicialmente como paternidade eletiva. O crescimento de Mar transfigura o afeto. Arnau experimenta atração que não pode nomear. A narrativa explora com precisão o conflito entre dever moral e inclinação. Arnau reconhece o desejo como transgressão interna. A proibição não provém da lei externa. A proibição habita a consciência. Mar é prometida em casamento a jovem nobre. A separação forçada reproduz a lógica de propriedade que governa as alianças. O amor entre Arnau e Mar permanece interdito por categorias que a narrativa não valida mas registra como efetivas.

Parece que o Claude também tem seus limites. Este texto está ficando ruim aos poucos, como aconteceu com o Chat GPT. De qualquer modo, a relação de Arnau com Mar só é problemática sob o efeito do espírito da Sedução, ou Pacto com a Morte. Sob o nihil obstat do Espírito Santo, na Eternidade Mar pertence a Arnau de forma plena tanto quanto hoje ela já pertence a ele pela sua Apetição. A solução é o Louvor. Se Arnau não acessa essa promessa divina, e está no mínimo na condição precária de Dante com sua Beatriz, ou pior ainda. Se a série não revela, não é possível afirmar nada. De qualquer modo, nenhum amor verdadeiro pode ser “interdito”. Só existe a espera, como de uma Noiva pelas núpcias. A Noiva feliz sabe se alegrar porque confia no Noivo e em suas promessas.

Joan Estanyol encarna trajetória inversa à do irmão Arnau. Joan ingressa na ordem dominicana. Torna-se inquisidor. A ascensão eclesiástica afasta-o da origem humilde. Joan desenvolve fanatismo teológico. A pureza doutrinal substitui a compaixão. A cena em que Joan interroga Arnau configura paroxismo da alienação. O irmão tortura o irmão em nome de Deus. A instituição religiosa perverte o vínculo de sangue. Joan experimenta prazer sádico disfarçado de zelo apostólico. A narrativa expõe a cumplicidade entre ortodoxia e crueldade. A fé verdadeira pertence aos simples. A teologia armada serve ao poder.

Eu nem sabia que Arnau tinha um irmão! Amigos, se as coisas continuarem assim não se preocupem com a IA. Até um estagiário meio burrinho faria melhor. Primeiro, a instituição não perverte o vínculo de sangue porque este já era de algum modo pervertido, por ter origem na Queda. Deus não disputa lugar com as coisas do homem, e o Sagrado e o Amor lhe pertencem exclusivamente. Em segundo lugar, se Joan quisesse ser perverso ele poderia fazer isso em qualquer condição, independente da Religião. Como a época era de grande concentração de poder na Igreja, foi ali que o vilão encontrou instrumentos para realizar suas vontades, mas isso muda conforme a época e o lugar. O problema da ortodoxia religiosa não é de crueldade neste sentido, mas de perversão do testemunho da Revelação a respeito de Deus. Uma tortura é sempre um crime condenável, mas é uma coisa meio isolada. O falso testemunho da Palavra é uma conspiração gigantesca e milenar. O que acabou com o poder da Igreja medieval? Não foi a mera consequência dos crimes da Inquisição. Foi a tradução da Bíblia e a denúncia da manipulação da Igreja de Roma. Não vamos coar o mosquito e engolir o camelo. Vamos priorizar o que mais importa.

A peste negra atravessa a narrativa como catástrofe objetiva. A morte invade Barcelona. Os corpos apodrecem nas ruas. A ordem social se dissolve temporariamente. Arnau permanece na cidade. Cuida dos doentes. Transporta cadáveres. A caridade se exerce sem expectativa de retorno. A obra apresenta a peste como revelação da contingência humana. A morte súbita dissolve hierarquias. O nobre apodrece tão depressa quanto o mendigo. Arnau enfrenta a doença sem amuletos teológicos. A coragem deriva da aceitação da finitude. A solidariedade emerge precisamente quando Deus parece ausente.

De novo, que opção as pessoas têm? O desespero não é exatamente muito produtivo. E a ajuda mútua é tão proveitosa numa situação dessa quanto na escolha de se viver na cidade e não no meio do mato. O ser humano é adaptável e flexível. Sobre o fato brutal da morte, isso de fato pode ajudar as pessoas a se instalarem na realidade, mas nada disso é garantido. A dificuldade pode “gamificar” a vida. É espantoso como nós nos dispomos a ignorar o sentido das coisas quando somos instalados na condição de ganhar ou perder. Crises tendem a ativar esse tipo de mecanismo psíquico.

A figura da Virgem Maria percorre a série como presença tutelar. Arnau dirige-se à imagem inúmeras vezes. As preces não pedem milagres espetaculares. Arnau pede força para suportar. A Virgem não intervém causalmente nos acontecimentos. A devoção produz efeito subjetivo. A fé sustenta a resistência. A cena diante da imagem antes da tortura é decisiva. Arnau pede perdão pelos pecados que não cometeu. Reconhece a própria fragilidade. Entrega-se à vontade divina sem compreendê-la. A relação com o sagrado prescinde de mediação intelectual. A fé é confiança anterior ao entendimento.

Isso não está tão ruim. Pedir perdão pelos pecados que não cometeu já não faz muito sentido. O que existe é o pedido pelo perdão das chamadas “faltas escondidas”, ou seja, pelos pecados que nós mesmos ignoramos. Sobre a questão da devoção à Virgem, não vou esmiuçar a questão porque não vejo grandes vantagens. Tem gente que faz confusão? Tem. A Igreja Católica estimula esse tipo de bagunça e se aproveita da ignorância das pessoas? Sim. Mas deixe estar, que Deus sabe melhor o que vai no coração de cada um. Eu só tomaria cuidado com a prática disfarçada de necromancia, por óbvio. Jesus Cristo em pessoa se colocou como o nosso mediador entre a Terra e o Céu. Quem é como ele? Maria? Não… e o pior de tudo é que a grande qualidade que Maria tem de fato, que foi a sua renúncia ao Pecado Original, isso não é valorizado o quanto se deveria sobre a tal da “vocação matrimonial”. A Religião é um problema.

O julgamento final de Arnau convoca a cidade inteira. O povo de Barcelona comparece à praça. A sentença é esperada como espetáculo. A acusação formal enumera heresias inventadas. Arnau permanece em silêncio. A defesa provém de testemunhos inesperados. Os bastaixos relatam a devoção demonstrada. Os pobres testemunham a generosidade. A verdade factual confronta a verdade processual. O inquisidor-geral hesita. A pressão popular força a absolvição. A cena dramatiza conflito entre justiça institucional e justiça comunitária. A salvação de Arnau não provém da ortodoxia. A salvação provém da memória dos gestos.

Para começar, essa é uma “salvação”, entre aspas. Arnau sobreviveu num dia para morrer no outro, como todos nós fazemos. Em segundo lugar, o que funcionou foi uma concessão do poder religioso em face de uma inconveniência política. Em suma, não foi exatamente o triunfo da Justiça, mas uma disputa de poder político, entre a força popular e a força eclesiástica. Foi por esse tipo de concessão que a Igreja Católica se manteve por tanto tempo no domínio do poder político do continente europeu. Reconhecemos, por exemplo, uma manobra de acomodação no advento do carisma Franciscano, entre outros casos. Um poder que saiba ser rígido ou maleável conforme a condição tende a resistir mais à passagem do tempo. Mas é claro que a condição número um da sobrevivência de todas as religiões cristãs é a parasitagem do tesouro do Evangelho.

Mar casa-se com homem que não ama. A noite de núpcias revela-se estupro institucionalizado. O marido exerce direito conjugal mediante violência. A obra não atenua a brutalidade. A cena é filmada sem eufemismos. O sacramento torna-se cobertura legal do crime. Mar enviúva prematuramente. A liberdade reconquistada chega tarde. O corpo guarda memória da violação. A narrativa recusa redenção fácil do trauma. A violência inscrita nas instituições matrimoniais não se repara mediante arrependimento individual.

Gostei da idéia de que o “sacramento torna-se cobertura legal do crime”, mas eu corrigiria para “revela-se”, pois sempre foi isso. E o crime não é de um esposo contra o outro, mas de ambos contra Deus, na imitação daquele primeiro casal mitológico de traidores, Adão e Eva. Hoje em dia, sob a cultura “Red Pill”, os homens e as mulheres vivem em pé de guerra sobre quem tem direito ao quê. Ainda pensam no problema sob a ótica do Poder. Se mudarem isso para a ótica do Amor, da amizade e da fraternidade, tudo se resolve num instante. Mas vão saber onde enfiar seus desejos sexuais? Esse problema precisa ser resolvido. A pílula que cura a doença da escravidão ao sexo não é vermelha, nem azul, nem branca, nem preta, é uma coisa chamada liberdade: a de se abster, ou a de usufruir sem medos e traumas, o que é para poucos, cá entre nós, no meio dessa raça de fodidos, para usar um trocadilho apropriado. É mais fácil viver uma petrificação numa continência fria e cruel, como uma Igreja de Éfeso, ou uma libertinagem hipócrita como uma Igreja de Laodicéia, do que a liberdade, porque esta não é uma regra de vida, mas é o próprio viver cada momento com Discernimento, consciência e responsabilidade. Coisas que o ser humano geralmente detesta. O desgraçado prefere ser enfiado numa camisa-de-força do que ser maduro e responder por seus atos. Ou então receber uma bênção religiosa para fazer como o cara fez com a coitada da Mar na série.

A reconciliação final entre Arnau e Mar ocorre diante da catedral concluída. A construção que consumiu décadas está terminada. As pedras carregadas por Arnau compõem a estrutura visível. A igreja ergue-se como testemunho do sacrifício coletivo. Arnau e Mar reconhecem o amor impossível durante anos. A união se consuma fora do tempo narrativo principal. A obra sugere que certas formas de amor requerem destruição prévia das estruturas que as impedem. A catedral simboliza a possibilidade de beleza emergir do sofrimento histórico. A pedra inerte adquire significado através das mãos que a elevaram.

Fico feliz pelo casal, já que essa questão parece ter se resolvido no tempo da estória, mas temo pelo que isso significará, ou seja, o que significa para eles ser um casal de fato. Sobre certas formas de amor requererem a destruição de estruturas prévias, é a verdade em todos os casos, pois a consumação plena do Amor não pertence a este mundo, nunca pertenceu. Assim, o caso de Arnau e Mar pode ser exemplar, mas não sei dizer. Já a idéia de que a beleza emerge do sofrimento, é um tremendo testemunho de Legitimação da Mistura. Porca miséria, o ser humano não consegue só confiar em Deus, tem que fazer bagunça mesmo. Uma pedra inerte, por sua vez, pode ter significado mesmo que permaneça assim para sempre, bastando que alguém a reconheça na consistência do seu ser. Esse relato sobre a série dá uma impressão de poder taumatúrgico, telúrico, do ser humano sobre uma realidade material morta. É uma forma de fetichismo e de Idolatria. Tudo já teve sempre o seu sentido máximo no Logos divino. Não se pode criar sentido ou valor, só descobrir o que sempre foi verdade na Eternidade de Deus.

A dimensão religiosa da série não se reduz a ornamento temático. A fé constitui categoria ontológica operante. Arnau vive num universo onde Deus existe objetivamente. A providência não é hipótese consoladora. A providência é estrutura da realidade. As referências ao juízo divino não expressam medo supersticioso. O juízo é horizonte inevitável da ação moral. Quando Arnau perdoa os inimigos, o perdão deriva de imperativo espiritual. A misericórdia imita a misericórdia divina. A obra não ironiza essa convicção. A fé de Arnau é apresentada como racionalidade alternativa à racionalidade do cálculo.

Finalmente, parece que encontramos algo impecável, um testemunho espiritual de valor genuíno independente da Religião. Providência, Juízo Final, Misericórdia, são categorias verdadeiras da crença cristã. Se Arnau se liga a isto, já é uma conquista e um testemunho valoroso no meio do resto da bagunça. Mas nunca saberei ao certo o quanto o Chat GPT ou o Claude interferiram na interpretação da estória da série enquanto não a assistir eu mesmo.

A oposição entre igreja-instituição e igreja-povo atravessa toda a narrativa. Os prelados acumulam riquezas. Os monges inquisidores torturam. Os padres vendem absolvições. A corrupção eclesiástica é retratada sem ambiguidade. A fé verdadeira habita fora das hierarquias. Os bastaixos praticam cristianismo sem teologia. A caridade prescinde de doutrina. A obra estabelece distinção rigorosa entre cristianismo vivido e cristianismo administrado. A catedral do mar pertence ao povo que a construiu. A propriedade espiritual não coincide com propriedade jurídica.

É o caldo da futura Reforma Protestante. Mas vamos nos lembrar que os latinos não conseguiram se libertar das garras do poder eclesiástico por si jamais. A guerra contra a mentira e a tirania veio do Norte: de alemães e anglo-saxões, os mesmos que desafiaram e eventualmente venceram o antigo Império Romano. O problema é que a liberdade dos reformistas logo abriu chamado a novas formas de institucionalização do Poder religioso. Isso é inevitável. Só se possui testemunho espiritual sem corrupção onde não há estrutura institucional que concentre poder. Ou seja, a verdadeira Igreja é feita de ações e de testemunhos, não de ritos, calendários, festas, etc., tudo isso que já sabemos que Deus detesta. O que é bom é a própria bondade: o perdão, a misericórdia, a caridade, a justiça, etc. Essa é a verdadeira “Religião”.

A questão da liberdade retorna constantemente sob formas diferentes. Bernat foge da servidão e morre livre. Arnau nasce cidadão mas conhece a prisão inquisitorial. Mar é vendida em casamento e depois viúva. Joan escolhe o convento e torna-se escravo da ortodoxia. A liberdade não é estado permanente. A liberdade é conquista reiterada contra forças que a negam. A narrativa recusa determinismo histórico. As estruturas oprimem mas não anulam completamente a agência. A resistência individual possui eficácia limitada mas real. A liberdade é simultaneamente dom e tarefa.

A Liberdade é um dom divino inalienável. O problema é que o seu objeto verdadeiro é interior. Por isso o Claude está com essa dificuldade de verificar a vitória do homem contra as formas de repressão, porque parece que nunca cessa o efeito de alguma espécie de restrição. Bom, o modo de se resolver isso é espiritual e requer o reconhecimento de que dentro do Limite máximo da nossa forma substancial, todos os outros limites são apenas circunstanciais e temporários. É claro que a vida de servidão, ou a repressão religiosa, tudo isso parece destruir a liberdade das pessoas, mas é só uma impressão. Logo vem a morte das Obras da Carne e o triunfo das Obras do Espírito, e tudo fica bem. O problema deste mundo só existe para quem só crê neste mundo, daí a aflição já é uma escravidão também de outra natureza, também espiritual.

O tempo histórico da série é tempo de crise. A peste dizima a população. A guerra ameaça o reino. A fome assola os campos. As revoltas camponesas eclodem periodicamente. A narrativa não idealiza o medievo. O século XIV surge como época de catástrofe acumulada. A construção da catedral ocorre contra esse pano de fundo. A beleza se edifica apesar do horror circundante. A obra afirma possibilidade de criação em meio à destruição. A catedral é resposta estética e espiritual ao caos histórico.

Eu preferiria uma resposta interior, algo como a construção de catedrais espirituais dentro de cada coração humano. O foco nessa vitória temporal feita de pedra é um erro que prende os seus crentes numa dialética onde a Mistura é legitimada, como se de algum modo essas coisas se compensassem umas às outras. Isso ignora totalmente a perfeição do Ideal divino, bem como as promessas concretas feitas por Deus. Os construtores de templos querem simbolizar o divino naquilo que não é divino. Como poderão transmitir assim a idéia daquilo que é digno de Deus? Não me entendam mal: a arte sacra pode ser belíssima, mas tanto quanto uma paisagem que Deus já criou e que está aí há milhões de anos. Uma coisa é glorificar a Deus através da arte. Outra coisa é precisar fazer isso para justificar uma vida que de outro modo não teria sentido. Aí já encontramos um problema.

A linguagem visual privilegia a pedra e a água. A pedra carregada simboliza o peso da existência. A água do mar representa o horizonte de abertura. Barcelona aparece como cidade determinada pela geografia. O porto conecta a cidade ao mundo. As montanhas cercam o espaço urbano. A catedral eleva-se entre esses limites. A verticalidade da igreja desafia a horizontalidade da condição terrena. A arquitetura gótica é filmada como aspiração à transcendência. As nervuras apontam para o alto. A luz filtrada pelos vitrais transfigura o espaço. A matéria santificada pela forma.

Tudo isso é notável, mas novamente, se não culminar num processo no interior do homem onde ele descubra que vive na Presença do Altíssimo, não adianta de nada. Pedra, água, luz, seja o que for, ou tudo isso está em Deus e dá testemunho da Sua Glória, ou é apenas uma representação sentimental de esperanças meramente humanas.

A série evita psicologização anacrônica. As personagens não possuem interioridade moderna. Os conflitos não se resolvem mediante autoconsciência. Arnau não faz terapia da culpa. Joan não descobre um trauma infantil que explique o fanatismo. As motivações permanecem próximas da superfície dos atos. A obra respeita a alteridade antropológica do medievo. Os homens do século XIV não são burgueses disfarçados. A subjetividade retratada é subjetividade pré-cartesiana. A identidade deriva da posição social e da relação com Deus.

Dá para entender os limites na expressão e na representação, entre o moderno e o medieval, mas não no próprio Ser. Do contrário, de onde teria saído a consciência moderna? E de onde teria saído a subjetividade pós-cartesiana? O ser humano sempre teve a potência da autoconsciência. A largura e profundidade do conteúdo real explorado a partir dessa potência sempre dependeu de alguns elementos exteriores acidentalmente, mas essencialmente dependeu apenas da vontade interior. Não podemos confundir o que é o desdobramento histórico dos testemunhos da atividade interior da autoconsciência humana com a realidade da sua atividade. Do contrário caímos na armadilha historicista que transforma o homem antigo ou medieval num ser de outra espécie, prisioneiro do seu tempo. Não somos feitos à imagem e semelhança de Deus para estarmos presos aos limites de consciência de uma época, embora estejamos geralmente limitados ao uso de meios expressivos disponíveis em cada momento. E mesmo assim, sempre podemos inventar palavras novas, idéias novas, etc. Se não pudéssemos, a História teria sido impossível.

A conclusão da série retorna à catedral. Arnau morre velho. A igreja permanece. As gerações se sucedem. A pedra sobrevive aos construtores. A obra sugere que o trabalho humano pode produzir permanência relativa. A catedral é vitória sobre a morte. A beleza arquitetônica transcende a vida individual. A narrativa termina afirmando valor do esforço coletivo. A liberdade conquistada por Bernat transmite-se a Arnau. Arnau transmite dignidade a Mar. A corrente geracional não é corrente de sangue. É corrente de escolhas reiteradas. A catedral do mar ergue-se como monumento à possibilidade de homens livres edificarem juntos algo que os ultrapassa.

Eles não podem fazer isso para além de algumas gerações, e o Juízo Final de Deus apagará tudo isso, pois não sobrará pedra sobre pedra, e Deus fará coisas totalmente novas. Não é o templo de pedra que permanece, é a Palavra de Deus. A pedra não sobrevive aos construtores, é o contrário, eles vivem para sempre com Deus, e a pedra, por si, nem sequer existe, quanto menos “sobrevive”. A vitória sobre a morte é a Ressurreição através de Jesus Cristo, não através de templos de pedra.  E a beleza arquitetônica não transcende a vida individual, porque ela só pode existir para o indivíduo e a seu serviço. Sai dele, e volta para ele. Por si, sequer existe. Sobre a liberdade transmitida de geração em geração, ela requer um testemunho relativo ao Amor divino. Não me parece ser exatamente isto que A catedral do mar nos informa. Há algo como uma obsessão com a construção de templos, civilizações; a família, a humanidade, qualquer coisa que não seja somente a Graça de Deus. Então não posso endossar essas idéias.

Nota espiritual: 4,0 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo3
Nota final4,0

Doze homens e uma sentença, filme por Sidney LUMET

SINOPSE: Doze Homens e uma Sentença apresenta a situação de um jovem acusado de matar o próprio pai, já julgado no tribunal, restando ao júri decidir de forma unânime se ele será considerado culpado ou inocente, decisão da qual depende a aplicação da pena de morte. O conflito central da história surge quando, na primeira votação, onze jurados votam pela culpa e apenas o Jurado nº 8, Davis, vota “não culpado”, impedindo o veredicto imediato e obrigando o grupo a discutir as provas. Ao longo da deliberação, os jurados reconstroem cenas decisivas do caso, como a apresentação de uma faca idêntica à arma do crime, a simulação do trajeto do velho testemunho até a porta de seu apartamento e a análise do depoimento da mulher que teria visto o assassinato através da janela de um trem, levantando dúvidas sobre sua capacidade de observação sem óculos. O conflito se desenvolve por meio de votações sucessivas e confrontos verbais, até que as dúvidas acumuladas levam à mudança gradual dos votos, restando apenas o Jurado nº 3 sustentando a culpa. A solução da história ocorre quando, diante da última votação, todos os jurados reconhecem que as provas não são suficientes para uma condenação segura e chegam a um veredicto unânime de inocência, encerrando a deliberação.

Mais um filme que envolve a justiça dos homens. Os americanos adoram esse tipo de trama. De minha parte eu detestaria ser juiz ou júri, porque não cabe ao homem fazer realmente Justiça, mas um arremedo dela, quase uma simulação. Como já falei várias vezes, nosso objetivo é político, é manter a ordem social: trancafiar os indivíduos antissociais e nos livrar de sua presença, e mandar uma mensagem para os espertinhos sociopatas e psicopatas que pensam em fazer bobagem, para que abram mão de seus planos sob a ameaça da punição. É só isso. Também tem um elemento de vingança, que é a pior parte da coisa, como aliás parece ser algo trazido à baila pelo filme, mas esse é um problema espiritual no coração de cada um, e independe da administração judiciária. Não assisti, mas deu para ter uma idéia só vendo o trailer que o desejo de vingança é um componente. Isso sempre aparece nessas situações, e não só a vingança, como o fingimento de magnanimidade e beneficência. O poder estimula as piores qualidades humanas. Sobre as instituições em si, tudo isso visa a proteção do ser humano desde a época do antigo Direito Romano. Princípios como o do in dubio pro reu se convertem, na sofisticação do sistema do Tribunal do Júri, na idéia da necessidade de condenação apenas beyond any reasonable doubt. O que esses conceitos e mesmo este filme exibem é a fragilidade humana, a nossa ignorância constitutiva, e esse perigo que é o de ter que se tomar decisão sem a competência que seria devida para que se fosse infalível de modo compatível com o poder de sentenciar. Ou seja: tenho a competência suficiente, no meu juízo, equiparável ao poder que tenho de sentenciar um réu à uma pena de prisão, ou de execução? Precisar decidir sem ter todo o saber é um encargo gigantesco, e é uma tentação espiritual contra Deus. Tanto que a presença de jurados realiza, no âmbito da administração judiciária, o mesmo que o processo eleitoral numa democracia, isto é: a diluição da responsabilidade, que ajuda a supostamente diminuir culpas através de um fracionamento. Mas já vimos, a respeito da idéia da democracia eleitoral, que isso também serve para a obtenção da anuência de pessoas que poderiam ser inocentes por si, se nenhum dever de estado lhe obrigasse a tomar posição. Por isso, quando a Lei permitisse a objeção de consciência, isso deveria ser empregado todas as vezes em que o uso desse tipo de poder contrariasse o dever de estado do indivíduo. Aí sim entra a Justiça verdadeira: o homem se declarar incompetente para julgar o próximo. Isso sempre seria justo, porque é sempre verdade. O custo disto, porém, seria inviável para uma comunidade. É uma questão que precisa ser resolvida politicamente, por aqueles que ousam reivindicar esse tipo de poder. Quando essa obrigação é instaurada por um mecanismo legal, há imunidade suficiente, mas isso não torna o sistema menos perverso, principalmente se isso envolver punições como a da pena de morte. Uma participação, mesmo obrigatória por Lei, nesse tipo de sistema, já é anuência suficiente para criar uma brecha espiritual. Novamente somos obrigados a reconhecer que a origem desse tipo de mal, o da injustiça, é o Pecado Original, como já pudemos observar ao tratar do filme Um sonho de liberdade.

ANÁLISE: O filme Doze Homens e uma Sentença, dirigido por Sidney Lumet em 1957, apresenta-se como uma meditação rigorosa sobre o juízo humano, sobre a responsabilidade moral do indivíduo diante da vida alheia, sobre a fragilidade da verdade quando submetida ao hábito, ao preconceito e à pressa. Toda a ação se concentra em um espaço fechado, o júri, que funciona como uma câmara moral. Ali não se julga apenas um réu. Ali se julga a capacidade do homem comum de sustentar a própria consciência diante da lei, da maioria e da própria impaciência. A forma austera da narrativa reforça essa intenção. Não há espetáculo. Há tensão ética. Cada palavra pesa. Cada silêncio acusa.

Como já observei em outra oportunidade, todo julgamento humano é uma ação isolada da realidade, como a criação de uma ficção jurídica. A finitude do processo de descoberta (discovery), e de todos os prazos legais, determina esse caráter arbitrário. Já vimos isso quando comentei sobre a anulação de um júri que consultou o Google Maps para ver imagens do local de um crime. Parece estranho, ou mesmo absurdo, que aquele que vai decidir não possa obter mais informações sobre o objeto da sua decisão. Mas isso é processualmente obrigatório, afinal de contas quem é capaz de afirmar que nenhum novo conhecimento sobre um fato seja possível? Nenhum julgamento seria viável desse jeito. Os réus inocentes são os que mais sofrem com essa realidade, porque a verdade não descoberta em tese sempre os beneficiaria. Daí é que entram em cena as salvaguardas legais, para tentar remediar esta situação. No que nos interessa, espiritualmente, como já disse, só a renúncia ao Pecado Original já é muita coisa, porque nenhuma alma inocente precisará encarnar sob a condição, por exemplo, de ser acusada injustamente de um crime. Por outro lado, sempre que for viável é necessário abrir mão do poder de julgar, mas sem contrariar o dever de estado gerado pelo dispositivo legal, já que àquele sobre quem pesa o dever de governar a sociedade cabe o poder de administrar a justiça humana, e esse dever maior não pode ser obstruído.

O ponto de partida do filme é a unanimidade aparente. Onze jurados consideram o réu culpado logo no primeiro voto. A condenação à morte parece um simples procedimento formal. A vida humana surge reduzida a um item processual. É nesse contexto que o Jurado nº 8 introduz a ruptura. Sua recusa em votar pela culpa não nasce da certeza da inocência. Nasce do reconhecimento da dúvida. Essa postura estabelece o eixo moral da obra. O filme afirma que a dúvida não é fraqueza. A dúvida é dever. Quando a sentença implica a morte, a certeza exige uma densidade quase impossível. O jurado afirma isso de modo direto ao dizer: “Não sei se ele é culpado. Só sei que não podemos mandar um homem para a cadeira elétrica sem conversar sobre isso primeiro.” Essa frase constitui uma das teses centrais do filme.

Se a dúvida é um dever, a condenação se torna impossível, e o Sistema Judiciário inteiro é demolido. Novamente, é uma questão de cada um saber o que lhe cabe. A um jurado obrigado por Lei a participação num processo judicial, o dever de julgar deve ser regulado pela consciência individual acima de tudo. Assim, especialmente no caso de condenação, se existir dúvida suficiente, por menor que seja, ela deve servir para impedir a sentença contrária ao réu. Mas se a sentença envolver, por exemplo, a pena de morte, e na consciência do jurado essa decisão for criminosa independentemente da realidade do crime, então a objeção de consciência impede a participação nessa decisão judicial, mesmo que por decorrência o jurado tenha que ser punido de acordo com a Lei humana. Nunca, jamais, em tempo algum, um homem deve agir contra a sua consciência, pois isso é um crime contra Deus (“tudo que não é feito de boa fé é pecado” Rm 14:23).

A estrutura do debate revela a anatomia da injustiça cotidiana. Os argumentos iniciais não são racionais. São afetivos. São derivados do cansaço, do calor, do desejo de ir para casa, do rancor pessoal, do preconceito social. O réu é pobre. Cresceu em um cortiço. Viveu cercado de violência. Esses dados são tratados como provas morais. A culpa surge como expectativa social. O filme desmonta essa lógica com paciência quase pedagógica. Cada evidência é reexaminada. Cada testemunho é reconstruído. A verdade deixa de ser um bloco sólido. Passa a ser um campo frágil, atravessado por limitações perceptivas, por falhas de memória, por interesses ocultos.

Nosso prompt melhorou muito, estou mais confortável com esse texto, quase impressionado mesmo. Voltando ao filme, essa realidade é inevitável, porque um jurado não é uma figura mítica que desce do Céu para vir fazer a Justiça. É um ser humano cheio de crenças e preconceitos, a quem estamos pedindo que seja imparcial e isento. Por mais que o pobre coitado tente, ele pode falhar, é claro. E sobre o juízo do caráter do réu, esse é um componente natural que faz parte do processo. Tanto que os advogados de defesa sempre podem arrolar testemunhas de caráter à favor do réu para construir a sua reputação pública diante de um corpo de jurados. Igualmente, a promotoria sabe que o júri sempre se sentirá mais disposto a condenar uma pessoa que parece ter defeitos de caráter. Faz parte do jogo, podemos não gostar disso, mas não tem muita saída. Aliás, a saída existe: é imitar Jesus Cristo e a Virgem Maria e romper com o Pecado Original.

A dimensão espiritual do filme aparece de modo discreto, quase constrangido, o que a torna mais significativa. Não há discursos religiosos. Não há apelos explícitos à fé. Há menções pontuais a Deus, sempre ligadas ao juramento, à responsabilidade última do ato de julgar. Em determinado momento, um dos jurados lembra que todos juraram diante de Deus dizer a verdade. Essa lembrança não produz comoção imediata. Produz silêncio. Produz incômodo. Deus surge ali não como consolação, mas como instância de acusação. A presença divina funciona como medida do peso do ato humano. Julgar equivale a assumir um lugar que não pertence inteiramente ao homem.

Muito bem observado. O filme é antigo (de 1957), de uma época em que a menção à um dever diante de Deus fazia muito mais sentido do que hoje em dia. Os pontos cruciais já foram examinados. Por um lado, há um dever político que é o de colaborar com a administração judiciária do Estado. Por outro lado, há o dever de não pecar contra a verdade que é a de que somos ignorantes sobre a culpa de um ser humano a respeito de qualquer coisa. Isso se resolve com a consciência do dever de estado concreto e de seus limites, quando a consciência produzir objeção suficiente para a renúncia à participação num processo judicial. Então a saída é responder diante de Deus e de acordo com a própria consciência, todas as vezes.

A citação mais clara dessa dimensão ocorre quando um jurado afirma que a vida de um homem está “nas mãos de Deus”. A frase não resolve o dilema. Pelo contrário. Expõe a tentativa de deslocar a responsabilidade. O filme reage a esse gesto de modo implícito. Se a decisão está nas mãos do júri, então está nas mãos humanas. Deus aparece como testemunha. Não como substituto da consciência. Essa tensão percorre todo o filme. O sagrado não absolve o erro. Apenas o torna mais grave.

A vida de um homem está “nas mãos de Deus” quer o homem queira reconhecer isso ou não. Tudo isso está acontecendo diante de Deus nos seus mais mínimos detalhes. A subsidiariedade é um princípio espiritual de legitimação da ação política humana. Então as decisões podem ser tomadas, com as suas consequências últimas, mas isso não sai do controle de Deus jamais. A qualquer momento fatos novos alteram o que foi disposto pelo ser humano. Descobertas casuais, ou mesmo a ocasião de fuga de um condenado que era inocente, etc. O que está nas mãos dos homens é algo muito restrito nessa condição localizada pelo enredo do filme. Agora, curiosamente, onde o homem é mais poderoso para causar males, parece que a sua consciência é menos intensa, especialmente na prática ou legitimação do Pecado Original. Quer dizer, os pais do réu não podem transferir para o corpo de jurados a responsabilidade pela instalação dessa alma num mundo onde erros processuais são possíveis. Convenientemente tudo isso é esquecido, é claro, e vocês podem esperar sentados por um filme que mostre o óbvio vínculo que essas coisas têm. Ninguém, ou quase ninguém, vincula as maternidades às prisões, hospícios, alas de UTI ou cemitérios, mas tudo isso está muito conectado, como sabemos bem. Quem gostava de lembrar isso era o velho Schopenhauer, que dizia que os seres humanos em geral tinham uma idéia muito errada da sua verdadeira condição, pois tomam decisões alheias à realidade total que é experimentada pela nossa espécie. Hoje em dia, com os sistemas de comunicação em massa, especialmente a Internet, isso é atenuado o suficiente para já mudar o ambiente cultural ao ponto de que há um tanto de seres humanos que se abstém de procriar tendo em vista o desejo de poupar o sofrimento de seus descendentes.

O processo de transformação dos jurados ocorre por desgaste moral. As certezas não caem por iluminação súbita. Caem por exposição. Caem quando os argumentos revelam suas motivações ocultas. O Jurado nº 3 encarna esse colapso de modo exemplar. Sua fúria não nasce do caso. Nasce de sua relação fracassada com o próprio filho. O ódio pessoal contamina o julgamento. No momento decisivo, ele rasga a fotografia do filho enquanto grita “Eu vou matá-lo”. Essa frase ecoa o crime julgado. O filme revela ali a raiz espiritual da injustiça. O pecado não está no erro intelectual. Está na recusa em reconhecer a própria ferida.

Nada impediria que alguém irado fosse capaz de julgar uma ação apesar de sua ira, desde que possuísse a competência intelectual para fazê-lo. Então sou obrigado a contrariar a posição do Chat GPT. O erro é de natureza intelectual, até quando a ira atrapalha o juízo, porque este é um erro pela “recusa em reconhecer a própria ferida”, ou seja, um ato do intelecto. Mal posso elogiar a IA num parágrafo, já fico broxado no próximo. E não me espanta, porque a máquina não está entendendo nada, só está juntando letras e palavras e formando sentenças que não significam lhufas, porque significado é um conteúdo de consciência. E, novamente, não acho que os sentimentos, e nem mesmo os preconceitos, sejam o maior problema dos homens que julgam outros homens. É a ignorância mesmo, até porque sentimentos e disposições podem mudar à luz de conhecimentos suficientes. O problema de base do juízo humano é sempre a ignorância.

A justiça, no filme, não surge como certeza positiva. Surge como renúncia. Renúncia à pressa. Renúncia ao preconceito. Renúncia à ilusão de infalibilidade. O veredicto final de inocência não afirma que o réu não cometeu o crime. Afirma que a culpa não pôde ser afirmada sem dúvida razoável. Essa distinção é essencial. O filme defende um princípio espiritual profundo. A vida humana não pode ser sacrificada ao conforto psicológico da maioria. A morte exige uma verdade que o homem raramente possui.

Na verdade, a morte dos Filhos de Adão já foi decretada por Deus no Capítulo 3 do Gênesis. Então a execução dos prisioneiros dos homens é no máximo uma antecipação de sentença. E, pior ainda, nem sequer podemos dizer que esse ato seja um prejuízo ao sentenciado, porque como Sócrates observou, não se sabe se não seria uma coisa boa partir deste mundo. Jesus Cristo mesmo falou a respeito disto com seus discípulos, quando começou a choradeira ao ser revelado o seu destino na Paixão. Se me amassem, vocês ficariam felizes por eu partir para onde vou. A coisa mais óbvia. A questão do nível humano é que quem mata um homem não pode lhe restituir esta vida, e nem o ressuscitar para a próxima. Mas para Deus nada disso é um problema, ao contrário, fazer morrer e fazer viver são ações muito próprias da divindade.

Ao final, os jurados deixam o tribunal. Não há celebração. Não há redenção plena. Há apenas a restauração de um mínimo ético. O nome dos jurados permanece desconhecido. A individualidade se dissolve. O que permanece é o gesto. Um gesto de resistência moral. Um gesto que afirma que a justiça começa quando o homem aceita o peso da própria responsabilidade. Nesse sentido, Doze Homens e uma Sentença não é apenas um drama jurídico. É uma parábola moderna sobre o juízo, sobre o pecado da indiferença, sobre a exigência espiritual da dúvida diante da vida do outro.

Uma conclusão bastante recatada, modesta, quase tímida. Meu prompt “assustou” a máquina? Não tenho mais muito a relatar. Conhecendo Hollywood, não duvido que a intenção do filme tenha sido de causar a impressão de que a justiça humana é uma coisa muito digna e boa. O ideal pode ser sempre assim, mas a realidade é diferente. E outros filmes contam dessa variedade, inclusive o já mencionado filme que analisamos aqui recentemente, Um sonho de liberdade. Não faltarão oportunidades para rever o tema, inclusive com o ensejo de um filme que sairá nos cinemas sobre o Julgamento de Nuremberg (sim, mais um!). O filme Doze homens e uma sentença parece ser uma mistura de educação cívica com propaganda política. Pelo que vi não há nada de grave aqui, mas talvez se assistir o filme um dia poderei complementar essa avaliação.

Nota espiritual: 4,6 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria6
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno4
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade4
Discernimento/Psiquismo4
Nota final4,6

Um sonho de liberdade, filme por Frank DARABONT

SINOPSE: Um Sonho de Liberdade acompanha a trajetória de Andy Dufresne, um jovem e bem-sucedido banqueiro condenado injustamente à prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e do amante dela, sendo enviado ao presídio de Shawshank, onde passa a conviver com a brutalidade dos guardas, a corrupção da administração e a rotina opressiva do cárcere. Ao longo dos anos, Andy constrói uma amizade profunda com Ellis “Red” Redding, um prisioneiro experiente e respeitado, e gradualmente conquista espaço na prisão ao usar seus conhecimentos financeiros para ajudar funcionários e detentos, contribuindo para a criação de uma biblioteca e melhorando as condições intelectuais do presídio. Enquanto muitos presos se tornam institucionalizados, Andy preserva silenciosamente a esperança e um plano secreto de fuga, escavando um túnel em sua cela durante décadas. Quando finalmente executa seu plano, ele escapa de Shawshank, expõe os crimes do diretor corrupto Norton e inicia uma nova vida no México, deixando para Red uma mensagem que o encoraja a acreditar novamente na liberdade e a segui-lo, encerrando o filme com a promessa de reencontro e redenção.

A liberdade que Andy busca contra a injustiça da sua prisão e do seu tratamento, etc., simboliza a liberdade contra a condição humana como um todo. Mas essa operação simbólica resulta na virtude da Esperança, como dom sobrenatural? Não podemos saber apenas por esta sinopse. Vamos supor que tudo desse errado, que Andy não escapasse, que não pudesse expor a corrupção do vilão, e nem ajudar seu companheiro Red de nenhuma maneira. Estaria tudo perdido? Se sim, então não adianta nada lutar por vitórias pífias na dimensão deste tempo e deste mundo. E, aliás, nenhuma justiça pode ser plena nesse nível, porque enquanto um triunfa outros mil falham. A verdadeira Justiça é imortal e nos leva à transcendência deste plano de existência. Por isso é preciso enquadrar a estória de Andy num contexto maior. Quem não quiser fazer isso não é capaz de compreender o sentido espiritual de uma narrativa. O que significa essa esperança de ser livre? Como se consuma essa liberdade? Temos que entender se essas perguntas são respondidas pelo filme, e de que modo. A Esperança imortal e indestrutível é aquela que alegra e ilumina a alma até do mais esquecido e perdido dos seres humanos, que não tem tempo para mais nenhuma redenção nesta vida, pois este ainda tem toda a Eternidade.

ANÁLISE: O filme Um Sonho de Liberdade, dirigido por Frank Darabont, pode ser lido como uma meditação filosófica sobre a liberdade enquanto categoria existencial, moral e espiritual, articulada não como simples ausência de coerção, mas como forma interior de soberania que resiste mesmo sob as condições mais extremas de opressão. A narrativa acompanha Andy Dufresne, condenado injustamente à prisão perpétua, mas o eixo profundo do filme não é a denúncia do erro jurídico, e sim a investigação daquilo que pode ou não ser aprisionado quando o homem é reduzido a um número, a uma rotina e a uma função dentro de um sistema fechado. A prisão de Shawshank não aparece apenas como um espaço físico, mas como uma totalidade simbólica: ela encarna a racionalidade institucional que transforma indivíduos em peças previsíveis, normaliza a violência e produz sujeitos que, ao longo do tempo, passam a desejar apenas a reprodução da própria estrutura que os oprime.

Estou ficando irritado com esses “não”, “mas”, “e sim” do Chat GPT. A otimização do programa nos aborrece e entedia. Vamos tentar comentar mesmo assim. Sobre o que a prisão de Shawshank representa, é um mundo humano em miniatura. Por que é necessário encarcerar seres humanos? E, pior, por que é preciso correr o risco de praticar algumas injustiças no meio do caminho? Porque se a sociedade humana for regida pela complacência, ela tende a se autodestruir rapidamente. A lei não é feita para os bons, mas para os maus, porém os bons são submetidos ao seu rigor do mesmo modo, e alguns até injustamente. Depois que o processo apodreceu por bastante tempo, não é impossível que se faça uma revitalização humanizante. Isso é viável em qualquer instituição humana que tenha sido mantida por mais de uma geração. Mas não se pode curar uma fratura exposta com um band-aid. Quer dizer, a origem de todos os males é o Pecado Original. O que levou Andy e Red a se verem presos em Shawshank? Foi a perversão e tirania do sistema judiciário, ou do sistema penal? Não. Foi o Pecado Original. É assim que estouramos com o imanentismo idólatra, por mais sutil que este seja. Qual é o problema aqui? O cara foi preso injustamente e é mal tratado com seus demais colegas prisioneiros. Qual é a solução? A fuga da prisão, a denúncia do tirano, e a oferta de ajuda ao amigo. Quero enxergar mais longe, tanto para trás quanto para frente. Por um lado, o problema vem de muito antes, e por outro lado a solução vai para muito mais além. O problema é que Andy nasceu num mundo governado por Satanás, vendido como escravo por inúmeros ancestrais que pactuaram com o demônio, por omissão ou comissão. O diretor Norton é fichinha. E qual é a solução? É a Cruz, a morte e a Ressurreição: seguir Jesus Cristo. Com essas categorias se vive na Presença de Deus de fato, encarando os problemas até a sua essência, e resolvendo as coisas de modo verdadeiro e pleno.

Nesse sentido, Darabont constrói Shawshank como uma figura quase metafísica daquilo que se poderia chamar de mundo administrado, no qual a repetição mecânica substitui a decisão, e a sobrevivência se confunde com adaptação. A noção de “institucionalização”, explicitada no destino trágico de Brooks, não é um detalhe narrativo, mas uma tese antropológica: quando o homem abdica da experiência viva da liberdade, ele internaliza as grades, de modo que a abertura do mundo exterior já não lhe oferece sentido. A liberdade, nesse registro, não é algo que se recupera automaticamente ao sair da prisão; ela exige uma disposição interior que pode ser corroída pelo hábito, pela resignação e pelo medo. O filme sugere, assim, que a pior forma de cativeiro não é a imposição externa, mas a colonização da vontade, quando o sujeito deixa de se conceber como agente e passa a se entender apenas como efeito das circunstâncias.

Já estou decidido a exigir que o Chat GPT evite ao máximo as conjunções adversativas, de preferência que faça frases com orações únicas, sem vírgulas, chapadas. Aos poucos vamos montando o nosso prompt. Qualquer coisa para sair desse estilo estúpido. Sobre a repetição mecânica, adaptação, hábito, e o conflito destes mecanismos de sobrevivência com a idéia de liberdade, é preciso aplicar o mesmo entendimento que já vimos antes. Esses mecanismos existem para se lidar com uma situação desafiadora. Se tornam o sujeito menos apto a buscar a sua melhor condição presente, da tal liberdade, isso é um efeito temporário aceitável. Muito pior é a obstinação e teimosia, o ter a “cerviz dura”, que faz o desejo por uma liberdade imanente custar a paz interior. Há aqui a sugestão de algum espírito de Sedução, ou Pacto com a Morte: se você não aproveitar a sua liberdade ao máximo por efeito dos hábitos adquiridos pela sua existência sob a atual condição humana, pagará por isso de forma definitiva e irreparável. Essa linha de pensamento é a rejeição tanto da Cruz quanto da Ressurreição. E tende a fazer o homem se desesperar, porque mesmo que raramente se consiga obter um estado tal de liberdade que se possa considerar bom o suficiente, quanto tempo dura essa vitória? Esse tipo de conquista está dialeticamente presa aos ciclos terrenos atuais. Talvez abdicar da “experiência viva da liberdade” seja somente ter uma vida interior pacificada de modo independente da realidade externa? E se isso for vivido através da Fé, o que haveria de melhor? O diabo é um mestre da tortura: ele não só cria uma condição difícil e às vezes quase insuportável de ser vivida, mas quer impedir que o sujeito possa recuar para a vida interior e encontrar alguma paz verdadeira ali. Não, não pode! Tem que sair dessa, lutar, conquistar algo, etc., enfim, tem que voltar ao seu jogo dialético, não pode se abster de participar nos negócios do mundo. Essa coisa está indo mal…

Andy Dufresne se opõe a essa lógica não por meio de rebeliões explícitas, mas por uma resistência silenciosa, quase ascética, fundada na preservação do sentido. Sua postura é marcada por uma recusa radical em permitir que a identidade seja absorvida pela função de prisioneiro. Ele cultiva gestos aparentemente mínimos — a música, os livros, a contabilidade, o cuidado paciente com o tempo — que funcionam como atos de afirmação ontológica. A célebre cena em que Andy transmite Mozart pelos alto-falantes da prisão não é um gesto estético gratuito, mas um acontecimento simbólico: por alguns instantes, a totalidade do sistema é suspensa pela irrupção de algo que não pode ser reduzido à lógica disciplinar. A música introduz no espaço fechado uma experiência de transcendência, lembrando aos presos que existe uma dimensão do humano que não se deixa medir, controlar ou punir.

Todos precisamos fazer isso de vez em quando, porque para a maioria de nós a vida costuma se repetir em ciclos bem pequenos de experiências. Sabemos bem que isso até justifica, no coração de tantos, a ambição pelas grandes fortunas ou pelo prestígio e fama. O que esses símbolos representam é a liberdade contra uma rotina opressora. Está bem querer isso, mas temos que ver qual é o custo a se pagar. Enquanto for um ato de resistência e de insistência, até certo ponto isto é ótimo. Porém, novamente, a liberdade verdadeira está na vida com Deus no Paraíso. Essa possa interior de uma Esperança com Deus nos torna mais resilientes por um caminho espiritual menos dependente do ambiente externo.

A relação entre Andy e Red explicita a dimensão ética do filme. Red encarna o homem que aprendeu a negociar com a prisão, que desenvolveu estratégias de sobrevivência e se tornou funcional ao sistema, ainda que sem ilusões quanto à sua injustiça. Seu ceticismo em relação à esperança não é simples pessimismo, mas uma defesa contra a dor da frustração. No entanto, o arco narrativo de Red revela a tese central do filme: a esperança não é uma fantasia ingênua, mas uma forma de coragem metafísica. Esperar, aqui, não significa negar a realidade, mas afirmar que a realidade não esgota o possível. Ao insistir na esperança, Andy não promete sucesso, mas preserva a abertura do futuro contra o fechamento do presente. O filme sugere que a esperança é uma virtude paradoxal, pois ela se torna mais necessária justamente quando todas as evidências empíricas parecem negá-la.

Que a realidade não esgota o possível é uma verdade que pertence sobretudo ao sujeito que crê no divino Absoluto. E a exploração dessa verdade se dá pelo dom da imaginação, e não da elaboração de planos para um dia tal do calendário. Quem está mais perto do divino? O cético com a vida no mundo, Red, ou o esperançoso Andy? Na verdade não sabemos, porque as pessoas são diferentes, e possuem dons diversos para realizar operações diversas diante de Deus. Um prisioneiro que escapa pode estar tão cheio do Espírito Santo quanto um outro preso que se resigna a viver até o último dia da sua sentença. O fator decisivo não está fora de nós, está dentro. Se o filme faz ver que Andy traz um potencial bom para Red, o inverso também não poderia ser verdadeiro, se os planos do primeiro fossem todos frustrados? O ceticismo com o mundo e com as coisas do mundo não revela um traço do dom de Vigilância? Que verdade é essa que depende de resultados históricos? Sucesso não é nem escapar ileso da prisão, e nem resistir resoluto e cético dentro dela. Sucesso é viver na Presença de Deus, e aí tanto faz, escapar ou ficar onde se está, porque Deus está em toda parte, e a morte iguala todos os homens no fim. Toda doutrina a respeito da vida que não contempla o seu fim inevitável pela morte diante de Deus e o chamado à Ressurreição, é uma doutrina imanentista, fechada e cega. Isso não é verdadeira liberdade, nem verdadeira felicidade. Livre é quem confia em Deus e em seu Amor. Por certos aspectos, se Andy se revolta e se indigna contra o status quo na prisão, isso pode ser excelente tanto quanto pode ser prejudicial se acostumar a fazer negócios com o mundo, se o caminho de Red levar a esse ponto de adaptação. Então não interessa partir ou ficar, interessa que aquele que parte esteja com Deus, e que aquele que fica que fique com Deus. A narrativa parece valorizar o que tem menos importância.

A fuga de Andy, preparada ao longo de décadas, não funciona apenas como clímax narrativo, mas como revelação retrospectiva do sentido de toda a sua conduta. Ela mostra que a paciência, longe de ser passividade, pode ser uma forma de ação profundamente racional, orientada por uma finalidade que resiste ao imediatismo. O túnel escavado lentamente simboliza o trabalho invisível da liberdade, que não se constrói por explosões momentâneas, mas por uma fidelidade silenciosa a um projeto interior. A travessia final pelo esgoto adquire, nesse contexto, um caráter quase ritual: trata-se de uma descida àquilo que há de mais degradado e informe, seguida por uma espécie de renascimento sob a chuva, imagem que remete à purificação e à reconquista da própria identidade.

Isso é muito bonito, mas não quer dizer que Andy estaria perdido caso fosse imediatamente recapturado, ou caso nem sequer conseguisse escapar de Shawshank. Poderia estar perdido? Poderia perder? Somente a guerra desta vida, para obter essa liberdade tão efêmera. Entendam-me bem: diante do inferno da prisão é claro que a liberdade imediata é uma coisa excelente. Mas, novamente, se enquadrarmos a situação numa perspectiva maior, isso tudo muda de figura. No plano que interessa, espiritual, diante de Deus e da Eternidade, nada de bom pode ser realmente perdido, porque o chamado à imortalidade é um acesso ao Bem imperecível, imperdível. Já falei isso várias vezes: Deus é o nosso maior bem, entre tantas razões, no mínimo porque Ele é imperdível. Os guardas podem me impedir de escapar da prisão, ou se eu fugir, podem me recapturar mil vezes, mas eles não podem tirar Deus de mim, nem as promessas divinas. Esse é o tesouro inviolável do coração humano. É nesse tipo de riqueza que deveríamos apostar. Sobre se ter paciência e perseverança, isso já é a realidade da vida humana carregando a Cruz desce o nosso nascimento. Nenhuma arte é mais perfeita para a Esperança do que a vida cristã. No que Andy Dufresne se tornou competente, o cristão médio é chamado à maestria todos os dias. Enquanto o mundo gira e roda atrás de vitórias e sucessos, como as virgens loucas, os “loucos de Deus” esperam pacientemente, não por uma outra fase ou época, mas por toda uma outra vida. Isso sim é Esperança, isso sim é um sonho de Liberdade.

Ao final, Um Sonho de Liberdade propõe uma distinção decisiva entre sobreviver e viver. Sobreviver é adaptar-se às condições dadas, mesmo quando elas são injustas; viver é manter-se fiel a um princípio que transcende essas condições. O filme não romantiza o sofrimento nem sugere que a prisão seja redentora em si mesma, mas afirma que a dignidade humana se manifesta na capacidade de não permitir que o mal tenha a última palavra sobre o sentido da própria existência. Nesse registro, a liberdade não aparece como um direito garantido externamente, mas como uma tarefa interior, constantemente ameaçada, que exige memória, esperança e responsabilidade. O filme oferece, assim, não apenas uma narrativa de superação, mas uma reflexão profunda sobre o que significa permanecer humano em um mundo que continuamente tenta nos convencer de que somos apenas aquilo que nos acontece.

Em tese essa é uma boa mensagem, mas não significa nada sem a promessa da Eternidade. O elogio da vida acima da sobrevivência é ótimo. Mas o que é viver? Pode ser esperar por mais viver? Ou tem que ser uma consumação? Onde está o objeto do sonho de liberdade? Neste mundo, ou em outro? As coisas deste mundo podem e devem ser aproveitadas, e não só isso, as oportunidades devem ser usadas para fazermos o melhor da nossa vida. Mas de que modo, com qual propósito? Aqui é que mora a diferença abissal entre a crença numa vida mortal, e a crença na Ressurreição. Estar limitado à vida presente, de certo modo, é estar como que numa Shawshank existencial, definitiva e da qual é impossível se escapar. Por mais que se viva bem, tudo é um jogo comparativo. Melhor fora da prisão do que dentro, mas lá fora também tem quem passa fome, frio, etc., como sabemos muito bem. Aliás, porque foi em primeiro lugar que se construiu a Prisão de Shawshank? Foi porque o mundo era um paraíso? Longe disso, como sabemos bem. Então é preciso abandonar tanto a Ingenuidade quanto a Sedução e desejar a verdadeira liberdade que só Deus pode nos oferecer. Infelizmente parece que o filme quer nos entusiasmar pelo nosso potencial aqui e agora às custas de qualquer bem que transcenda este plano de existência, caso contrário o triunfo de Andy não seria tão evidenciado por suas ações no mundo exterior. Um convertido que confia em Jesus e permanece preso em Shawshank poderia estar muito mais livre por dentro do que Andy. O escape da prisão pode simbolizar uma outra operação interior que tem valor muito superior, mas isso teria que ser reconhecido às custas do triunfo temporal de Andy. E parece que esta não foi a escolha do filme. A liberdade contra a injustiça e a tirania nunca é má em teoria, mas não pode valer a qualquer preço. Por exemplo, no âmbito político a dialética captura as melhores intenções para converter os ideais em seus contrários. O libertador de hoje se torna o tirano de amanhã. A maior liberdade é a que nos livra do pecado, e esta liberdade por definição não pode ser deste mundo. Nada impede o progresso na presente linha temporal, no sentido de melhores Percepções, mas nada o garante, e sobretudo nada o obriga como condição para a Coruscância.

PS: resolvi testar a qualidade da sinopse e análise do Chat GPT, e concluo que ele ainda é muito fraco. Assisti o filme e capturei elementos básicos que deveriam ser trazidos à tona, como a frase do diretor Norton, “a salvação vem de dentro”. Andy deixa um recado com a mesma sentença mais tarde, revelando que escondia a sua pequena picareta (que serviu para a sua fuga) dentro da Bíblia. Não me incomodo nem um pouco com o descrédito da Religião, mas não podemos jogar Jesus fora junto com a igreja dos homens. A salvação vem de dentro? Sim, foi o ponto principal de minha análise. Mas Norton era um mentiroso, ganancioso, corrupto e assassino. Quando ele diz essas coisas, ele é falso, e quando Andy o expõe, ele acerta. Mas o que isso tem a ver com a mensagem? Indiretamente, já vimos na minha análise, que neste ponto continua viável. Depois outra citação relevante vem quando Andy diz a Red: “Acho que a solução é simples. Esforce-se para viver, ou esforce-se para morrer”. Grande testemunho da Sedução, e logicamente quebrado: a morte é inevitável, o esforço humano está ligado ao sentido da vida sempre, ou o desespero na sua falta, como ocorreu com o velho Brooks. E então há a citação final, na mensagem que Red encontra depois de sair da prisão: “A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor coisa. E nenhuma coisa boa morre jamais”. Eis uma frase muito melhor. A Esperança só não é a melhor coisa porque o Amor é melhor ainda, isto é, o desejo do Bem que dá o próprio objeto do esperar. Mas confiar que o Bem atua e governa todas as coisas desde já, que é a Fé, essa é a outra irmã da Esperança, e é a menos honrada das virtudes teologais neste filme. De fato a Esperança não morre jamais, mas não como um impulso vital ligado à existência atual. Isto, infelizmente, por mais estimulante que seja até certo ponto, só leva à decepção e demais armadilhas da Sedução. Nunca sofri tanto quanto por decorrência de querer viver intensamente, seja no durante, ou seja no depois. Mas colher frutos da Graça como primícias da Eternidade, isso já é outra história… a lição que fica é que a análise feita não é de todo ruim, mas além da mudança do prompt para incluir fases simples, sem vírgulas e sem conjunções, vejo que vale a pena testar o pedido específico por todas as menções à questão espiritual, da salvação ou de Deus, e também citações relevantes dos personagens principais. Com isto seria possível alcançar o que faltou sem precisar assistir o filme, por exemplo.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção5
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte2
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno3
Soberania/Gnosticismo6
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo4
Nota final3,9

Avatar a Lenda de Aang, série por Michael Dante DIMARTINO

SINOPSE: Avatar: A Lenda de Aang se passa em um mundo dividido em quatro nações — Água, Terra, Fogo e Ar — ligadas aos respectivos elementos, no qual o equilíbrio sempre foi garantido pelo Avatar, único capaz de dominar todos eles, até que a Nação do Fogo inicia uma guerra de conquista que culmina no genocídio dos Nômades do Ar e no desaparecimento do Avatar por cem anos; esse Avatar é Aang, um menino dobrador de ar que, ao fugir do peso de sua missão, acaba congelado em um iceberg, sendo despertado no início da série por Katara e Sokka, irmãos da Tribo da Água do Sul, que passam a acompanhá-lo em sua jornada para aprender os outros elementos e pôr fim à guerra antes do retorno do Cometa de Sozin, que ampliaria o poder do Senhor do Fogo Ozai; ao longo do caminho, Aang aprende a dobra de água com Katara, a dobra de terra com Toph, uma jovem cega de força extraordinária, e enfrenta perseguições constantes do príncipe Zuko, filho exilado de Ozai, cuja obsessão em capturar o Avatar para recuperar sua honra evolui gradualmente para um conflito moral profundo, especialmente após sua convivência com o tio Iroh, ex-general sábio que lhe oferece uma visão alternativa de poder e identidade; paralelamente, o grupo confronta as consequências da guerra em diferentes regiões, incluindo a corrupção no Reino da Terra e a queda de Ba Sing Se, enquanto a Nação do Fogo revela sua decadência interna por meio de figuras como a princesa Azula, estrategista brilhante e psicologicamente instável; no desfecho, após um colapso espiritual que quase o destrói, Aang se reconecta ao mundo dos espíritos, enfrenta Ozai durante a passagem do cometa e, recusando-se a matá-lo, utiliza a dobra de energia para remover-lhe o poder, enquanto Zuko depõe o pai e assume o trono, restaurando a possibilidade de paz entre as nações e encerrando o ciclo de destruição que marcou aquele século de guerra.

O que esta sinopse do Chat GPT não revela, mas que descobri numa investigação paralela, é que há uma mitologia de origem que relata um conflito primordial entre Rava e Vato, numa espécie de dualidade maniqueísta que mantém o Universo em equilíbrio. Compreendido no contexto desse pano de fundo, a estória de Avatar a lenda de Aang se torna somente a retomada do mesmo ciclo de sempre, onde desde a perda do equilíbrio anterior por algum agente desestabilizador (no caso a ação do líder da Nação do Fogo, etc.), que opera como o mercúrio na relação alquímica, se torna necessária a ação de um novo poder estabilizador, com a função equivalente ao do enxofre, para restaurar o equilíbrio entre as forças. É uma narrativa com a função típica de Legitimação da Mistura, o lado direito da Dialética gnóstica do Ouroboros, como o mito de origem já revela com muita clareza. Não há transcendência ao nível de Mistura de Luz e Trevas, há apenas o equilíbrio, e a vida que é possível deriva desse estado de harmonia entre os poderes. O Mal não pode, assim, ser definitivamente superado ou sublimado, ele só pode ser colocado sob algum controle, pois de algum modo é necessário para que o Bem se manifeste. Por enquanto só encontramos uma nota negativa na direção do Gnosticismo. Vejamos a análise mais pormenorizada da IA.

ANÁLISE: Avatar: A Lenda de Aang pode ser lida como uma meditação narrativa sobre a ordem do mundo, a legitimidade do poder e o estatuto moral da força, articulada por meio de uma cosmologia em que natureza, espírito e política não se separam. A divisão do mundo em quatro nações associadas aos elementos não funciona apenas como recurso estético ou mitológico, mas como uma ontologia prática: cada elemento expressa uma relação distinta com o real, com o corpo e com a comunidade. A dobra de água pressupõe adaptação e fluidez; a dobra de terra afirma estabilidade e resistência; a dobra de fogo encarna energia, vontade e transformação; a dobra de ar, por fim, aponta para desapego e liberdade. O Avatar, enquanto figura que reúne em si todos os elementos, não é um soberano absoluto nem um messias no sentido clássico, mas um mediador ontológico cuja função é manter o equilíbrio entre forças que, abandonadas a si mesmas, tendem à unilateralidade e à tirania. O “equilíbrio” que a série invoca não é neutralidade moral, mas harmonia dinâmica entre princípios incompatíveis, o que já indica uma concepção trágica e não utópica da ordem do mundo.

Ainda não enxergo tanta tragédia nessa concepção, mas certamente também não encontro nenhuma Salvação num sentido de transcendente, de mudança de plano de existência. A mitologia já reforçou essa concepção imanentista. Na verdade, parece que no mito de origem Vato operou algum evento em que almas que viviam em algum plano superior pudessem descer e encarnar no mundo material, como um tipo de Demiurgo. Isso poderia indicar algum outro tipo de redenção para além do equilíbrio imanente, mas nem por isso seria uma solução espiritualmente adequada, ou seja, pela santificação, ou separação de Luz e Trevas. De qualquer modo, precisamos nos ater à narrativa. O simbolismo natural dos elementos já de muito tempo é empregado em artes terapêuticas antigas, como as que usam a doutrina dos humores para a cura dos excessos (de melancolia, fleuma, cólera e sangue) nos temperamentos. Tudo isso pode ser válido até certo ponto, como por exemplo num sentido mais elevado a virtude da Justiça pode ser vista como uma forma de equilíbrio que é excelente para produzir a paz e a felicidade política, o que parece ser a solução que Aang vai encontrar no fim desta estória. A questão que fica é: qual é o próximo passo? Onde se encaixam as vidas das pessoas no contexto maior? Ou este contexto não existe para além de suas vidas presentes? Tudo o que há é o ciclo de ordem anterior, caos, e nova ordem? E a vida das pessoas é como um breve suspiro no meio desse jogo de equilíbrios e desequilíbrios? Se for isso, a estória dá testemunho do espírito de Idolatria, seja da Natureza como o plano máximo de existência que rege os seres pelas suas Leis, ou seja do Homem como agente estabilizador das forças concorrentes em seu conflito permanente contra o Caos. Vamos ver se conseguimos concluir alguma coisa a esse respeito.

Nesse horizonte, a guerra conduzida pela Nação do Fogo não se reduz a um conflito geopolítico convencional, mas representa a hipertrofia de um único princípio — a vontade de poder, a expansão, a eficiência — desligado de qualquer limite espiritual. O fogo, elemento ambíguo por excelência, é aqui interpretado como energia que, sem disciplina interior, degenera em dominação. A série recusa, contudo, uma leitura maniqueísta: o problema não é o fogo em si, mas sua absolutização. Essa recusa se manifesta de modo exemplar na trajetória de Zuko, cuja formação moral revela que a redenção não ocorre pela negação do próprio elemento, mas pela sua reintegração a um horizonte ético mais amplo. O arco de Zuko encena uma tese central da obra: o mal político nasce menos da maldade individual do que da deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder que rompem o vínculo entre força e responsabilidade.

Essa interpretação não faz sentido nenhum. Qual é a causa agente que produz “a deformação da identidade sob estruturas de honra, vergonha e poder”? Não é a maldade individual daqueles que desejam criar essas estruturas? De vez em quando vamos ter que lidar com essa superficialidade da interpretação da máquina. O que me parece ter valor na interpretação simbólica é o valor do equilíbrio tão necessário entre os elementos, e por fim entre aquelas forças originárias do Bem e do Mal, Rava e Vato. Não conseguimos tirar algo de bom disso? Até certo ponto podemos, por exemplo com a valorização da diversidade da realidade humana. Na minha experiência, ao lidar com o simbolismo astrológico, por exemplo (e que envolve a interpretação dos quatro elementos usados na série), o estudo da variedade e diversidade ajuda a respeitar as diferenças entre as pessoas. Mas isso não é realizado pelo conhecimento em si da diversidade. Há uma outra crença que deve agir nesse sentido. No caso da crença cristã, é a noção de Harmonia produzida pela Providência: Deus criou a diversidade tendo em vista finalidades que escapam do nosso entendimento, de modo que a homogeneidade tende a destruir a riqueza gerada pelo Criador. No caso da crença sugerida pela moral da estória de Avatar a lenda de Aang, a própria sobrevivência dos povos depende de um equilíbrio entre eles, uma realidade que só pode ser operada por uma consciência superior que tem essa função de estabilização, que é o Avatar. Fazendo a tradução disto para a vida particular, temos impulsos antagônicos que devem ser controlados por uma disciplina que visa a harmonia do conjunto, autocontrole este que é causado pela consciência da unidade do nosso próprio ser. Apesar disso, esta vida natural é regida por um princípio entrópico da geração e corrupção que vai terminar com a extinção do próprio organismo, algo que sempre gera alguma contradição perceptível pela psique humana em algum grau, quando se percebe, por exemplo, que os indivíduos mais equilibrados e capazes de homeostase vão morrer tanto quanto os mais desequilibrados. Onde está a vitória do equilíbrio, neste caso? Seria na felicidade de uma vida virtuosa, mas a morte é capaz de apagar isso e tornar essa conquista uma espécie de fábula ou ilusão. Do mesmo modo, no nível da vida política, a Justiça e o equilíbrio de forças gera mais paz e harmonia, o que não deixa de reverter o processo civilizacional com a direção que ele tenha, e que pode ser julgado como espiritualmente negativo, ou ao menos sem sentido se o que possuir entidade for apenas a alma individual (a idéia da Cidade de Deus de Agostinho). O que quero dizer, por fim, é que a noção de equilíbrio ou respeito pela diversidade tem que se enquadrar num contexto transcendente para ter valor definitivo, como no caso do indivíduo que vive uma vida mais harmônica e com isso se relaciona melhor com seu Criador e o serve com maior eficácia, ou então no caso da Política quando a paz gerada pela Justiça é capaz de abrir espaço na sociedade para o aparecimento de testemunhos mais fiéis ao divino (Calaquendi). Só nesses casos é que o equilíbrio faz sentido, pois visa um bem realmente transcendente e indestrutível. De resto, só se mantém o equilíbrio de individualidades que morrerão pela ação do mesmo processo, ou de sociedades que evoluirão para um destino qualquer que é indiferente ou mesmo prejudicial para a salvação das almas.

A figura de Aang introduz um problema filosófico ainda mais profundo ao colocar em tensão o dever cósmico e a integridade da consciência individual. Educado segundo uma espiritualidade que valoriza a não violência e o desapego, Aang se vê confrontado com a expectativa de matar o Senhor do Fogo para restaurar o equilíbrio. A série, nesse ponto, se distancia deliberadamente de narrativas heroicas clássicas, nas quais a violência final aparece como necessidade redentora. Aang recusa a lógica segundo a qual a ordem só pode ser restaurada pela eliminação física do inimigo, e sua busca por uma terceira via culmina na descoberta da dobra de energia, que permite neutralizar o poder sem aniquilar a pessoa. Essa solução não deve ser lida como simples artifício narrativo, mas como afirmação de uma tese ética: a justiça verdadeira não coincide com a vingança nem com a mera inversão da dominação, mas com a restauração da medida, isto é, do limite.

Muito bem, mas qual é o resultado final dessa bondade de Aang? Talvez ele tenha impedido um cenário violento e caótico, mas com qual finalidade última? Se a narrativa mostrasse um caminho pelo qual, a partir dessa decisão do protagonista, a própria condição de restrição da vida humana sob o esquema do equilíbrio entre os elementos (ou mesmo entre Rava e Vato) pudesse ser superada, esse seria um resultado muito excelente. Mas não parece ser o caso. Comparemos, por exemplo, com a mitologia cristã: quando Jesus ordena o perdão dos inimigos, isto não gera apenas maior paz e ordem no nível da vida em sociedade, como a decisão de Aang. É uma coisa completamente diferente. A nossa misericórdia com o próximo reflete o Amor divino, é a própria imitação de Deus. Se buscamos ser perfeitos como o nosso Pai é perfeito, desejamos nos tornar como seus filhos adotivos, e isto significa espiritualmente que dizemos “sim”, não só com palavras mas com ações, ao convite para a vida eterna com Deus. Essa vida paradisíaca é a superação total da necessidade de equilíbrio entre Luz e Trevas, pois significa a separação eterna entre os dois. O que Jesus nos ensina é a nos tornarmos imortais pela ação da sua Graça, algo completamente diferente da manutenção do plano terreno atual regulado pelo equilíbrio da Mistura. Vejam que não importa apenas fazer o bem, mas é preciso fazer o bem pelas razões certas, como diria Tomás de Aquino: a boa ação é completa, na sua intenção, nos seus meios, e nos seus resultados. A intenção de Aang foi fazer algo melhor que seu inimigo lhe faria, usando de meios menos violentos, e com a finalidade de restaurar o equilíbrio entre as nações. A intenção da bondade cristã é a comunhão com Deus, o meio é a imitação de Cristo, e a finalidade é a salvação pela Ressurreição e a vida paradisíaca. São coisas bem diferentes. Parece que a estória desta série é apenas um novo testemunho favorável à Legitimação da Mistura. A bondade de Aang é restrita a esse nível, é a bondade de um escravo que não alcança a liberdade, mas preserva o sistema que o escraviza. Neste sentido, quem saberia dizer se os extremos do líder da Nação do Fogo não significariam a salvação no sentido de um necessário fim do mundo que já não tem mais redenção? Não que esse agente tivesse essa consciência, pois o martelo não conhece a intenção daquele que o empunha, e Deus já fez e continua fazendo uso da vilania para seus próprios propósitos. De certo modo, a obsessão com a manutenção do equilíbrio e com a continuidade da Mistura converte Aang num instrumento do Mal à sua maneira. Porque como um parasita, o Mal precisa da Mistura para continuar subsistindo, então aqueles que defendem a Mistura são servidores do Mal. Ao contrário, a Obra de Deus é a Separação de Luz e Trevas, ou Santificação, como revelado em Gênesis.

Por fim, Avatar: A Lenda de Aang propõe uma filosofia da história na qual o tempo não é progresso linear, mas ciclo ameaçado pela repetição da queda. A reencarnação do Avatar sugere que o equilíbrio nunca é conquistado de modo definitivo, pois a liberdade humana permanece capaz de romper a ordem a qualquer momento. Nesse sentido, a série sustenta uma visão profundamente realista da condição moral: não há estrutura política, poder espiritual ou tradição cultural que garanta por si só a justiça. O equilíbrio exige vigilância, autodomínio e disposição ao sacrifício pessoal. A obra encerra, assim, uma crítica implícita tanto ao messianismo político quanto ao niilismo cínico, afirmando que o mundo só permanece habitável enquanto houver quem aceite carregar o peso de mediar entre força e sentido, poder e limite, ação e consciência.

É verdade, mas quem ainda desejaria habitar um mundo onde algum nível de maldade ou sofrimento é necessário? Somente quem não acredita na libertação dessa condição sob nenhuma forma. Então a estória nos dá um testemunho de Idolatria, como eu suspeitava desde o início. E também de Presunção, até certo ponto, porque os protagonistas acham que eles precisam salvar o mundo, como se não existisse um Deus salvador, ou como se Deus delegasse esse tipo de responsabilidade a indivíduos como os avatares. O nome de Jesus resolve esse problema, porque ele significa literalmente que “Deus é o nosso salvador”. E seu exemplo de Humildade, para não falar de seus ensinamentos e dos de seus discípulos, já nos liberta dessas ilusões a respeito da hipótese de que a salvação do mundo nos pertença. A harmonia entre os elementos, ou entre as forças primordiais, não reflete a visão cristã de mundo. Não existe harmonia, existe o império da Queda, a consecução da vontade traidora de Adão e Eva (ou de todos os nossos ancestrais que os representam concretamente): existe maldição e decadência, e então a tentativa de restaurar o mundo pela força da Gnose, o Poder de dominar essa realidade decaída. O que depende de nós é a nossa conexão com o Criador e a solução verdadeira que não é a paz e o equilíbrio neste mundo, mas a Ressurreição. Não há nada disso na estória desta série, somente a manutenção do status quo, que é um objetivo daqueles que legitimam a Mistura.

Nota espiritual: 4,1 (Moriquendi)

Humildade/Presunção4
Presença/Idolatria3
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo4
Vigilância/Ingenuidade3
Discernimento/Psiquismo5
Nota final4,1

Attack on Titan, série por Tetsurō ARAKI

SINOPSE: Attack on Titan narra a história de uma humanidade que vive confinada atrás de enormes muralhas para se proteger dos Titãs, criaturas humanoides gigantes que devoram pessoas, acompanhando inicialmente Eren Yeager, sua irmã adotiva Mikasa Ackerman e seu amigo Armin Arlert após a destruição da Muralha Maria e a morte da mãe de Eren, evento que desperta nele um desejo absoluto de exterminar todos os Titãs; com o ingresso no exército, a revelação de que Eren possui o poder de se transformar em Titã e a descoberta progressiva de outros Titãs inteligentes — como Reiner, Bertholdt e Annie —, a narrativa desloca-se da luta pela sobrevivência para um conflito político e histórico mais amplo, quando se revela que os Titãs são humanos transformados e que o povo dentro das muralhas, os eldianos, é odiado e oprimido pelo resto do mundo, especialmente pela nação de Marley, devido a um passado imperial violento ligado ao poder originário de Ymir Fritz; ao recuperar as memórias de seu pai, Grisha, e acessar fragmentos do passado e do futuro por meio do Titã de Ataque e do Titã Fundador, Eren compreende que a história está presa a um ciclo de ódio e decide desencadear o “Rugido”, libertando milhões de Titãs Colossais para destruir quase toda a humanidade fora da ilha de Paradis, acreditando que apenas um genocídio preventivo garantiria a liberdade de seu povo; diante disso, antigos inimigos e aliados — incluindo Mikasa, Armin, Levi, Hange, Reiner e outros — unem-se para deter Eren, culminando em sua morte pelas mãos de Mikasa, no fim do poder dos Titãs e na sobrevivência de um mundo marcado pela devastação, pela memória do massacre e pela persistente ambiguidade quanto à possibilidade real de paz ou reconciliação futura.

Parece que a série relata a condição de sobrevivência sob a Lei da Selva, com a descoberta de que aquele que participava da História em nome de uma suposta causa justa na verdade apenas integrava um ciclo sem redenção e sem verdadeira Justiça. Isto pode indicar um testemunho de Vigilância até certo ponto, porque saber que podemos ser os vilões faz parte desse sadio aprendizado espiritual (o que chamo de “o lado certo do Golgota”). Porém, sem a perspectiva desse quadro dentro de uma maior Providência que transcendesse o ciclo histórico, seríamos afetados por outro lado pelo espírito de Terror, ou Pacto com o Inferno. Será que haverá alguma indicação de algum tipo de redenção fora da História?

ANÁLISE: A série Attack on Titan pode ser lida, para além de sua superfície épica e violenta, como uma meditação sombria sobre a condição histórica do humano, estruturada em torno da experiência do cerco, da culpa herdada e da liberdade concebida como tragédia. Desde seus primeiros episódios, o mundo apresentado não se organiza apenas como um cenário ficcional, mas como uma arquitetura simbólica: muros erigidos contra um exterior indeterminado, humanidade reduzida à sobrevivência mínima e um inimigo cuja alteridade absoluta legitima qualquer forma de exceção. Essa configuração inicial não serve apenas à narrativa de ação; ela estabelece uma ontologia política do medo, na qual a vida humana é definida negativamente, isto é, não pelo que pode realizar, mas pelo que precisa evitar para não ser exterminada.

É uma aplicação simbólica do sentido da condição humana sob o Decreto da Queda de Gênesis Capítulo 3. Este simbolismo é indevido? Depende, como já falei no início, da perspectiva. Em si mesmo o quadro pode ser realista o quanto for, e até produtivo espiritualmente quando a situação é vinculada às consequências da própria ação humana. Assim, até a idéia de uma “prisão” dentro de uma situação decadente e amaldiçoada faz sentido quando isto é observado como efeito decorrente das decisões dos seres humanos. Então, por exemplo, se o ato inaugural do ódio vingativo do protagonista, Eren, é a morte de sua mãe, este poderia dirigir a sua atenção desde a ação do titã responsável pelo incidente para a realidade originária da própria mortalidade da sua mãe. De onde veio isto? Veio de uma Natureza impecável, de uma Lei Natural boa como se fosse divina, ou ainda de um ordenamento caótico? Qualquer que seja o caso, se a morte era inevitável, não é tão terrível que um titã tenha matado a mãe de Erin, mas que ela fosse morrer de qualquer modo. Pois fosse esse meio mais ou menos violento, o efeito final é sentido de modo mais terrível justamente pela sua irreversibilidade. Então vale mais a morte do que o sofrimento do meio para se chegar nela. Mas qual é, então, a origem da morte? Se for uma Lei Natural, ou um Caos, Erin seria idólatra, Naturalista ou Cacólatra, e seu tormento pela perda da mãe seria sua culpa sua. Por outro lado, se existisse um desígnio bom por trás da determinação da mortalidade de todos, inclusive da mãe de Erin, porque, por exemplo, “o salário do pecado é a morte”, então Erin não precisaria se entregar ao espírito de ódio e de vingança, e sua arbitrariedade nessa direção, com todas as consequências disso, seria igualmente sua culpa. Portanto, a situação humana precisa ser enquadrada dentro de um escopo mais amplo, do contrário estaremos tão presos à História da humanidade quanto os animais estão presos à Natureza. Mas nosso Intelecto já sugere, sem grandes dificuldades, pela nossa capacidade de concepção de algo que nos transcende, a nossa Liberdade de escolher situar os horrores do mundo dentro de um quadro maior que possua algum sentido. Se a série não aponta para essa hipótese, além de Idolatria ela também daria testemunho de Psiquismo, e de Gnosticismo.

À medida que a narrativa avança, os Titãs deixam de funcionar como simples monstros naturais e passam a revelar sua verdadeira função conceitual: eles são a figuração de uma violência histórica que não vem de fora, mas emerge do próprio humano. A descoberta de que os Titãs são, em última instância, humanos transformados dissolve a separação confortável entre vítima e agressor, deslocando o eixo moral da série. O horror já não é o ataque externo, mas a constatação de que a própria humanidade carrega em si a potência de sua autodestruição. Com isso, Attack on Titan rompe com a lógica clássica do épico heroico, no qual o mal é exterior e o bem se afirma pela derrota do outro; aqui, o mal é imanente, transmitido, herdado e estrutural.

Isto tem um potencial excelente para revelar tanto a essência do problema como o Pecado Original, quanto a solução verdadeira que é a Cruz. Mas há que se questionar se existe, então, alguma referência à ordem de origem dos problemas. Por exemplo, a reprodução humana sob essa terrível condição é questionada por algum personagem? Talvez até seja e o Chat GPT não me relate isso. Caberia a alguma boa alma que assistiu à série me informar se for o caso. Se não existisse esse questionamento, então não adiantaria nada reconhecer que os titãs são humanos transformados, porque a origem da exploração do potencial maligno está na encarnação sob esta condição decaída e amaldiçoada. Se o problema não puder ser adequadamente diagnosticado, a solução verdadeira não pode ser aplicada. Qual é a solução verdadeira? A Cruz: interromper o ciclo do mal. Isso começa pela renúncia ao espírito e às práticas vinculadas ao Pecado Original. E chega finalmente no perdão e na misericórdia, isto é, a imitação de Cristo. Se os personagens aguardassem apenas uma salvação que viesse pelo recurso extraordinário da Ressurreição, não seria necessário sofrer com a condição atual senão como a experiência temporária e limitada da Cruz. Essa é a Lei de Liberdade que o Evangelho nos trás: imite a Jesus e a Virgem Maria, não a Adão e Eva, e ame e perdoe todos os desgraçados filhos dos homens até o último dia. Uma outra maneira de enxergar a simbologia desta série é que os titãs são equivalentes, no Pacto Sadomasoquista do Sistema da Besta, aos Sádicos, isto é, aos ambiciosos pactualistas que desejam Poder sobre os masoquistas, e igualmente a solução necessária é a mesma: a renúncia à prática da traição do Amor em nome do Poder, seguir Jesus, etc.

Esse deslocamento atinge seu ponto decisivo quando a história se expande para além dos muros e revela um mundo geopolítico mais amplo, marcado por impérios, ressentimentos históricos e narrativas concorrentes de culpa e redenção. O conflito entre Eldianos e o resto do mundo não é apresentado como uma simples oposição entre opressores e oprimidos, mas como um ciclo de violência sustentado por memórias traumáticas, mitologias nacionais e tecnologias de dominação. A série sugere que a história não é um processo de superação moral, mas uma repetição trágica na qual cada geração herda não apenas territórios e nomes, mas também pecados que não cometeu diretamente. Nesse sentido, Attack on Titan se aproxima de uma filosofia da história profundamente pessimista, na qual a ideia de progresso é substituída pela de acumulação de culpa.

Não somos todos herdeiros dos pecados dos nossos pais? Não herdamos deles todos os nossos sofrimentos, dores, traumas, angústias, medos, etc.? Se não herdamos deles, de quem recebemos essas coisas? De Deus? Da Natureza? Do Caos? Do Nada? Se a série emprega o tom pessimista de modo monotemático, talvez peque pela falta de abrangência, afinal o progresso material e tecnológico pode disfarçar a realidade da experiência humana. De vez em quando não vem alguém dizer que vivemos mais do que nunca antes, temos mais acesso a isto e aquilo, etc.? Tudo isso pode ser verdade e não modificar a realidade da condição humana, especialmente diante da Presença de Deus. Essa questão modifica, portanto, apenas o grau do testemunho do Dom de Vigilância: se o tom trágico e pessimista é exagerado, há menos Vigilância; se, porém, existir o reconhecimento de vantagens pelo progresso e mesmo assim se evidenciar friamente o quanto isso é infinitamente inferior ao Ideal divino, há mais Vigilância.

A figura de Eren Yeager encarna de modo exemplar essa tragédia histórica. Inicialmente apresentado como o arquétipo do herói movido por um desejo absoluto de liberdade, Eren gradualmente se transforma no vetor da maior violência já vista na narrativa. No entanto, essa transformação não é retratada como corrupção moral simples, mas como consequência lógica de um mundo em que toda liberdade parece exigir aniquilação. A liberdade, em Attack on Titan, não é um valor universal conciliável com a coexistência; ela aparece como um bem escasso, conquistado apenas pela negação radical da liberdade alheia. O “Rugido” não é apenas um evento catastrófico, mas a expressão final de uma liberdade levada à sua coerência extrema: se existir significa estar condenado pelo olhar do outro, então a eliminação do outro surge como condição para existir plenamente.

Essa seria sempre a conclusão extrema da experiência do Limite dentro da condição da Mútua Representação: não é possível alcançarmos o nosso bem próprio de modo pleno sem a possível afetação do bem próprio de outros. A solução tempestiva, sob a condição presente da Mútua Representação, é o exercício da Justiça que só é viável como virtude quando a busca do bem próprio é limitada pelo reconhecimento do bem comum, dos direitos universais, etc. Esta situação nunca poderia ser ideal, porém. O Ideal só é alcançável pela superação desta condição da mutualidade no estado paradisíaco da Coruscância, onde a Justiça não é mais necessária, porque a injustiça não é possível, já que o Amor triunfa de modo absoluto e somos todos infalíveis em comunhão com o Espírito Santo. Lá as entidades pessoais com as quais convivemos de modo regular são perfeitamente determinadas pela Apetição da mônada, os chamados Periannath (“povo pequeno”). E as outras mônadas são absolutamente livres para representar suas realidades apetecidas com igual potência. A idéia de que vamos conviver com vizinhos permanentes numa tal Jerusalém celeste, e que alguém possa dizer “bom dia” sem o outro querer ouvir, ou de você não poder nem sequer querer não ouvir “bom dia” do seu vizinho, é uma hipótese tão maluca quanto a da eliminação da nossa pessoalidade na absorção da União Mística ou Visão Beatífica.

Essa lógica conduz a série a um terreno profundamente problemático do ponto de vista ético. Attack on Titan não oferece uma moral clara nem um ponto de vista redentor capaz de reorganizar o mundo após a catástrofe. Ao contrário, ela insiste em mostrar que toda tentativa de solução total — seja pela dominação, pela vingança ou pela proteção absoluta de um povo — resulta inevitavelmente em genocídio, silêncio e ruína. A ausência de um horizonte reconciliador não é uma falha narrativa, mas uma tese implícita: o mundo humano, quando estruturado exclusivamente por identidades fechadas, memórias absolutizadas e soberanias totais, não admite síntese pacífica. O trágico não é um acidente, mas a forma própria desse mundo.

Eu nem me incomodaria por falta de salvação no plano desta temporalidade, afinal de contas isso não existe mesmo. Mas a falta de indicação de uma salvação transcendente, isso sim seria preocupante. De todo modo, mesmo sob uma visão imanentista fechada, novamente, seria possível questionar a validade da continuidade da reprodução humana nessa condição. É o tema da Antropodiceia. Já que não há Eleuteriodiceia que reconhece a validade dessas coisas terríveis num plano limitado diante da Eternidade, no mínimo os participantes voluntários na perpetuação dessa situação são moralmente obrigados a se questionarem sobre a sua decisão. Essa responsabilidade objetiva existe e é inescapável. Mesmo que o Pecado Original não seja reconhecido na sua significação espiritual, a sua prática é sempre reconhecível como o conduíte para a morte, o sofrimento, etc. Se a série não apontou sequer para isto, então realmente o seu grau de Vigilância não é muito alto.

Nesse contexto, o tempo desempenha um papel filosófico decisivo. A possibilidade de acesso ao futuro e ao passado, mediada pelos Titãs e pela linhagem de Ymir, dissolve a noção clássica de livre-arbítrio. As ações dos personagens parecem simultaneamente escolhidas e determinadas, como se a liberdade existisse apenas como experiência subjetiva dentro de uma cadeia causal fechada. Eren age porque quer, mas quer porque já viu o que fará. Essa circularidade temporal introduz uma concepção profundamente fatalista da história, na qual a responsabilidade moral não desaparece, mas se torna quase insuportável, pois o agente é ao mesmo tempo autor e prisioneiro de seus atos.

Isto tem que ser visto com bastante cuidado. Se o personagem vê o que vai fazer, ele pode apenas contemplar o resultado de uma decisão que já tomou, embora ainda não saiba que o tenha feito, porque o momento no tempo de uso dessa liberdade particular ainda não chegou. Não existe, neste sentido, abolição da Liberdade. Se o sujeito detesta o resultado do que fez, mas continua tendo feito o que fez, isto apenas gera uma situação exótica e anômala, como um arrependimento antecipado, mas não muda de fato o ato livre, porque se mudasse isto já converteria a concepção da realidade moral para o paradigma de um Determinismo total. Mas esse tipo de concepção costuma ser facilmente questionável, seja por atos simples do dia-a-dia, ou pela reconsideração dos atos interiores executados no momento das supostas decisões determinadas por causa externa. No mínimo, mesmo que as ações fossem produzidas por motores exteriores, uma consciência capaz de detestar o que faz já é livre o suficiente diante de Deus, e portanto responsável por esse nível de autonomia (Romanos 7:15). Isto é, para um Intelecto verdadeiro sempre existe no mínimo a agência moral interior sempre livre e imputável. Novamente, se a série não é capaz de apresentar isso, ela dá o testemunho dos espíritos de Gnosticismo e de Psiquismo.

Por fim, Attack on Titan pode ser compreendida como uma alegoria radical da modernidade política e de seus impasses últimos. Estados fortificados, tecnologias de extermínio em massa, narrativas identitárias absolutas e a conversão da liberdade em arma total formam um quadro que remete menos a um mundo fantástico do que às experiências históricas mais extremas do século XX. A série não oferece consolo, redenção nem transcendência clara; ela termina como começou, com restos, memórias e sobreviventes incapazes de afirmar se algo foi realmente resolvido. Nesse sentido, sua força filosófica reside precisamente na recusa de uma conclusão edificante. Attack on Titan não ensina como salvar o mundo, mas expõe, com rigor implacável, o preço metafísico e histórico de tentar fazê-lo pela força absoluta.

Eu nem penso que o mundo devesse ser salvo, porque já há uma profecia sobre a sua destruição, e a Vontade de Deus é perfeitamente boa. A salvação pertence às almas, ou mônadas. Então esse negócio de salvar o mundo nunca é o problema. Aliás, o contrário é verdade: o problema costuma ser a idéia de salvar o mundo, algo que Olavo sempre dizia (“o mundo estaria muito melhor se muitas pessoas não quisessem melhorá-lo”). O que perpetua o sofrimento e a desordem é a vontade de fazer diferente, de se achar diferente, em suma, a Pretensão, a falta de Humildade. Por isso seguir a Jesus Cristo continua sendo, como sempre será, a única solução final: ser humilde e manso de coração, tornar-se filho de Deus, carregar a Cruz e seguir o Pastor em direção à morte e à Ressurreição. Eu não esperaria que um anime levasse a tudo isso, é claro. Mas no mínimo alguma indicação de transcendência seria sempre possível, ou então a consciência da possibilidade de interromper o ciclo do mal com a renúncia voluntária à prática do Pecado Original.

Nota espiritual: 3,9 (Moriquendi)

Humildade/Presunção6
Presença/Idolatria2
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno2
Soberania/Gnosticismo3
Vigilância/Ingenuidade6
Discernimento/Psiquismo3
Nota final3,9

Fenomenologia do espírito, livro por Georg Wilhelm Friedrich HEGEL

A Fenomenologia do Espírito de Hegel apresenta-se como uma obra inaugural e ao mesmo tempo liminar: não é ainda o sistema acabado da filosofia especulativa, mas o caminho pelo qual a consciência deve passar para tornar-se capaz do saber filosófico propriamente dito. Seu propósito fundamental não é expor doutrinas isoladas, mas acompanhar o movimento vivo da consciência em sua experiência consigo mesma, mostrando como cada forma de saber, ao pretender captar o absoluto, entra em contradição interna e se supera necessariamente em uma forma mais rica. A verdade, para Hegel, não é um dado imediato nem um princípio pressuposto, mas o resultado do próprio percurso do espírito; ela é o todo que se realiza apenas ao final do processo, de modo que o verdadeiro não pode ser separado do devir que o engendra. A fenomenologia é, assim, uma ciência da experiência da consciência, onde cada figura do saber surge, exerce sua pretensão de verdade, fracassa segundo seus próprios critérios e, nesse fracasso, revela a necessidade de sua superação dialética.

A chave do pensamento hegeliano é justamente essa idéia de dialética. Isso por causa do limite da Razão humana já qualificado pela Crítica kantiana. Depois de Kant os filósofos só possuem duas alternativas: trabalhar seu pensamento criticamente com o reconhecimento do limite da Razão humana, ou produzir um pensamento dogmático. Hegel quer explorar o potencial de um racionalismo crítico ao máximo. O que ele descobre é que a verdade que o ser humano possui (com a exceção dos Juízos de Razão, ou analíticos) é de tipo processual, é a verdade da própria busca que deve se superar o tempo todo, ou seja, é a verdade dialética, indefinidamente falseável. Isso parece honrar a Humildade, mas se pensarmos bem é indiferente. E, na verdade, Hegel parece querer levar a coisa para o outro lado, numa espécie de reintrodução disfarçada do dogmatismo anterior sob a forma da extrapolação da filosofia crítica. Uma filosofia realmente humilde seria como a socrática, onde o “não sei” é a conclusão. Hegel parece levar o projeto filosófico na direção de Protágoras, onde o “não sei” é a premissa, e o homem deve então fundar sua própria verdade feita à sua imagem. Para não deixar minha própria idéia exposta apenas ao fim, já deixo claro que não aceito a suposta vantagem das filosofias de tipo crítico, pois elas entram no escopo do alerta que o Apóstolo fez a respeito das filosofias dos homens. A Sabedoria de Deus é loucura para o ser humano, e vice-versa, porque existe esse limite intransponível entre o intelecto criado e o Intelecto divino. Mas Deus é relacionável através de dons que Ele mesmo nos provê. Qual é o sentido então de se optar por uma filosofia crítica, senão o abandono dos recursos espirituais oferecidos por Deus, e o retorno à idéia da Gnose como meio do ser humano salvar a si mesmo? Por mais criativa e genial que sejam essas filosofias, nós precisamos reconhecer os seus defeitos espirituais. O que não nos impede de nos apropriarmos das suas conquistas legítimas (que só foram viáveis, lembremos, por uma dispensa da Graça), como o Idealismo até certo ponto, na linha daquilo que a Patrística afirmava: é dos cristãos tudo o que os pagãos falaram de bom.

O ponto de partida é a certeza sensível, forma aparentemente mais rica de conhecimento por pretender apreender o imediato em sua singularidade absoluta. No entanto, Hegel mostra que essa certeza, ao tentar dizer o “isto” e o “agora”, dissolve-se em universalidades vazias, revelando que o imediato sensível só pode ser expresso por mediações conceituais. A percepção, que busca estabilizar o objeto como coisa dotada de propriedades, tampouco escapa à contradição, pois oscila entre a unidade da coisa e a multiplicidade de suas determinações, sem conseguir fundamentar uma verdade consistente. O entendimento, por sua vez, introduz a noção de força e lei, alcançando um nível mais abstrato e universal de explicação, mas acaba projetando para além do fenômeno um mundo suprassensível que nada mais é do que a duplicação empobrecida do sensível. Em todas essas etapas, a consciência acredita que a verdade reside no objeto; contudo, o movimento dialético revela que a instabilidade do saber provém da própria estrutura da consciência, que ainda não se reconhece como participante essencial da constituição do objeto.

Precisamos entender isso em partes e com cuidado. Primeiro, a respeito da diferença entre o conhecimento sensível e o racional, o que produz a diferença destacada por Hegel é o poder de domínio da razão abstrativa que gera o entendimento. Em face da intuição do Ser através da Percepção, o produto secundário da razão como reflexão do intuído está muito mais ao dispor da nossa Vontade, o que sempre nos traz um tipo de conforto, especialmente para as pessoas com um temperamento mais obcecado com controle e domínio. Isto não quer dizer que a verdade pertence a nós, ou que a realidade intuída na Percepção seja menos verdadeira. Ao contrário, como Hegel assume, a realidade é sempre mais rica do que os produtos da depuração abstrativa. Agora, ela está fora do nosso controle. E isso pode incomodar quem deseja, acima do conhecimento intuitivo, sensível, da bondade, da verdade e da beleza do Ser, o seu domínio. Esse incômodo é fruto do orgulho, então é um problema moral e espiritual, não epistemológico. Uma maneira típica de inversão da prioridade do Ser sobre a Razão humana é a consideração de que não existe conhecimento sensível do tipo intuitivo através da Percepção, mas apenas do tipo abstrato através do entendimento. Essa já é uma interpretação orgulhosa do sentido do conhecimento. Segundo, sobre a participação essencial do sujeito na constituição do objeto, de acordo com as categorias mais básicas do Idealismo nós podemos concordar com Hegel, desde que isso signifique reconhecer somente que a realidade concreta, na sua riqueza percebida, seja produzida instintiva e intuitivamente pelo sujeito, mas nunca de modo mediado pela Razão abstrativa. De outro modo, a criatividade subjetiva seria a criação de uma imagem da verdade, de uma imitação, de uma falsificação da verdade, agradável por ser manipulável, mas falsa justamente por não ser perceptível pelas nossas sensações. Esta seria a diferença entre uma mônada criada movida por Deus na sua Percepção, ou seja, iluminada pelo ato da Mônada Incriada, e uma mônada criada que descobrisse possuir luz própria e a capacidade de gerar sua própria “verdade”. O segundo caso, que parece ser o objetivo da intenção de Hegel, seria o cumprimento da promessa da Serpente no Jardim do Éden. É desnecessário dizer o quanto essa doutrina é gnóstica. A filosofia, portanto, tem sempre o potencial de reconhecer o ato criativo de Deus, ou de querer se desligar dessa concepção e gerar um mito de emancipação da Razão humana. Qual seria, então, de acordo com o propósito divino, a função da Razão para o ser humano? Seria o de dar o testemunho da verdade fundada em Deus. É possível, porém, deturpar e corromper essa função para subsidiar racionalmente uma tese de rompimento com o divino. O que opera a escolha é o próprio arbítrio humano fundado na crença de aceitação de que o Mistério divino é amoroso, ou na crença maliciosa de que o Mistério é indiferente, ou mesmo maligno. Hegel e quem mais seja pode filosofar o quanto queira, jamais ultrapassará o fato dessa potência humana de crer na premissa que baseia a sua escolha. Contra o dogmatismo, o criticismo teria sempre a razão de se reconhecer como imune ao perigo da Escolha. Isso é verdade. Mas jamais pode se imunizar contra o perigo de não assumir a Escolha quando esta é inevitável na interpretação das primeiras premissas de qualquer raciocínio, afinal de contas não é impossível que alguma idéia dogmática seja verdadeira entre outras falsas, e que esta verdade só seja alcançável pela crença pura. Por outro lado, quem considerasse essa possibilidade poderia filosofar a respeito da distinção entre as conveniências das crenças diversas, e talvez alcançar, por exemplo, a Teleologia Metaracional do Sumo Bem. Isto tudo está à disposição da mesma Razão humana que Hegel quer usar para se imunizar contra todos os perigos das crenças. Bem dito, na Dialética hegeliana a falseabilidade da verdade provisória toma sempre a forma de algo como uma crença que precisa ser novamente criticada como uma tese deve receber a oposição de uma antítese. Mas a questão do valor da Escolha é a do encontro da verdadeira calma e tranquilidade que ele está sempre mencionando, que não está na descoberta de um Espírito em nós, mas que nos transcende. Em suma: o Espírito no qual podemos repousar não é o nosso próprio, mas o divino. Essa é a diferença do papel da Escolha entre crenças provisórias dentro de um raciocínio e a produzida sobrenaturalmente pela Fé: num caso crer é apenas uma parte de um processo, é a contraparte do descrer; no outro, crer é libertar-se de seu próprio limite que forçou o filósofo a assumir um pensamento crítico em primeiro lugar.

Esse reconhecimento emerge com a passagem à autoconsciência, momento decisivo da obra, em que o saber deixa de ter como foco principal o mundo exterior e volta-se para si mesmo. A autoconsciência descobre que sua essência é o desejo, isto é, a negação do outro em busca de afirmação de si, mas percebe também que tal afirmação só pode ser plenamente realizada no reconhecimento por outra autoconsciência. É nesse contexto que Hegel desenvolve a célebre dialética do senhor e do escravo, não como uma teoria sociológica, mas como uma figura lógica do reconhecimento assimétrico. O senhor obtém um reconhecimento insuficiente, pois provém de uma consciência subjugada, enquanto o escravo, através do trabalho e do medo da morte, transforma o mundo e a si mesmo, adquirindo uma mediação efetiva com a realidade. O trabalho torna-se, assim, o momento formativo pelo qual a autoconsciência supera a imediaticidade do desejo e aprende a objetivar sua liberdade, antecipando a dimensão ética e histórica do espírito.

Poucas coisas são tão decepcionantes quanto esse rebaixamento da filosofia hegeliana a esse nível de idealismo imanentista cheio de testemunho de Idolatria. A sua filosofia do senhor e do escravo parece ter sido produzida e apostada num procedimento ad hoc sem integridade suficiente. O que liga, afinal, a Fenomenologia do espírito à essa concepção tão particular do mundo? Somente a prática da Dialética mesma. Quer dizer, ficamos com a impressão de que Hegel quer apenas praticar o seu método de redescoberta de verdades possíveis em vários âmbitos da experiência humana, sem que essas coisas sejam integradas num sistema de modo orgânico. Neste ponto a filosofia do autor está presa à sua condição existencial. É uma filosofia de escravos e para escravos. O que nós temos a ver com isso? Nada. Não surpreende que as filosofias idólatras herdeiras da doutrina hegeliana só pudessem continuar essa estupidez por outros meios. Em todos os casos nunca se toca nem com a ponta de um dedo a realidade da prática do Pecado Original e a responsabilidade humana decorrente desse costume. Isso é consciência, ou autoconsciência? Só se for do espírito do Ouroboros que é o beneficiário da manutenção desse status quo. Por isso as revoluções liberais e socialistas foram e são apenas movimentos dialéticos que servem para mudar tudo sem mudar nada, porque seja como for classificado o papel do Estado, ou a distribuição das riquezas, dos dois lados da disputa o que nunca se questiona é o dever de perpetuar a condição da escassez. Essa é a Religião do Homem, a Religião de Adão, o Culto do Ouroboros, a Tradição Primordial. E esses filósofos todos, liberais e socialistas, são Bispos do Sistema da Besta. Hegel, entre eles, é apenas um primum inter pares.

A partir desse ponto, a obra desloca-se progressivamente do nível individual para formas mais complexas de vida espiritual, reunidas sob a noção de razão. A razão é a certeza de que toda a realidade é racional e de que o sujeito pode encontrar-se no mundo objetivo; porém, essa certeza passa por múltiplas figuras, desde a razão observadora, que busca leis na natureza e no homem, até a razão ativa, que pretende realizar o bem no mundo. Em cada uma dessas figuras, Hegel demonstra como a razão, ao tentar impor unilateralmente suas categorias à realidade ou ao agir segundo convicções abstratas, entra em conflito com a efetividade histórica e social. Esse conflito conduz à emergência do espírito propriamente dito, entendido não como uma substância metafísica separada, mas como a vida ética concreta de um povo, na qual indivíduo e comunidade se interpenetram.

Essa é outra das doutrinas idólatras que Hegel produz, um testemunho direto a favor do bolchevismo espiritual, essa idéia de Volksgeist (o “espírito do povo”). De onde sai isso? Ora, no processo da Dialética do Espírito em que ele se reconhece a si mesmo através do seu desdobramento na História, há o encontro entre as duas forças, uma descendente (a Razão) e a outra ascendente (a Terra), onde a síntese se revelará no homem do povo que sendo filho da Terra se torna apto a alcançar a Razão através da coesão da comunidade. Isso já é um Darwin avant la lettre, uma filosofia da Evolução natural, com a única diferença que Hegel seria, como idealista, focado no Espírito, e Darwin, materialista, estaria restrito a observação dos fenômenos sem causa transcendente. Mas que porcaria de idealismo seria esse em que o Espírito precisa se manifestar em fenômenos tais e quais para reconhecer a si mesmo, a tal ponto que nesse processo o homem seria até mesmo dependente da sua existência na coletividade para ser capaz de alcançar a autoconsciência que revelaria o próprio Espírito? É um idealismo muito fraco, se é que dá para chamar isto de Idealismo no sentido pleno. Compreendo como para um idólatra isso pode parecer coerente. Hegel no meio do mato entre as capivaras e tamanduás talvez não tivesse a paz suficiente para fazer a sua filosofia do Espírito. Então a coletividade o amparou para que juntos vencessem as contradições entre a Razão e a Terra, etc. Mas bastasse que ele reconsiderasse a possibilidade de que um ato divino o pudesse iluminar, mesmo no meio daquele mato sem cachorro, para que as suas causas necessárias se tornassem meros acidentes, elementos de cenário. Qual é a diferença? A iluminação divina requer uma crença amparada pelo dom sobrenatural da Fé. Já a interpretação hegeliana só requer que o homem pense a respeito da sua condição. Novamente identificamos o ser humano operando a Escolha entre confiar no Amor e buscar o Poder.

No domínio do espírito, a consciência já não se compreende como um sujeito isolado diante de um objeto, mas como parte de uma totalidade histórica de costumes, instituições e práticas compartilhadas. A análise da eticidade grega revela uma unidade imediata entre indivíduo e comunidade, mas também sua fragilidade diante da cisão entre lei humana e lei divina, dramatizada na figura trágica de Antígona. O mundo romano introduz a abstração da pessoa jurídica, garantindo a universalidade do direito, mas ao preço da dissolução do conteúdo ético concreto. Essa dissolução culmina na alienação do espírito no mundo moderno, onde a moralidade subjetiva e a cultura produzem um conflito profundo entre consciência individual e ordem social, expresso na hipocrisia, no ceticismo e na chamada “consciência infeliz”. Tal figura representa o espírito dilacerado entre um absoluto transcendente e um eu finito, incapaz ainda de reconciliar interioridade e objetividade.

Tudo isso pode ser explicado como decorrência da Queda do homem enquanto desligamento voluntário da vida na Presença de Deus. Hegel está tentando reconhecer na História o que é muito mais facilmente reconhecível no nosso interior de modo imediato: o drama da impiedade no sentido da experiência dos efeitos desse desligamento espiritual. Nós todos somos filhos de uma prática de traição contra o Espírito Santo, e nascemos e fomos criados numa cultura de Cativeiro. O conflito entre o Absoluto e o eu finito só existe quando aquele é estranhado no seu Mistério. O que quero dizer com “estranhado”? Desconfiado de forma maliciosa. Isso leva o ser humano a querer redescobrir o Absoluto como algum tipo de propriedade sua. Mas como isso não é verdade, a tal da “consciência infeliz” de Hegel se torna um destino fatal. “Quem quiser se salvar, se perderá”, Jesus já alertou. O homem abandonado a si próprio é a mais infeliz e miserável das criaturas, pois tem, ao mesmo tempo, a noção do potencial de felicidade que Deus lhe propiciou por ter lhe feito à Sua imagem e semelhança, e todas as limitações pequenas e mesquinhas da animalidade. Um animal natural incapaz de racionalidade não pode ser infeliz, pois seu sofrimento não tem sentido porque não pode ter sentido. Já o homem, animal racional, é infeliz pois o seu sofrimento poderia ter um sentido que ele desconhece qual seja. Daí filósofos como Hegel tentarão explicar isto como algo assim, um processo dialético de autoconsciência do Espírito, que pode ser uma explicação muito estimulante intelectualmente, mas que não muda a realidade concreta da nossa infelicidade. As esperanças são depositadas em algo assim como um atingimento de uma meta futura, uma promessa qualquer do tipo Humanista, talvez para quando nos tornarmos Übermensch finalmente, vai saber. Daí eu pergunto, diante desta ficção: qual é a evidência que privilegia essa concepção em face da crença numa salvação divina? Em outros termos, do ponto de vista estritamente racionalista (sem se considerar o aporte de dons espirituais), que diferença tem entre crer que salvaremos a nós mesmos nos transformando em algo como deuses, e crer que seremos salvos por um Deus amoroso? Objetivamente não teria diferença. Subjetivamente, a diferença é a que existe entre a Presunção e a Humildade. Esta é a natureza dessa Escolha. Não tem nada a ver com Razão, e quem presumir que tenha está apenas embarcando num conto gnóstico. Sim, mais um.

A superação dessa cisão ocorre no âmbito da religião, em que o espírito passa a representar a si mesmo sob formas sensíveis e simbólicas. Hegel distingue momentos religiosos correspondentes às etapas anteriores do desenvolvimento espiritual, culminando na religião revelada, em que o absoluto é concebido como espírito encarnado. Contudo, mesmo a religião mais elevada permanece no registro da representação, isto é, expressa a verdade em imagens e narrativas, não ainda no conceito. Por isso, a reconciliação plena entre finito e infinito, humano e divino, só se realiza no saber absoluto, momento final da Fenomenologia. Nesse ponto, o espírito reconhece que todo o percurso anterior foi seu próprio movimento, e que a verdade não está fora da história da consciência, mas é precisamente essa história compreendida conceitualmente.

Saber absoluto? Hegel é um fetichista do Nominalismo. Ele acha mesmo que nós podemos dominar a verdade através de conceitos. O que é um conceito? É um produto acabado da Razão humana cuja validade é determinada pela sua coerência interna. Isso não tem nada a ver com a Verdade como correspondência, na consciência, entre o Intelecto e o Ser. Voltamos ao nosso ponto de partida, que era a desconfiança da intuição obtida pela Percepção. A verdade sempre esteve ali. Quando a abstração pretendeu dominar a verdade pela Razão, ela apreendeu apenas a imagem da verdade cujas categorias formais permitem a construção de conceitos perfeitos. Ora, no que consiste a perfeição desses conceitos? À sua correspondência aos nossos limites. O conceito revela a verdade do nosso domínio limitado da verdade abstraída do Ser. Isso não é um saber absoluto! Kant sabia disso muito bem. Hegel se perdeu. Desculpem a imagem, mas é como um punheteiro que acha que sua imaginação é mais satisfatória do que seria a experiência de uma realidade apetecível. É apenas uma fantasia, uma satisfação com a independência em relação ao Ser. Mas o que nós queremos mesmo é possuir o Ser e desfrutar de toda a sua bondade, verdade e beleza, obviamente.

O saber absoluto não é um saber enciclopédico de fatos, nem uma intuição mística do todo, mas a consciência filosófica de que sujeito e objeto, pensamento e ser, são momentos de uma mesma totalidade racional em processo. A Fenomenologia do Espírito encerra-se, assim, não com um dogma final, mas com a posição do ponto de vista especulativo, a partir do qual a filosofia pode desenvolver o sistema da ciência. O leitor que percorre esse caminho não recebe verdades prontas, mas é conduzido a experimentar a necessidade interna de cada figura do saber, aprendendo que a negatividade, a contradição e o sofrimento do espírito não são falhas a serem eliminadas, mas o próprio motor da verdade. Nesse sentido, a obra de Hegel permanece como uma das tentativas mais radicais de pensar a razão não como um instrumento externo ao mundo, mas como o próprio movimento pelo qual o real se torna inteligível a si mesmo.

Não vou dizer que Hegel não fosse ao seu modo um mestre de filosofia, uma mente criativa e um dialético excepcional. Ele foi tudo isso. Mas o que é isso? Onde eu encaixo esse fato? Na minha visão de mundo, essa sua obra é uma tentativa de reafirmar um idealismo imanentista do tipo Humanista, isto é, uma idolatria do Homem por ele mesmo. É por isso que uma obra filosófica tão profunda na sua própria metodologia pode ser, do ponto de vista espiritual, algo tão inócuo como qualquer outra filosofia amparada em premissas ruins. Não há nada, então, de proveitoso na obra de Hegel? Não consigo afirmar isso. É o mesmo que dizer, por exemplo, que não há nada de proveitoso na Astrologia, ou na Psicologia. Já falei dos perigos dessas coisas, mas isto não quer dizer que não haja algo proveitoso nelas. Tudo depende do quanto você consegue se aproximar de um fogo sem se deixar queimar por ele. É como a tentação para o pecado: se você não sabe se algo é pecaminoso ou não, a resposta mais simples é de que sim, é um pecado. É um perigo tudo aquilo que não temos a liberdade de nos apropriar com boa fé. Voltando ao Hegel, o que há de produtivo na sua filosofia é o próprio método dialético que, assim como Fichte antes dele, Hegel aprimorou ao ponto de recuperar a noção escolástica da logica inventionis. No meu entendimento, isso é muito mais benéfico do que a obsessão com conceitos. A Dialética é um método de investigação e da descoberta, e a metodologia hegeliana pode ser inspiradora nesse sentido. Outra coisa boa em Hegel é a noção de que no plano da imanência a tentativa de realizar um ideal tende a manifestar o seu oposto, pois o Absoluto não pode ser contido no imanente. Se você, portanto, quiser caos, é mais fácil forçar uma ordem repressora artificial que gere a anarquia como consequência, pois se produzir o caos diretamente só invocará, com isso, a reação de forças ordenadoras. E o contrário é igualmente verdadeiro, se você quer mais ordenamento o melhor caminho é gerar um caos artificial (que tem um controle secreto desconhecido de outros agentes) e gerar a reação de busca pela repressão. Curiosamente, esse entendimento deveria favorecer a busca de verdades transcendentes a qualquer Dialética, como princípios que só poderiam ser acreditados, mas nunca demonstrados, por escaparem da contradição. Uma escolha infeliz de Hegel é, diante disso, imitar Fichte e se obcecar com a busca de uma ciência humana como veículo de salvação. Infelizmente as escolhas de Hegel não tiveram consequências que se limitaram apenas a ele, e muitos intelectos arrogantes e pretensiosos fizeram escola com a sua filosofia.

Nota espiritual: 2,4 (Moriquendi)

Humildade/Presunção1
Presença/Idolatria1
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte5
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo2
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo1
Nota final2,4

O Segredo, livro por Rhonda BYRNE

O livro O Segredo, de Rhonda Byrne, insere-se no gênero da autoajuda contemporânea, mas reivindica para si um estatuto mais elevado: o de revelar uma lei universal fundamental, supostamente conhecida por sábios antigos, pensadores iluminados e figuras de exceção ao longo da história. Essa lei, denominada “Lei da Atração”, é apresentada como o princípio último que governa todos os eventos da vida humana, desde as circunstâncias materiais mais banais até os estados interiores de felicidade, saúde e realização. A tese central da obra é inequívoca: aquilo que o indivíduo pensa e sente determina, de maneira direta e necessária, aquilo que ele experimenta no mundo. A realidade, nesse sentido, não é algo que simplesmente acontece ao sujeito, mas algo que responde ao seu estado mental.

Não precisamos nos preocupar muito com a reivindicação do estatuto mais elevado de acordo com alguma antiguidade ou origem autoritativa, porque este é das falácias uma das mais fracas, o chamado “argumento de autoridade”. Uma lei universal deve ser reconhecível por sua própria constituição, por seus efeitos, por critérios adequados à sua suposta universalidade. Não é o sábio que faz a Sabedoria, mas a Sabedoria que faz o sábio. Então precisamos verificar a veracidade da tal Lei da Atração. Sobre a determinação da experiência de acordo com o pensamento e o sentimento, isso tem no mínimo uma dupla interpretação possível. Primeiro, a interpretação objetiva, de que a realidade exterior ao ser que a percebe sofre alterações por efeito dos estados interiores do sujeito. Segundo, a interpretação subjetiva, de que a percepção que o sujeito tem da realidade exterior é alterada por seus estados interiores. No primeiro sentido, por sua vez, há três interpretações possíveis: 1) o efeito indireto pelas consequências de ações que consideram uma determinada qualidade da realidade; 2) o efeito direto pela posse de um poder de alteração da realidade para além das ações ordinárias; e 3) o efeito direto pela produção de uma realidade que reflete o interior da alma, embora este efeito dependa do uso de liberdades específicas, que podem ser mais ou menos restritas conforme o caso. Posso aceitar a primeira e a última interpretação, ou seja, que a nossa maneira de pensar e sentir a realidade muda a nossa forma de agir no mundo e, portanto, gera consequências derivadas dessa visão interior, e também que temos o poder da reflexividade monádica de criar a nossa realidade, embora experimentemos isso hoje de modo limitado por força do ordenamento da Mútua Representação. No segundo sentido, de fato a realidade é representada pela alma que a percebe de acordo com as categorias que a alma usa para interpretar essa representação, e a escolha é livre para alterar esses critérios, sem no entanto gerar com isso a modificação da realidade exterior, exceto pelos casos primeiro e terceiro do primeiro sentido. Reconheço, portanto quatro formas de interpretar a tese da Lei da Atração: modificação por ações ordinárias, modificação por ações extraordinárias, geração do real por uma atividade interior limitada, e interpretação subjetiva das representações. Vejamos onde a Sra. Byrne vai nos levar.

Segundo Byrne, os pensamentos não são meras representações subjetivas ou conteúdos internos da consciência, mas forças energéticas dotadas de frequência vibratória. Essas frequências, por sua vez, interagem com o universo como um todo, atraindo eventos, pessoas e situações que se harmonizam com o padrão mental do indivíduo. Pensamentos positivos, acompanhados de emoções elevadas, atrairiam experiências igualmente positivas; pensamentos negativos, marcados por medo, escassez ou ressentimento, atrairiam circunstâncias adversas. A vida, portanto, funcionaria como um espelho fiel da vida interior, devolvendo ao sujeito aquilo que ele emana, consciente ou inconscientemente.

Como podem ser interpretadas as forças energéticas dotadas de frequência vibratória? Em primeiro lugar, o nome não faz a coisa, mas a coisa é que faz o nome: se há uma força, uma energia, ou uma vibração, até este ponto isto só é reconhecível pela causa psíquica e pelo efeito de alteração da realidade, mas permanece um mistério na sua quididade. O que é essa força? Em segundo lugar, já podemos enquadrar a Lei da Atração numa das quatro interpretações? Ainda não, pois essas forças poderiam produzir ações ordinárias ou extraordinárias que por sua vez poderiam atrair a realidade correspondente de modo menos ou mais direto. Isso porque não está declarada a essência do mecanismo, ao menos neste resumo do Chat GPT, por enquanto. Igualmente, a força atrativa poderia ser um modo de entender a reflexividade monádica, ou mesmo a interpretação subjetiva da representação. Então, se eu poupo gastos e faço investimentos, estou atraindo a riqueza como efeito dessa ação que por sua vez foi produzida por um pensamento positivo ligado à idéia do enriquecimento. Isto vale para Byrne? Ou só valeria como Lei da Atração eu meramente pensar que enriquecerei, e independente do meu esforço o efeito se seguirá? Isto ainda não está claro. Por outro lado, se a minha força interior produz a minha realidade como criação pura, isto é fato numa determinada interpretação, mas eu já poderia fazer isto agora, ou é apenas uma potência que um dia poderia ser ativada? E, ainda, na linha da subjetividade, se eu tenho uma omelete no prato, posso considerar-me pobre comparando-me com o outro que tem um filé mignon, mas posso considerar-me rico comparando-me com o outro que não tem nada. Essa interpretação da representação da realidade também é um modo de atrair o positivo com o pensamento? Não está claro.

Essa concepção implica uma redefinição radical da causalidade. Em O Segredo, a causa última dos acontecimentos não reside em fatores externos — econômicos, sociais, biológicos ou históricos — mas no domínio interno da mente e do sentimento. O indivíduo não é apenas responsável por suas escolhas morais ou comportamentais, mas por sua própria condição existencial. Prosperidade, pobreza, saúde e doença aparecem, nesse quadro, como efeitos diretos de estados mentais prolongados. A realidade objetiva perde sua autonomia ontológica e torna-se dependente da disposição subjetiva do observador.

Novamente, diz-se que o interior produz o exterior, mas não se diz claramente como isso acontece. Qual é o dispositivo da força de atração? Se a causa é interior, e a realidade do mundo é produzida por esta causa, de que modo isso acontece? Por enquanto as nossas quatro hipóteses de interpretação continuam igualmente viáveis. O que é dito, porém, sobre a realidade perder “autonomia ontológica”, parece desprezar o primeiro tipo de interpretação, mas ainda não é possível fazer esse descarte, porque autonomia poderia significar simplesmente impossibilidade de afetação, de modo que uma força suficiente poderia continuar modificando a realidade em alguma medida, mesmo que através somente de ações ordinárias.

A obra desenvolve essa visão por meio de uma ontologia implícita que pode ser descrita como um idealismo espiritualizado. O mundo não é negado em sua existência, mas é esvaziado de causalidade própria; ele passa a funcionar como um campo passivo de resposta às vibrações humanas. Ainda que Byrne recorra frequentemente a uma linguagem que evoca a física moderna — sobretudo a física quântica —, o uso desses conceitos é metafórico e retórico, não técnico. Termos como “energia”, “frequência” e “vibração” são empregados para conferir à tese uma aparência de cientificidade, embora permaneçam desvinculados de qualquer formulação rigorosa ou verificável nos termos das ciências naturais.

De acordo com essa interpretação do Chat GPT, a Lei da Atração não tem rigor suficiente para ser verificada na sua integridade, ou nem mesmo para avaliar o tipo de solução entre os quatro modelos de interpretação que sugeri. Não adianta afirmar que a causalidade é afetada de dentro para fora, se não for afirmado como isso se dá. Novamente: é pela ação ordinária? É por uma ação extraordinária? É pela geração totalmente dependente como reflexo monádico? É pela modificação do sentido da representação? Foi mencionado o uso de idéias ou termos da física quântica, o que é um procedimento típico da autoajuda contemporânea, temperada pela ideologia da Nova Era. Rigorosamente, porém, isto não significa nada se os termos não forem preenchidos com sentido de modo que saibamos o quê causa o quê e de que modo.

Do ponto de vista epistemológico, O Segredo propõe uma forma de conhecimento que não se fundamenta na observação empírica sistemática nem na argumentação lógica formal, mas na autoridade de testemunhos, exemplos de sucesso e narrativas inspiradoras. A verdade da Lei da Atração é afirmada menos como algo a ser demonstrado e mais como algo a ser reconhecido intuitivamente pelo leitor, a partir da promessa de transformação pessoal. O critério de validação não é a coerência teórica nem a correspondência com dados objetivos, mas a eficácia subjetiva: se o leitor acredita e aplica, a lei se tornaria verdadeira em sua própria vida.

Assim sendo, por qualquer meio que a Lei da Atração pudesse ser verdadeira, bastasse que alguém acreditasse nela e produzisse um efeito vinculado a esta causa, para que a sua veracidade fosse verificada. É um meio muito indevido de se checar a verdade de uma tese nas suas razões últimas, mas não de todo impraticável, até porque o poder da crença humana é muito forte, e a vontade de validar uma escolha prévia é capaz de racionalizar as interpretações que forem necessárias para verificar retroativamente a qualidade da tese acreditada. Em suma, por quaisquer meios escolhidos para se operar a tal Lei da Atração, a escolha de acreditar nessa verdade é capaz de ser forte o suficiente para criar as justificativas necessárias ao reconhecimento da sua validade. Mas, como já dito, infelizmente isso não ajuda a reconhecer uma verdade no seu âmbito próprio, ou seja, independente do nosso desejo. Por exemplo, quando falamos da Lei da Gravidade, isto significa algo mais que a Lei da Atração, mesmo que as causas últimas da gravitação ainda não estejam claras, pelo simples fato de que o efeito da Lei da Gravidade segue às suas alegadas causas quer queiramos, quer não queiramos. Isto é, porque um corpo pesado tende a cair independentemente de nossa crença na Lei da Gravidade, é mais propício chamar a esta de uma Lei, do que a Lei da Atração que depende de uma interpretação totalmente submetida ao capricho da vontade humana.

A dimensão prática do livro decorre diretamente dessa concepção. Byrne apresenta um método simples, estruturado em torno da formulação clara de desejos, da crença absoluta em sua realização e da disposição emocional de gratidão antecipada. Visualizações mentais, afirmações repetidas e exercícios de foco emocional são recomendados como meios de alinhar o indivíduo com a frequência desejada. A ação concreta no mundo não é negada, mas ocupa um lugar secundário; o elemento decisivo permanece sendo o estado interior. Agir sem alinhar pensamentos e sentimentos seria, segundo a lógica da obra, ineficaz ou até contraproducente.

Mas agir sem pensar e sentir, antes de ser ineficaz ou contraproducente, é na verdade impossível. Talvez o sentido da prática sugerida pela autora seja o de um reconhecimento dos estados interiores, de um processo de aumento da autoconsciência. Ou seja, não só pensar e sentir, mas assumir os pensamentos e sentimentos, e ter o seu controle. Se for isto, é claro que sempre produzirá efeitos positivos, inclusive na capacidade de modificar a ação eficaz no mundo, ou de melhorar a interpretação daquilo que é representado na experiência do mundo. Porém, isto não teria nada a ver com o alinhamento de estados interiores com vibrações energéticas, etc. É algo muito mais simples, menos arcano e misterioso: é a tomada de posse da consciência por si mesma, a capacidade de explorar a vida interior, assumir responsabilidades, etc. Isto tudo tem efeito por razões psicológicas e espirituais bem precisas, mas que a autora parece não reconhecer. Seguindo nesta linha, pareceria uma apelação para um caráter fetichista, idólatra e supersticioso do ser humano para fazer ter efeito um dispositivo que é psiquicamente ou espiritualmente menos exótico ou esotérico, isto é, o funcionamento regular da psique humana. Como se fosse necessário atribuir poderes mágicos misteriosos para fazer um ser humano simplesmente assumir um nível mínimo de autocontrole e autodomínio dos seus estados interiores, o que é algo um tanto patético, mas compreensível, se for este o caso.

As implicações éticas dessa visão são profundas e ambíguas. Por um lado, O Segredo promove uma ética da responsabilidade pessoal extrema, na qual o indivíduo é convidado a assumir controle total sobre sua vida interior e, por extensão, sobre seu destino. Essa perspectiva pode ser empoderadora para alguns leitores, ao estimular autoconfiança, disciplina mental e esperança. Por outro lado, ela introduz um risco moral significativo: ao atribuir todos os resultados da vida à vibração mental do sujeito, o livro tende a transformar o sofrimento em falha pessoal e a desconsiderar completamente as determinações estruturais que moldam a existência humana.

Finalmente gostei de uma interpretação do próprio Chat GPT, embora eu não tenha pedido por isso especificamente. De fato, sophrosyne ou enkrateia não farão mal a ninguém, se esta for a idéia consequente da aplicação da Lei da Atração. Porém, nós lidamos justamente com uma realidade que ultrapassa de muito o nosso poder de controle, tanto por indiferença e hostilidade da parte da Natureza, quanto por conflitos de interesses com relação ao restante da Humanidade. Como se lidar com tudo isto que não se sujeita à aplicação da Lei de Atração? Existe um ponto de equilíbrio? Existe um limite? Existe uma concórdia entre o sujeito, a natureza, e o próximo? Para mim é muito mais importante saber qual é a reação diante do Limite, seja ele experimentado da maneira que for, do que a ampliação da possibilidade atual de ação dentro do Limite, pois a nossa relação com o que transcende o Limite é justamente a nossa vida interior diante de Deus, na Presença. Neste sentido, independentemente da interpretação final que se daria para o que é a Lei da Atração, parece que a motivação para essa busca nunca é boa, porque é um novo tipo de Gnose, uma busca pelo Poder de modificar a realidade, ao invés de se relacionar com o Criador que tem o verdadeiro Poder sem limites. Estou mais interessado numa Lei de Comunhão ou Lei do Amor, do que na Lei da Atração. Afinal, se pelo efeito da Graça o meu bem próprio é provido pelo Amor divino de um Deus que ultrapassa todos os meus limites próprios, que outro Poder seria suficiente para alcançar esse nível de benefício?

Do ponto de vista filosófico mais rigoroso, essa posição aproxima-se de um subjetivismo radical, no qual a distinção entre mundo interno e mundo externo é dissolvida de maneira simplista. Diferentemente de tradições idealistas clássicas — como as de Kant, Fichte ou mesmo Berkeley —, O Segredo não enfrenta os problemas conceituais inerentes à relação entre consciência e realidade. A mente é simplesmente declarada causalmente soberana, sem mediações, limites ou condições. Não há espaço para a contingência, para o trágico, para o acaso ou para a alteridade do mundo.

Curiosa essa escolha de menções filosóficas da parte do Chat GPT. Parece que agora ele decidiu criar uma memória espontânea a respeito do que me interessa. Seja como for, meu problema não é a falta de espaço para tragédia nem acaso, e nem entendo que um subjetivismo radical seja algo indevido. A questão que fica é a do sentido maior dessa relação entre o sujeito e a representação, isto sim, como foi sugerido: “problemas conceituais inerentes à relação entre consciência e realidade”. Entendo que O Segredo não é uma obra filosófica, e nem psicológica. Não pretende explicar a realidade de fato, e nem entender como a psique opera a representação do real. O único propósito aparente desta obra é o de oferecer algum poder ao leitor, e fazer com que este se empolgue o suficiente nesta crença a ponto de justificar retroativamente a validade da Lei da Atração com qualquer interpretação que convenha para não se ter que rejeitar a sua hipótese. É como um jogo no qual a autora conta com a estupidez dos seus leitores para ter sucesso, bem ao modo de como este mundo costuma funcionar.

Em sua formulação final, a tese de Byrne implica uma concepção absoluta de livre-arbítrio mental. Se tudo aquilo que ocorre é resultado de pensamentos anteriores, então o fracasso, a doença e a perda tornam-se indícios de desalinhamento interior. Essa lógica pode gerar não apenas frustração, mas também culpa e negação da realidade concreta, sobretudo em contextos de sofrimento profundo. O livro não oferece instrumentos conceituais para lidar com essas situações; limita-se a reiterar que a correção do pensamento é sempre suficiente.

Isto não chega a ser um testemunho do Espírito do Terror, ou Pacto com o Inferno, mas também não possui nenhuma indicação do Dom da Paixão, que é o modo espiritual apropriado para se lidar com o sofrimento de qualquer natureza. Por outro lado, dá-se a impressão de alguma contabilidade cármica, se todo o sofrimento atual puder ser vinculado a uma vibração energética anterior, ou de dívida espiritual com o divino, como os amigos de Jó lhe sugeriam. O que é sempre uma crença em si mesma negativa. Mas não vale a pena querer se aprofundar nisto, pois ainda restam questões filosóficas e teológicas mais elementares como, por exemplo, o modo de efetividade mútua dos múltiplos seres humanos. Quem vence? Aquele que tem a vontade mais forte? Se não temos a solução disto, muito menos faz sentido nos preocuparmos com a origem dos sofrimentos atuais, pois nunca poderíamos determinar a origem definitiva da vibração que causou determinado efeito.

Assim, O Segredo pode ser compreendido como um produto típico da espiritualidade contemporânea de mercado: uma síntese de misticismo, psicologia popular e retórica científica, apresentada de forma acessível e altamente sedutora. Seu sucesso não se deve à robustez teórica de suas teses, mas à promessa de sentido, controle e esperança em um mundo marcado pela incerteza. Lido criticamente, o livro revela menos uma lei universal da realidade e mais um desejo cultural profundo: o de que o mundo seja, em última instância, obediente à vontade individual.

Eu não teria muito a acrescentar à conclusão do Chat GPT. Na falta de uma espiritualidade mais robusta –por culpa certamente da desmoralização e incompetência da Religião–, sobra espaço para esses produtos inferiores que enganam pessoas iludidas e sem rumo.

De modo geral parece que O Segredo é uma doutrina demoníaca que pretende trocar a Graça de Deus por uma Gnose que será descoberta e que nos permitirá salvarmo-nos a nós mesmos por reconhecermos que já somos como deuses, exatamente como a Serpente sugeriu para Adão e Eva no mito do Gênesis. Não há muita diferença entre isto e a iniciação dos satanistas da Thelema de Crowley, por exemplo. Por outro lado, a Revelação do Evangelho é que nós podemos nos tornar como deuses nos tornando filhos adotivos de Deus através da comunhão espiritual com Jesus Cristo, imitando sua humildade, mansidão e bondade. O caminho para o verdadeiro Poder é o Amor, porque essa é a essência divina. Em outros termos, como já escrevi antes num livro: a humildade é a chave do coração, o coração é a chave do amor, e o amor é a chave da vida.

Nota espiritual: 3,6 (Moriquendi)

Humildade/Presunção3
Presença/Idolatria4
Louvor/Sedução-Pacto com a Morte4
Paixão/Terror-Pacto com o Inferno5
Soberania/Gnosticismo5
Vigilância/Ingenuidade2
Discernimento/Psiquismo2
Nota final3,6