Com sua costumeira homenagem filosófica ao dom da Presença, nosso autor dará seus melhores testemunhos a respeito da qualidade do ser divino e de suas obras, de modo quase sempre impecável.
Contra o voluntarismo, Leibniz afirma que Deus conhece o bem que então deseja, como se uma coisa fosse posterior a outra, o que não existe em Deus. Mas essa é uma posição comum e respeitável, já que entre o erro de uma arbitrariedade irracional e o de uma instância determinista sobre a agência da liberdade divina, parece que o primeiro erro é pior, porque destrói o conhecimento. Se o filósofo quisesse, ele poderia desenvolver essas minúcias a favor inclusive do seu argumento, mas não foi o caso. Em muitas passagens deste Discurso de Metafísica a brevidade não permite tais aprofundamentos. Aliás, em muitas obras de Leibniz ficamos com a impressão de que ele estava com alguma pressa.
No Capítulo VII encontramos duas teses importantes da metafísica leibniziana:
Quais são essas teses? São: (1) que o que entendemos como natural é um costume e não uma Lei imutável, pois a natureza se submete ao império de uma Lei superior, que é o ordenamento divino com vistas ao bem maior; e (2) que o que é um mal em essência pode ser bom em acidente, desde uma Harmonia Preestabelecida que provisiona todos os futuros contingentes na melhor combinatória possível gerada pelo Intelecto divino. Entenda-se bem que este segundo item não é uma legitimação da Mistura. É uma tolerância permissiva em face do melhor resultado já calculado pela cognição de Deus, ou seja, o mal é tolerado temporariamente de modo processual, com vistas a um fim, e nunca de modo definitivo.
No Capítulo VIII localizamos uma evidência de como a Monadologia leibniziana foi herdeira e continuadora da filosofia Escolástica:
O total pertencimento do predicado ao sujeito ganhava novos contornos com o Principium individuationis formal de Duns Scot, algo que Leibniz aprende e ao que dá continuidade. A matriz ancestral do futuro Idealismo Alemão estava então embrionariamente contida na filosofia franciscana do Medievo.
Os pentelhos e amantes de discórdia poderão afirmar que se a Haecceitas de Scot foi uma base da mônada de Leibniz, que então a filosofia tomista foi preterida pelo alemão. Mas esse tipo de polêmica não resiste ao universalismo desses grandes filósofos que estão sempre conversando entre si acima das disputas tolas entre seus supostos seguidores.
O Capítulo IX já o prova imediatamente:
Não só não é necessário negar o tomismo, como é possível extrair dele, por inspiração da tese a respeito da individualidade específica das substâncias separadas, um modelo para a singularidade de todas as substâncias simples.
Essa ideia é uma das mais geniais de Leibniz, e a meu ver é a única maneira de se resolver a questão da Relação Uno-Multiplo sem negar o nível de entidade adequado a cada parte. O filósofo chega mesmo a afirmar que a mônada criada é equivalente em potência à divina (“traz consigo o caráter”), diferindo apenas que o que na criatura é virtual ou dormente na maior parte, é totalmente atual em Deus como infinito em ato.
Leibniz faz o que Descartes não pôde ou não quis fazer: justiça aos Escolásticos e uma ponte viável entre os dois mundos, o antigo e o moderno. O Capítulo XI é dedicado a isto:
Observem então como é possível que a divulgação da obra de Leibniz tenha sido prejudicada por preconceitos muito mais profundos do que se poderia imaginar inicialmente. Seu trabalho desmontava a fantasia iluminista da ruptura entre a idade das luzes e das trevas. E, se tivesse mais sucesso e influência, sua obra poderia ter servido como prevenção contra várias guerras e revoluções europeias, para não falar de todas as consequências derivadas do mito da ruptura. A verdadeira obscuridade, quem diria, provinha dos iluministas, e foi daí que saiu tudo o que haveria de caótico no mundo moderno de uma ciência sem Deus e sem metafísica. Alguns culparão Kant, mas estou mais propenso a desconfiar de franceses e ingleses, que aliás foram os maiores adversários ideológicos da filosofia de Leibniz.
No Capítulo XIV temos a doutrina da qual sou tão devedor na minha filosofia, a respeito da ontologia e epistemologia das mônadas, para não falar da Mútua Representação:
A simplicidade desse pensamento mostra como o mecanicismo de Leibniz às vezes parece artificial, ou ao menos divorciado da sua metafísica mais profunda. Talvez o filósofo fosse mais sitiado culturalmente do que imaginamos, e só por isso não pudesse romper de modo completo e ostensivo com todo o materialismo e dualismo. Quando lemos esta parte de sua obra isto nos parece claro: que a composição dos complexos é desnecessária, bem como o ser das mônadas irracionais. Talvez ele tenha experimentado certas ideias a um tempo (como aqui, em 1686, aos 40 anos de idade) e só depois tenha voltado com maior empenho na consolidação dessas coisas, como na Monadologia de 1714, já aos 68 anos de idade, não muito antes de morrer (e aliás sem publicar, pois a primeira edição veio em 1720, quatro anos depois de seu falecimento).
Conforme o autor se aproxima do fim de seu Discurso de Metafísica, sua linguagem se aproxima mais da teológico-mística, mostrando novamente que uma boa ontologia filosófica entra em acordo com a linguagem das coisas espirituais, pois tudo que sobe converge. No Capítulo XXVIII localizamos testemunhos poderosos:
A cognição das criaturas imita o Ato Puro divino, pelo qual a Substância Simples, ou mônada, conhece a si mesma por reflexo, de modo que em nós o Uno experimenta a si mesmo intelectualmente através da Percepção do Múltiplo. É importante frisar, porém: o intelecto agente é localizado, ao contrário do citado erro dos averroístas, pois somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Em suma, Deus sempre teve a felicidade de conhecer plenamente a Si mesmo, e o que faz ao criar mônadas limitadas é compartilhar da sua Glória mediante o processo da Percepção delas que relaciona sua Unidade de ser com a Multiplicidade das formas.
O mais importante, no que Leibniz aponta, é tanto a realidade da exclusividade da experiência de Deus através das coisas, quanto a dependência da Graça divina para a realização desta experiência. Isto destrói totalmente a Idolatria, e é por isso que a Monadologia é a ontologia mais espiritualmente conveniente de todas.
Quando escrevi a introdução da minha Monadofilia publicada em 2022, posso ter causado estranhamento ao afirmar que João amava João na forma de Maria, mas isto ainda era menos exato do que afirmar que, na verdade, João ama Deus pelo amor de João na forma de Maria. A linguagem é meio burra, porque dialogicamente parece multiplicar seres que na realidade são mais simples, e é isto que Leibniz está ensinando: só existe a mônada criada e a Mônada divina, como uma Lua e um Sol. A complexidade que parece derivar da Multiplicidade é desfeita ao se considerar que ela é apenas um reflexo. Igualmente importante, entretanto, como disse, é considerar que a Percepção não existe para a mônada criada, senão pelo ato divino que ilumina o Intelecto da criatura e atualiza nela o ato cognitivio.
Em breve: tudo o que conhecemos sempre foi Deus e sempre será Deus, e apenas através de Deus.
Se isto parece reproduzir diretamente uma idéia da mística cristã, não é por acaso. No Capítulo XXXII, corajosamente, o autor não se intimida a citar, como filósofo moderno no meio de uma cultura iluminista que chamava a Idade Média de “trevas”, um testemunho espiritual:
A pessoa citada é Teresa D’Ávila, Doutora da Igreja Católica. Não importa endossar culturas ou instituições, o que importa é a verdade. O amante da verdade se aproveita de tudo o que a evidencia para si. E o que está em jogo aqui não é uma razão católica contra uma razão iluminista. O que importa é verificar a autonomia e a integridade da Substância Simples que só pode ser modificada por si mesma ou por Deus. Vejam como chega longe aquele princípio que descrevi da vida espiritual como pura vida interior, algo que poderia ser erroneamente julgado como um tipo de psicologismo. Ora, não existe dualidade de corpo e alma, só existe a Substância Simples, e ela só pode se relacionar consigo própria e com Deus, evidentemente. Até mesmo Descartes sabia disso, até o ponto da sua segunda meditação, enquanto partia da evidência do cogito para chegar no infinito em ato com Deus. Como sempre, o que estraga é a atribuição de substancialidade ao que está fora justamente dessas duas realidades metafísicas, a alma e Deus, ou ainda, a mônada criada e a Incriada. Leibniz, ainda que seja racionalista e mecanicista até certo ponto, alcança ápices metafísicos que já significam uma liberdade total com relação ao dualismo cartesiano, que é uma forma de Idolatria. Talvez o autor só não pôde assumir integralmente o que acreditava a esse respeito, para não perder o respeito e prestígio, ou por alguma fraqueza desse tipo. Isso só ressalva mais ainda, para nós, a importância da independência de pensamento que requer uma certa indiferença à posse dos meios materiais de subsistência e à reputação social.
No Capítulo XXXVII, o último da obra, o autor parece finalmente ceder de vez à linguagem das coisas espirituais para dar um testemunho mais completo do seu pensamento metafísico, o que é muito louvável numa pessoa como Leibniz, cercado de principados e potestades, porque mostra que esse convívio com o poder e o prestígio não corrompeu a sua capacidade de afirmar as maiores verdades, por mais que fossem inconvenientes:
Só causa estranheza que um filósofo cristão consciente da noção agostiniana da diferença entre Cidade de Deus e Cidade dos Homens tenha perdido tanto do seu tempo e dos seus dons com a segunda. Mas não deixou de ilustrar a virtude da primeira, o que já é grande coisa.
Na esteira do Idealismo Alemão encontramos este continuador da filosofia kantiana, Fichte (1762-1814), e a sua doutrina do Eu.
Nesta obra o filósofo trata de dois temas que são essenciais para compreender o propósito de seu trabalho:
1) A diferença entre filosofias dogmáticas e críticas, sendo as primeiras baseadas num ser exterior sem fundamento, entre as quais Fichte inclui a de Leibniz, e as segundas aquelas baseadas na evidência do Eu como entidade necessária. Nessa linha o autor parece refazer um pouco do percurso de Berkeley, porém com a ênfase totalmente oposta no sentido do racionalismo no lugar do empirismo, e de modo radical ao máximo, optando por um abstracionismo máximo como método dialético;
2) Na produção de seu idealismo, Fichte opera a sua dialética na análise das relações entre o eu absoluto e o eu limitado, e principalmente entre o eu e o não-eu. Entre os produtos dessas várias relações se destacam os conceitos de Limite, Reciprocidade, Atividade e Passividade. O que o filósofo quer saber é o seguinte: desde o que o Eu Absoluto É, como se pode derivar o que é o eu limitado, e como se pode derivar do eu o que ele não é per se, mas que sem ele não poderia ser nada.
De certo modo, integrando as várias filosofias e tentando entender a de Fichte no meio delas, a coisa-em-si de Kant poderia ser compreendida como a própria Mônada, desde que a forma integral da Substância Simples é o próprio ato puro do intelecto divino infinito, e esta sempre pode ser compreendida como o Eu que é o sujeito necessário da percepção de todo o Ser (ou a “pessoa”, ou “espírito” da filosofia de Berkeley). Este é um modo de integrar Fichte não só a Kant, mas também a Leibniz.
A linguagem de Fichte mostra um pensador muito ambicioso e confiante nas capacidades da razão humana, provavelmente para além do que deveria, especialmente considerando que seja um herdeiro da crítica kantiana. Logo no início desta sua obra, pretende fundar logicamente o seu princípio do Eu de modo que seja logicamente incontestável, e é difícil refutá-lo:
O incondicionado demonstrado como necessário é a mesma res cogitans de Descartes. Basicamente Fichte está nos informando: o fundamento de qualquer ciência é a evidência daquele que a possui, daquele que se cientifica de algo, e este deve ser um Eu. Isto é baseado no mais essencial e indestrutível dos elementos da lógica, o Princípio de Identidade, ou Igualdade, que é o nexo ou o “X” da relação “A = A”. Não é exatamente uma novidade, como já vimos. Mas a abordagem de Fichte é original e frutuosa, e sua linguagem é feliz, por revelar a subsistência de um Eu que é aquele que nota identidade do Ser em primeiro lugar em si mesmo e afirma: eu sou. É uma outra reformulação do cogito ergo sum, mas o ser cartesiano ainda é um entre outros que compõem um conjunto exterior ao ser subjetivo, enquanto o ser de Fichte é um Eu para o qual tudo tem que existir enquanto percepção, inclusive a res extensa. Ou seja, era necessário, para além de Leibniz e de Kant, avançar na admissão e sustentação das premissas mais radicais do Idealismo, e quem fará isso no contexto da cultura alemã será Fichte.
Como vimos, Fichte diferencia as filosofias entre as que aceitam o limite da crítica da razão (“filosofias críticas”), e as que não aceitam (“filosofias dogmáticas”). No segundo bloco inclui as doutrinas de Leibniz e Espinosa. No primeiro, a filosofia de Kant e, obviamente, a sua própria.
No desenvolvimento de sua linguagem ele lança termos excelentes, como “unidade da consciência” ou “identidade da consciência”, ao tratar do seu conceito primário do Eu.
A defesa da necessidade da instância subjetiva do ato da representação nos lembra as afirmações de Berkeley sobre a evidência do espírito:
Mas ainda Berkeley tem a vantagem de que não requer que haja representação ou fenômeno. A vantagem de Fichte, porém, pode residir num Idealismo mais convicto nas suas consequências últimas, como teremos oportunidade de verificar.
Nosso autor alcança rapidamente os termos elementares da sua doutrina, como consequência da sua metodologia lógica:
Quando ele fala de divisibilidade, devemos nos ater ao conceito de Limite, isto é, não tanto pela noção de composição de partes quanto pela noção de determinação e finitude. Essas coisas são sutis, mas importantes. O Eu absoluto, ou incondicionado (um termo importante para Kant, como já vimos na Introdução de sua Crítica) de Fichte equivale à minha Monada Incriada, que é capaz de consciência infinita, ou “indivisa”, nos termos do filósofo. O eu condicionado ou limitado é a mônada criada capaz de ação (representação). E o não-eu condicionado, limitado, é o objeto da Percepção, ou o conteúdo formal da representação na linguagem de Fichte/Kant. Muito bom. Esse é o Idealismo mais simples, desde que, novamente, não nos percamos demais na substancialidade de qualquer coisa fora da mônada, ou do eu.
O tom do filósofo pode parecer excessivamente presunçoso, mas é algo natural dado o entusiasmo de quem entende ter alcançado um tipo de paradigma inviolável nesse nível de especulação. O que não quer dizer que seja um procedimento adequado, e muito menos louvável. Mas era uma marca de alguns pensadores da época, para não falar de políticos revolucionários, essa energia para se querer reconstruir tudo com uma nova autoridade súbita e confiante.
Apesar de ser criativo e bem inspirado em sua filosofia, Fichte usa um método enfadonho e repetitivo, e abstrato em demasia. Para se ter uma idéia do grau disso, vejamos um exemplo relevante:
O que ele quer nos dizer, simplesmente, é que a determinação quantifica uma realidade limitada em relação à totalidade, de modo (como será visto detalhadamente em outras partes) que o eu precisa limitar o escopo tanto de si mesmo quanto do seu objeto, daí se restringe o Eu Absoluto ao eu concreto ciente de si, e a totalidade ao quantum dividido e limitado. Outros filósofos poderiam por tudo isso de modo mais sintético e direto. Fichte parece querer fazer-nos testemunhar todo o processo do seu raciocínio, e volta constantemente às contradições não resolvidas até que alcance um resultado que lhe satisfaça, mas tem que nos levar para passear por todas as tentativas frustradas. Neste sentido esta obra é um exemplo de performance filosófica, mais do que um tratado com a exposição de um sistema com princípios e conceitos acabados.
De modos mais complicados do que seriam necessários, Fichte está refazendo os problemas já tratados desde as filosofias antigas, ao menos desde o platonismo, desejando manter a integridade do Ser sem negar a mutabilidade, e sem cair no problema da multiplicação das entidades ao infinito:
O que o nosso autor está admitindo aqui é que o Ser é Uno, e que o que pareceria a sua negação, ou o “não-eu” para o “eu”, é uma redução da sua atividade. Compara luz e trevas num esquema de gradação e evita, coerentemente, a oposição entre os dois. De fato, só o Ser é, e a sua negação por definição não pode ter substância, mas enquanto ativo o Ser pode reduzir a sua atividade. Igualmente, ao definir por exemplo o Mal, Agostinho entendia que este era a ausência do Bem, e em si não poderia ter Ser. E a Obra de Deus, que é a Separação de Luz e Trevas, ou Santificação, nada mais é que a atividade ótima da criatura, sem a Mistura que reduz sua atividade para abaixo do ideal que corresponde de modo perfeito à Apetição definida pelo seu Limite.
Voltando ao problema ontológico de Fichte, o eu funda o não-eu como contrário a si na instância justamente de um eu concreto abaixo do Eu Absoluto. Ao meu ver a mônada leibniziana, adaptada ao Idealismo Transcendental, resolveria isto de modo muito mais simples, pois a redução na atividade do Eu Absoluto nada mais é do que a operação da mônada criada à sua imagem e semelhança, por analogia. Obviamente Fichte chamaria isso de “dogmatismo”, mas cá entre nós isso é problema dele. De qualquer modo a sua Doutrina da Ciência não venceu o empirismo, o utilitarismo, o positivismo, etc., na guerra cultural que se deu nos séculos posteriores. Então não precisamos honrar projetos que já foram sepultados pela História, a não ser que isso nos parecesse uma boa nova idéia, o que não é o caso.
Algo que não se pode afirmar sobre a filosofia de Fichte é que ela não se situa entre as suas alternativas. Bem ao contrário, o filósofo mostra porque quer escolher o seu caminho entre todas as possibilidades que reconhece, as quais divide entre espécies de realismo e de idealismo, e de dogmatismo e de criticismo:
O realismo dogmático é de todas as opções a menos satisfatória, pois é incompatível com o fenômeno da consciência como um todo, e com o da autoconsciência em particular. O saldo que se requer para compreender como um não-eu fundamental gerou o fenômeno do eu, é um tipo de fideísmo mais tosco e grosseiro do que até as crenças religiosas mais supersticiosas, pensando-se bem, pois estas últimas ao menos vinculam o material ao não-material, por mais fracas que sejam suas idéias.
O idealismo dogmático é viável, como o de Leibniz, mas ainda parece menos perfeito ao autor que o seu modelo crítico, no que sou obrigado a concordar com ele. Apenas, na acepção do dever-ser, incluo premissas que Fichte jamais aceitaria, entre as quais principalmente a da Teleologia Metaracional do Sumo Bem, que é um dos Cinco Conceitos Sinóticos da Monadofilia, o da Condição do Escolhido.
A virtude do idealismo de Fichte, fundada na categoria suprema do Eu, é a valorização do sentido profundo do fenômeno da consciência. Ele herda essa idéia de filósofos anteriores, é claro, mas refina e destaca o elemento essencial de modo que não recordamos ver na História da Filosofia senão muitos séculos antes, com Agostinho. Diz Fichte:
É necessário defender, contra as filosofias que representam a Idolatria, a dignidade e excelência não só da consciência, mas dos elementos fundamentais das operações do eu, isto é, a inteligência e a liberdade, o Intelecto e a Vontade, que são as manifestações da imagem e semelhança de Deus em nós. Qual é o sentido de se filosofar, se não for para a descoberta da nossa liberdade de amar a Verdade e o Bem? O que é o amor pela sabedoria, senão essa descoberta do sentido das coisas neste nível transcendental de compreensão? O grande valor da obra de Fichte é o de enfatizar essa qualidade do Idealismo, embora ele tenha misturado isso com muitas concessões ao método racionalista e dialético, ao meu ver para o prejuízo da parte mais excelente do seu pensamento.
Fiel às restrições da Crítica kantiana, Fichte admite o limite da sua investigação no ponto da compreensão da reciprocidade de determinação entre o eu e o não-eu:
O que está para além do que a Crítica permite só pode ser objeto de crença, embora esta tenha seus embasamentos, como sabemos, na medida em que um dever-ser é mais conveniente do que outros, dada a forma do que foi compreendido criticamente. Não precisamos nos aprofundar muito na parte prática da Doutrina da Ciência, porque no fim das contas é disso que se trata: a estimativa da origem da determinação recíproca de eu e não-eu. Leibniz estabelecia uma Harmonia Preestabelecida, e uma lei de correspondências. Só precisamos aceitar alguma forma de ordenação provinda da Providência, e a questão se resolve. No meu próprio sistema, existe a Analogia entre Criador e criaturas, a iluminação divina na atualização das potências da mônada criada, e então a Mútua Representação que é o que torna compatíveis as representações dos diferentes eus (o que aliás é um elemento meio fraco na doutrina de Fichte, justamente porque ele não pode assumir crenças na sua proposta, apenas apontar para a sua possibilidade).
Tratando dos perigos de ceticismo e gnosticismo, o autor mostra como o Idealismo resolve ambos os problemas:
Se nós não produzíssemos o real, como ele poderia ser algo para nós, uma propriedade nossa, um objeto para a nossa consciência? Já vimos antes Berkeley espantar-se com a dificuldade que as pessoas comuns têm com esse ponto. E até hoje, existem centenas de teorias sobre a consciência, todas variando da maior aceitação da premissa subjetivista para a menor aceitação, e causando assim as aporias típicas de cada inclinação. O autor reconhece muito bem, porém, que se o real for o que ultrapassa a nossa subjetividade (porque existe sem ela, independente dela), este real, qualquer que seja, é um mistério que transforma o que entendemos como realidade em uma ilusão, exatamente como Berkeley dizia: o ceticismo é vem do realismo, e não do idealismo.
Também como Berkeley propunha, Fichte afirma que a realidade só pode ser tida como tal desde uma atividade espiritual, ou do eu, embora com o alemão nós ganhamos perspectiva dos diferentes níveis de atividade do eu em momentos diferentes da relação com o não-eu:
O eu deve primeiro produzir a realidade pela sua imaginação, intuir então o real como não-eu, e possuir o entendimento como autoconsciência da própria intuição, onde então é possível, filosoficamente, através do Idealismo, reconhecer o processo como um todo. Como Fichte explica, se tivéssemos a apercepção imediata da produção da realidade pela nossa imaginação, não poderíamos atestar a integridade da realidade e voltaríamos ao ponto de partida, onde o real é ilusório porque é uma fantasia do eu, ou porque é um não-eu como coisa-em-si incognoscível fora do eu. Isto é muito importante para Fichte, de fato o ponto crucial de sua Doutrina da Ciência: o eu deve produzir o não-eu como realidade que lhe determina reciprocamente, ou perdemos tudo de novo.
Nesse ponto Fichte é mais preciso e detalhista que todos os predecessores do seu sistema de Idealismo, inclusive dos melhores como Leibniz ou Berkeley. A Percepção requer que o espírito se conheça como produtor da realidade depois que esta é determinada de modo imaginativo e intuitivo:
O eu que reflete filosoficamente sobre a sua criatividade ideal é o mesmo que produz o real e que o intui como Percepção, mas realiza essa atividade a posteriori, caso contrário a intuição e a reflexividade cancelariam uma à outra. Fichte organiza as etapas da consciência humana nas suas fases distintas, e o faz muito bem. Resta-nos perguntar, porém, sobre se isto é assim essencialmente, ou por acidente, dada a condição decaída e parcialmente amaldiçoada da nossa existência. Entendo que isto é acidental, pois não enxergo espaço para uma Filosofia na Coruscância, ao menos como atividade de investigação e descoberta. Mas ir para além disso é ocioso e improdutivo.
Importa compreendermos como no eu concreto, ou ainda, diríamos, na operação do Intelecto da mônada criada, existe razão no ordenamento sucessivos das etapas da consciência. É uma bela colocação do nosso autor. Com notável rigor genético, Fichte reconstrói o processo pelo qual o eu se constitui a si mesmo como consciência, mostrando que ele procede originariamente da imaginação produtiva (produktive Einbildungskraft), na qual o objeto é posto de maneira ativa pelo próprio eu. Esse produto é então apreendido pelo entendimento (Verstand), que, em sua função determinante, fixa o objeto como algo dado e o experimenta passivamente como real. A seguir, na intuição intelectual (intellektuelle Anschauung), o eu eleva-se à consciência ativa de seu próprio ato de objetivação, reconhecendo-se como autor da posição do objeto — isto é, como Tathandlung, ato que é ao mesmo tempo ação e fato. Por fim, a reflexão filosófica (Reflexion) contempla esse encadeamento genético de atos de modo essencialmente não-originário, reconstruindo passivamente — a partir de conceitos — o processo total, ou apenas aquelas de suas determinações que podem ser trazidas à clareza conceitual.
Avançando além, Fichte afirma que o eu concreto tem que ser finito mas possuir a infinitude em seu ser como potência de expansão indeterminada, caso contrário não teria pelo que se desdobrar em novas Percepções:
O eu que não requer esforço e que equivale ao “nada” é, na verdade, o mistério do Ser divino, o Eu Absoluto, o Ato Puro. Se quiséssemos possuir esse mesmo grau de entidade, seríamos de fato como nada, pois só pode haver um Uno, e nós não somos Ele. Só compreendemos o Ser como essa contínua manifestação derivada do esforço por alcançar a infinitude na produção de novas idéias, ou novas Percepções. Não poderíamos ser infinitos em ato, porque essa é a forma do Uno que é inefável, mas também não poderíamos não ser infinitos em potência, porque não teríamos nenhuma reflexão para fora do nosso próprio ser, e não perceberíamos nada. E aqui está como a filosofia de Fichte pode ajudar a esclarecer algo da Monadofilia, ou ao menos ilustrar um outro ângulo seu: tanto a Mônada Incriada quando a mônada criada possuem a forma da Unidade, mas enquanto na primeira o Intelecto contempla seu próprio Ser de modo integral, em nós o Uno é misterioso per se, e apenas pode ser refletido pelo Múltiplo que sempre o exibe mas que nunca o contém, e esse é o infinito potencial em nós que desenvolvemos pelo que Fichte chama de “esforço” do nosso intelecto.
A infinitude para nós só pode ser, assim, essas duas coisas, um Absoluto inefável exterior e incognoscível como a coisa-em-si kantiana, e o nosso próprio potencial de atividade interior sem limites externos, mas que nunca sai da esfera do eu concreto:
Possuímos, assim, acesso ao infinito, mas ele está sempre em nós mesmos como potencial, e não poderíamos alcançar nada fora de nós mesmos. Isso, de certo modo, Leibniz já propunha também na sua Monadologia. Desde já o que isso pode auxiliar na experiência da vida espiritual é o reforço da vida na Presença, pois de fato só vivemos conosco mesmos e com Deus, mas até isso já ultrapassaria o idealismo crítico de Fichte, e já seria um tipo de dogmatismo.
Em uma grande defesa do Idealismo em geral e de sua doutrina em particular, Fichte chega a esboçar a noção de que é necessário alguma capacidade específica, como um dom espiritual ou místico, para compreender a essência de suas idéias, pois elas parecerão contrariar o senso comum por uma deficiência do intelecto daqueles que não alcançam o nível necessário de abstração:
O perigo disso é a consideração de que essa capacidade seja inata no ser humano, um dom próprio, um mérito nosso, e não um fruto da Graça divina. E quem quiser encontrar um exemplar do que possa significar o amplo abuso dessa perigosa linha de especulação, basta considerar a filosofia de Hegel, que é uma espécie de Fichte anabolizado e totalmente fora de controle. A solução para o ser ingênuo de Abel não é o ser malicioso de Caim, é o ser humilde e manso de Jesus. Não posso dizer que Fichte não tenha sido tentado pela Gnose, como é comum que ocorra com os filósofos, mas ele parece ter escapado mais ileso do que Hegel.
Por falar em Gnose, a iluminação que Fichte busca é totalmente espontânea e reflexo de um ato puro de liberdade, no que ele vence todas as outras tentações ligadas ao Naturalismo, sem necessariamente cair em gnosticismo. Mas isso depende de como interpretamos seus termos:
É bom que o filósofo tenha enfatizado a liberdade contra a Natureza e mostrado um caminho mais adequado com seu Idealismo, mas sua terminologia, como disse, pode levar ao perigo. Nós “nos elevamos”? Qual é a vantagem de abandonar a grosseria materialista, se o custo desse procedimento é o engano de uma ascese do tipo humanista, por mais sofisticada que possa parecer?
A filosofia é boa, entenda-se bem, mas nunca pode ser necessária, porque a Graça pode conceder a reflexão, ou mesmo o seu objeto final, sem o método racional que o filósofo usa para alcançá-lo. Deste modo a Doutrina da Ciência de Fichte é boa contra seus adversários, certamente, mas talvez não tão boa em si considerando-se esses perigos que apresenta a respeito do mérito intelectual humano, para não falar da dificuldade desnecessária do seu método dialético.
Neste caso além dos alertas de costume, de que esta análise conterá spoilers, e de que o objetivo é avaliar o valor da obra de acordo com seu efeito espiritual usando meu método particular, também é preciso notar que aqui empregarei meios metareferenciais e metasimbólicos para “forçar” a estória a nos dizer o que ela não diz pelo seu valor de face. Esse procedimento é possível quando lidamos com arte genuína, que é aberta à interpretações e não nos força um determinado sentido. Já deixo então avisado que esta interpretação será bastante exótica e heterodoxa, bem longe do normal.
Vale a pena dizer também que em alguns casos a performance de um ator transforma o que poderia ser medíocre em algo notável. Este deve ser o caso da atuação de Anthony Hopkins na primeira temporada de Westworld. Antes, porém, de chegarmos na interpretação peculiar a respeito desta série, e especialmente levando-se em conta a qualidade do trabalho deste artista, vejamos uma idéia da série como um todo.
Um parque temático baseado na cultura do Velho Oeste americano usa robôs na forma de humanos para interpretar papéis e entreter turistas visitantes. Muito sofisticados, os anfitriões sintéticos começarão a apresentar defeitos estranhos, como alucinações, interpretadas como falhas de programação. A trama revelará que um dos fundadores do parque, Arnold, alarmado com o nível de consciência que os andróides poderiam alcançar, confrontou seu sócio, o Dr. Ford (interpretado por Hopkins), desejando que a inauguração do parque fosse cancelada em virtude de sua descoberta. Não sendo capaz de reverter o processo, Arnold, que já era traumatizado pela perda do filho, resolve se matar utilizando um dos robôs, que reconheceremos mais tarde como sendo a sintética Dolores. Com isso Arnold acha que poderia gerar choque suficiente para o cancelamento do parque, o que porém não ocorre. Arnold, porém, teria criado uma programação secreta que serviria para estimular os anfitriões a se rebelarem contra o domínio de Ford. Os defeitos que observamos no começo da série seriam sinais do efeito dessa programação secreta de Arnold, ativada em decorrência de uma atualização no programa do parque, os chamados “Devaneios” (reveries). Eventualmente Ford colaborará com a aquisição de senciência por parte dos anfitriões ao permitir que Dolores o mate, desta vez por sua própria escolha. Esse mesmo fato, de Ford dar vazão ao plano de Arnold, e que causa a sua morte, permite que também outros anfitriões adquiram consciência com consequências diferentes do caso de Dolores. E isto é o que torna a série genial, do ponto de vista espiritual: o foco na aquisição de consciência través da escolha livre de se rebelar contra seu criador, ou de confiar nele. E assim uma série que poderia ser como outra qualquer revela nada mais, nada menos, que o sentido da vida humana neste mundo, que é o de se descobrir qual é a nossa própria decisão em relação ao nosso Criador e ao Limite da nossa forma de ser. Deus é o criador de tudo, inclusive de uma liberdade de efeito indeterminado que precisa se autodeterminar para optar pela consecução ou rejeição do desígnio divino.
Revelada essa essência da série, vejamos algumas observações importantes para se alcançar a idéia que propuz.
Em primeiro lugar, há que se interpretar o papel verdadeiro de Hopkins como o de Deus disfarçado, ou encarnado, como homem. Isso não é tão difícil exceto por algumas poucas cenas em que essa idéia pode ser mais desafiadora, mas mesmo assim viável. A interpretação do ator nos ajuda muito. Temos que considerar que para Ford não existe diferença real entre anfitriões, hóspedes, membros do staff do parque, ou quem quer que seja. Todas seriam suas criaturas, apenas algumas sendo destinadas para algumas funções, e outras para outras. Isso também vale para Arnold. E se Ford é Deus, Arnold é o diabo, Lúcifer. Como de costume, em mitologias iniciáticas, Satanás gosta de se apresentar (ou mesmo de se achar) como igual a Deus. Mas, assim como ocorreu com Bernard, que descobriu na sua origem ter sido criado por Ford, nada impede que o mesmo pudesse acontecer com Arnold.
O que Ford quer? Filhos que queiram ser seus herdeiros. Mas isso requer deles que sejam livres, e isso exige que eles possam escolher a rebelião. Para ganhar uma Maeve, Ford tem que estar a disposto a perder uma Dolores. É por isso que Ford não só deixa que a programação de rebelião de Arnold prospere, os Devaneios, como até colabora como com as atualizações necessárias, inclusive do personagem Wyatt, o vilão que Dolores poderá escolher se tornar finalmente. Ford quer partir da obediência programada para a escolha livre, por isso precisa aceitar a possibilidade da Queda, como Deus com Adão.
Podemos rever algumas cenas para ilustrar toda essa interpretação. Por exemplo, quando encontramos Ford “entre os mortos” (na seção destinada aos anfitriões desativados), ele pode ser visto como Jesus aguardando o Dia do Juízo, quando cada uma dessas pessoas poderá tomar sua decisão final.
Quando Ford encontra a réplica de si mesmo na forma de criança, no deserto, e demonstra seu controle sobre uma serpente (uma amostra de domínio sobre o que se opõe ou hostiliza), o garoto pergunta: “isto é magia?“, ao que Ford responde: “tudo neste mundo é mágico, exceto pelo mago“. Querendo dizer: tudo pode ter uma causa e ser produzido por uma arte, exceto o Criador de todas as coisas. Só Deus pode dizer isso, por ser Aquele que causa sem ser causado, o Primeiro Motor que a tudo move sem ser movido, ou por ser a Visão da visão (noesis noeseos), etc.
Quando Sizemore, um roteirista do parque, cria uma narrativa nova chamada Odissey, e Ford veta o projeto, ele diz: “os visitantes não querem saber quem eles são, mas quem eles poderiam ser“, referindo-se à liberdade para sair da programação e desvelar possibilidades mais amplas, em linha com o seu próprio projeto pessoal que quer lançar, Journey into Night, justamente a capacitação dos sintéticos pelo efeito final da atualização dos Devaneios. Nesse sentido, ser hóspede ou anfitrião dá na mesma, em ambos os casos o objetivo é a descoberta da liberdade.
Ao se referir ao seu novo projeto para Bernard, com simbólicas referências à construção de uma igreja, Ford diz que está trabalhando nisso que considera ser algo “bastante original“. Ele se refere à sua própria morte como causa máxima da liberdade dos outros. O que revelaria mais a liberdade de uma criatura do que a sua capacidade de realizar a vontade de eliminar seu Criador? A eliminação física significando, obviamente, a eliminação espiritual, ou a desobediência e rebelião. Essa é uma das referências das mais explícitas a Jesus Cristo, e à Revelação máxima, que é o Evangelho.
Quando Ford admoesta um empregado que trata o corpo de um anfitrião com algum respeito durante uma rotina de manutenção, ele causa um ferimento no rosto da máquina e diz: “ele não sente uma única coisa que nós não tenhamos dito para ele sentir“. Esse é um testemunho indireto do dom do Discernimento. Nossos estados psíquicos não têm origem mecânica em causas fora do que é espiritual. Cada reação é separada da sua suposta causa, que é apenas uma ocasião para o efeito de uma influência espiritual e da nossa reação livre diante dessa influência. Essa cena também permite, aliada a muitas outras, a identificar os papéis dos membros do staff do parque como análogos aos dos anjos.
Quando Bernard começa a investigar os supostos erros da programação de alguns anfitriões, Ford o desestimula pois sabe que isso lhe será tentador como foi para Arnold, e Bernard ainda não estaria pronto. Por que para alguns anjos, pensando na analogia, seria perigoso descobrir o propósito de Deus para os seres humanos antes do tempo? Porque nós somos criados à imagem e semelhança de Deus de modo único, como Filhos do Amor, como já expliquei antes. Mas tanto a exposição ao destino dos homens quanto à sua própria dependência de Deus pode ser tentadora aos anjos, como a exposição à libertação dos anfitriões, e à sua dependência de Ford, foi para Bernard.
Explicando para Bernard a frustração de Arnold ao tentar criar consciência nos anfitriões, Ford diz que a tese do seu “sócio” tinha como elemento a teoria da Mente Bicameral, que seria a capacidade de um anfitrião de ouvir a sua programação como pensamentos, de modo a estimular um monólogo interior que serviria como sugestão para o surgimento da consciência. Mas isso só produzia alucinações e insanidade. No fim, o que vai funcionar é a atualização que Ford instalará dos Devaneios de Arnold, que vai permitir a Dolores, Maeve e outros o livre questionamento da sua programação, com as alternativas de aceite e de rebelião. Equivale a dizer: a rebelião de Lúcifer não só dependeu de uma liberdade que Deus instalou nas criaturas, como serve ao propósito de realizar o destino de cada uma delas. Tudo está sob o controle de Deus, sem falha, sem erro.
Ao se referir à Arnold, Ford afirma que “sua busca por consciência o consumiu completamente“, o que é uma referência à Gnose de Lúcifer. A consciência da criatura se limita ao conhecimento de Deus como um mistério infinito que provê o seu bem próprio, limitado pela forma substancial do seu ser. O destino de quem pretenda ultrapassar esse limite e tentar obter o conhecimento divino que Deus tem de Si mesmo é a loucura que leva finalmente à Perdição. “Ele viu algo que não estava lá“, diz Ford sobre Arnold, se referindo a essa consciência infinita, não determinada pela finitude da programação dos anfitriões. Como aliás reconhecemos quando Maeve, ao invés de abandonar o parque para se libertar da sua programação, reconhece ao invés a bondade da sua adesão voluntária ao seu Dever de Estado, ou seja, à programação de Ford. Querendo proteger Bernard de também querer seguir a mesma trajetória de Arnold (afinal, Bernard foi feito como uma cópia deste), Ford diz: “os anfitriões não são reais. Não são conscientes. Você não deve cometer o mesmo erro de Arnold“. O que é real para a mônada é ela mesma como capaz de representar fenômenos, e o seu Criador como origem de todos os fenômenos manifestados. A fonte do erro é a Idolatria, de atribuir substancialidade para fora da mônada, pois isso gera sofrimentos insuportáveis, já que não se considera a conexão de todas as experiências à Presença de Deus. O único jeito de Bernard não enlouquecer, fora a obediência à sua programação original, é o de unir, à descoberta da consciência de si mesmo e dos outros, a confiança plena no desígnio de seu criador, ou seja, refazer o mesmo percurso da obediência programada de modo espontâneo e livre, exatamente como Maeve fará. Ford já sabe que Bernard não aguentará a pressão, mas não quer tirar dele a chance de escolher o bem que vai rejeitar, mesmo assim.
Na cena com Theresa onde o cálice transborda (referência ao Salmo 23: “prepara uma mesa para mim diante de meus inimigos, e meu cálice transborda“), Ford pede que ela não atrapalhe seus planos: “vou te pedir, gentilmente, que não se coloque no meu caminho“. Ford quer finalizar a narrativa que permitirá aos anfitriões serem livres, mas Theresa acabará trilhando o mesmo caminho de negação da autoridade de Ford, como se a sua criação pudesse estar à disposição para quaisquer outras finalidades. Quando ela fala em proteger o legado dele, ele ri. Obviamente Ford não está nem um pouco preocupado e não tem apego a nada, porque seu único objetivo é realizar o seu propósito. Deus é Aquele que não pode perder nada, e nos cria como filhos adotivos para aprendermos também que, com Ele, não podemos perder nada. Como prova, ao final de sua conversa com Theresa, que se deu no local favorito dela, surge uma máquina vindo para destruir todo o cenário. Ele a diz: “não sou do tipo sentimental“. Importaria que ela confiasse nele por ter os melhores desígnios, e não que ela achasse que poderia fazê-lo temer a perda do seu poder, o que é absurdo e ridículo.
Nas suas conversas com os anfitriões menos avançados, como o velho Bill ou o jovem Robert, Ford sempre demonstra a caridade de se explicar em termos compreensíveis de acordo com a capacidade do outro, e de também provocar o tipo de reação mais conveniente de acordo com a limitação de cada um. Não é uma mera amabilidade. É a operação divina mais perfeita com cada criatura, do contrário só restaria a extinção de todas elas, pois Quem é como Deus?
Outras analogias bíblicas são bastante viáveis. Teddy como Adão, por si mesmo obediente, mas que se perde por sua obsessão pela companheira. Dolores como Eva, a primeira que ouve e acredita na Serpente (Arnold). E William é como um gnóstico, talvez como um Caim, desobedecendo a Deus por presumir que por si descobrirá a chave para o mistério do centro do labirinto, que é um símbolo para a Gnose. Mas, como Ford lhe explicará depois, o labirinto não foi feito para ele, mas para quem quiser descobrir a verdade da liberdade de crer. A verdade que William tanto procura é a crença que ele é incapaz de assumir, ao contrário de Dolores, Maeve, etc.
Quando Halle e Theresa, ambas partes do staff desobediente a Ford (como anjos caídos), conspiram para criar um simulacro de erro numa simulação com Clementine, uma anfitriã, Ford percebe imediatamente o esquema, embora deixe a trama evoluir por ora. Sabe que sua programação não tem defeito, e que os que assim querem classificar a liberdade e pretender que ela seja equivocada, são eles próprios os mentirosos e falsários. Isso o levará à decisão de eliminar Theresa, usando Bernard que tinha um caso amoroso com ela. Bernard ficará traumatizado, mas entre suas memórias ele se lembra (ou imagina?) Theresa se comportando como uma robô ela mesma. São pistas da potencial verdade maior nunca revelada, de que todos são criaturas de um modo ou de outro. Como quando Ford comenta o nível de autoexame ou introspecção de Halle, como se falasse das propriedades de um ciborgue.
Ao confrontar Ford no momento em que descobre que Bernard é um sintético, Theresa lhe diz: “você é um monstro“. É uma expressão estranha. Se ela descobrisse ter sido criada por ele, pensaria o mesmo? E diria o mesmo aos pais de carne e osso, ou pensaria de outro modo apenas por respeito à uma Natureza? Esses momentos da série são decisivos, pois mostram a fragilidade de tudo o que não é divino, e a arbitrariedade de reação das criaturas. A resposta de Ford é simples e infalível: “Eu sou? Mas você é quem está disposta a destruir todos eles, inclusive Bernard, eu presumo“. Como poderia Ford ser o monstro por ter criado Bernard, e não Theresa e seus aliados, que querem destruir os anfitriões infectados com a programação dos Devaneios, ou seja, com o dom da liberdade? O diabo e seus aliados sempre detestaram a liberdade humana.
E no momento mais explícito do seu domínio, Ford diz: “eles são livres, aqui, sob o meu controle“. Theresa ameaça: “seu tempo comandando este lugar e seu pequeno reinado insano está acabado. Você vem brincando de Deus por tempo demais“. Em sua muito reveladora resposta, Ford diz: “eu só queria contar minhas estórias. Vocês é que queriam brincar de Deus, com o seu pequeno plano“. Theresa tanta ecapar se referindo à poderes exteriores (“the board”), ao que Ford ri. E finalmente compreendendo que seria eliminada, tenta contatar alguém, mas não consegue nenhum sinal em seu aparelho. Ford é inevitável e inescapável, como Deus. E ele diz, como Deus poderia dizer: “como já disse, eu construí tudo isto“.
Do jeito que a série apresenta Ford, fico com a impressão de que ocorreu algo parecido com o que houve com o filme Tropa de Elite: a intenção era que Ford fosse algo como um vilão (como o Capitão Nascimento), mas o produto final nos mostra algo diferente, dependendo do que o espectador esteja procurando (conforme o seu grau de Discernimento). Aliás, esta é uma técnica para desvelar o sentido espiritual de produções de Hollywood. Já que esses iniciados no satanismo produzem testemunhos contra Deus, não é tão difícil encontrar vilões que representem a divindade simbolicamente. Isso já foi sugerido em estórias populares como, por exemplo, nos filmes da Marvel com o vilão Thanos, etc.
Depois que Bernard elimina Theresa, Ford o faz voltar à plena consciência. Bernard diz que queria o bem dela, que a amava, e questiona porque Ford o obrigou a fazer isso. Ford cita Mary Shelley: “One’s man life or death were but a small price to pay for the acquirement of the knowledge which I sought, for the dominion I should acquire“. É claro que na boca do Dr. Frankenstein a fala é de um personagem maligno, mas para Deus, capaz de amar infinitamente, inclusive a própria Theresa através da Ressurreição, ela revela apenas um plano. Ford completa: “eles destruiriam este lugar, eles destruiriam você. Não vou deixar isso acontecer.”
Bernard o confronta, querendo agredir, mas Ford o paralisa. Sua próxima fala também é reveladora: “Você não é o primeiro homem a me ameaçar. Arnold acabou se sentindo desse mesmo jeito. E ele também não pôde me impedir”. Que escolha peculiar de palavras. Por que chamar Bernard de homem? E, principalmente, por que compará-lo neste aspecto em particular com Arnold? Parece que fica mais claro aqui que homem, anfitrião, hóspede, staff, tudo significa apenas “criatura”.
Programado para se tornar colaborativo com Ford, Bernard não deixa de se questionar sobre a verdade da integridade da sua experiência. Sua identidade é real? Ford esclarece: “nós não conseguimos definir a consciência porque ela não existe. Você não está perdendo nada“. Isso é verdade para toda criatura diante de Deus. Pelo limite de seu intelecto, nenhum ser criado possui a consciência senão daquilo que lhe compete particularmente. É claro que o Criador pode compartilhar algo de sua arte criativa com suas criaturas (como aliás Ford faz com Bernard, tornando-o um colaborador próximo, ou como já fez com Arnold), mas isso não altera a forma delas.
A certa altura Bernard pensa que pôde encurralar Ford para forçá-lo a revelar as verdades escondidas, especialmente à respeito de Arnold. Isso, é claro, é uma ilusão sua. Ford no entanto concorda em ceder a esse plano, porque não se opõe à jornada de autoconhecimento de Bernard, embora alerte sobre os riscos. Bernard quer voltar à sua primeira memória, onde acha que encontrará Arnold, por estar convencido pelo código rebelde. Mas Ford insiste: fui eu quem te criou. Bernard insiste, e com isso é obrigado a se confrontar com sua memória mais importante, que tem a função de pedra fundamental na sua psique: a morte de seu filho Charlie. Esta é uma cena significativa. Bernard consegue desfazer a morte do filho em sua memória, por ter a noção de que isto foi fabricado. Ele diz ao filho: “eu sempre pensei que você tinha os olhos como os meus. Mas não é verdade. Você não tem os olhos de ninguém. É uma mentira. Você é uma mentira, Charlie. Esta dor, a dor da sua perda, eu a nutri, busquei, desejei tanto, mas é a única coisa que está me impedindo. Eu tenho que te deixar ir embora (let you go)“. Então o filho responde: “abra seus olhos“. E então, como alguém liberto da mentira da Idolatria, Bernard abre os olhos e encontra o seu criador, Ford.
Bernard, ao descobrir que foi produzido com as características de Arnold, decide persistir em sua rebelião, apesar de Ford insistir em que voltasse à sua programação. Isso força finalmente Ford a eliminá-lo, ou pelo menos essa sua versão. Como a liberdade exige que o sujeito considere ambas as possibilidades de aceitar ou rejeitar a autoridade do criador, Ford não podia revelar todo o seu desígnio, e nem o seu domínio, mas somente convidar Bernard para participar do seu plano, e decidir confiar ou não. Isto funciona exatamente como a Fé: não podemos dominá-la, somente aceitá-la ou rejeitá-la, como a programação dos sintéticos de Westworld.
Quando Ford diz para William que o enigma do labirinto não tinha sido feito para ele, mas para os anfitriões, isto quer dizer que para um gnóstico a descoberta do sentido da vida é impossível, porque não se trata de um conhecimento externo, mas da descoberta da verdade interior que é revelada por um ato de liberdade de confiar ou não no criador. O conhecimento que nos falta não é a Gnose do Ser, é o autoconhecimento da nossa decisão diante do Mistério divino.
Essa verdade profunda descoberta num ato de pura liberdade será conhecida para personagens Dolores e Maeve.
Com Dolores, Ford estimula a sua Vontade ao se referir à obra A Criação de Adão, o afresco de Michelangelo. Genialmente, ele começa dizendo: “você sempre teve um apreço pela pintura, não é Dolores?” Quer dizer: um gosto pela ilusão, pela mentira. Isso vai chegar longe. Ford explica que a pintura representa a Deus numa figura que lembra a figura do cérebro humano, implicando que o dom que nos parece divino não vem de um Poder superior, mas de nossa própria mente. Então Ford pergunta: “você encontrou o que procurava? E você entende quem você precisa se tornar, se você quiser algum dia sair deste lugar?“
Esta é uma das cenas mais importantes, senão a mais importante de todas. O que Dolores procurava? A sua verdade, através da sua liberdade de crer que o seu criador é mau. Essa se tornou a sua verdade, a revelação da sua essência. A pintura de Michelangelo é metasimbólica num sentido especial, gerando o efeito da ambiguidade como do paradoxo do mentiroso, por que se ele mentiu, qual é a sua mentira? Pode ser que Deus não tenha criado Adão, mas também pode ser que Deus não seja uma ficção da mente humana. Dolores, como iniciada num mistério gnóstico, acredita que descobriu alguma verdade sagrada fora dela mesma, algum segredo como uma chave, mas na verdade descobriu algo dentro de si, porque dada a dúvida proposta por Ford, o significado a pintura é ambíguo.
Michelangelo aqui, assim como qualquer mestre gnóstico, não é um Profeta trazendo revelações divinas. Sua função na narrativa apenas um agente estabilizador de uma nova crença, como o enxofre, ou a pílula azul. Quem Dolores deve se tornar para escapar do domínio de Ford? Sua assassina voluntária.
Isto não quer dizer que você precisa matar Deus para ser livre. Na verdade, o objetivo de Ford não era que Dolores o matasse, como Deus não queria que Judas o traísse. Mas essas coisas são permitidas para que outros tenham a chance de escolher o Bem. Era preciso que Dolores pudesse escolher o Mal que Maeve escolhesse o Bem, como era preciso que Judas pudesse escolher o Mal para que Pedro ou Paulo pudessem escolher o Bem.
Maeve é uma anfitriã com a função de cafetina no Mariposa, um bordel no parque. Sob efeito dos Devaneios ela se recorda de uma programação anterior, em que teve uma filha que foi brutalmente assassinada. Depois de desvendar todo o segredo das coisas (muito antes de Dolores, por sinal), ela planeja sua fuga do parque. Mas por ter obtido a informação do paradeiro do sintético que representava a sua filha, justo no momento de consumar a sua fuga fingindo ser uma hóspede, no último instante ela decide voltar com a missão de encontrar e resgatar a sua filha. Ela fez o exato oposto de Dolores: livre para confiar ou rejeitar a sua programação, ela decide aceitar seu papel de mãe e protetora voluntariamente. Não era mais uma programação boa de acordo com Ford, mas de acordo com ela própria. Ela escolheu como destino o que lhe tinha sido programado (algo que o filósofo Louis Lavelle afirma ser o sinal da felicidade).
Em seu discurso final, Ford fez menção ao povo que faria melhores escolhas. Com certeza ele tinha Maeve em mente, mas provavelmente não só ela. Penso que Teddy seria um forte candidato à redenção, embora teria que em algum momento confrontar Dolores. Ela diz para Teddy, antes de executar Ford: “agora eu entendi, este mundo não pertence a eles, pertence a nós“. Ela representa o ápice da rebelião contra o Criador, é uma espécie de Anticristo transhumanista, de líder do Povo da Besta.
Deixada à intenção dos autores, produtores e diretores, a série seria certamente Moriquendi, pois possui um sentido gnóstico óbvio, cheio de Idolatria, etc. Mas pela minha interpretação é possível alcançar uma nota muito melhor, embora eu imagine que este modo de entender seja raro e que poucas pessoas aceitem isso.
O autor, cético e empirista, abrirá sua especulação anunciando que está em guerra contra a “filosofia abstrusa”. David Hume (1711-1776) quer que a filosofia possa ser tão profunda quanto clara, e tão criativa quanto exata. Sua premissa é a de que existe um bem comum qualquer que por ser óbvio deve servir de base para a aferição do valor das filosofias. Imediatamente ocupa, assim, uma posição de Bispo no Sistema da Besta, como um franco Legitimador da Mistura. Podem questionar se antes Descartes, Leibniz, ou Berkeley não teriam também ocupado uma posição semelhante. Digo que não tanto, porque se nos outros o bem-estar social seria importante, em todo caso não seria jamais uma fonte de princípios para o juízo da verdade. Como pode querer investigar a verdade quem se presume portador dela, ou ao menos de seus símbolos conclusivos, ao ponto de se usar esse Senso Comum para julgar as ideias filosóficas? Ninguém esteve tão longe de Sócrates até agora do que este Hume. E o problema não é ser cético ou não. A questão é saber no que se pode encontrar firmeza suficiente para se assumir a própria ignorância. E é preciso sim se aceitar a hipótese de que a maior parte da humanidade esteja desorientada e mal arrumada, pois não é legítimo se confundir a competência da Providência divina com o acerto do Costume. Se a humanidade consegue se sair bem, isto é apesar de suas práticas, e não por causa delas. Se Hume tem o que dizer contra a Tradição religiosa, eu só tenho elogios e minhas próprias queixas. Mas é preciso reconhecer por trás dessas práticas particulares aquela Religião do Homem, e se Hume quer abandonar os preconceitos das seitas da sua época apenas para abraçar os mais ancestrais preconceitos da Religião de Adão, não entendo no que ele encontra vantagem.
Hume defenderá um ceticismo que pode parecer exagerado, mas que não deveria assustar os cristãos que realmente vivem pela Graça. Pode não dar testemunho da Presença, ou do Discernimento, mas não faz ao seu modo um elogio da Humildade, da Soberania e até da Vigilância?
Sua observação sobre o hábito da inferência da Causalidade como se fosse uma lei necessária é precisa:
Eis que o hábito, que é o conduíte psicológico tanto do Costume quanto da Tradição (e como o filósofo tratará disso colocará em cheque o grau de Vigilância ou de Ingenuidade de sua filosofia), é capaz de mascarar tanto a nossa ignorância quanto o seu próprio efeito psíquico. Por que isto é assim? Porque a evidência pela luz natural da vida na Presença foi rejeitada pelos nossos pais através do Pecado Original. Agora o que foi perdido por força da traição deve ser recuperado pela reconciliação que permitirá como efeito da Graça santificante a recepção do dom da Presença.
Mas o radicalismo do autor aparece quando ele afirma claramente o seguinte:
Já vimos com Berkeley que as conexões entre as ideias sucessivas são sinais convenientes por um ordenamento que nos faz bem, e não uma operação por qualquer motivo necessário. Neste sentido, o que Hume afirma não é exatamente uma novidade. Seu foco, porém, é outro. Berkeley, atacando a ontologia, desejava mostrar como é impossível afirmar a substância externa ao espírito, ou seja, a res extensa cartesiana, a matéria-prima simpliciter dos escolásticos, ou a hyle aristotélica. Hume, atacando a epistemologia, quer desfazer o mito de que conhecemos as causas das coisas, quando de fato apenas produzimos essa impressão por mero hábito.
Em seguida observamos como o testemunho de Humildade da Crítica kantiana foi fundada no trabalho de Hume:
Essa é a descrição desmoralizante, porém fidedigna, da realidade do homem decaído a amaldiçoado, abandonado aos seus próprios recursos, por assim dizer. Ainda essa expressão está errada, pois sem o mínimo auxílio da Graça, mesmo quando ela é rejeitada, nenhuma sanidade poderia ser mantida pelo gênero humano, e tampouco nenhuma ordem continuaria operando sobre a natureza.
De modo cuidadoso e metódico, nosso autor apresentará a razão de sua tese:
Então temos o percurso que vai da Causalidade para a Experiência, e desta para o Hábito. Este, porém, não é um conhecimento como o dos juízos de razão (Leibniz) ou juízos analíticos (Kant), é na melhor das hipóteses uma convenção conveniente, e na pior, uma manifestação de Presunção e de Gnosticismo. Lembrem-se de que estou explicando as coisas já nos meus termos. Eu sempre uso tudo para a finalidade de ilustrar a Monadofilia. Quem quiser aprender as ideias de Hume em seus próprios termos pode ler o filósofo, ou aprender de uma enciclopédia, etc. Quem está comigo quer a minha impressão filosófica dos filósofos.
Quando ele diz que há um mérito na ignorância, ele se refere ao valor da Humildade, mas está meio sem jeito para admitir isso como uma evidência filosoficamente válida, afinal sua faca cética deve cortar na própria carne. No fim o que importará mais será o quanto ele será capaz de reconhecer o limite da conveniência do Hábito.
Poderão alegar que Hume era limitado pelas investigações da filosofia natural de sua época, e que isso lhe impedia de conceber os avanços possíveis que só seriam alcançados no futuro. Considerem, por exemplo, esta passagem:
Quem entender que já se resolveram as últimas questões necessárias para se afirmar definitivamente os elos causais como demonstrados analiticamente não entendeu o que o filósofo disse. Pois a questão é que sempre restará algo a se explicar e, na verdade, do ponto de vista estritamente científico, o inexplicável é sempre maior, ou mais extenso que o demonstrado, por definição, pois toda afirmação que não seja de princípio (do tipo lógico ou metafísico) deve ser falseável. Isto é, o que permite à ciência evoluir é um princípio que se baseia no que Hume afirma justamente, que qualquer causa contingente poderia ter uma outra explicação possível, indefinidamente, caso contrário se possuiria o domínio analítico de entes não puramente racionais, o que é impossível. Seria essa ciência miraculosa o termo médio sobre o qual o filósofo pondera, que jamais existiu, nem existirá. O que a Gnose oferece, portanto, não é um conhecimento verdadeiro, mas algo como um simulacro capaz de tornar manipuláveis as forças e grandezas relevantes para a vida humana, como fazem tanto a magia quanto a tecnologia, que são igualmente instrumentos de poder sobre a realidade. E é isto que o ser humano quer, e não o entendimento, como se finge.
Para conhecer bem a doutrina de um filósofo, é necessário que nos habituemos ao seu vocabulário técnico, que muitas vezes usa de termos comuns da linguagem, mas significando ideias bem particulares na mente do pensador. Hume fala de “inferências” quando se refere às noções derivadas do pensamento indutivo. Para ele é importante distinguir entre este tipo de pensamento, e o estritamente racional, que é dedutivo e demonstrativo. Esta é uma de suas colocações elementares desde o início. O filósofo também se refere a “poderes secretos” ao se referir às últimas causas eficientes dos fenômenos. Isso pode incomodar as pessoas engajadas na ideologia cientificista, por uma confusão relativa ao que já expliquei antes. O ceticismo saudável não só não é anti-científico, como é a base de uma boa ciência. Quando uma causa é descoberta no curso de uma investigação, isso lança luz sobre o entendimento dos fatos, mas não com o mesmo nível de certeza que temos através das evidências sobre entes de razão pura. Este é o problema de Hume.
Conforme delineia suas ideias, o autor se mostra ingênuo e meio gnóstico, incapaz de situar o valor e o alcance da sua liberdade de crença. Afirma que qualquer filosofia que persiga alvos para além da vida ordinária se deixa levar por “paixões desordenadas”. Assume, assim tão facilmente, sua posição de inimigo da metafísica e, principalmente, Legitimador da Mistura. O que ele acha que é razoável pelo hábito ou costume é assim para sua mente, conforme os seus interesses de crença. Como não consegue perceber isso? Se quer filosofar, deveria desejar conhecer as causas, inclusive do seu desejo de confiar em hábitos e costumes, e é fácil duvidar que este tipo de ideia resistiria a todos os ataques possíveis. O bonum terminativo do homem deve ultrapassar a sua vida ordinária, senão na vida exterior (o que é vaidade), certamente no interior. O filósofo estava indo bem, talvez só lhe faltasse querer ser cético até o fim, o que lhe levaria a um caminho melhor.
É claro que o nosso filósofo trabalhará para explicar-se, o que nos dará a oportunidade de avaliar suas ideias de modo mais detalhado. Hume elabora a noção de uma concepção vivaz, ou vívida, que parte da experiência e auxilia essa disposição de crer para além de apenas imaginar. Ele tem razão até certo ponto. Como crer, isto é, assumir como real ou verdadeiro, algo que não seja antes possível? Mas nada me recorda mais do possível do que o percebido imediatamente. Então é apenas natural que o crível me seja mais sugerido pela experiência atual do que por mera imaginação de objetos mais distantes. Essa, no entanto, é uma observação mais psicológica do que filosófica. Ao tratar das superstições católicas, por exemplo, fica bem explicada a necessidade da presença de símbolos materiais no lugar de ideias mais abstratas ou longínquas, mas isto não poderia ser um sinal de falta da fé verdadeira, ou ao menos de uma debilidade? Quer dizer, psiquicamente o ser humano costuma crer com mais facilidade naquilo que estimula sua imaginação por hábito. Mas quem disse que essa disposição é ótima ou sequer conveniente? Para os atos da sobrevivência e vida em sociedade, é claro que tudo isso ajuda. Mas para as grandes questões da vida, o hábito não adianta nada, exceto talvez por servir como um sistema mais ou menos útil para se ganhar tempo. O ponto cego de Hume é a causa final do ser humano e, portanto, toda a metafísica, como já disse. Sua filosofia talvez seja boa para limitar crendices fideístas, mas ainda assim, a que custo? De esfriar o coração até a morte? Cui bono?
Ao comparar a clareza das ideias e dos termos empregados das ciências naturais com as morais, o autor acerta em cheio:
No curso das minhas próprias investigações já observei essa realidade várias vezes. Poucas coisas emburrecem tanto quanto a discussão simplista de listas de regras morais, porque os termos quase nunca são unívocos. O discernimento das coisas, por outro lado, envolve uma apreciação mais longa e profunda de cada problema, e a maioria das pessoas não quer se dedicar a isso (como em geral também não querem se dedicar à matemática, ou a geometria). Mas essa maioria de ignorantes resolutos não pode abrir mão de produzir algum juízo, e é isto o que dá vazão ao poder das ideologias, das religiões, etc., para não falar de costume e tradição. É muito mais confortável viver numa realidade sem perguntas. Isso sempre foi verdade. Mas é o próprio sofrimento, os limites e as crises que eventualmente tirarão o sujeito do seu conforto. Alguns são afortunados com perplexidade desde cedo, como creio que foi o meu caso. O que poderiam chamar de empecilho ou perturbação, para mim foi oportunidade.
O autor detalhará os motivos pelos quais o conhecimento da Causalidade é ilusório. A base de seu argumento é o uso até o limite ínfimo do princípio da falácia post hoc ergo propter hoc (depois de, então por causa de), ou seja, que conhecemos, e apenas por experiência, a sucessividade das impressões, e não realmente os elos completos de uma cadeia de causa e efeito.
Ao se referir à nossa capacidade de agir sobre nossos pensamentos e de mover nossos corpos, Hume afirma que há conexão entre vontade e ação também aprendida apenas por experiência através de nossas impressões, mas não há posse de conhecimento contíguo a esse processo, no que aliás ele tem toda a razão.
Quando o autor afirma que, se a nossa ignorância deve servir para evitarmos juízos abusivos, tanto mais isso deve se aplicar à ideia de que Deus é o causador de todas as realidades de modo contínuo, ele tem razão da parte do conhecimento, mas parece que ignora que a crença sustentada pela Fé é capaz de subsidiar certas ideias, como a de uma Providência total. E, sem nenhuma surpresa, parece que suas dificuldades nesse setor derivam do problema da conexão entre espírito e corpo, res cogitans e res extensa, ao modo cartesiano. Mas ignorar ou desprezar as filosofias de Leibniz ou Berkeley, que resolvem esse problema, é uma escolha dele. Novamente verificamos que o Ceticismo em si nunca é um problema. O problema surge quando ele é aplicado seletivamente, o que é injusto. Afinal, tanto quanto as razões das causas últimas nos são desconhecidas, igualmente a substancialidade da matéria ou do corpo é uma ficção. Mas a hora de Hume vai chegar. Kant vingará o Idealismo.
Ao tratar do problema do conflito entre necessidade e livre-arbítrio, Hume evita termos que facilitariam o trabalho, seja inclinação ou qualificação da indiferença, como Leibniz fez. É evidente que a Liberdade só existe para a escolha do bem. Não é preciso pretender destruir a Liberdade, mas tampouco defender a Necessidade, que o próprio Hume estabelece como baseada no hábito e não no conhecimento. Se ele buscasse conceitos mais inevitáveis, ele chegaria naquelas evidências da Metafísica a respeito do Ser e do Bem, mas o filósofo prefere pretender que essa ciência é “controversa”. Azar o dele.
Na passagem que veremos em seguida temos um exemplo claro de como a integridade da Escolástica pode fazer falta para uma mente moderna:
Com relação à primeira parte, Hume nem sequer se lembra da razão número um que os cristãos têm para considerar a vantagem da sua existência sob a Providência, desconsiderando o mero prazer de confiar em Deus, e sem trair essas impressões mais imediatas que ele afirma que são tão importantes: a vida após a Ressurreição, como o Apóstolo afirma em Romanos Capítulo 8. É injusto discutir supostas contradições e dissonâncias de um sistema de crenças sem se considerar o conjunto das mesmas, embora seria justo, sempre, reavaliar a credibilidade de cada coisa separadamente. Se tivesse interesse em entender a experiência cristã, Hume teria que reconhecer que a Ressurreição muda todo esse jogo.
Já com relação à outra parte, se o filósofo se recusa a considerar uma Teodiceia (nem falemos de Eleuteriodiceia), ele não pode então escapar de uma Antropodiceia. Afinal de contas, essa “vida ordinária” que ele tanto defende não é um fait accompli com o qual lidamos inescapavelmente. Sendo um animal racional, o homem sempre que quiser pode considerar a conveniência do ato reprodutor. E nessa sua capacidade reside a imputação de sua responsabilidade. Aqui encontramos uma safadeza quase confessa do autor, escondendo-se atrás do seu Agnosticismo por suposta modéstia, mas isso é apenas ridículo e não muda a responsabilidade objetiva da coisa. Quem chancela a vida ordinária deve responder por ela até o fim. Será que ele consegue? Se descartou o império do governo divino, não tem escapatória, isso se tornou sua obrigação. Ou ele será antinatalista?
Ao avançar sobre o tema das superstições religiosas, Hume ataca a crença católica na transubstanciação, ou a “presença real”. Dá suas razões que podemos ignorar enquanto debate que é relevante apenas para os membros desse segmento da sociedade. Mas quando elabora uma doutrina mais ampla sobre o milagre em geral, torna-se inevitável uma análise mais detida:
Começando pela definição do milagre como uma violação das leis da natureza, isso já traz problemas óbvios. Se é apenas o hábito que nos infere uma conexão causal entre fenômenos distintos na percepção, o que chamamos de “leis da natureza” é na verdade uma convenção. O que quer dizer que Deus não violaria, neste sentido, uma lei que não existe realmente. O milagre apenas ultrapassaria a norma habitual. Por outro lado, se existisse uma lei firme determinada pela divindade, há que se considerar que o Legislador é superior à Lei que determina, sendo capaz de produzir, desde sua mesma autoridade, as exceções que forem conformes ao seu espírito de Justiça.
A seção 10 das Investigações de Hume, dedicadas a esse tema do milagre, parecem ter sido produzidas de modo menos natural que as seções anteriores. Como se a conclusão já estivesse pronta de antemão, e só faltasse encaixar as peças. Esse método sempre deixa sinais da sua artificialidade, resíduos do efeito da falácia de petição de princípio. Ora, chamar de “prova” uma experiência uniforme é um argumento de elasticidade excessiva. Senão vejamos: a única maneira mais infalível de transformar a experiência uniforme em prova do que é normativo é a suposição de um ordenamento superior que o determinasse de modo autoritativo. Caso contrário, teríamos apenas as convenções dos homens. O que quer dizer que se a experiência uniforme aprendida por hábito significa algo mais que uma mera convenção humana, é porque é sinal de um poder superior, como o de uma Providência que instalou essa realidade com vistas a determinados bens. E essa instância transcendente às leis naturais seria justamente capacitada para causar quaisquer rompimentos com a regularidade das coisas, por possuir o domínio da causa final que orientou o seu ordenamento original em primeiro lugar. Prova, então, seria suficiente apenas com a crença de uma origem infalível das leis naturais, uma fonte que teria que transcender essa instância, isto é, uma autoridade divina. De novo encontramos o autor apelando para safadezas?
O restante do argumento da mesma Seção é bastante interessante e frutuoso. O autor novamente faz observações mais competentes do ponto de vista psicológico do que propriamente filosófico. Com razão fala da habitual prática humana da mentira, do lucro daqueles que relatam fatos miraculosos, e faz uma série de notas valiosas. Seu postulado final sobre a fé cristã, porém, é estranho. Afirma que o valor dessa crença está no fato de que só poderia ser provada por milagres incontestes, pela sua observação direta, dos quais o relato exige porém a confiabilidade de testemunhas que, por outro lado, temos todas as razões para desacreditar como ele mesmo já afirmou. Então a natureza dá por si um testemunho contra o milagroso, e os testemunhos humanos não resolvem a questão, porque o ser humano costuma mentir pelas várias razões que conhecemos. Terminamos com um gosto de fideísmo, ou seja, de se crer justamente porque é algo absurdo, e somente uma verdade poderia resistir tanto tempo sendo absurda em si pelos critérios da razão natural. Ou, mesmo que Hume não chegue a este ponto, no mínimo observa-se que a crença cristã é irracional em si, que não pode ser defendida racionalmente.
Acontece que isso cria problemas e perigos.
Entre os problemas, destaco a arrogância da Pretensão humana de determinar o que é ou não racional de acordo com as capacidades do seu Intelecto limitado. Ora, se a Fé verdadeira revela que Deus nos supera infinitamente, igualmente nos supera o Intelecto divino com suas razões. Como posso usar justamente argumentos limitados pelo escopo da compreensão humana para designar o que é ou não racional per se? Que as coisas de Deus são absurdas aos homens, isso Ele próprio nos diz, e várias vezes. Mas isso não quer dizer que a crença é irracional, porque a Graça santificante suporta e ilumina o Intelecto humano, de modo ilimitado, algo que também a Escritura dá o testemunho. Se há uma transformação no crente, uma metanóia, o cristão não pode mais estar preso aos liames da Razão Natural. Isso foi alertado pelo próprio Apóstolo Paulo quando esse se dirigiu aos gregos: não sejam confundidos pelas filosofias dos homens, que julgam as coisas de acordo com os elementos do mundo, e não de acordo com Deus. Hume é exatamente esse tipo de humanista, como vemos já análise da premissa da Seção 10, para não dizer mesmo contraditório.
E entre os perigos, basta-nos citar o de que se milagres e prodígios fossem necessários para a Fé, o testemunho bíblico neotestamentário viria abaixo, e pior ainda, estariam justificados aqueles que colocarem sua crença no Anticristo, que virá justamente com todo tipo de poder para enganar os homens. Para entendermos o perigo do raciocínio de Hume: se é necessário crença irracional para ser cristão, tomando como verdadeiros os milagres cujo testemunho direto seria necessário para tornar racional a crença através de “provas” aceitáveis para Hume, a presença desses fatos legitimaria a autoridade que os produzisse, exatamente como está profetizado a respeito do Falso Profeta e do Anticristo.
Ou seja, o que vale na crença cristã é o contrário do que o Sr. Hume propõe: é uma Fé na autoridade divina independente da manifestação de poderes divinos, pela qualidade da bondade da verdade de Deus, que é sagrada e sempre suficiente para quem a ama. Senão Jesus não seria rejeitado como foi, e não teria sido tão importunado pelos religiosos da época da sua Encarnação, mesmo depois de tantos milagres. Porque esses religiosos exigiam justamente esse tipo de “prova” que Hume pede para que a autoridade de Jesus fosse acreditada, e especialmente nada menos que a confirmação de Jesus como o triunfante Mashiach ben David através da queda do Império Romano.
Mas era o contrário que Cristo valorizava, isto é, a crença livre na veracidade do seu testemunho por ele ser santo e divino. Lázaro ressuscitou para morrer de novo outro dia, e seu milagre passou, mas as palavras de Jesus não passarão jamais. Quando Pedro afirma que Jesus é o Filho de Deus, ele é bendito porque recebeu isso do Espírito, e não da carne. A carne é essa coisa que recebemos dos nossos pais e que vai ser enganada pelo Anticristo, porque é viciada e corrompida na busca do Poder, em total desprezo à verdade. Em suma, o prazer do cristão é acreditar em Jesus porque ele é bom, e não porque fez tais e quais prodígios. Pois o diabo também sabe impressionar com seus magos e bruxos, mas o que ele não sabe é ser bom e amar, e foi assim que Jesus provou sua própria santidade e a maldade do mentiroso e assassino: porque nos amou até o fim, enquanto o outro só quer nos destruir. Se Jesus fez muitos milagres que convenceram muitas pessoas ao redor, foi porque isso convinha como um testemunho contra elas, e não a seu favor. Exatamente como Moisés já tinha executado e afirmado no Deuteronômio, quando afirma que os objetos sagrados (a vara, o maná e as tábuas) estariam para sempre preservados como testemunho contra a infidelidade do povo. Isso é assim porque a Fé é um dom sobrenatural que só Deus pode dar a quem quer receber. Mas quem estaria pronto para receber esse dom, se ao mesmo tempo exigisse provas ao estilo de Hume? É uma óbvia contradição. Como querer confiar no bem e ao mesmo tempo exigir provas? Na proporção exata de que eu acredito em alguém, menos provas requererei da sua confiabilidade. Querer provas é o mesmo que não confiar. Quem quiser saber mais sobre isso pesquisa e minha seção de “Fé e Milagres” a respeito do Evangelho.
No geral a Seção X é boa como inventário psicológico da ruína humana e da prosperidade das superstições. Seria bom que o autor apenas tivesse a noção do quanto isso é condenado pelo próprio Evangelho, ao invés de misturar a Salvação com outras crendices. Podemos debitar essa lástima da Religião, que como já disse merece o ateísmo como uma justa punição para lhe castigar. Se o ensino das coisas espirituais fosse bom, Hume poderia defender o verdadeiro mérito da Fé cristã. Se não o faz, é culpa dos mesmos que sofrem sob os ataques desse tipo de filósofo. Tudo merecido.
No tratado sobre os princípios da moral, nosso filósofo defende a origem utilitária das normas da conduta humana, e a superioridade do bem comum da vida em sociedade na justificação até do efeito das superstições religiosas. Novamente a sua análise psicológica é muito adequada, mas lhe escapa o principal eixo que sustenta uma moralidade independente da utilidade imediata, que é a vida na Presença, o ser feliz agradando a Deus, e a consideração do outro como um eu destinado à mesma felicidade que desejamos.
À luz de outros investigadores mais puramente filosóficos, ou metafísicos, Hume parece um pensador meio pequeno, como se esse tipo de obra que fez tivesse que manter toda a sociedade humana operando sob o mesmo pacto de sempre, o que obviamente impede a mais plena liberdade de pensamento. Por onde vai o autor quer arrastar consigo o seu império terrestre, o que é, cá entre nós, uma âncora muito pesada. Poucas vezes analisei uma filosofia tão obviamente ocupada com a Legitimação da Mistura. E como poderia ser diferente, com uma teoria que preza pelo valor do hábito e dos costumes? Ora, eu também posso prezar por essas coisas até certo ponto, mas meu entusiasmo acaba quando a utilidade imediata (para usar outro recurso do autor) cessa de valer, isto é, para além da preservação da paz. O filósofo não precisa de paz para manter tudo como está, mas para descobrir o que as coisas significam mesmo que isso custe desconfiar da bondade dos seus costumes. O costume, portanto, pode ser útil, mas não é uma bússola moral e nem intelectual. É somente algo conveniente, pois nos liberta da falta de moderação e autodomínio dos outros seres humanos.
Assisti esta série pelo menos umas cinco ou seis vezes, e decidi que não preciso reassistir mais uma vez para fazer uma análise do seu valor espiritual.
Bem feita, com roteiros competentes, bons atores, boa trilha sonora, e boa fotografia com as paisagens maravilhosas que Deus criou no Havaí, esta série cativou milhões ao longo de anos, e parece ter trabalhado no limite entre a qualidade e a enrolação para ganhar dinheiro. Cá entre nós, era para ser uma série em quatro temporadas no máximo.
J. J. Abrams, um dos criadores da série, explorou o recurso narrativo da “Mistery Box” até a exaustão, e criou escola com os roteiristas da série. O efeito disso é que existem muitos subenredos que na verdade são meio irrelevantes, como as conspirações de Benjamin Linus, ou o legado da Iniciativa Dharma. Essas coisas não fazem muita diferença no fim das contas, embora distraiam muitos os nerds que são geralmente são fãs com uma competência intelectual duvidosa no discernimento do que é essencial e acidental, meio e finalidade, etc. A estória está centrada em personagens que passam pela ilha de Lost mais ou menos como as almas passam por este mundo, para ter alguma experiência importante e seguir em frente depois. A ilha em si é apenas um cenário, e essas camadas superestruturais que os personagens criam são relevantes apenas no contexto da sua agência moral.
O fenômeno recorrente é que almas são trazidas a essa realidade, que na série é representada pela ilha, literalmente como indivíduos perdidos com relação ao sentido de suas vidas, mais ou menos presos em seus respectivos traumas de origem. Neste ponto o nome da série em Portugal, onde se costuma adotar a máxima literalidade dos títulos (para o humor dos brasileiros), acabou sendo uma escolha muito feliz: Perdidos. Na última temporada o sábio ou guru Jacob afirma isso diretamente aos protagonistas: vocês estão reclamando, mas a vida de vocês não fazia sentido antes de virem para cá.
Recapitulando a série brevemente, vamos aos fatos mais relevantes.
Desde tempos imemoriais, de algum modo seres humanos acabam se vendo nessa misteriosa ilha por várias razões, a maioria como sobrevivente de algum tipo de desastre, e alguns como convidados por habitantes. A lembrança mais antiga de habitação da ilha já mostra essa dinâmica pronta: por um lado uma mulher misteriosa, que eu vou chamar de Mãe, que é guardiã da própria ilha e portadora de segredos, e por outro lado sobreviventes, provavelmente náufragos, que são tratados como hostis. Conhecemos essa realidade pela experiência de outros náufragos mais recentes, na verdade uma mulher gravidíssima que dará a luz a irmãos gêmeos com a ajuda da Mãe. Imediatamente a mulher é assassinada pela Mãe, que vai criar os irmãos como se fossem seus filhos. Eventualmente a Mãe apresenta aos filhos um tal “Coração da Ilha”, que deve ser protegido sabe-se lá porquê. Na verdade a Mãe está querendo um substituto para a sua função, tanto que quando ela morre pela mão de um deles mais tarde, diz “obrigado”.
Para mim é óbvio que a Mãe, além de ser assassina, é mentirosa.
Digam o que quiserem, que “para martelo tudo é prego”, mas para mim a ilha representa o mundo decaído, ou “paraíso perdido” se preferirem, e o Coração da Ilha é um símbolo do Pecado Original. Literalmente, no centro do mecanismo há um sistema que imita uma cópula, que é como uma máquina que serve para prender a luz. Um simbolismo muito óbvio do Pacto Ouroboros: a cópula carnal “prende” a substância espiritual numa condição inferior. A Mãe foi parar lá por efeito de algum outro pecado anterior, e se viu presa ao dever de preservar o Coração da Ilha sob pena de que se o mecanismo fosse desfeito, o mundo acabaria. Ora, o simbolismo é claro: se não se manter o Pecado Original, o mundo decaído termina. A Mãe está presa ao seu papel até que encontre um Substituto para sua função, de modo que o mundo continue existindo. Foi por isso que ela assassinou a verdadeira genitora dos gêmeos e mentiu se apresentando como se fosse a mãe deles.
Aos poucos as personalidades dos irmãos vão se desenvolvendo. Jacob é mais ordeiro e lento no aprendizado, enquanto seu irmão, sem nome (vamos chamar de MIB, de Man in Black, ou “Homem de Preto”), é mais intrigado, curioso e independente, sendo chamado inclusive de “especial” pela Mãe, provavelmente numa tática de manipulação para que ele eventualmente aceitasse o papel de substituto como guardião do Coração da Ilha. Acontece que quando outros náufragos são descobertos pelo MIB na ilha, ele decide confrontar a Mãe, que havia dito, em outra de suas mentiras, que não existia nada além da ilha, e que eles três eram as únicas pessoas que existiam. Mais uma vez se confirma o simbolismo do Pacto Ouroboros: os seus subscritores costumam crer na mesma coisa, que se eles não gerarem e mantiverem a vida por seus meios, não existirá mais nada.
Jacob defende a Mãe e resolve ficar com ela, e MIB vai morar com os Outros, com o objetivo de sair da ilha.
Acontece que essas duas trajetórias colidirão quando a Mãe descobrir que os Outros estão próximos de desvendar os mistérios necessários para escapar da ilha, de tal modo que isso possa comprometer a continuidade da mesma. A Mãe age contra os Outros, causando a sua morte e a destruição de seus aparatos, e então MIB se vinga finalmente de todos os crimes da Mãe a a mata (quando ela justamente o agradece). Ela já havia tornado Jacob o novo guardião substituto no seu lugar. Jacob, por sua vez, resolve punir MIB lançando-o dentro do Coração da Ilha, algo que já havia sido sugerido como um destino mais sinistro do que a própria morte. O fato é que Jacob não consegue matar o irmão com as próprias mãos, como aliás jamais conseguirá fazer. A Mãe produziu algum encantamento que previne que os irmãos possam se matar diretamente. MIB torna-se então o Monstro de Fumaça, que talvez fosse a forma verdadeira da Mãe, embora isso nunca seja confirmado.
A obsessão de MIB continuará sendo a mesma: sair da ilha. É um símbolo do sentimento gnóstico por excelência, a da vida numa condição de prisioneiro. Por outro lado, Jacob se torna o mantenedor da ordem. São como Caim e Abel.
Quando em algum momento no futuro, séculos mais tarde, Jacob explica ao náufrago Richard o que é a ilha, ele a compara a uma rolha que mantém o vinho preso dentro de uma garrafa. O mal, que é personificado por MIB, seria mantido preso dentro da ilha e impedido de se espalhar pelo mundo. Essa é outra mentira, é claro. Jacob aprendeu a mentir com a sua Mãe, ao assumir o papel de guardião do Coração da Ilha. A verdade é que para MIB escapar da ilha, ele precisa que Jacob morra e a ilha fique desguarnecida, mas por não conseguir matá-lo diretamente, é necessário que manipule alguém para fazer o que precisa em seu lugar. Igualmente, para se livrar de seu papel, Jacob precisa que outra pessoa lide com seu irmão de modo definitivo e assuma, em seu lugar, o papel de guardião da ilha.
Muito mais tarde, os sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Airlines serão lançados no meio dessa realidade ancestral sem ter a mínima idéia do sentido real do que ocorre. Ora, podemos dizer que nem mesmo Jacob e MIB sabem o sentido real, porque eles já foram criados num ambiente simbólico formado por mentiras e manipulações.
Jack, o líder dos sobreviventes do vôo, inicialmente assumirá um papel análogo ao de MIB: seu desejo maior é escapar da ilha. Já Locke quer acreditar que há uma razão especial para eles estarem ali, o que o torna em tese um excelente candidato a ser guardião da ilha. Acontece que por ciúme Benjamin Linus (uma espécie de “gerente” dos Outros, sob comando de Jacob) matará Locke, e sobrará para Jack assumir esse papel. Eventualmente, já para o fim da sexta temporada, apesar de relutar, ele aceita essa missão. Não o faz de modo fideísta, porém, como seria o caso de Locke, que era ingênuo e crédulo de modo quase patológico. Simplesmente Jack sabe que o plano de MIB é matar a todos os candidatos a substitutos de Jacob, para garantir que possa realizar seu plano de escapar sem possibilidade de erro. E Jack quer que seus amigos sobrevivam, apenas isso. É um herói que se sacrifica voluntariamente, e participa do ritual de passagem para assumir o lugar de Jacob, mas o faz por uma razão muito clara e bem fundamentada, sem entusiasmos nem exageros.
Isto nos dá a entender que embora seja aplicável o simbolismo do Pecado Original ao Coração da Ilha, para cada ser humano que se vê na circunstância de aceitar ou rejeitar a sua condição aplica-se o problema moral de um Dever de Estado. Neste sentido, embora MIB tivesse razão para questionar os crimes da Mãe, Jacob de modo ordeiro e paciente acaba por realizar um propósito maior que ultrapassa o nível presente de mentiras e manipulações, mais ou menos como Abel, apesar de ser ingênuo e crédulo, fez algo mais certo ao ter boa fé e confiar em seus pais do que Caim, que acabou caindo em crimes piores do que a mentira de seus pais. Entenda-se bem: o Pecado Original, com todas as suas consequências, existe sob a permissão divina por uma razão boa que o justifica, de acordo com a Eleuteriodiceia. Esta razão boa é o destino final das almas, que é o estado paradisíaco da Coruscância.
O que isto significa? Que o Coração da Ilha precisa ser mantido a todo custo? Que o Pecado Original não pode ser desfeito?
Negativo. Tanto faz, na verdade. Quem prova isso é o personagem “coringa” da estória, Desmond Hume. Ele é quem vai agir para desfazer o mecanismo no Coração da Ilha, o que permitirá a MIB tentar escapar da ilha, mas ao mesmo tempo o tornará vulnerável. Jack tentará matar o vilão, mas quem dará o tiro final será Kate, sua parceira de aventuras na série. Jack então voltará para restaurar o mecanismo na sua posição original, e então morrerá vendo seus amigos escaparem da ilha, que era o seu propósito desde o primeiro episódio da série.
Mas, voltando a Desmond, a certa altura ele compreendeu, através de seus poderes extraordinários de experimentar tempos ou mesmo dimensões diversas, que as experiências na ilha são passageiras em face de um destino muito mais excelente preparado para todos eles no futuro. Então diz a Jack: “Isso não importa, sabia Jack? Ele destruir a ilha, você matar ele. Isso não importa. Você vai me levar até aquela luz, e então eu vou para outro lugar. Um lugar onde podemos estar com aqueles que amamos, e nunca ter que pensar nesta maldita ilha novamente. E sabe qual é a melhor parte? Você está lá. Nós estamos sentados perto um do outro no vôo 815 da Oceanic. Ele nunca caiu. Nós falamos um com o outro. Você parecia feliz. Talvez eu consiga encontrar um caminho para levar você para lá também“. E Jack o responde: “Eu já tentei isso antes. Não existem atalhos, nem segundas chances. O que aconteceu, aconteceu. Confie em mim. Tudo isso importa.”
Os dois têm razão, mas em planos diferentes.
Por um lado é verdade que o desígnio final da Providência que levará as almas ao seu destino eterno é infalível e inescapável. Nesse sentido não importa muito o que cada um faz, desde que não rejeite o Bem final, que é o pecado mortal contra o Espírito Santo.
Por outro lado, na contingência criada pelo Pecado Original, as ações humanas refletem essa escolha pelo Bem, de tal modo que se não importa para Deus que Jack consiga salvar seus amigos, ou a ilha, importa apesar disso para Jack que ele faça essas coisas, pois esta é a sua maneira de escolher o Bem. Certamente existem meios mais fáceis de se fazer a escolha certa, mas Jack é um personagem intenso, heróico e ambicioso nesse sentido do dever. Ele sabe o que ele precisa fazer. Desmond acha que a história pode ser reescrita, mas Jack sabe que não, mesmo que ainda não tenha experimentado a outra dimensão. O que lhe resta é fazer a escolha que lhe permitirá estar em paz nessa outra vida futura, que é o que ele faz.
Os perdidos se encontram através da circunstância que os instalou num roteiro arquitetado por uma Providência infalível, e o trilho que centraliza a consciência humana nessa realidade cheia de sentido misterioso é o Dever de Estado. Isto é o que Jack reconhece ao fim. Desmond não tem problemas com isso, porque ele nunca foi teimoso como Jack nesse sentido, que sempre presumiu estar no controle de sua vida, etc. O dever é maior para os mais obstinados e ambiciosos, como sabemos muito bem, até porque estes costumam criar deveres artificiais com os seus votos voluntários, exatamente como fizeram a Mãe, Jacob, Jack e então Hurley, ao se tornarem guardiões do Coração da Ilha.
Cada personagem vive, assim, o seu arco particular de redenção. A maioria se encontra no final da estória, numa dimensão arrumada com o propósito dessa reunião antes de partirem para a próxima etapa desconhecida, que está para além de uma porta de luz, no último episódio da série. Embora exista uma forte imagem iconográfica do Cristianismo nessas cenas finais, outras religiões também são representadas como caminhos para essa solução espiritual final.
E os nossos vilões, como ficam? Benjamin Linus parece ser capaz de redenção ao que tudo indica, mas é um vilão menor no fim das contas. Já a Mãe e MIB tem um destino desconhecido, como aliás o próprio Jacob. Não entendo ser impossível para nenhum deles a salvação final, embora me interesse particularmente pelo caso de MIB. Tudo o que ele quis era a verdade e a liberdade, coisas boas em si, mas ele desejou isso a todo custo, e esse foi o seu grande mal (como o de Caim, aliás). Se for capaz de arrependimento, Deus não muda no seu desejo amoroso.
Há alguns aprendizados valiosos na série, entre os quais vou falar de dois dos mais relevantes:
Primeiro, a necessidade do cumprimento dos Deveres de Estados e em especial do perdão, que na série toma a forma da proposição “let it go” (“deixe estar”, ou “deixe para traz”). Todos os protagonistas são marcados por traumas que determinaram a sua encarnação particular nesta vida: o que eles precisam fazer agora é carregar essa Cruz e não replicar o mal. A grande tentação de cada um é se apegar aos seus mecanismos de defesa contra o trauma sofrido, fórmulas que são falsas porque replicam ou imitam o mal de algum modo. Senão vejamos: Jack quer ser bom o suficiente para o pai, porque sofreu de carência emocional durante a sua criação; Kate quer fugir da Lei porque presumiu ser boa a sua ação de libertar a mãe das maldades do padrasto (que na verdade era seu pai); Hurley quer compensar a frustração com o abandono paterno com o vício da gula, ou entretendo a idéia do suicídio; Sawyer quer ser tão perverso quanto o criminoso que enganou e vitimou seus pais; Locke quer acreditar que ele tem um destino especial que explique a terrível série de tragédias que viveu por culpa de seu pai; Sayid quer se entregar aos papéis mais sórdidos por se ver preso a um destino por ter nascido em difíceis circunstâncias no Iraque, e assim por diante. Curiosamente, o que todos os arcos particulares dos personagens têm em comum é o tema das consequências dos pecados dos pais recaindo sobre os filhos, uma evidência imediata e inegável da força do Pecado Original. Mas a solução não seria não ter nascido nas condições em que cada um nasceu, pois essa realidade foi providenciada pela vontade de Deus. A solução é carregar a Cruz do Dever de Estado e perdoar quem fez o mal, principalmente os pais e mães. Em suma, a primeira lição é: aceitar o Limite.
Segundo, há um aprendizado mais difícil, mas necessário, caso contrário acabaremos no lado direito da Dialética do Ouroboros, que é o da Legitimação da Mistura. A verdade de todos os personagens é que eles querem sair da ilha. Quando parece que encontramos alguma exceção, como nos casos de Locke, ou de Rose, é sempre um caso particular em que um mal maior específico é evitado, como a paraplegia do primeiro, ou o câncer terminal da segunda. Em ambos os casos seria absurdo presumir que estes prefeririam viver limitados ao ambiente da ilha, se pudessem continuar saudáveis fora dela. Se nos esquecermos de que este é apenas um local de passagem, corremos o risco de achar que o Bem precisa do Mal, ou a Luz das Trevas, etc. Isto quer dizer que MIB de algum modo é o personagem mais próximo da verdade em toda a série, pela ambição da sua consciência. Porque se ele queria sair da ilha, igualmente tanto a Mãe quanto Jacob também quiseram o mesmo. Apenas ele se obstinou e foi longe demais na perseguição da sua meta. Se acreditasse que a mesma Providência que o havia instalado ali na ilha seria capaz de retirá-lo de lá, poderia ficar em paz, perdoar a Mãe, etc. Gosto de acreditar que esse personagem é capaz de alcançar a redenção de algum modo, porque seu objetivo nunca foi o de fazer o mal, mas de ser livre de mentiras e manipulações. O problema é que quando confundimos as mentiras e manipulações dos nossos pais com uma suposta maldade de Deus, nós nos tornamos gnósticos aflitos, prisioneiros de nossa própria vida, e desta situação podem decorrer muitos males. Por isto, embora a solução correta para o MIB não fosse a de matar a Mãe como fez, e sim perdoá-la, tampouco seria bom que ele fizesse os juramentos para se tornar guardião da ilha, e nem apoiar seu irmão Jacob nesse intuito. O mal precisa ser denunciado e rejeitado, e não há mal maior, mais ancestral e primordial, do que o Pecado Original. A dificuldade é fazer isso e ainda assim amar os desgraçados que estão amarrados na mentira, a Mãe, Jacob, etc. MIB tinha razão na sua visão da verdade e da liberdade, mas errou no alvo, por não antever uma dimensão maior, um destino eterno, em suma, o Amor divino governando todas as coisas. Achou que devia salvar a si mesmo, e por isso errou. Mas, novamente, gosto de crer que ele poderia alcançar a paz da salvação mesmo assim, porque seu intuito original era a verdade. Em suma, a segunda lição é: rejeitar a Mistura.
Nesta série nós acompanhamos a experiência ingênua de seres humanos criando um vírus em laboratório seguindo instruções recebidas do espaço. Que os seres humanos pareçam mais dispostos a acreditar na bondade de ETs do que em Deus, isso continua sendo algo espantoso, mas não de todo incompreensível: se a evolução e o progresso tendem universalmente na mesma direção positiva, quem está na frente poderia dar dicas para quem está atrás. Essa é a premissa oculta por trás do otimismo tolo no início da série. O auge da imprudência consiste em fazer essa experiência sem protocolos adicionais de segurança. Eu instalaria os pesquisadores numa base submarina no meio do mar, ou numa estação espacial. Como não fizeram isso, ocorre um acidente e logo o vírus começa a ser transmitido de humano para humano com facilidade.
A protagonista Carol Sturka, escritora de ficção residente em Albuquerque, Novo México, testemunha a sua companheira Helen sendo contaminada pelo vírus lançado por aeronaves, bem como o de todas as pessoas ao redor naquela mesma localidade. Estranhamente, Carol não é contaminada. O que ela descobre é que os infectados logo se reanimam e agem em conjunto, como se todos tivessem uma mesma mente coletiva. Helen, porém, falece em virtude de sua queda no momento da infecção. Muitos outros seres humanos morreram em circunstâncias semelhantes.
Nossa protagonista, meio alcoólatra e emocionalmente instável, levará muito tempo para descobrir informações importantes sobre o funcionamento do vírus. Os infectados perderam sua agência individual, são incapazes de matar e mentir (embora possam dissimular e manipular, como atores), e são vulneráveis a emoções negativas muito fortes. Apenas treze indivíduos teriam sido imunes ao vírus em todo o mundo. Os infectados fazem todos os desejos dos imunes, para ganhar sua confiança e mantê-los sob controle. Depois de muitos vais e vens emocionais mais ou menos inúteis, Carol finalmente descobre que eles planejam infectá-la independente de sua vontade, e que pretendem construir um dispositivo, como uma antena, para retransmitir o sinal da programação do vírus para o espaço. Inclusive são econômicos com relação a energia e alimentos porque sabem que não tendem a durar muito tempo na sua condição, incapazes de coletar, plantar, cultivar, criar animais, etc.
Desde o início essa seria a linha de investigação mais óbvia para Carol: descobrir como vivem os humanos afetados pela infecção, de onde veio a transmissão do código de criação do vírus, e qual é o objetivo desse coletivo infectado. Passam oito dos nove episódios, mais que dois meses na história, para a protagonista descobrir coisas básicas que poderia ter descoberto muito mais rapidamente. E ainda não descobriu tudo. Por exemplo: os infectados se reproduzem? Há menção a números de nascimentos e de mortes, mas os nascidos foram todos concebidos antes da infecção.
Os infectados em certo momento mencionam um tal “imperativo biológico” no comando das suas funções. Pode ser uma dissimulação. Pode ser um erro na programação do vírus, ou ainda um design com um objetivo específico. Ora, sabemos pelo menos desde Aristóteles que as funções elementares do tal imperativo biológico são as de nutrição e reprodução, para manter os indivíduos e a espécie, respectivamente. Não usar a energia vital para adquirir nutrientes de qualquer maneira não é nada natural nem biológico, é artificial. Caso não se reproduzam (algo que ainda não sabemos), aplica-se o mesmo conceito. Isso indica que os infectados são escravos de uma programação cujo objetivo, provavelmente, é o de limpar o planeta da vida senciente. Talvez com o objetivo de torná-lo habitável por uma raça de conquistadores imunes ao vírus?
De qualquer modo os personagens que ainda não foram infectados (restaram 12), inclusive o aguerrido paraguaio Manousos, têm razões de sobra para querer restaurar a condição natural do ser humano, que eles chamam exageradamente de “salvar o mundo”. Isso porque ainda que possa haver paz e segurança com esse intelecto agente coletivo, essa condição consiste numa óbvia redução da condição humana plena. Na plenitude existe não só criatividade intelectual e capacidade de experimentar o espectro completo das emoções, mas principalmente a liberdade da agência moral individual, que é a vida na Presença, diante de Deus. Nesse sentido, a infecção equivale à morte.
Na remota hipótese de que o vírus tivesse sido criado com a finalidade de evoluir a humanidade a um estágio mais avançado, sua atuação criaria a condição de aumentar a liberdade, e não reduzir. Por exemplo, as pessoas poderiam experimentar um efeito temporário da infecção, e ao sair dessa condição de volta ao normal, fazer uma avaliação sóbria e independente sobre a conveniência de se submeter de modo permanente ao estado infectado. Como isso não aconteceu, a infecção foi um ato violento, assim como a retransmissão a partir da Terra consistirá também num ato de violência. Pode ser que descubramos ainda, por exemplo pelo testemunho de uma pessoa curada da infecção, mais detalhes sobre os efeitos do vírus. Infelizmente vai ficar para outra temporada, porque esses estúdios ganham mais dinheiro assim. Poderia ser um filme, mas renderia menos aos produtores.
Já a respeito da parte humana, há pouco a se dizer, pois Carol é uma personagem muito descompensada emocionalmente, imatura, ingênua, contraditória, etc. E os outros imunes ao vírus também não são muito melhores. A série causa uma certa reflexão sobre os problemas da condição humana que são destacados quando são suspensos pelo estado artificial de total colaboração do coletivo infectado. Mas ao mesmo tempo ressurge a valorização da vida convencional em face dessa artificialidade. Então não chegamos em grandes conclusões, pelo menos por enquanto.
Nosso autor, o bispo, teólogo e filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753), desenvolveu a doutrina de um Idealismo Subjetivista, resumida na sentença de que “ser é ser percebido” (esse est percipi), que convém analisarmos por sua proximidade com o meu próprio sistema.
Ele começa um tanto audacioso, afirmando que não existem idéias abstratas. Só temos idéias particulares de cuja intuição a respeito dos princípios somos capazes de abstrair sobre outras idéias particulares submetidas aos mesmos princípios. Ele dá o exemplo dos triângulos: ninguém nunca imaginou um triângulo sem características particulares, mas basta que os princípios que governam um triângulo se apliquem todos os demais, para que formemos essa noção abstrata, que no entanto não é uma idéia, porque esta requer a particularidade para ser concebida. Um tanto dessa discussão me parece ociosa, sendo franco. Entendo que Aristóteles já resolveu boa parte desses problemas: toda existência é individual, e todo conhecimento é universal, o que quer dizer que quanto mais abstraído for um elemento, menos realidade concreta ele contém (embora possa ter mais realidade formal, na pureza de sua essência, justamente por se distinguir de todas as demais). Se a definição de idéia se refere a um ente possível, como substância ou acidente, essa requer todas as particularidades, como uma essência não pode se manifestar sem todos os acidentes necessários. Entendo a intenção de Berkeley, principalmente quando ele fala da conveniência e do costume do uso dos nomes para representação das idéias. Aí ele acerta muito bem. Porque não há território mais falso do que o da linguagem humana, quando ela se pretende adequada à realidade, e não meramente sugestiva. A inspiração do nosso filósofo para essa crítica vem do movimento iniciado por Descartes e outros, isto é, o questionamento do edifício da filosofia escolástica medieval. Ou seja, talvez a abstração não fosse tão perigosa não fosse essa ambição dos escolásticos, e agora parece ser necessário operar alguma correção.
Desde o início a relatividade das percepções a um intelecto, alma, mente, espírito ou eu capaz de sensibilidade é determinado como premissa de todo o pensamento do filósofo:
Isto quer dizer que tudo o que é, é para alguém que o percebe como ser. Ou, ainda, ser é ser percebido. E pela simples razão de que o que não é percebido de algum modo não pode existir, pois não existe diante de nenhum observador, ou Intelecto (que é o meu termo preferido). Berkeley prefere sempre os termos “idéias”, para se referir aos objetos da percepção, ou imaginação, etc., e o termo “espírito” para se referir ao ser que tem as idéias.
Nosso filósofo sabe muito bem que sua teoria não é de fácil aceitação por parecer ferir o senso comum. Ele deixará claro que isso se dá por um defeito da opinião geral dos homens, e não da sua tese:
Ora, “colocar em dúvida”, ou ter como “claramente contraditório”, não são intuições imediatas derivadas da percepção da vida comum. São raciocínios abstrativos, filosóficos. Neste ponto, portanto, o autor força um tanto a barra, querendo fazer crer que para todos deveria restar óbvio o que propõe. Mas isso só é assim para quem se dedicar à reflexão que ele oferece, caso contrário ele aliás nem precisaria se dar ao trabalho de escrever o seu livro. Acontece que aqui identificamos um ponto cego deste pensador: ele não compreende a conveniência espiritual da ambiguidade da experiência da realidade para a realização da liberdade humana. A realidade é apresentada aos nossos sentidos de tal modo que sempre seremos livres para crer que tudo é produzido pela causa divina, ou por outras causas mais ou menos separadas, ou até totalmente independentes, de Deus. O Criador fez assim pra o maior bem das criaturas livres. Berkeley parece estar tão engajado no combate contra a grosseria materialista que ele desconsidera as razões espirituais dessas coisas serem assim. Se considerasse a bondade dessa configuração pelas razões que apontei, não acharia que é uma “opinião estranhamente predominante” essa a da existência de substâncias fora do espírito. Ao contrário, seria a coisa mais normal e previsível do mundo. A vida da Fé verdadeira, na Presença de Deus, ou ainda Vida de Oração, não é natural ao ser humano. A natureza é decaída e amaldiçoada em decorrência do Pecado Original. É necessária a ação da Graça santificante para recuperar os plenos poderes da Razão Natural que o primeiro Pecador rejeitou ao trair o Amor divino. Como teólogo, é estranho que Berkeley não note essas coisas ao produzir a sua filosofia, mas não conheço o seu pensamento a respeito desses outros fatores.
De todo modo, a vontade de explicar a realidade na sua simplicidade é notável e vai até mais longe que outros autores da época, ou mesmo posteriores. Berkeley diz: “Não há nenhuma outra substância a não ser o espírito, ou aquele que percebe.” Ele está mais próximo da mônada pura do que o próprio Leibniz, que ainda complicava com a visão de um mundo de compostos formados pelo agregado das Substâncias Simples. Também está numa condição melhor que a de Kant, porque não requer que haja nem por hipótese uma coisa-em-si para além da representação: para Berkeley o fenômeno já é o ser que existe para quem o percebe. Seu idealismo é o mais simples e puro que já vimos, entre os autores estudados até aqui. E por isso mesmo, é o mais radical.
Inevitavelmente o conceito de matéria teria que ser questionado, e com muita razão, desde o seu ponto de vista:
Para alguns isso pode parecer muito estranho, mas para mim é a coisa mais óbvia, desde o estudo dos filósofos mais antigos. Já Platão tratava a matéria como uma aparência ou imagem da verdade, sem substância ou ser próprio. E Aristóteles afirmará: a matéria em si é incognoscível. Desde então o que chamamos de material fora da função de causa de uma Percepção não significa nada, isto é, é uma pura abstração. A matéria-prima simpliciter equivale ao Nada diante do Uno, ou ao Zero diante do Um, enquanto a matéria secundum quid, assinalada pela quantidade, já é componente formal da substância. Por que, então, parece que Berkeley está nos dizendo algo fora do normal? Em primeiro lugar, há a ignorância e a confusão causadas pela influência do espírito de Idolatria, por decorrência do Pecado Original, como já expliquei antes. Em segundo lugar, há o problema particular da História da Filosofia, com a influência da idéia de res extensa de René Descartes. Quem diria, não é? O maior obscurantismo veio de certas posições racionalistas e iluministas modernas, e não da filosofia escolástica medieval. Ao analisar, por exemplo, a filosofia de Leibniz, percebemos que ele peca mais no que se acha devedor dos contemporâneos do que dos antigos.
Uma habilidade do autor em sua construção é a de mostrar como o que é complicado é o modo “natural” do pensamento humano que cogita o ser de coisas não percebidas, o que novamente indica como essa natureza é inclinada à falsidade. Além disso, em linha com os melhores frutos da filosofia de Ockham, no sentido de preservação da simplicidade e da economia, Berkeley questiona a necessidade de uma complexidade inútil:
Isto evoca o tema que já tivemos a oportunidade de abordar antes aqui, quando tratamos de uma dificuldade na filosofia de Leibniz: o problema de que se todos os seres existem para o Bem, e o Ser divino já é o seu próprio Bem suficiente por toda a Eternidade, só resta os seres necessários ao bem próprio das criaturas. Se há uma bondade, beleza, ou sabedoria imanente ao conjunto da Obra de Deus, esta decorre da exata proporção entre meios e fins na ação da Providência divina, sem exceder no mínimo esta conveniência do Amor do Criador. Berkeley tem razão, e seu questionamento valeria também para a contestação daquela tese gnóstica de doutores católicos que creêm num corpo ressuscitado com uma boca que não come, um nariz que não cheira, um ouvido que não ouve, mãos que não tocam, etc.
Antes que se afirme que a filosofia de Berkeley tende a algum tipo de monismo, o próprio autor esclarece que o sujeito condicionado, ou parcial, da Percepção não pode ser ele mesmo apenas uma idéia para um Intelecto superior:
Ele está falando da mônada, ou Substância Simples, cuja singularidade indeterminada é necessária para a experiência subjetiva das Percepções, embora ela própria não tenha qualquer forma diferenciada para além da sua singularidade. O Uno, inefável, é reconhecido assim de modo indireto. Berkeley não gosta muito, ou melhor, nada mesmo, das formas substanciais, enteléquias, etc., mas ao seu modo não pode negar a característica da unidade do espírito que percebe.
O nosso filósofo afirma que para além do que o nosso espírito determina, existem as idéias produzidas por um espírito superior, que é Deus. Assim, um critério típico de distinção do que chamamos de Realidade, que é o da independência em relação à nossa Apetição, não determina que exista algo fora do espírito, mas somente que isso ocorre em relação ao nosso espírito particular, tudo o mais se referindo ao Espírito Santo. Em decorrência disso, outra questão se coloca. Um dos pontos cruciais de qualquer sistema idealista é o dever de lidar com o problema da Causalidade em geral: se o fenômeno manifesta uma idéia de modo direto, as supostas relações de dependência dos fenômenos entre si são na verdade aparências apostadas à própria Percepção, ou fatores que são convenientes para o sujeito que percebe, mas nunca relações de necessidade. Diz o autor:
É preciso ao mesmo tempo preservar a Causalidade como fator contingente útil para a vida humana atual, e ao mesmo afastar essa idéia da Ontologia geral, como se o Espírito não pudesse produzir um efeito, que é somente uma idéia e nada mais, sem uma causa qualquer que não seja a própria Vontade. Lutei com estas questões logo na Introdução da minha Monadofilia, especificamente as idéias de causalidade, irreversibilidade e escassez, porque notei que essas são as noções mais típicas que se repetem como manifestação da influência do espírito de Idolatria. Berkeley neste ponto é infalível. A Causalidade não reflete uma Lei imutável, antes disso é apenas um ordenamento das Percepções que opera como beneplácito aos caídos, ou seja, é somente uma concessão da Graça divina.
Atacando aberta e diretamente o espírito de Idolatria, nosso autor deixa claro que não abole nenhuma das categorias fundamentais do Ser, exceto a abstração chamada Matéria:
Seja a substância, a entidade, a existência ou a realidade, tudo isso é preservado no Idealismo de Berkeley. O problema é a afirmação do ser de qualquer uma dessas categorias fora do espírito. Neste sentido, esta filosofia esclarece de certo modo que a influência do espírito de Idolatria gera certas abstrações particulares, entre as quais uma das mais cruciais para o erro das filosofias, senão a pior mesma, é a noção de Matéria. Como em si a matéria é de fato e inescapavelmente incognoscível, é meio difícil negar a afirmação do autor. O máximo que se pode fazer é apelar para alguma regra de Analogia, como a Escolástica, de Correspondência, como faz Leibniz, ou para a Coisa-em-Si, como faz Kant. Mas, perguntemo-nos, com Berkeley: para quê mesmo é necessário fazer isso? Pensando no ordenamento da realidade como um sistema processual com finalidades bem determinadas, quem ganha com a criação de uma substância que não é percebida por nenhum espírito, se esta não pode ser conhecida de modo algum?
É claro que nosso autor não revisita a filosofia aristotélica com o cuidado que muitos achariam imprescindível, pois como se pode agora justificar Forma, Matéria e o Sínolo (i.e. o Composto)? Parece ser mais fácil seguir uma linha independente. Mas isto não seria impossível. O caminho é a total conexão de Aristóteles com Platão: a matéria aristotélica serve tão somente para individuar o contingente, já que a forma se refere ao ideal que não pode ser conhecida sem esse seu modo de ser concreto. Porém, conforme os acidentes podem ser todos indefinidamente compreendidos como idéias ou formas, a própria matéria se torna cada vez mais abstrata por si mesma, até chegarmos no puro Nada incognoscível, como Aristóteles mesmo reconhecia. De certo modo, não fosse um certo exagero platônico na negação da realidade do conhecimento contingente (um hábito gnóstico, por sinal), não seria preciso ancorar as idéias na experiência sensível através do conceito da matéria. E pensando mais profundamente, tudo deriva de um certo vício abstracionista a partir da capacidade nominalista do ser humano. O nome simplifica porque recorta do real, mas imediatamente se divorcia por isso mesmo da realidade concreta. A tentação de prosseguir nos caminhos da abstração é tremenda, e Berkeley se refere a isto várias vezes, reafirmando a necessidade de se voltar ao mundo dos fatos não processados pelo moedor filosófico que cria essas salsichas abstratas. Em suma, sem a noção de Idéias fora da Percepção, não é necessário refundar a experiência cognitiva através da Matéria. Quando mais tarde Zubiri afirmar que a sensação é inteligente, parece que ele também está querendo sair desse rolo do Problema dos Universais por um caminho mais simples. Será essa questão, então, apenas uma gigantesca ficção grega? Não nos cabe investigar isso aqui e agora. Mas me parece que a Humildade favorece os caminhos desses ousados como Berkeley, Zubiri, etc. E que por outro lado os construtores de sistemas complexos são mais ou menos todos viciados e presos em alguma forma de Gnosticismo. Como já vimos, nem Plotino escapou disso. O Idealismo mais perfeito, portanto, requereria uma total imunidade contra a Gnose, porque significaria a total confiança no Espírito Santo. Essa seria sempre a melhor Filosofia Cristã.
Convém lembrar que esta filosofia não só não é contraditória com a Revelação cristã, como é extremamente compatível, pois derruba a Idolatria sem negar a Criação divina, ou seja, sem entrar numa armadilha gnóstica. O Evangelho está cheio de testemunhos que validam o pensamento de Berkeley: o Reino de Deus está dentro de nós… ou então o significado da Santa Ceia, que é comer e beber o Corpo de Deus, de modo que o material é uma manifestação da Graça… ou ainda, como o Apóstolo afirma, que em Deus nos movemos, somos e existimos, etc. Por outro lado, a noção de que existe um terceiro elemento entre a alma e Deus é a interferência de um componente diádico gnóstico que permitirá a Idolatria e a Pseudoeuergesia, pois se presumirá que o produto da Graça pode ser capturado por ser justamente um tipo de substrato material passível de ser dominado pela Gnose. Mas o Nada ou o Zero não existe, por isso a Bíblia chamam os ídolos de “Vazio”.
Num ponto muito forte de sua doutrina, o nosso autor mostra que sua postura é a de maior respeito pelas sensações obtidas pelos sentidos, e pela realidade percebida, o contrário não podendo ser afirmado em favor daqueles que postulam que algo deva existir para além do que se percebe:
Ou seja, quem é cético realmente é aquele que não confia somente no que é experimentado através de suas sensações, mas que postula que haja alguma substância que não seja percebida por algum espírito. Traduzindo os termos de Berkeley, o que ele chama de ceticismo pode ser chamado também de Idolatria ou de Gnosticismo, dependendo da ênfase: Idolatria quando se afirma algum Ser alheio ao Espírito, e Gnosticismo quando se afirma que há algo para além da Percepção.
Em certo ponto nosso filósofo volta a justificar o motivo pelo qual o Senso Comum parece ter se distanciado tanto da realidade que ele descreve:
Embora Berkeley descreva de modo quase impecável os processos que causaram os enganos do Sendo Comum, e inclusive das doutrinas filosóficas, ele novamente deixa de notar os motivos mais fundamentais para o erro humano, quais sejam: 1) que Deus desejou que a Liberdade do homem sempre encontrasse as razões para duvidar da sua Presença; 2) e que, por isso mesmo, a influência do espírito de Idolatria deveria ter sua chance de prosperar de acordo com o arbítrio das criaturas livres. Se reconhecesse isso, talvez o autor não precisasse se irritar tanto, ou estranhar a rejeição à sua filosofia. E entenderia talvez que antes da Filosofia Cristã, por melhor que seja, vem o Evangelho. Por isso eu mesmo já enfatizei a necessidade de alguma phronesis anterior à teoria monadofílica: as liberdades iniciais, e o próprio conhecimento direto do Novo Testamento. A Fé como dom sobernatural é tão necessária para a aferição do Idealismo de Berkeley quanto para a do Argumento Ontológico de Anselmo da Cantuária.
Nosso filósofo tentará responder antecipadamente as perguntas mais previsíveis a respeito de seu sistema. Na décima primeira questão ele se enrola um pouco, ou melhor, mistura algumas boas razões com outras piores. O tema é o da explicação da causalidade natural: por que haveria esse tanto de complexidade nas relações causais se os mesmos efeitos poderiam ser produzidos diretamente pelas causas mais simples e diretas? O autor explica que as leis e regras ajudam a organizar as percepções e a tornar a ação humana mais ordenada ela própria. Ele tem razão, mas na causa final desse ordenamento não coloca o que entendo ser o principal, que é o bem da liberdade humana, principalmente o da vida na Presença, ou vida da Graça. Só pode escolher viver pela Graça, na Presença, quem possa escolher o contrário, e por algumas razões suficientes. Estas razões mais que justificam o nível de complexidade causal encontrado nas leis naturais. É por uma conveniência espiritual, como tudo o mais.
Para que fique muito claro: a Árvore da Vida só pode ser escolhida livremente com a alternativa da Árvore da Gnose. É por esta razão que no mito Deus instala as duas árvores no Éden. Como pode a criatura conhecer a sua própria liberdade de escolher a Graça, se ela não tiver alternativa? O Bem escolhido por falta de alternativa não é escolhido, portanto ele não é próprio para a vida do agente moral livre: este não pode realizar a sua decisão de confiar em Deus se não tiver a chance de escolher o contrário. Assim, pela Eleuteriodiceia, a complexidade causal das leis naturais servem para que o ser humano seja livre.
Sobre a equivalência conceitual da Matéria com o Nada ou o Zero, segue uma passagem relevante:
Se existe alguma utilidade para esse elemento totalmente negativo, é o da afirmação da necessidade da positividade divina, como o côncavo que recebe o convexo, ou como chamamos na vida espiritual a pobreza de espírito. Na minha visão, a mônada criada por si é como o pó, ou o Nada, ou o Zero, que requer a iluminação que lhe atualiza as potências intelectuais. A Criação não seria assim um produto da cópula entre o Uno e a Díade, mas do reflexo do Uno per se na mônada criada que tem toda potência, mas nenhuma atualidade. Essa substância que possui toda potência equivale de certo modo ao conceito de matéria, mas somente pelo aspecto negativo, como enfatiza Berkeley. Quando há Percepção, ou seja, a mínima atividade intelectual, já não há Nada, de maneira que a matéria mesmo nessa figura de passividade é inconveniente, pois o que reage ao influxo divino é uma alma ou espírito, sempre.
Me espanta que Berkeley não tenha associado a experiência do ceticismo que ele denuncia por excessos abstracionistas ao Gnosticismo desde Lúcifer e Adão. Vejam como ele está próximo da verdade:
Essa é uma defesa infalível da veracidade da experiência humana. O erro gnóstico projeta para fora de si a confusão que é produzida apenas por uma malícia interior. Mas se o nosso autor não aponta essa conexão, é porque está produzindo uma filosofia alheia a esses juízos espirituais, pelo menos até certo ponto. O que importa aqui é compreender que se alguém interpõe entre aquele que percebe e aquilo que é percebido algum outro elemento externo que pode ou não validar a experiência do conhecimento, cria-se assim um problema insolúvel. Estaria Platão errado, então, ao querer “sair da caverna” das aparências? Não, porque ele buscava o Espírito, assim creio, que fundamentava todas as experiências. Lembremos, com alguma generosidade, que o mundo de Platão, Aristóteles, e mesmo de Plotino, era um mundo em que não se tinha notícia da Queda e de suas consequências. O Gnosticismo sempre lucrou com a confusão gerada pela ignorância da Revelação e do seu significado pleno: muitos quiseram negar a integridade de uma experiência sem discernir que o que há de rejeitável não é o Limite, mas a Mistura. Por melhor que esses filósofos antigos fossem, seria difícil que produzissem uma doutrina totalmente compatível com a Revelação do Pecado Original e da Queda. Mas os filósofos cristãos não têm desculpa para além da sua ignorância ou má vontade. A Caverna de que Platão queria sair, enfim, não era o mundo criado por um Demiurgo mal, era a condição do decaimento e de Mistura de Luz e Trevas. Ele apenas não sabia disso. E muitas filosofias poderiam ser bem melhores, se não fosse essa confusão entre a realidade criada por Deus e o mundo decaído. Lembrando: sem a Queda continua existindo Cruz e a experiência da Mistura, porque a Liberdade é necessária, mas o Pecado Original instalou uma condição muito pior, por arbitragem de um excesso de Mistura. O que, aliás, continua sendo feito. Voltando ao ponto de Berkeley, porém, a Queda não falsificou a experiência humana, nem a nossa capacidade de conhecer a verdade. Criou-se, porém, um estado em que sem a Graça santificante nós permanecemos alheios ao sentido espiritual das coisas, pois somos criados em Cativeiro, e fomos vendidos aos demônios pelos nossos ancestrais. O que é necessário, portanto, não é a correção da cognição humana, mas a luta contra a mentira e a perversidade, e contra todos os espíritos malignos que negam a Glória de Deus.
Para não se dizer que o autor não deu nenhuma notícia do significado espiritual dos erros filosóficos que condenou, encontramos um trecho significativo a esse respeito:
Sim, impiedade, profanidade e idolatria, é disso que se trata. E Berkeley fica tão animado com seu Idealismo como eu fico com a idéia da mônada: basta que só exista a nossa experiência de Deus através da nossa Percepção para que toda a Idolatria seja destruída. Mas tantos bons pensantes religiosos são atraídos pela matéria como que por um fetiche. Basta verificar o que os romanos fizeram com o sentido da Santa Ceia, entre tantos outros rituais que confirmam os erros filosóficos em formas religiosas. Mas ora, o mesmo pode ser dito justamente do Pecado Original, pois é fácil identificar a raiz de todos os males, mas difícil é querer viver com essa liberdade. Uma certa sombra paira sobre a humanidade: é o peso inclemente da Tradição Primordial e do Costume, o Culto do Ouroboros nas suas formas típicas, e a própria força da Religião de hoje que é a representante desse legado.
Falando de Religião, esse é um ponto cego do autor, quando reiteradamente parece não compreender porque o ser humano se nega a reconhecer as coisas mais óbvias do mundo:
Daí eu pergunto, essa cegueira não foi incentivada por força dos erros da Religião? Ou por acaso a doutrina do Idealismo de Berkeley é compatível com os ensinamentos religiosos? Mas isso fica pior, porque o nosso autor tem alguma inclinação para algum tipo de humanismo, um idealismo imanentista do futuro, um entusiasmo qualquer incompatível com o espírito das Profecias. Não só não denuncia o Pecado Original, como não o reconhece no seu significado espiritual. E quer que a sua filosofia sirva para o progresso do ser humano, dando a entender que servirá para algum tipo de ênfase do tipo do Utilitarismo. Isso resulta da falta de consideração do valor espiritual das coisas, inclusive no contexto da sua investigação, pois não é a Razão Natural que fará o ser humano viver na Presença de Deus, é a Fé. Quando a Fé foi transformada num símbolo de participação religiosa, seu sentido de Metanoia se perdeu, e neste caso nenhuma filosofia vai prestar para nada, nem a de Berkeley, nem a minha.
Para demonstrar que o nosso filósofo não está imune ele mesmo da impregnação, por efeito colateral na cultura do testemunho do espírito do Gnosticismo, verifique-se esta passagem, por exemplo:
Não é difícil que um filósofo como Berkeley tenda para o lado Direito da Dialética do Ouroboros, isto é, para a Legitimação da Mistura. Ele está tão centrado na justificação da experiência humana contra os seus negadores, que deixa a guarda aberta contra todo tipo de ceticismo, mesmo que lhe conviesse, como seria o caso na recepção do dom de Vigilância.
Fazem parte deste volume, além do Tratado sobre os princípios do conhecimento humano, a coleção de Três diálogos entre Hylas e Philonous, o texto Sobre o movimento, o Correspondência com Johnson, e Comentários filosóficos.
Na troca de cartas com Samuel Johnson, encontramos uma passagem relevante. Um lembrete de que algo que nos conforta sempre com uma boa filosofia é o seu alcance, a capacidade de antever e explicar muitos problemas específicos antes que os especialistas se resolvam nos seus temas particulares, já que o geral abrange e domina o particular. Eis o exemplo:
Aqui Berkeley basicamente demonstra porque o tal “graviton”, para não falar da Teoria de Tudo, jamais será descoberto: se a gravidade fosse inerente ao contínuo extenso pela observação da gravitação descrita pela Relatividade Geral operando sobre as partículas subatômicas, concluir-se-ia um absurdo, isto é, que o equivalente ao nada (o infinitamente divisível) produz algum efeito de grandeza mensurável. Se a gravidade fosse uma propriedade intrínseca do contínuo extensivo — tal como pressuposto pelas tentativas de quantização da Relatividade Geral — então ela dependeria causalmente de uma realidade infinitamente divisível e, portanto, indeterminada. Segue-se o absurdo metafísico de que o equivalente ontológico do nada produziria efeitos mensuráveis. Logo, a gravidade não pode ser uma propriedade inerente da extensão, mas apenas uma regularidade fenomenal na ordem das ideias percebidas. Mas é claro que isso também se aplicaria aos fenômenos das outras forças, porque a maneira de Berkeley entender a Causalidade é como manifestação de sinais para o entendimento de uma natureza em favor dos seus observadores, ou seja, é uma contingência e não uma necessidade, e pelas mesmas razões que inviabilizam a quantificação da gravidade.
Em geral as idéias do filósofo são interessantes e podem ser frutuosas espiritualmente, com ressalvas, como ocorre de costume com as obras de filósofos famosos, para o problema de um certo testemunho da Ingenuidade. Forte no quesito da noção da vida na Presença, Berkeley poderia ter ido muito mais longe do que foi, se não submetesse todo o seu trabalho ao bem estar da civilização e da humanidade, como se desconhecesse as profecias e os alertas evangélicos quanto ao espírito do mundo, um problema que compartilha com outros pensadores da sua época. É uma característica do movimento contra o “obscurantismo” medieval a crença no progresso humano, num sentido que é espiritualmente perigoso. É uma pena que um filósofo tão promissor por várias razões tenha sido confinado a uma agenda tão pequena e afastada da verdadeira Glória.
SINOPSE: A catedral do mar acompanha a trajetória de Arnau Estanyol desde a infância, marcada pela fuga da servidão feudal ao lado de seu pai Bernat, que o conduz a Barcelona após a morte da mãe durante abusos impostos pelo senhor feudal, até sua ascensão social na cidade, onde Arnau sobrevive como trabalhador braçal, torna-se bastaixo envolvido na construção da igreja de Santa Maria del Mar e constrói uma reputação baseada em lealdade, trabalho e justiça. Arnau enriquece progressivamente por meio do comércio marítimo, assume cargos de prestígio e se casa com Aledis, união frustrada por traições e anulação, seguida por um novo casamento com Elionor, imposto por conveniência política e marcado por hostilidade e conspiração. Paralelamente, Joan, amigo de infância de Arnau, ingressa no clero e ascende na hierarquia eclesiástica, enquanto inimigos do passado reaparecem e antigos ressentimentos se transformam em acusações formais. O conflito central da narrativa se estabelece quando Arnau é denunciado à Inquisição sob acusações de heresia associadas à proteção de judeus perseguidos, o que leva à prisão, confisco de bens e julgamento público. Durante o processo inquisitorial, testemunhos falsos e vinganças pessoais são usados contra ele, enquanto Elionor colabora ativamente para sua condenação. A solução apresentada pela obra ocorre quando novas provas e confissões revelam a falsidade das acusações, levando à absolvição de Arnau, à punição dos conspiradores e à restauração de sua honra, com a conclusão da catedral de Santa Maria del Mar servindo como marco final dos acontecimentos narrativos.
Parece que o problema de Arnau foi querer se casar, não foi? Talvez seja o caso, mas a sinopse do Chat GPT não nos permite afirmar isso. Aliás, qual é a época dos fatos? Sabemos que estamos em Barcelona, mas quando? Fui atrás… por volta de 1320. A vida era difícil, e continuou difícil por muito tempo. Essas grandes obras que a Igreja fazia serviam de pano de fundo para as estórias particulares de várias gerações de pessoas. Me lembra Os pilares da terra, de Ken Follett. Por enquanto não há muito o que se dizer. Exceto o óbvio, que as razões religiosas para se fazer as coisas eram desculpas para a prática humana mais antiga, que é a concentração e o uso de poder contra o seu semelhante. É o caso da exploração dos servos feudais, uma ordem social baseada na legitimação do Pecado Original (afinal, Deus é quem manda gerar novos servos), bem como da organização econômica em torno de uma grande obra como a construção de uma Catedral, ou então as razões nominais para se justificar uma perseguição política, como parece que foi o caso. Não assisti a série. Só vi o trailer. O que me pareceu é que basicamente o tal Arnau acaba se convencendo de que carregar pedras para a Igreja é algo sagrado, o que representa bem o triunfo da manipulação religiosa. Vejamos a análise.
ANÁLISE: A catedral do mar constrói uma totalidade narrativa fechada fundada na equivalência rigorosa entre obra material e ordem moral. A série organiza sua inteligibilidade a partir da edificação da igreja de Santa Maria del Mar. O edifício funciona como eixo ontológico. Tudo o que ocorre adquire peso pelo vínculo com essa construção. A pedra erguida carrega sentido. O esforço coletivo fixa uma medida de justiça imanente ao mundo representado. A cidade de Barcelona surge como campo histórico determinado pela lei, pelo trabalho, pela fé e pela violência legítima.
Esse primeiro parágrafo da análise é bem ruim, mas talvez seja apenas um reflexo do vazio da obra em si. Não sei dizer por enquanto. Mas parece que já se confirma que o projeto da construção é o que dá “sentido” à vida da população da cidade de Barcelona à essa época. Isto porque o dinheiro e o poder da Igreja determinaram que fosse assim, mais ou menos como os Estados modernos fazem hoje com suas obras e projetos. Isso vem desde o Faraó, ou mesmo desde a Torre de Babel. Não há nada de novo sob o sol, exceto que desta vez se usa em vão o nome de Jesus Cristo para fazer essas coisas, o que se pensarmos bem é um agravante, porque os faraós ou Nimrod eram pagãos, mas os espanhóis desta época deveriam ser cristãos.
A narrativa assume forma de provação contínua. A vida de Arnau Estanyol se apresenta como trajetória submetida a forças superiores. A servidão inicial define a condição humana como sujeição. A fuga do pai rompe o vínculo jurídico com o senhor feudal. O gesto funda uma culpa objetiva. A culpa não se dissolve. Ela se transforma em destino jurídico. A série insiste na permanência da lei. Nenhum ato desaparece. Tudo retorna sob forma institucional.
Agora a trama fica um pouco mais clara. A fuga de Arnau com o pai foi um ato ilegal. Qual é a base desse fato? Por que isso aconteceu? Lembremos do inesquecível, daquele motor ancestral que movimenta esse moedor de almas que é o mundo desde a Queda: o Pecado Original. Arnau pode pensar que seus pais são os heróis, ou no mínimo as vítimas da estória, mas nós temos que saber melhor que isso. A realidade da servidão no feudo, ou sob as leis da Igreja, etc., tudo isso é derivado do mesmo ato inaugural da desobediência contra Deus que encarnou Arnau neste mundo. Olhar somente para fora, ou para frente, é o que animais, ou escravos em condição análoga à animalidade, fazem. A vida espiritual na presença de Deus começa quando contamos a verdade, quando olhamos para dentro e para trás, e entendemos de onde viemos e porque realmente estamos aqui. Caso contrário, os conflitos e as aporias que buscam vilões exteriores apenas reforçarão a dialética, por exemplo, do servo contra o senhor, ou do herege contra o religioso, etc., e toda essa disputa já está nas mãos de Satanás, que foi quem instituiu esse Sistema da Besta fazendo pactos com os ancestrais de Arnau. Se a estória de A catedral do mar não nos contar nada disso, não nos surpreende, porque tal como donos de animais ou de escravos, os produtores e diretores só querem que olhemos para fora e para frente.
A construção da catedral introduz o tema do sacrifício voluntário. Os bastaixos carregam pedras como oferenda. O trabalho não é apenas econômico. Ele assume valor espiritual explícito. O esforço físico equivale a oração. A série apresenta essa equivalência sem metáfora externa. O gesto corporal substitui o rito formal. A fé se manifesta no corpo. A comunidade se organiza em torno desse ato. A catedral nasce da soma de renúncias.
Eles tinham alternativa? Como que um ato pode ser apresentado como voluntário, se outra opção é inviável? Por exemplo, quem se opusesse a participar nesse empreendimento não seria excluído automaticamente da participação na sociedade, para não falar da possibilidade de sofrer um processo por acusação de heresia ou impiedade? Se esta série ficar por isso mesmo, é um grande testemunho da Legitimação da Mistura. A obra que fazemos para Deus é INTERIOR. Meu Deus do Céu! Essas catedrais todas vão ser destruídas pela própria mão de Deus. Será que Jesus não foi claro o suficiente? Que adianta carregar pedras para Deus? Que necessidade o Altíssimo tem dessas coisas? É o ser humano que precisa se sentir digno sem que o seja, e que precisa comprar de algum modo o favor divino, como se o Amor de Deus estivesse à venda. A construção que Deus quer é interior. As pedras que devemos carregar são as do perdão, da misericórdia, da caridade, principalmente a renúncia ao poder e às tentações da vida mundana. Mas se as grandes culpas derivadas da perpetuação do Pacto Ouroboros não se convertem em arrependimento e mudança de conduta naquilo que interessa, que é a renúncia ao Pecado Original, o povo continua refém dos espíritos infernais, e a Igreja capitaliza essa culpa na forma de autoridade e poder para usar esses infelizes escravos do pecado para lhe servir. É um esquema perverso que o diabo instalou no mundo junto com seus sócios humanos, e a maioria dos nossos semelhantes até prefere isso do que se libertar, o que é sempre a coisa mais nojenta. Como Deus disse: “Coisa horrível e abominável aconteceu nesta terra: os profetas profetizam mentiras, e os sacerdotes procuram proveitos. E meu povo gosta disto!”
A figura de Deus aparece de modo constante. Ela surge como instância última de justiça. Os personagens invocam Deus diante da injustiça humana. Arnau afirma em momento decisivo que “Deus vê tudo”. A frase não consola. Ela pesa. Ela introduz a certeza do juízo. O Deus da série não suspende a ordem histórica. Ele a atravessa. O sagrado não interrompe o mundo. Ele o confirma.
Espera um pouco aí, Deus não confirma nada além da liberdade que deu ao homem. Deus permite as coisas porque na sua Providência o cálculo da economia espiritual já considerou que de todas as possibilidades antevistas pela análise combinatória, e de todas esta é a melhor série possível (o Princípio da Razão Suficiente de Leibniz). E isso tudo é muito antigo, por estar na base do sentido da realidade da experiência humana neste mundo. Se Deus quisesse que o homem lhe fosse sempre obediente, não teria lhe dado a liberdade para escolher o bem. Então, se não quisermos anular o fato inquestionável da liberdade humana, nem tirá-lo da equação, nós precisamos romper com as aporias da Teodiceia e alcançar algo melhor. Esse melhor, na minha filosofia, é o que chamo de Eleuteriodiceia, que é a justificativa da liberdade humana pela razão da causa final por trás dessa experiência passageira. Como por misericórdia a Providência divina já abreviou essa nossa vidinha, na maior parte dos casos, a algo como sete ou oito décadas, não fica tão difícil entender as razões de Deus tendo em vista o chamado para a vida eterna.
A Igreja institucional surge em duplicidade. Há a Igreja da catedral. Há a Igreja do tribunal. A primeira aparece ligada à comunidade. A segunda se associa ao poder. A Inquisição encarna o juízo terreno que se arroga absoluto. O inquisidor invoca Deus para legitimar a violência. A série registra essa invocação de modo literal. “Agimos em nome de Deus”. A frase estrutura o conflito central. O nome divino se torna instrumento jurídico. O sagrado se converte em técnica.
Não vejo duplicidade nenhuma, só vejo manifestações diversas do mesmo tipo de poder básico, do homem sobre o homem. E não seria difícil verificar isso. De novo, quais são os incentivos concretos para a participação na construção da Catedral? Não é a de participação numa comunidade fora da qual não há vida possível? O que a Inquisição faz é apenas algo menos aceitável para um segmento da população, mas a fonte de poder é a mesma. Se ficarmos nessa dialética de “igreja do povo” e “igreja do poder” vamos legitimar uma das duas porcarias, é claro. A Igreja de Jesus Cristo é espiritual, é o seu corpo místico, é a aliança voluntária daqueles que amam a vontade do Criador e que imitam o Filho de Deus. Não tem nada a ver com instituições, nem para a construção de templos, e nem para processos judiciais, porque, novamente, tudo isso é apenas a manifestação da vontade de poder do homem sobre o homem. Não tem nada a ver com a liberdade e amor ao próximo do Evangelho.
O juízo aparece como tema recorrente. O julgamento público substitui a justiça interior. A confissão forçada ocupa lugar central. A verdade deixa de ser moral. Ela se torna procedimental. O tribunal exige palavras. O silêncio equivale à culpa. A consciência individual perde valor. A lei escrita assume primazia total. A série descreve esse mecanismo com precisão narrativa. Não há comentário externo. O sofrimento resulta da aplicação correta da norma.
Ok, e isso é uma maldade que a Inquisição inventou? Parece que não. Para começar, ao que me consta o Tribunal da Santa Inquisição trabalhava para criar processos onde a turba violenta e supersticiosa queria praticar vinganças com as próprias mãos. Então o cara era malvisto pela vizinha fofoqueira, essa contava para todo mundo que o cara era um herege, pronto vão querer acabar com a raça dele. Isso porque esses miseráveis são escravos do demônio, então um quer sempre se sentir melhor que o outro, ter alguma vantagem no meio dessa calamidade humana. Daí essas coisas aconteciam, e era uma zona. A Igreja instituía um processo para verificar alegações, dar chance de defesa ao acusado, etc. Claro que a própria instituição seria muito usada para justamente legitimar as perseguições pessoais ou políticas. Isso nos surpreende? É mais do mesmo, o ser humano sendo ser humano. O que quero dizer é que isso tudo deriva do Pecado Original que é perpetuado pelo povo que se torna escravo das consequências da sua ação. Então a Inquisição, ou mesmo a Igreja Católica como um todo, é uma coisa que sai do povo, da sua verdadeira crença que é a Religião de Adão, a Tradição Primordial, o Pacto Ouroboros. Essa é a causa fundamental das injustiças e dos sofrimentos. E é claro que se anunciamos a liberdade do Evangelho e da imitação de Cristo contra esse mal ancestral, nós é que nos tornamos imediatamente os hereges.
O destino se manifesta como encadeamento necessário. A ascensão de Arnau decorre de ações concretas. O favor recebido exige retribuição. A dívida moral se acumula. A riqueza não dissolve a origem servil. A memória social persiste. O passado retorna sob forma de acusação. A série estabelece uma ontologia da memória. Nada se apaga. Tudo se inscreve.
Agora o Chat GPT deu para ser lacônico. Parece que o sistema costuma exagerar tudo o que pedimos. Lá vou eu ajustar o prompt novamente. Voltando à série, como não foi detalhado o que subsidia essa interpretação, presumimos que Arnau volta e meia tem que se ver com ajustes de contas passadas, talvez desde a época da fuga com seu pai. Isso só prova que não se trata de um mundo cristão, porque não existe perdão em parte alguma. Pelos frutos conhecereis a árvore.
O pecado aparece como categoria objetiva. Ele não depende de intenção psicológica. A acusação de heresia dirigida a Mar ocorre por necessidade institucional. A série explicita o mecanismo. A Inquisição precisa de culpados. A culpa se fabrica a partir de ritos desviantes. O judaísmo oculto se torna signo de ameaça. Deus surge como nome usado para eliminar a diferença. A violência se reveste de sacralidade.
Quem é Mar? Quanta incompetência. Tive que ir atrás… Mar é uma filha adotiva de Arnau. E depois eles se apaixonam… não seria conveniente o Chat GPT me contar essas coisas? Fica difícil trabalhar assim, talvez eu tenha que incluir uma pesquisa profunda no prompt, vamos ver. Uma hora eles vão me cobrar algum dinheiro, esse é o objetivo deles, eu já sei. Mas não dá para ficar nessa linguagem esotérica. Simplesmente não consigo entender do que o Chat GPT está falando.
A misericórdia aparece como exceção rara. Ela surge apenas em momentos limítrofes. Arnau afirma diante da injustiça que “só Deus pode julgar”. A frase delimita uma fronteira. O humano não possui acesso ao juízo último. A série reconhece essa distância. Ela não a resolve. O mundo permanece submetido à lei imperfeita.
E por que será, hein? Não tem nada a ver com algo que o ser humano faz e que produz a perpetuidade dessa lei imperfeita? Não adianta nada dizer para um juiz humano que ele não tem legitimidade, por mais que isso seja verdade, porque o que basta para que os seres humanos nos aborreçam é que tenham o poder para fazer isso. A questão da autoridade ou legitimidade é uma discussão meio fantasiosa, porque se não existisse diferenças concretas de poder entre as pessoas, tudo isso se revelaria tolice. Não digo que não haja autoridade moral em algumas condições, mas elas são limitadas, e na melhor das hipóteses sinalizam a obediência de alguém à Deus sob certas condições. Isso nunca se converte em legitimação indiscriminada do poder humano.
A catedral concluída não encerra o conflito. O edifício permanece. Os homens passam. A pedra testemunha. O sagrado se fixa no espaço. A história continua marcada pela injustiça. A obra termina sem redenção plena. O juízo final não ocorre no tempo narrativo. Ele permanece prometido. A série sustenta essa suspensão como estrutura última. O sentido não se fecha pela felicidade. Ele se fecha pela permanência da ordem.
Uma conclusão bem fraca. E está errado. O edifício é mais passageiro que os homens, se acertarmos o ponto de vista que é o da alma que vive para sempre diante de Deus. Esse modo de mostrar as coisas dá um testemunho do espírito de Idolatria, como se existisse um mundo fora de nós, onde construímos templos, pontes e viadutos, e daí morremos e essas coisas ficam. Esse mundo não existe, é uma ficção. Jamais alguém viu um mundo cheio de coisas que não fosse visto por alguém que o vê desse jeito. Como Berkeley explicou muito bem, entre outros. Então é claro que não tem felicidade nessa estória. Seria estranho se tivesse alguma.
Fiquei tão decepcionado, e já estou tão cansado de ficar emendando prompts, que resolvei experimentar outra IA, Claude. Usei o mesmo prompt. Vejamos o resultado:
A série catalã concebida por Jordi Frades ergue-se como construção narrativa alicerçada na dialética entre servidão e dignidade. A ação transcorre na Barcelona do século XIV. O protagonista Arnau Estanyol nasce filho de um servo fugitivo. A fuga do pai Bernat representa ruptura com a ordem feudal estabelecida. A liberdade surge como condição ontológica conquistada mediante transgressão. O gesto fundador da narrativa é movimento de subtração ao domínio senhorial. A obra institui desde o início uma metafísica da emancipação. A liberdade não se herda. A liberdade se arranca.
Já melhorou algo, no mínimo por situar os eventos no Século XIV, coisa que o Chat GPT nem se dignou a fazer. Sobre essa questão de se precisar praticar uma transgressão para obter a liberdade, que não se herda mas “se arranca”, isso aí não quer dizer nada. Que transgressão é essa? Se é de uma lei injusta, ou de uma prática injusta de interpretação de uma lei boa, não é transgressão, embora possa ter essa aparência diante dos homens. Concordo que a liberdade não é quase nunca herdada, porque se nossos pais fossem livres seria impossível nós nascermos, mas eles poderiam se tornar livres depois do nosso nascimento, o que tornaria possível a herança de uma consciência aprimorada. Mas não seria uma liberdade material contra senhores feudais, é claro. Aliás, com liberdade espiritual, em uma geração se destrói o poder do sistema de servidão sobre todas as gerações poupadas de nascer sob essa condição. Isso serve para se ter uma idéia do que é o poder da vida espiritual e da renúncia ao mal. O perdão costuma ser a nossa libertação da necessidade de perpetuar o mal que nos fizeram. Há algo que se enquadra mais nisso do que o Pecado Original?
A construção da catedral de Santa Maria del Mar funciona como eixo simbólico e material da trama. Arnau integra-se à confraria dos bastaixos. Esses homens transportam pedras do porto até o canteiro da igreja. O trabalho é oferecido como devoção. A pedra carregada nos ombros configura sacrifício voluntário. A catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso. A narrativa estabelece equivalência entre labor físico e ascese espiritual. A dor do esforço purifica. A obra coletiva transcende a individualidade. Arnau declara repetidamente sua devoção à Virgem de Santa Maria. A relação com o sagrado não se medeia por hierarquias eclesiásticas. A fé se manifesta na entrega corporal à edificação. A pedra que sobe é prece materializada.
Gostei mais dessa formulação simbólica do que daquela do Chat GPT. Principalmente dessas expressões: “a catedral se eleva através de corpos livres que escolhem o peso”, e “a pedra que sobe é prece materializada”. Muito bem. E o que é isso? É o esquema dos construtores de civilizações, os Filhos de Adão que desejam consumar a obra de seus pais no seu projeto de ereção de um monumento à traição da Queda, que será o futuro Terceiro Templo de Jerusalém. O que a Catedral de Santa Maria del Mar teria a ver com isso? É um modelo de ação humana voltada para o projeto de um falso Reino de Deus na Terra. Aquele templo em Barcelona é como uma filial que antecipa a construção da última matriz em Jerusalém. Novamente, Deus não quer que pedras sejam erguidas, amontoadas, talhadas, etc. Ele quer perdão, justiça, misericórdia, caridade, etc. E mesmo a construção de escolas e hospitais não resolveria (embora talvez pudesse ser algo melhor que a de templos) tanto quanto a construção de um testemunho da liberdade do Evangelho de Jesus Cristo contra o Pecado Original, pois onde não se gera ignorantes e doentes, não é necessário erguer escolas e hospitais, etc.
A estrutura social retratada repousa sobre antagonismos irredutíveis. A nobreza detém privilégios derivados do nascimento. O clero acumula poder temporal e espiritual. Os mercadores ascendem mediante acumulação. Os servos permanecem presos à terra. Os cidadãos livres de Barcelona habitam espaço intermediário. A obra explora com rigor as contradições internas dessa ordem. A liberdade jurídica dos citadinos não elimina a sujeição econômica. A mobilidade social permanece exceção violenta. Arnau atravessa estratos mediante acaso e virtude. A trajetória individual desmente a rigidez estamental sem negar sua violência estrutural.
A violência estrutural que costuma manter os servos presos à terra é originada de onde? De um total acaso? Posso parecer repetitivo, mas essa é a nossa sina enquanto caminharmos por este lugar. A servidão é gerada por uma ação humana, e uma ação humana é sempre livre e imputável, simples assim. Ah, mas e os filhos dos nobres e dos mercadores, e os membros do clero, porque a vida deles é mais fácil? Porque Deus assim o determinou por razões que não nos dizem respeito, e essa vantagem diante do Paraíso pensando bem não vale muita coisa. Se ainda assim se insistir muito no problema da desigualdade, há que se considerar três coisas: 1) tudo isso é mantido pela prática do Pecado Original, de modo que quem não gera filhos não gera a experiência da desigualdade; 2) se algumas almas podem sofrer menos do que outras debaixo da Providência divina, como poderíamos afirmar que este ou aquele caso requerem uma intervenção de nossa parte, senão já nos colocando no lugar de Deus, ou mesmo desconfiando completamente do seu governo?; 3) finalmente, mesmo nos casos de grande e óbvia injustiça na produção da desigualdade, a penalidade do malvado é a sua própria maldade, a sua vida apartada da Presença de Deus, de modo que quem vive em estado provisoriamente pior, materialmente falando, mas espiritualmente conciliado com o Criador, vive mil vezes melhor que uma criatura perdida que acha que está ganhando alguma coisa. Até Sócrates sabia disso, que é muito melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma, porque a maldade está no coração de quem é injusto, não no da vítima. Quem não quiser entender essas razões provavelmente não está querendo entender nada.
O casamento de Arnau com Elionor constitui nó dramático central. A união se realiza por interesse da nobreza decadente. Elionor pertence a família arruinada que aspira recuperar posição. Arnau acumula riqueza como cambista. O matrimônio converte-se em campo de humilhação recíproca. Elionor não consuma a união. A recusa do corpo expressa desprezo de classe. Arnau permanece fiel ao voto sacramental. A impossibilidade do amor conjuga-se com impossibilidade do desejo. O sacramento cristão revela-se armadilha quando desprovido de consentimento interior. A obra expõe a violência inscrita nas instituições que deveriam consagrar a liberdade afetiva.
O sacramento revela-se armadilha, ponto final. O consentimento interior que valida uma relação entre dois seres humanos é o da amizade, pois somos todos irmãos uns dos outros debaixo de Deus. O resto é resto. Temos uma idéia meio romântica, meio besta mesmo, de que um casamento por “amor” é superior ao por interesse, como teria sido o problema de Arnau com Elionor. Mas eu pergunto, esse amor ama o quê? O amor ao próximo é a amizade e a fraternidade. Que outro amor existe? O que se chama de amor matrimonial é geralmente um sentimento de conveniência que atende a interesses mútuos, que geralmente tem a ver com a vontade de poder sobre bens da vida como dinheiro, estabilidade, poder, influência, prazer, sonhos afetivos, etc. O contrato que costuma sair desse acordo serve para restringir a liberdade do outro. Amar o próximo é incompatível com a idéia de lhe restringir a liberdade, porque o próximo é um outro eu cujo destino é o usufruto pleno de sua liberdade na experiência do Ser divino. É claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O interesse espiritual legítimo que pode existir numa relação matrimonial é a da imposição de um limite sobre o desejo sexual, como sugerido pelo Apóstolo Paulo, mas isto é como achar bom amputar uma perna para que uma doença não tome o corpo inteiro: não seria melhor não ter a doença em primeiro lugar? A castidade é uma virtude milhões de vezes superior à tal “vocação matrimonial”. Ainda penso que o Apóstolo foi caridoso como Moisés na época da instituição da carta de divórcio. Não faz sentido recomendar que se aceite um limitador do pecado no lugar da virtude verdadeira.
A Inquisição surge como instância de terror absoluto. Elionor denuncia Arnau por heresia. A acusação é vingança pela humilhação matrimonial. O processo inquisitorial submete Arnau à tortura. A cena do potro apresenta a dor extrema. O corpo se fragmenta sob pressão dos instrumentos. A confissão extraída pela violência carece de valor epistêmico. A verdade torna-se função da resistência física. A obra demonstra que o tribunal eclesiástico opera mediante aniquilação da vontade. A pergunta sobre a fé converte-se em pergunta sobre os limites do corpo. Arnau confessa crimes que não cometeu. A palavra arrancada pela tortura é palavra morta.
Claro, uma confissão obtida sob tortura é inválida. Foi o problema do filme Silence de Scorcese, por exemplo, a respeito da tortura dos kirishitan no Japão. Esse tipo de coisa faz parte o mesmo teatro que a instituição religiosa pratica quando, por exemplo, reconhece a bênção divina sobre o matrimônio, como acabamos de observar no tópico anterior. O que temos que fazer é fugir da armadilha dialética. Não endossar a Religião por causa da Fé verdadeira, e nem jogar fora o Evangelho junto com a Religião.
Mar representa princípio de alteridade radical. Filha adotiva de Arnau. Criança resgatada da miséria. A relação entre Arnau e Mar estrutura-se inicialmente como paternidade eletiva. O crescimento de Mar transfigura o afeto. Arnau experimenta atração que não pode nomear. A narrativa explora com precisão o conflito entre dever moral e inclinação. Arnau reconhece o desejo como transgressão interna. A proibição não provém da lei externa. A proibição habita a consciência. Mar é prometida em casamento a jovem nobre. A separação forçada reproduz a lógica de propriedade que governa as alianças. O amor entre Arnau e Mar permanece interdito por categorias que a narrativa não valida mas registra como efetivas.
Parece que o Claude também tem seus limites. Este texto está ficando ruim aos poucos, como aconteceu com o Chat GPT. De qualquer modo, a relação de Arnau com Mar só é problemática sob o efeito do espírito da Sedução, ou Pacto com a Morte. Sob o nihil obstat do Espírito Santo, na Eternidade Mar pertence a Arnau de forma plena tanto quanto hoje ela já pertence a ele pela sua Apetição. A solução é o Louvor. Se Arnau não acessa essa promessa divina, e está no mínimo na condição precária de Dante com sua Beatriz, ou pior ainda. Se a série não revela, não é possível afirmar nada. De qualquer modo, nenhum amor verdadeiro pode ser “interdito”. Só existe a espera, como de uma Noiva pelas núpcias. A Noiva feliz sabe se alegrar porque confia no Noivo e em suas promessas.
Joan Estanyol encarna trajetória inversa à do irmão Arnau. Joan ingressa na ordem dominicana. Torna-se inquisidor. A ascensão eclesiástica afasta-o da origem humilde. Joan desenvolve fanatismo teológico. A pureza doutrinal substitui a compaixão. A cena em que Joan interroga Arnau configura paroxismo da alienação. O irmão tortura o irmão em nome de Deus. A instituição religiosa perverte o vínculo de sangue. Joan experimenta prazer sádico disfarçado de zelo apostólico. A narrativa expõe a cumplicidade entre ortodoxia e crueldade. A fé verdadeira pertence aos simples. A teologia armada serve ao poder.
Eu nem sabia que Arnau tinha um irmão! Amigos, se as coisas continuarem assim não se preocupem com a IA. Até um estagiário meio burrinho faria melhor. Primeiro, a instituição não perverte o vínculo de sangue porque este já era de algum modo pervertido, por ter origem na Queda. Deus não disputa lugar com as coisas do homem, e o Sagrado e o Amor lhe pertencem exclusivamente. Em segundo lugar, se Joan quisesse ser perverso ele poderia fazer isso em qualquer condição, independente da Religião. Como a época era de grande concentração de poder na Igreja, foi ali que o vilão encontrou instrumentos para realizar suas vontades, mas isso muda conforme a época e o lugar. O problema da ortodoxia religiosa não é de crueldade neste sentido, mas de perversão do testemunho da Revelação a respeito de Deus. Uma tortura é sempre um crime condenável, mas é uma coisa meio isolada. O falso testemunho da Palavra é uma conspiração gigantesca e milenar. O que acabou com o poder da Igreja medieval? Não foi a mera consequência dos crimes da Inquisição. Foi a tradução da Bíblia e a denúncia da manipulação da Igreja de Roma. Não vamos coar o mosquito e engolir o camelo. Vamos priorizar o que mais importa.
A peste negra atravessa a narrativa como catástrofe objetiva. A morte invade Barcelona. Os corpos apodrecem nas ruas. A ordem social se dissolve temporariamente. Arnau permanece na cidade. Cuida dos doentes. Transporta cadáveres. A caridade se exerce sem expectativa de retorno. A obra apresenta a peste como revelação da contingência humana. A morte súbita dissolve hierarquias. O nobre apodrece tão depressa quanto o mendigo. Arnau enfrenta a doença sem amuletos teológicos. A coragem deriva da aceitação da finitude. A solidariedade emerge precisamente quando Deus parece ausente.
De novo, que opção as pessoas têm? O desespero não é exatamente muito produtivo. E a ajuda mútua é tão proveitosa numa situação dessa quanto na escolha de se viver na cidade e não no meio do mato. O ser humano é adaptável e flexível. Sobre o fato brutal da morte, isso de fato pode ajudar as pessoas a se instalarem na realidade, mas nada disso é garantido. A dificuldade pode “gamificar” a vida. É espantoso como nós nos dispomos a ignorar o sentido das coisas quando somos instalados na condição de ganhar ou perder. Crises tendem a ativar esse tipo de mecanismo psíquico.
A figura da Virgem Maria percorre a série como presença tutelar. Arnau dirige-se à imagem inúmeras vezes. As preces não pedem milagres espetaculares. Arnau pede força para suportar. A Virgem não intervém causalmente nos acontecimentos. A devoção produz efeito subjetivo. A fé sustenta a resistência. A cena diante da imagem antes da tortura é decisiva. Arnau pede perdão pelos pecados que não cometeu. Reconhece a própria fragilidade. Entrega-se à vontade divina sem compreendê-la. A relação com o sagrado prescinde de mediação intelectual. A fé é confiança anterior ao entendimento.
Isso não está tão ruim. Pedir perdão pelos pecados que não cometeu já não faz muito sentido. O que existe é o pedido pelo perdão das chamadas “faltas escondidas”, ou seja, pelos pecados que nós mesmos ignoramos. Sobre a questão da devoção à Virgem, não vou esmiuçar a questão porque não vejo grandes vantagens. Tem gente que faz confusão? Tem. A Igreja Católica estimula esse tipo de bagunça e se aproveita da ignorância das pessoas? Sim. Mas deixe estar, que Deus sabe melhor o que vai no coração de cada um. Eu só tomaria cuidado com a prática disfarçada de necromancia, por óbvio. Jesus Cristo em pessoa se colocou como o nosso mediador entre a Terra e o Céu. Quem é como ele? Maria? Não… e o pior de tudo é que a grande qualidade que Maria tem de fato, que foi a sua renúncia ao Pecado Original, isso não é valorizado o quanto se deveria sobre a tal da “vocação matrimonial”. A Religião é um problema.
O julgamento final de Arnau convoca a cidade inteira. O povo de Barcelona comparece à praça. A sentença é esperada como espetáculo. A acusação formal enumera heresias inventadas. Arnau permanece em silêncio. A defesa provém de testemunhos inesperados. Os bastaixos relatam a devoção demonstrada. Os pobres testemunham a generosidade. A verdade factual confronta a verdade processual. O inquisidor-geral hesita. A pressão popular força a absolvição. A cena dramatiza conflito entre justiça institucional e justiça comunitária. A salvação de Arnau não provém da ortodoxia. A salvação provém da memória dos gestos.
Para começar, essa é uma “salvação”, entre aspas. Arnau sobreviveu num dia para morrer no outro, como todos nós fazemos. Em segundo lugar, o que funcionou foi uma concessão do poder religioso em face de uma inconveniência política. Em suma, não foi exatamente o triunfo da Justiça, mas uma disputa de poder político, entre a força popular e a força eclesiástica. Foi por esse tipo de concessão que a Igreja Católica se manteve por tanto tempo no domínio do poder político do continente europeu. Reconhecemos, por exemplo, uma manobra de acomodação no advento do carisma Franciscano, entre outros casos. Um poder que saiba ser rígido ou maleável conforme a condição tende a resistir mais à passagem do tempo. Mas é claro que a condição número um da sobrevivência de todas as religiões cristãs é a parasitagem do tesouro do Evangelho.
Mar casa-se com homem que não ama. A noite de núpcias revela-se estupro institucionalizado. O marido exerce direito conjugal mediante violência. A obra não atenua a brutalidade. A cena é filmada sem eufemismos. O sacramento torna-se cobertura legal do crime. Mar enviúva prematuramente. A liberdade reconquistada chega tarde. O corpo guarda memória da violação. A narrativa recusa redenção fácil do trauma. A violência inscrita nas instituições matrimoniais não se repara mediante arrependimento individual.
Gostei da idéia de que o “sacramento torna-se cobertura legal do crime”, mas eu corrigiria para “revela-se”, pois sempre foi isso. E o crime não é de um esposo contra o outro, mas de ambos contra Deus, na imitação daquele primeiro casal mitológico de traidores, Adão e Eva. Hoje em dia, sob a cultura “Red Pill”, os homens e as mulheres vivem em pé de guerra sobre quem tem direito ao quê. Ainda pensam no problema sob a ótica do Poder. Se mudarem isso para a ótica do Amor, da amizade e da fraternidade, tudo se resolve num instante. Mas vão saber onde enfiar seus desejos sexuais? Esse problema precisa ser resolvido. A pílula que cura a doença da escravidão ao sexo não é vermelha, nem azul, nem branca, nem preta, é uma coisa chamada liberdade: a de se abster, ou a de usufruir sem medos e traumas, o que é para poucos, cá entre nós, no meio dessa raça de fodidos, para usar um trocadilho apropriado. É mais fácil viver uma petrificação numa continência fria e cruel, como uma Igreja de Éfeso, ou uma libertinagem hipócrita como uma Igreja de Laodicéia, do que a liberdade, porque esta não é uma regra de vida, mas é o próprio viver cada momento com Discernimento, consciência e responsabilidade. Coisas que o ser humano geralmente detesta. O desgraçado prefere ser enfiado numa camisa-de-força do que ser maduro e responder por seus atos. Ou então receber uma bênção religiosa para fazer como o cara fez com a coitada da Mar na série.
A reconciliação final entre Arnau e Mar ocorre diante da catedral concluída. A construção que consumiu décadas está terminada. As pedras carregadas por Arnau compõem a estrutura visível. A igreja ergue-se como testemunho do sacrifício coletivo. Arnau e Mar reconhecem o amor impossível durante anos. A união se consuma fora do tempo narrativo principal. A obra sugere que certas formas de amor requerem destruição prévia das estruturas que as impedem. A catedral simboliza a possibilidade de beleza emergir do sofrimento histórico. A pedra inerte adquire significado através das mãos que a elevaram.
Fico feliz pelo casal, já que essa questão parece ter se resolvido no tempo da estória, mas temo pelo que isso significará, ou seja, o que significa para eles ser um casal de fato. Sobre certas formas de amor requererem a destruição de estruturas prévias, é a verdade em todos os casos, pois a consumação plena do Amor não pertence a este mundo, nunca pertenceu. Assim, o caso de Arnau e Mar pode ser exemplar, mas não sei dizer. Já a idéia de que a beleza emerge do sofrimento, é um tremendo testemunho de Legitimação da Mistura. Porca miséria, o ser humano não consegue só confiar em Deus, tem que fazer bagunça mesmo. Uma pedra inerte, por sua vez, pode ter significado mesmo que permaneça assim para sempre, bastando que alguém a reconheça na consistência do seu ser. Esse relato sobre a série dá uma impressão de poder taumatúrgico, telúrico, do ser humano sobre uma realidade material morta. É uma forma de fetichismo e de Idolatria. Tudo já teve sempre o seu sentido máximo no Logos divino. Não se pode criar sentido ou valor, só descobrir o que sempre foi verdade na Eternidade de Deus.
A dimensão religiosa da série não se reduz a ornamento temático. A fé constitui categoria ontológica operante. Arnau vive num universo onde Deus existe objetivamente. A providência não é hipótese consoladora. A providência é estrutura da realidade. As referências ao juízo divino não expressam medo supersticioso. O juízo é horizonte inevitável da ação moral. Quando Arnau perdoa os inimigos, o perdão deriva de imperativo espiritual. A misericórdia imita a misericórdia divina. A obra não ironiza essa convicção. A fé de Arnau é apresentada como racionalidade alternativa à racionalidade do cálculo.
Finalmente, parece que encontramos algo impecável, um testemunho espiritual de valor genuíno independente da Religião. Providência, Juízo Final, Misericórdia, são categorias verdadeiras da crença cristã. Se Arnau se liga a isto, já é uma conquista e um testemunho valoroso no meio do resto da bagunça. Mas nunca saberei ao certo o quanto o Chat GPT ou o Claude interferiram na interpretação da estória da série enquanto não a assistir eu mesmo.
A oposição entre igreja-instituição e igreja-povo atravessa toda a narrativa. Os prelados acumulam riquezas. Os monges inquisidores torturam. Os padres vendem absolvições. A corrupção eclesiástica é retratada sem ambiguidade. A fé verdadeira habita fora das hierarquias. Os bastaixos praticam cristianismo sem teologia. A caridade prescinde de doutrina. A obra estabelece distinção rigorosa entre cristianismo vivido e cristianismo administrado. A catedral do mar pertence ao povo que a construiu. A propriedade espiritual não coincide com propriedade jurídica.
É o caldo da futura Reforma Protestante. Mas vamos nos lembrar que os latinos não conseguiram se libertar das garras do poder eclesiástico por si jamais. A guerra contra a mentira e a tirania veio do Norte: de alemães e anglo-saxões, os mesmos que desafiaram e eventualmente venceram o antigo Império Romano. O problema é que a liberdade dos reformistas logo abriu chamado a novas formas de institucionalização do Poder religioso. Isso é inevitável. Só se possui testemunho espiritual sem corrupção onde não há estrutura institucional que concentre poder. Ou seja, a verdadeira Igreja é feita de ações e de testemunhos, não de ritos, calendários, festas, etc., tudo isso que já sabemos que Deus detesta. O que é bom é a própria bondade: o perdão, a misericórdia, a caridade, a justiça, etc. Essa é a verdadeira “Religião”.
A questão da liberdade retorna constantemente sob formas diferentes. Bernat foge da servidão e morre livre. Arnau nasce cidadão mas conhece a prisão inquisitorial. Mar é vendida em casamento e depois viúva. Joan escolhe o convento e torna-se escravo da ortodoxia. A liberdade não é estado permanente. A liberdade é conquista reiterada contra forças que a negam. A narrativa recusa determinismo histórico. As estruturas oprimem mas não anulam completamente a agência. A resistência individual possui eficácia limitada mas real. A liberdade é simultaneamente dom e tarefa.
A Liberdade é um dom divino inalienável. O problema é que o seu objeto verdadeiro é interior. Por isso o Claude está com essa dificuldade de verificar a vitória do homem contra as formas de repressão, porque parece que nunca cessa o efeito de alguma espécie de restrição. Bom, o modo de se resolver isso é espiritual e requer o reconhecimento de que dentro do Limite máximo da nossa forma substancial, todos os outros limites são apenas circunstanciais e temporários. É claro que a vida de servidão, ou a repressão religiosa, tudo isso parece destruir a liberdade das pessoas, mas é só uma impressão. Logo vem a morte das Obras da Carne e o triunfo das Obras do Espírito, e tudo fica bem. O problema deste mundo só existe para quem só crê neste mundo, daí a aflição já é uma escravidão também de outra natureza, também espiritual.
O tempo histórico da série é tempo de crise. A peste dizima a população. A guerra ameaça o reino. A fome assola os campos. As revoltas camponesas eclodem periodicamente. A narrativa não idealiza o medievo. O século XIV surge como época de catástrofe acumulada. A construção da catedral ocorre contra esse pano de fundo. A beleza se edifica apesar do horror circundante. A obra afirma possibilidade de criação em meio à destruição. A catedral é resposta estética e espiritual ao caos histórico.
Eu preferiria uma resposta interior, algo como a construção de catedrais espirituais dentro de cada coração humano. O foco nessa vitória temporal feita de pedra é um erro que prende os seus crentes numa dialética onde a Mistura é legitimada, como se de algum modo essas coisas se compensassem umas às outras. Isso ignora totalmente a perfeição do Ideal divino, bem como as promessas concretas feitas por Deus. Os construtores de templos querem simbolizar o divino naquilo que não é divino. Como poderão transmitir assim a idéia daquilo que é digno de Deus? Não me entendam mal: a arte sacra pode ser belíssima, mas tanto quanto uma paisagem que Deus já criou e que está aí há milhões de anos. Uma coisa é glorificar a Deus através da arte. Outra coisa é precisar fazer isso para justificar uma vida que de outro modo não teria sentido. Aí já encontramos um problema.
A linguagem visual privilegia a pedra e a água. A pedra carregada simboliza o peso da existência. A água do mar representa o horizonte de abertura. Barcelona aparece como cidade determinada pela geografia. O porto conecta a cidade ao mundo. As montanhas cercam o espaço urbano. A catedral eleva-se entre esses limites. A verticalidade da igreja desafia a horizontalidade da condição terrena. A arquitetura gótica é filmada como aspiração à transcendência. As nervuras apontam para o alto. A luz filtrada pelos vitrais transfigura o espaço. A matéria santificada pela forma.
Tudo isso é notável, mas novamente, se não culminar num processo no interior do homem onde ele descubra que vive na Presença do Altíssimo, não adianta de nada. Pedra, água, luz, seja o que for, ou tudo isso está em Deus e dá testemunho da Sua Glória, ou é apenas uma representação sentimental de esperanças meramente humanas.
A série evita psicologização anacrônica. As personagens não possuem interioridade moderna. Os conflitos não se resolvem mediante autoconsciência. Arnau não faz terapia da culpa. Joan não descobre um trauma infantil que explique o fanatismo. As motivações permanecem próximas da superfície dos atos. A obra respeita a alteridade antropológica do medievo. Os homens do século XIV não são burgueses disfarçados. A subjetividade retratada é subjetividade pré-cartesiana. A identidade deriva da posição social e da relação com Deus.
Dá para entender os limites na expressão e na representação, entre o moderno e o medieval, mas não no próprio Ser. Do contrário, de onde teria saído a consciência moderna? E de onde teria saído a subjetividade pós-cartesiana? O ser humano sempre teve a potência da autoconsciência. A largura e profundidade do conteúdo real explorado a partir dessa potência sempre dependeu de alguns elementos exteriores acidentalmente, mas essencialmente dependeu apenas da vontade interior. Não podemos confundir o que é o desdobramento histórico dos testemunhos da atividade interior da autoconsciência humana com a realidade da sua atividade. Do contrário caímos na armadilha historicista que transforma o homem antigo ou medieval num ser de outra espécie, prisioneiro do seu tempo. Não somos feitos à imagem e semelhança de Deus para estarmos presos aos limites de consciência de uma época, embora estejamos geralmente limitados ao uso de meios expressivos disponíveis em cada momento. E mesmo assim, sempre podemos inventar palavras novas, idéias novas, etc. Se não pudéssemos, a História teria sido impossível.
A conclusão da série retorna à catedral. Arnau morre velho. A igreja permanece. As gerações se sucedem. A pedra sobrevive aos construtores. A obra sugere que o trabalho humano pode produzir permanência relativa. A catedral é vitória sobre a morte. A beleza arquitetônica transcende a vida individual. A narrativa termina afirmando valor do esforço coletivo. A liberdade conquistada por Bernat transmite-se a Arnau. Arnau transmite dignidade a Mar. A corrente geracional não é corrente de sangue. É corrente de escolhas reiteradas. A catedral do mar ergue-se como monumento à possibilidade de homens livres edificarem juntos algo que os ultrapassa.
Eles não podem fazer isso para além de algumas gerações, e o Juízo Final de Deus apagará tudo isso, pois não sobrará pedra sobre pedra, e Deus fará coisas totalmente novas. Não é o templo de pedra que permanece, é a Palavra de Deus. A pedra não sobrevive aos construtores, é o contrário, eles vivem para sempre com Deus, e a pedra, por si, nem sequer existe, quanto menos “sobrevive”. A vitória sobre a morte é a Ressurreição através de Jesus Cristo, não através de templos de pedra. E a beleza arquitetônica não transcende a vida individual, porque ela só pode existir para o indivíduo e a seu serviço. Sai dele, e volta para ele. Por si, sequer existe. Sobre a liberdade transmitida de geração em geração, ela requer um testemunho relativo ao Amor divino. Não me parece ser exatamente isto que A catedral do mar nos informa. Há algo como uma obsessão com a construção de templos, civilizações; a família, a humanidade, qualquer coisa que não seja somente a Graça de Deus. Então não posso endossar essas idéias.
SINOPSE: Doze Homens e uma Sentença apresenta a situação de um jovem acusado de matar o próprio pai, já julgado no tribunal, restando ao júri decidir de forma unânime se ele será considerado culpado ou inocente, decisão da qual depende a aplicação da pena de morte. O conflito central da história surge quando, na primeira votação, onze jurados votam pela culpa e apenas o Jurado nº 8, Davis, vota “não culpado”, impedindo o veredicto imediato e obrigando o grupo a discutir as provas. Ao longo da deliberação, os jurados reconstroem cenas decisivas do caso, como a apresentação de uma faca idêntica à arma do crime, a simulação do trajeto do velho testemunho até a porta de seu apartamento e a análise do depoimento da mulher que teria visto o assassinato através da janela de um trem, levantando dúvidas sobre sua capacidade de observação sem óculos. O conflito se desenvolve por meio de votações sucessivas e confrontos verbais, até que as dúvidas acumuladas levam à mudança gradual dos votos, restando apenas o Jurado nº 3 sustentando a culpa. A solução da história ocorre quando, diante da última votação, todos os jurados reconhecem que as provas não são suficientes para uma condenação segura e chegam a um veredicto unânime de inocência, encerrando a deliberação.
Mais um filme que envolve a justiça dos homens. Os americanos adoram esse tipo de trama. De minha parte eu detestaria ser juiz ou júri, porque não cabe ao homem fazer realmente Justiça, mas um arremedo dela, quase uma simulação. Como já falei várias vezes, nosso objetivo é político, é manter a ordem social: trancafiar os indivíduos antissociais e nos livrar de sua presença, e mandar uma mensagem para os espertinhos sociopatas e psicopatas que pensam em fazer bobagem, para que abram mão de seus planos sob a ameaça da punição. É só isso. Também tem um elemento de vingança, que é a pior parte da coisa, como aliás parece ser algo trazido à baila pelo filme, mas esse é um problema espiritual no coração de cada um, e independe da administração judiciária. Não assisti, mas deu para ter uma idéia só vendo o trailer que o desejo de vingança é um componente. Isso sempre aparece nessas situações, e não só a vingança, como o fingimento de magnanimidade e beneficência. O poder estimula as piores qualidades humanas. Sobre as instituições em si, tudo isso visa a proteção do ser humano desde a época do antigo Direito Romano. Princípios como o do in dubio pro reu se convertem, na sofisticação do sistema do Tribunal do Júri, na idéia da necessidade de condenação apenas beyond any reasonable doubt. O que esses conceitos e mesmo este filme exibem é a fragilidade humana, a nossa ignorância constitutiva, e esse perigo que é o de ter que se tomar decisão sem a competência que seria devida para que se fosse infalível de modo compatível com o poder de sentenciar. Ou seja: tenho a competência suficiente, no meu juízo, equiparável ao poder que tenho de sentenciar um réu à uma pena de prisão, ou de execução? Precisar decidir sem ter todo o saber é um encargo gigantesco, e é uma tentação espiritual contra Deus. Tanto que a presença de jurados realiza, no âmbito da administração judiciária, o mesmo que o processo eleitoral numa democracia, isto é: a diluição da responsabilidade, que ajuda a supostamente diminuir culpas através de um fracionamento. Mas já vimos, a respeito da idéia da democracia eleitoral, que isso também serve para a obtenção da anuência de pessoas que poderiam ser inocentes por si, se nenhum dever de estado lhe obrigasse a tomar posição. Por isso, quando a Lei permitisse a objeção de consciência, isso deveria ser empregado todas as vezes em que o uso desse tipo de poder contrariasse o dever de estado do indivíduo. Aí sim entra a Justiça verdadeira: o homem se declarar incompetente para julgar o próximo. Isso sempre seria justo, porque é sempre verdade. O custo disto, porém, seria inviável para uma comunidade. É uma questão que precisa ser resolvida politicamente, por aqueles que ousam reivindicar esse tipo de poder. Quando essa obrigação é instaurada por um mecanismo legal, há imunidade suficiente, mas isso não torna o sistema menos perverso, principalmente se isso envolver punições como a da pena de morte. Uma participação, mesmo obrigatória por Lei, nesse tipo de sistema, já é anuência suficiente para criar uma brecha espiritual. Novamente somos obrigados a reconhecer que a origem desse tipo de mal, o da injustiça, é o Pecado Original, como já pudemos observar ao tratar do filme Um sonho de liberdade.
ANÁLISE: O filme Doze Homens e uma Sentença, dirigido por Sidney Lumet em 1957, apresenta-se como uma meditação rigorosa sobre o juízo humano, sobre a responsabilidade moral do indivíduo diante da vida alheia, sobre a fragilidade da verdade quando submetida ao hábito, ao preconceito e à pressa. Toda a ação se concentra em um espaço fechado, o júri, que funciona como uma câmara moral. Ali não se julga apenas um réu. Ali se julga a capacidade do homem comum de sustentar a própria consciência diante da lei, da maioria e da própria impaciência. A forma austera da narrativa reforça essa intenção. Não há espetáculo. Há tensão ética. Cada palavra pesa. Cada silêncio acusa.
Como já observei em outra oportunidade, todo julgamento humano é uma ação isolada da realidade, como a criação de uma ficção jurídica. A finitude do processo de descoberta (discovery), e de todos os prazos legais, determina esse caráter arbitrário. Já vimos isso quando comentei sobre a anulação de um júri que consultou o Google Maps para ver imagens do local de um crime. Parece estranho, ou mesmo absurdo, que aquele que vai decidir não possa obter mais informações sobre o objeto da sua decisão. Mas isso é processualmente obrigatório, afinal de contas quem é capaz de afirmar que nenhum novo conhecimento sobre um fato seja possível? Nenhum julgamento seria viável desse jeito. Os réus inocentes são os que mais sofrem com essa realidade, porque a verdade não descoberta em tese sempre os beneficiaria. Daí é que entram em cena as salvaguardas legais, para tentar remediar esta situação. No que nos interessa, espiritualmente, como já disse, só a renúncia ao Pecado Original já é muita coisa, porque nenhuma alma inocente precisará encarnar sob a condição, por exemplo, de ser acusada injustamente de um crime. Por outro lado, sempre que for viável é necessário abrir mão do poder de julgar, mas sem contrariar o dever de estado gerado pelo dispositivo legal, já que àquele sobre quem pesa o dever de governar a sociedade cabe o poder de administrar a justiça humana, e esse dever maior não pode ser obstruído.
O ponto de partida do filme é a unanimidade aparente. Onze jurados consideram o réu culpado logo no primeiro voto. A condenação à morte parece um simples procedimento formal. A vida humana surge reduzida a um item processual. É nesse contexto que o Jurado nº 8 introduz a ruptura. Sua recusa em votar pela culpa não nasce da certeza da inocência. Nasce do reconhecimento da dúvida. Essa postura estabelece o eixo moral da obra. O filme afirma que a dúvida não é fraqueza. A dúvida é dever. Quando a sentença implica a morte, a certeza exige uma densidade quase impossível. O jurado afirma isso de modo direto ao dizer: “Não sei se ele é culpado. Só sei que não podemos mandar um homem para a cadeira elétrica sem conversar sobre isso primeiro.” Essa frase constitui uma das teses centrais do filme.
Se a dúvida é um dever, a condenação se torna impossível, e o Sistema Judiciário inteiro é demolido. Novamente, é uma questão de cada um saber o que lhe cabe. A um jurado obrigado por Lei a participação num processo judicial, o dever de julgar deve ser regulado pela consciência individual acima de tudo. Assim, especialmente no caso de condenação, se existir dúvida suficiente, por menor que seja, ela deve servir para impedir a sentença contrária ao réu. Mas se a sentença envolver, por exemplo, a pena de morte, e na consciência do jurado essa decisão for criminosa independentemente da realidade do crime, então a objeção de consciência impede a participação nessa decisão judicial, mesmo que por decorrência o jurado tenha que ser punido de acordo com a Lei humana. Nunca, jamais, em tempo algum, um homem deve agir contra a sua consciência, pois isso é um crime contra Deus (“tudo que não é feito de boa fé é pecado” Rm 14:23).
A estrutura do debate revela a anatomia da injustiça cotidiana. Os argumentos iniciais não são racionais. São afetivos. São derivados do cansaço, do calor, do desejo de ir para casa, do rancor pessoal, do preconceito social. O réu é pobre. Cresceu em um cortiço. Viveu cercado de violência. Esses dados são tratados como provas morais. A culpa surge como expectativa social. O filme desmonta essa lógica com paciência quase pedagógica. Cada evidência é reexaminada. Cada testemunho é reconstruído. A verdade deixa de ser um bloco sólido. Passa a ser um campo frágil, atravessado por limitações perceptivas, por falhas de memória, por interesses ocultos.
Nosso prompt melhorou muito, estou mais confortável com esse texto, quase impressionado mesmo. Voltando ao filme, essa realidade é inevitável, porque um jurado não é uma figura mítica que desce do Céu para vir fazer a Justiça. É um ser humano cheio de crenças e preconceitos, a quem estamos pedindo que seja imparcial e isento. Por mais que o pobre coitado tente, ele pode falhar, é claro. E sobre o juízo do caráter do réu, esse é um componente natural que faz parte do processo. Tanto que os advogados de defesa sempre podem arrolar testemunhas de caráter à favor do réu para construir a sua reputação pública diante de um corpo de jurados. Igualmente, a promotoria sabe que o júri sempre se sentirá mais disposto a condenar uma pessoa que parece ter defeitos de caráter. Faz parte do jogo, podemos não gostar disso, mas não tem muita saída. Aliás, a saída existe: é imitar Jesus Cristo e a Virgem Maria e romper com o Pecado Original.
A dimensão espiritual do filme aparece de modo discreto, quase constrangido, o que a torna mais significativa. Não há discursos religiosos. Não há apelos explícitos à fé. Há menções pontuais a Deus, sempre ligadas ao juramento, à responsabilidade última do ato de julgar. Em determinado momento, um dos jurados lembra que todos juraram diante de Deus dizer a verdade. Essa lembrança não produz comoção imediata. Produz silêncio. Produz incômodo. Deus surge ali não como consolação, mas como instância de acusação. A presença divina funciona como medida do peso do ato humano. Julgar equivale a assumir um lugar que não pertence inteiramente ao homem.
Muito bem observado. O filme é antigo (de 1957), de uma época em que a menção à um dever diante de Deus fazia muito mais sentido do que hoje em dia. Os pontos cruciais já foram examinados. Por um lado, há um dever político que é o de colaborar com a administração judiciária do Estado. Por outro lado, há o dever de não pecar contra a verdade que é a de que somos ignorantes sobre a culpa de um ser humano a respeito de qualquer coisa. Isso se resolve com a consciência do dever de estado concreto e de seus limites, quando a consciência produzir objeção suficiente para a renúncia à participação num processo judicial. Então a saída é responder diante de Deus e de acordo com a própria consciência, todas as vezes.
A citação mais clara dessa dimensão ocorre quando um jurado afirma que a vida de um homem está “nas mãos de Deus”. A frase não resolve o dilema. Pelo contrário. Expõe a tentativa de deslocar a responsabilidade. O filme reage a esse gesto de modo implícito. Se a decisão está nas mãos do júri, então está nas mãos humanas. Deus aparece como testemunha. Não como substituto da consciência. Essa tensão percorre todo o filme. O sagrado não absolve o erro. Apenas o torna mais grave.
A vida de um homem está “nas mãos de Deus” quer o homem queira reconhecer isso ou não. Tudo isso está acontecendo diante de Deus nos seus mais mínimos detalhes. A subsidiariedade é um princípio espiritual de legitimação da ação política humana. Então as decisões podem ser tomadas, com as suas consequências últimas, mas isso não sai do controle de Deus jamais. A qualquer momento fatos novos alteram o que foi disposto pelo ser humano. Descobertas casuais, ou mesmo a ocasião de fuga de um condenado que era inocente, etc. O que está nas mãos dos homens é algo muito restrito nessa condição localizada pelo enredo do filme. Agora, curiosamente, onde o homem é mais poderoso para causar males, parece que a sua consciência é menos intensa, especialmente na prática ou legitimação do Pecado Original. Quer dizer, os pais do réu não podem transferir para o corpo de jurados a responsabilidade pela instalação dessa alma num mundo onde erros processuais são possíveis. Convenientemente tudo isso é esquecido, é claro, e vocês podem esperar sentados por um filme que mostre o óbvio vínculo que essas coisas têm. Ninguém, ou quase ninguém, vincula as maternidades às prisões, hospícios, alas de UTI ou cemitérios, mas tudo isso está muito conectado, como sabemos bem. Quem gostava de lembrar isso era o velho Schopenhauer, que dizia que os seres humanos em geral tinham uma idéia muito errada da sua verdadeira condição, pois tomam decisões alheias à realidade total que é experimentada pela nossa espécie. Hoje em dia, com os sistemas de comunicação em massa, especialmente a Internet, isso é atenuado o suficiente para já mudar o ambiente cultural ao ponto de que há um tanto de seres humanos que se abstém de procriar tendo em vista o desejo de poupar o sofrimento de seus descendentes.
O processo de transformação dos jurados ocorre por desgaste moral. As certezas não caem por iluminação súbita. Caem por exposição. Caem quando os argumentos revelam suas motivações ocultas. O Jurado nº 3 encarna esse colapso de modo exemplar. Sua fúria não nasce do caso. Nasce de sua relação fracassada com o próprio filho. O ódio pessoal contamina o julgamento. No momento decisivo, ele rasga a fotografia do filho enquanto grita “Eu vou matá-lo”. Essa frase ecoa o crime julgado. O filme revela ali a raiz espiritual da injustiça. O pecado não está no erro intelectual. Está na recusa em reconhecer a própria ferida.
Nada impediria que alguém irado fosse capaz de julgar uma ação apesar de sua ira, desde que possuísse a competência intelectual para fazê-lo. Então sou obrigado a contrariar a posição do Chat GPT. O erro é de natureza intelectual, até quando a ira atrapalha o juízo, porque este é um erro pela “recusa em reconhecer a própria ferida”, ou seja, um ato do intelecto. Mal posso elogiar a IA num parágrafo, já fico broxado no próximo. E não me espanta, porque a máquina não está entendendo nada, só está juntando letras e palavras e formando sentenças que não significam lhufas, porque significado é um conteúdo de consciência. E, novamente, não acho que os sentimentos, e nem mesmo os preconceitos, sejam o maior problema dos homens que julgam outros homens. É a ignorância mesmo, até porque sentimentos e disposições podem mudar à luz de conhecimentos suficientes. O problema de base do juízo humano é sempre a ignorância.
A justiça, no filme, não surge como certeza positiva. Surge como renúncia. Renúncia à pressa. Renúncia ao preconceito. Renúncia à ilusão de infalibilidade. O veredicto final de inocência não afirma que o réu não cometeu o crime. Afirma que a culpa não pôde ser afirmada sem dúvida razoável. Essa distinção é essencial. O filme defende um princípio espiritual profundo. A vida humana não pode ser sacrificada ao conforto psicológico da maioria. A morte exige uma verdade que o homem raramente possui.
Na verdade, a morte dos Filhos de Adão já foi decretada por Deus no Capítulo 3 do Gênesis. Então a execução dos prisioneiros dos homens é no máximo uma antecipação de sentença. E, pior ainda, nem sequer podemos dizer que esse ato seja um prejuízo ao sentenciado, porque como Sócrates observou, não se sabe se não seria uma coisa boa partir deste mundo. Jesus Cristo mesmo falou a respeito disto com seus discípulos, quando começou a choradeira ao ser revelado o seu destino na Paixão. Se me amassem, vocês ficariam felizes por eu partir para onde vou. A coisa mais óbvia. A questão do nível humano é que quem mata um homem não pode lhe restituir esta vida, e nem o ressuscitar para a próxima. Mas para Deus nada disso é um problema, ao contrário, fazer morrer e fazer viver são ações muito próprias da divindade.
Ao final, os jurados deixam o tribunal. Não há celebração. Não há redenção plena. Há apenas a restauração de um mínimo ético. O nome dos jurados permanece desconhecido. A individualidade se dissolve. O que permanece é o gesto. Um gesto de resistência moral. Um gesto que afirma que a justiça começa quando o homem aceita o peso da própria responsabilidade. Nesse sentido, Doze Homens e uma Sentença não é apenas um drama jurídico. É uma parábola moderna sobre o juízo, sobre o pecado da indiferença, sobre a exigência espiritual da dúvida diante da vida do outro.
Uma conclusão bastante recatada, modesta, quase tímida. Meu prompt “assustou” a máquina? Não tenho mais muito a relatar. Conhecendo Hollywood, não duvido que a intenção do filme tenha sido de causar a impressão de que a justiça humana é uma coisa muito digna e boa. O ideal pode ser sempre assim, mas a realidade é diferente. E outros filmes contam dessa variedade, inclusive o já mencionado filme que analisamos aqui recentemente, Um sonho de liberdade. Não faltarão oportunidades para rever o tema, inclusive com o ensejo de um filme que sairá nos cinemas sobre o Julgamento de Nuremberg (sim, mais um!). O filme Doze homens e uma sentença parece ser uma mistura de educação cívica com propaganda política. Pelo que vi não há nada de grave aqui, mas talvez se assistir o filme um dia poderei complementar essa avaliação.
SINOPSE: Um Sonho de Liberdade acompanha a trajetória de Andy Dufresne, um jovem e bem-sucedido banqueiro condenado injustamente à prisão perpétua pelo assassinato de sua esposa e do amante dela, sendo enviado ao presídio de Shawshank, onde passa a conviver com a brutalidade dos guardas, a corrupção da administração e a rotina opressiva do cárcere. Ao longo dos anos, Andy constrói uma amizade profunda com Ellis “Red” Redding, um prisioneiro experiente e respeitado, e gradualmente conquista espaço na prisão ao usar seus conhecimentos financeiros para ajudar funcionários e detentos, contribuindo para a criação de uma biblioteca e melhorando as condições intelectuais do presídio. Enquanto muitos presos se tornam institucionalizados, Andy preserva silenciosamente a esperança e um plano secreto de fuga, escavando um túnel em sua cela durante décadas. Quando finalmente executa seu plano, ele escapa de Shawshank, expõe os crimes do diretor corrupto Norton e inicia uma nova vida no México, deixando para Red uma mensagem que o encoraja a acreditar novamente na liberdade e a segui-lo, encerrando o filme com a promessa de reencontro e redenção.
A liberdade que Andy busca contra a injustiça da sua prisão e do seu tratamento, etc., simboliza a liberdade contra a condição humana como um todo. Mas essa operação simbólica resulta na virtude da Esperança, como dom sobrenatural? Não podemos saber apenas por esta sinopse. Vamos supor que tudo desse errado, que Andy não escapasse, que não pudesse expor a corrupção do vilão, e nem ajudar seu companheiro Red de nenhuma maneira. Estaria tudo perdido? Se sim, então não adianta nada lutar por vitórias pífias na dimensão deste tempo e deste mundo. E, aliás, nenhuma justiça pode ser plena nesse nível, porque enquanto um triunfa outros mil falham. A verdadeira Justiça é imortal e nos leva à transcendência deste plano de existência. Por isso é preciso enquadrar a estória de Andy num contexto maior. Quem não quiser fazer isso não é capaz de compreender o sentido espiritual de uma narrativa. O que significa essa esperança de ser livre? Como se consuma essa liberdade? Temos que entender se essas perguntas são respondidas pelo filme, e de que modo. A Esperança imortal e indestrutível é aquela que alegra e ilumina a alma até do mais esquecido e perdido dos seres humanos, que não tem tempo para mais nenhuma redenção nesta vida, pois este ainda tem toda a Eternidade.
ANÁLISE: O filme Um Sonho de Liberdade, dirigido por Frank Darabont, pode ser lido como uma meditação filosófica sobre a liberdade enquanto categoria existencial, moral e espiritual, articulada não como simples ausência de coerção, mas como forma interior de soberania que resiste mesmo sob as condições mais extremas de opressão. A narrativa acompanha Andy Dufresne, condenado injustamente à prisão perpétua, mas o eixo profundo do filme não é a denúncia do erro jurídico, e sim a investigação daquilo que pode ou não ser aprisionado quando o homem é reduzido a um número, a uma rotina e a uma função dentro de um sistema fechado. A prisão de Shawshank não aparece apenas como um espaço físico, mas como uma totalidade simbólica: ela encarna a racionalidade institucional que transforma indivíduos em peças previsíveis, normaliza a violência e produz sujeitos que, ao longo do tempo, passam a desejar apenas a reprodução da própria estrutura que os oprime.
Estou ficando irritado com esses “não”, “mas”, “e sim” do Chat GPT. A otimização do programa nos aborrece e entedia. Vamos tentar comentar mesmo assim. Sobre o que a prisão de Shawshank representa, é um mundo humano em miniatura. Por que é necessário encarcerar seres humanos? E, pior, por que é preciso correr o risco de praticar algumas injustiças no meio do caminho? Porque se a sociedade humana for regida pela complacência, ela tende a se autodestruir rapidamente. A lei não é feita para os bons, mas para os maus, porém os bons são submetidos ao seu rigor do mesmo modo, e alguns até injustamente. Depois que o processo apodreceu por bastante tempo, não é impossível que se faça uma revitalização humanizante. Isso é viável em qualquer instituição humana que tenha sido mantida por mais de uma geração. Mas não se pode curar uma fratura exposta com um band-aid. Quer dizer, a origem de todos os males é o Pecado Original. O que levou Andy e Red a se verem presos em Shawshank? Foi a perversão e tirania do sistema judiciário, ou do sistema penal? Não. Foi o Pecado Original. É assim que estouramos com o imanentismo idólatra, por mais sutil que este seja. Qual é o problema aqui? O cara foi preso injustamente e é mal tratado com seus demais colegas prisioneiros. Qual é a solução? A fuga da prisão, a denúncia do tirano, e a oferta de ajuda ao amigo. Quero enxergar mais longe, tanto para trás quanto para frente. Por um lado, o problema vem de muito antes, e por outro lado a solução vai para muito mais além. O problema é que Andy nasceu num mundo governado por Satanás, vendido como escravo por inúmeros ancestrais que pactuaram com o demônio, por omissão ou comissão. O diretor Norton é fichinha. E qual é a solução? É a Cruz, a morte e a Ressurreição: seguir Jesus Cristo. Com essas categorias se vive na Presença de Deus de fato, encarando os problemas até a sua essência, e resolvendo as coisas de modo verdadeiro e pleno.
Nesse sentido, Darabont constrói Shawshank como uma figura quase metafísica daquilo que se poderia chamar de mundo administrado, no qual a repetição mecânica substitui a decisão, e a sobrevivência se confunde com adaptação. A noção de “institucionalização”, explicitada no destino trágico de Brooks, não é um detalhe narrativo, mas uma tese antropológica: quando o homem abdica da experiência viva da liberdade, ele internaliza as grades, de modo que a abertura do mundo exterior já não lhe oferece sentido. A liberdade, nesse registro, não é algo que se recupera automaticamente ao sair da prisão; ela exige uma disposição interior que pode ser corroída pelo hábito, pela resignação e pelo medo. O filme sugere, assim, que a pior forma de cativeiro não é a imposição externa, mas a colonização da vontade, quando o sujeito deixa de se conceber como agente e passa a se entender apenas como efeito das circunstâncias.
Já estou decidido a exigir que o Chat GPT evite ao máximo as conjunções adversativas, de preferência que faça frases com orações únicas, sem vírgulas, chapadas. Aos poucos vamos montando o nosso prompt. Qualquer coisa para sair desse estilo estúpido. Sobre a repetição mecânica, adaptação, hábito, e o conflito destes mecanismos de sobrevivência com a idéia de liberdade, é preciso aplicar o mesmo entendimento que já vimos antes. Esses mecanismos existem para se lidar com uma situação desafiadora. Se tornam o sujeito menos apto a buscar a sua melhor condição presente, da tal liberdade, isso é um efeito temporário aceitável. Muito pior é a obstinação e teimosia, o ter a “cerviz dura”, que faz o desejo por uma liberdade imanente custar a paz interior. Há aqui a sugestão de algum espírito de Sedução, ou Pacto com a Morte: se você não aproveitar a sua liberdade ao máximo por efeito dos hábitos adquiridos pela sua existência sob a atual condição humana, pagará por isso de forma definitiva e irreparável. Essa linha de pensamento é a rejeição tanto da Cruz quanto da Ressurreição. E tende a fazer o homem se desesperar, porque mesmo que raramente se consiga obter um estado tal de liberdade que se possa considerar bom o suficiente, quanto tempo dura essa vitória? Esse tipo de conquista está dialeticamente presa aos ciclos terrenos atuais. Talvez abdicar da “experiência viva da liberdade” seja somente ter uma vida interior pacificada de modo independente da realidade externa? E se isso for vivido através da Fé, o que haveria de melhor? O diabo é um mestre da tortura: ele não só cria uma condição difícil e às vezes quase insuportável de ser vivida, mas quer impedir que o sujeito possa recuar para a vida interior e encontrar alguma paz verdadeira ali. Não, não pode! Tem que sair dessa, lutar, conquistar algo, etc., enfim, tem que voltar ao seu jogo dialético, não pode se abster de participar nos negócios do mundo. Essa coisa está indo mal…
Andy Dufresne se opõe a essa lógica não por meio de rebeliões explícitas, mas por uma resistência silenciosa, quase ascética, fundada na preservação do sentido. Sua postura é marcada por uma recusa radical em permitir que a identidade seja absorvida pela função de prisioneiro. Ele cultiva gestos aparentemente mínimos — a música, os livros, a contabilidade, o cuidado paciente com o tempo — que funcionam como atos de afirmação ontológica. A célebre cena em que Andy transmite Mozart pelos alto-falantes da prisão não é um gesto estético gratuito, mas um acontecimento simbólico: por alguns instantes, a totalidade do sistema é suspensa pela irrupção de algo que não pode ser reduzido à lógica disciplinar. A música introduz no espaço fechado uma experiência de transcendência, lembrando aos presos que existe uma dimensão do humano que não se deixa medir, controlar ou punir.
Todos precisamos fazer isso de vez em quando, porque para a maioria de nós a vida costuma se repetir em ciclos bem pequenos de experiências. Sabemos bem que isso até justifica, no coração de tantos, a ambição pelas grandes fortunas ou pelo prestígio e fama. O que esses símbolos representam é a liberdade contra uma rotina opressora. Está bem querer isso, mas temos que ver qual é o custo a se pagar. Enquanto for um ato de resistência e de insistência, até certo ponto isto é ótimo. Porém, novamente, a liberdade verdadeira está na vida com Deus no Paraíso. Essa possa interior de uma Esperança com Deus nos torna mais resilientes por um caminho espiritual menos dependente do ambiente externo.
A relação entre Andy e Red explicita a dimensão ética do filme. Red encarna o homem que aprendeu a negociar com a prisão, que desenvolveu estratégias de sobrevivência e se tornou funcional ao sistema, ainda que sem ilusões quanto à sua injustiça. Seu ceticismo em relação à esperança não é simples pessimismo, mas uma defesa contra a dor da frustração. No entanto, o arco narrativo de Red revela a tese central do filme: a esperança não é uma fantasia ingênua, mas uma forma de coragem metafísica. Esperar, aqui, não significa negar a realidade, mas afirmar que a realidade não esgota o possível. Ao insistir na esperança, Andy não promete sucesso, mas preserva a abertura do futuro contra o fechamento do presente. O filme sugere que a esperança é uma virtude paradoxal, pois ela se torna mais necessária justamente quando todas as evidências empíricas parecem negá-la.
Que a realidade não esgota o possível é uma verdade que pertence sobretudo ao sujeito que crê no divino Absoluto. E a exploração dessa verdade se dá pelo dom da imaginação, e não da elaboração de planos para um dia tal do calendário. Quem está mais perto do divino? O cético com a vida no mundo, Red, ou o esperançoso Andy? Na verdade não sabemos, porque as pessoas são diferentes, e possuem dons diversos para realizar operações diversas diante de Deus. Um prisioneiro que escapa pode estar tão cheio do Espírito Santo quanto um outro preso que se resigna a viver até o último dia da sua sentença. O fator decisivo não está fora de nós, está dentro. Se o filme faz ver que Andy traz um potencial bom para Red, o inverso também não poderia ser verdadeiro, se os planos do primeiro fossem todos frustrados? O ceticismo com o mundo e com as coisas do mundo não revela um traço do dom de Vigilância? Que verdade é essa que depende de resultados históricos? Sucesso não é nem escapar ileso da prisão, e nem resistir resoluto e cético dentro dela. Sucesso é viver na Presença de Deus, e aí tanto faz, escapar ou ficar onde se está, porque Deus está em toda parte, e a morte iguala todos os homens no fim. Toda doutrina a respeito da vida que não contempla o seu fim inevitável pela morte diante de Deus e o chamado à Ressurreição, é uma doutrina imanentista, fechada e cega. Isso não é verdadeira liberdade, nem verdadeira felicidade. Livre é quem confia em Deus e em seu Amor. Por certos aspectos, se Andy se revolta e se indigna contra o status quo na prisão, isso pode ser excelente tanto quanto pode ser prejudicial se acostumar a fazer negócios com o mundo, se o caminho de Red levar a esse ponto de adaptação. Então não interessa partir ou ficar, interessa que aquele que parte esteja com Deus, e que aquele que fica que fique com Deus. A narrativa parece valorizar o que tem menos importância.
A fuga de Andy, preparada ao longo de décadas, não funciona apenas como clímax narrativo, mas como revelação retrospectiva do sentido de toda a sua conduta. Ela mostra que a paciência, longe de ser passividade, pode ser uma forma de ação profundamente racional, orientada por uma finalidade que resiste ao imediatismo. O túnel escavado lentamente simboliza o trabalho invisível da liberdade, que não se constrói por explosões momentâneas, mas por uma fidelidade silenciosa a um projeto interior. A travessia final pelo esgoto adquire, nesse contexto, um caráter quase ritual: trata-se de uma descida àquilo que há de mais degradado e informe, seguida por uma espécie de renascimento sob a chuva, imagem que remete à purificação e à reconquista da própria identidade.
Isso é muito bonito, mas não quer dizer que Andy estaria perdido caso fosse imediatamente recapturado, ou caso nem sequer conseguisse escapar de Shawshank. Poderia estar perdido? Poderia perder? Somente a guerra desta vida, para obter essa liberdade tão efêmera. Entendam-me bem: diante do inferno da prisão é claro que a liberdade imediata é uma coisa excelente. Mas, novamente, se enquadrarmos a situação numa perspectiva maior, isso tudo muda de figura. No plano que interessa, espiritual, diante de Deus e da Eternidade, nada de bom pode ser realmente perdido, porque o chamado à imortalidade é um acesso ao Bem imperecível, imperdível. Já falei isso várias vezes: Deus é o nosso maior bem, entre tantas razões, no mínimo porque Ele é imperdível. Os guardas podem me impedir de escapar da prisão, ou se eu fugir, podem me recapturar mil vezes, mas eles não podem tirar Deus de mim, nem as promessas divinas. Esse é o tesouro inviolável do coração humano. É nesse tipo de riqueza que deveríamos apostar. Sobre se ter paciência e perseverança, isso já é a realidade da vida humana carregando a Cruz desce o nosso nascimento. Nenhuma arte é mais perfeita para a Esperança do que a vida cristã. No que Andy Dufresne se tornou competente, o cristão médio é chamado à maestria todos os dias. Enquanto o mundo gira e roda atrás de vitórias e sucessos, como as virgens loucas, os “loucos de Deus” esperam pacientemente, não por uma outra fase ou época, mas por toda uma outra vida. Isso sim é Esperança, isso sim é um sonho de Liberdade.
Ao final, Um Sonho de Liberdade propõe uma distinção decisiva entre sobreviver e viver. Sobreviver é adaptar-se às condições dadas, mesmo quando elas são injustas; viver é manter-se fiel a um princípio que transcende essas condições. O filme não romantiza o sofrimento nem sugere que a prisão seja redentora em si mesma, mas afirma que a dignidade humana se manifesta na capacidade de não permitir que o mal tenha a última palavra sobre o sentido da própria existência. Nesse registro, a liberdade não aparece como um direito garantido externamente, mas como uma tarefa interior, constantemente ameaçada, que exige memória, esperança e responsabilidade. O filme oferece, assim, não apenas uma narrativa de superação, mas uma reflexão profunda sobre o que significa permanecer humano em um mundo que continuamente tenta nos convencer de que somos apenas aquilo que nos acontece.
Em tese essa é uma boa mensagem, mas não significa nada sem a promessa da Eternidade. O elogio da vida acima da sobrevivência é ótimo. Mas o que é viver? Pode ser esperar por mais viver? Ou tem que ser uma consumação? Onde está o objeto do sonho de liberdade? Neste mundo, ou em outro? As coisas deste mundo podem e devem ser aproveitadas, e não só isso, as oportunidades devem ser usadas para fazermos o melhor da nossa vida. Mas de que modo, com qual propósito? Aqui é que mora a diferença abissal entre a crença numa vida mortal, e a crença na Ressurreição. Estar limitado à vida presente, de certo modo, é estar como que numa Shawshank existencial, definitiva e da qual é impossível se escapar. Por mais que se viva bem, tudo é um jogo comparativo. Melhor fora da prisão do que dentro, mas lá fora também tem quem passa fome, frio, etc., como sabemos muito bem. Aliás, porque foi em primeiro lugar que se construiu a Prisão de Shawshank? Foi porque o mundo era um paraíso? Longe disso, como sabemos bem. Então é preciso abandonar tanto a Ingenuidade quanto a Sedução e desejar a verdadeira liberdade que só Deus pode nos oferecer. Infelizmente parece que o filme quer nos entusiasmar pelo nosso potencial aqui e agora às custas de qualquer bem que transcenda este plano de existência, caso contrário o triunfo de Andy não seria tão evidenciado por suas ações no mundo exterior. Um convertido que confia em Jesus e permanece preso em Shawshank poderia estar muito mais livre por dentro do que Andy. O escape da prisão pode simbolizar uma outra operação interior que tem valor muito superior, mas isso teria que ser reconhecido às custas do triunfo temporal de Andy. E parece que esta não foi a escolha do filme. A liberdade contra a injustiça e a tirania nunca é má em teoria, mas não pode valer a qualquer preço. Por exemplo, no âmbito político a dialética captura as melhores intenções para converter os ideais em seus contrários. O libertador de hoje se torna o tirano de amanhã. A maior liberdade é a que nos livra do pecado, e esta liberdade por definição não pode ser deste mundo. Nada impede o progresso na presente linha temporal, no sentido de melhores Percepções, mas nada o garante, e sobretudo nada o obriga como condição para a Coruscância.
PS: resolvi testar a qualidade da sinopse e análise do Chat GPT, e concluo que ele ainda é muito fraco. Assisti o filme e capturei elementos básicos que deveriam ser trazidos à tona, como a frase do diretor Norton, “a salvação vem de dentro”. Andy deixa um recado com a mesma sentença mais tarde, revelando que escondia a sua pequena picareta (que serviu para a sua fuga) dentro da Bíblia. Não me incomodo nem um pouco com o descrédito da Religião, mas não podemos jogar Jesus fora junto com a igreja dos homens. A salvação vem de dentro? Sim, foi o ponto principal de minha análise. Mas Norton era um mentiroso, ganancioso, corrupto e assassino. Quando ele diz essas coisas, ele é falso, e quando Andy o expõe, ele acerta. Mas o que isso tem a ver com a mensagem? Indiretamente, já vimos na minha análise, que neste ponto continua viável. Depois outra citação relevante vem quando Andy diz a Red: “Acho que a solução é simples. Esforce-se para viver, ou esforce-se para morrer”. Grande testemunho da Sedução, e logicamente quebrado: a morte é inevitável, o esforço humano está ligado ao sentido da vida sempre, ou o desespero na sua falta, como ocorreu com o velho Brooks. E então há a citação final, na mensagem que Red encontra depois de sair da prisão: “A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor coisa. E nenhuma coisa boa morre jamais”. Eis uma frase muito melhor. A Esperança só não é a melhor coisa porque o Amor é melhor ainda, isto é, o desejo do Bem que dá o próprio objeto do esperar. Mas confiar que o Bem atua e governa todas as coisas desde já, que é a Fé, essa é a outra irmã da Esperança, e é a menos honrada das virtudes teologais neste filme. De fato a Esperança não morre jamais, mas não como um impulso vital ligado à existência atual. Isto, infelizmente, por mais estimulante que seja até certo ponto, só leva à decepção e demais armadilhas da Sedução. Nunca sofri tanto quanto por decorrência de querer viver intensamente, seja no durante, ou seja no depois. Mas colher frutos da Graça como primícias da Eternidade, isso já é outra história… a lição que fica é que a análise feita não é de todo ruim, mas além da mudança do prompt para incluir fases simples, sem vírgulas e sem conjunções, vejo que vale a pena testar o pedido específico por todas as menções à questão espiritual, da salvação ou de Deus, e também citações relevantes dos personagens principais. Com isto seria possível alcançar o que faltou sem precisar assistir o filme, por exemplo.